Introdução
1- Inserção da psicanálise nos cursos de graduação em Psicologia no Brasil
Para falar sobre a inserção da psicanálise nas universidades brasileiras nos cursos de Psicologia, é importante delinear a história deste campo do saber. De acordo com Schultz (1992), a história da Psicologia, enquanto ciência e campo de estudo, remonta ao século XIX com Wilhelm Wundt e o laboratório de Psicologia Experimental em Leipzig na Alemanha. Segundo os autores, nesse início, tal ciência tinha como preocupação a experimentação dos fenômenos comportamentais e fisiológicos, também buscava delimitar seu objeto de estudo, algo incipiente até o momento. Nesse período, a Psicologia ainda não tinha preocupação com uma atuação profissional propriamente dita, era um campo do saber puramente teórico e experimental, que buscava subsidiar outras áreas mais aplicadas à prática (Cruces, 2006). Ainda nesse período, na Europa, a Psicologia passou a compor currículos universitários, como uma disciplina a parte, não visando formar psicólogos, mas apenas compondo uma grade curricular de outros profissionais, como por exemplo nos cursos de Medicina (Cruces, 2006). Contudo, no final do século XIX começam a surgir os primeiros cursos vinculados a esse campo do saber. Esse início ocorreu nos Estados Unidos e buscava formar profissionais para trabalhar com crianças com problemas de aprendizagem (Routh, 2000). Na América do Sul, por sua vez, os primeiros cursos de Psicologia tiveram seu início nos anos quarenta do século XX (Cruces, 2006). Segundo a autora, isso propiciou aos cursos sul-americanos já iniciarem em um período no qual a Psicologia estava consolidada como campo do saber e com uma importância enquanto profissão. Outro detalhe relevante é que - naquela época - outras áreas do conhecimento já estavam consolidadas no cenário mundial, tais como a fenomenologia e a psicanálise. Esse fato, em especial, fez com que - desde o início dos cursos de Psicologia na América do Sul - a psicanálise estivesse presente de alguma forma nos currículos, principalmente no que tange à prática clínica (Cruces, 2006). Seguindo essa noção, a influência psicanalítica é grande nos cursos de Psicologia das universidades latino-americanas, com as brasileiras não foi diferente. Figueiredo (2008) e Coutinho, Mattos, Monteiro, Virgens e Almeida Filho (2013) exemplificam de maneira histórica a questão: o primeiro curso de Psicologia do Brasil foi o da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), criado em 1956, que desde seu início ele contava com psicanalistas no seu corpo docente. Segundo os autores, desde a abertura do curso de Psicologia da PUC-RJ, o curso tinha um forte caráter clínico e de base psicanalítica, o qual se torna evidente em 1960, quando psicanalistas ligados à Sociedade Brasileira de Psicanálise (SBP) foram convidados a atuar como docentes e assumirem a área clínica do curso (Figueredo, 2008; Coutinho et al., 2013; Silva, Silveira, Costa & Naue, 2018). A primeira incursão da psicanálise no ambiente universitário brasileiro adveio pela tese defendida por Genserico Aragão de Sousa Pinto na faculdade de medicina do Rio de Janeiro, em 1914 (Coutinho et al., 2013; Dunker, 2014). Em São Paulo, Franco da Rocha e Durval Marcondes foram os grandes precursores dessa disciplina na faculdade de medicina e contribuíram muito para que a psicanálise se estabelecesse no estado em questão e no Brasil (Coutinho et al., 2013; Dunker, 2014). Ou seja, apesar de estar intimamente vinculada aos cursos de Psicologia, como defende Cruces (2006) e atrelada ao surgimento do primeiro curso dessa área do saber no Brasil (Figueredo, 2008; Coutinho et al., 2013), a psicanálise adentrou, inicialmente, em nossas universidades por intermédio da medicina. Atualmente, pode-se dizer que a psicanálise está presente nas universidades brasileiras através dos cursos de Psicologia e ambas estabelecem relações em diversas instâncias (Coutinho et al., 2013; Prestes & Coutinho, 2018). O tema inclusive é motivo de artigos científicos e revisões bibliográficas tais como a realizada por Prestes e Coutinho (2018) que investigaram a inserção da psicanálise nas universidades brasileiras. As autoras constataram que há uma significativa produção científica sobre o tema e de que há, principalmente na região sul e sudeste, ofertas de programas de pós-graduação que se mostram capazes de estabelecer certa vinculação entre essa área do saber e a universidade, além de contribuírem com a divulgação e produção científica da área (Prestes & Coutinho, 2018). Apesar de historicamente influenciar a formação do Psicólogo brasileiro e estar presente nas nossas universidades da graduação até a pós-graduação (Prestes & Coutinho, 2018), existe a questão da psicanálise nas universidades brasileiras e o que pode ser ensinado no interior delas (Silva, et al., 2018; Romera & Alvarenga, 2010; Pereira & Kessler, 2016). Desde Freud (1919/1996), a relação da psicanálise com essa instituição se constitui como uma questão. Para ele, a psicanálise