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Estilos da Clinica

versión impresa ISSN 1415-7128versión On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.27 no.2 São Paulo  2022  Epub 10-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v27i2p217-232 

Artigo

A recusa aos laços: transmissão psíquica em “Os laços de família” de Clarice Lispector

El rechazo a los lazos: transmisión psíquica en “Os laços de familia” de Clarice Lispector

The refusal of bonds: psychic transmission in “Os laços de familia” by Clarice Lispector

Refus des liens: transmission psychique dans “Os laços de familia” par Clarice Lispector

Luan Felipe de Souza Junqueira1 
http://orcid.org/0000-0002-3520-6338

Soraya Maria Romano Pacífico2 
http://orcid.org/0000-0002-2973-3254

Fabio Scorsolini-Comin3 
http://orcid.org/0000-0001-6281-3371

*Psicólogo. Mestre em Ciências pelo Programa de Pós-graduação em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: luan.f.junqueira@gmail.com

**Lingüista. Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo e Professora Associada da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: smrpacifico@ffclrp.usp.br

***Psicólogo e Lingüista. Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo e Professor Associado da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil. E-mail: fabio.scorsolini@usp.br


Resumo

O objetivo deste estudo teórico é refletir sobre os marcadores da transmissão psíquica no conto “Os laços de família”, de Clarice Lispector, publicado originalmente em 1960. A interpretação ocorreu a partir da psicanálise winnicottiana em diálogo com a psicanálise dos vínculos sociais. A transmissão psíquica emerge como possibilidade de compreender a relação entre a protagonista, sua mãe e seu filho, destacando aspectos não apenas daquilo que é transmitido inconscientemente, mas da transmissão do adoecimento psíquico e da dificuldade em estabelecer vínculos. A transmissão mostra-se um caminho ao qual não se pode recusar. A potência da personagem Catarina reside na tentativa de remalhar, junto ao filho, o que fora comprometido em sua história desde as suas primeiras relações, reavendo falhas ambientais importantes e em direção à resiliência familiar.

Palavras chave: transmissão psíquica; vínculos sociais; Clarice Lispector; D. W. Winnicott

Resumen

El objetivo de este estudio teórico es reflexionar sobre los marcadores de transmisión psíquica del cuento “Os laços de família”de Clarice Lispector, publicado originalmente en 1960. La interpretación se da desde el psicoanálisis winnicottiano en diálogo con el psicoanálisis vincular. La transmisión psíquica surge como una posibilidad para comprender la relación entre la protagonista, su madre y su hijo, destacando aspectos no solo de lo que se transmite inconscientemente, sino de la transmisión de la enfermedad psíquica y la dificultad para establecer vínculos. La transmisión es un camino que no se puede rechazar. La potencia del personaje de Catarina reside en el intento de compartir, con su hijo, lo comprometido en su historia desde sus primeras relaciones, reviviendo importantes fallas ambientales y hacia la resiliencia familiar.

Palabras clave: transmisión psíquica; lazos sociales; Clarice Lispector; D. W. Winnicott

Abstract

The aim of this theoretical study is to reflect on the markers of psychic transmission in Clarice Lispector's short story “Os laços de família”, originally published in 1960. The interpretation took place from Winnicottian psychoanalysis in dialogue with the psychoanalysis of social bonds. Psychic transmission emerges as a possibility to understand the relationship between the protagonist, her mother and her child, highlighting aspects not only of what is unconsciously transmitted, but of the transmission of psychic illness and the difficulty in establishing bonds. Transmission is a path that cannot be refused. Catarina’s character’s power resides in the attempt to share, with her son, what had been compromised in her history since her first relationships, recapturing important environmental failures and towards family resilience.

Keywords: psychic transmission; social bonds; Clarice Lispector; D. W. Winnicott

Résumé

Le but de cette étude théorique est de réfléchir sur les marqueurs de la transmission psychique dans la nouvelle “Os laços de família” de Clarice Lispector, initialement publiée en 1960. L'interprétation est venue de la psychanalyse winnicottienne en dialogue avec la psychanalyse des liens sociaux. La transmission psychique apparaît comme une possibilité de comprendre la relation entre la protagoniste, sa mère et son enfant, mettant en évidence des aspects non seulement de ce qui est transmis inconsciemment, mais de la transmission de la maladie psychique et de la difficulté à établir des liens. La transmission est un chemin qui ne se refuse pas. La puissance du personnage de Catarina réside dans la tentative de partager, avec son fils, ce qui avait été compromis dans son histoire depuis ses premières relations, ravivant d'importants échecs environnementaux et vers la résilience familiale.

Mots-clés: transmission psychique; liens sociaux; Clarice Lispector; D. W. Winnicott

O ano de 2020 marcou o centenário de nascimento de Clarice Lispector, uma das autoras mais reconhecidas no Brasil e no mundo (Gotlib, 2011; Montero, 2021; Moser, 2017). O interesse pela obra da autora não se resume ao campo da literatura, sendo que seus livros e sua biografia têm dado origem a diversos estudos, sobretudo os que se posicionam em um interstício entre Psicologia e literatura e, nesse espaço potencial, destaca-se a psicanálise (Junqueira & Scorsolini-Comin, 2021a; Pojar & Scorsolini-Comin, 2020; Rosenbaum, 2019; Sanches, 2019). A literatura também pode funcionar como um espaço para reflexões importantes, como as relacionadas à saúde mental (Junqueira & Scorsolini-Comin, 2021b; Scorsolini-Comin & Figueiredo, 2018), abrindo possibilidades interpretativas a partir de personagens, enredos e das próprias biografias de seus autores. No entanto, essa aproximação não deve ocorrer como se a psicanálise fosse uma área que pudesse resumir a literatura a um objeto passível de análise ou então psicologizá-la, mas problematizando como o diálogo entre esses campos pode produzir inteligibilidades tanto no domínio literário como no psicanalítico (Passos, 2002).

