A maternidade de crianças autistas tem sido abordada por diferentes perspectivas ao longo da história do autismo até os dias de hoje. O próprio Kanner, psiquiatra responsável por descrever o autismo como um quadro psicopatológico, apresentou em seus estudos diversas considerações acerca das mães e da relação com seus filhos. Como, por exemplo, no caso da família Triplett, em que Kanner estabeleceu uma troca por meio de cartas com Mary, mãe de Donald, uma das crianças apresentadas em seus estudos. Era uma relação de parceria entre o especialista e a mãe, que colaborou para que ele pudesse avançar nas suas pesquisas e chegar à conceituação do autismo, como uma psicopatologia diferente das esquizofrenias infantis (Donvan e Zucker, 2017).
Kanner (1943/2012) endereçou à Mary uma carta afirmando que não havia nada na literatura que pudesse descrever o que Donald apresentava. Ele mencionou o termo “distúrbio autista do contato afetivo” (p.50), baseando-se em Donald e em outras crianças as quais ele atendia. Este termo marcou a origem do quadro psicopatológico do autismo e se tornou título de uma das publicações científicas mais conhecidas sobre o tema “Os distúrbios autísticos de contato afetivo”, de Leo Kanner (1943/2012, p.111). Apesar disso, não havia resposta sobre a causa do autismo.
Contudo, Kanner (1943) havia mencionado que os pais das crianças que participaram de sua pesquisa eram “pouco afetuosos” (p. 250) e possuíam “interesse limitado em pessoas” (p. 250). Descreve que mesmo quando a relação entre os cônjuges era considerada satisfatória, o modo de se relacionarem era “frio e formal” (p.250). Ele articulou essas relações com o quadro autístico dos filhos, mas considerou difícil atribuir tais fatores como causa do autismo, pois muitos sinais são observáveis precocemente (Donvan e Zucker, 2017).
Os discursos de culpabilização dos pais ao diagnóstico de autismo começaram a ganhar destaque nas mídias estadunidenses na década de 1950. A metáfora da “geladeira” relativa a pouco afeto dos pais já existia e era difundida por especialistas da psiquiatria em revistas como a Time, ainda no ano de 1948. O foco dessa discussão foi se modificando com o passar dos anos e a metáfora da “geladeira” voltou-se exclusivamente às mães (Donvan e Zucker, 2017).
Um dos especialistas mais conhecidos por levar adiante tal pressuposto foi o psicanalista Bruno Bettelheim. Ele foi considerado o responsável por propagar a ideia de culpabilização das mães a partir de suas construções teóricas, em especial, “A fortaleza vazia”, de 1967. Ele ficou conhecido também por ter cunhado o termo “mãe geladeira” (Donvan e Zucker, 2017). Em um contexto histórico em que a psicanálise apresentava suas formulações acerca das falhas na maternagem, o discurso de que a etiologia do autismo estava relacionada à mãe ganhou destaque e pode ser considerada um mal-estar que reverbera até hoje no campo psicanalítico.
Os discursos de culpabilização dos pais, em especial, das mães, ao diagnóstico de autismo começaram a ganhar destaque nas mídias estadunidenses, foi por este viés que a temática autismo se popularizou. As instituições que atendiam os autistas também aderiram às hipóteses da época e passaram a intervir também nos aspectos da maternidade, na tentativa de substituir uma relação considerada problemática para uma que fosse mais saudável. De acordo com Donvan e Zucker (2017), nos Estados Unidos, especificamente em Nova York, na década de 1960, algumas mães se juntaram nos locais de tratamento dos filhos e movimentos de apoio e ativismo começaram a ser organizados, dentre eles, alguns nomes se destacaram como Ruth Sulivan1 e Bernard Rimland2.
Concomitantemente, as famílias começaram a buscar mais informações e alguns pais até se tornaram especialistas na área. Outras hipóteses também foram se desenvolvendo acerca da origem do autismo, como a da vacina MMR (SRC no Brasil) nos anos 2000, difundida por Andrew Wakfield3. (Donvan e Zucker, 2017).
Como visto, muita coisa mudou desde 1943, ano de publicação do artigo de Kanner, até os dias de hoje. Por exemplo, a transformação do termo desde sua classificação. O Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM), em suas edições iniciais, associava o autismo à psicose e sua classificação ainda contemplava os aspectos paradigmáticos do campo psicossocial. A partir do DSM-III (APA, 1980), o caráter biologicista, que se encontrava em alta, conferiu ao autismo um lugar diferente do que ocupava até o momento e passou a ser considerado Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD).
Já no DSM-IV (APA, 1995), o termo autismo foi substituído por Transtorno Invasivo do Desenvolvimento (TID). Em sua versão mais recente, de 2010, o DSM-V (APA, 2014) apresenta uma nova mudança classificatória, o Transtorno do Espectro Autista (TEA4), o que antes era uma parte, agora é o que confere o nome ao conjunto todo. Outra mudança significativa desde Kanner é o aumento do número de diagnósticos de autismo, mais conhecido, atualmente, como TEA. De acordo com o Center for Disease Control and Prevention (2023), conhecido pela sigla CDC, de 1 a cada 36 crianças de 8 anos recebeu o diagnóstico de autismo nos Estados Unidos, entre 2019 e 2020.
Mesmo com tantas mudanças, a psicanálise ainda permanece pagando uma dívida histórica no campo do autismo por ser considerada uma prática que culpabiliza as mães. Será que este estigma se justifica ainda nos dias de hoje? Tal indagação motivou a realização desta revisão sistemática de literatura, cujo objetivo foi saber como a maternidade de crianças diagnosticadas com autismo tem sido pensada nos últimos anos pela psicanálise lacaniana. E, assim, a partir dos resultados, identificar lacunas e outras problemáticas que podem servir de motivação para o desenvolvimento de novas pesquisas.