teria muito a contribuir com a universidade, ele chega a sugerir a criação de ambulatórios de atendimentos para o estudante universitário ter acesso aos pacientes neuróticos. Um paralelo possível a ser estabelecido com esse ambiente pensado por Freud (1919/1996) pode ser materializado nas clínicas-escolas dos cursos de Psicologia. Atualmente, as clínicas-escolas se configuram como um dos locais importantes e de destaque onde a psicanálise se insere na universidade, também podem ser nomeadas como serviço escola, e nos estágios supervisionados (Silva, Coelho & Pontes, 2017; Gomes & Reis, 2019). Os estágios em clínica psicanalítica encontram um espaço privilegiado e de relevância nos cursos de Psicologia desde sua criação e têm se mostrado um possível lugar de transmissão da psicanálise no interior dessas instituições (Silva, Coelho & Pontes, 2017). A noção de transmissão da psicanálise está intimamente ligada à concepção de sujeito e seu desejo, baseando-se na transferência, aspecto diverso ao discurso predominante na ciência, pautado em um saber positivo a ser conhecido (Coutinho et al., 2013). O ensino da psicanálise, por sua vez, está mais próximo a um saber tradicionalmente universitário, em que o conhecimento é passado de forma mais rígida e estruturada (Coutinho et al., 2013). Nas disciplinas teóricas ofertadas nos cursos de graduação em Psicologia o que se propõe, além do ensino dos pressupostos básicos da psicanálise, é apenas o início de um longo percurso relativo à transmissão da psicanálise. Por outro lado, os estágios em clínica psicanalítica proporcionados pelas universidades brasileiras se configuram como um primeiro passo na jornada do psicoterapeuta de base analítica (Gomes & Reis, 2019). No entanto, é preciso pontuar que a universidade não visa formar analistas, nem psicoterapeutas embasados na psicanálise, o que ela busca é formar Psicólogos, esses seguirão seu percurso profissional, caso sigam no campo psicanalítico, poderão buscar uma formação mais ortodoxa e tradicional nos institutos das sociedades de psicanálise, ou cursos de especialização e aperfeiçoamento (Gomes & Reis, 2019). Onde possam, de fato, se beneficiar da transmissão da psicanálise considerando a necessidade não apenas do estudo mas, também, da supervisão e da análise pessoal. Assim, a formação do psicoterapeuta de base analítica ou mesmo a formação do analista será realizada em outro momento e local, ela não cabe em um currículo ou instituição circunscrita a um espaço e período histórico (Pereira & Kessler, 2016; Gomes & Reis, 2019). Pereira e Kessler (2016), por exemplo, apontam para o fato de ser nos estágios supervisionados dentro da universidade que o até então aluno e futuro Psicólogo terá contato com as angústias iniciais da profissão, mesmo de forma incipiente ele será convocado a se posicionar como um profissional frente as demandas dos pacientes. Outro ponto apresentado pelos autores é a questão da estrutura dos cursos de Psicologia no Brasil promoverem certa concepção da formação de um analista, tomando por base alguns preceitos da formação psicanalítica proposta pelos institutos, consistindo em estudo teórico, supervisões e análise pessoal. Esse último não pode ser considerado obrigatório na graduação, no entanto, os dois primeiros são colocados em prática já nesse momento inicial para os jovens terapeutas (Pereira & Kessler, 2016). Nogueira Filho e Warchavchik (2008) chamam a atenção para uma fala de Freud na Universidade de Clark em 1909, nessa conferência o pai da psicanálise diz que o sujeito se torna um psicanalista quando passa a analisar os próprios sonhos. Mesmo ainda sendo no início do movimento psicanalista e revisitando esse tema diversas vezes de forma muito mais complexa, a afirmação aparentemente simplista de Freud na Universidade de Clark já contém o âmago da questão do processo de se tornar um analista, a própria análise (Nogueira Filho & Warchavchik, 2008). Para os autores, por mais que Freud tenha feito, no decorrer de seus estudos, diversas recomendações a pessoas interessadas em se tornarem analistas, a recomendação quanto a olhar para o próprio inconsciente sempre foi o centro de todo o processo. Vale ressaltar que o mesmo ocorre com psicoterapeutas de base analítica, seja a análise ou psicoterapia individual se constitui como parte fundamental do processo de formação desse profissional, desde os estágios supervisionados. Evidentemente a universidade não pode exigir que o estagiário do curso de Psicologia faça análise ou psicoterapia, no entanto Gomes e Reis (2019) salientam a importância da atenção que o terapeuta aprendiz merece dar ao próprio inconsciente. Posto dessa forma, a literatura acerca da formação de um profissional que escuta o inconsciente parece estar de acordo com Freud (1912/1996;1919/1996), ela ocorre inicialmente com a análise pessoal e não pode ficar restrita a um tempo e espaço como é o caso das universidades brasileiras. Esses são os primeiros passos nesse percurso longo e incerto (Gomes & Reis, 2019).
