Introdução
Figura viva da dessemelhança, o termo “África” remete consequentemente a um mundo à parte, pelo qual não somos responsáveis, com o qual muitos de nossos contemporâneos sentem dificuldades de se identificar. Mundo oprimido pela dureza, pela violência e pela devastação, a África seria o simulacro de uma força obscura e cega, emparedada num tempo de certa maneira pré-ético e possivelmente pré-político. Algo com que temos dificuldade de experimentar um laço de afinidade. Pois, aos nossos olhos, a vida por lá nunca é uma vida humana propriamente dita. Ela nos aparece sempre como a vida de um outro, de pessoas outras num outro lugar qualquer longe de nós, lá fora. Na impossibilidade de um mundo comum entre eles e nós, a política africana do nosso mundo não tem como ser uma política do semelhante. (Mbembe, 2018, p. 98)
Parte-se das histórias de vida de dois meninos, de dois lugares geograficamente distintos - Beirute, no Líbano, e São Paulo, no Brasil -, de um filme e do relato de caso clínico. No presente artigo abordaremos a modalidade de laço social que produz, em distintos contextos, subjetividades marcadas pela desigualdade e injustiça social e que afeta de modo avassalador crianças e adolescentes de forma universal, por estarem na condição de imigrantes e em situações sociais críticas. Esses pontos de partida serão o fio condutor pelos quais investigaremos o avesso do mesmo lugar, enfatizando as dimensões universal e singular dos objetos em análise: um caso clínico e uma produção cinematográfica. Universal porque poderíamos multiplicar por mil essas histórias de vida em várias cidades, bairros, favelas e vielas do planeta terra. Singular porque nos interessa também colocar em relevo a história de cada sujeito e os modos de desejar a partir das determinações sociais do contexto político no qual ele vive. Devemos também lembrar que mesmo que a psicanálise e as ciências humanas e sociais enfatizem o local e o singular de cada cultura, é inegável que pensar a passagem entre a infância e a adolescência em nosso mundo globalizado e de tantos bolsões sociais de exclusão acaba por aproximar formas de vulnerabilidade, de marginalidade e de experiências de transgressão das próprias fronteiras e limitações.
A história de Zain (vivido por Zain Al Rafeea), presente na produção cinematográfica intitulada Cafarnaum (Labaki, 2019), tem início com a cena no tribunal no qual ele está sendo julgado por um crime. No espaço do tribunal, ele encontra a oportunidade de processar seus pais por serem irresponsáveis ao conceber filhos sem que tenham condições financeiras e afetivas de criá-los. A trama é dividida em três lugares e momentos: no primeiro o protagonista vive com sua família em situação precária de moradia e ajuda no sustento da família com seu trabalho infantil; em um segundo, ele foge de casa e encontra uma mulher imigrante, Rahil (vivida por Yordanos Shiferaw), em situação ilegal no Líbano. Ela é mãe de um bebê (Boluwatife Treasure Bankole) sem registro oficial de nascimento. No terceiro tempo da narrativa ocorre a prisão de Zain, o julgamento de seus pais e o desenlace.
A outra é a história de Túlio, jovem envolvido com o tráfico de drogas atendido em um serviço de medidas socioeducativas em meio aberto. O caso clínico é construído no encontro entre profissionais participantes de um grupo de supervisão de abordagem psicanalítica que enfatizam a trajetória de vida do adolescente marcada por situações sociais críticas. É um universal que atravessa a vida de muitas famílias e crianças brasileiras: fome, descuido e dificuldades de acesso aos direitos sociais de forma geral e a uma educação de qualidade, às instituições de saúde e aos espaços de cultura em seus territórios.
As duas histórias são marcadas pela desigualdade e injustiça social. A personagem e o caso clínico pertencem a uma “subclasse” (Bauman, 2013), que inclui “emigrantes internos” e “imigrantes ilegais”, sujeitos destituídos de direitos, restos sociais produzidos pelo sistema capitalista. Eles não fazem parte de nenhuma classe social, não cumprem função como os trabalhadores ou profissionais e sobram para eles os trabalhos invisíveis e considerados menos qualificados: entregador e carregador, faxineira, vendedor de produtos nas ruas da cidade, aviãozinho no tráfico de drogas etc.
Nessa perspectiva, nos interessa interrogar a psicanálise e a posição ética e política do psicanalista ao criar dispositivos clínicos de cuidado. Pontalis (2005) nos convida a chegar até os confins da psicanálise, localizado para além das fronteiras daquilo que chamamos o espaço restrito do consultório no sentido da arte de imaginar o impossível, seja na direção de um tratamento na clínica, seja na construção da política do semelhante (Mbembe, 2018) como um futuro profícuo enquanto humanidade. Entendemos, portanto, a psicanálise como não exclusiva do psicanalista, mas também sendo um discurso à disposição na cultura a convocar responsabilidade dos sujeitos frente aos paradoxos e contradições do mundo contemporâneo, diante das injustiças e desigualdades sociais que produzem a dimensão sociopolítica do sofrimento (Rosa, 2016) das crianças, exigindo uma posição reflexiva, crítica e operativa diante da urgência social.
Fazer reverberar a clínica psicanalítica na cultura, nas artes, nos atendimentos, nas políticas públicas é uma questão política. Trata-se de olhar a obra de arte, no caso o cinema, como objeto da cultura que denuncia as condições desumanas nas quais vivem imigrantes e crianças pobres de várias partes do mundo, bem como olhar o caso clínico como emergente da dinâmica social impressa nos vínculos humanos.
O que aprendemos com Zain, o protagonista do filme Cafarnaum
Nadine Labaki (Presse, 2019) é uma diretora crítica em relação às desigualdades sociais, às condições de vida dos imigrantes e às violências de gênero na contemporaneidade. Cafarnaum obteve reconhecimento internacional, recebeu o prêmio do júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, também no ano de 2019. Em entrevista para um jornal (Presse, 2019), ela afirma sua intenção de propor questionamentos sobre o sofrimento das crianças abandonadas pelas políticas sociais e educacionais no Líbano, o seu país, com ênfase nos imigrantes, principalmente mulheres mães em situação ilegal, desprotegidas pelo Estado e que precisam proteger seus bebês. Labaki acredita que produções cinematográficas podem provocar debates e sensibilizar espectadores e representantes políticos para que transformações aconteçam em seus países. Há posicionamento político da diretora na escolha do elenco: além do ator Zain Al Rafeea, tanto a atriz Yordanos Shiferaw quanto a mãe do ator mirim Boluwatife Treasure Bankole são refugiadas etíopes no Líbano e foram presas, na vida real, durante as filmagens.