Método
O método utilizado foi o de revisão sistemática, cuja finalidade é aumentar o potencial de busca para obter o maior número de resultados relevantes de forma organizada. A escolha do método justifica-se por sua capacidade de demonstrar um panorama acerca do tema de interesse e favorecer a elaboração de novas pesquisas a partir das possíveis lacunas presentes no campo científico (Costa, Fontanari & Zoltowski, 2022). A estratégia de busca utilizada foi a TQO, proposta por Araújo (2020), estruturada a partir de três eixos: tema, qualificador e objeto - TQO. O tema representa o assunto principal da pesquisa; o qualificador, as características específicas; e o objeto refere-se à população, ao método ou ao procedimento.
A pergunta que se pretendeu responder por meio da revisão sistemática foi como a maternidade de crianças diagnosticadas com autismo tem sido pensada nos últimos anos pela psicanálise lacaniana. A partir desta questão norteadora, organizou-se a estratégia TQO. Partiu-se da primeira fase, denominada extração, tendo maternidade e mãe como tema; o qualificador referindo-se a autismo e Transtorno do Espectro Autista; e a Psicanálise como objeto.
A etapa de conversão e combinação foram utilizadas para a identificação dos vocabulários controlados, por meio dos descritores presentes no DECS e BVS combinados com a linguagem usual dos autores da área, seguidos da conversão para o inglês. Os descritores obtidos para o tema foram: Parenting Mother-Child Relations, Mothers, Parent Child Relations, Motherhood, Desire Of Mother, Subjectivity. Para as palavras extraídas do qualificador foram encontrados: Autistic Disorder, Autism Spectrum Disorder, Pervasive Developmental Disorders, Developmental Disabilities. E, por fim, no objeto: Psychoanalysis.
A quarta fase foi denominada de construção, por meio desta, os descritores mencionados foram organizados juntamente com os operadores booleanos e os caracteres especiais. O resultado da construção da estratégia foi: (Parenting OR “Mother-Child Relations” OR mothers OR “Parent Child Relations” OR Motherhood OR “Desire Of Mother” OR Subjectivity) AND (“Autistic Disorder” OR “Autism Spectrum Disorder” OR “Pervasive Developmental Disorders” OR “Developmental Disabilities” OR “Autistic Children” OR Autism) AND (Psychoanalysis).
Realizou-se a coleta de dados online no período de março a outubro de 2023. Para tanto, os bancos de dados utilizados para a busca foram ApaPsycnet, BVS-Saúde, IndexPsi, LILACS, PEPSIC, Periódicos CAPES e SCOPUS. Utilizou-se o recorte temporal de 2000 a 2023, pois, durante este período, notou-se crescente número de diagnósticos médicos de autismo. Para fins de comparação, de acordo com a CDC (2023), em 2000, a prevalência de diagnósticos era de 1 a cada 150 crianças, já em 2023, por meio da última pesquisa divulgada, 1 a cada 36 crianças de 8 anos foi diagnosticada com TEA nos Estados Unidos.
Após a primeira busca, foram selecionados os artigos segundo os critérios de inclusão e exclusão, portanto, somente artigos científicos publicados entre 2000 e 2023. Posteriormente, foi realizada a leitura dos títulos, dos resumos e das palavras-chaves, e excluídos os materiais repetidos. Os artigos selecionados foram lidos em sua totalidade, após a leitura, foram selecionados aqueles com referencial psicanalítico, especificamente os de Freud e Lacan. Foram excluídos os artigos de revisão, teses, dissertações e capítulos de livros.
Após finalizada a etapa de seleção dos artigos, os estudos que compõem o banco final de dados foram explorados de modo pormenorizado e analisados de acordo com os principais conteúdos apresentados em cada um deles.
Resultados e discussão
Tabela 1 Resultado dos processos de busca de artigos nas bases de dados
| Banco de dados | Artigos encontrados | Artigos científicos publicados entre 2000 e 2023 | Leitura dos títulos, resumos e palavras-chaves, e exclusão dos materiais repetidos | Artigos selecionados |
|---|---|---|---|---|
| APAPsycnet | 112 | 86 | 13 | 2 |
| BVS- Saúde | 6 | 6 | 1 | 0 |
| IndexPsi | 10 | 8 | 8 | 4 |
| LILACS | 15 | 15 | 6 | 2 |
| PEPSIC | 9 | 9 | 9 | 4 |
| Periódicos CAPES | 1457 | 1158 | 64 | 0 |
| SCOPUS | 98 | 61 | 12 | 0 |
A tabela, acima, apresenta os resultados do processo de busca e seleção dos artigos, conforme descritos anteriormente, até chegar à composição do banco final. A primeira busca teve um total de 1707 estudos. Após a primeira seleção, que se consistiu em filtrar apenas artigos científicos publicados no período de 2000 a 2023, chegou-se ao número de 1343. Em seguida, aplicados os critérios de inclusão e exclusão, bem como a leitura dos títulos, resumos e palavras-chaves, foram selecionados 112 artigos para a leitura total. Por fim, após a leitura completa de cada um deles, 12 artigos foram selecionados para a análise.
Os artigos que integram o banco de dados final foram explorados de modo pormenorizado. A tabela, a seguir, foi elaborada com o objetivo de apresentar o título, a data de publicação e os objetivos de cada um.
