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Estilos da Clinica

versão impressa ISSN 1415-7128versão On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.26 no.2 São Paulo maio./ago. 2021  Epub 10-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v26i2p297-311 

Dossiê

“Da cidade à rede, tem parada?”: Estação Psicanálise na pandemia de Covid-19

“De la ciudad a la red, ¿hay parada?”: Estação Psicanálise en la pandemia Covid-19

“From city to network, is there some stop?”: Estação Psicanálise in the Covid-19 pandemic

“De la ville au réseau, Y a-t-il un arrêt?”: Estação Psicanálise dans la pandémie du Covid-19

*Mestrando em Filosofía pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, SP, Brasil. E-mail: limadeoliveira.g@hotmail.com

**Doutorando em Lingúistica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), membro da Tykhé Associação de Psicanálise, Campinas, SP, Brasil. E-mail: danielmondoni@gmail.com

***Psicólogo clínico, membro da Tykhé Associação de Psicanálise, Campinas, SP, Brasil. E-mail: psicolucaspalma@gmail.com


Resumo

Este texto procura pensar o atravessamento da pandemia de Covid-19 no coletivo Estação Psicanálise, um grupo heterodoxo de psicanalistas que realizam atendimentos em espaço público na cidade de Campinas. Com as medidas de isolamento, nosso dispositivo se transformou. O texto procura pensar tais transformações, a partir de três leituras diferentes sobre o impacto da pandemia no dispositivo: sobre sua história, sobre a formação do analista e sobre os efeitos psíquicos nos sujeitos escutados pelos analistas do coletivo.

Palavras-chave: psicanálise; espaço público; coletivo; pandemia; atendimento online

Resumen

El texto intenta pensar en los atravesamientos de la pandemia de Covid-19 en el colectivo Estação Psicanálise, un grupo heterodoxo de psicoanalistas que realizan atendimientos clínicos en espacio público en Campinas. Con las medidas de aislamiento social nuestro dispositivo se transformó. En este texto intentaremos pensar estas transformaciones, desde tres diferentes lecturas acerca de los impactos de la pandemia en nuestro dispositivo: en su historia, en la formación del analista y en los efectos psíquicos en los sujetos escuchados por los analistas del colectivo.

Palabras clave: psicoanálisis; espacio público; colectivo; pandemia; atendimiento en línea

Abstract

This text aims to reflect on the effects of the Covid-19 pandemic on the collective Estação Psicanálise, an heterodox group of psychoanalysts that conducts appointments in public spaces in Campinas. Due to social distancing precautions our clinical device was transformed. The text aims to consider these transformations from three different perspectives about the pandemic’s impact on our clinical device: on its history, on the formation of the analyst and on the psychological effects for the subjects attended to by our collective

Keywords: psychoanalysis; public space; collective; pandemic; online attendance

Résumé

Cet article analyse la traversée de la pandémie de Covid-19 dans le collectif Station Psychanalyse, un groupe hétérodoxe de psychanalystes qui fournissent des services dans l'espace public à Campinas. Avec les mesures d'isolement, notre dispositif a été transformé. Le texte présente des réflexions sur ces transformations, à partir de trois lectures différentes sur l'impact de la pandémie sur le dispositif: sur son histoire, sur la formation de l'analyste et sur les effets psychiques sur les sujets écoutés par les analystes du collectif.

Mots-clés: psychanalyse; lieu public; collectif; pandémie; un service en ligne

Este artigo trata de uma proposta de escrita em coletivo, que não se confunde com uma escrita em grupo. Isto é, não se propõe a ser uma totalidade coerente, sem restos e buracos. Isso não quer dizer que sejam textos absolutamente díspares, a tal ponto que não se possa encontrar qualquer tipo de interlocução ou ligação. Aqui podemos ver a manutenção do laço de cada um dos autores com o coletivo. Neste trabalho, a (des)continuidade entre indivíduo e grupo e sua força dialética parece se fazer sentir e perceber em cada brecha que se apresenta como possibilidade, isto quando não as procuramos, ou ainda tentamos evidentemente produzi-las.

Cada seção do texto foi escrita por um integrante diferente abordando, de sua própria maneira, como os efeitos decorrentes da pandemia impactaram alguns aspectos do coletivo, seu trabalho e suas transformações. A primeira parte apresenta o impulso de constituição do coletivo e suas transformações, do ambiente aberto em contato direto com os passantes para as vias virtuais; a segunda seção aborda um caso singular de formação de analista que ocorre em um tempo no qual os significantes “rua” e “democracia” são de grande importância no debate público; finalmente, são tratadas algumas reflexões originadas pela escuta dos atendimentos no período de isolamento social, passando pela temática da temporalidade, do luto e da angústia.

Da plataforma à plataforma

O projeto Estação Psicanálise surge como proposta de ser um coletivo de atendimentos psicanalíticos em espaços públicos. Atuamos especificamente na antiga estação central de trem de Campinas, espaço público hoje semi-abandonado, com pouquíssimo investimento estatal, que funciona como ponto de encontro e passeio dos moradores dos arredores, centro de eventos e reuniões de outros coletivos, grupos de dança e teatro. A localização próxima ao centro da cidade e aos terminais municipais e intermunicipais de ônibus também fez com que considerássemos o local para nosso trabalho.

Consideramos importante destacar nesta modalidade a subversão de práticas e hábitos há muito tempo tão arraigados na clínica psicanalítica: a frequência e retorno semanal às sessões sempre com o mesmo analista, de onde adviria a transferência; o sigilo sobre o falado representado pelas quatro paredes intransponíveis dos consultórios particulares; a circulação monetária; o tipo de fala do paciente embasada na construção de uma sequência histórica que narra seu romance pessoal.

Este último aspecto parece ser um dos mais interessantes, pois suscita a possibilidade de uma diferenciação mais fina entre as repetições significantes e o relato de uma história de vida. Poderia, portanto, evidenciar quanto ao modo de construção do nosso dispositivo clínico, a importância e função destas narrativas da história pessoal na clínica psicanalítica, pois, se não é somente sobre a diacronia explícita da fala de alguém que a escuta analítica se debruça, também não procedemos à sua recusa radical e desconstrução visando unicamente seus significantes essenciais. É através dessas narrativas, nunca completamente opacas, que algo sempre passa, é a partir delas que algo sempre se transmite. Portanto, nosso dispositivo propõe a criação de um espaço público e aberto em que a fala assume seu protagonismo na função elaborativa, o de um enlaçamento entre a posição do sujeito articulada em sua história e com a História. É então uma convocação que visa produzir uma posição singular de enunciação e destacar aquele que enuncia em nome próprio dos corpos familiar e social, para além de meras “opiniões” pouco responsáveis.