Dando continuidade a esse interesse e buscando contribuir com esse importante campo, o objetivo deste estudo teórico1 é refletir sobre os marcadores da transmissão psíquica no conto “Os laços de família”, publicado em 1960 na coletânea homônima Laços de família. Este foi o primeiro livro de Clarice que alcançou o grande público à época de seu lançamento (Moser, 2017), ultrapassando o círculo de críticos literários e escritores que a acompanhavam desde a publicação de seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, em 1943. Considerada uma coletânea mais próxima dos leitores, ganhou importância também ao disparar reflexões sobre a instituição família, retratada de modo central em todos os contos da obra.

A interpretação empreendida no presente estudo parte da psicanálise winnicottiana (Winnicott, 1956/2000) em diálogo com a psicanálise dos vínculos sociais (Benghozi, 2010). Em termos metodológicos, primeiramente será apresentado o enredo do conto e, posteriormente, o percurso analítico que envolve a discussão sobre a construção e a sustentação dos vínculos, o movimento da transmissão psíquica e, por fim, da configuração da tendência antissocial como conceito psicodinâmico capaz de contribuir para a interpretação do conto.

Os laços de família

O conto inicia-se com a partida da mãe de Catarina, Severina, após passar um período na casa da filha. O cenário tenso criado pela visita da velha senhora provocava desconforto não apenas em relação à filha, com quem não tinha intimidade, mas também com o genro e o seu neto. De igual monta, a partida de Severina também promovia instabilidades e questionamentos.

Enquanto estavam no táxi, dirigindo-se à estação de trem, sua mãe falava sobre o neto, filho de Catarina e Antônio, dizendo que o menino estava magro e nervoso. Não é explícito, mas o menino parece sofrer. Aventa-se, na presente interpretação, que esse sofrimento esteja relacionado a algum nível do espectro autista:

(...) mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. (...) Mas o menino olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguiria ainda chamar-lhe verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia “mamãe” nesse tom e sem pedir nada. (Lispector, 2009, p. 99).

Durante a visita da avó, o menino ficou ainda mais distante, distraído e perturbado pelas “carícias” da avó demonstradas em forma de beliscões. Talvez esses beliscões descritos como forma de carinho pela avó fossem o modo como ela conseguia entrar em contato com o menino, ou mesmo uma tentativa de atrair a sua atenção. Na verdade, a expressão desse contato parece denunciar a dificuldade de Severina vincular-se não apenas ao neto, mas também à filha e, de modo mais explícito, ao genro.

Ainda no táxi, enquanto Severina questionava se não tinha esquecido nada, o carro deu um chacoalhão que fez com que mãe e filha se chocassem e se tocassem “sem querer”. Ambas ficaram bastante surpresas, principalmente Catarina, haja vista que isso não acontecia com frequência, ou melhor, nunca haviam verdadeiramente se abraçado ou beijado. Tal situação deixou a mãe desconcertada. Ela tentou disfarçar o incômodo por meio de outros assuntos aleatórios, embora o desconforto permanecesse.

Ao chegarem à estação, colocaram as malas no trem e despediram-se. Catarina percebeu o quanto sua mãe havia envelhecido. Ainda desconcertadas, esperaram a saída do trem. Catarina observava, expressando bom humor, a mãe olhando-se ao espelho. Pensava que somente ela, e ninguém mais, conseguiria amar Severina, mas não podia dizer que a amava.

Severina, com o trem saindo, perguntou se não havia se esquecido de nada. Catarina, por sua vez, sentiu como se ela mesma tivesse se esquecido de algo. Mas ambas haviam se esquecido de dizer coisas importantes uma à outra, distanciando-se cada vez mais.

Ao voltar para casa, Catarina caminhava pelas ruas e pensava a respeito do tipo de amor que sua mãe havia lhe dado. De alguma forma, sentia-se forte e considerava-se bonita. Ao chegar e sentir-se mais livre, observou Antônio lendo. Sem desviar a atenção do livro, o marido apenas perguntou se Severina havia ido embora. Catarina respondeu afirmativamente e dirigiu-se ao quarto do seu filho. Observava seu filho “magro e nervoso” que, com as suas dificuldades, mantinha-se distante, quase impossibilitado de estabelecer vínculos. Catarina o observava e sentia como se desejasse permanecer naquele momento para sempre. Até que, para a surpresa dela, o menino chamou-a de “mamãe” de um jeito nunca visto antes, o que despertou sua atenção.

Catarina queria falar com alguém sobre o que se sucedera, mas não encontrava quem entendesse o que ela sentira naquela situação. Sem conseguir realizar tal desejo, apenas riu para o menino, não só com os olhos, como de costume. Até que novamente o menino falou, chamou-a de “feia”. Catarina pegou o menino pela mão e levou-o, dizendo que iriam passear. Rapidamente, enquanto atravessava a sala, avisou o marido que iriam sair. Antônio, por sua vez, sem entender o que aconteceu, tentou chamar Catarina, mas mãe e filho já não estavam mais ao seu alcance. Antônio pôs-se a pensar para onde teriam ido. Ao avistá-los pela janela, estavam caminhando apressadamente.

Antônio continuava pensativo. Temia que sua mulher transmitisse “algo” à inocente criança. O que seria este “algo” que o fazia ter medo? Pensava qual seria o momento em que a mãe dava ao filho a prisão de amor a qual ele se veria destinado para sempre. À Catarina parecia um momento de compreensão mútua com o filho, mas Antônio questionava-se - “e eu?” - à medida que via os dois se afastando.

Antônio via-se sozinho no apartamento que propiciara à esposa, mas, no fundo, perguntava-se o que mais teria lhe dado além disso, um apartamento mobiliado. Tinha dificuldade em tolerar o que a mulher dera a ele, ajudando-o a conquistar todas aquelas coisas. Temia pela lealdade da sua mulher, mas sabia que Catarina seria somente dele. Pensava que, quando ela voltasse, jantariam e iriam ao cinema, pois, assim, a noite finalizaria tudo que o dia havia trazido.

