Introdução
O movimento por comprovações científicas na área da Psicologia não é recente. O marco da Psicologia como ciência se deu em 1879, quando Wundt criou Laboratório de Psicologia Experimental da Universidade de Leipzig e delineando seu campo de estudo e metódos. A partir disso, ao longo dos secúlos outras escolas surgiram como: Psicanálise, Behavorismo, Humanismo e Terapia Cognitivo Comportamental (Bock, 2004). Na década de 1950, o psicólogo alemão Hans Eysenck, publicou o artigo “The Effects of Psychotherapy: An Evaluation” (Os efeitos da psicoterapia: uma avaliação), defendendo que, as intervenções terapêuticas analisadas na época não eram mais eficazes, do que a mera passagem do tempo para o tratamento dos pacientes (Eysenck, 1952). A publicação de Eysenck recebeu várias críticas e fomentou o desenvolvimento de pesquisas mais rigorosas para fornecer evidências sobre a eficácia da psicoterapia. Posteriormente entendeu-se que a psicoterapia era eficaz e essa eficácia foi atribuida aos fatores comuns das diversas abordagens (empatia, vínculo terapêutico e etc). Outras pesquisas atribuiram a eficácia aos fatores específicos de cada abordagem (reforço, dessensibilização sistemática, etc). (Leonardi & Meyer, 2015). Considerando as discussões na década de 1990, a American Psychological Association (APA) estabeleceu a Divisão 12, dedicada a identificar tratamentos empiricamente validados (TEV), impulsionando a Prática Baseada em Evidências (PBE) na Psicologia. Em 2006, a APA definiu a Prática de Psicologia Baseada em Evidência (PPBE) como a integração da melhor evidência de pesquisa, expertise profissional e preferências do paciente para a tomada de decisão terapêutica, alinhada à definição do Institute of Medicine. (Leonardi & Meyer, 2015; Monteleone & Witter, 2017; APA, 2006). Para Melnik e Atallah (2011), a principal função da PPBE é fornecer aos profissionais da área de Psicologia informações científicas confiáveis para que possam ajudá-los a tomar decisões mais seguras na prática clínica. Ao utilizar essa abordagem, os profissionais podem garantir que suas intervenções sejam baseadas em fundamentos sólidos e validados pela ciência, aumentando assim as chances de sucesso terapêutico para seus pacientes. No Brasil, para disseminar conhecimentos relacionados à PPBE entre estudantes e profissionais da psicologia, instituições acadêmicas e organizações têm cada vez mais promovido eventos e cursos com a temática. Nesses últimos anos, o interesse pela PPBE, tem aumentado entre os profissionais de saúde mental no país, entretanto, publicações sobre o assunto em língua portuguesa são incipientes (Melnik, Souza & Carvalho, 2014). A relevância a temática relacionada à PPBE também é apresentada na recente publicação das Diretrizes Nacionais Curriculares do Curso (DCNs) de Psicologia. Nessa, a formação do Psicólogo como um profissional crítico, está relacionada à capacidade de discriminar entre conhecimento científico e outras formas de conhecimento. Destarte, o curso deve incentivar o desenvolvimento de habilidades para formular perguntas, resolver problemas e aplicar conhecimentos científicos em sua atuação profissional (Brasil, 2023). Direcionando a análise ao documento que orienta a atuação profissional do psicólogo, o Código de Ética do Profissional, prevê o uso de técnicas fundamentadas na ciência para prestação de serviços aos pacientes (CFP, 2005). Consequentemente, os profissionais da Psicologia necessitam compreender o que é ciência, como podem acessar e interpretar as pesquisas científicas e, aliado a isso, entender de que forma estas informações podem subsidiar a prática clínica (Melnik & Atallah, 2011; Melnik, Souza & Carvalho, 2014). Diante do exposto, o presente estudo buscou identificar a existência da disciplina de PBE nos currículos de graduação em Psicologia no Brasil a fim de compreender o cenário atual.
