Desde o final do ano de 2019, a pandemia de COVID-19 vem provocando impactos profundos e riscos a grande parcela da população do mundo, corroborando para a ampliação de mecanismos de controle social diante dos efeitos da contaminação do novo vírus. O confinamento e o isolamento social foram as medidas mais recomendadas pelos órgãos de saúde e aderidas pelos órgãos governamentais quando adotavam uma política de controle da epidemia. Esses mecanismos nos evocam a formulação central de Michel Foucault (2008) de que o corpo é o alvo de toda política, trazendo formas de controle e restrições de liberdade postas pela ação de controle do Estado.
Apesar de não haver seletividade quanto aos que são sucetíveis de infecção pelo vírus, segundo dados do boletim epidemiológico da cidade de Belo Horizonte1, os sujeitos negros, pobres e periféricos constituem a maior parcela de vítimas pela doença. Em consideração a uma parcela da juventude ainda mais vulnerável nas atuais condições, o projeto Desembola na Ideia, vinculado ao Observatório da Juventude da Faculdade de Educação/UFMG, criou uma alternativa para atender esses jovens no contexto emergencial. O acolhimento psicossocial e as oficinas de arte-educação oferecidos pela equipe de psicanalistas, artistas e educadores sociais passaram a ser realizados por meios remotos, com grupos em uma plataforma de mensagens instantâneas e ligações telefônicas.
O presente artigo visa a refletir acerca de como a vigência de políticas sobre os corpos posta pela pandemia provoca efeitos nos adolescentes vinculados ao Desembola na Ideia. Analisaremos também os modos de subjetivação que foram suscitados nos diálogos com os jovens nesse período, a partir da experiência de atenção e intervenção nos grupos remotos e virtuais. Além disso, nos perguntamos quais questões e reflexões podem ser apreendidas pela experiência da atenção remota aos jovens durante o distanciamento, em relação ao laço social e às intervenções psicanalíticas com esses sujeitos.
Como metodologia, utilizaremos a análise de vinhetas clínicas, com base em fragmentos de falas colhidos nos grupos virtuais, durante as atividades remotas desenvolvidas no período entre março e junho de 2020. As vinhetas clínicas são trechos ou passagens pequenas, sem nomeação ou com uso de nomes fictícios dos sujeitos envolvidos nas falas ou nas ações, que servem para ilustrar as diferentes questões evocadas pela prática desenvolvida pela equipe do projeto. Além disso, categorizamos os fragmentos colhidos nos grupos virtuais e, concomitantemente, fizemos o levantamento bibliográfico a fim de fundamentar as discussões e as elaborações teóricas.
Entre a biopolítica e a necropolítica na pandemia
Michel Foucault propõe o conceito de “biopoder”, no primeiro volume de História da sexualidade - A vontade de saber (Foucault, 1976)2, para caracterizar o modo como o poder se estabeleceu em relação ao corpo social no período da história moderna. “Isso foi nada menos do que a entrada da vida na história”, escreve Foucault, “[…] isto é, a entrada dos fenômenos próprios à vida da espécie humana na ordem do saber e do poder - no campo das técnicas políticas” (1976, p. 132). Nesse sentido, as técnicas de governo biopolítico se ampliaram para além das esferas legais ou punitivas, estendendo a forma de poder para o corpo individualizado.
A expressão do biopoder se dá de duas maneiras: primeiramente como visão de que alguns corpos são como máquinas e por isso devem ser medicalizados e docilizados para que se possa extrair a maior potência produtiva deles; e, também, o corpo-espécie, e sobre eles atua o que Foucault (1976, p. 131) chama de biopolítica. Essa concepção massifica os indivíduos para melhor controlá-los em esferas como as de fluxos migratórios, gestão de natalidade e epidemias. Segundo o autor, o biopoder é o modo como os corpos são geridos pelas instituições estatais com o objetivo de provocar a vida de determinados corpos e deixar morrer outros.
Assim, em contextos como o atual, de uma epidemia que atingiu escala global, as noções de corpo biológico e soberania política se entrelaçam. As formulações foucaultianas nos permitem refletir sobre o paradoxo da biopolítica: um ato de proteção implica que a comunidade permita a si mesma a autoridade de controle de seus próprios corpos, em garantia da ideia da própria soberania. Isto é, diante dos riscos de morte colocados no contexto da pandemia, se tenta construir uma noção de coletividade, na qual as medidas de controle não são uniformes para todos os sujeitos de uma mesma comunidade, consentindo e legitimando restrições de direitos e liberdades concernentes a uma determinada fração desse grupo social.
Paul Preciado, em seu texto Aprendiendo el virus (2020), sintetiza essa condição de que “[...] o vírus atua à nossa imagem e semelhança, apenas reproduz, materializa, intensifica e estende a toda a população, as formas dominantes de gestão biopolítica e necropolítica que já estavam a funcionar no território nacional e nos seus limites” [tradução nossa]3. Isto é, a gestão da epidemia radicaliza e inscreve, no corpo individual, as suas políticas de vida e morte das populações já instauradas no território nacional.
Na coletânea do seu curso “Em defesa da sociedade”, Foucault argumenta que o racismo é “[...] um meio de introduzir afinal, nesse domínio da vida de que o poder se incumbiu, um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer” (1976/2005, p. 304). Ou seja, com o aparecimento da biopolítica, o racismo se torna uma forma de fragmentar o continuum biológico, a fim de criar hierarquias entre diferentes grupos humanos e, portanto, diferenças raciais na forma como estes últimos estão expostos ao risco de morte.