Tabela 2 Nome, data e objetivos dos artigos integrantes do banco final
| Nome dos artigos | Ano de publicação | Autores | Objetivos |
|---|---|---|---|
| A psicanálise e os impasses da constituição subjetiva | 2003 | Silveira, T. C. da. | Elucidar a partir da perspectiva psicanalítica os impasses no processo de constituição da subjetividade. |
| O atendimento psicanalítico do bebê com risco de autismo e de outras graves psicopatologias. Uma clínica da antecipação do sujeito | 2006 | Campanário, I. S. & Pinto, J. M. | Articular subsídios teórico-clínicos que sustentam a psicanálise aplicada a bebês em situação de risco psíquico. |
| A constituição do sujeito na psicanálise lacaniana: impasses na separação | 2007 | Bruder, M. C. R & Brauer, J. F. | Promover uma reflexão acerca da prática clínica por meio de uma pesquisa teórica sobre a constituição do sujeito na psicanálise lacaniana. |
| A história de alguns anos de pesquisa em detecção precoce de psicopatologias graves - PUC-SP | 2009 | Rabello, S.; Lopes, A. B. F.; Lacanna, F.; & Alencar, B. | Partilhar elementos da história da pesquisa em Detecção Precoce de Psicopatologias Graves. Conhecer e construir tais critérios para que possam ser utilizados por quaisquer profissionais. |
| O canto de sereia: considerações a respeito de uma incorporação frequente da voz materna | 2009 | Bentata, H. | Compreender os transtornos das crianças autistas, desde o início de seu desenvolvimento por meio da especificidade da pulsão invocante. |
| A escuta discursiva de mães de crianças autistas: o primeiro olhar sobre o filho | 2012 | Telles, C. M. A. | Investigar a produção de sentidos em um dado funcionamento discursivo, trazendo do passado um acontecimento pontuado numa cadeia significante. |
| Tratamento psicanalítico do bebê com risco de autismo: Uma clínica ao avesso? | 2013 | Campanário; I. S.; Vorcaro, A. M. R.; Pinto, J. M. | Subsidiar à clínica psicanalítica precoce com crianças, a partir de considerações sobre a chamada “psicanálise ao avesso”. |
| Quelle place pour les parents d’enfants autistes dans le soin ? Le dispositif Lugar de Vida au Brésil/Que lugar os pais de crianças autistas ocupam nos cuidados? O Sistema Lugar de Vida no Brasil | 2014 | Kupfer, M. C. M. e Lajonquière L. de. | Discutir os referenciais teóricos que fundamentam o funcionamento do Lugar de Vida na chamada Educação Terapêutica e o papel dos pais. |
| A criança entre a subjetividade dos pais e o ideal médico-científico | 2019 | Couto, D. P. do e Castro, J. E. de | Demonstrar a diferença entre o modo como é feita a intervenção psicanalítica com crianças e o ideal médico-científico. |
| O desejo da mãe a partir do diagnóstico de autismo. | 2019 | Oliveira, L. B. de | Compreender como o autismo interpela a mãe no exercício da maternidade, podendo incidir diretamente sobre o seu desejo e fragilizando a relação mãe e filho. |
| Estatuto do sujeito na clínica dos autismos | 2021 | Justo, R. S. de S. | Indicar a particularidade psicanalítica ao apostar no sujeito na clínica dos autistas. |
| Autismo: história de um quadro e o quadro de uma história | 2022 | Bialer e Voltolini | Elucidar alguns dos movimentos de tensão existentes na atualidade, que retratam a história de diversas maneiras de se narrar o autismo e que impactaram as modalidades distintas de tratamento e educação oferecidas aos autistas. |
De acordo com a tabela, é possível perceber que a maioria dos artigos apresentam logo em seus títulos palavras que se referem à psicanálise, constituição subjetiva, à clínica psicanalítica com bebês e detecção precoce, maternidade e autismo. Com a recorrência das palavras citadas anteriormente, presume-se que a busca de estudos acerca da temática da maternidade de filhos autistas, a partir do referencial psicanalítico, tenha cumprido seu propósito. Quanto aos objetivos extraídos dos artigos, nota-se que apenas dois deles se inclinam acerca da mãe e da construção da maternidade atravessada por aspectos subjetivos, enquanto a maioria expõe objetivos articulados aos tratamentos para autistas, a articulação entre teoria e prática clínica, e a função materna presente no conceito de constituição do sujeito.
Depois de selecionados, os artigos apresentados na tabela foram estudados de modo pormenorizado no intuito de responder à pergunta que norteia esta revisão: como a maternidade de crianças diagnosticadas com autismo tem sido pensada nos últimos anos pela psicanálise lacaniana? A apresentação da síntese foi organizada por meio de duas categorias de análise: “a função materna na constituição do sujeito” e “autismo e psicanálise: os impasses na constituição do sujeito”.
A função materna na constituição do sujeito
A primeira categoria de análise extraída dos artigos que compõem o banco final desta revisão sistemática de literatura foi “A função materna na constituição do sujeito”. O motivo pelo qual este tema tornou-se uma das categorias está associada ao fato de que o conceito de função materna no âmbito psicanalítico é imprescindível para que o humano se constitua subjetivamente. Por esta perspectiva, a psicanálise não parte do desenvolvimento infantil na especificidade da clínica com crianças, mas sim pela constituição do sujeito, que, de acordo com Lacan (1964/2003), ocorre por meio das operações denominadas de alienação e separação. O sujeito, portanto, não nasce, ele se constitui a partir da relação com o Outro. Neste sentido, o agente da função materna é a pessoa que dá corpo ao Outro e realiza tal função, fundamental na constituição do sujeito.
