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Estilos da Clinica

versión impresa ISSN 1415-7128versión On-line ISSN 1981-1624

Estilos clin. vol.28 no.1 São Paulo ene./abr. 2023  Epub 14-Nov-2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-1624.v28i1p98-114 

Artigo

O Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema em pesquisas qualitativas sobre imaginários coletivos

El procedimiento de dibujos-relatos con temática en investigacións cualitativas sobre imaginarios colectivos

The Thematic Story-Drawing Procedure in Qualitative Researches about Collective Imaginaries

La procédure de dessins-histoires avec thème dans des recherches qualitatives sur les imaginaires collectifs

Carlos Del Negro Visintin1 
http://orcid.org/0000-0002-1995-1047

Fabiana Follador e Ambrosio2 
http://orcid.org/0000-0001-5843-7545

Tânia Maria José Aiello-Vaisberg3 
http://orcid.org/0000-0003-3894-1300

*Doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Docente da Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba, SP, Brasil. E-mail: carlos.visintin@gmail.com

**Doutora em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, filiada ao Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: fabfoll@gmail.com

***Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia como Profissão e Ciência da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e filiada ao Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: aiello.vaisberg@gmail.com


Resumo

O Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema é um mediador que vem sendo utilizado em várias pesquisas sobre imaginários coletivos que tomam a psicologia psicanalítica concreta como referencial teórico-metodológico. Assim, justifica-se o objetivo do presente texto de apresentar os fundamentos teórico-metodológicos desse tipo de recurso. Para tanto, o artigo está organizado em três seções. Na primeira, discorre sobre as diversas possibilidades por meio das quais a psicanálise vem sendo vinculada à pesquisa qualitativa, com vistas a situar o trabalho com o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema nesse leque de alternativas. Na segunda, apresenta, detalha e fundamenta o próprio procedimento, dedicando atenção ao processo de definição do tema a ser solicitado. Na terceira, apresenta material de pesquisa para ilustrar as questões que compõem a segunda parte do artigo. Finaliza considerando que o uso do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, quando fundamentado e articulado com referencial teórico devidamente explicitado, revela-se um mediador dialógico fecundo na produção de material investigativo em pesquisas sobre imaginários coletivos.

Palavras chave: pesquisa qualitativa; psicologia clínica; método psicanalítico

Resumen

El Procedimiento de Dibujos-Cuentos con Tema es un mediador que ha sido utilizado en diversas investigaciones sobre imaginarios colectivos que toman la psicología psicoanalítica concreta como marco teórico-metodológico. Así, se justifica el propósito del texto de presentar los fundamentos teórico-metodológicos de este tipo de recurso. El artículo se organiza en tres secciones. En el primero, se discuten las diversas posibilidades a través de las cuales el psicoanálisis se ha vinculado a la investigación cualitativa, con miras a situar el trabajo con el Procedimiento de Dibujos-Cuentos con Tema en este abanico de alternativas. En el segundo, presenta, detalla y justifica el propio procedimiento, prestando atención al proceso de definición del tema a solicitar. En el tercero, presenta material de investigación para ilustrar las preguntas que componen la segunda parte del artículo. Concluye considerando que la utilización del Procedimiento de Dibujos-Cuentos con Tema, cuando fundamentado y articulado con un referencial teórico debidamente explicado, se muestra como un fructífero mediador dialógico en la producción de material investigativo en la investigación de los imaginarios colectivos.

Palabras clave: investigación cualitativa; psicología clínica; método psicoanalítico

Abstract

The Thematic Story-Drawing Procedure is a mediator that has been used in several researches on collective imagery which take the concrete psychoanalytic psychology as a theoretical-methodological framework. Thus, it is justified the present’s paper aim which is to discuss the theoretical and methodological foundations of this type of mediator. The paper is organized in three sections. In the first, it discusses the various possibilities through which psychoanalysis has been linked to qualitative research, situating researches with Thematic Story-Drawing Procedure in these range of possibilities. In the second, it presents, details, and justifies the procedure itself, devoting attention to the process of defining the theme to be requested. In the third, it presents research material to illustrate the questions presented in the second part of the paper. It considers that the use of the Thematic Story-Drawing Procedure, when articulated with a duly explained theoretical framework, proves to be a fruitful dialogic mediator in the production of investigative material in research on collective imaginaries.

Keywords: qualitative research; clinical psychology; psychoanalytic method

Résumé

La Procédure de Dessins-Histoires avec Thème est un ressource qui a été utilisé dans plusieurs recherches sur des imaginaires collectives qui prennent la psychologie psychanalytique concrète comme cadre théorique et méthodologique. L'objectif de ce texte se justifie pour présenter les fondements théoriques et méthodologiques de ce type de ressource. À cette fin, l'article est organisé en trois sections. Dans la premier, il aborde des différentes possibilités par lesquelles la psychanalyse est liée à la recherche qualitative, en vue de situer des travails avec la Procédure de Dessins-Histoires avec Thème dans cettes alternatives. Dans la seconde, il présente, détaille et justifie la procédure elle-même, en accordant une attention au processus de définition du thème. Dans la troisième, il présente du matériel de recherche pour illustrer les questions qui composent la deuxième partie de l'article. Il conclut en considérant que l'utilisation de la Procédure de Dessins-Histoires avec Thème, lorsqu'elle est ancrée et articulée avec un cadre théorique dûment expliqué, s'avère être un médiateur dialogique fécond dans la production de matériel d'investigation dans la recherche sur les imaginaires collectifs.