Na vida real, Zain Al-Rafeea é um adolescente refugiado sírio que reside no Líbano, convidado pela diretora a interpretar o protagonista. Após o sucesso do filme, o ator conseguiu, junto com sua família, asilo político na Noruega (Presse, 2019). Na ficção, Zain é um garoto libanês em “luta pela vida” (Imbrizi, Souza, & Gomes, 2021). A diretora já prevê certo embaralhamento entre ficção e realidade ao atribuir ao protagonista da narrativa fílmica o mesmo nome do ator selecionado para interpretar a personagem aqui em foco.
Cafarnaum acompanha a trajetória de Zain, um menino sem registro de nascimento, que está na faixa de idade entre 12 e 13 anos. O fato de ele não ter sido registrado por seus pais faz com que ele não exista legalmente. Desse modo, ele pode ser considerado estrangeiro em seu país, sem ter sua existência reconhecida pelo Estado. Do ponto de vista da história singular dessa criança, há cenas de Zain brincando com seus amigos, com armas feitas de madeira que simulam um conflito armado entre os brincantes: há o lúdico em modos de correr, fumar um cigarro, batucar um instrumento mesmo quando necessitam cuidar dos irmãos por imposição dos pais. As irmandades são várias, sete ou mais que dormem amontoadas em colchões espalhados pelo chão do apartamento localizado no segundo ou terceiro andar de um prédio.
Há que destacar o universal na trama, o fato de algumas infâncias serem roubadas em função da necessidade de cuidar dos irmãos mais novos - crianças que cuidam de crianças. Há também o trabalho infantil: Zain, por ser o filho mais velho do sexo masculino, tem que trabalhar em um armazém, também vende frutas no espaço público na companhia dos irmãos de várias idades. Zain se desloca de um lado para outro, com seus irmãos, com as compras dos clientes, que moram em prédios precários e sem elevador. O que faz o pai? Dorme, bebe e fuma, numa posição bem próxima da subserviência. O que faz a mãe? Cuida da casa, da alimentação dos filhos e do pai.
Zain quer ir para a escola. Observa a Kombi - lotada de crianças e mochilas penduradas - que leva estudantes para a instituição escolar. Em uma conversa com seus pais, interroga-os quanto à possibilidade de estudar. Percebe que não será fácil tal empreitada, pois o pai depende da ajuda financeira dele. A mãe pondera que se ele for para a escola também trará alimento para a casa; comenta sobre um adolescente das redondezas que conseguiu essa proeza e, em troca, recebeu mantimentos necessários para alimentar sua família. A fome assola todas as crianças que aparecem no filme. No Brasil também a fome é um fantasma que retorna neste governo de extrema direita, consequência das eleições em 2018. Um país que atingiu áureos tempos, durante governos mais progressistas que tiraram o Brasil do Mapa da Fome, e viveu, sobretudo no governo 2018-2022, um retrocesso nos avanços dos direitos sociais e civis da população em situação de vulnerabilidade social. Labaki coloca em questão a nossa família nuclear, em crise neste início de terceiro milênio, um conceito zumbi, no sentido de morto-vivo, para muitos autores (entre eles Giddens, 1995), porque apesar de uma instituição em extinção, seu espectro continua vivo a pautar os nossos ideais de felicidade. As cenas iniciais do filme já apresentam o nosso protagonista em plena audiência em um tribunal de justiça no qual está sendo ouvido ao pretender processar os pais por colocarem filhos no mundo sem condições de acolhê-los. Zain quer impedir que seus pais tenham irresponsavelmente mais um filho, além dos sete que se amontoam na residência precária: é um adolescente que ousa questionar seus progenitores. O acontecimento-ruptura (Carreteiro, 2003) que divide a vida de Zain em antes e depois se refere ao fato de ele se interpor ao casamento da irmã. Zain se rebela contra a decisão de seus pais de oferecer uma menina para um homem muito mais velho em troca financeira ou por pratos de comida. Cria um plano de fuga para levar a irmã consigo que não dá certo, mas mantém a decisão de fugir da opressão familiar.
Com o pouco dinheiro roubado dos pais, ele viaja de ônibus alegando procurar uma avó, o que não se materializa no filme. Ao lado dele senta o homem-barata: as cores de seu traje-fantasia são as do Homem-Aranha, mas a imagem impressa em sua vestimenta é de uma barata. Como não pensar no livro A metamorfose, Franz Kafka (1997), e seu personagem Gregor Samsa, que se vê transformado em inseto da noite para o dia?
No caso do filme parece que a diretora nos convida para a seguinte reflexão: os países do norte produziram os seus homens-aranha, recobertos de poderes sobrenaturais para escalar arranha-céus e salvar o planeta dos seus inimigos; os países periféricos produziram os seus homens-baratas, seres estranhos e frágeis personificados em um idoso magro sem companhia, sem ao menos uma pessoa que pudesse cuidar dele. O homem-barata trabalha como homem-sinalizador de um estacionamento em um parque de diversões, pois, no filme, os trabalhos menos qualificados são realizados por idosos e imigrantes. Já o pai de Zain, a tomarmos por base as imagens no filme, parece viver em desalento (Birman, 2020), nem mesmo procura se ocupar com algum serviço. Aparece dormindo, deitado, sempre com um cigarro aceso a descansar em um cinzeiro.