Nos artigos analisados, a função materna se destaca, principalmente atrelada ao processo de constituição do sujeito, visto sua significativa relevância teórica no campo da psicanálise. Foi possível constatar que tal conceito sobrepuja o arcabouço teórico e se faz presente na articulação com a prática clínica, como exposto nos artigos de Campanário e Pinto (2006); Bruder e Brauer (2007); Rabello, Lacanna e Alencar (2009); Campanário, Vorcaro e Pinto (2013); Kupfer e Lajonquière (2014); Couto e Castro (2019) e Justo (2021). De modo geral, este foi o percurso que os autores optaram para iniciar suas construções até avançarem em direção à especificidade da função materna em face ao diagnóstico de autismo dos filhos.
Ainda sobre a temática deste artigo de revisão, é imprescindível destacar que os autores não se referem à mulher ou aos pais biológicos, mas ao agente da função materna, como sendo o Outro encarnado, capaz de introduzir o bebê à ordem simbólica por meio da linguagem. Isto posto, nota-se que a maternidade e a paternidade são abordadas pela psicanálise enquanto funções a serviço da constituição de um sujeito. Sendo assim, os autores também utilizaram outros conceitos inerentes a esse processo, como alienação, separação e estádio do espelho.
Kupfer e Lajonquière (2014) consideram que os pais sempre fizeram parte do tratamento psicanalítico de crianças, mesmo diante das diversas formas de manejo, pois eles estão envolvidos de alguma maneira no que a criança apresenta como sintoma. Os autores mencionam que, ao longo da história da psicanálise, os pais, muitas vezes, por demandarem um lugar de escuta, passaram a ser alvos de interpretações equivocadas no tratamento dos filhos. O que justifica a aversão que muitas famílias apresentam ao tratamento psicanalítico ainda nos dias de hoje.
Como proposto por Telles (2012), a chegada de um bebê suscita a reedição de desejos e fantasias nos pais, que passam a rememorar as experiências de filhos, com os próprios pais. Ao ocupar-se desses lugares de mãe e pai na vida de um bebê que nasce em total situação de dependência, é de grande importância que eles possam se apropriar dessas novas funções para que um sujeito possa advir. Os cuidados que permeiam o corpo do bebê, realizados pelo agente materno, ultrapassam o puro orgânico e são capazes de promover a libidinização do corpo. Do lado daquele que se ocupa da função maternal, esta relação suscita demandas e desejos. “É a função materna que permite ao infans o acesso ao simbólico, por um trabalho de erogeneização deste organismo, se oferecendo com seu olhar como objeto simbolizável” (p. 70).
Para Couto e Castro (2019), é por meio das funções materna e paterna que a transmissão da castração torna-se possível. Os autores, apoiados em Lacan, compreendem que os pais, ou seja, aqueles que se encarregam de tais funções, só conseguem se colocar como sujeitos desejantes no processo de constituição do sujeito mediante a falta deles, enquanto sujeito, relativa à impossibilidade de completude.
Lacan (1969/2003, p.373) “destaca a irredutibilidade de uma transmissão” e pontua que a constituição subjetiva atravessa as satisfações das necessidades, “implicando a relação com um desejo que não seja anônimo”. Portanto, o agente da função é atravessado pela falta que o constitui enquanto sujeito, e isso ressoa nos cuidados com o filho, marcando um interesse particularizado por ele. Quanto ao pai, também enquanto função paterna, é como “vetor de uma encarnação da Lei no desejo” (p. 373). É por este viés que se detém o olhar para os pais na psicanálise, enquanto funções operantes na constituição subjetiva dos filhos.
Assim, Lacan (1964/2003) denomina de alienação a operação que o Outro, encarnado no agente da função materna, nomeia o mundo para o bebê por meio de seus próprios significantes. O bebê, por sua vez, toma-os para si, assujeitando-se a estes e ao desejo do Outro. A linguagem é a causação, ou seja, o ponto inaugural da constituição do sujeito, pois "o efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa de si mesmo, mas traz em si o germe que o cinde" (p. 849).
O processo de alienação referente à constituição do sujeito implica em um conflito entre ser e sentido, pois, ao alienar-se aos significantes do Outro, perde-se a dimensão de ser, relativo ao puro orgânico. Contudo, se este processo não ocorre, o que está em jogo é a perda do sentido e consequentemente o desaparecimento de um sujeito. Isso já foi apresentado pelo próprio Lacan (1964/1988) quando afirmou tratar-se de uma escolha forçada, pois em ambas as opções estão presentes a dimensão da perda. Ou seja, nem um, nem outro. Ele exemplifica com a frase “A bolsa ou a vida” (p. 201) - ao perder a bolsa, ganha-se a vida, contudo, ao perder a vida, perde-se também a bolsa.
Nesse sentido, para além dos cuidados com o corpo, relativos à sobrevivência, Bruder e Brauer (2007) consideram que a mãe ocupa o lugar de Outro e oferece significantes por meio de sua fala endereçada ao filho, cujo interesse é particular. Para que o humano possa falar, há a necessidade de uma articulação de ao menos dois significantes, compreende-se, portanto, que, neste primeiro momento, denominado alienação, a criança ainda não fala. Segundo Telles (2012), “a mãe oferece ao bebê sua imagem e seu desejo” (p. 72) como convocatória ao processo de alienação.