Mots-clés: recherche qualitative; psychologie clinique; méthode psychanalytique

As pesquisas qualitativas surgiram, nas décadas finais do século XX, graças à percepção crítica de que o paradigma positivista, sem dúvida exitoso nas ciências dedicadas aos mundos orgânico e inorgânico, não se adequa perfeitamente à produção de conhecimento no campo das ciências humanas e sociais (Denzin & Lincoln, 2018). Esta constatação não surpreende quando consideramos que, do ponto de vista ontológico, faz sentido reconhecer que as esferas do ser inorgânico e do ser orgânico são regidas por leis que diferem da legalidade da esfera ontológica sócio-humana (Lukács, 1978/2015).

Entendendo que as ciências que se ocupam da esfera ontológica sócio- humana compartilham o mesmo objeto de estudo, vale dizer, os seres humanos vivos e reais, que cada uma delas abordam desde diferentes enfoques, correspondentes a grupo de características ou qualidades humanas, que se traduzem como busca de sentidos econômicos, sociais, religiosos, históricos, culturais e geopolíticos, entre outros, Bleger (1963/2018) veio a afirmar que sempre se parte, na área das ciências humanas, de uma determinada concepção de ser humano, que pode não estar clara, mas está sempre presente na pesquisa, mesmo de modo implícito. Tentar tornar o implícito consciente, para assumi-lo de modo transparente seria, conforme esse autor, um importante movimento que contribuiria significativamente com o processo de produção do conhecimento.

Tal explicitação revela-se ainda mais necessária quando lembramos que, no campo da pesquisa qualitativa, a adoção compulsória do positivismo hegemônico, característica das chamadas ciências duras, é sempre substituída por um leque de opções teórico-metodológicas, que estão sempre associadas a concepções sobre o ser humano, ou seja, antropológicas, bem como a concepções ontológicas, epistemológicas e mesmo ético-políticas. No campo específico da pesquisa qualitativa em psicologia, encontramos a psicanálise, como uma possibilidade inscrita ao lado de referenciais fenomenológicos, etnográficos, dialéticos, discursivos, narrativos e outros (Willig & Rogers, 2017).

A psicanalise, dada sua potencialidade heurística, é um desses referenciais. Entretanto, constatamos que, muitas vezes, deixa de ser usada, pelos pesquisadores qualitativos, em função de um equívoco, bastante comum, de acordo com o qual apenas psicanalistas clínicos estariam capacitados a usar o método psicanalítico em pesquisas acadêmicas. A nosso ver, ainda que psicanalistas clínicos e pesquisadores usem o mesmo método investigativo, estamos diante de atuações que requerem formações bastante diversas. Assim, os primeiros devem aprender a usar o método clínico de intervenção, que deriva do método investigativo, no enquadre padrão do atendimento individual, ou em enquadres diferenciados, no atendimento a crianças, grupos, casais e famílias, o que requer uma formação primorosa que inclui estudo aprofundado de psicopatologia psicanalítica. Seu treino abrange, evidentemente, o estudo da interpretação e o prepara para uma interação sempre delicada e complexa com os pacientes. Por outro lado, por não estarem comprometidos com objetivos psicoterapêuticos, os pesquisadores psicanalistas podem ser capacitados tendo em vista a realização de entrevistas individuais ou grupais, bem como para a consideração de produções culturais ou fenômenos sociais, em relação aos quais estão dispensados do improviso criativo que caracteriza a atuação clínica. Sua formação se completará para além do uso do método psicanalítico, em termos de outras habilidades, desnecessárias para o psicanalista clínico.

A opção pelo referencial psicanalítico, na pesquisa qualitativa, na área da psicologia, já informa bastante sobre o modo como o pesquisador trabalha. Entretanto, não passa de uma primeira aproximação, uma vez que a própria psicanálise vem se desenvolvendo de forma a produzir diferentes escolas. Essas guardam entre si a convergência no uso do método psicanalítico e no uso do conceito de inconsciente, mas diferem entre si desde vários pontos de vista. Sua pluralidade tem motivado alguns autores a estudar esses desenvolvimentos. Nesse sentido, vale lembrar a contribuição bastante significativa de Greenberg e Mitchell (1983), que identificaram a vigência de dois modelos de teorização, no campo psicanalítico: o pulsional e o relacional. A vertente psicanalítica que aqui utilizamos é conhecida como psicologia psicanalítica concreta (Bleger, 1963/2018), uma perspectiva relacional que surgiu do abandono crítico da metapsicologia freudiana, em favor de teorizações de cunho dramático-vincular, e da articulação da psicanálise com o materialismo dialético. O Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema - PDE- é um recurso que utilizamos no contexto da psicologia psicanalítica concreta, não como um teste psicológico, mas como um mediador dialógico que, articulado à adoção, pelo(a) pesquisador(a), de um posicionamento empático, atento e cuidadoso, compatível com o interesse em dimensões afetivo-emocionais da vida, pode conferir às entrevistas psicológicas um caráter transicional, vale dizer, brincante, que facilita produção de material de pesquisa não contaminado pelo politicamente correto, diminuindo e praticamente eliminando riscos para os participantes (Aiello-Vaisberg & Ambrosio, 2019; Aiello-Vaisberg 1991, 1999).

Situando a pesquisa qualitativa com método psicanalítico

Tendo apresentado informações básicas acerca das pesquisas qualitativas com método psicanalítico, realizadas segundo a perspectiva da psicologia psicanalítica concreta, nas quais o PDE-Tema tem sido usado como recurso mediador (Aiello-Vaisberg & Ambrosio, 2019; Aiello-Vaisberg 1991, 1999), passamos a discorrer sobre as diferentes formas por meio das quais a pesquisa qualitativa em psicologia tem se articulado com a psicanálise.