A partir da apresentação sumarizada do enredo do conto, o diálogo com a psicanálise passará a ser construído a seguir.

A capacidade de construir e sustentar vínculos

O conto, por si só, traz um emaranhado de relações que são o berço de conflitos, distanciamentos e sentimentos como a raiva, o ódio, o amor e o desamparo. Quais seriam esses laços? Como esses laços seriam construídos? Questionando a naturalização das relações e dos laços estabelecidos é que esse conto toma forma.

Neste ponto, pode-se evidenciar que o conto dispara uma série de reflexões sobre o humano que serão discutidas, aqui, com o apoio da psicanálise. No entanto, a presente análise também pode ser tomada a partir do domínio literário, justamente tensionando como esses elementos são capturados na escrita de Clarice, autora que, à época da publicação do conto, estava separada, com dois filhos e de volta ao Brasil depois de um longo período residindo no exterior. Embora uma análise integrada entre psicanálise e literatura permita diferentes endereçamentos e inteligibilidades, neste estudo será priorizada uma interpretação sustentada na psicanálise, o que não invalida outras leituras mais alinhadas aos aspectos literários nem impede a desejada interpenetração entre esses campos.

Peron (2001) faz uma leitura do conto pelo viés da terapia familiar psicanalítica, discutindo a rede de relações que acontecem no âmago do grupo familiar, do que é dito e do que não tem espaço para ser tratado. Peron destaca a herança transgeracional que recai sobre a família, como a impossibilidade de demonstração de afeto. Diferentemente do que fora proposto por Peron, que se ocupou de uma descrição da dinâmica existente, o olhar proposto no presente estudo será para as causas dessa dinâmica. Portanto, pretende-se debruçar sobre um aspecto pessoalizado a respeito da história dos personagens à luz da perspectiva winnicottiana.

Para se entender a capacidade de envolvimento é preciso, inicialmente, olhar para o desenvolvimento da criança e a condição que ela vai adquirir para estabelecer vínculos, em especial, os papeis do ódio e do amor. Para Winnicott (1950), falhas em diferentes estados de desenvolvimento inicial do bebê são capazes de afetar de modos distintos este desenvolvimento e, desse modo, o que seria saudável para ele. Falhas muito precoces em um momento de grande dependência dificultam o processo de integração e, um pouco mais tardiamente, quando já está estabelecida alguma integração do ego, mas a criança vê-se obrigada a corresponder às exigências intensas do meio e vai submetendo-se a este, afastando-se do seu verdadeiro self. Agora, neste ponto da análise, busca-se olhar para a sensação de perda de um objeto bom que a criança tem, e que vai afetar a sua condição de estabelecimento de vínculos.

Winnicott (1950) destaca que, em certa medida, o ódio é natural ao desenvolvimento humano, o que não é necessariamente bom ou mau, pois é preciso que o ódio exista para que o sujeito seja potente, voraz, coloque-se em movimento ou se proteja, haja vista que, nessa perspectiva, a agressividade é diferente da destrutividade; ainda assim, é preciso cautela ao dizer que destrutividade seja necessariamente “negativa”. A agressividade em fases iniciais da vida não está a serviço de ferir ou agredir, mas é atividade motora.

Sobre tais considerações, pode-se dizer, segundo Winnicott (1950), que a agressividade expressa por um sujeito, em alguma medida, pode referir-se a algum sintoma de uma falha em seu desenvolvimento normal. Isso se dá pelo fato de que o bebê muito novo expressa a sua excitação como “agressividade” e motilidade, incluindo, por exemplo, ataques ao corpo da mãe. Mas, para a criança, trata-se de uma expressão de amor ao objeto amado.

À medida que há uma integração da personalidade, a criança deve mitigar essa agressividade e transformá-la em algo a seu favor. Nesse caso, deve-se fazer uma “educação” dessa motilidade do bebê, expressa de um modo socialmente aceito. É preciso que o ambiente, na figura da mãe, consiga tolerar a agressividade do bebê, demonstrando que ele pode causar danos aos objetos amados. Se o bebê conseguir assimilar e atingir tal condição de desenvolvimento, o mesmo passa a responsabilizar-se pelos objetos aos quais se relaciona, por exemplo, desenvolvendo a condição de sentir culpa por suas ações. Desse modo, o sujeito tem a oportunidade de conseguir criar soluções criativas e de reparação aos objetos atacados. Se essa “agressividade” não for tolerada pela mãe nesse ponto do desenvolvimento e for tolhida, reprimida, desincentivada, é possível que haja a perda da capacidade do bebê de amar e expressar amor. Em última instância, de relacionar-se e fazer ligações (Winnicott, 1950).

Caso a mãe não consiga tolerar esses aspectos vindos da criança e se aparte do contato com o bebê, pode ocorrer o que Winnicott (1956) chamou de tendência antissocial. É importante ressaltar que a tendência antissocial é um conceito psicodinâmico, contrapondo-se a perspectivas mais biomédicas e de classificações nosológicas para os transtornos mentais. Assim, esse conceito deve ser apreendido como um movimento, e não como um diagnóstico. Winnicott (1956) destaca que a tendência antissocial não se trata de uma organização necessariamente patológica, pois ocorre em pessoas “normais”. No entanto, considera que a tendência antissocial está ligada a dificuldades no desenvolvimento emocional, uma vez que a criança sente que foi “de-privada” de algo muito valioso para si após ter tido, em especial, algo relacionado à sua vida em família ou, mais especificamente, à figura materna. Cabe destacar que por “de-privação” Winnicott quer dizer que no início da vida o bebê teve um ambiente suficientemente bom, mas as falhas foram maiores do que ele conseguiria tolerar, sendo, então, “privado” da figura materna (Rosa, 2017).

Salienta-se que a necessidade de apresentação de uma tendência antissocial é um pedido de ajuda da criança para retornar ao ponto onde tudo ia bem em seu desenvolvimento. É possível observar, desde muito cedo, traços de uma tendência antissocial nas crianças através da agressividade ou oposição, incontinência, vômito, mentira, comportamento tirânico e submissão, sofreguidão e falta de apetite; em suma, tudo o que a criança possa entender como sendo perturbador do ambiente, podendo denunciar a existência de uma “de-privação” (Winnicott, 1963a; 1956).

