Introdução
Observa-se atualmente, ao exame das bases científicas internacionais, que é crescente o interesse pela experiência vivida por indivíduos e coletivos nos mais variados setores da vida. Desse modo, pesquisadores das ciências humanas e da saúde, espraiando-se pelas áreas da saúde, da educação, da assistência social e de estudos sobre direitos humanos, entre muitas outras, têm realizado trabalhos a partir de entrevistas abertas também denominadas entrevistas qualitativas. Provavelmente, essa opção se deve ao fato de terem percebido que essas tendem a oferecer material mais rico do que as entrevistas roteirizadas a partir de questionários implícitos que, por outro lado, são usadas com menor insegurança. Podemos compreender o dilema daquele que se confronta com a possibilidade de usar um instrumento mais empobrecido, pautado em definições prévias sobre o que é importante, ainda que usado de modo não explícito, como um questionário. Também entendemos as dificuldades no uso de um instrumento que tem poder exploratório bastante mais ampliado, como a entrevista aberta. Entretanto, a verdade, como muitos já verificaram na prática, é que o manejo de uma entrevista aberta está longe de ser tarefa fácil. Tal fato é claramente compreendido quando nos lembramos de que, rigorosamente falando, a chamada entrevista aberta corresponde, precisamente, a um instrumento sofisticado que nasceu e subsiste com muita robustez na clínica psicológica. Parece, mas está muito longe de ser uma “conversa” comum sobre as experiências pessoais acerca de qualquer tópico da vida humana. Essa diferença entre entrevista aberta e conversa casual explica-se pelo fato de que, para ser confiável e rigorosa, a primeira deve se estruturar segundo delineamentos que permitam a máxima expressão subjetiva do entrevistado, sem que este se sinta colocado na posição de um objeto que está sendo examinado ou de alguém que está sendo interrogado. Evidentemente, podemos obter a confiança de uma pessoa, em uma conversa, no mundo da vida cotidiana (Schutz & Luckmann, 1973/2001), partilhando com ela algo da nossa própria vida, narrativas de acontecimentos ou comunicações sobre nossos posicionamentos frente a esse ou outro tema. Desse modo, mantemos facilmente uma atmosfera dialógica e ética que suscita sentimentos de confiança no entrevistado. Entretanto, esse modo de conversa, bastante comum, não pode ser usado quando realizamos entrevistas abertas, porque geralmente perturba e interfere no que a outra pessoa se sente à vontade para revelar. Assim, na entrevista de pesquisa, a atmosfera deve se manter dialógica, mas, ao mesmo tempo, evitar, de modo delicado, que aquilo que emana do pesquisador, de sua personalidade, de seus interesses, de suas próprias crenças, tome o centro da cena, para permitir que a experiência vivida pelo participante possa se manifestar de modo mais livre e aberto (Bleger, 1979/1980). Portanto, parece-nos interessante resgatar o fato de que a entrevista aberta ou qualitativa consiste num encontro que requer um manejo sofisticado que os psicólogos clínicos levam um certo tempo para adquirir - já que, repetimos, não “conversam” com as pessoas que atendem. Lembrando que a entrevista psicológica se define como aquela que se volta para a apreensão da experiência vivida pelo paciente, nas mais variadas áreas de sua vida, não temos dúvidas de que as entrevistas qualitativas são, rigorosamente falando, entrevistas psicológicas, o que não significa que só devam ser realizadas por Psicólogos. Se os pesquisadores qualitativos, não graduados em Psicologia, puderem se lembrar de que entrevistas abertas são entrevistas psicológicas, obterão um enorme ganho de percepção e se colocarão em posição favorável ao aprimoramento da qualidade de suas investigações. Deixarão, assim, de pensar em termos da entrevista como livre conversação, coisa que ela definitivamente não é, para se preparem convenientemente para esse tipo de procedimento de produção de material de pesquisa. Consideramos que a obtenção de melhor preparo para realização de entrevistas abertas ou qualitativas, por parte dos pesquisadores das ciências humanas e da saúde, é o melhor caminho a trilhar e que cabe aos Psicólogos fazer contribuições metodológicas relevantes para que investigadores não-psicólogos se tornem verdadeiramente aptos a realizá-las. Isso porque é grande o interesse científico de que pesquisadores da enfermagem, da