Zain desiste de sua viagem, encantado com as luzes do parque, e acompanha o homem-inseto na descida do ônibus para, logo em seguida, perdê-lo de vista. Nesse momento, Zain metamorfoseia-se novamente, utiliza seu corpo de criança, ele brinca e sorri ao encontrar o homem-barata, usufrui de um dos brinquedos do parque de diversões e tenta escapar da monstruosidade humana. A fome é grande e ele se refugia em um restaurante no qual trabalha a sua futura amiga: uma mulher negra, chamada Rahil, imigrante que está no país ilegalmente e mãe de uma criança que ainda não completou um ano. Zain encontra a possibilidade de afeto, talvez com a instantânea convivência com o homem-barata e com Rahil, que luta para manter seu bebê vivo e conseguir papéis que possam tirá-la da posição de imigrante em condição ilegal no país. Tegrit é o nome criado para constar em sua documentação falsa, emitida por Aspro (Alaa Chouchnieh), o atravessador que diz poder ajudá-la a conseguir a cidadania libanesa. Ela é a primeira a dar comida para matar a fome de Zain. Na sequência das cenas, Rahil leva Zain para a sua casa para alimentá-lo, ao mesmo tempo em que terá alguém para cuidar do seu próprio filho enquanto ela está no trabalho. Antes disso, o filho ficava escondido em um pequeno espaço no banheiro do restaurante e era amamentado às escondidas. Portanto, Zain volta à sua rotina de criança que cuida de outras crianças, no caso, de um bebê.
Estamos falando de casa/lar por pura expressão idiomática, pois as tomadas da diretora também indicam a precariedade de um espaço habitacional em Beirute, no Líbano. No prédio no qual Zain morava com os pais foram possíveis tomadas nas quais a diretora mostra a precariedade das moradias de um bairro inteiro, as paredes gastas das escadarias, a falta de iluminação; em muitas cenas a família janta à luz de velas com seus integrantes sentados no chão, sem mesa e com pouca comida para muitas bocas. Sim, a família de Zain mora em situação muito precária e vive com muito pouco dinheiro.
Qual será o espanto do espectador quando são apresentadas as condições nas quais mora Rahil, mais próxima das favelas brasileiras, as casas feitas de madeirite e restos de metal de contêineres antigos, com buracos nas paredes e sem janelas, sem chuveiros, no qual há apenas um cômodo no qual todos dormem. Sim, Zain conseguiu um lugar para morar pior do que aquele em que morava com sua família. Mas algo era possível ali, usufruir das sobras de um bolo de aniversário salvo do lixo do restaurante onde Rahil trabalha, mas que pôde servir para cantar parabéns para seu bebê que acabara de completar um ano. Um sorriso e soprar a velinha foi possível para Zain naquele trio que se formou entre ele, a mãe, agora sua amiga, e o bebê, agora seu amigo.
Outro acontecimento-ruptura na vida de Zain: Rahil é pega pelos agentes da imigração e vai presa. As imagens do cárcere são impressionantes no que se refere à quantidade de mulheres negras confinadas em uma mesma cela, mais um universal se o compararmos à situação dos presídios brasileiros. Zain, agora sozinho, cria estratégias familiares a ele para alimentar-se e nutrir o bebê, como colocar um pouco de açúcar em pedras de gelo.
Cabe ressaltar que, andando pelas ruas, ele é constantemente questionado sobre quem é a criança que ele carrega dentro de uma panela presa a um skate arrastado pela rua. Ele informa que é seu irmão, e quando zombam dele ao dizer que o bebê é negro, já que Zain é uma criança branca, ele diz: “Nascemos todos negros e depois vamos ficando mais claros” - bela teoria para sobreviver na selva de pedras do nosso capitalismo selvagem. Ao mesmo tempo em que a rua era proteção quando Zain morava no apartamento com sua família, agora a rua é um perigo constante para ele e o bebê. Mas há limites para a resiliência do nosso protagonista e ele precisa de dinheiro para se alimentar. No limite do desespero, ele troca o bebê pelo dinheiro e mais a garantia de Aspro de conseguir-lhe um passaporte. Para tanto, Zain precisará apresentar documentos e provar sua existência, situação que o força a voltar para a moradia dos pais. Nesse contexto, dois segredos são revelados: ele descobre não existir qualquer documento que registre o seu nascimento. Na luta com o pai para conseguir algum papel que confirme sua existência, o pai grita e afirma que não adianta o filho querer ser alguém porque todos da sua família estão fadados ao mesmo destino, argumentando que todos nós estamos todos reduzidos a insetos - alusão às humilhações sofridas cotidianamente, pois muitas pessoas desprezam quem não tem documentos nem dinheiro para pagar as contas da casa. O outro segredo é a morte de sua irmã em consequência de sua gravidez precoce, aos onze anos. Assim, revela-se qual foi o crime cometido por Zain: ele atacou a facadas o homem que causou a morte de sua irmã.
Aspro vai se revelando o segundo antagonista do filme, responsável pelo trabalho sujo (Arantes, 2011). Ele é um agenciador que se aproveita do desalento das pessoas e forja documentos para imigrantes ao prometer passaporte falso, emprego e uma vida melhor em outros países. Vai se revelando no desenrolar da trama que, na verdade, o que há são trabalhos forçados, comércio de órgãos humanos ou outras formas de exploração que serão ofertados para as pessoas acolhidas por esse personagem inescrupuloso. Como exemplo, vemos as situações de confinamento, nas quais as pessoas ficam esperando desesperadamente por um melhor desfecho em suas vidas. É esse homem que negocia com Rahil e não a poupa de ouvir suas falas cruéis, como as de que o filho dela não existe, pois o bebê não tem nome e nem documento. Ele pede para que Rahil lhe entregue a criança com a garantia de que será cuidada e adotada por outra família. Rahil resiste e não abandona seu bebê.
Vários antagonistas estão presentes na narrativa fílmica, pois estamos discutindo funções específicas na engrenagem capitalista que colocam em movimento a roda do progresso que gira sem sair do lugar. São pessoas cruéis, frias e prontas para sobreviver por meio da exploração do trabalho, da exploração sexual e do tráfico de pessoas. Portanto, o filme mostra a estrutura perversa de nossa sociedade: um sistema que produz sujeitos que repetem em suas ações e pensamentos a violência a que também estão sendo submetidos, como o processo de identificação com o agressor descrito por Ferenczi (2011).