Deve-se destacar que por tendência antissocial não está se falando necessariamente em criminalidade ou delinquência. Pode ser que se desenvolva para algo dessa ordem se houver ganhos secundários, o que nem sempre acontece. Quando há, por exemplo, a ocorrência de uma formação reativa, a pessoa pode se tornar extremamente moralista, ou ter aspectos de lamentação. O foco da tendência antissocial é acreditar que o ambiente está em débito e deve prover o que for necessário, havendo a agressividade como destrutividade (Winnicott, 1963a).

Destaca-se que a agressividade presente na tendência antissocial dificulta os vínculos a favor do desligamento pela existência, principalmente do medo da raiva em que são afogados os objetos amados. Portanto, quando há a existência de uma tendência antissocial, o sujeito, na maioria das vezes, por sentir que algo fora tirado de si, sente-se como se algo lhe fosse “devido” e, por tal motivo, o ambiente não é sentido como sendo importante. Desse modo, não precisa responsabilizar-se pela manutenção dos vínculos, pois sente que é seu direito e, em última análise, isso implica em não conseguir estabelecer vínculos (Winnicott, 1956).

Em relação ao conto de Lispector, é possível considerar que Severina apresentava características de uma tendência antissocial, muito possivelmente porque a sua própria relação com sua mãe fora deficitária. Severina pode ter sentido que fora “de-privada” do contato com a mãe, restando para si uma grande dificuldade no estabelecimento de vínculos, e conseguindo expor somente uma relação com traços de ódio não “trabalhado”. É possível fazer tal consideração, pois Winnicott (1956) destaca que a tendência antissocial é vista em todas as idades, não somente em crianças, mas é resultado de algo vivenciado na infância, oriundo da condição que impede o sujeito de reconhecer a importância do ambiente.

Outro ponto de destaque é o modo perturbador do ambiente no qual a pessoa age. Cabe destacar que, como pontua Winnicott (1950), em uma estrutura adoecida a agressividade é pouco organizada e a sua expressão no ambiente pode não ser totalmente intencional, mas fruto da impossibilidade de ser mitigada. Em conjunto com uma tendência antissocial, pode-se pensar que a criança, ao perder o objeto amado, sem a presença deste para ajudá-la a desenvolver o amor, é sufocada pela agressividade, expressando o ódio pelo ambiente em constantes ataques.

Isso pode ser observado quando Severina satirizava a relação com o genro, deixando-o “perturbado”, ou o seu costumeiro “tom de desafio e acusação que empregava diante dele” (Lispector, 2009, p. 95). Do mesmo modo, dizendo tanto a Catarina quanto a Antônio que o filho do casal era magro e nervoso, como se os acusasse por isso ou por uma negligência em relação à educação do neto e aos cuidados para com ele. Ou, ainda, quando perturbava o menino com o carinho excessivo, com beliscões. É possível também pensar sobre esses beliscões (“de amor”?) que eram perturbadores justamente por serem também uma violência, um ato de invasão, gerando incômodo e mal-estar em uma criança que, aparentemente, possuía dificuldades de vinculação.

De outra forma, como aventado anteriormente, esses beliscões eram a forma com que a avó conseguia entrar em contato com o menino, ainda que ele se mantivesse distante - neste ponto pode-se questionar, por exemplo, se a dificuldade de entrar em contato devia-se às características do menino, como a sua proximidade dos sintomas característicos de um transtorno do espectro autista, como já aventado na presente análise, ou se às dificuldade de sua avó em demonstrar afeto, em entrar em contato, em tentar sustentar, de fato, os laços que compõem a família. A voz da avó, questionando sobre o menino ser nervoso e magro, também revela um julgamento sobre o modo como Catarina exercia a maternidade: estaria a filha sendo uma boa mãe para o seu neto? O que nos permite, ainda, questionar: teria ela mesma sido uma boa mãe para Catarina?

No decorrer da história, Catarina é “vítima” desse modo de relacionar-se da sua mãe, como destaca Lispector (2009, p. 96): “Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam realmente abraçado ou beijado”. E após o contato corporal que trazia algum tipo de intimidade, Severina friamente apenas pergunta à filha se não havia se esquecido de nada. Assim, não há espaço para a proximidade, que ocorre em um nível físico apenas por uma circunstância de contato fortuito dentro do táxi, e não pelo rompimento de uma barreira possivelmente existente entre mãe e filha ou pela demonstração de afeto.

Contudo, desse fato, o mais importante é olhar para o modo como Catarina lida com os atos da mãe e os motivos para que ela tenha tais reações. Catarina respondia às falas e ataques de Severina com paciência e humor, sendo que diante de uma série de atitudes que poderiam irritá-la ou indigná-la sentia vontade de rir. É possível considerar que não se trata necessariamente de uma “dissociação” da personagem diante de uma situação que seria conflituosa para si, em que não se entraria em contato com tais fatos, mas usando outro tipo de recurso, mais desenvolvido e adaptado para tolerar um sofrimento, como o humor. Segundo Freud (1927/1996), no humor busca-se poupar uma situação conflituosa transformando-a pela graça. Isso remete à ideia de proteção do ego, que é “blindado” de uma representação dolorosa, funcionando como uma defesa. No entanto, isso não quer dizer que não se entre em contato com a dor, mas traz um “triunfo” da capacidade de extrair um prazer sobre algo considerado aversivo.

Catarina teve a felicidade de ter algo que Severina muito provavelmente não teve, que foi o fato de não ter sido “de-privada” do contato com seu pai, havendo grande proximidade e cumplicidade. Como afirmado por Lispector (2009, p. 96) “do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava”. Tal fato certamente proporcionou à Catarina uma sensação de segurança, conforto e cumplicidade sobre algo que lhe era até mesmo invasivo. O sujeito que experimenta tal sensação é extremamente beneficiado em sua capacidade de experimentar vinculações positivas, nas quais há o entendimento de que o ambiente é algo bom e que pode ser fonte de satisfação.

