SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.26 número2Oficinas terapêuticas para meninos e meninas com Transtorno do Espectro do Autismo: estratégias e possibilidades durante a pandemia de COVID-19“Da cidade à rede, tem parada?”: Estação Psicanálise na pandemia de Covid-19 índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.26 no.2 São Paulo maio./ago. 2021  Epub 10-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v26i2p283-296 

Dossiê

Experiências de atendimento online a crianças e adolescentes em tempos de COVID-19

Experiencias de terapia en línea con niños y adolescentes en tiempos de COVID-19

Online therapy experiences for children and adolescents during the COVID-19

Expériences d'assistance en ligne pour les enfants et les adolescents en temps du COVID-19

*Psicanalista, docente no Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. E-mail: suely.aires@ufba.br

**Graduanda em Psicologia na Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. E-mail: biamoscon@gmail.com

***Psicóloga pela Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. E-mail: chamuscaclara@gmail.com

****Psicóloga pela Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. E-mail: leila.mignac@hotmail.com

*****Graduanda em Psicologia na Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil. E-mail: luisacguerra25@gmail.com


Resumo

Este artigo propõe a discussão em torno dos atendimentos online realizados por estudantes de Psicologia de uma universidade pública, orientadas pela Psicanálise, tendo em vista a pandemia COVID-19. Com o distanciamento físico imposto como medida sanitária para controle do coronavírus, foi necessário reinventar a prática com crianças e adolescentes desenvolvida em três contextos diferentes, a saber: estágio em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi); extensão no projeto Atendimento Psicanalítico em Clínica Escola; e extensão no projeto Adolescência, Acolhimento Institucional e Clínica do Desamparo. Buscou-se abordar aspectos que sustentam o dispositivo analítico frente à mudança na modalidade dos atendimentos, visando sustentar uma reflexão teórica, ética e política.

Palavras-chave: psicanálise; atendimento psicológico; crianças; adolescentes; covid-19

Resumen

Este artículo propone un debate en torno a la atención psicológica en línea que prestan los estudiantes de psicología de una universidad pública, guiados por el psicoanálisis, en el contexto de la pandemia de COVID-19. Con el distanciamiento social impuesto como medida sanitaria para controlar el coronavirus, fue necesario reinventar la práctica con niños y adolescentes desarrollada en tres contextos diferentes, a saber: pasantía en un Centro de Atención Psicosocial Infantil y Juvenil (CAPSi); extensión universitaria en el proyecto “Asistencia Psicoanalítica en una escuela clínica”; y en el proyecto “Adolescencia, Acogida Institucional y Clínica del Desamparo”. Se buscó abordar los aspectos que aseguran el dispositivo analítico ante el cambio en la modalidad de atención, buscando sustentar una reflexión teórica, ética y política.

Palabras clave: psicoanálisis; atención psicológica; niños; adolescentes; covid-19

Abstract

This article aims to discuss online consultations performed by Psychology students at a public university, guided by Psychoanalysis, in view of COVID-19 pandemic. Social distancing was imposed as a sanitary measure for the control of the coronavirus and this regulation compelled us to reinvent the psychological practices with children and adolescents. The practices are developed in three different contexts, namely: a traineeship at a Psychosocial Care Center for Children and Adolescents (CAPSi); an university extension project "Psychoanalytic practices at training clinic"; and the project "Adolescence, Institutional Care and Clinic of Helplessness". The article seeks to discuss aspects that maintain the analytical device in the face of changes in psychological care, in order to support a theoretical, ethical and political reflection.

Keywords: psychoanalysis; psychological care; children; adolescents; covid-19

Résumé

Cet article porte sur l'assistance en ligne proposée par des étudiants de Psychologie d'une université publique, guidée par la psychanalyse, en raison de la pandémie de la COVID-19. Avec la distanciation sociale imposée comme mesure sanitaire pour contrôler le coronavirus, il a fallu réinventer la pratique avec des enfants et des adolescents. Des pratiques sont développées en trois contextes différents, à savoir : un centre de soins psychosociaux pour enfants et adolescents (CAPSi); le projet d’extension universitaire "Consultations psychanalytiques dans la clinique publique"; et le projet "Adolescence, Accueil institutionnell et Clinique de la Détresse”. Le but est d’aborder les aspects qui soutiennent le dispositif analytique face aux changements de type d'assistance, servant d’appui à une réflexion théorique, éthique et politique.

Mots clés: psychanalyse; accueil psychologique; enfants; adolescents; covid19

Tempos de COVID-19, de perigo sem bordas, de encontro com o real. A pandemia do coronavírus significou um ponto de inflexão no modo como a humanidade vem se organizando socialmente. Desde março de 2020, as medidas de distanciamento físico e a quarentena nos impuseram o desafio de rearranjar o cotidiano, o trabalho e o convívio. Com a nova rotina que se avizinhou, os questionamentos não cessam e batem cada vez mais à porta. É inevitável pensar sobre as angústias que acompanham a invasão tão abrupta e intensa do real da pandemia, em seu caráter disruptivo e inapreensível, e que se apresenta em cada sujeito de forma singular - seja pelo medo, pelo tédio, pela agudização de sintomas.

Em meio a esse contexto nasce, portanto, este trabalho, fruto do esforço coletivo em fazer uma reflexão sobre experiências de atendimento online com crianças e adolescentes em três contextos diferentes: na clínica escola do Serviço de Psicologia de uma universidade pública, na extensão Adolescência, Acolhimento Institucional e Clínica do Desamparo1, e em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi). Vale sinalizar que nos situamos no lugar de estudantes orientadas e supervisionadas em relação à ética da psicanálise e ao desejo de cada uma de nós nos diferentes percursos. Apesar das nuances de cada campo, este artigo tem como foco discutir as especificidades da modalidade de atendimento online a esse público.