Outra questão fundamental desde o princípio trata-se da possibilidade do estabelecimento da transferência nesta modalidade de atendimento, e, em caso afirmativo, qual seria a sua forma e como seria possível operar efeitos analíticos a partir dela. Em seu trabalho primoroso intitulado A clínica da primeira entrevista, Golder (1996/2000) destaca o papel das percepções do analista quanto ao paciente logo nos primeiros contatos diretos, a incidência das elaborações imaginárias nesses primeiros momentos e a importância da forma como o analista as recoloca, ou não, no campo simbólico a partir de suas formulações para o enlace transferencial. Portanto, trata-se também, e principalmente, dos efeitos que tais percepções e elaborações têm sobre o próprio analista, sobre sua metade transferencial. É a partir da forma como está ou não precavido quanto a elas que se dará o estabelecimento da transferência, ainda antes de qualquer repetição significante se instaurar. Tratar do que nos move a nos disponibilizar a escutar quaisquer outros que assim se nos apresentam. É o que este trabalho de Golder (1996/2000) aponta com agudeza e precisão. Em nosso caso, esta questão aponta para duas direções. Primeiro, o que produz em cada um - tanto em analistas que já têm um percurso mais ou menos longo de formação e prática clínica como em aspirantes a analistas - o desejo de atender nesta modalidade específica de clínica e não em outra. Segundo, quais suas implicações em uma prática em que os analistas, ao invés de aguardarem a vinda daqueles que os procuram, oferecem-se em praça pública ao trabalho de co-produção da escuta do sujeito e acompanhamento de seus efeitos. As percepções dos analistas acerca dos pacientes - modos de olhar, tom de voz, ritmo da fala, gesticulação - efetivamente se fizeram mais presentes nos relatos dos atendimentos e mostraram importantes efeitos na construção dos casos clínicos.

Os interesses por esta modalidade de atendimento eram diversos entre os que decidiram fazer parte da criação deste novo dispositivo clínico. Ao conhecimento prévio das experiências que nos precederam (Broide & Ab’Sáber, 2017; Danto, 2005/2019; Lima, 2019; Marino, Coaracy & Oliveira, 2018), somavam-se estágios e períodos de trabalho em instituições públicas de saúde e assistência social, questões suscitadas por trabalhos de mestrado, doutorado ou mesmo estudos de graduação, o cansaço em relação à clínica tradicional, junto a um ímpeto de tentar outra forma de atendimento. Mas, de modo mais ou menos claro, todos apresentavam um questionamento quanto aos lugares que a psicanálise ocupa ou mesmo deixa de ocupar, na cidade e os pontos de contato que se oferecem às pessoas. Freud sempre se considerou em apuros quando tratava de lidar com o público que não era o que poderia considerar como seu, seus conhecidos, seu pequeno grupo das quartas-feiras. Deixa evidente suas hesitações e dúvidas em lançar-se ao público mais amplo, desconhecido e não-familiar, como nos longos cinco anos que leva para decidir quanto à publicação de A Interpretação dos Sonhos (Viltard, 1999). Pode então parecer confuso pretender praticar uma clínica psicanalítica - tradicionalmente tida como individual, intimista e profundamente subjetiva - no ponto em que a psicanálise pode encontrar seu inverso infamiliar, o espaço aberto e público. Por isso também nossa escolha de constituir este dispositivo como um espaço público de atendimentos coletivos -não em grupo e não como atendimentos gratuitos em nossos consultórios particulares, para aqueles que os têm. Nossa posição é então uma proposta de reposicionar e recolocar a psicanálise e sua modalidade singular de discurso no campo do Público.

É importante situar que nossa proposta surge a partir e muito em função de um contexto social, político e histórico, e muito em função dele, em que fortes receios e a sensação de risco de uma agressão iminente às liberdades civis se faziam muito presentes no Brasil devido às eleições de 2018 (Lima, 2019). Muitos psicanalistas, dentre eles alguns que viriam a compor o coletivo, estiveram bastante ativos nas organizações e manifestações em defesa da democracia e também se mostraram contrários aos ataques que naquele momento já podiam ser antevistos. A psicanálise não é uma prática que possa ser desvinculada destas questões, como assinalam diversos historiadores, dentre eles Danto (2005/2019), em seu livro As Clínicas Públicas de Freud. A psicanálise não está, portanto, resguardada dos efeitos dos contextos históricos e sociais em que é praticada. Há mais de um testemunho de como um utilitarismo supostamente neutro e abstêmio da psicanálise é capaz de perverter sua ética e produzir laços avessos a suas próprias doutrinas.

A partir destas discussões e tendo determinado as coordenadas mínimas do trabalho, tanto do ponto de vista teórico como em sua organização prática, começamos os atendimentos no dia sete de setembro de 2019, em plantões de cerca de sete analistas que se revezavam a cada sábado. Os pacientes que nos procuravam na estação eram recebidos por um dos integrantes do grupo encarregado do acolhimento e, em seguida, escolhiam quem iria atendê-los dentre os analistas disponíveis no dia. Não havia, porém, nenhum empecilho a que, a partir de determinado momento, um paciente escolhesse apenas um ou dois analistas para realizar seus atendimentos.

Em fevereiro de 2020 estávamos acompanhando tanto os casos que haviam realizado poucas sessões como aqueles que vinham semanalmente à estação já há alguns meses. A chegada da pandemia junto às incertezas que a cercaram em nossa experiência, produziu um hiato para nosso coletivo entre o abrupto e surpreendente fechamento dos espaços públicos e consequentemente a interrupção de nossos atendimentos e a vontade e decisão de darmos continuidade ao trabalho com atendimentos online. Este tempo de suspensão entre a imposição do inesperado e a criação de outra proposta de atendimento transcorreu em torno de novas dúvidas, hesitações e incertezas sobre a continuidade de nossa prática, pois não se tratava apenas de uma simples transição e reformulação de métodos e plataformas, mas também da assimilação e compreensão destes eventos no âmbito do coletivo. Novamente nos encontrávamos, devemos dizê-lo, diante da ameaça precipitadora da devoração imaginária ou seu reverso dialético, a tentativa de reposicionamento simbólico.