A exposição diferencial dos seres humanos aos riscos sociais e de saúde é, segundo Foucault, uma característica saliente da governamentalidade biopolítica. O racismo, em todas as suas formas, é a “condição de aceitabilidade” (Foucault, 1976/2005, p. 306) de tal exposição diferencial de vidas em uma sociedade em que o poder é exercido, principalmente, para proteger a vida biológica da população e aumentar sua capacidade produtiva.
O atual controle da pandemia é um excelente exemplo, o que temos é uma “biopolítica por meio da mobilidade” (Foucault, 1988). De fato, como somos constantemente, às vezes dolorosamente lembrados, a biopolítica também é uma questão de governar a mobilidade - e a imobilidade.
A realidade brasileira em face da pandemia traz à tona a ideia de que as “fronteiras” porosas e líquidas entre as pessoas de diferentes raças, origens sociais, nacionalidades merecem ser consideradas uma das principais formas em que o poder é exercido. Nesse sentido, o historiador camaronês Achille Mbembe, ao conceituar a necropolítica como expressão máxima do poder soberano dos Estados, ou seja, o direito de matar e não de fazer viver, coloca a questão sobre a biopolítica que é: como vivem os corpos deixados para morrer? O autor utiliza-se do conceito de Estado de exceção para ampliar a concepção foucaultiana de fazer viver e deixar morrer. Isto é, o controle é efetivado não somente a partir das formas de vida para a produtividade, mas da definição de corpos feitos lançados à morte.
Ainda que, em termos biológicos, o vírus tenha seu potencial de infecção posto sobre todos os corpos humanos, não fazendo distinções sociais ou culturais, seu contágio amplo mostra como esses critérios estão entrelaçados, expondo as fraturas mais dolorosas do fracasso de nossa sociedade de classes. Ou seja, a pandemia acaba exacerbando o que se produz em termos de soberania ou exclusão, proteção ou estigma, vida ou morte. Nesse sentido, a gestão política evidencia a produção de vidas mais matáveis que outras e os efeitos dessa necropolítica. Um exemplo disso pode ser visto na implementação de medidas de segurança, como o isolamento social, por sujeitos e grupos que têm a possibilidade de aderir (ou não), por condições materiais e/ou subjetivas, enquanto a outros não cabe escolha, já que o trabalho (cada vez mais precarizado) e o risco de morrer de fome são condições básicas para não interromper as atividades, a despeito da chance de contágio.
Diante das tensões entre os mecanismos de controle e os meios de proteção social, radicalizadas pela gestão política, é preciso considerar nesta análise as condições da desigualdade racial estruturada no Brasil. Para isso, faz-se necessário destacar o caso de João Pedro4, de 14 anos, que foi assassinado dentro de sua casa, por policiais em uma operação em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, no dia 18 de maio de 2020. O adolescente negro foi alvo da violência brutal de policiais do Estado, em sua própria casa, no período correspondente à vigência de medidas de isolamento social em razão da pandemia. É evidente que esse evento não é isolado na história do país, e o recente Atlas da violência5 (2020) nos escancara essa realidade: nos últimos 11 anos, o número de homicídio de pessoas negras subiu 11,5%, enquanto o número de pessoas não negras caiu 12,9%. Desse modo, num país em que, a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado6, o real da morte colocado frente aos adolescentes - negros, pobres e periféricos - não surge apenas com o risco de contágio e infecção pelo coronavírus.
Aqui, as contribuições de Michel Foucault e Achille Mbembe convergem para pensar sobre a cena política que se estrutura, mesmo em um contexto crítico de pandemia, intensificando-se ao tornar alguns corpos menos dignos à vida do que outros. E, ao se considerar os sujeitos adolescentes, na sua maioria negros e pobres, que são acolhidos pelo projeto Desembola na Ideia, faz-se necessário levantarmos questões sobre a adolescência e seus impasses em relação ao laço social para pensarmos no que se produz nesse contexto.
A adolescência e os impasses em relação ao laço social
Contamos com uma definição de adolescência como um tempo de transição, uma passagem da infância à idade adulta, dos referenciais psicanalíticos, sociológicos e antropológicos. Essa tripla fundamentação teórica permite pensar a adolescência como uma travessia que sai do campo familiar para o social, insistindo no caráter transitório e momentâneo dessa época de vida.
Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud escreve “As metamorfoses da puberdade”. As referências de Freud são o momento de latência das pulsões, que se deslocam para o momento de manifestação da sexualidade. Este ensaio, o terceiro do conjunto, apresenta a ideia de que, na puberdade, há “[...] um distanciamento com respeito à autoridade dos pais, o único que cria a oposição tão importante para o progresso da cultura, entre a nova geração e a velha” (Freud, 1905/2006, p. 149).
Durante essa travessia, o adolescente deve se separar da criança que o habita e começar a “olhar para o mundo real”, como Freud nos lembra. Para colocar essa questão relativa a esse luto infantil e o recadastramento do sujeito no laço social, não podemos esquecer que a adolescência é uma passagem que pretende balizar esse deslocamento na sociedade, um deslocamento que, diríamos, é psíquico e espacial. Na verdade, a psicanálise nos ensina que a puberdade e, mais particularmente, o surgimento do Real nos corpos desestabilizam o sujeito, que deve então se engajar em um trabalho de reorganização subjetiva, tendo por propósito mudar de lugar no laço social.