Método
Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, de abordagem quantitativa, em que se realizou uma análise documental das matrizes curriculares dos cursos de graduação em Psicologia do Brasil, com ênfase na disciplina da PBE. A pesquisa documental é uma técnica de pesquisa que se baseia em fontes primárias não tratadas cientificamente, foram examinados documentos atuais e antigos para compreender aspectos históricos, culturais e sociais relacionados à disciplina. A abordagem quantitativa envolveu a mensuração numérica dos dados coletados para obter conclusões objetivas e generalizáveis (Gil, 2022; Creswell, 2007). As matrizes curriculares são documentos orientadores dos cursos, regulamentados pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB - Lei nº 9.394/96) e delineiam as disciplinas, abordagens pedagógicas e compromissos de conformidade com as Diretrizes Nacionais Curriculares (DNC) do Ministério da Educação. Neste estudo transversal, realizado em abril de 2025, os dados foram obtidos por meio de uma busca ativa, inicialmente identificando cursos de Psicologia registrados no Ministério da Educação (MEC) e, em seguida os dados foram extraídos a partir dos seguintes filtros: nome do curso (Psicologia); título (Bacharel); e situação (em atividade). Foram excluídos cursos de licenciatura, sequencial e aqueles em situação de extinção ou com nomes distintos. Após o levantamento inicial e a exclusão daqueles que não se enquadravam nos critérios de inclusão da pesquisa, foi realizada uma análise da matriz curricular de cada curso nos respectivos sites oficiais das instituições de ensino. Vale ressaltar, que algumas instituições oferecem o curso em municípios e estados diferentes, mas mantém a mesma matriz curricular, nesses casos foram considerados um currículo para cada curso registrado. Nesta etapa foi verificado se havia a presença da disciplina PBE ou nomenclaturas semelhantes, considerando os termos: Psicologia, científico, evidência, baseado em evidência. Os dados foram analisados por meio de técnicas percentilicas a partir da Microsoft Excel, e foram organizados por estado e, posteriormente por regiões do país: norte, nordeste, centro- -oeste, sudeste e sul.
Resultados (novos dados e retirada a discussão)
A partir dos critérios estabelecidos para o estudo, foram encontrados 1.795 cursos registrados no MEC. Após a exclusão dos cursos identificados como licenciatura, sequencial, extinto ou em extinção, restaram 1.323 cursos. Posteriormente, 1030 cursos de graduação em Psicologia tiveram seus currículos analisados dada a disponibilidade das informações do curso, sobretudo matriz curricular, no site oficial da instituição de ensino. A disciplina PBE foi identificada em 16 (dezesseis) matriz curricular, conforme apresentado na Figura 1. Os dados foram estratificados por regiões brasileiras, de acordo com o Quadro 1.
Quadro 1 Dados da Disciplina PPBE por região do país.
| Região | Cursos registrados/ Currículos analisados | Currículos com PBE (No e %) | Nome da Instituição | Nome da disciplina | Período/ Carga Horária |
Caráter | Disponibilidade da Ementa no site |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Norte | 122/80 | 1/ 1.25% | Faculdade Vale dos Carajás - FVC |
Projeto Integrador V - Psicologia Baseada em Evidências | 5o/40 horas | Obrigatório | Não |
| Nordeste | 401/313 | 4/1.65% | Faculdade Paulo Picanço | Evidências Cientificas | 4o /Não disponível | Obrigatório | Não |
| Faculdade Conceito Educacional - FACCON | Psicologia Baseada em Evidências | A partir 8° 40 horas | Optativa Ênfase A | Não | |||
| Faculdade Integrada CETE |
Psicologia Baseada em Evidencias | A partir 8° / 40 horas | Optativa Ênfase A | Não | |||
| Faculdade Adventista da Bahia | Pesquisa Baseada em Evidência | 3o / 40 horas | Obrigatório | Nào | |||
| Centro- Oeste | 187/ 143 | 2/ 1.90% | Faculdade Sensu - FAS | Práticas Baseadas em Evidencias | 7° /Não disponível | Obrigatório | Não |
| Faculdades Planalto Central | Promoção e Psicologia da Saúde Baseada em Evidência | 6o / 40 horas | Obrigatório | Nào | |||
| Sudeste | 765/ 526 | 5/1.23% | Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino -FAE |
Psicologia Baseada em Evidencias | 3°/ 40 horas | Não informado | Não |
| Faculdade Cidade de João Pinheiro | Promoção e Psicologia da Saúde Baseada em Evidência | 6o /40 horas | Obrigatório | Nào | |||
| Faculdade Cidade de Patos de Minas | Promoção e Psicologia da Saúde Baseada em Evidência | 6o /40 horas | Obrigatório | Nào | |||
| Faculdade Cidade de Coromandel | Promoção e Psicologia da Saúde Baseada cm Evidencia | 6o /40 horas | Obrigatório | Não | |||