2- O Psicólogo e a Clínica Psicanalítica no Brasil
A história da influência da psicanálise sobre a atuação dos Psicólogos no Brasil (Bastos & Gomide, 1989) merece destaque. No célebre artigo, os autores apontam que, até o ano de 1989, a psicanálise se constituía como principal referencial teórico para prática profissional dos Psicólogos brasileiros. Referem que tal teoria era a mais predominante em todas as práticas profissionais, desde organizacional, escolar até a clínica. Na última, em especial, mais de 57% dos entrevistados tinham a psicanálise como teoria principal de suas práticas (Bastos & Gomide, 1989). A influência clínica e psicanalítica da atuação das Psicólogas no Brasil também pode ser evidenciada na pesquisa realizada pelo CFP (2013). Ela apresenta dados de especializações subsequentes à formação do curso de graduação, mencionando que as pós-graduações de maior procura pelas psicólogas são: Psicologia Clínica em primeiro lugar e Psicanálise em terceiro. Vale ressaltar o fato da Psicologia Clínica englobar diferentes abordagens teóricas, inclusive a própria Psicanálise (CFP, 2013). Outro fato extremamente relevante e que chama atenção para influência psicanalítica na prática das Psicólogas brasileiras consiste na sua orientação teórica: Freud aparece em primeiro lugar (28% das entrevistas o mencionaram) e do total de autores mencionados, 48% foram teóricos psicanalistas (CFP, 2013). Alguns estudos apontam que a psicanálise se constitui como principal abordagem clínica dos Psicólogos brasileiros, segundo as pesquisas encontradas e publicadas até 2013 (Bastos & Gomide, 1989; CFP, 2013). Por outro lado, convém ressaltar que, até o momento em que a presente pesquisa foi realizada, não foram localizados outros estudos semelhantes realizados posteriormente.
3- Formação continuada em Clínica Psicanalítica
Convém salientar que os contatos inaugurais com a psicanálise ocorrem no período da graduação, no qual os estudantes, ao longo do contato com os conteúdos teóricos e pela prática dos estágios, iniciam os primeiros passos de um longo caminho na jornada de se tornarem psicanalistas ou psicoterapeutas (Pereira & Kessler, 2016; Gomes & Reis, 2019). Considerando a escolha pela continuidade dos estudos após o período de graduação, é necessário refletir sobre as peculiaridades referentes tanto à formação do psicanalista, quanto à formação do psicoterapeuta de base psicanalítica. Há diversas tentativas para diferenciar o que seria cada um: frequência de atendimentos, uso do divã, características diagnósticas do paciente, entre outras (Figueiredo, 2008; Grotstein, 2017). Todavia, como aponta Silva et al. (2018), é muito complexo se estabelecer uma diferença categórica entre psicanálise e psicoterapia psicanalítica. Green (2002) opta, inclusive, por classificar as duas modalidades como psicanálise, atribuindo a diferença apenas ao enquadre. Entretanto, o psicoterapeuta de base psicanalítica em específico é um Psicólogo formado por uma instituição de ensino capacitada para tal. Nessa instituição, há estágios supervisionados de prática clínica, as atividades são supervisionadas por professores/supervisores, e a análise pessoal não pode ser colocada como uma obrigatoriedade (Darriba, 2011; Pereira & Kessler, 2016; Gomes & Reis, 2019). Vale ressaltar que sua formação universitária também é vista apenas como um passo inicial em todo o processo de se tornar um psicoterapeuta de base psicanalítica, ou seja, ela se configura como um início e não como um fim (Pereira & Kessler, 2016; Gomes & Reis, 2019). Pelo fato da formação em Psicologia no Brasil ser vista apenas como o primeiro passo de um longo percurso longo e não linear (Gomes & Reis, 2019), o restante do processo dessa formação do estudante egresso de uma instituição de ensino que se propõe a seguir a psicanálise - seja por meio de uma formação mais clássica nas sociedades de psicanálise, seja por institutos de psicanálise independentes da IPA, ou através de cursos de aperfeiçoamento ou especializações lato sensu - merece grande atenção. Assim, faz-se necessário discorrer a respeito de alguns caminhos possíveis de serem trilhados na busca dessa formação continuada pelos alunos egressos dos cursos de Psicologia no Brasil. Como mencionado, anteriormente, a influência psicanalítica na formação universitária do Psicólogo brasileiro é considerável, alguns estudos mais antigos e de base quantitativa (Bastos & Gomide, 1989; CFP, 2013) também apontavam para uma influência significativa da psicanálise na atuação profissional do Psicólogo no Brasil. Assim, o presente estudo, teve por objetivos: investigar a influência da psicanálise no início de vida profissional e a busca pela formação continuada em clínica psicanalítica por Psicólogos recém-formados, egressos de uma universidade pública do Paraná.