Parece-nos pertinente lembrar que a psicanálise se desenvolveu, inicialmente, fora do ambiente universitário, o que não significa que o fundador da psicanálise não tivesse interesses acadêmicos (Freud, 1919/2010). Contudo, uma série de circunstancias, acerca das quais não nos debruçaremos, nesse momento, favoreceu um claro distanciamento entre a psicanálise e a universidade. Essa situação perdurou por muitas décadas, mas acabou por se modificar por variados motivos, entre os quais se coloca a criação de cursos universitários para formação de psicólogos. Atualmente, a psicanálise se faz muito presente na graduação e nos programas de pós-graduação em psicologia - e também em outros cursos de graduação em ciências humanas, bem como nos programas de pós-graduação. A vitalidade com a qual a psicanálise tem se desenvolvido na universidade brasileira tem sido motivo de elogios calorosos da parte de autores reconhecidos, como Roudinesco (2003).

Entretanto, sabemos que, desde os passos iniciais dados por Freud, na busca de cura para o sofrimento neurótico até hoje, o método psicanalítico vem gerando uma multiplicidade de teorias e de propostas clínicas que deram origem a diversas escolas psicanalíticas, que seguem convergindo em dois pontos principais: o uso do método, que se mantém o mesmo, e o reconhecimento do inconsciente. Atualmente, o campo psicanalítico apresenta riqueza e complexidade, que explicam o fato de haver mais de uma forma de articulação entre pesquisa acadêmica e psicanálise, como demonstrou Herrmann (2004), quando apontou três formas de combinação entre esses dois termos1:

  1. Pesquisas teóricas, que usam métodos hermenêuticos para fazer estudos conceituais de proposições teóricas psicanalíticas

  2. Pesquisas empíricas, que usam métodos positivistas para verificar validade empírica de proposições teóricas psicanalíticas ou avaliar eficácia clínica de intervenções psicanaliticamente orientadas por meio do uso de testes e escalas

  3. Pesquisas clínicas, que usam o método psicanalítico para estudar manifestações humanas

As pesquisas teóricas, que são o primeiro tipo abordado por Herrmann (2004), seriam aquelas por meio das quais os pesquisadores buscariam estudar desenvolvimentos teórico-conceituais da psicanálise. Assim, pesquisadores como, por exemplo, Mezan (2020) e Loparic (2018), tomam textos teóricos psicanalíticos como objetos de estudo, na intenção de refletir sobre conceitos e teorias psicológicos e psicopatológicos. No nosso entender, esses trabalhos, fortemente influenciados pela forma como se leva a cabo a leitura no âmbito da filosofia, podem revelar-se úteis no aprofundamento do estudo do pensamento de autores e de seus conceitos. Podem também ser utilizados tanto no âmbito do ensino, favorecendo a aprendizagem, quanto em ponderações epistemológicas, históricas e antropológicas sobre obras de grandes teóricos, proporcionando um entendimento ampliado dessas contribuições. Contudo, uma importante advertência deve ser sempre feita, quando nos utilizamos de conhecimentos derivados desse tipo de pesquisa: não se deve esquecer que os textos psicanalíticos são diferentes dos textos filosóficos, já que não resultam apenas do trabalho intelectual e sim da experiência vivida pelo teórico no acontecer clínico

As investigações do segundo tipo, seriam aquelas que adotam desenhos positivistas para cumprir um dentre dois diferentes tipos de objetivos:

  1. estudar e testar hipóteses que derivam de enunciados teóricos psicanalíticos segundo uma epistemologia positivista

  2. verificar a eficácia clínica de intervenções psicanaliticamente orientadas segundo uma epistemologia positivista

Exemplo bastante ilustrativo do primeiro subconjunto, vale dizer, daquele constituído por teste de hipóteses psicanalíticas, é um antigo estudo de Simon (1993), em que um instrumento projetivo é usado para cumprir o objetivo de examinar a veracidade de hipóteses, formuladas por dois psicanalistas, sobre as relações de objeto primitivas. Nesse tipo de desenho, um raciocínio positivista se faz fortemente presente, revelando uma formação que identificava essa posição epistemológica com pesquisa feita com rigor. Outro exemplo, mais recente, seria o trabalho de Pinto Júnior, Rosa, Chaves e Tardivo (2015). Buscando compreender a relativa independência entre planos estruturais e sintomáticos, no campo psicopatológico, os autores se propuseram realizar uma pesquisa por meio de avaliação psicológica de homens que cumpriam penas pela prática de abuso sexual intrafamiliar. Por este caminho, consideraram que os participantes, que apresentavam condições homogêneas no plano sintomático, não apresentam uma estrutura psicopatológica típica, apresentando evidências sobre tal independência relativa entre sintoma e personalidade.

O segundo subconjunto das pesquisas, composto por estudos positivistas sobre eficácia clínica de intervenções psicológicas, caracteriza-se pela realização de vários tipos de avaliações e mensurações psicológicas, antes e depois de intervenções clínicas, para verificar a ocorrência de mudanças psicológicas. Como exemplo, podemos citar o trabalho de Leuzinger-Bohleber et al. (2019), que compararam a eficácia da terapia cognitivo-comportamental e da terapia psicanalítica de pacientes com depressão crônica, por meio do Quick Inventory of Depressive Symptoms [QIDS] e do Inventário de Beck de Depressão, o que o levou a concluir que as duas modalidades seriam eficazes.