Portanto, o filme coloca em destaque inimigos violentos da infância, homens, em sua maioria, que estão prontos para fazer o serviço sujo (Arantes, 2011) e que colaboram com a lógica perversa do capitalismo como única forma de sobrevivência. Quem parece não se dobrar aos ditames cruéis dessa engrenagem é Zain, que vai enfrentando os obstáculos com uma postura ética, responsável e de humanidade inabalável - uma responsabilidade para além dos ciclos de vida, um infante versado na ética do respeito ao outro em meio a tantas adversidades, que exercita a alteridade de uma política do semelhante, que se revela no cuidado da irmã e para com as crianças que o circundam. Zain não se identifica com o lugar de vítima: em vez disso ele luta com todas as forças contra aquilo que significa injustiça contra ele e contra seus irmãos e irmãs. Ele não se deixa seduzir pela posição de resto em que todos os discursos e condições sociais querem colocá-lo e luta por seu lugar de sujeito, contra tudo e contra todos, criando armas e artifícios com os objetos e símbolos que estão ao seu alcance.
O filme de Labaki, ao apresentar uma criança com esse senso de responsabilidade, essa vontade de mudar as condições que geram a desigualdade social, ao tentar se interpor às injustiças de gênero que atravessam a cultura de seu país, produziria algo no espectador: um despertar da responsabilidade de cada um de nós diante das nossas crianças, adolescentes e jovens que passam fome e estão em condições precárias de vida. Como também poderia produzir no espectador uma identificação com Zain a ponto de ele se perceber marcado pelo devir negro do mundo (Mbembe, 2018, p. 29). Cada um de nós, cada vez mais, nos sentimos estrangeiros em nosso próprio país. Assim, inspirados em Mbembe, poderíamos inverter o raciocínio de Zain de “todos nós nascemos pretos e vamos clareando a cor da nossa pele com o passar do tempo”, para “todos nós nascemos brancos, e no capitalismo tardio, vamos nos empretecendo, enegrecendo com o passar do tempo”. Nas palavras do filósofo camaronês:
Pela primeira vez na história humana, o substantivo negro deixa de remeter unicamente à condição atribuída aos povos de origem africana durante a época do primeiro capitalismo (predações de toda a espécie, destituição de qualquer possibilidade de autodeterminação e, acima de tudo, das duas matrizes do possível, que são o futuro e o tempo). A essa nova condição fungível e solúvel, à sua institucionalização enquanto padrão de vida e à sua generalização pelo mundo inteiro, chamamos o devir-negro do mundo. (Mbembe, 2018, p. 20, grifo do autor)
Essa ideia é introduzida por Mbembe para referir-se ao fato de que se a exploração social e sexual antes estava reservada, majoritariamente, à população negra; atualmente, com o avanço das forças políticas neoliberais, qualquer vida humana, independentemente de raça e localização geográfica, está sendo desvalorizada e transformada em resto e dejeto por não contribuir com a engrenagem capitalista. São os efeitos de uma necropolítica (Mbembe, 2019), cujos representantes decidem quem deve morrer e quem pode viver. Há que se desconstruir a própria engrenagem capitalista que sempre ofereceu raízes para esse tipo de dominação política. Nas palavras do autor:
Já não há trabalhadores propriamente ditos. Só existem nômades do trabalho. Se, ontem, o drama do sujeito era ser explorado pelo capital, a tragédia da multidão hoje é já não poder ser explorada de modo nenhum, é ser relegada a uma ‘humanidade supérflua’, entregue ao abandono, sem qualquer utilidade para o funcionamento do capital. (Mbembe, 2018, p. 16)
Um ponto importante do livro de Mbembe é afirmar que para que essa política da morte seja efetivada foi necessário o preenchimento de três funções essenciais da humanidade, na modernidade, concentradas no substantivo “negro”: atribuição, interiorização e subversão. Na primeira função está o processo de colocar algumas pessoas apartadas de toda a humanidade, o “elo da separação” (Mbembe, 2018, p. 92) entre o Eu e o outro, há o exercício do princípio de exterioridade por oposição ao princípio de inclusão. Para que essa operação tenha sentido, cabe destacar a segunda função: aquele que é considerado diferente necessita habitar essa distância que o coloca como sujeito que não participa da comunidade humana. Ou seja, ele aceita e habita o lugar do não humano, do sujeito de um à parte, segregado. A terceira função se refere à capacidade de o sujeito se rebelar contra essa lógica da atribuição e interiorização. Trata-se daqueles que apelaram para a sublevação, a deserção e a insurreição. Portanto,
Enquanto categoria histórica, o negro não existe, pois, fora destes três momentos que são o momento da atribuição, o momento da recuperação e interiorização e o da reversão e inversão - que, aliás, inaugura a plena e incondicional recuperação do estatuto de humanidade outrora rasurado pelo ferro e o açoite. (Mbembe, 2018, p. 93)
Podemos afirmar que Zain não interioriza e não se identifica como dejeto na sociedade capitalista, por meio de um gesto de sublevação se interpõe ao casamento da irmã, por meio de um ato violento ele tenta matar o homem que representa toda a engrenagem da exploração sexual de gênero em sua cultura, por meio da raiva e da violência ele se rebela contra o sistema que o oprime.
David e Vicentin (2021, p. 82), apresentam um estudo sobre racismo e saúde mental, no qual argumentam que a raiva e a violência podem ser a única forma do sujeito se sublevar contra humilhações que ele sofre no dia a dia, contra um olhar do outro que o coloca no lugar de dessemelhante e insiste em que ele habite um lugar à parte da comunidade humana. Nessa argumentação dos autores apresentam-se vários casos atendidos em um serviço de saúde mental articulados ao racismo. Cabe destacar a frase sobre o caso clínico de um dos adolescentes atendidos pela equipe: “Luiz, inicialmente, grita com angústia a sua própria condição. Ser negro, pobre e periférico em um país que privilegia brancos e as classes economicamente abastadas lhe deixa ‘louco’. Sua revolta lhe permitiu movimento…” (David & Vicentin, 2021, p. 82).