Método
Para realização do presente trabalho foi utilizado o método clínico-qualitativo proposto por Turato (2003). O autor ressalta que os métodos qualitativos são ideais em situações que se busca um conhecimento mais profundo do humano e suas relações (Turato, 2003). Ele também aponta para o fato de o método qualitativo implicar também na interação do pesquisador com o indivíduo entrevistado. Outro fato relevante apontado por Turato (2003) consiste na metodologia clínico-qualitativo se basear em algumas atitudes fundamentais, como: existencialista, clínica e psicanalítica. Participaram da pesquisa em questão 13 Psicólogos, egressos de um curso de graduação em Psicologia de uma universidade pública do estado do Paraná, que em algum momento de suas graduações realizaram estágios supervisionados em clínica psicanalítica. Inicialmente foram realizadas entrevistas de aculturação (Turato, 2003), visando ajustar o roteiro de questões disparadoras utilizado nas entrevistas. Posteriormente, foram entrevistados 11 Psicólogos, que concluíram o curso nos últimos três anos que antecederam a coleta de dados (2017, 2018 e 2019) e constituíram a amostra da pesquisa propriamente dita. O número total de entrevistados foi definido pelo método de saturação proposto por Turato (2003), que implica em finalizar a coleta quando as entrevistas passarem a apresentar dados repetidos e não trazerem conteúdos novos, considerando ser um indicativo de que aquela amostra é suficiente para a pesquisa. O estudo faz parte de um projeto de pesquisa maior, realizado como dissertação de mestrado, o qual foi aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa envolvendo seres humanos da universidade onde a pesquisa foi realizada (CAAE:17076819.6.0000.5231; Parecer: 3.511.720). Todos os participantes assinaram o TCLE, de forma presencial ou, no caso das entrevistas realizadas por Skype, através de formulário do Google Forms. Os nomes dos participantes e dos docentes mencionados durante as entrevistas foram substituídos por códigos. Inicialmente foi solicitada junto ao setor responsável da universidade em questão, os contatos dos egressos do curso de Psicologia formados no ano de 2017, 2018 e 2019. Posteriormente os egressos foram contatados através de e-mail ou celular. A coleta de dados foi realizada com base em entrevistas semidirigidas, com a utilização de um roteiro contendo questões disparadoras, as quais, segundo Turato (2003) possuem grande relação com o método clínico qualitativo. A princípio as entrevistas foram realizadas de forma presencial. No entanto algumas se deram na modalidade on-line, por meio do aplicativo Skype, em função da necessidade de distanciamento social devido à pandemia Covid-19. As entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas à análise de conteúdo proposta por Bardin (2016), a qual é considerada por Turato (2003), como uma forma muito relevante no tratamento de entrevistas semidirigidas. Bardin (2016) entende que a análise de conteúdo deve conter: pré-análise, exploração do material e o tratamento dos dados propriamente dito, esse por meio da inferência e interpretação. Na primeira fase, a pré-análise, a autora sugere que pesquisador estabeleça um esquema de trabalho, com procedimentos definidos, mas com certa flexibilidade. A princípio, é importante que seja realizado uma leitura flutuante, permitindo o contato inicial com os documentos que serão submetidos à análise posterior, nesse momento também é permitido a formulação de hipóteses e objetivos, assim como a construção dos indicadores que orientarão a interpretação do material (Bardin, 2016), que segundo ele os sinais podem ter como norteadores os seguintes aspectos: exaustividade, representatividade, homogeneidade, pertinência e exclusividade, um elemento não deve ser classificado em mais de uma categoria. Após a pré-análise, foi realizada nova leitura flutuante das entrevistas e, posteriormente, sua categorização. Por fim, no tratamento dos dados, foram estabelecidas relações entre o próprio material e o referencial teórico, de forma que as análises e inferências produzissem um conhecimento válido das entrevistas. Convém mencionar que todos os dados coletados foram apresentados a um grupo constituído por mestrandos, docentes do programa de mestrado em que a pesquisa foi realizada e uma Psicóloga convidada. Nessa reunião as categorias confeccionadas pelos autores da presente pesquisa foram debatidas e validadas pelos presentes.