Portanto, é por meio das sensações que o bebê começa a construir suas primeiras representações psíquicas. Neste momento, também localiza-se o Significante Mestre, S1, ou seja, o bebê se faz representar pelo outro. Apoiados em Lacan, autores como Campanário e Pinto (2006); Bruder e Brauer (2007); Kupfer e Lajonquière (2014); Justo (2021) consideram que o sujeito aparece por meio da articulação de S1-S2. Ou seja, o sujeito é capturado pelo significante do Outro materno no qual está assujeitado à primazia do significante. Entende-se que o processo de alienação não é suficiente para que o sujeito possa advir, pois a criança encontra-se alienada ao desejo da mãe e submetida a um significante que a retira da condição de ser. É necessário que outro processo aconteça: a separação.
Para a psicanálise lacaniana, o sujeito do inconsciente só pode existir a partir da falta que é marcada por meio da operação de separação. Para Lacan (1966/1998, p.863), "a metáfora do pai como princípio de separação" indica à mãe a existência de desejos que vão além do filho e, assim, possibilita o corte que separa ambos. A ruptura com o desejo do Outro faz emergir a própria falta que serve de motor para a busca de uma satisfação, mesmo que parcial.
A partir desta perspectiva lacaniana de separação, Bruder e Brauer (2007) consideram que esta pode ser representada como uma intersecção localizada entre o sujeito e o Outro, entre o ser e o sentido. Na separação, o desejo da mãe convoca o sujeito e promove a possibilidade de abertura do inconsciente, onde se dá o corte dos significantes. Portanto, “o sujeito vê a si mesmo aparecer no campo do Outro, seu desejo é o desejo do Outro” (Bruder e Brauer, 2007, p. 519). Este corte origina a separação entre o sujeito e Outro e a saída da condição de alienação.
É a partir da própria falta que se constituirá o sujeito, “para que haja falta, o sujeito vai ser operado por dois significantes, possibilitando, com a separação, que caia um objeto inexistente e alucinado, a” (p. 519). O objeto a5 promove a busca de parte daquilo que se perdeu do ser ao submeter-se ao sentido do Outro e marca o que há de singular no sujeito pela via da especificidade de seu desejo (Bruder e Brauer, 2007).
Os mesmos autores consideram que a operação de separação baseada na intervenção da metáfora paterna como uma condição pode não oferecer uma solução para determinados casos e apostam na existência de outras versões da constituição subjetiva. Os autores defendem que esta perspectiva hegemônica da função paterna no que tange à separação possui um “viés conservador, paternalista” (p. 520). Reiteram que Lacan, ao abordar a função paterna no Seminário 5, já o fazia a partir da relação entre a criança e a mãe, considerando uma posição de sujeito.
Assim, os autores mencionados concluem que Lacan ancorou-se na topologia e não ao Nome-do-pai ou na metáfora paterna para referir-se à constituição do sujeito. Eles se diferem dos demais autores e explicam que são os comentadores que se dedicam ao estudo da psicose que “priorizam o simbólico, e cristalizam a interpretação da foraclusão do Nome-do-Pai - que então reaparece no real” (p. 520). Advertem que se corre o risco de criar uma concepção em que o simbólico seja melhor ou pior que o real e ou imaginário, desconsiderando o ensino de Lacan cujas três instâncias possuem o mesmo valor enquanto consistências de nodulação.
A partir das contribuições de Laznik acerca dos três tempos do circuito pulsional relativos à constituição do sujeito, Rabello, Lacanna e Alencar (2009) consideram o circuito pulsional o meio pelo qual a criança se constrói, atravessada pelo Outro. Os autores utilizam a pulsão oral para explicar os três tempos do circuito pulsional. O primeiro tempo é ativo, em que o bebê busca o seio ou mamadeira; o segundo é reflexivo, no qual o bebê chupa sua própria mão, chupeta ou outros substitutos que servem de objeto para uma satisfação alucinatória. E o terceiro tempo é ativamente passivo, pois o bebê se oferece ao outro como objeto de desejo. As cenas cotidianas entre mãe e bebê são exemplos do terceiro tempo, pois é possível observar o bebê oferecendo seu pezinho para ser mordido, beijado, acariciado por sua mãe, trata-se de um prazer compartilhado. Campanário e Pinto (2006) compactuam com as considerações acerca do circuito pulsional já mencionadas, e apontam a importância da participação ativa do bebê nessa dinâmica relacional, causando o desejo da mãe e sustentando-o, para que a subjetivação possa acontecer.
Quanto ao estádio do espelho, Silveira (2003) afirma ser a operação lógica constitutiva do Eu-especular, em que o infans antecipa a vivência de unificação corporal, mediada por um adulto, que pode vir a ser a mãe, a partir do reflexo de sua imagem no espelho. A mãe, representante do Outro para a criança, tem a função de reconhecer este corpo que passa a ser unificado. A partir desta identificação, abre-se a possibilidade de uma antecipação imaginária. É nesse ponto da constituição psíquica que Rabello et al. (2009), apoiados em Laznik, destacam peculiaridade da pulsão especular e consideram que o estádio do espelho na especificidade de quadros autísticos pode vir a não se constituir de modo conveniente.
Telles (2012) explica a organização do estádio do espelho e o divide em três momentos cujo objetivo final é a experiência de uma totalidade do corpo. No primeiro momento, o que predomina é a indiscriminação entre o infans e o outro; no segundo, já existe a distinção entre imagem e realidade, por exemplo, a imagem refletida no espelho já percebida como um outro não real. O terceiro momento caracteriza-se pela identificação primordial que ocorre quando a criança percebe que aquilo que vê no espelho é sua própria imagem. O que se produz com o estádio do espelho é da ordem do imaginário, trata-se de uma alienação dos infans à sua própria imagem.