| Faculdade de Ciências da Saúde de Unai - FACISA | PI IV - Plática Baseada em Evidências I | 4o /60 horas | Obrigatório | Nào | |||
| PI VII - Teorias e Técnicas Psicoterapias II - Platica Baseada em Evidências II |
7o/ 60 horas | Obrigatório | Nào | ||||
| Sul | 339/199 | 4 2.01% | Centro Universitário UniOpet | Introdução ã Prática da Psicologia Baseada em Evidências (PPBE - MIX) | 4°/ 40 horas | Obrigatória | Nào |
| Faculdade Meridional - IMED | Saúde Baseada em Evidências | 8° 80 horas | Obrigatona | Nào | |||
| Faculdade Meridional de Porto Alegre | Saúde Baseada em Evidências | 8o /80 horas | Obrigatória | Nào | |||
| Universidade Federal de Santa Catarina | Avaliação de Intervenções em Psicologia Práticas Baseadas em Evidências |
Não disponivcl/72 horas | Optativa | Nào |
Fonte: autoras (2025)
Região Norte
Na região Norte, dos 122 cursos registrados no MEC, 103 estavam em atividade como bacharelado em Psicologia no momento da coleta de dados. Desses, foi possível acessar e analisar 80 matrizes curriculares - as demais não estavam disponíveis nos sites das instituições. A presença da disciplina de PBE foi constatada em apenas 1 (uma) das matrizes, o que corresponde a 1,25% do total analisado. A instituição identificada foi a Faculdade Vale dos Carajás (FVC), localizada no município de Parauapebas, no Pará. Nessa faculdade, o conteúdo aparece no 5º período, na disciplina obrigatória intitulada "Projeto Integrador V: Psicologia Baseada em Evidências", com 40 horas de carga horária, O ementa da disciplina e o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) não estavam disponíveis.
Região Nordeste
Na região Nordeste, foram identificados 401 cursos de Psicologia registrados no MEC, dos quais 313 estavam em atividade na modalidade bacharelado no momento da coleta de dados. Dentre esses, foi possível analisar 242 matrizes curriculares disponíveis nos sites das instituições. Em quatro delas, foi identificada a presença da disciplina relacionada à Psicologia Baseada em Evidências (PBE), o que representa 1,65% do total analisado. A primeira instituição foi a Faculdade Paulo Picanço, localizada em Fortaleza, no Ceará. Nela, a disciplina "Evidências Científicas" é oferecida no 4º período, em formato on-line e de caráter obrigatório. No entanto, não estavam disponíveis informações sobre a carga horária nem a ementa por meio do site da instituição. A segunda ocorrência foi registrada na Faculdade Adventista da Bahia, situada em Cachoeira, na Bahia. A disciplina identificada, "Pesquisa Baseada em Evidência", é ofertada no 3º período, possui carga horária de 40 horas e também é obrigatória. O Projeto Pedagógico do Curso (PPC, p. 20) descreve o que será abordado na disciplina da seguinte forma: “Métodos epidemiológicos e bioestatísticos como instrumentos capazes de oferecer bases para investigação, análise e interpretação das pesquisas, favorecendo a tomada de decisões numa perspectiva de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão”. Além dessas duas instituições que apresentam a disciplina como obrigatória, outras duas oferecem o conteúdo em formato optativo. A primeira é a Faculdade Conceito Educacional - FACCON, localizada em Arcoverde, Pernambuco, onde a disciplina "Psicologia Baseada em Evidências" aparece como optativa da ênfase A, com carga horária de 40 horas. A segunda é a Faculdade Integrada CETE, situada em Garanhuns, também em Pernambuco, que igualmente disponibiliza a disciplina como optativa da ênfase A, com carga horária de 40 horas. Em ambas as instituições o PPC não estava disponível.
Região Centro-Oeste
Na Região Centro-Oeste, foram identificados 187 cursos de Psicologia registrados no MEC, dos quais 143 estavam em atividade na modalidade bacharelado no momento da coleta. Dentre esses, foi possível analisar 105 matrizes curriculares disponíveis nos sites das instituições. Em duas delas foi encontrada a presença de disciplina relacionada à Psicologia Baseada em Evidências (PBE), o que corresponde a 1,90% do total analisado. A primeira instituição identificada foi a Faculdade Sensu - FAS, localizada em Goiânia, Goiás. Nela, a disciplina aparece com o nome "Práticas Baseadas em Evidências", sendo ofertada no 7º período do curso, com caráter obrigatório. Assim como em outras regiões, a carga horária e a ementa da disciplina não estavam disponíveis no site institucional. A segunda ocorrência foi verificada na Faculdade Planalto Central, situada em Brasília, no Distrito Federal. A disciplina oferecida tem o nome "Promoção e Psicologia da Saúde Baseada em Evidência", sendo ministrada no 6º período, com carga horária de 40 horas e também de caráter obrigatório. No entanto, o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) não estava disponível para consulta pública.