Resultados e Discussão
A análise dos dados culminou em duas categorias, que abordam aspectos das vivências profissionais dos Psicólogos em suas respectivas clínicas, bem como os estudos posteriores vinculados às suas formações como psicoterapeutas psicanalíticos: Ingresso no mercado de trabalho e princípio de realidade: eu escolhi isso? e formação continuada. Ressalta-se que, a fim de preservar a identidade dos participantes, os entrevistados foram identificados pela letra “E” seguido pelo número da entrevista; os professores pela letra “P” seguida por um número e o nome da Universidade foi substituído por “U”. Para enfatizar uma fala específica dos entrevistados foram utilizadas aspas.
Ingresso no mercado de trabalho e princípio de realidade: eu escolhi isso?
Ao serem questionados sobre o mercado de trabalho, foi possível perceber que o início da vida profissional impôs ao egresso a vivência de um certo princípio da realidade (Freud, 1920/1996). Muitos ainda aparentavam vivenciar fantasias acerca da atuação profissional, de forma similar aos estágios, período em que ainda se sentiam protegidos pela universidade e não conseguiam visualizar toda a dimensão da profissão. Os egressos demonstravam sentir falta da universidade, pois essa proporcionava o amparo teórico metodológico e, em alguns casos até certa função mantenedora, no sentido literal e simbólico.
Antes tinha a U que assinava pela gente, era meio que protegido, agora a gente fica mais exposto né? (E1)
A gente ia cedo para U, ficava o dia inteiro lá, até a comida era no RU (E1)
No mercado de trabalho tô um pouco perdida ainda (risos), e até conversei com outros profissionais dessa área e todo mundo meio que fala que demora até você se estabilizar sabe? E as vezes acho que meu pai e minha mãe esperavam que eu saísse e já fosse trabalhar, ganhar dinheiro e ser independente (E2) Como eu falei para você, no começo foi um pouco difícil, e por eu estar seguindo a área clínica eu não tenho um “chefe” que vai me instruir e me dar x dinheiro todo mês, você começa tudo do zero mesmo. O que você viu na universidade é insuficiente (E5) Então começou a vir pacientes. O que eu fui notando durante esses três anos, como a coisa demora a se formar, a clínica, tem um processo muito próprio. (E10)
Por outro lado, mesmo diante da dificuldade profissional e não da imposição da análise pessoal, diferente do que ocorre nos institutos de psicanálise onde há a obrigatoriedade da análise pessoal, os psicoterapeutas pareceram atribuir grande importância à própria análise, fato que mostra grande influência da psicanálise em suas formações. Isso fica evidente pois a teoria psicanalítica defende a análise pessoal como parte da formação do analista (Pereira & Kessler, 2016). Nas entrevistas também foi possível notar que a angustia relacionada ao mundo do trabalho e o rompimento com certas fantasias criadas na universidade também incentivaram os jovens terapeutas na busca pela análise pessoal.