Túlio e o triste Brasil que não se responsabiliza por suas crianças
Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato
Em supervisão realizada por uma das autoras, escutando e discutindo casos com uma equipe que atua com populações cumprindo medidas socioeducativas, temos a narrativa de um caso que exporemos adiante.
Túlio cometeu infrações, ele é “aviãozinho” no tráfico de drogas e já esteve envolvido no roubo de carro e moto. Mora com a mãe e a avó alcoolistas, o tio esquizofrênico, o pai vive na praia e é usuário de crack e violento. A mãe conseguiu separar-se do pai e ir do litoral para São Paulo quando o filho lhe disse que o professor de educação física tentou abusar dele aos 9 anos de idade. Anteriormente, Túlio havia dito à mãe que ele vira o pai abusar da irmã; porém, naquela ocasião, a mãe, também vítima de violência por parte do pai, nada fizera. Mas o episódio envolvendo o professor fez com que ela rompesse a vida marcada por tantas violências. Em São Paulo, a situação na casa de Túlio não foi muito mais tranquila. A avó, muitas vezes, era amarrada na cadeira pela mãe, pois devido ao uso constante de álcool e a acessos incontroláveis de ira, ela pegava uma faca e ameaça matar o neto, a neta e a filha. Enfim, o caso e a vida de Túlio foram abrindo espaço para uma narrativa na qual se amplificam as condições dramáticas em novas situações sem saídas. É o avesso do mesmo lugar, do sangre negro retinto, do Brasil que não está no retrato.
Indaga-se aos técnicos do serviço de medidas socioeducativas: “Ao escutar Túlio, alguma vez, vocês já viram o olho dele brilhar?” Esta pergunta é um convite à equipe para que possa destacar na escuta do menino, algo que possibilite a ela própria sair da reprodução de uma narrativa de situações de violência e desamparo vividas por Túlio, permitindo, dessa forma, a abertura às brechas de sua fala. Brechas através das quais é possível, ainda que brevemente, a aparição do sujeito, de um desejo, de uma cena vivida e narrada não limitada ao drama do caso.
Segue-se um momento de silêncio e logo em seguida uma técnica diz: “Somente uma vez. Foi quando ele falou que a mãe encontrou um bloco de notinhas no qual ela registrava a venda de água”. A mãe, durante algum tempo, vendeu água em galões nas casas próximas à sua moradia e também nos faróis. Aqui, um lampejo, um projeto, um caminho: Projeto Água. Ou seja, incluir a mãe no cumprimento da medida socioeducativa, criando possibilidades para ela retomar o trabalho que, embora informal e precário, poderia indicar uma saída para os atos infracionais de Túlio.
Túlio é mais um menino que cumpre medida socioeducativa. Quando a medida socioeducativa passa a incluir a sua mãe, resgata-se a dimensão desejante de Túlio, uma vez que a escuta pode contemplar um fragmento de sua vida na qual houve a possibilidade da família não ser vista unicamente em sua dimensão violenta, vulnerável e carente. Quando a mãe trabalhava, vendendo água, a vida precarizada encontrou um sentido: renda, realização e possibilidade de aquisição de bens que não passassem por uma via ilegal, mesmo que na informalidade.
A cena narrada por Túlio, da mãe com o bloquinho de notas no qual registrava a venda da água, indicava que a medida socioeducativa, para ser efetiva, deveria ampliar-se para a inclusão da mãe, o que é raro nos serviços que atuam por essa via. As mães geralmente são incluídas nos chamados “grupo de familiares”. O Projeto Água visava não contar com a mãe somente enquanto familiar de Túlio, e sim resgatar o seu trabalho. Identificar o que aconteceu para que ela deixasse de trabalhar e que caminhos poderiam ser viabilizados pelo serviço de medida socioeducativa para que ela retomasse a atividade laborativa que propiciava a família dispensar Túlio da ilegalidade, visto que essa era a forma de obtenção de recursos financeiros. Túlio, ligado ao tráfico de drogas, na posição de objeto, ao narrar a cena com o brilho no olho pode ser compreendido na posição de sujeito.
Com esse exemplo singelo, buscamos situar as possibilidades que a inserção da escuta analítica pode produzir em uma supervisão, quando saímos do drama social e nos dirigimos à vida dos sujeitos, quando de algum modo podemos acessá-los, por um lampejo. O lampejo possibilita passar do circuito cristalizado e fixado da identificação imaginária e doentia do inexorável destino à reinvenção do presente. As políticas públicas, por meio do trabalho daqueles que as executam, devem ser capazes de se instituir como condição-suporte de processos de singularização do sujeito, promovendo uma torção do resto à causa. Nesse sentido, devem possibilitar que um relato, uma narrativa, uma experimentação se transforme em teorização viva de um campo e retire a realidade de sua condição fática, lançando-a em sua dimensão desejante.
O que a fala e a escuta testemunhal oferecem não é um discurso totalizador, não é um julgamento dos fatos, não é uma verdade inscrita no ordenamento jurídico; é o exercício de uma prática de linguagem em processo e, logo, é produção de um ato de fala que excede e ultrapassa qualquer formulação enunciativa. O testemunho mobiliza e causa estranheza, justamente porque sendo singular e íntimo, descreve, além do único da experiência vivida, também a cena social, o contexto histórico: a realidade psíquica mesclada na realidade factual.
O lampejo faz reverberar a clínica em distintos contextos sociais, não para resolver o caso social, mas para pôr em relevo o detalhe, aquilo que faz o olho brilhar, o fio que liga o sujeito ao desejo e à vida. A práxis psicanalítica é uma práxis democrática, é uma práxis que abre passagens para que o repetitivo do fenômeno, ao ser narrado, possibilite construir história a partir das memórias (Broide & Broide, 2016). O singular do sujeito Túlio está ligado à trajetória de sua família, que é próxima a tantas outras famílias brasileiras desde 1500, assim como se liga a Beirute, no Líbano.