medicina, da educação, da ciência política, do direito, enfim, de qualquer área ou setor de atividade humana, realizem pesquisas qualitativas - porque, afinal de contas, seu conhecimento específico pode se revelar precioso na definição dos problemas e objetivos de pesquisa, bem como no tratamento do material que a entrevista aberta pode gerar. Portanto, incentivamos todos os pesquisadores, da área das ciências humanas, sem deixar de incluir as profissões que se alicerçam a partir da biologia humana, a realizar pesquisas qualitativas com entrevistas abertas. Chegamos, enfim, ao ponto que nos interessa mais centralmente no presente trabalho, cujo objetivo é apresentar uma modalidade de entrevista aberta especial, que se articula ao redor do uso de recursos mediadores. Esse tipo de entrevista requer um manejo mais fácil do que a entrevista aberta padrão e, consequentemente, um tipo de capacitação menos sofisticado do pesquisador. Para isso, escolhemos focar nossa atenção num particular recurso mediador, o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema (PDE-T), que tem sido nosso preferido ao longo das últimas décadas. Recursos mediadores facilitam a vida do pesquisador menos experiente no manejo da entrevista psicológica, aqui definida, vale a pena reiterar, como aquela que visa obter conhecimento sobre a experiência vivida pelo participante em qualquer setor de sua vida. Como veremos, o recurso mediador permite que o interesse do pesquisador seja revelado como interesse pela imaginação do participante - que será ludicamente guiado a focalizar o setor da experiência vivida que o problema e os objetivos de pesquisa visam iluminar. Esse modo de revelação é proposto após um período de reflexão atenta, levada a cabo pelo próprio pesquisador e pelo seu grupo de pesquisa. Dessa maneira, o pesquisador depende menos do improviso sofisticado, tão característico da clínica psicológica, que a entrevista aberta de pesquisa também demanda, o que favorece a minimização de eventuais interferências na expressão subjetiva do participante, garantindo que esse não se amoldou a expectativas do entrevistador. Cabe aqui destacar, ainda, que a proposição de atividade mediadora traz consigo, como efeito imediato, um relaxamento da atmosfera emocional da entrevista aberta para o participante. Essa é uma qualidade nada desprezível porque grande parte das pesquisas qualitativas aborda questões problemáticas e ansiogênicas, sendo interessante lembrar que frequentemente os participantes são pessoas que passaram por experiências difíceis, como enlutados, como pacientes, como acompanhantes ou como pessoas racialmente discriminadas, entre outras possibilidades. Proporcionar uma situação em que a abordagem do tema é atenuada pelo uso do procedimento mediador resulta, geralmente, na diminuição da ansiedade e da dor emocional, tornado a entrevista de pesquisa menos desconfortável, mesmo quando a vinculação do entrevistado com a situação focalizada é muito próxima. Desse modo, conseguimos evitar repercussões como aquelas, apontadas por Sionek, et al. (2020), que usaram a expressão de uma participante, relativa à entrevista, para intitular seu trabalho: “Se eu soubesse, não teria vindo: implicações e desafios da entrevista qualitativa”. Se até aqui abordamos a virtude de facilitar a realização de entrevistas abertas, tanto pela facilitação do seu manejo pelo entrevistador, como por tornar a situação menos geradora de ansiedade, no entrevistado, não podemos deixar de lembrar que o uso de recursos mediadores facilita grandemente a inclusão de dimensões interventivas no desenho investigativo. A intervenção tanto pode ser feita já durante a própria entrevista, o que corre com muita fluidez no caso de entrevistas coletivas, mas também pode ser realizada em uma segunda entrevista com os mesmos participantes. Pesquisadores com alguma experiência em manejo grupal podem, sem dificuldade, incentivar os participantes a refletirem sobre as produções que criaram imaginativamente e aí tecer comentários apropriados no sentido de ressaltar elementos que lhes tenham parecido relevantes. Claro que esse trabalho é mais facilmente executado por pesquisadores que se envolvam, no cotidiano de suas práticas, com atendimento de indivíduos e grupos. Por outro lado, a ausência de uma dimensão interventiva não compromete, de modo algum, a pesquisa daqueles que não estão preparados para a realização de intervenções.