Região Sudeste
A Região Sudeste concentra o maior número de cursos de Psicologia do país, com 765 registrados no MEC. Desses, 526 estavam em atividade como bacharelado no momento da pesquisa, e 406 currículos puderam ser analisados. Entre eles, 5 (cinco) apresentaram a disciplina relacionada à Psicologia Baseada em Evidências (PBE), o que representa 1,23% das matrizes curriculares disponíveis. Uma das instituições identificadas foi o Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino - FAE, localizado em São João da Boa Vista, em São Paulo, onde a disciplina “Psicologia Baseada em Evidências” é ofertada no 3º semestre. No entanto, informações como carga horária e ementa não estavam disponíveis no site da instituição. Outras três faculdades localizadas em Minas Gerais - Faculdade Cidade de João Pinheiro (João Pinheiro), Faculdade Cidade de Patos de Minas (Patos de Minas) e Faculdade Cidade de Coromandel (Coromandel) - apresentaram a disciplina "Promoção e Psicologia da Saúde Baseada em Evidência", todas posicionadas no 6º período, com carga horária de 40 horas e caráter obrigatório. A ementa, disponível em uma das instituições, descreve que a disciplina aborda “os princípios teóricos e metodológicos no contexto da prática interventiva da Psicologia na promoção da saúde baseada em evidência no que tange aos cuidados ofertados nos diferentes cenários da saúde”. Além dessas, a Faculdade de Ciências da Saúde de Unaí - FACISA, também em Minas Gerais, oferece duas disciplinas com foco na prática baseada em evidências, no mesmo curso, porém em semestres diferentes. A primeira, "PI IV - Prática Baseada em Evidências I", é ofertada no 4º período, com carga horária de 60 horas. A segunda, "PI VII - Teorias e Técnicas Psicoterápicas II - Prática Baseada em Evidências II", ocorre no 7º período. Ambas têm caráter obrigatório, mas o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) não estava disponível para consulta.
Região Sul
Entre as regiões do país, a região Sul apresenta, proporcionalmente, o maior número de cursos de Psicologia com a disciplina de Psicologia Baseada em Evidências (PBE) identificada. Nesta região, foram registrados 339 cursos de Psicologia no MEC, dos quais 238 estavam em atividade na modalidade bacharelado no momento da coleta de dados. Entre esses, foi possível analisar 199 matrizes curriculares disponíveis nos sites das instituições. Em 4 (quatro) delas foi identificada a presença de disciplinas relacionadas à Psicologia Baseada em Evidências (PBE), representando 2,01% do total analisado. A primeira instituição identificada foi o Centro Universitário UniOpet, localizado em Curitiba, no Paraná. A disciplina, intitulada "Introdução à Prática da Psicologia Baseada em Evidências", é ofertada no 4º período em formato on-line, com carga horária de 40 horas e caráter obrigatório. A ementa não estava disponível no site da instituição. Outra ocorrência foi encontrada na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), localizada em Florianópolis, Santa Catarina. A disciplina "Avaliação de Intervenções em Psicologia Práticas Baseadas em Evidências" é oferecida como disciplina complementar, com carga horária de 72 horas. A ementa apresenta conteúdos como método científico, eficácia das intervenções profissionais, tipos de evidências, modelos de formação, avaliação de resultados e processos, delineamentos experimentais e implicações éticas. Além dessas, outras duas instituições no Rio Grande do Sul também apresentaram disciplinas obrigatórias com temáticas relacionadas à PBE. A Faculdade Meridional - IMED, localizada em Passo Fundo, e a Faculdade Meridional de Porto Alegre, oferecem a disciplina "Saúde Baseada em Evidências", ambas no 8º período, com carga horária de 80 horas. Os Projetos Pedagógicos dos Cursos, entretanto, não estavam disponíveis para consulta.