Se, para Freud, a tarefa que o adolescente tem que cumprir no momento da puberdade é uma constituição de certa relação com um objeto:
Com a chegada da puberdade introduzem-se as mudanças que levam a vida sexual infantil a sua configuração normal definitiva. Até esse momento, a pulsão sexual era predominantemente auto-erótica; agora, encontra o objeto sexual (FREUD, 1905, p. 143).
A tarefa a se levar a cabo na adolescência é a reconstituição do objeto sexual. A corrente sexual passa a se deslocar da corrente autoerótica para escolher um objeto de gozo. Existem casos em que a corrente sexual permanece autoerótica, levando o sujeito a se satisfazer com o próprio corpo, mas, no caso do primado da pulsão genital, a relação se coloca diante de modos de escolha do objeto externo. Para Freud, o adolescente deve cumprir uma relação com um objeto diferente.
A relação com um objeto diferente traz à tona um encontro sexual com um Outro. A adolescência é o tempo em que as mudanças provocam os destinos possíveis na excitação. Os conflitos psíquicos estão na adolescência principalmente porque essa é uma fase de transição. As dimensões do amor, do gozo e do desejo sofrem alguns desenodamentos, e isso não se dá de maneira harmoniosa. As pulsões parciais retornam na adolescência com bastante intensidade, e certas bizarrices começam a fazer parte da vida desses sujeitos.
Freud compara as transformações da puberdade com a perfuração de um túnel que começa simultaneamente pelos seus extremos. O modo com que Freud formula essa metáfora autoriza a compreender que construir o túnel é o mesmo que atravessá-lo, ou seja, encontrar um modo de elaboração simbólico do efeito dessa passagem (Freud, 1905/2006).
O despertar da adolescência irrompe quando o jovem sujeito se vê interpelado por um acontecimento ou mesmo vários que atravessam seu corpo durante a puberdade e para os quais suas construções e soluções, suficientes até então, não são o bastante para posicionar-se e formular respostas outras. Ao se defrontar com o desamparo, a angústia e com a insuficiência de suas soluções da infância, o sujeito se situa num trabalho psíquico de construção singular de respostas possíveis quanto ao encontro com o Outro sexo e com a alteridade - e também implicadas a uma lógica discursiva, social e política vigente, em convergência com a proposição de Miriam Debieux Rosa e Viviani Carmo-Huerta (2020). Há que se reconhecer certa tendência para a redução do despertar da adolescência ao desenvolvimento físico ou à irrupção do desejo sexual, mas é necessário considerar que esse processo não pode ser desenraizado dos efeitos produzidos pelo contexto social, que implica essas formas de encontro com o Outro sexo e com a alteridade (Rosa & Carmo-Huerta, 2020).
Na adolescência o sujeito é convocado a ressignificar as moções pulsionais, tendo que se deparar com o real para que haja o encontro da alteridade, do Outro sexo, pela construção de uma ficção que dê conta do sexual para suportar a angústia traumática. Ocorre que esse despertar da adolescência, muitas vezes, pode ser suspenso em um apagamento, “quando a cena política cerceia e impede a resposta na posição de sujeito, exigindo a posição de resto para viver” (Rosa & Carmo-Huerta, 2020). Assim, os desamparos estrutural e social se articulam na produção da angústia.
Com a possibilidade de escuta, os adolescentes podem transitar entre alguns tempos de subjetivação: responsabilização, identificação pelo pior, atuações, emudecimento e redescoberta da palavra e simbolização desse excesso por outros caminhos. Então, a partir do (des)encontro entre o real pulsional e a cena política, o que resta é a experimentação e a invenção, que permite o erro e o equívoco, de modo a situar-se em uma narrativa ficcional que o oriente, considerando um mínimo amparo simbólico do Outro, de um outro social que o acompanhe nessa construção singular, ou seja, permitindo que a criação singular de cada um outorgue o exercício de sua “erótica” e da afirmação de um laço discursivo possível para sua própria história.
Como desembolar na pandemia?
O Desembola na Ideia é uma instituição vinculada ao Observatório da Juventude da Faculdade de Educação da UFMG, e desenvolve atividades de atenção psicossocial combinadas à arte com adolescentes em situação de vulnerabilidade, em Belo Horizonte. O projeto Desembola, considerado como um grande canteiro de construção coletiva, composta por ateliês de arte e atendimentos clínicos, se comporta e transborda em um espaço que tanto representa em sua condição arquitetural e em sua localização na cidade, quanto produz significações e invenções pelos sujeitos que o frequentam. Diante do avanço da pandemia no país e das medidas de isolamento social tomadas no estado de Minas Gerais e na cidade de Belo Horizonte, as atividades, que eram tão vinculadas a seu espaço, tiveram que ser transformadas para dar continuidade ao trabalho de atenção e acolhimento e ao acompanhamento psicossocial dos adolescentes, mesmo quando o encontro físico não se mostrar possível em razão das medidas de segurança.
Como alternativa à situação inédita, uma nova proposta de ações virtuais foi concebida; o aplicativo de mensagens instantâneas e as ligações telefônicas foram as tecnologias de comunicação escolhidas, por permitirem a maior possibilidade de acesso e contato com os adolescentes e seus familiares.