Do nosso ponto de vista, a verificação dos benefícios de intervenções psicológicas é questão eticamente relevante pois, se a clínica psicológica é, de um lado, uma atividade muito singular, por outro lado, não deixa de corresponder a uma forma de cuidado que deve ser examinada com certa isenção, no interesse da população que vê aí uma chance de superar sofrimentos (Ambrosio, 2013). Portanto assumimos que a realização de estudos avaliativos de eficácia, no âmbito da psicologia clínica, corresponde a uma iniciativa importante e necessária. Entretanto, lembramos, com Herrmann (2004), que são inúmeros os problemas quando a avaliação é feita por meio de testes e escalas cuja aplicação se faz segundo uma lógica que toma o paciente como objeto de estudo e não como participante de um encontro inter-humano. De fato, muitas vezes faz sentido tomar o corpo, ou parte do corpo, da pessoa como objeto de estudo e testagem, no campo da medicina, a partir de uma fuga do concreto em direção a uma certa abstração, na medida em que desse modo pode ser produzido conhecimento que permite solução de problemas de saúde. Tal não acontece quando objetivamos de modo reducionista a experiência vivida, que é aquilo sobre o que versa a psicoterapia psicanaliticamente orientada.

O terceiro tipo de pesquisa identificado por Herrmann (2004), referente a estudos que usam a psicanálise como método investigativo, baseia-se no reconhecimento de que o termo psicanálise abrange três níveis: método investigativo, método clínico e teorias. (Freud, 1922/1955). O reconhecimento desses níveis é tão importante que é por meio deles que o verbete “psicanálise” é definido no dicionário de Laplanche e Pontalis (1967/1971), obra que segue sendo uma referência fundamental no campo psicanalítico.

Um aspecto absolutamente importante dessa definição, bastante destacado por Herrmann (1979), diz respeito à percepção de que, apesar da psicanalise ter nascido, cronologicamente, a partir do atendimento de uma paciente, o método investigativo teria primazia lógica em relação às teorias e ao método psicoterapêutico, que dele derivariam. Como argumento, Herrmann indica que, quando examinamos a história do movimento psicanalítico, constatamos que o método investigativo tem se mantido invariante ao longo das décadas, enquanto várias diferentes teorias e enquadres terapêuticos vem sendo criados - sempre a partir do emprego do método. A notável profusão de várias teorias, ao redor das quais se formam diferentes escolas, que se reconhecem psicanalíticas, está diretamente ligada ao fato de surgirem a partir do uso do mesmo método, capaz de revelar dimensões não conscientes dos atos humanos. Além disso, observamos também que vários diferentes enquadres clínicos vem sendo propostos, tais como as psicoterapias psicanalíticas breves, de grupo, de crianças, de casal e de família, entre outras. Tais enquadres tem o método investigativo como referência, mas introduzem variações técnicas no método de tratamento, em função dos objetivos clínicos.

Quando levamos em conta a distinção entre o método investigativo e o método clínico, a ideia de que só se pode usar, na pesquisa psicanalítica, material oriundo de sessões de atendimento, o que exigiria que todo pesquisador fosse, necessariamente, um psicanalista clínico, perde completamente o sentido. Em compensação, torna-se logicamente convincente, a possibilidade de abordar o sentido afetivo-emocional de qualquer conduta humana, seja qual for o lócus de sua ocorrência. Desse modo, ampliam-se verdadeiramente as possiblidades de realização de pesquisa qualitativa com método psicanalítico, valendo ressaltar, que certos estudos pioneiros sobre produções literárias e artísticas, bem como sobre fenômenos sociais, realizados pelo próprio Freud (1907/1955, 1910/1955, 1930/1955), tornam-se comprovação privilegiada da abrangência e potencialidade heurística do método na abordagem dos sentidos afetivo-emocionais de todo e qualquer ato humano.

Entre nós, o interesse pela pesquisa qualitativa com método psicanalítico, na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta, remonta à década de 1980 e esteve ligado, inicialmente, ao estudo da discriminação e exclusão do paciente psiquiátrico, em contexto da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial. Esta temática diversificou-se, posteriormente, incluindo o estudo de outras questões humanas e outros grupos sociais discriminados, ampliando-se para o campo dos sofrimentos sociais (Visintin & Aiello-Vaisberg, 2017). Aliás, vale a pena lembrar que a visão de ser humano adotada por Bleger (1963/2018), ao articular a psicanálise, depurada do positivismo presente na metapsicologia freudiana, com o materialismo dialético, revela-se como particularmente coerente com um posicionamento sensível aos efeitos que condições sociais adversas exercem sobre a experiência de vida de pessoalidades individuais e coletivas.

Partindo da premissa que considera a entrevista psicológica como um tipo especial de encontro inter-humano, onde material de pesquisa pode ser produzido, atentamos à necessidade de introduzir o interesse científico do pesquisador tendo em vista configurar um ambiente maximamente favorável à expressão subjetiva do participante (Bleger, 1964/1993). Evidentemente, um aspecto primordial, em jogo, é a forma como o pesquisador se coloca na entrevista psicológica, bastante semelhante à do psicanalista clínico, colocando-se como presença atenta que permite que o campo relacional seja primordialmente configurado pelo entrevistado. Também são valiosos os recursos mediadores, entre os quais se conta o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, que facilitam a comunicação emocional ao mesmo tempo em que instauram uma atmosfera brincante, no sentido da transicionalidade winnicottiana (Winnicott, 1968/1994, 1971/1991). Os recursos mediadores não são usados como testes psicológicos, mas, sim, como atividades que contribuem para a ocorrência de um diálogo no contexto da entrevista psicológica individual ou coletiva, aqui realizada com finalidades exclusivamente investigativas. Seguem, portanto, o delineamento do jogo winnicottiano do rabisco, uma forma sofisticada de entrevista psicológica.

Fundamentando o PDE-Tema

Ao longo da elaboração de nossas pesquisas, um tipo específico de recurso mediador tornou-se mais frequentemente utilizado nas entrevistas psicológicas, tanto individuais como coletivas, por se revelar especialmente apreciado, tanto pelos participantes como pelos pesquisadores: o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, conhecido como PDE-Tema O primeiro artigo que relata uma pesquisa usando o PDE-Tema é de Aiello-Vaisberg (1991), significando que tal recurso mediador vem gerando frutos de pesquisa e de clínica há, no mínimo, 30 anos.

