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Estilos da Clinica

versión impresa ISSN 1415-7128versión On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.27 no.1 São Paulo  2022  Epub 07-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v27i1p168-172 

Resenha

As abelhas não fazem fofoca: da transmissão de um psicanalista na educação

Letícia Vier Machado1 
http://orcid.org/0000-0002-2288-2599

*Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (IPUSP), São Paulo, SP. Brasil. E-mail: leticiaviermachado@gmail.com

Rosado, J.; Pessoa, M.. 2021. As abelhas não fazem fofoca. São Paulo: Instituto Langage, 320pp.


A obra reúne ensaios na interface entre psicanálise e educação, produzidos a partir de uma situação comum entre os autores que a compõem: pesquisas surgidas do encontro dos pesquisadores com o professor Leandro de Lajonquière, na condição de alunos ou orientandos. A maneira como a transmissão do ensino do professor fez par com o desejo de cada um dos autores deixou traços em suas pesquisas.

Por este motivo, a escolha do título As abelhas não fazem fofoca não é arbitrária. Ela se refere ao endereçamento de um professor aos seus alunos, ou de um adulto a uma criança -endereçamento que só é possível entre seres palavrantes nesse campo de trocas humanas a que chamamos de linguagem. A partir da palavra transmitida, torna-se possível tecer uma história (ou uma pesquisa) própria. Como em uma brincadeira de telefone sem fio, essa transmissão necessariamente comporta certa equivocidade, enganos e dimensões imponderáveis. Se entre abelhas não há desencontro no campo da linguagem, o que significa não haver deslizamento significante que permita fofocar, entre humanos essa é a condição mesma para o laço social.

Para abrir a discussão do livro, Lajonquière dá o depoimento De um psicanalista na educação. Nele, retoma ideias desenvolvidas ao longo de seu trabalho, colocando em marcha um exercício de ilustração metodológica do percurso de pesquisa e de pensamento dele que mostra como “(...) velhas questões continuam a serem tratadas junto com as novas” (p. 14). Da escrita de Lajonquière, depreendemos como a trajetória de vida e a de pesquisa são fios de uma mesma tessitura. O professor registra uma espécie de memorial universitário que percorre os rastros de suas ideias, sempre em transformação: de sua aproximação com os estudos piagetianos e a consequente abertura para a possibilidade de pensar contra o realismo e o substancialismo presentes no campo psicológico e pedagógico, ao encontro por ele engendrado entre Piaget e Freud, incluindo sua passagem pela École de Bonneuil, onde se aproximou do ensino de Maud Mannoni.

Acompanhar o percurso das ideias de Lajonquière é ser testemunha de seu interesse pelas descontinuidades. O professor nos interpela a questionar amálgamas bastante atuantes no ideário psicológico e pedagógico de nossos tempos, desfazendo uma suposta colagem entre infância e criança, entre conhecimento e saber. Mostra-nos, desdobrando teoricamente tais noções, que entre elas não há relação de conaturalidade, senão uma dobradiça que as articula e as coloca em movimento. Considerá-las num continuum supostamente natural seguiria os rastros das ilusões (psico)pedagógicas (Lajonquière, 1999), que não cessam de se atualizar no mercado da educação.

Lajonquière esteve atento aos debates que permeiam a educação no Brasil, como a discussão sobre a formação de professores, mas não se deixa capturar pela consistência imaginária da questão sobre o que faz um professor, tampouco pelas promessas do mercado de formação e tecnicização do fazer docente. Se estas situam o savoir-faire da docência em instrumentos e métodos pedagógicos, Lajonquière depreende daí uma pergunta estrutural, a partir da qual articulará as noções d’A-Criança, das ilusões (psico)pedagógicas e do justificacionismo psicológico, entre outras: afinal, em nome de quê os adultos endereçam a palavra às crianças?

O livro está organizado em três eixos. No primeiro, intitulado “Da docência”, os autores abordam problemáticas atuais no campo da educação levantadas pela pandemia de Covid-19, como o laço professor-aluno e a exacerbação das desigualdades sociais, além de embates recentes que ganharam espaço e visibilidade na arena política brasileira, a exemplo da polêmica em torno da legalização do homeschooling e da aprovação da PEC 241, que determinou o congelamento dos gastos públicos com a educação.