Como criar um espaço de conversa que se destaque do espaço familiar, e que nem por isso seja um espaço de ruptura e exclusão, de forma a garantir tanto a particularidade necessária para a experiência do adolescente, como também o engajamento desses futuros adultos em uma comunidade? Dessa forma, a ação, que envolveu toda a equipe do projeto, foi realizada em dois eixos principais: (1) o contato individualizado com cada adolescente, pelo seu psicólogo de referência, ofertando a escuta; (2) e a criação de grupos-ateliês no aplicativo de mensagens instantâneas, com todos os adolescentes atendidos, sendo um deles imcumbido de proporcionar um encontro entre equipe e jovens antes e depois das oficinas, e os demais correspondentes a cada atividade coordenada por uma dupla de artistas-educadores.
Esta pesquisa parte da experiência nos grupos virtuais, viabilizada pelo aplicativo de mensagens instantâneas, na qual foram realizados o acolhimento dos adolescentes e as oficinas virtuais. A proposta de ações virtuais teve como objetivo, além de dar continuidade às atividades de atenção psicossocial, orientadas pela psicanálise e pela arte, o acolhimento das situações enfrentadas no período de pandemia, sobretudo relacionadas à segurança e ao risco de violência.
Em relação à realização de oficinas virtuais, estas aconteceram diariamente, compreendendo a formação de turmas e contemplando o interesse dos adolescentes pelas variadas linguagens artísticas: música, culinária, dança, fotografia, moda, capoeira, jiu-jitsu, arquitetura e artes visuais. Nesses encontros virtuais, a equipe de arte-educação enviava propostas e provocações que atravessavam a vivência cotidiana no período de quarentena, para instigar a produção artística e a invenção de cada um. A partir daí, havia participações das educadoras, das estagiárias, dos artistas e, claro, dos adolescentes, para construções pelo encontro, trocas, conversas e reflexões.
Artista-educadora:
- “Hoje vamos desembolar uma culinária retratada. Quem topa?”
Lucas7[adolescente]:
- “aahhh pára, né no que isso
não tem outra coisa pra fazer nesse grupo não
nem cozinho meu deus
de rocha mesmo
eu nem cozinho
cês vão colocar esses negócio de cozinha aí?
arruma um trem pras outras pessoa aí
eu posso desenhar? que que eu posso fazer?” (Transcrição de áudio)
Artista-educadora:
- “Lucas! Vamos fazer fotos e desenhos!”8
A vinheta acima fez parte de um grupo que se formou pelo encontro das artistas-educadoras responsáveis pelas oficinas de retrato e de culinária, a que se deu o nome: Culinária Retratada. Nela, um adolescente, que não participava presencialmente da atividade de culinária, não se interessou pela proposta e sugeriu uma nova atividade, já que tinha muito prazer em desenhar, tendo inclusive compartilhado no grupo fotos de seus desenhos. Além desse encontro, em outros dias, foram propostas outras atividades, como: a produção de máscaras, como um novo jeito de fazer o equipamento de segurança tornado obrigatório pela pandemia; o desenho livre de paisagens da janela da casa de cada um e de objetos encontrados pela casa; a composição de letras de funk, que eram cantadas e enviadas por mensagens de áudio para o oficineiro de música, e assim eles construíam a produção sonora, que podia ser compartilhada posteriormente. Uma das letras que se tornou música foi a seguinte:
Rafael9[adolescente]:
“todos nós vamos ganhar
na quarentena queria tá no lugar
pra aproveitar o céu, a terra e o mar
vamos passar por cima dessa barreira que
quer nos derrubar
Deus vai nos abençoar
na primeira palavra de João diz
maior espírito que habita em nós
do que o que habita no mundo
então meu irmão
persista
que nós já somos vencedores em Senhor Cristo Jesus”
(Transcrição de áudio de música)
A experiência de atenção aos adolescentes de modo remoto nos evocou diferentes questões ao longo de sua realização. E, ao nos colocarmos diante do material compilado pelas conversas e produções em grupo, elegemos três categorias de análise, na tentativa de elaborar, a partir das próprias falas, algo das possibilidades e impossibilidades de uma proposta de atenção e acolhimento psicossocial, intermediados pelas tecnologias de comunicação a distância, a adolescentes em situação de vulnerabilidade num contexto de pandemia. Na primeira categoria, discutiremos sobre a (não) implicação dos adolescentes nas medidas de segurança, resumidas no imperativo “Fica em casa”, na especificidade do contexto social e psíquico em que se inserem. Na segunda, apresentaremos as possíveis criações de endereçamentos aos analistas, pelos adolescentes, diante da angústia e do desamparo, por via dos dispositivos disponíveis. E, por último, refletiremos sobre os impasses de intervenção com os adolescentes no cenário das atividades na virtualidade, diante da insubstituição da importância da presença do corpo, do espaço e da temporalidade e seus efeitos.
• Ficar em casa
O que percebemos é que o imperativo “Fique em casa”, tão amplamente disseminado pela prefeitura de Belo Horizonte, como mote do isolamento social, supõe, primeiro, que todas as pessoas têm casa, e que essa casa oferece um espaço acolhedor e seguro para quem vive dentro. Durante reuniões com a equipe de psicanalistas e artistas, a hipótese que surgia era a de que o espaço no qual os adolescentes do Desembola vivem e circulam não existe “ficar em casa”. Como disse um dos psicanalistas da equipe: “A casa dos meninos é a rua”. Ao longo das atividades pelo aplicativo de mensagens instantâneas, tivemos algumas poucas pistas de como eles estavam encarando o isolamento e a pandemia.