O medo da transmissão psíquica

Nesta seção evoca-se o conceito de transmissão psíquica a partir da psicanálise, noção que envolve não apenas o modo como os comportamentos relacionados à educação e à socialização são transmitidos de uma geração a outra mas, fundamentalmente, como determinados elementos - segredos, heranças, alianças, interditos, tabus - são transmitidos pelo inconsciente, em um proceso que se dá independentemente do controle que se pode estabelecer pelos genitores na criação dos filhos, por exemplo. A partir dessa noção, pode-se discutir a maneira invasiva e autoritária que Severina agia, provavelmente por esta ter sido a maneira que ela experimentou o ambiente em suas primeiras experiências. Assim, parece reforçar em sua conduta como mãe e esposa uma falha experienciada na relação com os seus próprios genitores, algo que tem sido compreendido dentro da abordagem psicodinâmica - também compartilhado pela abordagem familiar sistêmica - como a transmissão psíquica geracional (Alves-Silva & Scorsolini-Comin, 2019; Féres-Carneiro, Lisboa, & Magalhães, 2011; Scorsolini-Comin & Santos, 2016).

A partir desse conceito de transmissão psíquica pode-se dizer que a conjugalidade e a parentalidade podem estar sustentadas no modo como esse adulto - então criança - experienciou as primeiras relações e o contato com as figuras parentais, o que pode estar associado também à manifestação de sintomas e a processos de adoecimento psíquico. No entanto, é importante considerar o aspecto dinâmico desse conceito. Na psicanálise contemporânea, Benghozi (2010) tem proposto leituras menos deterministas, primando pelo que irá compreender como resiliência familiar - ou, em outras palavras, a capacidade de remalhar os vínculos considerados disruptivos ou disfuncionais.

A questão da transmissão é reforçada em outra passagem do conto em que Antônio se mostra receoso sobre o que a esposa poderia transmitir ao filho:

temia em que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas o quê? “Catarina”, pensou, “Catarina, esta criança é inocente!” Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. (...) Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. (Lispector, 2009, p. 101).

O receio de Antônio está na transmissão ao filho de alguma característica de Catarina, possivelmente herdada de sua mãe. Desse modo, revela que algo - não se sabe exatamente o quê - poderia ser transmitido, não apenas pelo fato de serem mãe e filho, mas também por estarem juntos sem a sua presença - capaz de barrar a transmissão, em sua perspectiva. Mas, retomando o conceito de transmissão psíquica, o que se transfere está na base do que nem sempre pode ser representado, está próximo de uma dimensão que deve ser escamoteada, que é pouco clara, que se revela, por vezes, como um sintoma. A transmissão ocorre intrapsiquicamente, independentemente do modo como, aparentemente, esse processo poderia ser “barrado”, como sugerido pelo pai. A herança que se transmitiria também não lhe parece clara: mas, de fato, o que poderia ser transmitido e que tanto lhe incomodava? Como recusar uma herança psíquica? Assim como é impossível barrar o trabalho de transmissão, também não se pode identificar o momento em que algo seria transmitido. O passeio exclusivo da mãe com o filho parecia despertar esse receio em Antônio.

No entanto, esse passeio parece também uma tentativa de Catarina aproximar-se do filho, de talvez reaver entre eles o que possivelmente Antônio não pode recuperar na relação com a sua mãe. Como não consegue remalhar os vínculos com a sua mãe, acaba tentando construir vínculos com o filho, mesmo com as dificuldades relacionais que ele parece demonstrar. Se a proximidade física com a mãe tinha que ser mediada pelo chacoalhão do táxi, com o seu filho haveria de ser diferente. De tudo aquilo que parece ter sido “esquecido” na relação com a mãe - se considerarmos a constante repetição da necessidade de não esquecer nada para a viagem - Catarina parece lembrar-se do filho e tentar, com ele, uma relação melhor do que a que pode estabelecer com Severina. Talvez uma relação mais próxima, como a que experienciou junto ao pai.

A saída com o filho também parece uma reação ao recente distanciamento com a mãe, a partir da viagem. Com a saída da mãe e sem o seu olhar questionador e culpabilizador da filha, Catarina poderia vivenciar a parentalidade segundo suas próprias decisões, ainda que o olhar da mãe a acompanhasse em termos psíquicos. Ao tomar a decisão de sair com o filho, parecia exercer a maternidade de modo resoluto, em busca de remalhar possíveis falhas na relação com o próprio filho e as derivadas da relação com a própria mãe.

A transmissão, no conto, assume também a sua potência de negatividade, recuperando como é tradicionalmente abordada na psicanálise. A transmissão se dá pelo negativo, pelo que não se representa, pelo esquecimento, pela negação, pelo sintoma. É desse modo que as possíveis falhas observadas na relação entre Severina e Catarina apresentam-se como uma ameaça ao desenvolvimento do filho. O receio de Antônio, nesse sentido, seria o das possíveis repercussões negativas no desenvolvimento do menino, haja vista que ele já possuía determinados comprometimentos que despertavam a atenção de todos da família. O que já teria sido transmitido a ele? O que ainda estaria por ser transmitido? Obviamente que nessa interpretação o pai desconsidera o seu papel na transmissão e também a sua vinculação com o filho. Mostra-se, portanto, apartado dessa relação, impondo também a sua distância.

Winnicott (1947/2000) diz que, em uma relação, uma mente bastante regredida (ou com tendências antissociais, como a de Severina), só reconhece no contato íntimo o que ela própria é capaz de sentir. Desse modo, é possível considerar que uma pessoa que não fora ensinada ao amor, ou a demonstrações afetivas, mas sim ao temor diante o contato íntimo e a raiva, será capaz de conhecer na contraparte da relação apenas tais sentimentos. Para Winnicott, portanto, se a pessoa puder estar ciente do ódio que sente frente à relação estabelecida e tiver a condição de mitigá-lo, pode ensinar a este outro a possibilidade de amar, ou seja, de fazer ligações. Em Benghozi (2010), esse processo corresponde à remalhagem do vínculo, de uma possibilidade de experiência mais saudável, ainda que as experiências prévias tenham sido consideradas traumáticas.