A Entrevista Aberta na Pesquisa Qualitativa
Considerando que o uso da entrevista aberta, também conhecida como entrevista qualitativa, tem aumentado acompanhando a produtividade que vem caracterizando o campo da pesquisa qualitativa, consideramos importante tecer breves comentários sobre esse campo investigativo, que se tem revelado altamente importante no campo das ciências humanas e da saúde. Essas últimas não se incluem inteiramente, mas estão, em grande parte, situadas na esfera ontológica do ser social (Lukács, 1978/2013; Lessa, 2015), mas realizam importantes trabalhos qualitativos na medida em que atentam, cada vez mais fortemente, para dimensões afetivo-emocionais das condições de dificuldades de saúde. A pesquisa qualitativa vem sendo utilizada desde o século XIX, tornando-se mais expressiva a partir do final do século XX (Rist, 1980; Denzin at al., 2023, Willig & Rogers, 2017, Hollway & Jefferson, 2000/2013). Essa abordagem tem sido adotada por pesquisadores que se interessam pela produção de conhecimento sobre fenômenos da esfera ontológica do ser social (Lukács, 1978/2013; Lessa, 2015), que devem ser compreendidos e não explicados por meio de mensurações, controle ou replicação. Pela via do contato com a experiência vivida, que as entrevistas abertas permitem, os pesquisadores qualitativos podem realizar o objetivo de busca de apreensão de alguns dentre os múltiplos sentidos do fenômeno humano. As abordagens quantitativas dominaram as ciências humanas desde o surgimento dos laboratórios de pesquisa nos Estados Unidos, no século XIX, e mesmo depois. Procurando obter o status de ciência, as disciplinas humanas forçaram sua inserção no paradigma epistemológico positivista, considerando a amplitude e aceitação que esta desfrutava entre os cientistas e na sociedade. Entretanto, no século XX, foi ficando cada vez mais claro que o rigor, na produção de conhecimento, principalmente sobre o fenômeno humano, não é prerrogativa do paradigma positivista. O positivismo se presta bem ao estudo de objetos, aparelhos e dispositivos, ou melhor, de tudo o que pode ser abstratamente simplificado como se fosse máquina. Contudo, não é o melhor caminho para a produção de conhecimento científico quando nos propomos estudar fenômenos da esfera ontológica social humana (Lukács, 1978/2013; Lessa, 2015). Cresceu, assim, extraordinariamente, o número de investigações qualitativas em todo o mundo, com o surgimento de boa literatura, periódicos especializados e de eventos científicos. Em nosso país, a abordagem qualitativa vem conhecendo grande desenvolvimento, sendo usada por pesquisadores que aderem a diferentes referenciais teóricos. Merece destaque, nesse setor, o trabalho do Prof. Egberto Turato (2013), da Universidade Estadual de Campinas, pela sustentação metodológica que sua copiosa produção tem oferecido aos pesquisadores brasileiros, principalmente, mas não exclusivamente, na área das ciências da saúde. O ponto central, que motivou essa grande movimentação, no campo das ciências humanas, foi a percepção, cada vez mais aguda, de que o paradigma positivista não se adequa ao estudo daquele fenômeno que é o objeto de estudo compartilhado de todas as ciências humanas: os atos ou condutas dos seres humanos concretos (Bleger,1963/2018). Sendo eminentemente complexa e multifacetada, a conduta humana não pode ser abarcada por uma única ciência. Desse modo, cada disciplina toma, para si, um conjunto de características, qualidades ou aspectos dessa complexidade, definindo sua perspectiva específica. Nenhuma delas, contudo, produz conhecimento confiável se não estiver predominantemente guiada por paradigma compreensivo, ao lado do qual alguns estudos positivistas podem subsidiariamente oferecer informações de valor. Na abordagem qualitativa não se trabalha a partir da apresentação de hipóteses, mas sim do estabelecimento de problemas ou questões de pesquisa. Uma hipótese é uma afirmação, derivada de uma teoria existente, que pode ser testada por meio de evidências empíricas, podendo ser rejeitada ou mantida. No entanto, um problema de pesquisa é algo aberto, ou seja, algo que não pode ser respondido com um simples “sim” ou “não”, exigindo respostas que forneçam descrições detalhadas e, quando possível, compreensões do