Os sujeitos em acompanhamento se encontram na infância ou na adolescência, fases cronológicas do ciclo vital com suas próprias peculiaridades e moduladas por tempos lógicos importantes. Para além dos marcadores biológicos que delimitam esses períodos de desenvolvimento dos sujeitos aqui em questão, foi imprescindível lidar com a pluralidade das infâncias e adolescências nos três contextos de trabalho que subsidiam esse relato, pensando as formas como cada um singulariza a vivência, as estratégias que utilizam para se haver com o real da pandemia.

Tem início, então, a empreitada de atender online - experiência nova e desafiadora que exige constante reinvenção da prática psicanalítica. A ênfase na dimensão de pesquisa/investigação teórica decorre do que se põe à prova e instiga a propor mais perguntas que respostas. Em última instância, será sempre preciso partir da experiência clínica e deixar-se guiar pelos princípios fundamentais da psicanálise, a saber: a associação livre e o manejo da transferência. É importante destacar também que não se trata de produzir uma discussão dos casos em si, mas de fazer esse movimento retroativo da clínica em direção à teoria. Sendo a clínica um método de investigação e, ao mesmo tempo, de prática em psicanálise (Paulon, Ravanello e Dunker, 2018), não há como dissociar teoria e prática a fim de refletir sobre o atendimento online.

Alguns questionamentos vêm servindo de guias: o/a praticante da psicanálise se faz presente no espaço virtual? Como se dá a prática psicanalítica online? Há repetição, recordação e elaboração online? Como manter e sustentar o endereçamento da associação livre ao praticante de psicanálise, no um a um, caso a caso? Compreendemos que a virtualidade está longe de constituir um mundo apartado do mundo dotado de presença física em que vivemos; atualmente, as redes sociais ocupam um amplo espaço em nossas vidas e isso fica ainda mais evidente com a pandemia, afinal, o isolamento físico não se traduz necessariamente em isolamento social. Ainda assim, advertidas pelas particularidades inerentes a esse novo modo de convívio, buscamos aqui lançar luz aos impasses e potencialidades da experiência de sustentar algum trabalho analítico online. Assim como a psicanálise não recua diante da psicose, ou diante da infância, ousamos afirmar que também não recuaremos frente aos atendimentos online.

Há, de fato, um compromisso ético-político do ato clínico: é preciso estar ao lado dos sujeitos, que, talvez mais do que nunca, se deparam com o desafio de se haver com o real. O vírus irrompe como o real, impossível de ser visto ou ouvido. O real é limite, impossibilidade de inscrição e sempre resta diante das tentativas de abordá-lo totalmente (Faria, 2019). É no sentido de contornar esse real por meio do simbólico e do imaginário que caminha o trabalho nos atendimentos2. A palavra tem essa função de simbolizar o que rasga o peito e, por vezes, precisamos ir além dela - por isso a arte ou, na clínica com crianças e adolescentes, os desenhos, a enunciação que se faz com o corpo, o jogo e a brincadeira. Tomamos tudo isso em sua dimensão significante e apostamos em sua extensão, em seu deslizamento.

Nessa direção, como lembra Angela Vorcaro (1999, p. 97) ao parafrasear Alejandro Daumas, “cabe ao analista construir um lugar no qual o que é insuportável do real se transforme em impossibilidade de dizer, ou seja, restrinja o real do ser ao que há de efetivamente indizível, através do que a condição simbólica permite suportar e demarcar”. A tarefa que se impõe é, sobretudo, a tarefa de escutar o dizer no que é dito - para que, assim, o sujeito não precise atuar ou passar ao ato, e para que suas palavras não sejam lançadas ao vento, ao serem endereçadas, dirigidas a um outro.

Por isso, este artigo propõe levantar os princípios fundamentais que sustentam uma prática de inspiração psicanalítica, mesmo na modalidade online, e está dividido em seções temáticas, nomeadamente: oferta; setting e dispositivo; transferência; corpo; singularidades.

Oferta

Antes da pandemia, vínhamos conduzindo trabalhos orientados pela psicanálise a partir do encontro entre nós, estudantes, e as crianças e adolescentes, sob supervisão da docente coordenadora do projeto e dos estágios. Esses trabalhos foram interrompidos de forma abrupta. O que inicialmente parecia ser uma pausa mais curta, revelou-se depois muito longa. Diante do prolongamento das medidas sanitárias de distanciamento social, o desafio de atender online se colocou. Partimos, então, para reiterar nossa presença frente a cada sujeito ou seus cuidadores, num movimento de nos mostrarmos disponíveis no WhatsApp, na ligação ou SMS, atentas para possíveis agudizações de sofrimentos.

Foi necessário ainda um segundo movimento de oferecer diretamente os atendimentos online ou de acolher a demanda daqueles que a fizeram. No início de abril de 2020, começamos a inventar soluções para viabilizar a manutenção da prática analítica ou, ao menos, da transferência. Sempre no caso a caso e guiadas pela noção de que a oferta gera a demanda, fizemos a aposta no acolhimento do que surgisse a partir de então. Alguns sujeitos responderam de pronto à sugestão das sessões online e à proposta de um horário semanal, garantindo uma frequência. Nos casos em que não foi possível seguir com os atendimentos semanais, foi importante reafirmar a disponibilidade da escuta.

Em relação às crianças, o acompanhamento foi oferecido inicialmente para os cuidadores. Colocamo-nos à disposição para oferecer possíveis orientações, caso desejassem, advertindo-os de que a mudança de rotina poderia mobilizar as crianças de alguma maneira. Posteriormente, no entanto, a necessidade de estabelecer um contato mais direto com as crianças se fez presente e o atendimento online foi oferecido.

