As três fontes de mal-estar discutidas por Freud, quais sejam, a finitude do nosso corpo, as forças da natureza e nossas relações com os outros foram ressignificadas a partir da pandemia. No momento em que esse editorial é escrito, a COVID-19, no Brasil, é responsável pela morte de mais de 555 mil pessoas. Há mais de um ano, inúmeras transformações em nossa vida ordinária têm desvelado a fragilidade da vida humana e, em solo nacional, escancaram a desigualdade e as condições de vulnerabilidade social. Morte, medo e insegurança se tornaram temáticas cotidianas. Sentimentos conflitantes de privação, castigo, perda, sacrifício e contrariedade, devido às necessárias medidas sanitárias de distanciamento físico, exacerbam a constatação de que vivemos um momento histórico disruptivo.
A clínica psicanalítica não passou incólume e teve que agregar ao seu vocabulário novos termos, como teleatendimento, atendimento on-line, virtual ou remoto. Como bem descrevem Verztman e Romão-Dias (2020, p. 280), “Fomos obrigados a deixar presencialmente nossos consultórios, ambulatórios e outros serviços sem aviso prévio. Tivemos que improvisar atendimentos em casa, muitas vezes precisando dividir o espaço com outros familiares e, não menos relevante nesse momento, com uma conexão de internet precária”.
De repente, sem tempo de elaboração, analista e analisante passaram a se encontrar no chamado ciberespaço, como propõe o arquiteto e filósofo francês Paul Virilio (1993). Esse autor analisa as transformações na percepção de tempo em nossa era teleinformatizada, em que há um apagamento da separação entre o próximo e o distante, além de superexposição, sem ocultação entre público e privado.
Com o uso de plataformas virtuais que viabilizam as sessões de análise, em tempos pandêmicos, o distanciamento e o achatamento dos corpos impuseram novas configurações e invenções. Nestas plataformas, ocorre o inusitado fenômeno de ver a si mesmo através da tela. Nos encontros presenciais, não vemos nossos rostos, a não ser pelo olhar do outro. Quais os efeitos dessa permanência constante da nossa imagem? Tal como Narciso, nosso destino seria sucumbir?!
O olhar, na tradição lacaniana, é entendido além do órgão sensorial da visão, a partir do conceito de pulsão escópica. Suas múltiplas dimensões, como olhar, ser olhado, provocar o olhar e esconder-se, sofrem modificações no ciberespaço, afinal, para que os olhares se encontrem, os olhos têm que se direcionar para a câmera. Difícil sustentar tal laço, tão inusitado.
Se as tecnologias das comunicações já vinham sendo utilizadas por alguns psicanalistas, em momentos específicos e pontuais, em circunstâncias que impossibilitavam o deslocamento até o local de atendimento presencial, havia muito ceticismo em relação à extensão dessa prática, por exemplo, ao recebimento de novos pacientes; à clínica com crianças; ao trabalho com psicóticos; ao atendimento de pessoas com ideações suicidas e ao tratamento institucional. Pois bem, a urgência inflingida pela pandemia fez ruir essas certezas imaginárias e nos obrigou a um trabalho tenso (e intenso) de reformulação e retorno a algumas questões fundamentais: Afinal, o que é uma análise? Quais as implicações da ausência física dos corpos de analista e analisante em um processo analítico?
Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Lacan (1958/1998) está preocupado em estabelecer as diretrizes da psicanálise para além de seus aspectos imaginários, a partir do questionamento do então tradicional setting psicanalítico, o qual determinava, entre outras coisas, a duração e a quantidade de sessões semanais. A clínica psicanalítica é orientada pelo sujeito do desejo, sempre singular, e, por isso, de acordo com Lacan, quaisquer padrões fixos de intervenção seriam contraditórios à própria Psicanálise. Diante dessa perspectiva, o ineditismo imposto pela pandemia não impossibilita que uma análise aconteça, contudo impõe uma reflexão acerca da tática e da estratégia, orientadas pela política da Psicanálise, a qual, como bem indica Lacan, coincide com a sua ética.
Este segundo número do Dossiê “Outra clínica, outra escola: psicanálise e educação em tempos de pandemia”, da Revista Estilos da Clínica, reúne textos a respeito da clínica. Os autores problematizam os limites e as possibilidades de flexibilização do setting e da técnica, ao discutir o caráter inventivo das experiências com a clínica online, assim como a dimensão sociopolítica do sofrimento, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social. Destacam-se vivências singulares que analisam o dispositivo institucional, o atendimento de crianças com impasses graves na constituição psíquica, assim como as vicissitudes do trabalho com adolescentes.
Parodiando Lacan, que dizia que um analista não deveria recuar diante da psicose, é possível afirmar que, apesar dos inúmeros desafios, os psicanalistas parecem não ter recuado diante da demanda por análise, em tempos de pandemia e atendimentos virtuais. Esse é o testemunho dos autores que compõem esse dossiê.