Discussões
Com base nos dados atualizados, a disciplina de Psicologia Baseada em Evidências (PBE) está presente em aproximadamente 1,55% das matrizes curriculares analisadas. Isso indica que, a cada 100 currículos avaliados, apenas 1 ou 2 incluem essa disciplina formalmente em sua grade. A partir desta análise, torna-se evidente que a inclusão da Prática Baseada em Evidências (PBE) nos currículos de Psicologia ainda enfrenta desafios, apesar de sua relevância crescente para a formação profissional e científica na área. A ausência de disciplinas específicas sobre PBE em diversos currículos chama atenção, sobretudo considerando que a própria Resolução CNE/CES nº 1/2023 aponta a necessidade de articular a formação do Psicólogo à produção científica e ao uso de procedimentos baseados em investigação. De acordo com o documento a formação deve ser baseada em valores, princípios e compromissos específicos, sendo o primeiro deles a construção e desenvolvimento do conhecimento científico em Psicologia, ponto alinhado com a PPBE. O princípio VIII, da resolução destaca a importância de “zelar pela imagem e reconhecimento da Psicologia como ciência e profissão” (Brasil, 2023, art. 2º, VIII, p. 2). A PPBE, além de fortalecer a base científica da Psicologia, também contribui para a consolidação da imagem da Psicologia como uma disciplina comprometida com a eficácia e excelência na prática profissional. Essa abordagem baseada em dados cientificamente comprovados confere a Psicologia uma base confiável, alinhando-a com práticas de outras disciplinas da área da saúde (Melnik & Atallah, 2011; Melnik, Souza & Carvalho, 2014; Atallah, Trevisani & Valente, 2003). O compromisso com a ética (princípio V) é reforçado pela PBE, que promove a transparência e a responsabilidade na tomada de decisões clínicas. Ao basear as práticas em evidências, os profissionais se comprometem com a qualidade e a integridade, fortalecendo a confiança nas relações profissionais e na divulgação de informações na área da Psicologia. A PBE também está alinhada com o compromisso de investir na educação permanente (princípio VII) permitindo que os profissionais se atualizem com os avanços científicos e tecnológicos (Brasil, 2023, Melnik & Atallah, 2011; Melnik, Souza & Carvalho, 2014; Atallah, Trevisani & Valente, 2003). O artigo 5º prevê que a proposta do curso deve articular conhecimentos, habilidades e competências em torno de eixos estruturantes específicos. Um desses eixos é a capacidade de utilizar “procedimentos para investigação científica e para prática profissional”, ou seja, é preciso ter domínio de instrumentos e estratégias de avaliação e intervenção. Isso abrange a capacidade de avaliar criticamente as abordagens existentes e selecionar aquelas mais adequadas às situações específicas (Brasil, 2023, art.5º, IV, p. 2). O artigo 8º delineia as competências básicas que definem o perfil do profissional de Psicologia e destaca a importância do compromisso com o aprimoramento contínuo da ciência e da profissão por meio de uma base teóricometodológica sólida e que garanta a qualidade da prática profissional (Brasil, 2023, p. 3). As competências científicas destacam a habilidade do profissional em: “discriminar entre conhecimento científico de outras formas de conhecimento”; formular perguntas e resolver problemas utilizando metódos científicos, construção de novos conhecimentos empregando conceitos científicos, e utilização adequada de instrumentos e fontes de informação científica para predizer e avaliar os efeitos das ações. Por outro lado, as competências sociais incentivam o questionamento das próprias interpretações, discussão de diferentes abordagens, compartilhamento coerente e contextualizado de conhecimento, embasamento de pontos de vista com argumentos ou fatos, análise crítica de fontes de informação e modelos científicos, flexibilidade para mudar de perspectiva quando necessário, e análise crítica dos resultados e do impacto social dos conhecimentos científicos produzidos. (Brasil, 2023, p.3). Ainda sobre as competências, o parágrafo 5º do Artigo 8º destaca o agir profissional em consonância com a Declaração Internacional de Competências Fundamentais na Psicologia Profissional de 2016. O inciso II, alínea “a” descreve que o profissional deve “adotar as melhores práticas conhecidas na Psicologia”. (Brasil, 2023, p. 4). Essa orientação está totalmente alinhada com a PBE, que preconiza a tomada de decisões baseadas na melhor evidência disponível. (Melnik & Atallah, 2011; Melnik, Souza & Carvalho, 2014; Atallah, Trevisani & Valente, 2003). Nesse sentido, a PBE se configura como uma ferramenta estratégica, para a qualificação das intervenções terapêuticas e para a valorização da Psicologia enquanto ciência. A inclusão da PBE nos currículos pode promover uma interface com outras disciplinas do curso e melhorar a qualidade das intervenções, tanto individuais quanto coletivas. O uso dessa abordagem pode diminuir o risco do uso inadequado ou ineficiente das intervenções terapêuticas por parte dos profissionais de saúde mental (Melnik, Souza & Carvalho, 2014). Outro ponto relevante é a necessidade de ensinar, de forma estruturada, as cinco etapas fundamentais da PBE. Existe na literatura um consenso sobre os requisitos mínimos de ensino da PBE baseados em um modelo de cinco etapas: “a) transformação da incerteza em uma pergunta clara e respondível; b) busca sistemática das melhores evidências disponíveis; c) análise crítica das evidências em relação à sua validade, relevância clínica e aplicabilidade; d) implementação dos resultados na prática clínica; e) avaliação do desempenho e dos resultados obtidos”. (Dawes et al., 2005, p. 3, tradução nossa). De forma simplificada essas cinco etapas também são citadas em outros artigos como: perguntar, adquirir, avaliar, aplicar e avaliar. Isso significa que ao final do curso os alunos deverão ser capazes de refletir, fazer perguntas, reunir às evidências mais relevantes, avaliar criticamente essas evidências, aplicar e avaliar as mudanças e resultados. (Dawes et al., 2005). Embora algumas ementas contemplem parcialmente essas etapas, muitas não garantem o desenvolvimento completo das competências esperadas, como a capacidade de tomar decisões clínicas com base em hierarquias de evidência científica. Para nortear a tomada de decisão do profissional que aplica a PBE, a qualidade das evidências são classificadas em níveis (hierarquias) e muitas vezes apresentada em forma de pirâmide, sendo a evidência mais robusta no topo da pirâmide e a evidência mais fraca na base da pirâmide. Na literatura existem muitas classificações de níveis de evidência, a que apresenta-se (figura 2) foi inspirada em Melnik e Atallah (2011) e Atallah, Trevisani e Valente (2003).