O eu, sujeito da asserção conclusiva, isola-se por uma cadência de tempo lógico do outro, isto é, da relação de reciprocidade. Este movimento de gênese lógica do eu por uma decantação de seu tempo lógico próprio é bem paralelo a seu nascimento psicológico. Da mesma forma que, para efetivamente recordá-lo, o eu psicológico destaca-se de um transitivismo especular indeterminado, pela contribuição de uma tendência despertada pelo ciúme, o eu de que se trata aqui define-se pela subjetivação de uma concorrência com o outro na função do tempo lógico. (Lacan, 1945/1998, p. 208)

Nossa nova proposta procurou manter então aspectos e instrumentos que consideramos fundamentais em nosso dispositivo e que deveriam ser mantidos na transposição para os atendimentos online, tais como: a rotatividade dos analistas no atendimento, sua realização em um espaço minimamente comum e não particular, a organização em grupos de plantão e a função do acolhimento. Para tanto, criamos perfis de uso coletivo no Facebook a fim de preservarmos os analistas individualmente ao não fornecer seus perfis ou telefones pessoais e mantermos a mediação do acolhimento e a não utilização de espaços privados dos analistas. O acolhimento dos pedidos de atendimento ocorria sempre na quinta e na sexta anteriores ao dia do plantão e o responsável organizava as agendas dos analistas que estariam disponíveis naquele sábado. Para a segunda quinzena de dezembro e primeira de janeiro estabelecemos um período de recesso, visando, dentre outras coisas, produzir uma parada para recolhermos e elaborarmos os efeitos desta nova modalidade de atendimento.

Esse tempo de formação

Nosso coletivo se faz através do encontro com outros: outros analistas que compartilham do desejo de realizar psicanálise na rua, outros que sentam conosco e contam suas palavras, outros distantes e desconhecidos, mas ligados pela escrita. A psicanálise que se propõe estar na rua, sem portas ou paredes, convive com o barulho da cidade que abafa pedaços da fala junto com olhares fugidios, às vezes curiosos, às vezes indiferentes. Às vezes também param e conversam conosco, uma troca de significantes. Há nessa proposta um laço imprescindível entre a prática e o espaço; entretanto, em março de 2020, percebemos que seria imprudente permanecer no local. Diante disso surge a pergunta: é possível continuar a enlaçar psicanálise e cidade? Não é simples a mudança de meio, os limites espaciais são transformados com as novas distâncias. Não sabíamos se a proposta iria se manter, mas havia o desejo de continuar, depois pensaríamos no que aconteceu.

Essa suspensão permitiu maior atenção ao que estamos fazendo, recolhendo sentidos que atravessam o coletivo. A composição do grupo é heterodoxa, são analistas que possuem diferentes trajetos, diferentes linhas e diferentes tempos. Coexistem caminhos que passam por consultórios particulares, instituições de saúde mental, instituições sociais, ensino universitário e, também, os que tomaram a rua como início. Nesse contexto, a questão da formação do analista ressurge diversas vezes no grupo. A singularidade que faz cada formação um percurso sui geniris com a psicanálise não impede que alguns efeitos possam ser reunidos em um gênero literário que articule a história singular com os movimentos da história. Nesse sentido, procuro escrever uma narrativa a partir do meu trajeto de formação com a psicanálise, na qual alguns acontecimentos históricos da última década delinearam direções para o desejo através de significantes como ‘rua’ e ‘cidade’. Nesse percurso, ter iniciado a prática clínica em um coletivo de psicanálise em 2019 resultou na emergencias de questões particulares à esse tipo de prática, gerando efeitos formativos específicos. Para essa tarefa, tomo como linha guia a criação de uma história de palavras que constituem e contam minha formação.

Começo pela palavra psicanálise. Só a ouvi na universidade. É possível que meus olhos já tivessem esbarrado com ela: eu comprava a coleção “Os pensadores” e um dos volumes foi dedicado à Freud - não tenho recordações dessa leitura, aliás, a maioria desses livros eu não li. Eram objetos comprados em bancas de jornais junto a livros de figurinhas e revistas de heróis; passaram a conviver em casas que não falavam de filosofia, lançando linhas que seriam pano para muito manga. Já ouvir o significante psicanálise, isso se deu por conta de um bom acaso, quando descobri o que é uma universidade pública. Era meu primeiro semestre, uma colega me chamou para assistir uma aula; disse apenas que valia a pena. Não era aluno daquele curso, mas fui. Conversando com o professor, ele me autorizou a ficar na disciplina dizendo que enquanto haja cadeiras, as portas estarão abertas. Foi instigante, esse sentar nessa cadeira deixou que minha caneta começasse a combinar palavras que até então não conversavam.

Isso abriu portas para que iniciasse uma formação entre lugares. O espaço estava aberto para uma livre circulação de pensamentos; havia plena confiança no movimento e o experimentava em sua soltura. Procurava algo? Acredito que não, havia um querer saber que me levava à prontidão. Novas palavras se ofereciam e junto a elas um ver a mais. A psicanálise não me era familiar, foi como uma língua estrangeira que surgia. Passei a insistir nela. Por que? Não sei, apenas ia.

Na universidade estava acompanhado, caminhávamos juntos. Pouco a pouco alguns iam formando uma fila, começávamos a pôr a mão nos bolsos à procura de dinheiro e trocávamos por algum lanche. Éramos tão críticos que esquecíamos de ouvir a própria tolice. Cotidianamente experimentava sabores ouvindo palavras que se misturavam em uma competição entre psicanálise, marxismo, anarquismo e yoga. Haviam chavões como uma crítica à ciência burguesa, afinal, faltava o pensamento crítico à psicanálise. Ela estava ultrapassada, assim como as neuroses e o Édipo - não conhecíamos ninguém a não ser nós mesmos, repetindo rumores enquanto fazíamos palavras cruzadas, pulando espaços vazios atrás de letras. Era uma confusão de línguas e sabores; assim os sentidos da psicanálise foram se formando. Acho que sem a amizade, provavelmente não iria nessa direção.