Setting e dispositivo

Neste trabalho, sustentamos que, no atendimento online, o dispositivo analítico se mantém ainda que rearranjos do setting sejam necessários. O setting refere-se a certa disposição, uma certa cena, um enquadramento que contempla os arranjos práticos para a realização do atendimento. Ao introduzir as sessões de tempo variável, por exemplo, Lacan faz uma alteração do setting psicanalítico sem, contudo, afetar diretamente a proposta do dispositivo analítico.

Entende-se por dispositivo, um conjunto multilinear, composto por fios de natureza diferente que seguem direções e traçam processos em movimento (Deleuze, 1988/2016). Nesse sentido, um dispositivo é reconhecido por seus efeitos, pelo que daí decorre (Foucault, 1979), tanto de repetição, quanto de novidade. Essa referência ao dispositivo analítico considera a condição mínima que permite uma análise: o endereçamento sob transferência, em associação livre, para alguém que possa, por meio da atenção flutuante, escutar o encadeamento significante em que se pode reconhecer a posição de sujeito. Trata-se de um dispositivo que se ancora na presença do analista, do analisando, e na suposição de que há inconsciente, cujos efeitos se dão em relação ao desejo. Desse modo, é possível afirmar que as mudanças que foram necessárias para a oferta do atendimento online implicaram diferenças no setting, mas não necessariamente no dispositivo.

As condições de uma análise não são fixas, definitivas e amarradas. É importante saber manejá-las, adaptá-las e atualizá-las, no sentido de fazê-las funcionar a serviço da transferência. Assim, retomados os atendimentos, destacamos a necessidade de repactuar as condições do “acordo” inicialmente estabelecido: relembrar o caráter sigiloso, incentivar um espaço privado e definir qual modalidade seria possível: chamada de áudio, de vídeo, mensagens. Alguns desafios se apresentam no momento de redesenhar o setting: a falta de celular ou a necessidade de utilizar o aparelho de outra pessoa (seja educador ou familiar), bem como o telefone fixo; falta de acesso à internet, ou de um espaço onde possa estar sozinho/a, principalmente em relação aos adolescentes em acolhimento institucional; e no que se refere às crianças, o manejo dos jogos, dos objetos e a presença do corpo - que nos são tão caros - precisaram ser rearranjados. E, ainda o desafio do lugar de estudantes, que vem com o receio de uma aproximação à posição de amiga ou colega, de parecer um bate-papo virtual; ou seja, de que a transferência imaginária ocupasse a cena e inviabilizasse a associação livre e a atenção flutuante. É o momento, portanto, de ter a delicadeza de compreender o que é viável para cada um e não impor previamente um enquadre específico, ao mesmo tempo em que se mantém uma escuta que permita a enunciação do sujeito.

Fragmentos dos atendimentos ilustram essa travessia. Em alguns encontros via telefone fixo, ouve-se a voz do outro lado evanescer e silenciar, gradualmente, após a intervenção de um terceiro, ente familiar, que também estava presente no mesmo espaço físico. Para casos em que o sujeito já é bastante invadido por um Outro, não assegurar a privacidade pode ter efeitos devastadores. Por vezes, a solução para garantir algum sigilo foi encontrada pelo sujeito, protegendo a conversa por senha (cifrando duplamente) para que não fosse lida pelo Outro que monitora o celular; ou, em outro caso, escrevendo por mensagem algo que não podia ser dito em voz alta na chamada, por conta da presença de um terceiro no mesmo cômodo.

Nas sessões iniciais, se faz necessário um reenlace: “estou aqui para escutar o que o preocupa. O que tem incomodado?”. Esse é um modo de instaurar novamente o dispositivo. Para aqueles que se aproximam da infância, foi importante produzir, para as crianças e para os cuidadores e responsáveis, uma ordenação desse novo espaço e dessa nova modalidade de sessão. As quatro paredes que garantiam a privacidade não existem mais e algumas sessões são feitas com a presença de outras pessoas: de uma mãe, que precisa ser chamada para descongelar o vídeo que a criança pausou sem querer; ou de um pai, cujo corpo oferece abrigo para a criança se esconder durante uma brincadeira. A presença dos pais, elemento invariável na análise com crianças, agora é física e, mais do que nunca, precisa ser manejada do ponto de vista técnico, no decorrer da sessão. Devemos pedir para que se retirem? Devemos incluí-los nas brincadeiras que aparecem na sessão? "Trata-se de sustentar o tempo e o espaço para o desenrolar de um fazer imprevisível, em que a criança possa entrar e sair do enquadramento, se dispondo ou não a esse encontro junto a seus pais" (Jerusalinsky, 2020). Enfatizamos, portanto, a insistência do endereçamento do sujeito via encadeamento significante, e estamos advertidas do manejo da transferência, agora sustentada via Wi-Fi e linhas telefônicas.

Transferência

Em “O início do tratamento” (1913/2010), Freud afirma que a regra fundamental da psicanálise é a associação livre, e é nela que apostamos. Remanejadas as condições do setting analítico, a entrada na sala vira uma mensagem no celular, o olhar se dá através das telas, a voz chega aos ouvidos pelo fone; mas a escuta permanece, o desejo se mantém e a transferência se sustenta. E, se há transferência, há possibilidade de análise.

