É dor ou é amor o que sinto?
Parece uma pergunta banal, mas sabemos que a dúvida pode ser verdadeira. E, que é no âmbito da leitura psicológica que ela pode ser melhor esclarecida. Se sentimentos assim tão contraditórios podem gerar problemas de interpretação, imaginemos o que acontece com aqueles que diferem por nuances conceituais. O universo dos sentimentos, emoções e sensações pode ser bastante difuso, complexo e, por isso, exige bastante clareza epistemológica, se o queremos como certezas. A medir pelo uso cotidiano e, também, a que constatamos nos artigos, teses e preleções científicas reina ampla incorreção quando nos referimos aos afetos humanos. Ainda não introjetamos a indelével diferença entre emoções, sentimentos e afetos. É como se não soubéssemos distinguir entre estado e municípios e amalgamássemos os municípios num conjunto de territórios indistintos. Ora, se a linguagem, nosso mais importante (pelo menos o mais usado) instrumento de comunicação e inserção social e coletiva é usada de maneira imprecisa, não é de se espantar que reine tanta confusão semântica. Se quando queremos falar de um estado afetivo sólido usamos a expressão "emoção", denominamo-lo, nada mais e nada menos, que o contrário do que queremos descrever. Seguindo a brilhante exposição de José Paulo Giovanetti - aliás esse sempre foi um destaque característico, muito apreciado, desse importante professor e escritor - emoção é um termo que só deve ser usado quando um afeto for fugaz, passageiro, concreto, intenso, de baixa intelectualidade. Para defini-lo - bem como as outras sensações do mundo psíquico e emocional - ele se respalda na estruturação dos afetos feita pelo conhecido psiquiatra espanhol Enrique Rojas. Diferentemente da escola americana, a escola europeia de fisiologia também descreve nossas emoções como sendo processos límbicos de rápida e curta duração, desde que elas forem confirmadas pelos processos sólidos do nosso neocórtex, que transforma muitas de nossas emoções em sentimentos e os arquiva na nossa memória lobofrontal. A dinâmica da vida afetiva é descrita, nesse livro, nesse primeiro volume, com base na fenomenologia de Husserl, Edith Stein e o filósofo brasileiro Henrique Claudio Lima Vaz. Deles, juntamente com suas próprias reflexões de filósofo e psicólogo, Giovanetti constrói, então, a concepção de uma Antropologia dos afetos humanos.
É muito elucidativa a definição que faz da relação deles com a realidade da nossa vidaem geral e, em um outro ângulo, com a dimensão espiritual da nossa existência humana: “A fundamental característica do espírito é a sua abertura a toda a realidade”.
Uma questão importante é levantada quando, citando Max Scheller observa que (...) "um ser espiritual não está mais vinculado às pulsões e ao meio ambiente”. Significa então, que não “ressoa” mais os afetos humanos que nos faz sentir a vida “colorida” como ele o autor bem enfatiza?
Um outro capítulo de fundamental importância é quando discorre sobre a especificidade da ressonância que os afetos provocam na nossa vida psíquica. Ele ressalta que ela depende da sensibilidade de cada um de nós diante dos fatos da vida. Por esse motivo é que “... a percepção da vida é impregnada pela tonalidade afetiva e o humor tonaliza afetivamente a existência”.
E é no último capítulo desse livro, que vamos entender a necessidade de distinguirmos melhor as manifestações de nosso universo psíquico quando queremos nos referir às nossas sensações. Se afirmo que meu amor por alguém é um sentimento ou uma emoção, o uso de uma ou da outra expressão faz toda a diferença para aquele que quer saber quão sólido é o que sinto.
O poeta e filósofo espanhol Ramón María de las Mercedes Pérez de Campoamor y Campoosorio (1817 - 1901), conhecido como Ramón de Campoamor tem um poema onde um amante apaixonado diz à sua amada:
Eu te amarei, ó deusa, Eternamente e com doçura.
Ao que ela lhe respondeu:
Prefiro, como todas as mulheres, Que me ames por pouco tempo, Mas com loucura!
O que eles desejavam, finalmente, expressar, sua emoção ou sentimento?
Obviamente que quando se trata de raiva e agressividade faz toda a diferença considerar como esses processos afetivos se processam em nosso universo psíquico. Como Giovanetti mesmo acentua: “...o aspecto mais qualitativo da vida humana é a afetividade”.
Fenomenologia da Afetividade I é uma leitura essencial para quem deseja, wittengensteinianamente,(*) dizer corretamente o que tem que ser dito para que nossa vida humana tenha o “colorido” (leia-se afetividade) correta que compõe nossa felicidade como as notas de uma partitura. Seja ela de uma “Valsa Triste” (Sibelius) ou um “Ode à Alegria” (Beethoven).