A psicanálise não era a única língua, outras se mostravam igualmente belas. Passei a destacar as linhas e iniciava a tentativa de coser com minha língua. Coser línguas estrangeiras à língua que possuo. Falhava ao abrir da boca, as linhas se soltavam e iam cada uma para um canto. Tentava coser novamente as linhas que se soltaram - mais uma vez e mais uma vez. Aprendi que coser línguas é impossível pelo fato de termos uma boca. Entretanto criei uma alegria em conviver com linhas pequenas, longas, algumas encontradas sobre uma mesa, ou junto a um imã na geladeira, ou na voz de um amigo. Com esse monte, passei a coser linhas entre linhas. Enquanto, estava a coser linhas com línguas, outros questionavam os portões da universidade. Havia demanda por justiça naquelas palavras, mas não me reunia com elas - achava fatigante, me faltava algo; talvez a paixão do estar juntos. Passaram a empilhar as cadeiras porque era o mais justo a fazer naquele momento. Eu não participei ; afinal, uma pessoa a mais, ou a menos, faria diferença?

Em 2011, a tropa de choque entrou com um pedido de reintegração de posse do prédio de uma reitoria. Os espectadores estavam até em helicópteros. Arrastavam as cadeiras empilhadas que deixavam suas marcas pelo espaço - acho que a memória dos objetos é fidedigna porque não os foi concedido o desejo, guardam mudamente o que viram. As câmeras tiraram tantas fotos até encontrar um ângulo capaz de criar burburinho. A versão que circulava dizia como os universitários desperdiçavam o dinheiro pago pela população em badernas e por esse motivo não deixavam a polícia entrar no campus. Isso despertou uma raiva estranha; até então, era senso comum aparecerem palavras elogiosas próximas à universidade pública. Os estudantes foram às ruas na tentativa de reconhecimento de outra versão. Naquela época, poucas pessoas participavam de atos que atravessavam as ruas. Vimos que o ódio se propaga rapidamente e é difícil de ser apagado.

2013 mudou o vocabulário. Manifestantes reivindicaram o acesso justo à cidade dizendo não ao aumento da passagem do ônibus. Nesses dias, a violência policial passou a ser filmada e transmitida ao vivo pelos próprios manifestantes e, da noite para o dia, essas imagens estavam nos veículos da imprensa. A violência policial não era parte do léxico jornalístico e logo deixaram de falar disso. Entretanto, os indignados passaram a se reunir nas ruas e as redes sociais passaram a mostrar sua potência de junta e desmembramento. Uma multidão passou a ocupar as ruas levando murmúrios que não eram claros - mesmo sendo difícil entender suas palavras, podia se ver grande entusiasmo e poucos caracteres.

Mas isso não foi o começo, ruas menores já realçavam outra cidade. Uma herança de anos anteriores revelava suas cores nesse momento. Projetos de um outro tipo de convivência, de uma época que políticas de patrocínio e fomentos culturais recolocaram em circulação a palavra “cidade”. Vi postes tornando-se luzes de um palco sem plateia, onde se confundia o que era teatro e o que era cidade. Músicos saíam de suas casas e passavam a se reunir na rua, tocando-se. Trompetes e fanfarras passaram a repetir seus percursos toda semana e logo às voltas criavam outros laços. Atravessando a cidade, pequenos prédios se tornaram pontos de trocas de palavras, de coisas e de saberes. Uma alegria comum formava identidades que se apropriavam dos lugares para constituir a si mesmas - lembro das palavras “rolezinho” e “coletivos por novas formas de ocupação urbana”. Nesses anos, “rua” e “cidade” passaram a ser significantes que voltavam a ser repetidos nas línguas de diferentes grupos, enodando significações tão distintas cuja única semelhança era a partilha de um mesmo som.

Na universidade, os sons também mudavam. Falávamos muito de diversidade e antigas perguntas ganhavam mais vozes. Ouvia-se um questionamento do papel branco das palavras cruzadas - afirmavam que neles havia coisas escritas antes das tintas. Também ouvia que a caneta da ciência escrevia apenas um gênero do conhecimento; faltava o saber constituído através das vivências de determinadas marcas corporais. Lembro-me que, nos primeiros anos de graduação, os estudos ligados ao gênero e raça faziam parte do currículo; já no presente é demandado não um lugar entre os objetos de estudo, mas que esses corpos ocupem um lugar junto ao sujeito da ciência. Continuava a ouvir críticas à psicanálise, não tanto por ser apolítica ou burguesa, mas por faltar outros gêneros e outras raças. Esse movimento questionou os portões de entrada que finalmente foram reposicionados, permitindo uma circulação inédita nas cadeiras da universidade. A nossa formatura não representou apenas uma formação de profissionais, mas a consolidação de sentidos comuns para significantes como “democracia”, “justiça” e “espaço público”.

O tempo foi passando, os significantes “rua” e “cidade” estavam cada vez mais presentes nas falas cotidianas. O que não significava que sua circulação levou a conversas; as trocas de palavras raramente atravessavam muros. O ambiente estava cada vez mais complexo e contraditório. Havia uma crescente luta por esses espaços criando um lugar de união e de tensão, um nó desse tempo. Também vi pela primeira vez anúncios de grupos autônomos de psicanalistas que ofertavam atendimento em espaços públicos; a psicanálise não parecia continuar no mesmo sentido, pensei.

Eu estava entre linhas ganhas e entre linhas perdidas. Fui procurar uma escola onde esperava aprender o ofício daquilo que poderia chamar de psicanalista. Visitei algumas, instituições respeitáveis e que possuem propostas interessantes, entretanto, ao olhar o folheto e o preço desse serviço, sabia que não era pra mim. Nem mesmo todo meu salário seria capaz de pagar tal formação. Lá ouvi que psicanálise é um investimento caro; não vi sentido naquilo e achei que seria tolice pagar o preço que pediam. Voltei para a universidade.

Entre pesquisa, grupos de trabalho e cursos autônomos, percorria questões levantadas no campo analítico. Um desses grupos era sobre psicanálise e teatro. Lá tive conversas interessantes, a surpresa foi ver o teatro e a psicanálise em outro lugar. No mesmo espaço havia uma reunião que buscava pensar a psicanálise em um ambiente público. Eu me dei conta do que seria colocar cadeiras na rua, criar condições para que o significante “psicanálise” esbarre entre aqueles que atravessam a cidade, passando em olhos que nunca ouviram essa palavra. Vi o teatro aí, vi beleza aí.