Mateus10[Adolescente]:
- “pobre q nem eu n pega isso n”
Pedro11[Adolescente]:
- “drx nós q e pobre e só a fé msm”
Como ilustrado na vinheta acima, retirada de uma conversa entre dois adolescentes, no grupo da plataforma de mensagens instantâneas, o lugar social que os adolescentes do Desembola ocupam: pobres, negros e periféricos, não é para quem são direcionadas as políticas de isolamento social e prevenção ao vírus. Ao nomearem que o que eles têm é apenas a fé, por serem pobres, isso por si só já denuncia o descaso do Estado para com os seus corpos. Como foi desenvolvido no início do texto, a biopolítica do isolamento social da pandemia não afeta esses corpos. Não estamos mais falando de um Estado que cuida e, por consequência, normatiza; trata-se do Estado que exclui, sitia e, por fim, extermina. Os modos de subjetivação da necropolítica aparecem nas falas dos adolescentes, cientes de uma situação de abandono e desalento. Nesse sentido, a política da morte, a adolescência e o atendimento remoto trazem uma outra maneira para compreendermos o laço social com esses sujeitos.
Mateus [Adolescente]:
- “como é que tão suas quarentena rapaziada?”
Maria [Adolescente]:
- “Mo tedio msm... fikando so dentro d cs er mo paia”
Pedro [Adolescente]:
- “Moo paia kk”
Mateus [Adolescente]:
- “A mais da uma zoada na rua ctlgd q n para”
*
Arte-educadora:
- “diz aí, tem algum ingrediente em casa pra gente inventar uma receita?”
João [Adolescente]:
- “que ficar em casa o que… tem nada de ficar em casa não, sô. tem que ficar é na rua. é uai. ficar fora da semi, é ficar de boa”
*
Kátia [Adolescente]:
"Ah para, eu to afim de dar uma festinha entendeu? Só pros amigos, é uai... Quem anima gente?? Não tem jeito aqui de goma de rocha, não tem nada pra fazer nessa quarentena não uai, negocio de ficar dentro de casa cansa, pode nem juntar os amigos pra fazer uma festinha, sacanagem”
Sabemos todos que o sujeito se constitui no campo do Outro. Essa primeira aparição do sujeito no Outro o introduz na lógica da alienação, que forma um muro de linguagem. Nesse sentido, o sintoma como formação do inconsciente estruturado como uma linguagem é um efeito de significado, uma metáfora. No entanto, essa forma de subjetivação nos leva a construir a noção de que o Outro não existe para esses sujeitos - os adolescentes contemporâneos, corpos que se esvaziam na impossibilidade de alienação no Outro.
Percebemos na fala dos sujeitos adolescentes uma maneira de excluir o Outro da linguagem. As questões que permearam o discurso social da prática do isolamento a partir de uma biopolítica não aparecem subjetivadas nesses adolescentes. Os sujeitos não conseguem produzir um saber diante das suas reais condições políticas e psíquicas. Estamos diante de modos de sofrimento que são psíquicos (a inexistência do Outro) e sociais (a necropolítica).
Além de uma segregação, que está no laço social a partir desse discurso, encontramos, também, falas que não se conectam ao discurso do Outro. Os efeitos de uma inscrição no Outro para produzir uma cadeia significante e um saber sobre a segregação social não incidem sobre esses sujeitos.
As falas dos adolescentes demonstram como as tentativas contemporâneas de localizar o gozo são feitas a partir de frases ou sintagmas que se reduzem a códigos bem restritos a determinados grupos sociais - busca-se enlaçar-se a um Outro igual, sem se conectar a um Outro diferente. Encontramos formas de localização de gozo no Outro de maneira muito precária, produzindo um significante que se reduz a si mesmo. Temos, então, um efeito da linguagem que traduz os modos de subjetivação dos adolescentes contemporâneos. Esses efeitos que afetam os vínculos com o Outro compreendem um gozo opaco, em que o objeto a não se extraiu de maneira definitiva. Nesse caso, temos modos de subjetivação que passam pela errância, na qual os corpos não conseguem criar laços que passam pela metáfora e pela condensação, mas sim pela lógica metonímica, produzindo um deslizamento significante contínuo. A figura de linguagem que melhor representa esses sujeitos é a metonímia, por se tratar de uma subjetividade que desliza.
Em alguns casos, eles não conseguem mais articular a língua deles com a de um Outro, eles acabam criando gírias e formas de se expressar que dizem respeito a um grupo fechado e coeso. O manejo da linguagem não lhes serve precisamente para se esquivar, para fingir, mas para estar conectado no real do corpo e do gozo. Portanto, é importante ser sensível aos sinais de fala ou manifestações do corpo, que testemunham, para o sujeito, uma dificuldade de relacionamento com ele mesmo e com o outro.
A prevalência da metonímia sobre a metáfora acontece em razão de um curto-circuito que se dá na tentativa de encontro com o Outro. Em detrimento de um discurso metafórico, encontramos expressões, gírias e formas de denegação do Outro que se expressam em fenômenos de códigos, como tentativas de localizar o gozo no Outro. Dessa maneira, a equipe de psicanalistas e educadores do Desembola aposta em caminhos possíveis de falas que trazem esses fenômenos de codificação para uma inscrição de gozo, às vezes fracassados ou bem-sucedidos.