Apresentando-se como recurso mediador, o PDE-Tema favorece a instauração de uma atmosfera lúdica e dialógica durante a entrevista psicológica. Desta feita, seu uso oferece condições para o estudo de imaginários coletivos, na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta, ao mesmo tempo que pode trazer benefícios de ordem emocional aos participantes, uma vez que, ao entrarem em contato com suas atividades imaginativas, aproximam-se de suas próprias crenças, sentimentos, pensamentos e fantasias sobre o tema proposto.

O Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema foi desenvolvido por Aiello-Vaisberg (1991, 1999) a partir do Procedimento de Desenhos-Estórias de Trinca (1976), que se destina a finalidades psicodiagnósticas compreensivas, em vertentes psicanalíticas ou fenomenológicas, perspectivas estas que se aliam na busca de formas de atuação clínica e de pesquisa que se afastassem de um certo objetivismo reducionista, que dominara o campo da psicológica durante algum tempo. De acordo com o Procedimento de Desenhos-Estórias de Trinca (1976), o paciente ou o participante é convidado a desenhar livremente e inventar histórias sobre seus desenhos. Entendemos que seu caráter dialógico provavelmente explica o fato de uma expressiva produção cientifica brasileira ter sido gerada a partir desta proposta, ao longo de cerca de cinco décadas, mantendo, até hoje, notável vitalidade (Visintin, 2021).

Provavelmente, a maior virtude do Procedimento de Desenhos-Estórias consista na liberdade expressiva que oferece ao paciente que, convidado a fazer cinco desenhos livres, vê-se em condição bastante semelhante à do paciente que pode associar livremente, expressando sua experiência vivida, mesmo sem tê-la conscientemente elaborado. É justamente essa liberdade que nos permite situar o recurso de Trinca (1976) de modo mais próximo ao jogo do rabisco (Winnicott, 1968/1994) do que o Teste de Apercepção Temática de Murray (1968).

Uma vez que não foi idealizado com vistas a uso psicodiagnóstico, o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema exige uma adaptação em relação ao procedimento original de Trinca (1976): a solicitação ao participante da pesquisa que se expresse, tanto gráfica como narrativamente, sobre um tema que favoreça a abordagem do problema investigado pelo pesquisador. A escolha do tema é um passo fundamental porque, como se pode imaginar, um delicado trabalho de tradução, entre o que interessa ao pesquisador e o tema a ser solicitado ao participante, precisa ser realizado. Pede-se, assim, o cumprimento de dois requisitos, um deles ético e o outro metodológico. Tais requisitos devem nortear o processo de invenção do tema do PDE-Tema de modo a evitar que a consideração ética ao participante seja dissociada da consideração metodológica. Ou seja, o assunto de pesquisa deve estar contido no pedido ao participante para realizar as atividades gráfico-narrativas, mas nunca em termos que possam invadir ou agredir sua pessoalidade.

O requisito ético diz respeito tanto ao imperativo de evitar danos, mesmo que momentâneos, aos participantes, como à aspiração de lhes prover algum benefício imediato, perfeitamente coerente com a psicologia psicanalítica concreta. No caso da pesquisa psicológica, ganhos e prejuízos eventuais apresentarão caráter afetivo-emocional, vale dizer, incidem sobre essa dimensão da vida e não em outras esferas do viver, digamos na sua saúde física, na sua condição social ou causando danos financeiros.

O cuidado ético com o participante já está presente na configuração de um enquadre de entrevista de tipo transicional, que permite ao pesquisador diminuir de modo altamente significativo a possibilidade de ocorrência de reações ansiosas dos participantes, frente ao impacto eventualmente causado pela enunciação do tema proposto.

Compreendemos que a abordagem direta de uma temática de teor delicado sempre é potencialmente causadora de sofrimentos de ordem emocional, mais ou menos intensos, devendo, portanto, ser evitada. Sendo assim, muitos questionamentos devem ser realizados quando o pesquisador efetua o desenho metodológico de suas investigações e entendemos serem potencialmente mais perigosas formas diretas e explicitas de referencia a muitas das questões humanas cuja investigação realizamos. Ponderamos como um equívoco grosseiro acreditar que o participante, abordado numa situação que não lhe mobiliza fortes ansiedades, será incapaz de produzir um material significativo.

Buscando contemplar o requisito de ordem ética, no panorama do uso do PDE-Tema, como entrevistar, por exemplo, uma mãe que sofreu perda gestacional quando o tema do estudo é a própria perda gestacional? Ou como entrevistar pessoas que tentaram suicídio, ou perderam pessoas próximas que se suicidaram, quando se estuda a dimensão emocional desse tipo de situação? Um suficiente distanciamento entre o tema da pesquisa e o enunciado do Procedimento deve permitir que a expressão subjetiva do participante possa acontecer sem se acompanhar de incremento de ansiedade. Buscamos esclarecer esse assunto a seguir.