Nesse meio tempo o embate político opunha partes inconciliáveis. Os murmúrios de descontentamentos difusos se transformaram em berros perpassados pelo ódio - não era um número enorme de berrantes, mas os gritos eram tão altos que perdemos a noção de tamanho. As palavras perdiam as referências comuns e juntavam-se em frases que nada significavam, mas eram repetidas para expressar uma constante indignação, pertencimento a um grupo e oposição aos demais. Vozes de diversos locais se uniram em torno da expressão “... pela democracia”. A psicanálise não foi exceção, passavam a interrogar a possibilidade de haver condições de praticá-la em ambientes não democráticos. Nisso, outras linhas que já escreveram sobre esse problema foram tiradas do esquecimento, revivendo a conversa. Também via instituições oferecendo rodas de conversa para falar dos desafios desse tempo, manifestos expressando claramente suas posições políticas; e, nessa atmosfera, o significante “clínicas públicas de psicanálise” passou a aparecer mais no cotidiano dos habitantes.

Em setembro de 2019, nós introduzimos algumas cadeiras em uma antiga estação ferroviária, criando o Estação Psicanálise. Para mim foi uma dupla inauguração, lá comecei a ocupar a função de psicanalista. Claro, os inícios só são possíveis porque algo foi reconhecido como presente; apenas estar em um mesmo local em um mesmo momento não suscita uma coabitação. Estávamos pela primeira vez em um local de passagem e nossa primeira tarefa foi possibilitar que os pedestres conhecessem algo sobre a psicanálise. Abordamos pessoas que cruzavam nossos caminhos para contar sobre esse trabalho - a maioria não conhecia tal significante. Era preciso iniciar a história dessa palavra. A primeira conversa mostrou ser essencial, nela um novo som é ligado a afetos; percebemos que a disposição dos nossos corpos foi fundamental para transmitir um estado de humor convidativo àqueles que passam. Uma fundamentação cuidadosa para o novo se dando através de tons de nossas vozes, de feições de nossos rostos, de escolhas de palavras e pela forma como ocupamos o espaço (tentávamos não parecer um conjunto fechado de pessoas conversando). Com o tempo, isso passou a ser uma função ocupada cada dia por um analista: o acolhimento, aquele que recebe quem busca o atendimento, apresenta o coletivo e conduz a um psicanalista.

Nossa proposta não é fazer um consultório na rua. Não é criar um local onde pessoas se reencontram com as mesmas cadeiras, o mesmo divã e as quase-mesmas palavras. Nem o mesmo analista estará lá na outra semana. Você deve estar se perguntando se poderia haver análise nessas condições. Não sabemos ainda, mas afirmo que os efeitos formativos são muito ricos por iniciar uma escrita a partir de riscos. Lembro-me de uma passagem d’O Jogo da Amarelinha, nela, dois personagens veem uma pessoa desenhando na rua, riscos de giz que criavam formas. As personagens olham os traços e uma questiona o porquê de fazer desenhos que serão apagados no dia seguinte. A resposta recebida foi algo como: “nisso está toda a beleza, as únicas coisas que terminam de verdade são aquelas que recomeçam todas as manhãs.”.

As primeiras palavras que escrevemos foram a giz: em uma lousa sinalizamos um local para que reconhecessem que era ali que estavam as pessoas que conversavam e chamavam aquilo de psicanálise. Ainda não sabíamos se seria possível o retorno ao mesmo local na semana seguinte. Escrevemos o que pouco depois foi apagado, mesmo assim fotografamos.

Fig. 1 Fotografia da primeira vez que escrevemos na estação. 

A fotografia consegue guardar em um papel um olhar que passou; aí está nosso desejo escrito a giz. Nessas horas, cortamos o caminho que leva à junta militar, abrindo uma encruzilhada que possibilita outra junta. Nesse dia, atendi pela primeira vez. Veio um rapaz até nós, ele gostaria de falar e eu queria ouvir. Ofereci uma conversa, ele topou e fomos nos sentar. Não podia saber o que aconteceria nessa conversa, entretanto, havia beleza em dois desconhecidos sentarem próximos um do outro e passarem a conversar. As palavras iam e vinham, com o giz passei a escrever algumas no chão e as li em voz alta. Também alguns riscos que apareciam e logo se soltavam. Não sei quais efeitos isso gerou. Vi que o giz diminuiu seu tamanho; talvez tenha sido um momento de ver a menos. Após esse atendimento, apagamos essa lousa e recolhemos nossas coisas. Compartilhamos a foto nas redes sociais, para que o ato de escrever se repitisse, recriando a conversa que faz um espaço onde palavras são escritas, lidas e apagadas.

Na mesma semana, nos reunimos para conversar sobre o que aconteceu. Reuniões onde o gosto pelos saberes e sabores novamente se misturam. Comentamos como foi atender; os casos não eram vistos como pertencentes a um analista e sim como um acontecimento gerado pelo dispositivo. Há um efeito formativo peculiar. São várias vozes que estão em perspectivas diferentes; não sabemos de onde virão palavras que podem nos tocar e levar ao movimento ou à quietude. É um experimento. Alguns psicanalistas se ofereceram para fazer supervisões para momentos em que há um impasse considerado urgente em certo caso. Não senti hierarquia de saberes, e sim uma aposta que somos um coletivo. Os casos são atendidos fundamentalmente por um analista: a Estação.

A pandemia chegou, pouco depois de seu léxico. A rua e o giz estavam impedidos; entretanto, pararíamos de ouvir nesse momento? Passamos a discutir as possibilidades e implicações de redefinições momentâneas das propostas do coletivo. Todos decidiram continuar. Já a escolha pelas formas de mediação que possibilitam o atendimento foi uma questão fervorosamente debatida. Escolhemos o aplicativo Messenger ligado ao Facebook. Essa plataforma permitiu a criação de contas ligadas ao Estação Psicanálise, não necessitando assim que os analistas usassem suas contas pessoais para os atendimentos. Essa decisão também possibilitou que a escolha sobre a forma de realização do atendimento, por vídeo ou por voz, fosse feita por para cada analista. Sabíamos que uma parcela dos atendentes que procuravam o projeto não teriam acesso a tais tecnologias, mas não havia o que fazer diante das novas distâncias. Por outro lado, o caminho que nos deslocarmos até à estação foi reduzido à distância que leva uma mão até ao bolso que guarda o celular.