É possível considerar que, ainda se Catarina não tivesse plena consciência do que fazia, mas por não ter sido “de-privada”, ter experimentado o afeto e ter sido ensinada a amar, conseguia ser tolerante e compreensiva com a maneira de agir de sua mãe, sendo, em certo ponto, um ambiente bastante terapêutico, e podendo demonstrar uma nova possibilidade de relação, em que haveria espaço para o afeto - e para a possível remalhagem do vínculo, como observado na seguinte passagem:

Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes. O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa, e examinou-se no seu chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar se não eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se “mamãe e filha” fossem vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. [...]. Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. [...] que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? E agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: Sou sua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua filha (Lispector, 2009, p. 96-97).

Possivelmente, somente com Catarina é que Severina experimentara algum tipo de relação com afeto. Como destaca Winnicott (1947/2000), ao reaver algum sentimento de amor o sujeito pode testar o ambiente que o acolheu, de modo a verificar a confiança que pode ser depositada neste, uma vez que, ao se deparar com uma relação com ódio, as respostas naturais são o ódio e o medo desse contato. No entanto, se o ambiente é capaz de tolerar esses ataques odiosos, demonstra ao sujeito que ele é passível de ser amado e um novo tipo de relação pode surgir. Assim, a pessoa com uma tendência antissocial pode começar a expressar o amor (Winnicott, 1956/2000).

A tendência antissocial

Como destaca Winnicott (1956/2000), a perturbação que uma pessoa com uma tendência antissocial causa no ambiente é favorável, pois indica que ainda haveria espaço para que a agressividade e o amor pudessem se reconciliar e se reconfigurar. Retomando o conto, do que Severina receava ter se esquecido? Possivelmente fora esquecida a chance de uma relação afetuosa, na qual pudesse expressar-se por inteiro, com suas falhas e, ainda assim, ser admirada e amada pela filha. Não seria aquele ambiente o responsável por ter tirado dela algo valioso, mas aquele ambiente a ensinara que algo valioso poderia ser ofertado à medida que se aprende e se descobre como sendo seu possuidor; é visto um novo ambiente que oferece cuidado enquanto a pessoa o descobre e o testa, demonstrando que há limitações necessárias e que o amor existe por conta de tais restrições (Winnicott, 1956/2000).

Portanto, a tendência antissocial considera que ainda exista esperança para o sujeito. Nesses momentos de esperança, o ambiente precisa ser continente. Aqui destaca-se a importância de tolerar, e demonstrar para o sujeito que o amor do qual ele foi privado é possível de ser novamente encontrado de outras maneiras, pelo reconhecimento de que seja preciso aceitar a responsabilidade sobre preocupar-se com um vínculo, e não a ideia de que o ambiente é o responsável pela provisão deste (Winnicott, 1963/2005b; 1956/2000).

Nesta leitura feita sobre “Os laços de familia”, cabe chamar a atenção para o fato de que, com Antônio, Catarina experimentava algo não muito diferente do que era vivenciado com a sua mãe, pois o marido também apresentava uma incapacidade de envolvimento, bem como traços de uma tendência antissocial, como será visto. Catarina, ao voltar da estação e entrar em casa, observa que “Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora ‘sua’, e, logo depois da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha” (Lispector, 2009, p. 99).

É possível considerar nessa passagem que Antônio entende-se como sendo o legítimo possuidor da tarde de sábado. Mas não é somente sobre isso que se faz a sua requisição, é sobre a capacidade de tomar para si parte da vida da sua mulher e de seu filho, é entender que é “seu” direito tomar para si o controle sobre os atos desses seus pares. Como destaca Winnicott (1956/2000), o “roubo” está no centro da tendência antissocial. É roubando que o sujeito, inconscientemente, busca reaver a mãe que ele tem direito e da qual sentiu-se “de-privado”. No entanto, é importante olhar com atenção para este “roubo”, pois, como destaca Rosa (2017), o que se busca neste ato é a capacidade criativa de encontrar bons objetos para o lugar do que fora perdido.

Tal fato, importante de ser destacado, é sentido como uma falha do ambiente e não necessariamente da própria criança. E toda falha do ambiente, quando vai além da capacidade da criança tolerar, prejudica o seu desenvolvimento emocional. Segundo Rosa (2017), na tendência antissocial é importante que a criança perceba que a falha é do ambiente, não sua.

Como visto, a criança tem impulsos naturais, afetuosos e hostis que vão sendo expressos na relação com a mãe. Caso haja falhas maiores do que o bebê tem a capacidade de tolerar, como uma mãe que não consegue lidar com o ódio e a motilidade da criança e, por tal motivo, afasta-se dela, dois processos podem acontecer. No primeiro, a criança começa a retrair-se e voltar-se para si, dificultando a sua capacidade de envolver-se com os objetos do ambiente, pois o mesmo é sentido como hostil. O segundo é direcionar somente impulsos hostis ao ambiente sentido como mau, ou seja, a destrutividade e o desejo de reaver o que lhe fora tirado - o amor da mãe (Winnicott, 1963/20005b; 1956/2000; 1950/2000).

Desse modo, salienta-se que como a criança não teve condição de sentir-se plenamente envolvida, fica frustrada por não ser possuidora do objeto de amor, sucumbindo a uma grande raiva, e dirigindo seus impulsos agressivos para este objeto que a frustrou. Esta criança dificilmente desenvolve a capacidade de envolver-se com objetos externos bons, pois a frustração afasta a culpa de possíveis agressões e, ao mesmo tempo, não se vê com a responsabilidade pelo estabelecimento e manutenção dos vínculos. Esta criança não se sentiria responsável pelo ataque agressivo ao objeto que a frustra, mas sentiria como legítima esta agressividade, pois a culpa é levada para longe (Winnicott, 1963/2005b; 1950/2000).