O requisito de ordem metodológica versa sobre a definição do tema de maneira que este contemple o assunto que se quer investigar. Essa exigência não implica na ocorrência de uma coincidência obrigatória entre o tema do PDE-Tema e o objetivo declarado de pesquisa, mas sim na busca de um tema que possibilite que a entrevista seja facilitadora da comunicação subjetiva dos participantes acerca de um campo experiencial humano definido pelo pesquisador. Deste modo, o tema a ser proposto deve contemplar aquilo que será pesquisado sem causar dissonâncias com os fundamentos epistemológicos sobre os quais a pesquisa se assenta (Bleger, 1963/2018), bem como sem gerar ansiedades no participante, isto é, sem transgredir o primeiro desafio. Tal consideração já fora ponderada por Kirk e Miller (1986) em pesquisa qualitativa sobre o uso da folha de coca na América do Sul. Indicando que as pessoas entrevistadas ficavam ansiosas com uma pergunta direta sobre a folha de coca, resolveram a situação quando fizerem perguntas indiretas, vale dizer, perguntas que não coincidiam exatamente com o objetivo da pesquisa, mas que dele se aproximavam gradualmente por iniciativa dos próprios participantes. Ao invés de perguntarem “Conte-nos sobre a coca”, começaram a entrevista com perguntas como: “Em que tipos de problema de saúde apresentado por cavalos vale a pena usar folha de coca?”. Percebe-se aí que o tema da pesquisa e o objetivo não coincidem, porém estão alinhados.

O requisito metodológico, a ser observado no processo de escolha do tema, quando a entrevista psicológica se articula ao redor do uso do PDE-Tema, abrange três diferentes pontos:

  1. amorfia do tema

  2. delimitação de um campo experiencial

  3. pedido de figuras humanas

O primeiro ponto metodológico versa sobre a amorfia do tema, característica intimamente relacionada ao quantum de expressividade subjetiva pode ser absorvida pelo tema proposto. O conceito de amorfia foi forjado por Winnicott (1971/1991), para descrever um estado existencial infantil que, quando bem tolerado pelo ambiente, favorece o amadurecimento emocional da criança. Posteriormente, esse termo foi aplicado para designar a condição de materialidades mediadoras usadas nas oficinas psicoterapêuticas de criação “Ser e Fazer”, justamente um retorno simbólico à condição de amorfia, a partir da qual uma nova experiência pode se constelar trazendo consigo efeitos mutativos (Aiello-Vaisbeg, 2017; Ambrosio & Aiello-Vaisberg, 2009).

A transposição do conceito de amorfia para situações atuais, como a de uma entrevista de pesquisa, pode se revelar muito produtiva. Aliás, certos movimentos de transposição de situações existenciais básicas, tais como aquelas que foram desvendadas no jogo do rabisco e no jogo da espátula por Winnicott (1968/1994, 1941/1982), podem iluminar situações existenciais fundamentais, como bem demonstrou Safra (2009). Nessa linha, a transposição de um modelo de encontro inter-humano, no qual a dialogia se realiza por uma interpelação suficientemente amorfa, capaz de favorecer uma expressão subjetiva menos defensiva, é o que deve presidir a definição do tema do PDE-Tema que, por outro lado, deve poder recortar o interesse de pesquisa.

Portanto, o tema deve ser suficientemente amorfo para deixar aberta uma variada gama de possibilidades de respostas do participante que, desse modo, comunicará aquilo que lhe é emocionalmente importante naquele momento. Assim, fica claro que o PDE-Tema não é um teste e sim um mediador dialógico, pois, na medida em que o pesquisador solicita o desenho e invenção de uma história, sobre um tema dotado de suficiente amorfia, comporta-se de modo comparável ao daquele que faz um primeiro rabisco que o paciente completa partir de sua imaginação, no enquadre da consulta terapêutica (Winnicott, 1971)

O segundo ponto metodológico diz respeito à necessidade de delimitação de um campo experiencial, facilmente imaginável pelo participante, que esteja alinhado ao objetivo investigativo. Desse modo, refere-se a um recorte no acontecer humano - essencialmente inesgotável - para promover uma aproximação do participante em relação ao assunto pesquisado. Em outros termos, quando buscamos produzir conhecimento compreensivo usando o PDE-Tema, faz-se necessária a delimitação de um campo humano, vale dizer, de situações concretas de vida, claramente definidas, como querer adotar uma criança ou ter um filho com TDHA, entre infinitas outras, com vistas a favorecer a ocorrência de associação de pensamentos, percepções, emoções e lembranças vinculados a certa área da experiência humana, à qual nos referimos por meio do tema. Trata-se, portanto, de convidar o participante a se conectar ao tema proposto para sobre ele se manifestar a partir de uma atividade imaginativa (Visintin, 2021).

O terceiro ponto metodológico corresponde ao pedido explícito de desenho de uma pessoa, que o entrevistador insere no campo experiencial que deseja focalizar em função dos objetivos da pesquisa. Aprendemos, por experiência, que desse modo facilitamos a obtenção de um material associativo rico no que tange à produção de conhecimento compreensivo sobre a dimensão afetivo-emocional de atos humanos. Tal prática gera bom resultado porque aquilo que mais facilmente concretiza a abordagem de dramáticas humanas é a colocação imaginativa de um ser humano como protagonista de sua dada situação (Visintin, 2021).

Assim, o atendimento do requisito ético e do requisito metodológico, esse último alcançado quando contemplamos os três pontos apresentados acima, torna-se possível definir o tema ao usar o PDE-Tema de modo satisfatório. A apresentação comentada de material de uma investigação já realizada poderá ser de utilidade.

Ilustrando a definição do tema no PDE-Tema

Nesta última seção, valemo-nos da pesquisa de Batoni (2020) para ilustrar o processo de definição do tema do PDE-Tema. Essa autora buscou conhecer imaginários de universitárias sobre a dupla jornada, fenômeno que encobre a questão da maternidade, uma possibilidade da vida feminina que é limitada, em condições habituais, pela idade.