Um dos efeitos da pandemia em nosso coletivo foi a redefinição dos limites espaciais. As novas condições criavam um novo imaginário e, com ele, novos desconfortos. Em alguns casos passamos a questionar o foco do modelo de atendimento proposto pelo dispositivo, cogitando a possibilidade de acompanhar um caso por mais de uma sessão. Perguntamo-nos se era possível estender tal formato de sessão a todos que passavam por nós. Ainda não podemos responder a tais questões, mas decidimos que diante de tal desconforto, caberia ao analista pensar e decidir acerca da forma como conduzir a singularidade do caso.

Houve dois casos que decidi acompanhar regularmente; considerei esses casos delicados e pensei que a formação de laço com apenas um analista poderia causar efeitos benéficos a curto prazo. Além disso, eu gostaria de atender regularmente, o que me predispôs a esse direcionamento. Seriam bons motores para refletir sobre a psicanálise e para conduzir a caminhos que me interessam, pensei. Realmente, são dois casos com os quais eu aprendo bastante. Aqui contarei um dos efeitos mais significativos causados em mim na minha formação.

São casos exigentes; é difícil ler palavras não sabendo o que significam, nem o que fazer com elas. Algumas insistiam em ressoar em nossos olhos e ouvidos. O significante “sua ajuda” voltava diversas vezes, me causando um incômodo que não havia sentido nos atendimentos individuais. Os pedidos de ajuda vinham acompanhados por uma hostilidade demandosa (apareciam como queixas pelo momento do corte, pedidos de mais sessões na semana, acting-outs, questionamentos acerca da minha capacidade de lidar com o caso, mensagens agressivas durante as semanas, dentre outras coisas). Meu interesse por esses atendimentos foram ficando mais vagos e o que via como bons motores, começou a falhar.

Nesse mesmo tempo, meu interesse pelas possibilidades da escrita aumentava, assim como por questões ligadas à forma de ensino. Estava auxiliando minha orientadora em uma disciplina oferecida por ela, o que implicava em realizar exposições aos demais estudantes. Lembrava-me de antigos professores que me transmitiram a alegria de continuar a coser as linhas que a eles foram oferecidas. Havia um tipo de generosidade em suas palavras e confiança de que a transmissão geraria novos interlocutores para o campo. Sei que as linhas sempre se soltarão e é precisamente isso que permite que algumas atravessem gerações e mantenham um desejo nelas inscrito. Entretanto, o abrir da boca apenas solta as linhas, não as leva para lugar algum. Surge a questão, como passar as linhas entre outros? Quais tons permitem o desejo que entrelaça diferentes tempos manter acesa a chama da conversa? Um aprendizado que me chamava atenção.

Comecei a questionar qual é meu desejo com a psicanálise: a caneta e a passagem de linhas me atraiam mais que as cadeiras unidas na virtualidade. Também me interrogava a gratuidade da proposta, sentia que estava sendo criado um laço através dessa “sua ajuda” e não sabia o que fazer com isso. Falei sobre esse embaraço com outros membros do coletivo, em conversas particulares e em reuniões. Foi importante para ouvir as questões que passavam pela falha do motor. Após um tempo, localizei o meu incômodo na frase “o que a psicanálise pode fazer para a rua”, falada repetidas vezes. Para mim, os termos estavam invertidos e confundiam minha motivação. Então eu li “o que a rua pode fazer para a psicanálise”. O incômodo com o significante “sua ajuda” passou quando me dei conta de que a gratuidade não estava lá para ajudar pessoas que precisam; mas é a psicanálise pensando em uma década em que o espaço público tornou-se uma questão central. Espaço onde o dinheiro não circula, não criando paredes.

As cadeiras estavam lá para ouvir o presente.

A decisão de manter o funcionamento do dispositivo no tempo de pandemia não me aparece como uma continuidade, mas uma passagem decisiva para fundamentar o que é pensar a psicanálise no espaço público, mesmo quando a rua está interditada; transformamos dispositivos para continuar conversas em tempos adversos. Retomar o giz mesmo quando ele não está lá e reescrever um desejo que sabemos que irá se apagar. Retomar o giz e escrever mais uma vez para apagar.

Escrever nesse presente sobre a formação que percorro na psicanálise me faz ter a certeza de como ela só pode ter se dado nesse tempo. Não sei quais caminhos irei percorrer durante minha formação, entretanto, sei que todos me levarão para o sentido da memória. Manter que linhas passadas continuem presentes, entrelaçando-se, necessita que as palavras desse tempo sejam escritas. Colocar as cadeiras nas ruas foi um ato em um tempo no qual as palavras ditas na rua exigem serem ouvidas. E escrever essa experiência em diálogo com os desejos escritos no passado é parte das questões mais importantes que atravessam o que penso ser uma formação; assim como passar as linhas adiante para que outros continuem a tessitura através do tempo. São entregas de presentes; talvez seja essa a matéria da memória.

Figura 2 Cadeiras, linhas e palavras a giz. 

O traumático da pandemia: atualização do traumático sexual

Neste ponto, o presente trabalho se propõe a fazer algumas reflexões teóricas, a partir do que viemos escutando nos atendimentos online do coletivo, acerca da temporalidade do inconsciente e como o sujeito do inconsciente vivência as experiências decorrentes da atual pandemia de Covid-19. Esta proposta encontra sua justificativa no fato de que se a pandemia é da ordem do real, traumático, acidental, imprevisto, ela o é de um real da ciência, enquanto que para a psicanálise fica a tarefa de sobre isso dizer algo que venha da experiência analítica (Soler, 2015/2018).