O Projeto Água inclui Túlio, em cumprimento de medida socioeducativa, mas não isoladamente, e implica buscar o lampejo do sujeito que não se esgota nele mesmo, associa-se ao trabalho da mãe, que por sua vez foi acolhida por um serviço de medidas socioeducativas. O lampejo, embora singular, “o olho que brilha” dirige-se a um outro, não é sem o outro. Isso mostram Túlio e Zain. Diferentemente de um estudo sociológico, antropológico ou mesmo psicológico, a escuta psicanalítica nas situações sociais críticas emociona, redimensiona a ação do psicanalista, o lugar da palavra a subverte, institui o encontro.
O trabalho psicanalítico nas situações sociais críticas convoca a responsabilidade do analista frente à cultura e seu mal-estar diante do desamparo psíquico e social - que se apresenta nas formas mais comuns de sociabilidade, diante dos interrogantes que colocam desafios e desacomodações ao pensamento teórico, ao exercício clínico e à práxis psicanalítica. O psicanalista, frente às situações sociais críticas, coloca em relevo algo do inconsciente lá onde a precariedade e o drama da vida humana se apresentam e clamam - num apelo resistencial - pela economia do pensamento, pela burocratização dos gestos e pelo ensurdecimento dos ouvidos frente ao drama singular do sujeito em situação de vulnerabilidade.
Didi-Huberman (2011) tem uma expressão que nos auxilia a pensar a dimensão inconsciente na clínica e no poema: ele fala do “lampejo”; aponta para o fato de que uma experiência íntima, por mais subjetiva e ficcional que seja, pode aparecer como uma fagulha, tão logo encontre a justa forma de narrar e transmitir o vivido da experiência. A transmissão do vivido da experiência, que surge num lampejo, é matéria-prima da clínica psicanalítica.
Como refere Agamben (2009), pode-se dizer contemporâneo “aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (p. 62). E “pode dizer-se contemporâneo apenas quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade” (p. 63-64). Também
é aquele que percebe o escuro do seu tempo como algo que lhe concerne e não cessa de interpelá-lo, algo que, mais do que toda luz, dirige-se direta e singularmente a ele. Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo. (p. 64)
E consegue identificar o ponto de luz, o olho que brilha.
O direito de existir - uma questão de papéis em cenas nas quais a arte imita a vida
O movimento migratório de Zain, revelado no desfecho do filme, é resultado de seu processo de mal-estar e reconhecimento enquanto sujeito e não sujeito ao longo da narrativa. Zain apresenta, pela primeira vez, sua tentativa de ruptura com as leis de sua família ao ver-se desejante: ele quer ir para a escola, quer deslocar-se para outro lugar, quer confrontar os costumes de sua comunidade. No caso de Túlio, é a escola, por meio do ocorrido com o professor, que faz com que a mãe identifique a necessidade de auxiliá-lo a romper com uma série de violências às quais ele vinha sendo submetido, incluindo-se aí as que ele testemunhava em seu núcleo familiar, e permitir-lhe transitar, deslocar-se.
Ao considerarmos a família como a primeira representação de transmissão dos códigos culturais que constituirão o sujeito, será no contato com novos laços sociais que se viverá a dualidade de novas transmissões contrapondo-se a novos códigos, que poderão se opor ou não aos primeiros, trazendo a experiência da alteridade, o que é meu, o que sou eu e o que não é. Segundo Kaës (2012), “a cultura mantém a base indiferenciada das formações psíquicas necessárias ao engajamento nos laços de pertencimento a um conjunto social”1 (p. 47). É a experiência da alteridade desencadeante, que no caso de Zain lhe é apresentada ao observar os estudantes na Kombi escolar, crianças como ele, mas pertencentes a um lugar que ele não poderá acessar. A Zain é atribuído um papel em seu grupo familiar em que a escola não cabe, a não ser para considerar o suprimento de necessidades básicas alimentares de sua família, benefício dado a crianças que, naquele contexto, frequentam essa instituição. Nessa linha, vemos que as ações familiares seguem a premissa da sobrevivência: estratégias ilegais, como a obtenção de medicamentos controlados para revenda, ou culturais, como o casamento arranjado da irmã de Zain. A Kombi escolar é um território estrangeiro.
Zain, aos olhos do Estado, não existe, e essa constatação se dá para ele quando enfim provas de sua existência lhe são exigidas para que escape de seu próprio país no qual se sente um estrangeiro, desenraizado dos valores e normas que o circundam. Podemos aqui trazer também o pequeno Yonas, filho de Rahil, que mesmo nascido no Líbano, não podia ter sua existência revelada, dada a situação irregular de sua mãe no país. Todos indocumentados, sem papéis, sem identidade ou, como no caso de Rahil, portando um documento falso de outra mulher, o que a obrigava a dissimular uma pinta em seu rosto, como uma marca que a lembrava, sempre que se olhasse no espelho, que aquele reflexo não era ela. Eles estão impossibilitados de sair de onde estão, de se deslocarem. Ou seja, são sujeitos em condição de desenraizamento.