fenômeno (Willig, 2008). Ou seja, pode-se afirmar que o conhecimento requerido pelos fenômenos humanos exige metodologia compatível com sua inerente complexidade. Em suma, as exigências de simplificação fenomênica, inerentes ao positivismo, tornam-no impróprio para a abordagem do fenômeno humano. Entrevistas abertas são instrumentos adequados à investigação de fenômenos complexos que podem ser recortados, mas não simplificados. Voltadas sempre para a busca de compreensão da experiência vivida pelos participantes, correspondem, como já dissemos, a adaptações da entrevista psicológica que nasceu e permanece como instrumento básico da clínica psicológica (Bleger, 1979/1980). Por esse motivo, é importante, e traz precisão à nossa compreensão, distinguir dois tipos de entrevistas psicológicas: a) as realizadas com finalidades clínicas e b) as realizadas com finalidade de pesquisa. As primeiras exigem que o profissional seja graduado em Psicologia e esteja devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia da região em que atua. As segundas podem ser realizadas por pesquisadores devidamente capacitados no âmbito de investigações autorizadas por Comitê de Ética de pesquisa com seres humanos. No presente trabalho, focalizaremos apenas as entrevistas psicológicas de pesquisa. No contexto investigativo, as entrevistas abertas podem ser realizadas individual ou coletivamente. Embora essas diferentes situações exijam adaptações, em termos de manejo, são conduzidas, basicamente, sob as mesmas diretrizes, que consistem em favorecer maximamente a expressão subjetiva do participante, preferencialmente em estado de conforto emocional, dado o interesse central na produção de conhecimento sobre sua experiência vivida em qualquer setor da vida social. Acessar o que, no viver do entrevistado, provavelmente se mantém, de modo duradouro, como predominantemente presente e atuante, é um desafio porque se trata de algo a ser recortado a partir de um acontecer inerentemente intersubjetivo, que é a entrevista. Ao realizarmos entrevistas psicológicas, temos o cuidado de evitar o desconforto dos participantes, buscando diminuir a possibilidade de surgimento de ansiedade que possa provocar condutas defensivas. Atitudes acolhedoras e de demonstração de atenção e de interesse autêntico, no que o paciente comunica, geralmente contribuem enormemente para mitigar a ansiedade, ainda que seja verdade que não são suficientes, em certos casos. Não consistem, bem se vê, em prescrições que possam ser protocoladas, de modo que nem sempre são bem usadas por pesquisadores que não passarão por capacitação psicológica clínica. Quando a entrevista é realizada sem o uso de mediadores, o que é sempre mais difícil, habitualmente colocamos uma questão norteadora, que dirige a atenção dos participantes para o fenômeno a ser estudado. Em geral, a questão norteadora é aberta, ou seja, é formulada de modo a suscitar posicionamentos, considerações e narrativas. Desse modo, o pesquisador recorta e apresenta seu interesse para o participante que, por seu turno, pode se situar com maior clareza em relação ao que dele está sendo solicitado. Geralmente, a questão norteadora é suficiente para motivar o entrevistado a fornecer uma resposta alentada, explicativa. Muitos participantes ao compreenderem esse fato, e não sofrendo inibições relativas à comunicação verbal, acabam deixando fluir várias considerações. Outros necessitam ser incentivados para não se limitar a verbalizações restritas, questão que em geral é bem resolvida mediante demonstração do entrevistador de que está interessado em ouvir o participante e por meio da colocação de perguntas auxiliares ou pedidos de esclarecimento sobre pontos específicos. Isso, que parece fácil e é fácil, para quem tem formação em Psicologia e/ou desenvoltura clínica, pode se revelar complicado para muitos, que podem se atrapalhar com improvisos e/ ou fazer colocações que parecem neutras, mas acabam direcionando a entrevista para pontos que não são exatamente aqueles que o entrevistado abordaria de modo mais espontâneo. Entretanto, parece-nos bastante relevante lembrar que o uso de recursos mediadores pode facilitar em muito a realização de entrevistas por organizar o acontecer a partir da colocação de uma