Ancoradas no ensino de Lacan, partimos do pressuposto de que o endereçamento do saber inconsciente ao analista, que ocupa o lugar de sujeito suposto saber, é o que torna a análise possível. Nesse sentido, Lacan se refere à transferência como uma “atualização da realidade do inconsciente” (Lacan, 1973/1985, p. 139). Num primeiro momento, a demanda inicial de se desvencilhar do sintoma se transforma em demanda de amor. Assim, cabe ao analista fazer surgir a dimensão do desejo nessa demanda de amor, que é efeito da transferência, e transformar o sintoma em enigma, ligado ao desejo de saber. Por isso, Lacan define a transferência como “amor que se dirige ao saber” (Lacan, 2001/2003, p. 555). Em outras palavras, os sonhos, os chistes, os lapsos e tudo da ordem do inconsciente será endereçado ao analista, que é o “bem precioso que causa o desejo” (Quinet, 2009, p. 31).

Nessa direção, insistimos, como praticantes da psicanálise, no desejo do analista para sustentar o encontro com o sujeito do inconsciente e seus padecimentos do real, para fazer a análise acontecer e manter a tagarelice endereçada dos sujeitos. O desejo do analista é uma função, um operador essencial que permite a formulação por parte do analisando de um desejo que pede reconhecimento (Rinaldi, n.d.). Lacan afirma que a transferência é um fenômeno em que estão incluídos, juntos, o sujeito e o analista:

Por trás do amor dito de transferência, podemos dizer que o que há é afirmação do laço do desejo do analista com o desejo do paciente. (...) Esse desejo do analista, não direi de modo algum que não o nomeei ainda, pois como nomear um desejo? Um desejo, o cercamos (...). (Lacan, 1973/1985, p.240)

Essa dificuldade de nomeação faz o desejo do analista guardar certa homogeneidade com o real, e implica, justamente, sua postura em “(...) ocupar o lugar que é o seu, o qual se define como aquele que ele deve oferecer vago ao desejo do paciente para que se realize como desejo do Outro” (Lacan, 1991/ 1992, p. 109). Lugar vazio que faz laço, mas não par simétrico com o desejo do analisando. Não se trata de intersubjetividade, mas de disparidade entre os dois desejos. Afinal, como acrescenta Rinaldi (n. d.), é um desejo que se grafa X; um X que na língua francesa se diz ICS [iks], inconsciente, operando na medida em que vem na posição de X que faz a questão do analisando - uma incógnita, um enigma. É um desejo advertido, uma postura de ignorância douta ciente de que o sujeito suposto saber sustenta-se no inconsciente e que este é atualizado pelo analisante. Trata-se, em última instância, do desejo de que haja análise, ainda que mediada pelas tecnologias.

Uma vez reafirmado o desejo do analista, elencamos três questionamentos relacionados à transferência: como é o seu manejo no atendimento online? Como sustentar a transferência, durante a pandemia, nos casos em que não foi possível dar continuidade online? E, como se dá o estabelecimento da transferência em casos novos ou iniciais, nos quais os encontros fisicamente presenciais foram incipientes ou ausentes?

Diante dos casos que estavam em momentos iniciais - isto é, nos primeiros atendimentos - a oferta e a aposta no trabalho foram mantidas, de maneira que a transferência pôde ser relançada, agora por novos meios. Sobre o estabelecimento da transferência, Quinet (2009) considera que a transferência é necessária para o começo da análise, mas que ela não é condicionada pelo analista, e reafirma a colocação de Lacan de que a transferência está presente desde o início. A função do analista é saber utilizá-la.

Para os que conseguem fazer uso das videochamadas, irrompe o desafio de manejar a transferência imaginária e estar sempre alerta, já que a tendência de sermos colocadas no lugar de semelhante se acentua. O campo do visual, do imaginário, é o campo exemplar do engodo, pois tem a proteção da imagem. Como pontua Quinet (2009):

O olho institui, na relação do sujeito com o outro imaginário, o desconhecimento de que sob esse desejável há um desejante. Cabe a essa função chamada por Lacan de “desejo do analista” ir contra esse desconhecimento, e fazer com que, sob esse objeto de desejo que detém o analista, surja para o analisante a interrogação sobre sua própria posição em relação ao desejo do Outro. (Quinet, 2009, p. 32-33)

Se o analista faz semblante de objeto a, causa de desejo, para o analisando, por outro lado, agora podemos ser, literalmente, pedaços de objeto para o sujeito - que liga, desliga a câmera; aproxima, afasta, sai de cena; mostra só o olho, o armário, a casa, alguém. E aparecemos em pedaços: cabeça, pescoço, ombro, voz, olhar… Alguns poderão realizar um trabalho por videochamada e até produzir deslocamentos subjetivos importantes; outros, mal conseguirão sustentar o contato via voz, sem a dimensão da imagem, seja por falta de conexão com internet adequada ou outros motivos. Desse modo, sustentar ligações com alguma frequência, aquela que for possível, possibilita uma aposta em nossa presença no lugar de escuta para o sujeito.

Entretanto, há casos, principalmente os situados logicamente na infância, em que não foi possível garantir encontros online. O fato de ser uma demanda de atendimento feita mais pelo Outro (cuidador, escola) que pelo próprio sujeito talvez tenha algum impacto. Nesse sentido, buscamos nos presentificar para o agora ou para garantir o depois com o retorno das sessões presenciais, quando isso ainda era uma perspectiva temporalmente próxima; ou para continuar de forma online quando poderia ser possível para o sujeito.

Ademais, o efeito das mudanças trazidas pelo isolamento social na vida dos sujeitos pode intensificar a produção inconsciente no espaço das sessões. Então, o que responder à pergunta lançada inicialmente: há repetição, recordação e elaboração no atendimento online? Sustentamos que sim. Um paciente, ao iniciar sua fala em uma sessão online, diz do momento atual: “me faz refletir, lembrar de muitas coisas boas e tristes da minha história”. Se a transferência se mantém e o endereçamento do sujeito segue seu curso, há repetição, recordação e elaboração no atendimento virtual.