No primeiro eixo, o capítulo assinado por Andressa Mattos Salgado Sampaio tece uma articulação entre a escola, o professor, os alunos e o ideal de uma nação, procurando mostrar como, no Brasil, a precarização da escola pública e a reprodução da desigualdade social que ultrapassa os muros da escola dá notícias do ideal de educação que paira sobre a nação. Sampaio realça a descontinuidade entre transmitir e ensinar: se transmitir remete às marcas simbólicas que atam uma criança numa história em curso, a escola, como lugar simbólico, não tem mais funcionado como lugar de palavra que enlaça um sujeito (p. 42). A articulação entre transmitir e ensinar evidencia o que está em jogo no laço educativo, questão também presente no capítulo assinado por Jonas Tabacof Waks. O autor parte de sua experiência como professor de filosofia em escolas públicas de ensino médio do estado de São Paulo para documentar o processo de descaracterização da identidade docente na implementação do programa curricular São Paulo faz Escola, com o argumento de que o professor foi deslocado da condição de seu trabalho artesanal para o estatuto de objeto, mudança denominada pelo autor de “proletarização docente” (p. 74).

Na esteira das reflexões de Waks, o capítulo de autoria de Janaína dos Reis Rosado também se debruça sobre o fazer docente. A dobradiça trabalhada por Rosado é aquela que torciona docência e vocação, entre as quais tampouco existe relação de conaturalidade. A autora dá um encaminhamento simbólico para a questão, ao defender que o tornar-se professor é uma operação que habita o campo da linguagem e envolve uma mudança de posição discursiva, na qual os professores incorporam e passam adiante a dívida simbólica que receberam de seus antecessores, animados por um desejo não-anônimo. À maneira que o Outro materno endereça a palavra a uma criança, é a transmissão endereçada de um professor ao aluno que possibilita a conquista de um lugar próprio.

Na sequência dessa seção do livro, o capítulo assinado por Luís Adriano Salles Souto toma como pano de fundo a temática do homeschooling no Brasil - modalidade de educação substitutiva à educação escolar - para abordar facetas da socialização escolar a partir da psicanálise, como a função do semelhante. Se no texto de Rosado um professor se faz a partir de um giro discursivo, na escrita de Souto é a escola que possibilita o reposicionamento subjetivo dos alunos, a partir do contato com a autoridade e o pacto coletivo que rege a vida comum, além de servir como dispositivo de socialização do narcisismo nas sociedades democráticas (p. 99).

Ainda no eixo “Da docência”, Caroline Fanizzi lança a pergunta: o que se transmite no educar? A autora problematiza as vicissitudes do ensino numa lógica tecnocrática e a oferta de produtos, cursos e saberes especializados para fazer suplência àquilo que supostamente faltaria ao professor, tido como insuficiente no exercício de seu ofício. Se a ilusão de controle, previsibilidade e mensuração se sobrepõem ao ato educativo, é o próprio professor quem experiencia a insuficiência, alimentado pela crença de que haveria um saber absoluto sobre o educar. Assim, a partir da noção do imaginário pedagógico desenvolvida por Lajonquière, Fanizzi revisita manuais pedagógicos datados do século XIX, em que a ideia da insuficiência do professor está presente para mostrar como, no seu avesso, produz-se um ideal do magistério, tido como modelo do ser e do fazer docentes. Se a migração da pedagogia como arte para sua versão atual, a pedagogia científica, impõe mudanças no ofício do professor, no discurso tecnocientífico atual, o desejo fica obliterado, perpetuando a ilusão (psico)pedagógica denunciada por Lajonquière (1999).

O capítulo assinado por Isael de Jesus Sena estende a reflexão sobre o fazer docente e, mais precisamente, sobre o laço professor-aluno, ao ensino universitário. O autor analisa criticamente a política de mercantilização do ensino universitário no Brasil nos últimos trinta anos, desenvolvendo a tese de que esse modelo de ensino, de caráter utilitarista, engendra uma montagem perversa no laço professor-aluno. Para isso, visita os impasses do Programa Universidade para Todos, o PROUNI, bem como analisa o fortalecimento da privatização do ensino superior e suas repercussões no laço social, cada vez mais guiado pelo Mercado.