tarefa, de caráter visivelmente lúdico, que não envolve diretamente um posicionamento ou um relato de experiência. Esse fato tanto facilita o trabalho do entrevistador como favorece a criação de uma atmosfera mais relaxada, tornando a situação mais confortável e mais interessante para o participante. Quando organizadas ao redor do uso de recursos mediadores, a evitação do desconforto é favorecida pelo próprio modo como a situação é organizada, na medida em que aqueles conferem um caráter relaxado e brincante à entrevista. Por essa via, fica favorecida até mesmo a emergência de assuntos delicados, que serão trazidos pelo próprio entrevistado, permitindo que sejam abordados sem prejuízos e até com certo ganho, para o participante, que faz ali uma experiência de continuidade de ser diante de um tema sensível. Além disso, os recursos mediadores podem ser particularmente importantes quando o problema de pesquisa envolve questões fortemente polêmicas ou que podem exercer forte impacto emocional nos participantes. Exemplos desse tipo são pesquisas sobre a experiência de ser racialmente discriminado, que podem ser vividas dolorosamente, ou sobre a experiência de discriminar pessoas, que podem ser dissimuladas por autocrítica ou medo de ser acusado. Nesses casos, as atividades mediadoras podem adquirir uma função encobridora e, por esta via, favorecer a produção de material significativo. Aiello-Vaisberg (1995) distinguiu três situações que podem tornar interessante um certo encobrimento dos objetivos de pesquisa: a) quando, diante de uma questão norteadora, formulada de modo direto e explícito os participantes entram em estado de certa perplexidade e revelam dificuldades, emocionalmente motivadas, de articular ideias e sentimentos; b) quando os participantes expressam-se de modo politicamente correto, ocultando crenças de caráter hostil, preconceituoso e discriminatório, omitindo ou transformando propositalmente seu posicionamento, c) quando, sob ação de defesas excessivas, os participantes não têm acesso aos determinantes inconscientes de suas crenças, em razão do que expressam racionalizações, muitas vezes estereotipadas. Inúmeras são as atividades que se prestam como mediadoras em entrevistas individuais ou coletivas de pesquisa com o método psicanalítico, como o completamento de narrativas inacabadas (Granato & Aiello-Vaisberg, 2016), a invenção de histórias inspiradas pela observação de fotos ou desenhos (Simões et al., 2014) ou conversas com uma marionete (Machado, et al., 2003), entre outras. A rigor, qualquer atividade que envolva um ato imaginativo, como: “Imagine que ganhou uma viagem para a África com tudo pago. Você viaja e na volta todo mundo lhe pergunta o que achou de lá. O que imagina que contaria?” (Fialho, et al., 2012). O PDE-T é um recurso mediador que temos utilizado em diversas pesquisas, muitas das quais derivam de mestrados e doutorados (Gallo-Belluzzo et al., 2024). Consistindo no pedido de elaboração de um desenho temático, seguido da invenção de uma narrativa sobre a figura desenhada, tem sido usado tanto em entrevistas individuais como coletivas, prestando-se bem, nas mãos de profissionais experientes, ao acréscimo de uma etapa interventiva na própria entrevista ou em entrevista posterior.
Procedimento de DesenhosEstórias com Tema: Fundamentação Teórica
Desenvolvido por Aiello-Vaisberg (1999), o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema (PDE-T) deriva diretamente do Procedimento de Desenho-Estórias (PDE) idealizado pelo Professor Walter Trinca (1976), e introduzido em 1973, na Universidade de São Paulo, como um procedimento investigativo a ser utilizado na clínica, juntamente com outros instrumentos, em estudos psicológicos. A concepção do PDE por Trinca (1973), revelou-se especialmente relevante e inovadora pois rompeu uma visão da avaliação psicológica pautada na padronização, no objetivismo e na neutralidade, valorizando o encontro intersubjetivo e a singularidade pessoal e, deste modo, favorecendo a captação de movimentos emocionais do paciente a partir da empatia, da intuição e de comunicação não verbal (Trinca, 1997). Pode ser considerada um marco na trajetória institucional do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo, um verdadeiro divisor de águas