Vejo que a análise pessoal é fundamental nesse início de profissão, pois muita coisa mexe com a gente, nos atendimentos mesmo, surgem muitas questões
(E1)
Faço análise desde a faculdade, mas nesse momento de transição vejo ela como quase que essencial (E5)
Foi muito difícil começar a atender, se não fosse a análise pessoal não sei como seria (E6)
A gente escuta dizer na faculdade que a análise é parte importante da formação, mas só agora que estou atendendo é que vejo o quanto é necessário (E10)
Os egressos também apontaram a supervisão clínica como algo extremamente relevante. Gomes e Reis (2019) e Pereira e Kessler (2016) pontuam que, tanto na análise clássica quanto na psicoterapia de base psicanalítica, o tripé - supervisão, análise e estudo teórico - se constitui como pilar fundamental da formação profissional. Gomes e Reis (2019) salientam tais questões para o psicoterapeuta aprendiz no contexto dos estágios supervisionados. Todavia, essa situação também parece se estender aos jovens profissionais, como mostrado nas vinhetas a seguir.
Então, não sei se é a psicanálise, porque mexe muito, sabe? Então, fico com muitas questões comigo mesma, sabe? Talvez outra abordagem seria diferente. Faço minha análise pessoal, não estou desesperada, estou angustiada, mas acho que se um dia eu achar que tudo está as “mil maravilhas” deve ter algo errado também (E1)
...romper com a U foi difícil, eu tinha a sensação de que estava deixando alguma coisa para trás e ia ter que crescer, na época eu fui para análise, bati os pinos (risos) (E2)
A supervisão é muito importante, tanto na universidade quanto depois (E11)
Percebe-se que alguns egressos estavam preocupados em aprimorar a sua capacitação profissional em diferentes aspectos, tanto em relação ao maior conhecimento de suas próprias questões afetivo-emocionais por meio da análise pessoal, quanto na busca por conhecimentos teórico-metodológicos relativos à clínica psicanalítica por meio de formação continuada. Provavelmente pela influência psicanalítica, desde suas graduações, buscaram estabelecer suas formações pautadas no tripé - supervisão, análise e estudo teórico. Ou seja, mesmo sem a obrigatoriedade do tripé psicanalítico como as sociedades vinculadas a IPA propõe, os egressos entrevistados o estabeleceram o tripé de alguma forma, nesse sentido, fica explícito como a concepção psicanalítica norteia a trajetória desses jovens terapeutas, provavelmente pela influência da psicanálise no curso de Psicologia. A questão da formação continuada e os estudos teóricos em especial serão tratados no item a seguir, pois a maioria dos jovens psicoterapeutas entrevistados buscaram algum curso de formação posterior a graduação.
Formação continuada
Como já mencionado, a formação de um psicoterapeuta de base psicanalítica não se circunda em um tempo e espaço da graduação em Psicologia, pelo contrário, a formação universitária é vista apenas como um primeiro passo nesse longo percurso (Gomes & Reis, 2019). Nesse sentido, os egressos entrevistados demonstram seguir na busca pelo conhecimento, cada um a sua maneira, ao buscar o aprimoramento da formação em psicoterapia de base psicanalítica. Parte considerável dos entrevistados cursa ou já frequentou pós-graduação lato sensu voltada à teoria e à prática psicanalítica, isso demonstra como a universidade forneceu subsídios para que eles continuassem suas respectivas jornadas e formações. Também é importante lembrar que os estudos teóricos se constituem como parte do tripé psicanalítico, assim, no percurso dos jovens terapeutas de base analítica, os cursos de especialização/pós-graduação lato sensu se apresentam como parte importante desse processo. Nesse aspecto, convém ressaltar o fato de ter sido realizado uma busca extensiva, por meio do Google, acerca dos cursos lato sensu disponíveis nos estados do Paraná e São Paulo, estados que foram eleitos por questões geográficas e históricas referentes aos egressos da instituição em questão. Foram encontrados 17 cursos lato sensu voltados a teoria e/ou prática psicanalítica no estado do Paraná, no estado de São Paulo também foram encontrados 17 cursos com essa finalidade. Muitas vezes os cursos de pós-graduação lato sensu se mostraram, no discurso do egresso, como uma espécie de extensão da universidade, ou seja, nelas são projetados resquícios da função exercida pela universidade em outro momento. No entanto, elas não parecem responder as demandas dos jovens terapeutas nesse sentido, frustrando-os de certa forma. Essa frustração parece ser inevitável e necessária, pois contribuí para o entendimento de que a vida universitária se encerrou e mesmo que haja aquisição de conhecimento a partir desse momento, não será como na universidade, de forma protegida e quase idílica. As vinhetas a seguir deixam claro esse tipo de situação:
...a U deu sim uma base bem legal, mas ao mesmo tempo eu tenho a sensação de que eu estou na pós, então ainda tenho algo sabe? Acho que depois da Pós tenho que buscar outra coisa (risos).... Mas mesmo na pós, não é a mesma coisa de estar na U. (E1)
Faço uma pós de Freud a Lacan... quando eu entrei nessa pós também foi muito bom entrar em contato com outros profissionais, gente de fora que vinha de Curitiba, aprendi muita coisa lá, mas é diferente da época de faculdade (E3)
...fiz cursos de Freud depois da faculdade, ah, vários cursos que eles abriam lá eu fazia. Mas meu maior foco era Freud e Lacan (E5)
Eu fiz vários cursos já, o primeiro foi a especialização, que na época eu gostei muito e contribuiu muito para minha formação (E7)
Busquei uma pós para suprir algumas lacunas que não aprendi na U. foi muito bom, e em alguns sentidos me ajudou bastante, mas vejo que sempre fica faltando alguma coisa (E9).