A recomendação é buscar prioritariamente as evidências de nível I, como as revisões sistemáticas que analisam ensaios clínicos e podem ou não incluir metanálise (Melnik & Atallah, 2011). Na ausência de revisão sistemática recomenda-se recorrer aos grandes ensaios clínicos (mega ensaio) que envolvam mais de mil pacientes, classificados como nível II. Esses ensaios devem ser randomizados e cegos, aumentando a confiabilidade estatística na detecção de efeitos relevantes. Quando não há um grande ensaio clínico, deve-se buscar pelo menos um ensaio clínico randomizado médio ou pequeno com resultados clínicos e estatisticamente significativos (nível III) (Atallah, Trevisani & Valente, 2003). Estudos controlados, como coortes (não randomizados), estão no nível IV de evidência. Nestes estudos, grupos são tratados de maneira A e B, e os resultados terapêuticos são comparados (Melnik & Atallah, 2011; Atallah, Trevisani & Valente, 2003). Estudos caso-controle, no nível V, selecionam casos específicos e comparam características como sexo, idade e gravidade para avaliar a associação entre intervenção e sucesso ou falha (Atallah, Trevisani & Valente, 2003). Séries de casos e relatos de casos (níveis VI e VII) são usados na ausência de evidências superiores, e em última instância, opiniões de especialistas, experimentação animal ou pesquisas "in vitro" (nível VIII), são consideradas (Atallah, Trevisan & Valente, 2003). É importante destacar que a melhor evidência científica por si só não garante a prática baseada em evidências; é imprescindível incorporar os outros dois fatores, ou seja, a experiência clínica do profissional e as preferências do paciente. No aspecto da experiência clínica do profissional, considera-se os conhecimentos adquiridos pelo próprio profissional por meio da sua formação acadêmica e vivências prévias com pacientes. O Psicólogo deve utilizar sua expertise para avaliar qual intervenção terapêutica é mais adequada para cada caso (APA, 2006). Quanto as preferências do paciente, cabe ao profissional considerar fatores como cultura, valores pessoais e histórico médico/psicológico dos pacientes na escolha das intervenções terapêuticas mais adequadas (APA, 2006). Vale lembrar que é o psicólogo quem toma a decisão final sobre qual intervenção será utilizada, porém o envolvimento de forma ativa do paciente é fundamental para o sucesso do tratamento (Melnik, Souza & Carvalho, 2014). Portanto, a PPBE valoriza não apenas uma única fonte de informação ou perspectiva sobre tratamentos psicológicos, mas sim um conjunto diversificado que inclui tanto pesquisa quanto prática clínica individualizada e centrada no paciente (Melnik & Atallah, 2011). Outro dado observado na pesquisa se deve a nomenclatura da disciplina, a APA utiliza a nomenclatura Prática de Psicologia Baseada em Evidência (PPBE), porém na literatura pesquisada, a Prática Baseada em Evidências (PBE) é aplicável em todas as áreas da saúde. Podendo ser Prática Baseada em Evidência em Nutrição; em Fisioterapia; em Odontologia, em Psicologia e assim por diante. Em todas essas áreas, o comportamento de tomada de decisão clínica é embasado nos três fatores, melhor evidência disponível, expertise clínica e preferências do paciente (Guyatt et al., 1992). Portanto, apesar das variações de nomenclaturas encontradas nos currículos analisados, as disciplinas atendem aos critérios da PBE definidos neste estudo, especialmente em relação às etapas de busca e análise crítica das evidências. Essa correspondência parcial sugere que, embora a nomenclatura formal da PBE nem sempre seja adotada, alguns de seus princípios já estão sendo operacionalizados no ensino de Psicologia. No Brasil, a primeira disciplina de Prática de Psicologia Baseada em Evidências foi ministrada em 2013, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, no programa de pós-graduação. Ao final do curso foi realizada uma avalição com os alunos, sobre a relevância do tema na graduação e pós-graduação. Eles ressaltaram a importância desse conhecimento, bem como a inclusão da PPBE nos dois níveis de ensino e acrescentaram: a psicologia precisa abandonar o senso comum (“achismo”) e buscar credibilidade em relação às outras disciplinas da saúde, através de uma produção científica sólida e uma abordagem clínica fundamentada na experiência, preferências