rumo à valorização da experiência vivida pelo paciente, participante de pesquisas clínicas, e futuramente, do participante de pesquisas qualitativas no campo das ciências humanas e da saúde. Destinado, inicialmente, ao uso clínico, o PDE, em sua forma original, consiste em solicitar ao examinando a elaboração de cinco unidades compostas por um desenho livre seguido por uma história associada, inquérito e título para o desenho-estória. Podemos facilmente observar que a proposta de desenhar livremente é um apelo à sua imaginação, um convite ao paciente de que se manifeste como singularidade individual para, desse modo, trazer sua experiência vivida, ainda que essa não esteja conscientemente elaborada. Além de favorecer a livre expressão do paciente, o procedimento é de fácil aplicação e acabou tendo seu uso expandido para diversos públicos e ambientes profissionais, seja em consultório particular ou em instituições de diferentes tipos. Também passou a ser usado em pesquisas na área da Psicologia clínica, em mestrados e doutorados, conforme pode demonstrar consulta ao site www.teses.usp.br. Provavelmente em função de sua versatilidade, surgiram as variações do PDE que são o Procedimento de Desenhos de Família com Estórias (Trinca, 1989), que explora as relações intrapsíquicas e intersubjetivas relacionadas às famílias, e o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema (Aiello-Vaisberg, 1999), o qual explicita um tema específico a ser investigado, prestando-se ao estudo de imaginários coletivos, percepções coletivas e representações sociais. Enquanto o Procedimento de Desenhos-Estórias e o Procedimento de Desenhos de Família com Estórias foram criados com finalidades diagnósticas, para depois serem usados em pesquisas da área da Psicologia clínica, a variedade temática, que privilegiou uma solicitação que direcionasse a atenção do participante para uma determinada área da realidade vivida, correspondente ao problema e aos objetivos de pesquisa, nasceu na pesquisa e apenas posteriormente veio a ser utilizada na clínica psicológica. Nascendo na pesquisa, o PDE-T demonstrou que investigadores sem graduação em Psicologia não tinham dificuldade em se apropriar do procedimento, sentindo-se à vontade por poder estabelecer a entrevista em campo lúdico e relaxado, que apelava à imaginação do participante. O Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema se realiza por meio de uma solicitação, aos participantes, de que, usando sua imaginação, elaborem um desenho a partir de um tema estabelecido em função dos interesses investigativos do pesquisador - que lhe é comunicado de modo claro, como: “gostaria que você imaginasse um adolescente dos dias de hoje, uma criança adotada, um paciente aqui do Caps, e que fizesse um desenho dessa figura”. A seguir, dedicamo-nos a transmitir a ideia de que não estamos preocupadas com a qualidade do desenho, mas interessadas no que o participante imagina, que o desenho serve para chegarmos à sua imaginação, como um jogo, uma brincadeira. Num segundo momento, os participantes são convidados a inventar uma história sobre a figura desenhada. Em entrevistas coletivas, pedimos aos participantes que escrevam a história no verso da folha. Em entrevistas individuais podemos pedir para o participante escrever ou escrevemos nós mesmos, em função do que percebemos que será mais fácil para a pessoa. É importante reiterar que o Procedimento de Desenhos-Estórias com tema, a exemplo do procedimento original e da derivação focada na família, é um recurso que visa facilitar a comunicação emocional, gerando material gráfico-narrativo passível de ser considerado a partir de diferentes referenciais teóricos compreensivos, sejam fenomenológicos, sócio-históricos, junguianos ou, entre outros, diferentes teorias psicanalíticas. Ou seja, além de poder ser utilizado por pesquisadores de diferentes formações que investigam fenômenos humanos, pode também ser fecundamente apropriado à luz de diferentes perspectivas teórico-metodológicas, inclusive por pesquisadores que preferem se ater a descrições empíricas aparentemente não-teóricas que, ao fim e ao cabo, correspondem, para aqueles que admitem que o campo científico se organiza de modo plural, a um posicionamento epistemológico possível.