No século passado, Freud disse, em “A dinâmica da transferência” (1912/2010), que a análise não era possível “in absentia” ou “in effigie”. Salientava, nesse momento, que os conteúdos precisavam ser trazidos à tona, na relação transferencial, através da verbalização. É possível supor, então, que a transferência se faça no corpo a corpo? Antes da pandemia, essa noção nos guiava de alguma maneira nos encontros: a verbalização supunha a presença de um corpo. Entretanto, agora somos levadas a pensar mais detidamente naquilo do corporal que ainda pode se fazer presente online, a seu modo, nas sessões em que analista e analisante interagem de forma síncrona, ou seja, simultaneamente, ao vivo. Falando e ouvindo, vendo e sendo visto de maneira instantânea. Nesses momentos e a seu modo, o analista se presentifica em ato, em olhar e em voz.

Corpo

Diferente do sujeito cartesiano (“penso, logo existo”) ou do corpo biológico ao qual a medicina o reduz, o sujeito da psicanálise é aquele que está sempre suposto, entre dois significantes, sendo solidário da cadeia significante. Como afirma Lacan (2005/ 2007, p. 150), o homem não é seu corpo, o homem tem um corpo e, através dele, o sujeito evanescente da cadeia pode se fazer presente (Soler, 2002). Em análise, o corpo é tomado em sua dimensão erógena, pois o corpo que diz respeito à psicanálise é o corpo erotizado (Iaconelli, 2012), desnaturado pela linguagem e recortado pela pulsão. Nesse sentido, é importante recolocar o corpo no jogo analítico virtualizado.

Para pensar o corpo falante, pulsional, vale a pena nos deter, brevemente, nos objetos voz e olhar, isto é, na pulsão invocante e na pulsão escópica. A pulsão, na releitura de Lacan, é, “no corpo, o eco do fato de que há um dizer” (Lacan, 2005/2007, p.18). Freud, nos “Três Ensaios” (1905/2016), destacou a pulsão oral e o objeto seio, a pulsão anal e as fezes, e a pulsão escópica (a libido do olho) que instiga a pulsão de tocar. Lacan, por sua vez, acrescenta a pulsão vocal ou invocante. Em sua concepção, a pulsão escópica e a invocante são esvaziadas de sentido, são da ordem do real. Enquanto tentativas falhas de “representações simbólicas” do objeto a, não possuem consistência imaginária, apenas lógica (Miller, 2013).

Olhar (enquanto objeto para o outro) e voz (objeto do outro) fazem parte do corpo, pois a dimensão corporal não termina na nossa pele, atravessa essa fronteira. Tais objetos estão entrelaçados, e assim, podemos pensar que através da voz o olhar também se faz presente, “encorpando” as sessões por chamadas de áudio. Supomos que a voz e o olhar do analista cumprem sua função de semblante do objeto a, mesmo no distanciamento físico do atendimento online.

No caminhar dos atendimentos apenas por áudio, foi interessante observar como se dava a sustentação dos silêncios, quando necessária; um silêncio em que se ouve a respiração, um fragmento de corpo. Interessante também poder dar consistência à voz com entonações, risos, pausas, marcações de pontos da cadeia significante desse sujeito que é escutado. Estar, digamos, voz a voz, permite essa experiência nova e desafiadora, e ainda assim situada no âmbito do trabalho analítico. Da mesma maneira que antes, no encontro face a face, é possível escutar a enunciação do sujeito, mesmo que desprovida de uma performance corporal. Foi necessário dispensar a dimensão imaginária, ou recolocá-la através da voz; de todo modo, ela comparece de maneira distinta nessas sessões mediadas pelo fone de ouvido.

Há também o desafio de calcular o tempo de intervir e o tempo de calar, sem a presença do sujeito frente a frente. Afinal, era face a face que o encontro se dava e era possível perceber quando havia uma pausa na fala para recomeçar logo depois, com um sobressalto, e ali silenciar para escutar a cadeia associativa por vir. Agora, essa cadeia é, às vezes, interrompida pela conexão da internet. Mas ela insiste, retorna, endereça, e é em seu fluxo - nesse outro fluxo - que o trabalho se mantém.

Com as crianças, a mediação do celular, que inicialmente pareceu ser um obstáculo, possibilitou muitas construções. O momento em que a imagem captada estava cortada pela metade foi transformado em oportunidade de exploração do corpo. Quando só os olhos da criança apareciam, era pedido para que ela mostrasse sua boca, sua orelha, seus pés… e quando a boca aparecia era acompanhada dos dentes e língua que devoravam o celular e se transformavam em uma nova brincadeira, um novo jogo. Ao cobrir a câmera com as mãos, aparecia mais um. O jogo universal do Fort-Da (Freud, 1920/2010), o “Cadê? Achou!”, o esconde-esconde, com o desaparecimento da criança e a surpresa da estudante, as gargalhadas e o susto com o retorno. Tudo isso muitas e muitas vezes, em uma repetição que é própria da criança, própria da brincadeira e própria do trabalho analítico.

A pulsão escópica fica muito evidente nesse júbilo da criança ao se dar a ver; nesse deleite com as reações do outro frente ao seu sumiço e aparição. É apostando no lugar fundamental dessa brincadeira, que sustentou sessões de 35 ou de 5 minutos, que se segue oferecendo o semblante para que esse jogo aconteça. Nesse jogo de presença-ausência, ao mesmo tempo em que se narra e descreve o que a criança escolhe mostrar, vai se constituindo um jogo de reconhecimento do corpo por meio de significantes.