do paciente e evidências científicas (Relato dos alunos na pesquisa de Melnik, Meyer & Sampaio, 2019). Neste contexto do “achismo” citado pelos alunos, Gaudiano, Brown e Miller (2011), apontam que os psicoterapeutas tendem a confiar mais na sua intuição baseada na experiência clínica do que no conhecimento da pesquisa, ou no raciocínio estatístico ao tomar decisões de tratamento. O que demostra uma grande resistência por parte de muitos profissionais da saúde mental em utilizar dados de pesquisa empiricamente validados para guiar suas decisões (Melnik, Souza & Carvalho, 2014). Lilienfeld et al. (2013) fez um estudo sobre essa resistência a PBE por psicólogos clínicos e chegou a seis fontes que sustentam essa ideia:
1) realismo ingênuo, que pode levar os profissionais a concluírem erroneamente que a mudança do cliente se deve a uma intervenção em si, e não a uma série de explicações concorrentes; 2) equívocos profundamente arraigados em relação à natureza humana (por exemplo, crenças equivocadas sobre a primazia causal das primeiras experiências), que podem dificultar a adoção de tratamentos baseados em evidências; 3) mal entendidos estatísticos em relação à aplicação de probabilidades de grupo para indivíduos; 4) distribuição errônea do ônus da prova sobre os céticos, e não sobre os proponentes de terapias; 5) descaracterizações generalizadas do que a PBE implica; 6) obstáculos pragmáticos educacionais e atitudinais, como o desconforto de muitos profissionais em avaliar a literatura cada vez mais técnica sobre resultados de psicoterapia (Lilienfeld et al, 2013, p.1 tradução nossa).
Ainda de acordo com o estudo, profissionais mais velhos demonstraram uma resistência maior a PPBE do que os mais jovens. Ou seja, a resistência é mais comum entre aqueles que não receberam uma formação que enfatiza a PPBE ou que se profissionalizaram antes do período de sua valorização e reconhecimento (Melnik, Souza & Carvalho, 2014). A partir disso, Lilienfeld et al. (2013) sugerem investir nos conhecimentos dos estudantes de Psicologia, visando engajar uma nova geração de clínicos e pesquisadores mais capacitados a incorporar os princípios da PPBE e contribuir para os avanços na prática clínica e na pesquisa psicológica. Em 2010 a revista The Lancent, considerada uma das mais importantes na área das ciências médicas, organizou uma comissão internacional, composta por 20 profissionais e acadêmicos de diversos países, para destacar a importância dos conhecimentos, competências e atitudes da PBE na formação de profissionais de saúde do século XXI. O relatório elaborado por essa comissão sugere mudanças para uma aprendizagem transformadora na formação de profissionais de saúde, desvinculando-se da “memorização dos fatos para o raciocínio crítico que pode orientar a capacidade de pesquisar, analisar, avaliar e sintetizar informações para a tomada de decisão” (Frenk et al., 2010, p. 1952, tradução nossa). Essa mudança educacional proposta no relatório Lancet está ligada a “Sicily Declaration on Evidence-Based Practice” (Declaração de Sicília sobre Prática Baseada em Evidência) um documento resultante da Conferência Internacional de Professores e Desenvolvedores de Cuidados de Saúde Baseados em Evidências de 2003, representada por profissionais da saúde de 18 países. Esse documento também descreve um currículo mínimo para treinamentos profissionais de saúde na PBE, baseada no modelo de cinco etapas. O objetivo é que graduandos em áreas da saúde desenvolvam habilidades comuns em PBE, contribuindo para a promoção de cuidados embasados em evidências (Dawes et al., 2005). Outro estudo, intitulado “Core Competencies in Evidence-Based Practice for Health Professionals” (Competências Essenciais em Prática Baseada em Evidências para Profissionais de Saúde) de Albarqouni et al. (2018), aborda questões relacionadas às competências para a implementação eficaz da PBE entre os profissionais de saúde. O ponto de partida do estudo foi a pergunta: “Quais são os elementos essenciais que devem constituir essas competências?” Os resultados, revelaram um conjunto contemporâneo de 68 competências essenciais em PBE. Essas foram cuidadosamente agrupadas no modelo de cinco etapas (perguntar, adquirir, avaliar, aplicar e avaliar) conforme já mencionado anteriormente (Albarqouni et al., 2018). A