Para a psicanálise, o deslocamento e a condensação são dois mecanismos psíquicos inconscientes entrelaçados um ao outro. Eles estão presentes na formação dos sintomas, dos atos falhos e chistes e no trabalho do sonho. Rosa et al. (2009) aproximam esses mecanismos do processo das migrações forçadas, quando o sujeito busca se libertar de situações de opressão vividas em seu próprio país. Nesses casos, há um desejo de deslocamento territorial que implica um vagar sem rumo até que ele possa encontrar um território mais protegido, que possa também deslocá-lo psiquicamente a ponto de colocar em xeque as suas identificações imaginárias há muito cristalizadas e condensadas que o aprisionavam às situações de emergência. Para as autoras, nas migrações territoriais há atos de errância e nomadismo que podem ser considerados uma possibilidade de o sujeito estabelecer uma abertura radical, questionamento das relações de poder:
A migração territorial é processo que mobiliza e enlaça motivações sociais, políticas, econômicas e subjetivas - a relação com a nova terra e os novos laços terão as marcas desses processos. Essa condição tem a potência de relativizar toda relação fixa do sujeito com o poder de modo que o olhar do exilado, migrante ou refugiado pode, por sua exterioridade, ser perturbador para a cidade, gerando hostilidades e violências. Também pode assim abalar a identidade do sujeito, tomada aqui como a ficção de si mesmo. (Rosa et al., 2009, p. 499)
O desejo de deslocamento geográfico das personagens de Cafarnaum é concreto e territorial. Trata-se do afastamento de suas origens, ameaçantes à manutenção de suas existências, no imaginário de outro lugar onde poderão viver longe do que lhes provoca angústia. Rosa et al. (2009) acrescentam que “a dimensão trágica do migrante encena algo comum a todos, pois todos somos sujeitos exilados, desenraizados de nós mesmos, constituídos pelo desconhecimento enigmático da dimensão inconsciente” (p. 498). Zain depara-se com outros sujeitos que já fizeram esse movimento na figura de Rahil, uma migrante sem papéis e, assim, vivendo de maneira ilegal no Líbano, e da menina síria que encontra no mercado, que compartilhará seu desejo de partir para a Suécia onde, segundo ela, haveria um lugar reservado para refugiados, como uma espécie de terra prometida ou, ainda, na linguagem infantil pensada no encontro dessas duas personagens, um reino encantado onde todos terão casa, comida e serão iguais.
Dessa forma, Zain-personagem passa, ele também, a sonhar e se mobilizar para concretizar esse deslocamento migratório, assim como Zain, o menino-ator sírio, terá feito outrora. Será a partir desse vislumbre que o Zain fictício se dará conta de sua não existência: sem papéis, sem passaporte, sem possibilidade de se deslocar e, dessa forma, confrontado diretamente com outra existência que se torna para ele inaceitável: a imposta por seus pais que o fizeram nascer, como origem de suas angústias originais.
O ponto comum entre Zain, Rahil e a menina síria é a urgência por sobreviver. Ainda que o primeiro, enquanto personagem, tenha nascido no Líbano, ele vive à margem, assim como as demais. Rosa (2015, p. 97) exemplifica que “as pessoas que estão em situação irregular, não documentadas, são levadas a agir respondendo à urgência”, o que leva o sujeito a reagir, em vez de agir. Estratégias são criadas por conta dessa urgência: “seja numa emissão de documentos, em empregos precários, seja em casamentos arranjados ou em filhos gerados para legalização” (Rosa, 2015, p. 97). A falta de papéis torna-se um fator a evidenciar a vulnerabilidade e a impossibilidade de agir para Zain. Sem documentos, ele não pode estudar, não pode sair do país, não pode. Suas estratégias consistem em atos que o devolvem à ilegalidade: pequenos furtos de comida, reprodução de estratégias transmitidas por sua família, como a obtenção de um remédio controlado por meio de histórias criadas em torno de uma receita médica para posterior venda de seu subproduto para usuários de drogas e, por fim, a venda do pequeno Yonas ao traficante de humanos. Assim, o ser estrangeiro não se limita ao fato de haver um processo migratório em si, do ponto de vista do deslocamento de um país a outro, uma vez que esse processo se inicia num ponto anterior. A estrangeiridade aqui se dá por conta da exclusão vivida por Zain. Segundo Kristeva (1988), estrangeiro é
aquele que não faz parte do grupo, aquele que “não o é”, o outro [...]. O estrangeiro é o outro da família, do clã, da tribo. Ele se confunde em princípio com o inimigo. Exterior à minha religião também, ele poderia ter sido o descrente, o herege. Ele é nativo de outra terra, estrangeiro ao reino ou ao império. (p. 139)2
Assim, é possível compreender a presença de Zain como um estrangeiro ou, ainda, o que se descobre estrangeiro, ao dar-se conta de que seu grupo de origem não se inscreve em um espaço de pertencimento maior daquela terra. Suas vulnerabilidades, por conta disso, não se distinguem das sofridas por suas companheiras dessa jornada em busca de um lugar melhor, elas que já iniciaram suas trajetórias de deslocamento. Se a não concretude da migração ainda não surge para Zain ao longo do filme (o que se torna realizável apenas em seus minutos finais), vemos ali uma criança que inicia sua jornada migratória e de deslocamentos geográficos e psíquicos antes mesmo de sair de seu país, esse mesmo país que não o reconhece, deparando-se com territórios às vezes familiares, às vezes estranhos.
Não por acaso, aqueles que chegam ao país de Zain sem papéis passam eles também a sofrer as intercorrências advindas da existência ilegal. Tal constatação nos leva a refletir sobre a incidência da estrutura social já existente naqueles que ali chegam, exemplificada com o caso real de Túlio, também excluído e sofrendo a violação de seus direitos. A clínica do imigrante deve considerar, por isso mesmo, não apenas os sofrimentos advindos dos motivos que levaram à migração encontrados no país de origem ou do processo migratório em si, mas também levar em conta um laço social anterior ao deslocamento geográfico, que também já limitava as potencialidades do sujeito, e talvez seja esse um dos motivos que o lançaram à procura de outras paragens. Se no exílio, como dizem Maren e Marcelo Viñar (1992), “ninguém o conhece, ninguém o reconhece. Aquele que era eu não existe mais” (p. 71), essa experiência do não existir está marcada, seja na ficção de Zain, seja na realidade de Túlio, ao tentarem transitar por outros territórios, por um exílio imposto pela marginalidade, pelo não reconhecimento de um sujeito e por mecanismos que o reduzem a resto, sem direito de desejar.
Intervenções psicanalíticas diante de situações sociais críticas: o estrangeiro entre o universal e o singular
Como apresentamos a partir das situações de Zain e de Túlio, a condição de estrangeiro desponta nesses percursos de vida que se dão pelas margens do social e pelas bordas da possibilidade de acolhimento pelo discurso do Outro, com o deslocamento (psíquico, migratório, social, institucional etc.) operando não mais somente pela via da errância, mas do enlace. Tanto no exemplo fílmico de Zain, um exilado de sua condição de cidadão e de criança, quanto na situação psicossocial do caso Túlio, nascido e criado em meio ao desalento e à violência do Estado e do crime organizado, encontramos aquilo que Kristeva (1988) nomeia a imanência do estranho (estrangeiro) naquilo que chamamos de um universal - nos casos, um menino imigrante e um menino marginalizado e em situação de criminalidade, ambos encarnando com distinção duas figuras da infância contemporânea inseridos em situações sociais críticas.