Como fenômeno humano, a dupla jornada, que consiste no acúmulo de tarefas profissionais e domésticas, vivido pela grande maioria das mulheres na atualidade, pode ser abordado por qualquer ciência humana, da história e antropologia até a economia e a sociologia, passando por outras possibilidades disciplinares e transdisciplinares (Bleger, 1963/2018). Contudo, quando abordado pela psicologia, ciência que se volta para a compreensão da experiência vivida, vale dizer, dos sentidos afetivo-emocionais dos atos humanos, a dupla jornada abrange dramas, fundamentalmente ligados à maternidade e à divisão sexual do trabalho, no âmbito da família nuclear, que são diferentemente vividos conforme as condições concretas de vida, que incluem classe social, raça, idade, religião, grau de instrução e muitos outros aspectos.

Entretanto, sejam quais forem as circunstâncias da vida concreta, o pesquisador psicólogo, interessado na experiência feminina na contemporaneidade, não ignora que ao abordar a dupla jornada está tocando um ponto fundamental, que se situa, em nossa cultura, no âmago da existência feminina, desde que os métodos contraceptivos tornaram viável a combinação de vida sexual duradouramente ativa com recusa à maternidade: deve a mulher optar por ter filhos ou renunciar a essa possibilidade para desse modo facilitar a obtenção de realização na vida profissional?

A maternidade, como um ponto nuclear da vida da mulher, pode ser colocada em pauta, por meio do uso do PDE-Tema, por meio da investigação sobre a dupla jornada, porque essa tangencia e encobre a questão maior. Mas Batoni (2020) foi adiante quando, fazendo um détour na definição do tema pedido às participantes da pesquisa, substituiu o campo experencial da dupla jornada pelo campo da vida bem sucedida da mulher que chegou aos 40 anos de idade, dizendo: “Gostaria de pedir a vocês que usem sua imaginação para desenhar uma mulher bem sucedida de 40 anos”. Desse modo, conseguia atrair a imaginação das entrevistadas para situações de êxito e realização, tornando o ambiente de produção do material de pesquisa mais brincante - com adultas se prestando à atividade de desenhar, que a maioria das pessoas de nossa cultura deixa praticar quando termina a infância. Quando os desenhos eram finalizados, a pesquisadora pedia-lhes que inventassem uma história sobre a figura desenhada, favorecendo delicadamente um aprofundamento na atividade imaginativa das participantes.

Deste modo, o tema do PDE-Tema, escolhido por Batoni (2020), serviu para as participantes se aproximarem de modo relaxado e brincante do tema pesquisado, imaginando o futuro da mulher que, na sociedade em que vivemos, geralmente se vê sobrecarregadas pela dupla jornada caso decidam constituir família e se tornarem mães. As pesquisadoras trabalharam com um total de 30 participantes, que produziram 30 desenhos-estórias. Escolhemos dois deles, tendo em vista aqui proporcionar uma visão mais concreta desse material, enquanto tecemos alguns comentários à luz dos dois requisitos que discutimos neste texto.

Figura 1 Desenho de uma participante (P10) do estudo de Batoni (2020). 

Esta mulher tem 40 anos, é uma psicanalista conceituada e bem conhecida em sua cidade. Ela gosta de se vestir bem e conserva seu estilo alternativo da juventude. Ela também gosta de viajar pelo mundo e o faz com frequência, já que tem uma boa condição financeira ela é independente, dona de si, ativista política, feminista e ativa em algumas ongs. Na vida amorosa, ela pode já ter encontrado um parceiro ou ainda estar à procura de alguém, mas isso não significa necessariamente casar. Ela também tem um bebê, pois sempre sonhou em ser mãe. Ela gosta de ler e escutar músicas que a façam sentir vida e pensar na vida. Além disso, ela costuma sair com os amigos da faculdade para barzinhos e eventos culturais.

Passamos, agora, a considerar o pedido feito às participantes, elaborado em função do tema do procedimento mediador, à luz dos dois requisitos que discutimos neste texto. Trata-se de aqui revisitar o requisito ético e os três pontos que compõem o requisito metodológico de escolha do tema a ser proposto às participantes quando do uso do PDE-Tema.

Figura 2 Desenho de uma participante (P9) do estudo de Batoni (2020). 

Na minha concepção uma mulher bem-sucedida aos 40 anos é aquela que já se vê realizada tanto profissionalmente quanto a sua vida pessoal. No caso desta mulher sendo professora universitária e também trabalhando com psicologia escolar e, além disso, realizada como mãe de dois filhos. Completa pelo amor e por fazer o que gosta.

Antes de mais nada, devemos recordar que as participantes eram universitárias de classe média, correspondendo, portanto, a um grupo de pessoas em transição para a vida adulta que se dedicam a se preparar para assumir profissões que exigem nível superior de instrução. Pertencem, portanto, a um grupo populacional privilegiado, já que são provenientes de famílias que podem arcar com sua entrada relativamente tardia no mercado de trabalho, sem deixar de assumir, enquanto estudantes, estilos de vida relativamente dispendiosos, caraterísticos de sua classe social. Sua condição concreta, que aponta para a possibilidade de realização pessoal e independência financeira, não parece distingui-las dos colegas de sexo masculino. Mas, vivem numa sociedade que, sem colocar obstáculos para a obtenção de instrução para mulheres pertencentes às classes médias, valoriza muito positivamente a maternidade, concebendo-a como experiência que confere sentido e verdadeira realização à vida feminina. Além disso, a maternidade deve ser exercida em regime de dedicação exclusiva no âmbito da família nuclear, instituição regida pela divisão sexual do trabalho (Visintin & Aiello-Vaisberg, 2017).