De acordo com os autores citados, foi possível perceber que a função materna ocupa um lugar primordial na constituição psíquica, assim como a função paterna. Contudo, este percurso até aqui não abrange a especificidade do autismo, nem como a psicanálise concebe a função materna articulada a esta temática. Portanto, visando responder como a psicanálise concebe a maternidade em face ao diagnóstico de autismo do filho, tornou-se necessário abordar o encontro entre autismo e psicanálise, e o que os autores dos artigos que compõem este banco apresentam como impasse na constituição do sujeito.
Autismo e psicanálise
A constituição do sujeito apresentada até o momento não expõe a especificidade do autismo no campo psicanalítico. Observou-se que os artigos selecionados consideram que há um impasse na constituição do sujeito e abordam questões referentes à subjetividade do agente materno. Na tentativa de responder como a psicanálise vem concebendo a maternidade de filhos com o diagnóstico de autismo, cabe mencionar que, associada aos fatos históricos, a teoria psicanalítica acabou por ocupar um lugar de culpabilização da mãe quanto à etiologia do autismo, com desdobramentos e críticas obsoletas até nos dias atuais.
Kupfer e Lajonquière (2014), ao retomarem a história da psicanálise no que tange ao autismo, consideram que a acusação de culpabilização de mães se baseia na crença de que os psicanalistas atribuem a causa do autismo à frieza das mães, denominada de “mães geladeira”. Bruno Bettelheim foi o alvo das acusações e considerado o responsável pela propagação desta ideia. Os autores esclarecem que em muitas obras de Bettelheim ele postula que existem impasses na relação mãe-filho, o que não significa que exista uma relação causa e efeito para a etiologia do autismo.
Os autores se interrogam sobre a persistência das primeiras concepções de Bettelheim em detrimento de outras importantes considerações acerca do assunto e afirmam que se trata de uma “distorção política” (Kupfer e Lajonquière, 2014, p.13). Em seu artigo, os mesmos autores indicam que 1 a cada 55 crianças tinha o diagnóstico de autismo. Já as estatísticas mais recentes, de 2023, como já apresentada anteriormente, demonstram que nos Estados Unidos, 1 a cada 36 crianças de 8 anos recebeu o diagnóstico de autismo, mais conhecido, atualmente, como TEA (CDC, 2023). Tal aumento, como sugerem Kupfer e Lajonquière (2014), pode estar relacionado às modificações nos critérios diagnósticos, não se tratando, portanto, de uma “precisão científica” (p.13).
Telles (2012) aponta que o autismo se manifesta na mais tenra idade e os sinais são observados logo nos primeiros meses de vida a partir da “ausência de reciprocidade entre a mãe e seu bebê” (p. 68). Alguns fatores podem estar associados, como depressão puerperal, falta de resposta do bebê aos gestos da mãe, assim como comportamento indiferente a outras tentativas de contato. Quando se trata de autismo:
[...] é de consenso entre os teóricos que algo provocou um descompasso na relação mãe-filho afetando o desejo da mãe de com o seu olhar, libidinizar o corpo de seu filho, cortando a circulação imaginário-simbólico, que deveria estar presente desde o nascimento (…) É a libidinização do corpo, que se estabelece em termos de presença-ausência da mãe, o que garante a introdução do significante formando bordas erógenas no bebê. No autismo, a falha desta inscrição significante desencadeia uma não demarcação do corpo em bordas (p.74)..
A autora utilizou recortes dos dizeres de algumas mães de crianças autistas, acerca do primeiro olhar sobre o filho. A partir das análises dos relatos das mães, a autora constatou que há “condições necessárias para que um sujeito possa advir no universo da linguagem” (p.81). Telles (2012) apontou que “esses sujeitos mães foram afetados por situações adversas do nascimento, que dificultaram e impediram o estabelecimento favorável de um vínculo mãe-bebê, ficando impedidas de assumir legitimamente suas funções de (boas) cuidadoras desses filhos” (p.81).
Ao considerar o agente da função materna como um sujeito, Telles (2012) e Bruder e Brauer (2007) ampliam o olhar acerca da relação mãe-bebê e afastam-se da ideia obsoleta de culpabilização que ainda assombra a psicanálise nos dias atuais. Pois um sujeito carrega consigo as marcas de suas próprias experiências individuais e coletivas, atravessado por uma subjetividade constituída em determinada época, sociedade e cultura. Atuamente, o ideal médico-científico, de acordo com Couto e Castro (2019), pode incidir sobre a criança e ter influências na constituição do sujeito, pois os significantes impostos por este ideal à criança podem acabar reduzindo-a em alvo de intervenções. Deste modo, a família é atingida e pode ter o seu saber questionado pelo saber médico-científico, obstaculizando aspectos importantes deste processo de subjetivação.
Ao pensar na possibilidade do diagnóstico de autismo para a psicanálise, Rabello et al. (2009) e Bentata (2009) indicam que um marcador deve ser considerado: a ausência do terceiro tempo do circuito pulsional, em que o bebê percebe sua imagem no espelho e solicita ao Outro uma ratificação. É o júbilo à sua imagem do espelho que não ocorre, e que posteriormente será cobrada para que haja a percepção de uma unidade. Partindo desse pressuposto, o que parece estar em cena é a dinâmica da relação, pois, de um lado, temos o agente da função materna e, do outro, o bebê.