Seguindo com Kristeva (1988), há no estranho que encontramos com os dois, estrangeiros do laço social, um decalque que remete a figuras que se tornam universais, figuras do desacolhimento, da falta de hospitalidade e do desencontro das possibilidades de existir. Para Kristeva (ibid), a produção de um ideal universal de humano - e de seus direitos - pelo Iluminismo apontaria para a própria noção de estrangeiro que nos é constituinte. Desse modo, sugere a psicanalista e linguista, o pacto (filosófico e jurídico, como encontramos em Kant e na sua ideia da paz perpétua) por um certo universal encontra na perspectiva freudiana a noção de estranho como uma possibilidade de dar relevo a diferentes lógicas e outras heterogeneidades.
Isso, contudo, nos deixa longe de resolver os impasses que encontramos, na racionalidade psicanalítica, de conjugar leituras singulares da subjetividade quando trabalhamos com conceitos e com uma epistemologia forjada no ensejo ao universal e à colonização. Com efeito, quando atuamos com vidas marginalizadas, entendemos o quanto os conceitos através dos quais nossos dispositivos são produzidos podem ser excludentes e invisibilizantes. Para pensar este tipo de paradoxo, Rosa (2002) propõe a noção de vidas secas, aquelas arrasadas material e psiquicamente e destituídas das possibilidades discursivas, de enunciação. Caberia ao psicanalista localizar e realocar certos elementos subjetivos e, por meio de sua escuta e de seu próprio olhar e sensibilidade para com o outro escutado, deslocar o lugar em que ele próprio se posiciona para com o sujeito. Tal operação constituiria o reconhecimento da dimensão sociopolítica do sofrimento. Avançando, o caso de Túlio e as problemáticas que surgem a partir do filme Cafarnaum apresentam e nos afetam com dois meninos que, figurando enquanto estrangeiros e exilados, impõem, cada um à sua maneira, formas de resistir e, assim, existir, mesmo que contestando seu lugar diante da Lei. Com isso, ambos resistem ao lutar para sobreviver emcondições de exílio, no desterro e tendo de responder pela transgressão.
A partir de Derrida (2003) e de suas proposições em torno da hospitalidade, é possível que nós nos reposicionemos, enquanto analistas, quanto àquilo que é evocado e problematizado nos dois casos (um fílmico, o outro clínico) que se enraízam neste escrito. Com efeito, a hospitalidade como operador conceitual serve para fazermos justiça às questões que nos são colocadas pelo estrangeiro, uma vez que este último, ou melhor, a encarnação dessa figura, a do estrangeiro, é quem contesta o(s) Nome(s)-do-Pai da cultura e da civilização. Como salienta Melman (2014), fenômenos como o deslocamento migratório, a colonização e a instituição da justiça impõem ao sujeito, em seus aspectos estruturais, um significante que substitui o significante primário do sujeito e de sua cultura, numa operação que para Melman é o que caracteriza a colonização, a da imposição de um Nome-do-Pai postiço. Porém, nos casos trabalhados, essa imposição se dá a partir de uma longa série de dessubjetivações e de impossibilidades enunciativas para o sujeito. Zain o faz por meio da contestação de seus próprios pais, os quais, humilhados e rebaixados, não oferecem possibilidades discursivas, protetivas e, assim, estruturantes. Ao encontrar uma imigrante ilegal e seu filho, ele escolhe fazer o seu próprio circuito para se subjetivar enquanto sujeito de desejo e de direito. Já Túlio pôde tentá-lo pela transgressão da Lei, deslocando-se territorial e psiquicamente como aviãozinho.
Como trabalhamos anteriormente a partir das ideias de Mbembe (2018), certos processos sociais em curso no neoliberalismo vêm universalizando uma condição subalternizada para os sujeitos e com cada vez menos recursos sociais, materiais e simbólicos. O devir negro proposto pelo filósofo camaronês passa a caracterizar uma linha de subjetivação e de inscrição do sujeito na cultura em que impera o exílio do laço social, certo desenraizamento como condição do sujeito na contemporaneidade. O estrangeiro desponta então enquanto uma verdadeira prega para o sujeito no social, no discurso do Outro e na própria experiência de si.
Aqui pensamos na possibilidade de atuação e de leitura de casos por parte de psicanalistas: a hospitalidade para com o estrangeiro que tanto denuncia a universalização de uma condição de exílio, quanto também pode subverter a estrangeiridade a partir de seu estranhamento. Para Zain e Túlio, é no ápice de sua condição de exílio que parece emergir, via algum tipo de escuta (seja da justiça, seja a de uma equipe de profissionais do campo psicossocial e de supervisão), uma contestação ou projeto que relocaliza a condição desejante ao obrigar o deslocamento do outro e do discurso do Outro. Por isso, nossa hipótese é de uma posição de escuta via hospitalidade, que se propõe a portar a palavra do outro no lugar de vetorializá-la à Lei de um Nome-do-Pai imposto - pois este acabaria por responder à ordem vigente do capitalismo avançado e da globalização que produz mais e mais formas de marginalização e exclusão.
Aqui encontramos a possibilidade de que a escuta clínico-política de situações sociais críticas, nas quais impera a condição de estrangeiridade e desenraizamento, seja uma operação de passagem entre uma condição universal de subjetivação do sujeito (o refugiado sem papéis, o imigrante ilegal, o jovem transgressor etc.) para uma condição singular. Isso implica, esperamos (com esperança…), um deslocamento a partir do sujeito-outro que acolhe, sendo hospitaleiro para um avesso que, desde o mesmo lugar e a partir da subversão, possa operar transformações de mundos e discursos. Foi isso que encontramos nos dois casos evocados e que dá pistas importantes para a atuação diante das modalidades de exclusão que encontramos no contemporâneo.