Em um dos casos, ainda, a maior parte dos encontros se dá através de mensagens de texto. Diante do pedido: “hoje pode ser por mensagem? tem muita gente aqui”, coube escutar/ler o que surgia. Como responder? Como calar sem parecer ignorar alguma mensagem escrita? Como ler possíveis fragmentos de corpo que chegam através de emojis que choram, que riem, corações...? O tempo de envio e resposta das mensagens também conta, construindo uma sessão sobre outros moldes, em que a escuta se faz leitura.

Utilizar cotidianamente aplicativos de troca de mensagens e lidar com seus códigos, abreviações, gírias, risadas, pode servir de auxílio nessa experiência. Porém, não deixa de ser desafiadora a primeira vez em que se faz necessário inventar modos de conduzir uma sessão online, com presença e simultaneidade, mas sem vídeo e com alguns poucos áudios furtivos. Trata-se de outro modo de conduzir, diferente, mas não impossível, afinal, há uma cadeia associativa que chega através do texto; questiona-se, recorta-se, devolve-se, responde-se apenas com algum outro emoji. Fica-se no aguardo ao ler que o sujeito “está digitando...”, o que aparece na tela. Às vezes, a conexão cai no meio de uma frase. Ou não cai, mas oscila e faz chegar com algum atraso o restante do texto. Restante essencial que retroage sobre o anterior, e também assim o só-depois confere outra significação. O manejo do tempo se torna diferente, sim, exigindo atenção e vigilância, para não precipitar uma resposta. Há momentos em que o texto dá lugar a áudios longos, que contam algo que o sujeito considera não conseguir escrever direito, melhor falar. A voz aparece, por alguns instantes.

Diante disso, começamos a pensar: convidar a digitar equivale a convocar o sujeito a falar? Possui que tipo de efeitos? A escrita também é lugar do sintoma, aqui também existem lapsos e não é possível atribuir a responsabilidade apenas ao teclado do celular. Através da escrita, é relatado um sonho. Através da escrita, significantes se encadeiam e se desdobram num tempo circunscrito, se constituindo como narrativa endereçada. Mas, o quanto de equívoco e polissemia pode se fazer presente? Recorremos à letra, à inscrição, para discernir, por exemplo, palavras homófonas. Ao escutar “pais/paz”, pode-se ouvir o sentimento de paz ou os genitores. Acontece que, frente à escrita, lendo e sabendo de pronto do que se trata, como não se prender ao pé da letra no texto? Indo em direção à dimensão significante, lendo o dizer no dito - aliás, o escrever no que é escrito. A questão é que, no ato de escrever, o sujeito hesita, digita e apaga antes de teclar o Enter. Parece que fica mais fácil continuar censurando o que por vezes escapa durante a enunciação.

A fluidez e equivocidade maior do ato de falar não comparecem, ainda que o texto possua marcas de oralidade. Mas, perguntamos também: o que da voz reverbera nessas sessões por mensagem de texto? E como fica a experiência crucial de escutar a si mesmo? Não se trata, em última instância, da materialidade da voz e sim de sua função lógica. Como afirma Miller (2013, p. 7), “a voz no sentido dado por Lacan, não somente não é a fala, como em nada é o falar”; isto é, a voz, como objeto pulsional, coloca-se para além da função da cadeia significante, seja ela [a cadeia significante] falada e escutada, ou lida e escrita. Há uma disjunção entre voz e orelha, órgão dos sentidos, e o mero registro sensorial. A voz, remetida ao real, transcende o que se pode dizer ou escrever. Ainda assim, ela presentifica uma dimensão da cadeia associativa que designa um lugar para o sujeito. Cabe resgatar a posição do sujeito nas entrelinhas e intervir no significante.

Singularidades

Tendo em vista que este trabalho é fruto de experiências em espaços diversos, torna-se importante apontar as singularidades presentes. Na experiência de estágio em um Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi), dois pontos se destacam em relação ao cuidado: o primeiro deles diz respeito ao trabalho feito por vários. O leque de ofertas na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é múltiplo, na medida em que cada técnico de saúde mental pode pensar o caso a partir de um ponto de vista e atuar em diferentes frentes. Como em uma orquestra: cada um com instrumento, sonoridade e timbre únicos, mas orientados pela mesma cadência e desenho das mãos do maestro, o sujeito. O que leva ao segundo ponto: é tarefa principal da equipe poder acompanhar o usuário em seus movimentos. A partitura é dada pelo sujeito e o trabalho deve ser realizado levando em consideração a autoridade suprema do caso. Na orquestra, há alguns solistas; é possível a analogia de que são os profissionais que se aproximam mais do usuário em questão, com destaque para o técnico de referência, responsável pela elaboração do plano terapêutico singular (PTS) do sujeito.

Se, antes da pandemia, lançava-se mão de recursos variados como o acompanhamento terapêutico, a clínica peripatética, visitas domiciliares e passeios em grupo; atualmente, as equipes vêm se deparando com inúmeras dificuldades relacionadas à necessidade de reinvenção daquilo que o CAPS pode oferecer. Agora que há impossibilidades e restrições para a realização de grupos e outras ações presenciais, o que vêm se construindo são possibilidades de grupos online, por exemplo, e o atendimento presencial para os casos emergenciais, em que o manejo à crise se faz necessário.

Assim, diante de uma nova prática de saúde mental em que o isolamento é imposto e o espaço físico passa para segundo plano, mais do que nunca comparece a necessidade de fazer existir o que Rezende, Vorcaro e Vilela (2018) nomeiam como “efeito-equipe”: a aposta na autoridade do caso clínico, que, em seus impasses e impossíveis, lança a equipe em uma posição de aprendiz e, assim, a põe a trabalho. Em outras palavras, o que se propunha a partir do PTS se radicaliza em tempos pandêmicos: o primeiro referencial deve ser a clínica e sua dimensão ética, ou seja, o ato de singularizar e construir estratégias diferentes a cada caso. Para além das indagações que os movimentos de enigma do sujeito provocam, se colocam diferentes perguntas que os situam em um novo tempo histórico e suas particularidades. Isto significa que é preciso questionar: quais serão aqueles que precisarão de atendimento domiciliar? Atendimento presencial no espaço físico do equipamento de saúde? Teleatendimento? Com que frequência, duração, por qual plataforma...? Além disso, é possível realizar grupos e oficinas em ambientes abertos ou apenas virtualmente?