Já Telles (2012); Campanário, Vorcaro e Pinto (2013) e Justo (2021) consideram a hipótese de que no autismo a falha ocorre na alienação, visto que na psicose a falha é no processo de separação. Existe uma falha significativa na função paterna que resulta na não inscrição da falta, condição para que haja a constituição do sujeito. No que tange à cadeia significante, pode-se considerar que há S1, mas não há S2, dessa maneira, não há a inscrição de falta. “Os efeitos desse S1 sozinho são um grande peso carregado pelas palavras, já que não existe cadeia e mobilidade de sentidos” (Justo, 2021, p.74). Desse modo,
Ocorre nessas circunstâncias uma ausência do desejo da mãe, e se a mãe não deseja, nada demanda e não apresenta uma brecha onde possa a criança se embrenhar, onde possa oferecer algo de si. A presença do outro se estabelece fisicamente, mas não em termos simbólicos. A consequência dessa experiência é uma tentativa incessante de se excluir do universo circundante, por uma experiência maciça e aterradora do real. (Telles, 2012. p.75)
Campanário et al. (2013) pressupõem que o autismo pode advir como uma defesa ao risco de fragmentação do Outro. Ressaltam que esta ameaça se situa entre o tempo mítico zero e o narcisismo primário, onde se localiza uma não resposta ao outro semelhante. A distinção entre Autismo e Psicose se daria no segundo tempo, de compreender, em que se localiza a foraclusão do Nome-do-Pai e a possibilidade de uma estruturação psicótica. Os autores supõem que “no autismo um significante primordial pode ter efeito, e em lugar de chamar o sujeito a funcionar como tal, teria petrificado o que há ali de sujeito. Havendo ali apenas um, o primeiro significante, ele perde sua condição de necessária concatenação para se posicionar como signo (p.52).
Dessa maneira, Campanário e Pinto (2006) consideram importante o tratamento do Outro, este que pode se apresentar no agente da função materna. Explicam que por esta via cria-se a possibilidade de estabelecer ou reestabelecer o laço com o bebê. Uutilizando-se de três casos clínicos, os autores postulam que a clínica psicanalítica com bebês é uma antecipação do sujeito, uma aposta necessária para que, de fato, um sujeito possa advir.
Bruder e Brauer (2007) concebem “a hipótese de evitação da castração materna por meio da colagem, bem como a consideração do autismo com a possibilidade de uma transmissão do S1 em ato, ou seja, uma transmissão em que é silenciado o significante” (p. 520). Expõem a necessidade de ampliar o olhar acerca da criança e da mãe para que se possa fazer a leitura do traço significante que insiste em tentar se inscrever. Para os autores, as ações das crianças contemplam a dimensão da repetição e articula-se a algo do significante, que também se faz presente no discurso da mãe e confere abertura ao trabalho analítico.
Assim, Bruder e Brauer (2007) utilizam uma estratégia clínica que denominam de estrutura familiar, na qual o mesmo analista que atende a criança também atende a mãe ou pai de acordo com a especificidade do caso. Para eles, as crianças psicóticas, autistas ou deficientes, geralmente apresentam uma “ligação extremamente forte e indiferenciada com a mãe; usualmente não falam, configurando uma “colagem” entre a mãe e a criança.” (p. 514). “Colagem” não é um termo lacaniano, conforme os autores esclarecem: trata-se de um termo oriundo da prática, que surgiu por meio de um “paralelismo significante entre o que fazia a criança em sua sessão e o que dizia a mãe, no próprio atendimento.” (p. 514). Eles propõem um trabalho que visa “descolar” a criança desse lugar para que esta retome seu desenvolvimento a partir de um trabalho também realizado com a mãe.
Nessa perspectiva, Bruder e Brauer (2007) relacionam o trabalho clínico com as mães as quais atendem e a teoria exposta acerca da constituição do sujeito e, assim, consideram a existência de impasses na operação de separação. Mencionam que esse impasse pode ser exemplificado por meio dos sintomas físicos que algumas mães apresentam diante de determinados progressos no tratamento dos próprios filhos, como uma resposta não simbolizada e que denuncia algo de sua própria subjetividade.
A partir da prática clínica, os autores consideram que a criança parece estar detida nesse lugar de objeto, alienada entre o ser e o sentido na tentativa de preencher a falta do Outro materno com sua própria falta. Lugar do qual denominam de colagem, explicando que o S1 está presente, o que torna possível a intervenção a nível do significante, assim como na consistência do real no nó com o simbólico e o imaginário, apoiados na teoria de Lacan. Outra hipótese levantada pelos autores refere-se a uma falha na transmissão do S1, que promove também uma dificuldade na separação e no “não-acabamento da noção do Outro“, resultando na “colagem“, como citado anteriormente (p. 520).
Diferente da proposta dos autores acima, para Kupfer e Lajonquière (2014, p.15), “os pais devem fazer parte do tratamento dos filhos, mas não são eles, como sujeitos, que estão sendo tratados”. O que se deve trabalhar então é a cadeia significante, não as fantasias inconscientes dos pais, ou seja, o discurso deles sobre os filhos. Diante disso, como proposta de tratamento, consideram a Educação Terapêutica, uma educação que visa a construção narcísica no intuito de auxiliá-los na retomada da dialética dos investimentos libidinais, com isso, promover o reconhecimento do lugar deles enquanto pais e sua implicação na constituição do sujeito e na “construção ou reconstrução do narcisismo de seu filho” (p.15).
A educação, cuja finalidade é terapêutica, é concebida como transmissão de marcas simbólicas, ou seja, a história da criança narrada a partir do adulto que toma para si os seus cuidados. Kupfer e Lajonquière (2014) concluem que os pais possuem um papel importante no tratamento dos filhos. Eles reconhecem que a Educação Terapêutica proposta é um “desvio clínico no tratamento” (p. 20) psicanalítico de crianças autistas, mas se distingue de “técnicas para estimular ou reforçar os comportamentos dos seus filhos” (p. 21).