Em muitos casos, o comportamento dos adolescentes tenta criar expressões e códigos de linguagem. Algo que parece uma metáfora, mas mobilizada um processo diverso. Não é substituir um significante por outro, mas um som por outro, que produz um intervalo, porque estritamente falando, será um som após o outro. Esse intervalo é o local de uma retomada, da substituição na cadeia. Lacan se interessou muito por esse fenômeno da musicalidade da linguagem e expõe definições interessantes a respeito: “É sempre com a ajuda das palavras que o homem pensa. E é no encontro dessas palavras com seu corpo que algo está descrito” (Lacan, 1975, p. 125). Em relação à ligação entre palavras que conduzem à produção de efeitos de linguagem, diz ele: “As transformações de sentido de palavras parecem ser vizinhas de processos de alteração estudados por filólogos e linguistas na evolução da linguagem comum. Estes são produzidos por contiguidade de som ou mais exatamente pelo parentesco musical das palavras” (Lacan, 1931, p. 39).
A não existência do Outro (Estado e família) expressa também a liquefação dos grandes significantes-mestres que criam o discurso. Para Jacques-Alain Miller, a inexistência do Outro traz implicações no laço social, isto se deve à precariedade do nosso modo, que doravante apenas se situa no mais - de - gozar. Daí a pergunta: se não há mais significantes-mestres que deixam o gozo ser negativizado e localizado, o que acontece agora nesse lugar?
Esses fenômenos de exclusão dos corpos pela ausência de significante-mestre no campo da linguagem produzem a separação do corpo com o Outro, e formam um tipo de subjetivação que passa pela errância, pelo acontecimento de corpo (tatuagens), pela metonímia e pelos fenômenos de códigos de linguagem (Castilho, 2017).
Com relação à categoria de errância, observamos que ela passou a ser uns dos nomes do sintoma da contemporaneidade; o que temos é a errância como efeito daquilo que não se transmite no campo do Outro. A errância dos adolescentes contemporâneos é efeito de um sujeito que não se reconhece no desejo do Outro. Assim, os vemos em situação de rua, emigrantes, pichadores, adolescentes em conflito com a lei, sujeitos errantes, sem orientação de um espaço corporal e de uma temporalidade, sendo que essa errância desqualifica um elemento central no campo da identificação.
A errância é um traço daquele que se desloca de um ponto a outro, recusando a fixação, errância que retrata a perda de um lugar no desejo do Outro. A falta de um ponto de identificação produz múltiplos nomes passageiros que ancoram o mundo dos adolescentes. Esse momento também aponta para os efeitos da transmissão que a cultura, a família e o meio social produzem nesses sujeitos. As particularidades familiares não são mais suficientes para tratar o real em jogo, para orientar as escolhas, ou para ir ao encontro do Outro sexo. Em cada caso, se trata de apontar os elementos característicos desses sujeitos, a saber, o que eles vêm manifestar de sintomático, como um apelo ao dizer.
Esses adolescentes não são errantes ou nômades; pode se tratar de um modo de vida e investido em movimento, principalmente, e os passos que são dados consistentemente colocam-nos no âmbito de um projeto orientado. Esses ligamentos entre os adolescentes possuem uma velocidade metonímica. Os mecanismos de deslocamento são muito mais presentes que os de condensação e de fixação. Nesse sentido, o que existe é uma espacialização do tempo, na qual a ação antecede a palavra. Os mecanismos de consciência corporal, juntamente às fixações, correspondentes à noção de um eu separado do grupo, praticamente desaparecem. A predominância do espaço sobre o tempo é a encruzilhada fundamental por onde se realiza e se operacionaliza a constituição das formas de subjetividade no hoje.
• Novos jeitos de desembolar
João [adolescente]:
“to no odio”
Bárbara [psicanalista]:
“que foi?”
João:
“problemas familiares”
No espaço virtual do “Desembola na Quarentena”, os adolescentes podiam mandar mensagens de texto e de áudio, e também imagens durante o período de tempo em que o grupo estivesse aberto - como também ocorria no espaço físico, de 9 horas até 17 horas, de segunda a sexta-feira. Certo dia, um adolescente envia uma mensagem sem remetente específico: “to no odio”. A partir desse código de mensagem, a psicanalista de referência, que já acompanhava o jovem anteriormente, pergunta o motivo da mensagem, e é respondida com apenas duas palavras: “problemas familiares”.
Quando o adolescente utiliza a expressão “to no odio”, encontramos uma frase solta e descontextualizada. Sabemos que podemos sentir e ter ódio, mas não estar no ódio, como é utilizado pelo adolescente na frase. Esse é um exemplo de fenômenos de códigos de linguagem como tentativa de inscrição no campo do Outro. A intervenção da psicanalista consegue produzir um saber, apesar do precário recurso simbólico desse adolescente.
Assim, a psicóloga entra em contato com o adolescente, no modo privado, para oferecer a escuta e algo mais pôde emergir e ser “desembolado” dali. Então, o grupo funcionava também como uma via de acesso aos adolescentes pelos psicanalistas - como “isca”, conforme nomeação informal nas reuniões de supervisão -, para nos aproximarmos dos adolescentes durante o período de pandemia.
É interessante perceber, nesse relato, que algo pôde ser acolhido em meio ao grupo do aplicativo de mensagens instantâneas, em razão de um detalhe fundamental: “a psicanalista de referência que já acompanhava o jovem anteriormente”. A angústia e o sofrimento aparentemente disforme ou sem endereçamento, que poderia ter vazão em ato, encontra uma via familiar, mesmo em um dispositivo estranho para esse encontro. Desse modo, não podemos dizer de uma criação de novo dispositivo, na medida em que algo já estabelecido na relação transferencial pela presença se manteve, possibilitando que fosse “desembolado” de um jeito novo.