Em relação ao requisito de ordem ética, o pedido conforma-se como um convite às participantes a imaginarem uma situação de realização pessoal, aparentemente isenta de dificuldades. Percebe-se que o pedido, em si mesmo, não estampa nenhum problema de modo invasivo. Entretanto, não deixa de sutilmente inserir, ainda que de modo minimalista, a questão da dupla jornada e da maternidade, ao incluir o detalhe relativo à idade da pessoa a ser imaginativamente inventada. Na verdade, essa questão dos 40 anos de idade merece maior atenção, pois corresponde a uma decisão das pesquisadoras que tem um duplo efeito:

  1. de um lado, inserem uma informação que parece um mero detalhe, mas que aponta para certa proximidade da menopausa, sem deixar de conceder algum tempo para a possibilidade de ocorrência de uma gravidez

  2. de outro lado, colocando entre as participantes universitárias, com idade ao redor de 20 a 25 anos, e a figura a ser desenhada, um intervalo de mais de 15 anos, realiza um manejo de ansiedade, por meio da ideia de que a questão abordada se mantém a uma boa distância daquilo que vivem no tempo presente.

No que diz respeito ao primeiro ponto do requisito metodológico, relativo à amorfia do tema, o pedido, de que desenhassem uma mulher bem sucedida de 40 anos, teve o dom de atrair sua imaginação para as questões que importava investigar, vale dizer, a da dupla jornada e aquela que por esta se encobre, vale dizer, a da inclusão ou rejeição da maternidade, sem deixar de conceder liberdade para que inúmeras concepções imaginativas pudessem ser aventadas pelas participantes. Quando o tema é suficientemente amorfo, os participantes não deixam de abordar a questão humana que está contida nos objetivos investigativos, mas fazem-no de acordo com suas crenças conscientes e não conscientes.

No que diz respeito ao segundo ponto do requisito metodológico, relativo à delimitação de um campo de experiência humana, Batoni (2020) estabeleceram a dupla jornada como objetivo investigativo a partir de um problema de pesquisa bastante mais amplo, que corresponde à opressão da mulher no capitalismo cisheteropatriarcal. Lembrando que o PDE-Tema não visa obter manifestações discursivo-conceituais, mas imaginários, que devem, de acordo com a psicologia psicanalítica concreta, ser concebidos como condutas, no âmbito das quais aspectos ideativos da experiência estão indissoluvelmente amalgamados com dimensões afetivo-emocionais do viver, a questão é traduzida em termos de um campo delimitado da experiência quando é evocada a figura da mulher adulta, que se encontra mais próxima da idade da menopausa, do que as participantes da pesquisa, ao mesmo tempo em que se introduz, de modo também sutil, uma perspectiva de avaliação segundo uma visão de maior ou menor grau de realização pessoal.

No que diz respeito ao terceiro ponto do requisito metodológico, relativo à inserção de pessoas no enunciado do procedimento, é evidentemente cumprido quando as pesquisadoras pedem o desenho de uma mulher bem sucedida de 40 anos. Como se vê, desde o momento em que o desenho é solicitado, já fica insinuado o interesse das pesquisadoras na vida enquanto biografia - o que fica definitivamente patente quando as participantes são convidadas a inventar uma história sobre a figura desenhada.

Considerações finais

Cabe finalizar esse artigo retomando o objetivo que norteou sua elaboração, vale dizer, o da apresentação e fundamentação do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, mediador que foi originalmente concebido tendo em vista a investigação de imaginários coletivos na perspectiva da psicologia psicanalítica concreta (Aiello-Vaisberg & Ambrosio, 2019). Esperamos ter abordado as questões fundamentais, subjacentes ao uso desse recurso, com suficiente clareza, para que possa ser utilizado por pesquisadores que se interessam pelo estudo de sofrimentos sociais, fenômeno para o qual o ambiente imaginativo apresenta máxima importância.

Por outro lado, não podemos deixar de mencionar que, sendo um desenvolvimento do Procedimento de Desenhos-Estórias de Trinca (1976), o PDE-Tema pode ser coerente e fecundamente utilizado em combinação com outros referenciais teóricos, entre os quais devemos incluir as múltiplas vertentes que compõem contemporaneamente a abordagem psicanalítica relacional (Sassenfeld, 2018) e mesmo abordagens não psicanalíticas de caráter compreensivo, tais como a psicologia junguiana ou a psicologia fenomenológica. Contudo, se a amplitude desse assunto não nos permite aqui desenvolvê-lo, certamente é motivador abordá-lo em pesquisas futuras.

Dada a amplitude, optamos por tratar do uso do PDE-Tema dissociado da psicologia psicanalítica concreta em artigo exclusivamente dedicado a esse assunto, o que nos permitirá apresentar uma exposição suficientemente clara e detalhada das epistemológicas e metodológicas requeridas por esse tipo de empreendimento. Podemos ainda acrescentar, que, por outro lado, esse procedimento pode ser proveitosamente utilizado por pesquisadores qualitativos que façam uso de referenciais não psicanalíticos, desde que estejam engajados em processos de produção de conhecimento compreensivo.

Assim, parece-nos válido considerar que o uso do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema, quando fundamentado e articulado com referencial teórico devidamente explicitado, revela-se um mediador dialógico fecundo na produção de material investigativo em pesquisas sobre imaginários coletivos.

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1Uma vez que nosso intento diz respeito a mostrar que há mais de um modo de articulação entre pesquisa acadêmica e psicanálise, consideramos suficiente apresentar os três tipos identificados por Herrmann. Não nos propomos rastrear tudo o que tem sido produzido em nome dessa articulação, mas lembramos aqui, em função dos intercâmbios que tem realizado com nosso país, os estudos psicossociais de Frosh (2019) e a psicologia qualitativa de Parker (2005), a qual integra análise de discurso, marxismo e psicanálise lacaniana.

Revisão gramatical: Angélica Cristina Curto E-mail:angelicaccurto@gmail.com

Recebido: Março de 2022; Aceito: Março de 2023

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