Investigação com Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema
Temos utilizado o PDE-T em estudos que versavam, inicialmente, sobre psicodinâmica de representações sociais e, posteriormente, sobre imaginários coletivos, entendidos como fenômenos que se fundam na experiencia vivida por indivíduos e coletivos, valendo lembrar que outros conceitos, como percepção social, cognição cultural ou crenças culturais, entre outros, também podem ser usados. Há mais de 30 anos, foi publicado o primeiro artigo de um estudo que utilizou o PDE-T (Aiello-Vaisberg, 1991) e, desde então, esse recurso mediador vem gerando novos frutos, em modalidades investigativa ou investigativa-interventiva. Seu caráter investigativo está relacionado ao fato de que permite produção de conhecimento sobre a experiência vivida de modo a favorecer maximamente a expressão subjetiva dos participantes, vale dizer, de acordo com o que buscamos fundamentalmente quando realizamos entrevistas abertas. A dimensão interventiva, não obrigatória, mas possível e interessante, relaciona-se ao fato da atmosfera lúdica e relaxada, que se instala, criar um espaço propício à troca de impressões, sentimentos e ideias relativas à experiência que é vivida, que se maximiza em entrevistas coletivas. Essa troca tem permitido elaborações reflexivo-existenciais que podem gerar efeitos subjetivos benéficos tanto para participantes como para pesquisadores, segundo uma linha de trabalho que pode ter caráter pedagógico-conscientizador, segundo inspiração freireana (Streck et al., 2018), ou de promoção de saúde (Bleger, 1966/1992). Para que possa atingir o objetivo da pesquisa, o investigador qualitativo precisa prestar especial atenção à formulação da proposta que será apresentada aos participantes. Usualmente, tal proposta envolve figuras humanas que experenciam uma determinada situação de vida. Por exemplo, o pesquisador pode solicitar o desenho e a história de “uma família que chega para mediação, em processo de dissolução do casamento e disputa de guarda dos filhos” (Fonseca-Inacarato et al., 2023), “uma mulher que tem uma criança autista” (Fabris-Zavaglia et al., 2022), “uma mulher bem-sucedida aos quarenta anos de idade” (Batoni, et al., 2021). É possível fazer o estudo junto a pessoas que vivem diretamente a situação proposta no PDE-T, mas, também, com pessoas que estão indiretamente relacionadas ao tema, tais como profissionais, familiares, entre outros. Por exemplo, podemos pedir a adolescentes que imaginem e desenhem um adolescente dos dias atuais (Pontes et al, 2010), ou solicitar a professores, não envolvidos em suas vidas com adoção, que imaginem uma criança adotada para desenhá-la e inventar uma história sobre ela (Pontes et al, 2008). Evidentemente, esperamos que a ansiedade seja maior quanto mais próximos estiverem participantes e problema de pesquisa, mas, em ambos os casos, temos verificado que os recursos mediadores, dentre os quais o PDE-T, exercem efeitos de relaxamento. Alguns estudos utilizaram uma versão adaptada do PDE-T, ao acrescentar a solicitação de uma segunda história no futuro (Fonseca-Inacarato et al., 2023). Essa alteração se mostrou interessante por permitir que, a partir da colocação de uma perspectiva temporal, houvesse um incremento de compreensão do material. A solicitação de uma nova história, no futuro, pode ser proposta quando a temática investigada é um processo que implica mudanças, ao longo do tempo, nas relações entre as pessoas envolvidas ou na experiência vivida dos participantes da pesquisa. Esse tipo de variação é possível porque o PDE-T é um recurso mediador, que pode ser adaptado a diferentes necessidades investigativas, e não um teste padronizado, o qual não seria possível alterar.
Considerações finais
Esperamos ter demonstrado que quando organizamos entrevistas abertas, na pesquisa qualitativa, por meio do uso de recursos mediadores, como o PDE-Tema, tornamo-nos capazes de resolver dois problemas que enfrentam os pesquisadores que se voltam para o estudo do fenômeno humano, tal como vem sendo pesquisado no campo das ciências humanas e da saúde. O primeiro problema é o do manejo - geralmente difícil, da entrevista aberta que é, pelo que tem sido demonstrado, a melhor forma de produção de material qualitativo. O segundo problema é o da criação de um ambiente maximamente relaxado para o participante, evitando incremento de ansiedade, por razões éticas. A nosso ver, ao solicitar a realização de uma tarefa por meio do uso da imaginação, o entrevistador vê o manejo da situação facilitado. Por outro lado, ao se ver ludicamente solicitado a usar sua imaginação, o entrevistado tende a se sentir menos ansioso e mais à vontade, o que favorece a realização da entrevista. Tendo chegado, a partir de uma trajetória na qual confluem o interesse pela experiência vivida dos participantes, que é, de fato, o ponto central das pesquisas qualitativas, a partir do qual o conhecimento é produzido, a entrever a fecundidade e versatilidade da articulação de entrevistas abertas ao redor do uso de recursos mediadores, dos quais o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema é um interessante representante, percebemos que, por suas características, resolve os dois problemas acima apresentados, conforme indicamos ao longo do artigo. Sendo assim, finalizamos o presente artigo convidando pesquisadores qualitativos a se aproximarem da entrevista aberta com mediadores dialógicos, recomendando-lhes, especialmente, o uso do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema.