Para apresentar as reflexões propostas, faz-se necessário começar por tratar do tempo para a psicanálise. O tempo do sujeito do inconsciente difere do tempo do relógio, não é Cronos que impera, devorando os instantes sucessivos como a seus filhos, e sim Kairós, com seus momentos oportunos (Fingermann, 2009). Esta temporalidade Outra se apresenta com a descoberta freudiana desde sua formulação de que o trauma se constitui em dois tempos que mantêm entre si uma relação de a posteriori - Nachträglich - e encontra sua consolidação em “O inconsciente”, no qual Freud define que:

Os processos do sistema Ics são atemporais, isto é, não são ordenados temporalmente, não são alterados pela passagem do tempo, não têm relação nenhuma com o tempo. A referência ao tempo também se acha ligada ao trabalho do sistema Cs. (Freud, 1915/2010a, p. 128)

Lacan, por sua vez, segue essa trilha retomando a importância do Nachträglich na obra freudiana e formaliza o tempo na experiência analítica como tempo lógico (Lacan, 1945/1998). Uma sucessão de três momentos provocados por duas escansões decorrentes da estrutura da linguagem e do significante: instante de olhar, tempo para compreender e momento de concluir. Não se trata de uma sucessão cronológica, mas de uma modulação do tempo na qual cada momento é reabsorvido na passagem para o seguinte. Passado, presente e futuro não se desenrolam somente em uma diacronia, mas também em uma sincronia. Vale ressaltar, na operação de constituição do sujeito, a importância da dialetização provocada por essas duas suspensões e de sua decorrente precipitação num momento de concluir em que o sujeito se separa de sua alienação ao Outro, pois isso tem consequências na prática clínica lacaniana, desde o tempo cronológico de duração das sessões até a consideração dos efeitos de um acontecimento presente.

O engendramento do sujeito através do corte do significante estabelece essa temporalidade retroativa. Como Fingermann (2008) coloca: “Para o sujeito do inconsciente (...), desde sua constituição pelo significante, o presente se passa na antecipação de um futuro marcado por aquilo que do passado não é mais: um ‘pode ser’ delineia-se a partir de um ‘poderia ter sido” (p.10). Assim, “o futuro também marca o passado, validando seus acontecimentos - nachträglich - como presentes e atuais” (Fingermann, 2009, p. 61). Isso permite explicar a insistência do inconsciente e dos significantes recalcados, sempre atuais, (re)atualizando-se em diferentes eventos ao longo da vida.

Como, então, o sujeito do inconsciente, que funciona nessa temporalidade, é afetado pelo acontecimento, no presente, de uma crise sanitária de nível global? Como as repentinas mortes de milhares de pessoas, dentre elas entes queridos, o afetam? Nossa leitura inicial é de que a morte de entes queridos, as notícias diárias de aumento do número de mortos e de ocupação de leitos em hospitais, trazem à tona a possibilidade da própria morte, insimbolizável, e que remete à dimensão da castração. E, também, de que as constantes exposições a choques e perdas dificultam uma articulação e um encadeamento das experiências, necessários para o início da elaboração dos lutos que se impõem atualmente, tendo por consequência uma descordenação simbólica. O sujeito se vê preso a instantes atemporais e o efeito disso é a emergência da angústia, cujas declinações têm sido escutadas pelos(as) analistas do coletivo.

Em um texto escrito no contexto da Primeira Guerra Mundial, Freud (1915/2010b) coloca que o ser humano não consegue conceber a própria morte e, “por mais que tentemos imaginá-la, notaremos que continuamos a existir como observadores” (p. 231). Há uma negação da própria morte, uma postura narcísica de tomá-la como algo improvável, de modo que no inconsciente o eu se considera como imortal. Quando ocorre, então, a morte de alguma pessoa próxima, essa postura narcísica vacila e “a cada vez somos atingidos profundamente e como que abalados em nossa expectativa” (Freud, 1915/2010b, p. 232). Expectativa de que o eu, assim como os objetos aos quais se liga libidinalmente, não perecerá - mas até Aquiles tem seu ponto mortal. É trazida à tona, também, a situação de desamparo radical do sujeito. Assim, algo que não deveria aparecer (res)surge junto com essas notícias e perdas - Unheimlich, infamiliar.

A consequência desse advento é a angústia, afeto padrão dos adventos do real, afeto cuja temporalidade “está ligada ao instante, nada pode habitar ali, algo na experiência mesma ejeta o sujeito” (Halderman, 2008, p. 196, tradução nossa).

A angústia se apresenta como um compasso de espera, próximo à perplexidade e pode ou não envolver coordenadas subjetivas (...). Trata-se de um tempo de detenção, de corte, que geralmente se mostra como descontinuidade, um momento de perda de coordenadas subjetivas. (Haldemann, 2008, p. 196, tradução nossa)

Essa ejeção do sujeito em abismos temporais na angústia, produz uma dificuldade de significação e articulação das experiências vivenciadas. Uma vez que o sujeito surge como efeito da articulação entre significantes, esta dificuldade, potencializada no atual contexto pelas mortes constantes e numerosas, tem como resultado, ainda que pontual, uma descoordenação simbólica.

Em “Luto e melancolia”, Freud (1915/2010c) descreve o trabalho de luto como decorrente de uma exigência do exame da realidade no qual toda libido é desinvestida das ligações com esse objeto perdido. Há, portanto, um passo a passo desse desligamento libidinal - que demanda tempo - a cada vez que um objeto é perdido. No atual contexto, assim como na época de guerra em que Freud escreveu este texto, muitas são as mortes de pessoas próximas e, também, muito próximas temporalmente. Pessoas que na mesma semana perdem mãe e esposa, ou filho e irmão, por exemplo. A dificuldade que uma pandemia coloca a esse trabalho é justamente o fato de que diversos objetos são perdidos simultaneamente. O desligamento libidinal exigido ao sujeito é mais extenso e o colapso frente a essas perdas pode ser maior.

O vírus e a pandemia se colocam, então, como um acontecimento do real. Real da ciência, da vida, que atualiza retroativamente - na temporalidade a posteriori do inconsciente - o real sexual, o traumático do encontro faltoso com o Outro. Diante disso, a fantasia fundamental - também nomeada como fantasma - e os recursos de cada um são mobilizados singularmente na tentativa de produção de uma resposta que localize novamente o sujeito no enquadre que faz de sua realidade. Os efeitos clínicos disso têm sido escutados pelos(as) analistas do coletivo nos atendimentos que estão sendo feitos online desde abril deste ano. Traremos alguns exemplos propondo uma leitura a partir do quadro que Lacan (2004/2005) desenvolve em seu seminário A angústia e das reflexões feitas acima.