Para fechar o primeiro eixo do livro, o capítulo assinado por Ana Carolina Barros Silva apresenta um sensível relato de campo de seu trabalho junto a professoras moçambicanas, após a passagem do ciclone Idai por Moçambique e de seus efeitos destrutivos sobre uma escola pública da área rural. A autora narra de que forma o fenômeno se conjugou às dificuldades existentes de crianças que frequentavam a escola em relação à higiene, ao transporte e às condições de vida que dificultaram tanto o acesso quanto a permanência na escola. Silva sustenta a tese de que, para aprender, é preciso que uma criança tenha um lugar nas utopias dos adultos, que lhe reservam uma esperança de futuro (p. 175). Articulando sua tese à noção de desejo não-anônimo apresentada por Lacan (2010), a autora analisa efeitos das marcas da violência e da presença de diferentes lutos na história moçambicana como atravessamentos no laço educativo. Naquele contexto, trata-se não só do lugar que um aluno ocupa nos sonhos de seus professores, como também do próprio lugar destes no desejo de seus antecessores.

O segundo eixo do livro, intitulado “Da inclusão”, congrega textos sobre experiências de inclusão em escolas, sobre a formação do professor nesse contexto e sobre a clínica psicanalítica com crianças em dificuldade de estar no laço social. O texto de Juliana Bartijotto abre a seção, partindo de uma situação clínica disparadora: as frequentes queixas dos pais a respeito dos impasses do educar e da dificuldade de sustentar uma posição educativa junto aos seus filhos, depositando no especialista a expectativa de que este venha a educar aqueles. A autora, então, interroga a pertinência de se considerar ainda o pai como função, como um operador clínico na contemporaneidade, e conclui que o pai simbólico continua a operar na constituição do sujeito, ainda que atravessado pelo discurso capitalista e pela consequente ilusão de que as demandas do sujeito poderiam ser completamente satisfeitas, na esperança de um Outro consistente e sem falta.

O capítulo assinado por Verônica Gomes Nascimento e Maria Virgínia Machado Dazzani articula inclusão escolar a algumas ilusões (psico)pedagógicas. As autoras argumentam que, dentre as ilusões que a promessa de inclusão sustenta, está a ilusão de homogeneidade. Fazendo uso da noção d’A-Criança - desenvolvida por Lajonquière para se referir a esta criança abstrata e sem faltas, bricolagem de saberes especializados que encarna o ideal presente nos sonhos dos adultos - as autoras sustentam o argumento de que os ideais tecnocientificistas têm reduzido a inclusão à adaptação do aluno à escola, não abrindo espaço para a emergência do desejo. Em consonância com o texto de Fanizzi, na expectativa da produção de uma criança ideal, sem faltas, o professor fica impedido de se identificar com o sujeito da falta - sua insuficiência deve ser, imediatamente, suplantada. Assim, o ato educativo é reduzido à técnica, destituído de subjetividade (p. 210). Como procedimento técnico, imersa no discurso capitalista, a inclusão responde à lógica mercadológica, é o que discute Elaine Cristina Mourão sobre a relação entre a educação inclusiva e o mercado de formação de professores que ela movimenta.

O investimento na formação de professores especializados, munidos das últimas novidades técnicas do mercado para educar crianças supostamente especiais, tidas como muito diferentes de outras, leva a crer que o ato educativo se localiza antes no estímulo ofertado do que no laço adulto-criança que faz com que um professor enderece a palavra aos seus alunos de forma não-anônima. Aqui, vale recordar um trecho de Infância e Ilusão (psico)pedagógica: “a lógica psicopedagógica hegemônica condena as crianças ‘especiais’ a ser estimuladas com cuidado redobrado” (Lajonquière, 1999, p. 119).

Ao contrário desta lógica que situa o ato educativo no saber especializado e técnico, Mariana Sica narra sua passagem pela École de Bonneuil como estagiária de psicologia, à luz de ideias no interior do campo da psicanálise e da educação. A autora ilustra o funcionamento da instituição, descrevendo os afetos que permearam sua experiência. Recorre à noção freudiana de inquietante para contornar a angústia no seu encontro com crianças autistas e psicóticas na instituição e cita Lajonquière: “toda relação adulto-criança, em que esteja implicada uma educação, evoca essa dimensão de estranhamento, ou, na sua variação, estrangeirice” (p. 241). Sica retoma o espírito mannoniano no uso do termo institution eclatée, uma instituição “estourada”, na qual opera a produção de aberturas para o mundo, apostando que nestes interstícios e no encontro entre dois sujeitos comuns, entre um adulto capaz de transmitir uma herança de forma endereçada e uma criança que está em posição de recebê-la, residiria o “sucesso da inclusão”.