Em uma tendência antissocial, a responsabilidade é relegada aos outros, inclusive a responsabilidade pelo próprio cuidado, que é direcionada ao ambiente (Winnicott, 1956/2000). Isso faz com que haja uma necessidade muito grande de ter o amor da mãe que fora perdido. Em outras palavras, este amor nunca será reavido, mas há uma necessidade de que o afeto lhe seja direcionado, ao mesmo tempo que o sujeito busca somente receber este afeto, mas a condição de despender o afeto é diminuta, é responsabilidade de outrem.

Como já destacado, Winnicott (1956/2000) considera que a tendência antissocial traz em si um componente de esperança. A esperança é a de reaver um objeto amado que lhe fora tirado, do estabelecimento de um vínculo que permita uma relação afetuosa e criativa. Ao experimentar uma intensa felicidade por ver seu filho estabelecendo algum contato com ela, chamando-a de “mamãe”, Catarina pega o menino pela mão e sai, possivelmente tendo dificuldades de entrar em contato com essa experiência, ou mesmo de compartilhá-la com o esposo.

Resta a Antônio uma sensação de abandono e frustração. Quando Catarina sai com o filho, mostra-se inquieto e frustrado, perguntando-se como ousavam sair sem o seu aval, já que o sábado era seu e queria sua mulher e o filho em casa; fica frustrado por perder a posse desses objetos. Da mesma forma, como postulou Winnicott (1956/2000), um sujeito com tendência antissocial relega a responsabilidade de cuidar de si. Observa-se tal fato quando Antônio questiona-se repetidamente como ele ficaria, já que Catarina e o filho tinham saído. Em sua concepção, Catarina estava tomando para si um momento de alegria, “privando-o” dessa experiência.

É possível considerar que um Antônio raivoso e frustrado testava a tolerância do ambiente, ou seja, a capacidade de Catarina aceitar seus ataques e continuar despendendo afeto sobre ele, pois, como demonstra Lispector (2009, p. 101-102):

E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de futuro - desprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se e porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranquilas. Às vezes ele procurava humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la? No entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torná-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria.

Segundo Winnicott (1963/2005b), o objeto amado também é aquele que recebe a raiva do bebê. Em um desenvolvimento saudável, a ambivalência do objeto pode ser tolerada, trazendo a noção de que os objetos são externos a ela. Isso fortalece o eu e o “não-eu”, e alguma condição de integração faz-se presente para garantir a preservação do objeto bom. Isso implica a responsabilidade para com o objeto.

Pode ser visto que Antônio não tinha uma total desconexão nem uma completa ausência de afeto mas, pelo contrário, havia certo envolvimento por este objeto bom e o desenvolvimento de algum grau de responsabilidade por ele. Havia algum nível de integração desses objetos que fazia Antônio preocupar-se com o filho e com a relação com Catarina, mas ainda bastante precária. É observado, por exemplo, na passagem:

Via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse ao seu filho..., mas o que? “Catarina”, pensou “Catarina, esta criança ainda é inocente!” Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. “Catarina”, pensou com cólera, “a criança é inocente!” Tinham, porém, desaparecido pela praia. O mistério partilhado (Lispector, 2009, p. 101).

Antônio tinha algum vislumbre sobre o que ele sentia em si e como isso não era “bom”. Sabia, quase instintivamente, que isso vinha das suas relações parentais, da mãe que transmite esta prisão de amor, e agora ele via-se “prisioneiro” do que sentia. Por tal visão, temia o que Catarina fizesse com seu filho e que o menino carregasse uma herança semelhante.

Também é importante destacar, na cena em tela, a tentativa de Antônio controlar não apenas a mulher e o filho, mas a relação entre os dois. Como se vê distante deles e da possibilidade de controlar mulher e filho, sente-se frustrado. De igual monta, cabe mencionar o modo como ele se relaciona com a esposa, humilhando-a pela sua aparência ou pela dificuldade que ela possui em aceitar a sua imagem, denotando certo sadismo em vê-la apreensiva: “Mas tinha se habituado a torná-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura e já agora ela sorria - sem rancor?” (Lispector, p. 102).

Segundo Winnicott (1966/2005), a tendência antissocial é uma organização defensiva sobre alguma coisa que fora perturbadora do desenvolvimento da criança, isto é, uma tentativa de regredir ao ponto que houve o trauma, e levar o ambiente junto para esse ponto para que possa haver o desenvolvimento mútuo. Isso denota que no interior do sujeito ainda haveria uma busca por um objeto amado e, portanto, um rasgo de esperança de que possa haver a possibilidade de vinculação, de ligação. Catarina, no entanto, sabia o que era vincular-se, o que era fazer ligação e demonstrar afeto quando se regozija das palavras proferidas por seu filho, inclusive sendo chamada de feia. É importante considerar que o adjetivo “feia” também pode referir-se à avó, que dava os beliscões e que foi embora, deixando-os em paz. Como afirma Winnicott (1966/2005), somente vivenciando o isolamento - a falta de envolvimento - é que se pode reconhecer o prazer na companhia de outrem.

Para Winnicott (1963/2005b, p. 111), “o envolvimento refere-se ao fato de o indivíduo preocupar-se ou importar-se, e tanto sentir como aceitar responsabilidade”. Para o autor, o envolvimento é a base da ideia de família, uma vez que inclui a responsabilidade de duas figuras que concordam em estabelecer um relacionamento criativo, fecundo, que possibilita o desenvolvimento de frutos. Portanto, é possível dizer que, apesar da existência de uma tendência antissocial, os vínculos não foram totalmente perdidos. Apesar das dificuldades emocionais dos personagens, famílias mais ou menos criativas e duradouras foram estabelecidas. Para Winnicott (1963/2005a), é preciso que o ambiente contenha o sujeito que apresenta a tendência antissocial e consiga, dentro do possível, delimitar os parâmetros para a existência do afeto. Com sua sensibilidade e riso pelos olhos, Catarina tentava estabelecer esses vínculos, como dito, sendo o membro mais saudável de um ambiente adoecido.