importância dessas competências fica ainda mais evidente quando se considera um estudo realizado na Austrália, sobre as percepções de estudantes de graduação em saúde sobre o significado da PBE. O objetivo era avaliar até que ponto as noções da PBE estão se infiltrando na compreensão dos futuros graduados em saúde. A pesquisa foi realizada com mais de 500 alunos de 20 cursos de graduação da área da saúde e incluiu a pergunta aberta: “O que a PBE significa para você?” O resultado revelou uma compreensão muito limitada por parte dos estudantes sobre os processos ou princípios da PBE. (Murphy et al., 2019). No geral, os estudantes mencionaram que a PBE é investigação, estudos, ciência, experiências. O conceito mais mencionado foi prática “comprovada” ou “eficaz”, o que indica uma falta de envolvimento crítico na compreensão de PBE em geral. Destarte, os estudos apresentados, oferece uma base sólida para informar e moldar os currículos educacionais destinados a capacitar os profissionais de saúde nesse domínio. Ao fazer isso, contribui significativamente para promover práticas profissionais baseadas em evidências, aprimorando, assim, a qualidade dos cuidados de saúde fornecidos pelos profissionais envolvidos.
Considerações Finais
Considerando que a Psicologia é uma ciência, torna-se essencial que a formação desse profissional, seja fundamentada em métodos atualizados e respaldados por evidências científicas. Entretanto, o resultado desta pesquisa revela uma deficiência notável da disciplina de Prática Baseada em Evidências (PBE) nos cursos de Psicologia do Brasil. A análise dos currículos de diversos cursos demonstra uma presença ínfima do PBE, com apenas 1,55% incluindo a disciplina. As divergências nas abordagens curriculares entre as regiões do Brasil indicam ainda a necessidade de uma atenção mais cuidadosa para integrar a PBE nos cursos de graduação de Psicologia. Diante das recomendações do relatório Lancet sobre a formação de profissionais de saúde do século XXI e a importância da PBE na prática profissional, é indiscutível que as instituições de ensino repensem e fortaleçam a inclusão dessa disciplina nos currículos de Psicologia. Como visto, PBE ajuda na orientação do processo de tomada de decisão dos profissionais, principalmente diante de dilemas clínicos. Sendo assim, sugere-se que o ensino em PBE comece durante a graduação Isso irá contribuir para a consolidação da Psicologia como uma disciplina científica e aplicada, e também preparará profissionais capacitados para contribuir de forma mais eficaz para a promoção de cuidados de saúde mental com base em evidências científicas. No entanto, há desafios a serem enfrentados na implementação efetiva da PBE nos currículos de Psicologia. Isso inclui a necessidade de formação adequada para os professores e a criação de recursos educacionais específicos para apoiar o ensino dessa disciplina. Além disso, pode ser necessário superar resistências institucionais e culturais dentro das próprias instituições de ensino. Sendo assim, estudos como este devem ser ampliados para investigar não apenas a presença da PBE nos currículos de Psicologia, mas também a eficácia das abordagens educacionais utilizadas e os resultados a longo prazo dessa formação. Logo, é essencial envolver as partes interessadas, incluindo professores, estudantes, profissionais de saúde mental e órgãos reguladores, no desenvolvimento e implementação de estratégias para fortalecer a presença da PBE nos currículos de Psicologia. Isso pode incluir o desenvolvimento de diretrizes nacionais ou regionais para o ensino da PBE, a criação de programas de treinamento para professores e a alocação de recursos financeiros e institucionais para apoiar iniciativas nesse sentido. Por fim, é fundamental promover uma cultura de avaliação contínua e melhoria dentro das instituições de ensino em Psicologia, de modo que a inclusão da PBE nos currículos seja vista não como uma medida isolada, mas como parte de um esforço mais amplo para garantir a qualidade e relevância da formação em Psicologia. Somente através de esforços coordenados e colaborativos podemos garantir que os futuros Psicólogos estejam adequadamente preparados para enfrentar os desafios do mundo real e fazer contribuições significativas para a saúde mental e o bem-estar das pessoas.
