Convém ressaltar que a maioria dos egressos entrevistados buscou algum curso de formação posterior a universidade, em sua maior parte foram cursos de pós-graduação lato sensu baseados na teoria psicanalítica. Outro aspecto que chama a atenção é que nenhum dos entrevistados mencionou estar cursando ou interessado em continuar a sua formação em Institutos de Psicanálise vinculados à IPA. Provavelmente isso se deu pelo fato do investimento psíquico e financeiro que essa modalidade formação requisita, além do fato dos cursos funcionarem nas capitais dos estados, dificultando ou praticamente impedindo que os Psicólogos recém-formados que residem em cidades do interior do Paraná tenham as condições financeiras necessárias para realizar essa modalidade de formação. Convém nos atentarmos para o fato, os cursos de especialização de alguma forma serem alvo de projeções e exercerem a posição antes ocupada pela universidade no psiquismo dos Psicólogos recém-formados. No entanto, eles parecem não conseguir responder a esse tipo de demanda, possibilitando o entendimento por parte do egresso que de fato a vida universitária se encerrou e agora existe uma vida profissional. Também que sua busca e aquisição de conhecimento nesse momento se dará como profissional e não mais como aluno, esse ponto parece ser fundamental ao processo. Quanto a função da universidade, a partir dos entrevistados em questão, ela pareceu ter cumprido sua função de fornecer subsídios para seus egressos se implicarem em uma formação continuada. Ou seja, possibilitou que a formação universitária, especialmente no que tange aos conhecimentos teórico-metodológicos necessários ao Psicólogo que almeja atuar na clínica psicanalítica, fosse um começo e não um fim.
Considerações finais
Pesquisas acerca da relação entre psicanálise e universidade, bem como a trajetória dos egressos das instituições de ensino superior de Psicologia no Brasil são de grande importância. Isso se dá pelo fato da histórica influência psicanalítica nos cursos de Psicologia no Brasil, além do fato da compreensão de que nessa prática a formação é entendida de forma muito mais abrangente que apenas a formação universitária, pelo contrário, a universidade é compreendida apenas como um primeiro passo de um longo percurso que se dará em paralelo a vida do profissional. Também é importante a análise dos cursos de pós-graduação lato senso pois como visto nessa pesquisa, eles costumam se configurar como o principal caminho aos egressos do curso de Psicologia, provavelmente por serem mais acessíveis financeiramente que as formações oferecidas pelas sociedades de psicanálise. Assim, eles cumprem com a função de oferecer aos jovens psicoterapeutas uma alternativa de continuar suas respectivas formações. Possibilitando galgar novas etapas da formação como psicoterapeuta de base analítica, rumo à formação como psicanalista propriamente dito. Nesse sentido convém recordar que a formação do psicanalista implica em estudo, supervisão e na análise pessoal. Os três quesitos demandam investimento de diferentes ordens, as quais nem sempre estão disponíveis para o Psicólogo recém graduado. Logo, a graduação e os cursos de especialização/pós-graduação lato sensu constituem passos de um longo percurso da formação profissional daquele que almeja atuar na clínica psicanalítica. Espera-se que o presente estudo possa contribuir como reflexão e incentivo para que fomentar novos estudos sobre as vicissitudes da formação dos Psicólogos clínicos e ingresso no mercado de trabalho.