Mas é preciso atenção para se olhar a tendência antissocial. Como é observado no texto, diversos adultos permanecem em uma condição “regredida” como esta, em que serão responsáveis pela criação de seus filhos e, para essa relação, carregam na bagagem quem eles são. Ou seja, é possível que haja a ausência de envolvimento e culpa, é possível que haja cada vez mais distanciamento afetivo; é possível que a criança experimente falhas cada vez mais precoces por tais motivos.

Salienta Loparic (2008, p. 148), de acordo com a teoria winnicottiana, “o ente humano é a amostra temporal da natureza humana”. Pode-se observar que, em certa medida, as mazelas que o sujeito precisa lidar são representantes do tempo que se vive, se está à mercê da cultura que é criada pelos próprios seres humanos e sobre suas regras e pressupostos que os próximos seres humanos serão criados. Como destacado por Winnicott (1963/2005a), é um viés possível de uma tendência antissocial o aspecto moralístico e, consequentemente, severo com que se lida com as falhas do ambiente. Isso pode ser visto, por exemplo, em famílias, nas organizações sociais e políticas. Trata-se, portanto, de um recorte do tempo que se vive.

Ressalta-se que o antissocial priorizado na presente análise é a incapacidade de estabelecer vínculos, a favor do desligamento afetivo. Winnicott (1950/2000) salienta que não é a agressividade que coloca a sociedade em perigo, mas a sua repressão. Vê-se, nesse ponto, a importância de se entrar em contato com a agressividade, colocando-a a serviço de propósitos relativos ao sujeito e à sociedade.

Desse modo, não é a agressividade ou o ódio que tornam inviáveis as relações, pelo contrário. É preciso que exista agressividade para que em determinados momentos existam limites e parâmetros do que é tolerável para a pessoa e para a sociedade vigente no tempo. O que torna inviável o contato é a não consciência do ódio e os actings. Em uma tendência antissocial, o “ódio” precisa encontrar-se a serviço do amor que delimita e demonstra limites necessários para que o outro seja amado.

É necessário que a criança consiga reconhecer e assumir a responsabilidade pelos seus próprios impulsos instintivos, tal como amor e a agressividade, reconhecendo que, se essa agressividade for mal empregada, pode causar danos a objetos amados. Se o ambiente for tolerante e exercer uma postura enfática e afetuosa, a criança em condições de saúde vai desenvolvendo a condição de estabelecer vínculos mais amadurecidos, percebendo a importância que há na reparação sobre seus atos, e que a agressividade pode ser usada a seu favor, sendo expressa sob formas socialmente aceitas (Winnicott, 1963/2005b; 1956/2000; 1950/2000).

Considerações finais

Ao final deste estudo destaca-se que, embora a protagonista de “Os laços de familia” mantenha-se saudável do ponto de vista psíquico, lida com um ambiente repleto de falhas que podem ser expressas na dificuldade de construção de vínculos por parte de sua mãe e de seu filho, promovendo movimentos como a destrutividade, a dificuldade de manter vínculos e o sentimento de que o ambiente é hostil. O processo de transmissão psíquica emerge como possibilidade de compreender a relação entre Severina e Catarina, e entre esta e o filho, destacando aspectos não apenas daquilo que é transmitido do ponto de vista inconsciente, mas da transmissão do adoecimento psíquico e da própria dificuldade em estabelecer vínculos.

A partir das reflexões empreendidas neste estudo, pode-se concluir que a transmissão se mostra um caminho ao qual não se pode recusar do ponto de vista psíquico. A potência da personagem Catarina reside na tentativa de remalhar, junto ao filho, o que fora comprometido em sua história desde as suas primeiras relações, reavendo falhas ambientais importantes e em direção à chamada resiliência familiar, considerado um caminho mais adaptativo e potente para a construção de uma narrativa de enfrentamento, de resistência e de redescrição de si para o estabelecimento de relacionamentos interpessoais mais seguros e acolhedores.

Em relação ao diálogo entre psicanálise e literatura, as reflexões a partir deste estudo revelam uma leitura que priorizou um vértice analítico - a psicanálise winnicottiana. Esse vértice adotado, no entanto, não equivale a uma interpretação única do conto, não representando o olhar da psicanálise ou da Psicologia para a obra, nem mesmo desconsiderando os marcadores literários do texto e a sua inscrição no campo artístico. Trata-se, aqui, de um dos possíveis olhares. Essa leitura nos convida não a uma postura psicologizante, como se toda obra literária devesse ser submetida a esse tipo de análise para que pudéssemos, de fato, compreendê-la, descortinando sentidos interditos ou que não se dispõem na superfície. Ou como se toda obra tivesse elementos que escapariam a um leitor que não se dispusesse a um percurso analítico como o cotejado neste estudo.

A leitura proposta revela que a obra de Clarice em tela instaura justamente a polissemia, abrindo possibilidades interpretativas várias, processos esses que se ancoram sobre o enredo, sobre a construção das personagens, sobre a autoria e sobre a autora, por exemplo, em um convite perene para novos olhares. A leitura aqui compartilhada, portanto, longe de cristalizar uma interpretação, reafirma a necessidade de novas incursões sobre esses mesmos laços de família.

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1Este estudo é derivado da Dissertação de Mestrado do primeiro autor (A possibilidade de existir: uma leitura psicanalítica do adoecimento psíquico em Laços de família, de Clarice Lispector), defendida junto ao Programa de Pós-graduação em Enfermagem Psiquiátrica da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, sob orientação do terceiro autor. O primeiro autor recebeu bolsa de mestrado do CNPq (2020-2021).

Revisão gramatical: Elaine Pereira Daróz E-mail:lainedaroz@gmail.com

Recebido: Setembro de 2021; Aceito: Julho de 2022

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