De início, algo foi comum em mais de um atendimento. Diferentes pessoas se queixaram de um desânimo, de não terem mais vontade de fazer coisas que gostam de fazer justo agora que teriam mais tempo para tal, algo como uma certa depressão - não necessariamente no sentido que a psiquiatria estabelece, ainda que esse significante seja muito impregnado por esse sentido. Pode-se ler esse fenômeno como uma incidência da inibição, definida como a “introdução numa função (...) de um desejo diferente daquele que a função satisfaz” (Lacan, 2004/2005, pp. 343-344). Introdução de um desejo, em sua relação polar com a angústia, como defesa: não ver, não fazer, uma parada do movimento metonímico.

Em casos mais agudos, a resposta do sujeito se dá pelo impedimento, duplicação da inibição na vertente da dificuldade, formulado em torno de um “não poder”, uma impotência de se ater a seu desejo. Nisso, ele é como que pego em uma armadilha que não pode evitar, deixa acontecerem coisas (Lacan, 2004/2005); coloca-se como um expectador passivo da vida diante da janela - de casa ou dos gadgets virtuais.

Em outros casos surgem sintomas, ou a intensificação de sintomas já existentes, e atuações (acting out), que se organizam em torno de um “tenho que” obsessivo. Procedimentos de limpeza e higiene que se tornam rituais, o desenvolvimento de certa hipocondria, o receio de sair de casa - tomando o vírus quase como objeto fóbico.

Há, também, aquelas que veem a pandemia como parte dos planos de Deus, ou do destino, produzindo um sentido que tampona o furo do Real (re)atualizado, o que evita ou ao menos diminui o montante de angústia que experimentam. Outras, ainda, reforçam uma postura narcísica na tentativa de denegar a possibilidade da própria morte e a castração que ela comporta e adotam uma postura negacionista, questionando a existência de fato da pandemia ou se recusando a seguir as orientações de órgãos sanitários e de saúde porque “não é para tanto”, por exemplo. Postura esta que encontra, no Brasil, sua legitimação especular no discurso de diferentes representantes políticos, incluindo o presidente. Esta legitimação também produz um efeito sócio-político: ela dificulta a dialetização que as suspensões temporais podem provocar, fazendo com que o sujeito incorra num erro e se mantenha prisioneiro, lembrando aqui do sofisma de Lacan (1945/1998). Prisioneiro dos (des)mandos do Outro.

Momento de concluir…?

Não deve ser por motivo qualquer que nestes tempos a teoria do trauma tem voltado com maior frequência à boca e à pena dos psicanalistas. É perceptível a necessidade de retomar os relatos dos efeitos deletérios que experiências de desumanização e exclusão radical da comunidade humana têm particularmente sobre cada um dos excluídos. Como nos aponta Koltai (2016), a clínica do trauma nos exige uma postura diferente da já consagrada e bem conhecida neutralidade analítica. Tais situações convocam o analista a considerar que esta condição aponta justamente para o laço entre um sujeito e a comunidade humana, não podemos dizer que se trata de apenas de uma questão da história individual, mas também desta com a História. Citamos a autora.

O que disse até o momento me permite afirmar que a leitura da literatura de testemunho me ajuda em meu ofí­cio de analista na medida em que entendo o testemunho como um ponto de articulação entre história pessoal e co­letiva, que remete tanto à responsabilidade do sujeito que fala quanto àquela de quem o escuta. Penso, assim como Levallois (2007), que a psicanálise não pode se dar ao luxo de esquecer que lida com um sujeito histórico, depositário de uma história, razão pela qual todo analisando acaba em um determinado momento de seu percurso se vendo obri­gado a testemunhar a relação que sua história individual mantém com a grande História, o que por sua vez exige a escuta de um analista capaz de relacionar a escuta da histó­ria que ouve com a História do mundo; caso contrário, em vez de ajudar seu analisando a construir sua singularidade, criará nele o sentimento ilusório e tóxico de o estar aban­donando a uma solidão de exceção, e de ser o único a ter vivido determinado horror. (Koltai, 2016, p. 26)

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e dos campos de concetração e exterminínio, surge e urge entre os sobreviventes a necessidade de relatar, narrar suas tenebrosas experiências nos campos da morte. Os relatos são profusos! Tanto nos anos logo seguintes ao final da guerra como no decorrer das décadas seguintes. Muitos entre os sobreviventes, como Primo Levi e Jorge Semprun, se utilizaram largamente deste recurso para manterem-se ligados ao mundo que os circundava por toda a vida, compondo extensas obras em que procuram dar contorno a esta experiência inominável.

É, então, pela proposta de aproximação entre a clínica psicanlítica e o testemunho que Koltai (2016) procura ressituar eticamente a função da escuta analítica. Portanto, isto é valido tanto para seus efeitos clínicos recolhidos, como para a formação do psicanalista e, por fim, para a própria inscrição da Psicanálise na cultura. Esta proposta de escuta se conduz pelo fio entre a inscrição da história pessoal e da grande História, a partir da posição de testemunha que o analista pode ocupar. Endo (2019) aponta posição semelhante ocupada dentro dos campos de concetração pelos narradores de destino e intérpretes de sonhos, um outro convacado a compor, junto com o sonhador, um jogo entre sonhado e narrado de onde pode surgir um novo voto, um novo desejo.

A prática do coletivo Estação Psicanálise se faz nessa articulação entre a história do sujeito e a História coletiva. Por fim, vale ressaltar que as leituras propostas no presente trabalho só poderão recolher seus efeitos de pertinência e se precipitar num momento de concluir em algum tempo ainda incerto… Nachträglich! E é função da psicanálise e dos(as) psicanalistas não produzir um fechamento do instante de incerteza em que nos encontramos, seja no que diz respeito às transferências de trabalho e o funcionamento em coletivo, à formação do analista e à direção de tratamento. Pois esse instante pode ser estratégico para as soluções singulares frente ao que já ocorreu até aqui e o que ainda ocorrerá daqui em diante. Sustentar isso pode operar como sustentar uma tensão que pode produzir as básculas necessárias para um tempo para compreender e um momento de concluir próprios de cada sujeito, em oposição à tendência de uma massificação imaginária característica de nossa época.

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Revisão gramatical: Elisa Mara Nascimento E-mail:elisamn10@hotmail.com

Recebido: Novembro de 2020; Aceito: Agosto de 2021

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