Embora não seja estabelecida estritamente uma relação de tratamento analítico, a transferência entre analista e analisando contribui para pensarmos o que a experiência analítica anterior favorece nas ações remotas com os adolescentes.
A relação desses adolescentes com a linguagem se apresenta a partir de um modo singular, que não tem efeito de alienação. Os corpos dos adolescentes, em vários momentos, estão separados do Outro, subjetivando esses sujeitos duplamente segregados: em uma segregação social, que foi abordada neste artigo a partir do conceito de necropolítica, de Achille Mbembe; e em outra segregação, a da linguagem, discutida aqui a partir da psicanálise. As duas segregações podem ser aferidas a partir da condição de dejeto desses sujeitos.
Levando-se em consideração que não ocorreu a extração de objeto nesses sujeitos, a prática de conversas remotas pela plataforma de mensagens instantâneas é uma maneira de criar um laço social, na tentativa de fazer com que alguns adolescentes possam “se salvar pelos dejetos” (Miller, 2010). A partir do momento em que o sujeito fala, há a possibilidade de esvaziamento do gozo, o apaziguamento de uma certa angústia, acopladas a maneiras de criar bordas e contornos para um corpo que se subjetiva de forma errante e fragmentada.
A experiência de trabalhar com esses sujeitos, que subjetivam a condição de dejeto, é a aposta no laço social (mensagens de código, errância, metonímia e acontecimentos de corpo), o que não significa que o analista deve tentar inserir o sujeito dentro de uma estrutura simbólica, mas sim trabalhar com o que há nessa subjetividade para criar uma nova trama simbólica que permita ao sujeito se circunscrever no Outro.
• Online e offline
Hugo12:
“dá ideia gente
teve desembola hoje?
vai ter amanhã também?”
Educadora:
“Matheus, vai ter desembola virtual! Vamos fazer oficina aqui pelo zap, hoje a partir das 14h até as 16h. Bora??!?”
*
José13:
“Boraaa
Fala cmg kkk”
Educadora:
“Vish José! Já tá acabando aqui a oficina. É de 14h às 16h 😢”
José:
“que isso uai
não é possível
até aqui eu atraso…”
Nesta última categoria de análise, nos colocamos diante dos efeitos e dos impasses em relação à presença e à ausência dos corpos dos sujeitos adolescentes e da equipe do projeto no cenário de intervenção na virtualidade. Nas atividades, no espaço virtual dos grupos do aplicativo de mensagens instantâneas, algo do modo de gozo dos adolescentes surgia, como se expressava, outrora, nos encontros no espaço físico do Desembola: identificações em formações de grupo, atuações, acontecimentos de corpo ou agressividades. Quando esses eventos ocorriam no atendimento remoto, o recurso disponível para intervenção e produção era a palavra: escrita, pelo texto das mensagens, ou falada, pelas mensagens de áudio. Sem o corpo daquele que analisa e nem o do adolescente, o que se coloca é o grande Outro simbólico, justamente o ponto de maior dificuldade no laço para esses jovens. Todavia, quando essas atuações eram apoiadas nas contingências dos acontecimentos evocados no espaço físico, diferentes possibilidades de intervenção pela equipe mostravam-se possíveis, tendo os objetos e o corpo como mediadores da relação com outro.
Então, compreendemos como o acolhimento e a criação dos espaços virtuais para as oficinas apresentam uma função de “prótese” para a manutenção de algo do laço com os adolescentes, diante do real colocado pela pandemia e pela violência já vivida por esses sujeitos. Isso também podia ser percebido nas diversas vezes em que os adolescentes procuravam alguém da equipe, perguntando: “Quando que o Desembola volta?”. A referência ao Desembola é reforçada como esse espaço do encontro do corpo e da presença.
O lugar que esses sujeitos adolescentes ocupam é o da inexistência do Outro, em que uma mensagem não chega ao campo social. Se o Outro não existe, a rejeição é algo fundamental e constitutivo, uma rejeição ancorada em sua própria constituição subjetiva, que os coloca como sujeitos fora do laço social. Desse modo, no texto Em direção à adolescência, Miller (2015) propõe pensar a adolescência na contemporaneidade, a partir de como esses sujeitos se apresentam por um laço social frágil, manifestando-se com um gozo que retorna no próprio corpo, revelando a opacidade do gozo autista, com o objeto a no bolso. Nos adolescentes atendidos pelo Desembola, essa forma de gozar pode ser verificada em fenômenos como os já citados anteriormente - mensagens de código, errância, metonímia, e acontecimentos de corpo, percebidos também nas atividades remotas.
A partir desse cenário, é necessário um outro tipo de manejo clínico com esses jovens, para que haja alguma possibilidade de construção de um saber de cada um. As especificidades do tratamento com os adolescentes são acirradas pelas novas formas de comunicação através das redes sociais, como a interpretação das mensagens de código, a delimitação e bordeamento da imagem corporal e a construção de narrativas e ficções que vislumbram um Outro.
Nesse sentido, Lilany Pacheco apresenta as dimensões colocadas nas tramas das redes sociais:
As redes sociais, por serem estas uma modalidade de laço social contemporâneo, guardam consigo as particularidades de nosso contexto social contemporâneo, a saber - o simbólico que não é mais o que era, as turbulências do real, e as compensações imaginárias face aos efeitos de desinserção advindos destas transformações. No final de “A salvação pelos dejetos”, Miller conclui que o analista não tem que se inserir no laço social prescrito pelo discurso do mestre, uma vez que ele introduz o laço social específico que se tece em torno do analista como dejeto, do analista como representante do que do gozo resta não socializável. Não seria pela vocação de dejeto que encontraríamos as afinidades entre o discurso analítico e as redes sociais? (Pacheco, 2014, p. 3).