Oliveira (2019) foi o único autor a considerar a mulher e sua subjetividade na especificidade do autismo e da função materna. Ele explica que, diante do cenário atual, o desejo pela maternidade que articula o filho a uma idealização de ordem simbólica do falo já não ocupa o lugar de exclusividade, pois é notável que a mulher pode vir a se realizar por meio de outras escolhas. Diferentemente do que estava estruturado na época em que Freud esboçava o que viria a ser psicanálise. Diante da iminência do diagnóstico de autismo, o autor considera que as mães acabam assumindo maior participação no tratamento e acompanhamento do filho autista, assim como, na maioria das vezes, são elas que detectam os primeiros sinais.
Segundo Oliveira (2019), “o desejo materno se vê impossibilitado de realizar-se no autismo”. Uma vez que a criança autista não se sujeita a ser objeto do Outro” (p. 1292). Continua explicando que “o autismo entra na vida da mulher como uma importante contingência, podendo alterar o desejo da mãe sobre esse filho que recusa seu investimento libidinal, podendo fazer instaurar entre os dois um abismo. Esse abismo pode criar para a própria mãe um enigma sobre seu desejo” (p. 1294).
O autor expõe que “o desejo materno deverá encontrar lugar entre o filho idealizado e a criança real advinda do autismo, e certamente se modificará. Como para o autismo, faz-se necessária a compreensão de cada caso de maneira singular, a relação de desejo materno diante do autismo também necessita ser singular” (p. 1290). Oliveira (2019) ainda aponta que :
não cabe a afirmação de que toda mulher deseja ser mãe, tampouco de que a maternidade se torna impossível diante do diagnóstico de autismo. Pôde-se compreender que os desdobramentos do desejo constituem um processo singular, mas que encontrará, cada mãe à sua maneira, sua forma de fazer com essa situação. (p. 1296).
Portanto, as mães, assim como os autistas, só podem ser consideradas uma a uma. O desejo, por sua vez, não cessa, é movimento e em face ao diagnóstico de autismo do filho, cabe a cada mulher inventar seu próprio modo de ser em relação a si mesma e à maternidade. Assim, em seu artigo, o autor menciona livros escritos por mães de autistas e sugere a escrita como solução e invenção de ser mãe, feita no um a um.
Considerações finais
Os artigos selecionados possibilitaram uma compreensão sobre como a maternidade de crianças autistas tem sido pensada nos últimos anos na psicanálise lacaniana, visto que este era o objetivo desta revisão sistemática. A princípio, a maternidade comporta a dimensão conceitual da função materna, fundamental na constituição psíquica. No que se refere ao autismo, os artigos mostraram que diversos autores concordam com a concepção de que existem falhas no processo de constituição do sujeito, que se localizam ainda em tempos de alienação e separação.
Este dado aponta uma discussão ampla que existe no campo psicanalítico acerca da estruturação psíquica. Alguns autores seguem o pressuposto de que o autismo é uma quarta estrutura, ao lado da neurose, psicose e perversão. Outros teóricos da psicanálise postulam que o autismo pertence ao campo das psicoses.
Os artigos que integram esta revisão indicam que existem falhas na função materna nos quadros de autismo, principalmente no processo de alienação. Os autores se mostraram determinados a esclarecer que não se trata de uma culpabilização das mães quanto à etiologia do autismo, a partir de duas perspectivas. A primeira se concentra no fato de que função materna não é exclusiva da mulher ou da mãe biológica, mas da pessoa que se encarrega de tal função. E a segunda, parte-se da hipótese de que existam impasses subjetivos no sujeito do agente da função materna que podem obstaculizar a sua relação com o desejo e afetar o momento de subjetivação do infans.
É de grande importância, ainda atualmente, tais esclarecimentos acerca do mal-entendido que há na história da psicanálise em seu encontro com o autismo. Contudo, por meio dos artigos selecionados cujos autores optaram por ilustrações clínicas, a função materna enquanto fenômeno é exercida por uma mulher. Sabe-se que existe uma construção histórica, política e social acerca da mulher e do seu papel de mãe na sociedade, assim como uma história individual marcada por tais atravessamentos em si mesmas, como sujeitos.
Isto posto, surge uma problemática importante que parece se relacionar com a escassez do tema nos artigos sobre a subjetividade da mulher e seu papel de mãe, da qual os autores se referem em seus textos. Apesar de se localizarem distantes da ideia de culpabilização, o não lugar para subjetividade dessas mulheres parece denunciar um não lugar enquanto sujeitos. Como exposto na maior parte dos artigos, a função materna ocupa um lugar no tratamento dos próprios filhos.
Tais dados fomentam a problematização da mulher como principal cuidadora dos filhos nos dias de hoje e o modo como experienciam suas maternidades, cujas raízes encontram-se fincadas numa sociedade patriarcal e maternalista. Assim como o não aparecimento do lugar do pai, com tamanho destaque, em comparação ao da mãe, e a falta de discussões sobre a diversidade de gênero e de configurações familiares existentes na atualidade.
Diante disso, esta revisão expõe lacunas e outras problemáticas que podem servir de motivação para novas pesquisas, como a necessidade de um olhar para a subjetividade da mulher, esta que pode vir a se ocupar da função materna, se assim escolher, imprescindível na constituição do sujeito.