Nesse mesmo sentido, a experiência narrada por Taly Sister, que encerra esse eixo do libro, retrata seu encontro com um menino diagnosticado autista em seu trabalho de acompanhamento escolar. Através de vinhetas desse trabalho, a autora apresenta como foi possível a criação, junto à professora da criança, de uma forma singular de convite à entrada no discurso alfabético. Por meio do interesse singular da autora pelo menino em questão e suas particularidades, ela captou o que captava o interesse dele. Para tanto, foi preciso que Sister sustentasse o risco de não-saber antecipadamente os efeitos de suas intervenções, mas que apostasse na possibilidade de um sujeito se vincular ao campo da linguagem e de entrar no laço com o outro pelo prazer compartilhado. Dessa forma, aquilo que seria interpretado como erro no discurso psicopedagógico hegemônico, foi o que possibilitou à criança uma via própria para se dizer, inscrevendo sua marca subjetiva.

O terceiro e último eixo do livro, intitulado “Da linguagem”, congrega três textos que nos contam, por diferentes entradas, as maneiras pelas quais um sujeito é banhado pela linguagem para se constituir. Dito de outro modo, os autores exploram as diferenças fundamentais entre sujeitos e abelhas! A seção é inaugurada com o texto assinado por Fabíola Graciele Abadia Borges, no qual a autora explora o conceito de corpo para além da biologia, revisitando o conceito de pulsão tal como teorizado por Freud, bem como seus desdobramentos na obra de Lacan. Demonstra, assim, como o circuito pulsional é a isca que lança, para um bebê, a possibilidade de se conectar no Outro materno para que, do efeito deste encontro e da antecipação materna, constitua-se um sujeito.

Na sequência, o capítulo assinado por Marcos Pessoa explora as vicissitudes da entrada do filhote humano no campo da linguagem. Precisa, assim, a diferença entre a comunicação consistente das abelhas e a fal(h)a endereçada dos adultos, que introduz uma criança no mundo simbólico e a banha de significantes antes mesmo de sua chegada. Se o lugar reservado à chegada de uma criança não coincidirá em absoluto com o lugar que ocupará futuramente, será justamente por esta diferença, que dará condições a uma criança de poder inventar para si uma marca própria a partir das marcas que recebeu do Outro. Marcas que remontam à lalangue, como recorda o texto de Arieli Palacios Maciel, que fecha essa parte final da publicação.

Essa língua materna que não serve à comunicação, como retoma a autora a partir da teorização de Lacan, marca as primeiras trocas sonoras e libidinais entre mãe e criança: os balbucios, as entonações que dão ritmo às trocas com o Outro e com o mundo (p. 307). Maciel problematiza a proposta de ensino e transmissão das línguas maternas em contexto escolar, sinalizando a importância de resgatar, nessa discussão, a dimensão da singularidade. Enquanto para alguns a retomada e o ensino da língua de origem parental pode ter efeitos estruturantes, para outros, o esquecimento dessa língua pode favorecer o distanciamento do sujeito do “engodo do incomunicável” (p. 314).

Em síntese, As abelhas não fazem fofoca é um livro sobre transmissão, sobre como cada um inventa o seu savoir-faire a partir das marcas que recebeu do ensino de um professor. A diversidade das temáticas dá notícias de como as noções apresentadas por Lajonquière, as ideias que o visitaram, como lhe é de costume dizer, continuam sendo recursos para pensar o ato educativo nos diferentes cenários apresentados pelos autores.

Referências

De Lajonquière, L. (1999). Infância e ilusão (psico)pedagógica: escritos de psicanálise e educação. Petrópolis, RJ: Vozes. [ Links ]

Lacan, J. (1960-1961) O seminário. livro 8: A transferência. (2010). Rio de Janeiro, RJ: Zahar. [ Links ]

Revisão gramatical: Silvia Galesso Cardoso E-mail:silviagalesso@gmail.com

Recebido: Fevereiro de 2022; Aceito: Abril de 2022

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