As tecnologias de cuidado da estagiária, por outro lado, limitam-se ao atendimento online individual - isso porque não pode frequentar o serviço, mesmo que com carga horária reduzida, em função dos normativos institucionais. Apesar de não estar junto, fisicamente, na construção desse novo modelo de cuidado possível, existe a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho que pode ser feito: a escuta individual dos sujeitos que já eram acompanhados anteriormente, advertida de que o atendimento em modalidade remota irá comportar limites e possibilidades.

No enquadramento produzido por um atendimento online, através do celular, a estudante é carregada até a cozinha do paciente e presencia uma das cenas que são constantemente narradas. O que levanta outra posição em que o analista também pode comparecer: a de testemunha. Posição essa referida por Lacan no Seminário 3, em que o paciente pode, talvez, encontrar acolhimento e elaboração e em que o analista intervém, “respeitando e validando as elaborações do paciente” (Aires, 2017, p.103).

A câmera que pode ser transportada e gerida pelo sujeito é um recurso a mais, que favorece a dimensão significante. O que é mostrado pode ser inserido no discurso e auxiliar a fala daqueles que pouco se expressam por essa via. “Sabe aquela lapiseira que dá pra quebrar e tirar a lâmina?” diz, do outro lado, enquanto pega a lapiseira para mostrar... “tá vendo?” e começa a mordê-la, enquanto fala da vontade de se cortar. Como lidar com tantos insuportáveis? Não ver a família ou estar presa a ela, 24h por dia, sendo fator adoecedor como é para alguns sujeitos? Desafios que se colocam para aqueles que se situam na adolescência e estão em tempo de ampliar os laços, construir um lugar fora do núcleo familiar. Há ainda o medo da morte de entes queridos, a suspensão de todas as atividades que compunham o cotidiano - como as atividades escolares - e tantas outras alterações da rotina em tempos de pandemia.

O dizer sobre a angústia aparece em cada sujeito a seu modo. Na escuta de adolescentes em acolhimento institucional pode-se ver as angústias que desencadeiam atos parecidos. Em outro caso, nos deparamos com a produção do acting out do sujeito. Le Breton (2010, p. 32) afirma que o acting out, na tradição lacaniana, “é um ato cujo objetivo inconsciente é ser visto na busca de reconhecimento pelos outros ou por um outro”. O adolescente envia uma imagem em que segura uma lâmina e diz estar com muita raiva. Esse endereçamento permite que seja feito um acolhimento no momento da atuação, através de mensagens pelo celular. Em sua dimensão de mostração, o acting out toca o impossível de dizer que se manifesta enquanto ato. Segundo Jucá e Vorcaro (2020):

O acting out teria, portanto, como diferencial, seu caráter de apelo dirigido ao Outro. Do ponto de vista clínico, é importante tentar entender quem ocupa esse lugar de Outro, bem como a natureza daquilo que se traduziu em ato, por uma impossibilidade de tradução simbólica, seja via palavra, seja via sintoma. (Jucá e Vorcaro, 2020, p. 4)

A partir disso, destacamos uma vez mais a importância de se apostar na escuta clínica, na oferta da continuidade desse espaço, para escoar a angústia através do dizer. Por vezes, atuações também ocorrem nos atendimentos presenciais em andamento, durante os quais o manejo pode vir a se colocar por mais de uma via. Nesse sentido, é aceitável supor que a experiência atual de atendimento online venha a ofertar construções e intervenções possíveis para além desse período de isolamento, como recurso de escuta e acolhimento em momentos de urgência subjetiva.

Considerações finais

Movidas pelo compromisso ético-político que temos frente ao público atendido, e pelo desejo de cada uma na continuidade do processo, relançamos a aposta do trabalho pela via virtual. O espaço formativo dos estágios, ao fim do curso de psicologia, e das práticas de extensão teve em 2020 mais um desafio para cada estudante: a clínica de orientação psicanalítica em diferentes contextos - CAPSi e atendimento a crianças e adolescentes no serviço universitário - foi exercida agora no modo online. Mais do que nunca, o tripé que sustenta a psicanálise se fez presente: análise pessoal, supervisão clínica e estudo teórico foram os suportes para se manter na prática de forma ética e responsável.

Online, tudo é igual e diferente. O que vem se delineando até então ainda é pesquisa, investigação. Este trabalho buscou extrair da experiência de atendimento online o próprio esteio que firma a nossa prática de inspiração psicanalítica. Mas não é sempre este o desafio posto? Especialmente ao trabalhar com infância e adolescência: lidar com o inusitado, se reinventar a todo tempo?

Não se trata, porém, de banalizar o atendimento online. Tal modalidade precede a crise sanitária que vivemos, e, a partir dela, torna-se imperativa. Entretanto, a atuação aqui relatada é uma experiência temporária, localizada e traz uma advertência: nem tudo é virtualizável. Há um resto que sobra na passagem para o mundo bidimensional das telas; há algo do corpo que não é especularizável. O que se perde, então, nessa modalidade? Questionamento necessário, mas não paralisante e que implica novas investigações.