O espaço das redes sociais, aqui representado pelos grupos de conversa virtuais, demonstra que, no encontro com o Outro, há ainda uma produção de saber. Ou seja, na relação com o outro, mesmo mediada pela virtualidade, há um saber a ser produzido. A maneira como os adolescentes utilizam o aplicativo de mensagens instantâneas mostrou que eles estavam experimentando algo e tentando fazer algo com a nova situação. Os adolescentes enviaram imagens de foto e vídeo de suas casas, descrevendo o que estavam fazendo, de acordo com a proposta de cada oficina.

Foto 3 Foto enviada por adolescente durante ateliê de artes visuais, a partir da proposta de imaginação e invenção pela releitura de máscaras durante a pandemia.
Através desses compartilhamentos de imagens do dia a dia de cada adolescente, foi criado um espaço virtual de troca da realidade que circunscreve a intimidade dos adolescentes para o coletivo; o íntimo se torna público. Ao encontrar formas de mediação, por recursos imaginários, como na foto acima, foi possível contornar os espaços virtuais e, ao mesmo tempo, criar um corpo para cada sujeito, delimitando-se até onde cada um pode intervir, e cada um podendo dizer do seu desamparo. O espaço virtual teve como objetivo dar suporte a esse desamparo, que, em vários momentos, se desdobrava no campo da imagem e da palavra, mas que também trazia alguns aspectos da impossibilidade do laço social.
Então, temos a construção de um lugar cujas ficções se conformam na articulação de um significante a outro significante, situando o advento do discurso que permite estabelecer um vínculo entre os seres falantes. O espaço virtual da fala construído pela equipe do Desembola na Ideia oportuniza um confronto com o Outro, conduzindo a um discurso que possa ser articulável. Essa aposta no desejo e no laço social nas falas surge com o desdobramento da estrutura ficcional do Outro, encontrando as condições para seu reconhecimento, para a construção de um saber singular de cada um dos adolescentes, ainda que pelas mensagens de texto ou de áudio.
Considerações finais
Na apresentação deste artigo, sustentamos que os sujeitos participantes do projeto Desembola na Ideia estão submetidos a uma dupla segregação: a segregação de um Estado que não os inclui nas políticas públicas de controle dos corpos e do biopoder, juntamente com uma segregação do laço social sem a inscrição no campo do Outro. A primeira expressou-se de forma acentuada durante a pandemia do COVID-19, por meio de discursos de descaso e de abandono adotados pelo governo atual, assegurando que apenas determinados sujeitos, seguindo grupos biológicos e classe social, seriam integrados às medidas de segurança e de isolamento social. A expressão máxima do racismo determina que alguns corpos são mais dignos à vida do que outros, como é o caso dos adolescentes atendidos pelo Desembola na Ideia, que são colocados diante do real da morte diariamente. Sobre isso, Achille Mbembe reafirma que a principal forma de controle dos corpos pelo Estado não é pela forma de viver, mas sim de matar: por meio de processos técnicos silenciosos, na industrialização da morte e da burocracia como forma discreta de fazer morrer.
Por sua vez, a segunda, a segregação do laço social, tem uma relação com o campo do sujeito, esta segregação é consequente da ineficiencia da linguagem de extrair o objeto pequeno a. Isso quer dizer que não se operou um objeto que deixado como resto. O princípio freudiano da constituição do sujeito a partir de uma exclusão primária, a rejeição original de um objeto ou gozo, para alienar ao campo da linguagem, fica questionável nesses adolescentes.
Nesse sentido, as intervenções remotas propostas pelos artistas-educadores e psicanalistas de acolhimento desses adolescentes, submetidos a essas duas formas de segregação, tiveram uma função de “prótese” para a manutenção de algo do laço, diante do real colocado pela pandemia e pela violência já vivida por eles. O que foi observado é que, no espaço virtual no qual as oficinas aconteceram, as intervenções por parte da equipe são limitadas por não incluírem a dimensão do corpo, tanto dos adolescentes, quanto dos analistas. Apesar disso, a manutenção do vínculo com os jovens durante esse período de isolamento social serviu como dispositivo para produzir efeitos de ligação (Bindung) na construção do laço social.
A construção do laço foi possível através da interpretação dos códigos de mensagens, dos contornos das imagens corporais e do fortalecimento dos vínculos, mesmo que precários, entre os adolescentes e a equipe da instituição. A aposta de construções de narrativas, para se produzir um saber diante do desalento resultante do sofrimento sociopolítico, se orienta pela proposta de Jacques Rancière (2019, p. 58) de que “o real precisa ser ficcionado para ser pensado”. Na tentativa de atuar sobre corpos com marcas de um simbólico precário, a prática do psicanalista e do educador, é procurar construir formas inventivas e arranjos imaginários que produzam laço social, Estes laços sociais podem efeitos de gambiarras, se articulando a práticas discursivas, sejam elas as mensagens de código ou discursos estereotipados. Dessa forma, as atividades de intervenção remota puderam se orientar nessas novas formas de intervenção e criação de amarrações e gambiarras.
