Referências

Aires, S. (2017). A doidignidade das palavras: Lacan e a clínica das psicoses. In C. G. Burgarelli (Org.), Padecer do significante: a questão do sujeito (pp. 95-114). Campinas, SP: Mercado de Letras. [ Links ]

Deleuze, G. (2016). O que é um dispositivo? In G. Deleuze, Dois regimes de loucos: textos e entrevistas (G. Ivo, trad., pp.359-369). São Paulo, SP: Editora 34. (Trabalho original publicado em 1988). [ Links ]

Faria, M. R. (2019). Real, simbólico e imaginário no ensino de Lacan. São Paulo, SP: Toro Editora. [ Links ]

Foucault, M. (1979). Microfísica do poder (R. Machado, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Graal. [ Links ]

Freud, S. (2016). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In S. Freud Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora") e outros textos. (P.C. Souza, trad., pp. 13-172). São Paulo, SP: Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1905). [ Links ]

Freud, S. (2010). A dinâmica da transferência. In S. Freud Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos. (P.C. Souza, trad., pp. 101-110). São Paulo, SP: Companhia das Letras . (Trabalho original publicado em 1912). [ Links ]

Freud, S. (2010). O início do tratamento. In S. Freud Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), Artigos sobre técnica e outros textos . (P.C. Souza, trad., pp. 124-145). São Paulo, SP: Companhia das Letras . (Trabalho original publicado em 1913). [ Links ]

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In S. Freud História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos. (P.C. Souza, trad., pp. 121-178). São Paulo, SP: Companhia das Letras . (Trabalho original publicado em 1920). [ Links ]

Iaconelli, V. (2013). Mal-estar na maternidade: do infanticídio à função materna. Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. doi:10.11606/T.47.2013.tde-07052013-102844. Recuperado de www.teses.usp.brLinks ]

Jerusalinsky, J. (2020). Ser bebê, criança e adolescente na pandemia: cuidar e educar nas encruzilhadas entre a estruturação psíquica e o risco de Covid-19. Revista Crianças: uma abordagem transdisciplinar, vol 2. Recuperado de https://lalalingua.com.br/tipos-de-posts/ser-bebe-crianca-e-adolescente-na-pandemia/Links ]

Jucá, V. J. S., & Vorcaro, A. M. R. (2020). Atos na Adolescência: uma resposta a Angústia e ao Desamparo. Revista Subjetividades, 20(1), e9359. doi: http://doi.org/10.5020/23590777.rs.v20i1.e9359 [ Links ]

Lacan, J. (1985) O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (D. D. Estrada, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar. (Apresentação oral em 1964, original publicado em 1973). [ Links ]

Lacan, J. (1992) O seminário, livro 8: A transferência (D. D. Estrada, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar . (Apresentação oral em 1960 - 61, original publicado em 1991). [ Links ]

Lacan, J. (2003). Introdução à edição alemã de um primeiro volume dos ‘Escritos'. In Lacan, J. Outros Escritos (V. Ribeiro, trad., pp. 550-556). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar . (Trabalho original publicado em 2001). [ Links ]

Lacan, J. (2007) O Seminário, livro 23: o sinthoma. (D. D. Estrada, trad.). Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar . (Apresentação oral em 1975 - 76, original publicado em 2005). [ Links ]

Le Breton, D. (2010). Escarificações na adolescência: uma abordagem antropológica. Horizontes Antropológicos, 16(33), 25-40. doi: https://doi.org/10.1590/S0104-71832010000100003 [ Links ]

Miller, J.-A. (2013). Jacques Lacan e a voz. Opção Lacaniana, (11), 1-13. [ Links ]

Paulon, C.; Ravanello, T.; Dunker, C. (2018). De Freud a Lacan: o discurso da cura como narratividade. In N. Leite, M. Moraes, J. Milán-Ramos (Orgs.), O caso: entre exceção e transmissão. Campinas, SP: Mercado de Letras [ Links ]

Quinet, A. (2009). As 4+1 condições da análise. Antonio Quinet. 12. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. [ Links ]

Rinaldi, D. (n.d.). Transferência e desejo do analista. Recuperado de http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/int-biblioteca/DRinaldi/Doris_rinaldi_trasnferencia_desejo_analista.pdfLinks ]

Soler, C. (2002). O em-corpo do sujeito: seminário 2001-2002. Salvador, BA: Ágalma. [ Links ]

Vorcaro, A. (1999). Crianças na Psicanálise: clínica, instituição e laço social. Rio de Janeiro, RJ: Companhia de Freud. [ Links ]

Rezende, A., Vorcaro, A., & Vilela, A. (2018). Tecendo a rede: a construção do caso clínico no atendimento institucional de jovens. Revista De Psicologia, 9(1), 64-69. Recuperado de http://www.periodicos.ufc.br/psicologiaufc/article/view/20637Links ]

1O Projeto surge em 2018 com o objetivo de oferecer gratuitamente atendimento psicológico (psicoterapia, acompanhamento terapêutico - AT, construção do Projeto Terapêutico Singular junto a instituição, etc.) a adolescentes acolhidos, sendo uma parceria entre o Serviço de Psicologia da universidade e alguns pontos da rede de acolhimento institucional da cidade.

2 Faria (2019), a partir de Lacan, afirma que real, simbólico e imaginário são os três registros essenciais da realidade humana, isto é, a realidade é real, simbólica e imaginariamente constituída. O enodamento entre os três se verifica no nó borromeano da topologia lacaniana, de modo que, sucintamente, podemos situar o imaginário e o simbólico como registros que tentam dar conta daquilo que não cessa de não se inscrever, o real. Isso não pressupõe uma hierarquia entre os registros, apenas aponta para o real que nunca se deixa totalmente apreender.

Revisão gramatical: Viviane Veras E-mail:viveras@gmail.com

Recebido: Dezembro de 2020; Aceito: Maio de 2021

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons