SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28A atuação da psicologia hospitalar no manejo de doenças crônicas durante a hospitalizaçãoPsicologia e espiritualidade no cuidado ao paciente oncológico: revisão sistemática índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Servicios Personalizados

Articulo

Indicadores

Compartir


Revista da SBPH

versión impresa ISSN 1516-0858

Rev. SBPH vol.28  São Paulo  2025  Epub 12-Mayo-2025

https://doi.org/10.57167/rev-sbph.2025.v28.707 

Revisão sistemática de literatura

Saúde mental de cuidadores(as) de pacientes oncológicos: revisão sistemática

Mental health of caregivers of cancer patients: A systematic review

Luiz Augusto Souza BARBOSA, Concepção do estudo, coleta de dados, análise dos dados, redação do manuscrito1 
http://orcid.org/0000-0003-3780-4160; lattes: 6499366223340852

Maria Suely Alves COSTA, Concepção do estudo, análise dos dados, revisão crítica para conteúdo intelectual importante2 
http://orcid.org/0000-0002-3545-0613; lattes: 2185576054040094

Bruna Laise Abreu BEZERRA, revisão crítica para conteúdo intelectual importante1 
http://orcid.org/0000-0001-6631-9450; lattes: 0412602282720273

Allyson Albert MAIA, Concepção do estudo, revisão crítica para conteúdo intelectual importante3 
http://orcid.org/0000-0002-7472-746X; lattes: 5912772874818630

1Instituto do Câncer do Ceará - ICC. Fortaleza, CE, Brasil

2Universidade Federal do Ceará - UFC, Faculdade de Psicologia. Sobral, CE, Brasil

3Unimed Lar, Unimed Fortaleza. Fortaleza, CE, Brasil


Resumo

O adoecimento oncológico parte de um diagnóstico ameaçador de vida, assim, a adaptação e mudança familiares precisam se dar de forma fluida e com rapidez, principalmente quando o sujeito adoecido se encontra em cuidados paliativos. Além deste, os familiares podem sofrer com as alterações no cotidiano e com os impactos na saúde mental, através de sofrimento ou medos presentes, em especial naquele que recebe a função de cuidador informal. Deste modo, este trabalho objetiva analisar as produções científicas que versam sobre as condições de saúde mental dos cuidadores informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, entre os anos de 2013 e 2023. Das 412 produções recuperadas nas bases BVS, PePsic, LILACS, PubMed e SciELO, incluíram-se 14 artigos que contemplaram os critérios de elegibilidade. Os resultados apontaram para dimensões presentes nas vivências das cuidadoras informais com sofrimento intensificado com as especificidades dos cuidados paliativos. A discussão evidenciou as influências do gênero, sobrecarga e da mudança de papel familiar de forma abrupta após o adoecimento, o desconhecimento técnico pode ampliar o sofrimento existente. No entanto, a espiritualidade, o suporte sociofamiliar e o suporte multiprofissional apresentam-se como importantes para a minimização do sofrimento e a criação de estratégias de enfrentamento.

Palavras-chave: Cuidadores; Saúde mental; Psico-oncologia; Cuidados paliativos

Abstract

Oncological illness starts from a life-threatening diagnosis, thus, adaptation and family change need to take place fluidly and quickly, especially when the sick person is in palliative care. Besides this, family members may suffer from changes in daily life and the impacts on mental health, through suffering or fears present, especially in those who receive the function of informal caregiver. Thus, this work aims to analyze the scientific productions that deal with the mental health conditions of informal caregivers of cancer patients in palliative care, between 2011 and 2021. Among the 412 productions retrieved from BVS, PePsic, LILACS, PubMed e SciELO, 14 articles that met the eligibility criteria were included. The results pointed to dimensions present in the experiences of informal caregivers with intensified suffering with the specificities of palliative care. The discussion showed the influences of gender, overload and the abrupt change of family role after illness, technical ignorance can expand the existing suffering. However, spirituality, socio-family support and multiprofessional support present themselves as important for minimizing suffering and the creation of coping strategies.

Keywords: Caregivers; Mental health; Psycho-oncology; Palliative care

INTRODUÇÃO

O adoecimento oncológico parte de um diagnóstico ameaçador de vida, assim, muitas vezes, a adaptação e mudança familiar precisa se dar de forma fluida e com rapidez, modificando os papéis desempenhados pelo paciente e pelos demais familiares, em especial quando se trata de uma cuidadora familiar de referência do paciente oncológico que se encontra em cuidados paliativos (Carlos & Teixeira, 2023).

Por conseguinte, o diagnóstico e o tratamento centralizam, além do sujeito em adoecimento, os familiares e o ciclo social destes pacientes, afetando a dinâmica sociofamiliar, redistribuindo as funções, demandando novos papéis e criando novas vivências, convidando, abruptamente, para ressignificação de aspectos familiares antes consolidados e naturalizados. Estes familiares, durante esse novo processo muitas vezes abrupto, são definidas como cuidadoras responsáveis para os cuidados antes não existentes. Desse modo, o adoecimento oncológico não modifica o cotidiano apenas daquele que recebe o diagnóstico e tratamento, mas sim de todo o núcleo sociofamiliar, em especial aquela que recebe a função de cuidadora informal (Nogueira & Braúna, 2021; Silva et al., 2022).

No processo de cuidado de pacientes oncológicos as influências psicológicas, sociais e biológicas estão presentes, tanto para o próprio paciente como para as cuidadoras informais de referência. Segundo Delalibera et al. (2015), as cuidadoras informais são aquelas que não possuem treinamento técnico acerca dos processos de cuidado, sendo familiares, vizinhas ou amigas do sujeito adoecido, podendo-se ser escolhida de forma espontânea ou a partir da escolha dos demais familiares. Devido à complexidade do cuidar, o suporte oferecido pelas cuidadoras presentifica vivências relacionadas ao sofrimento emocional, fantasias em relação aos tratamentos, lutos, além da possibilidade de desenvolvimento de doenças psicossomáticas (Eugenio & Savaris, 2021).

Diante de um cenário no qual intervenções curativas não são o único objetivo, faz-se indispensável a abordagem dos cuidados paliativos. Segundo o Ministério da Saúde [MS] (2023, p.12) os cuidados paliativos podem ser compreendidos como uma abordagem multidisciplinar que busca a “melhora da qualidade de vida de pacientes (adultos e crianças) e famílias que enfrentam problemas associados a doenças que ameaçam a vida, prevenindo e aliviando o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor”, considerando, ademais, os contextos físicos, espirituais, emocionais e psicossociais dos sujeitos.

No entanto, mitos e fantasias ainda perduram em relação aos cuidados paliativos, sendo assim, medo, insegurança, negação e raiva podem ser sentimentos presentes ao receber a comunicação de cuidados paliativos, tanto experiências vivenciadas pelo paciente como pelos familiares. Deste modo, a saúde mental daquele que cuida é afetada diretamente por todos os aspectos supracitados e pela própria comunicação, podendo ser, pelo menos de forma inicial, um intensificador de sofrimento, sendo indispensável a exposição dos reais objetivos das equipes de cuidados paliativos (Marques Neto et al., 2020).

Identifica-se uma prevalência das discussões relacionadas à saúde mental das cuidadoras no âmbito domiciliar. Entende-se que, a partir das perspectivas dos cuidados paliativos de evitar hospitalizações desnecessárias e a importância da centralidade dos cuidados no contexto sociofamiliar, os cuidados paliativos domiciliares aparecem nos estudos como campo de pesquisa primordial para o entendimento da temática estudada. Por outro lado, os cuidados paliativos hospitalares também apresentam desafios, especialmente em relação ao acolhimento das cuidadoras neste ambiente que centraliza a doença em detrimento do sujeito adoecido e de suas cuidadoras (Dias et al., 2022).

Desse modo, compreender os impactos potenciais na cuidadora informal de pacientes oncológicos em cuidados paliativos corrobora com a possibilidade de criação de estratégias para o fortalecimento de aspectos protetivos, por exemplo. Salienta-se, como ponto crucial, o entendimento de saúde mental para além do modelo biomédico patologizante, que considera saúde mental como a simples ausência de doença ou pela presença de diagnóstico psiquiátrico; assim sendo, a operação do modelo biopsicossocial na realidade da saúde pública brasileira, o qual consiste na produção da saúde mental a partir de aspectos biológicos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, compreende o sujeito como integral no entendimento de saúde mental (Gaino et al., 2018).

Ademais, este trabalho justifica-se na busca pela compreensão dos aspectos envolvidos no processo do ser cuidadora nos tratamentos oncológicos para que ocorra a contribuição e atuação de psicólogas, enfermeiras, assistentes sociais, médicos e demais profissionais da saúde de forma contextualizada com as reais demandas e queixas que envolvem o sofrimento ao assumir o papel de cuidadora informal. Além disso, com o aumento da incidência de casos de neoplasias (MS, 2022), deve-se considerar o aumento das famílias marcadas pelo diagnóstico e tratamento oncológico.

Desse modo, temos como ponto de partida a seguinte pergunta norteadora: o que o conteúdo das produções científicas revela sobre as condições de saúde mental de cuidadoras/cuidadores informais no processo de cuidado de pacientes oncológicos em cuidados paliativos no Brasil? Desta forma, este trabalho possui como objetivo analisar as produções científicas que versam sobre as condições de saúde mental dos cuidadores informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos.

METODOLOGIA

O presente estudo possui como suporte metodológico as recomendações e indicações dos Principais Itens para Relatar Revisões Sistemáticas e Meta-análises (PRISMA) (Galvão et al., 2015).

TIPO DE PESQUISA

Apresenta-se um artigo de revisão sistemática cujo delineamento metodológico se enquadra no modelo qualitativo, sendo de natureza descritiva e exploratória. Objetiva-se, desse modo, a construção de uma abordagem ampliada que tenha foco no conteúdo das produções científicas para o entendimento das condições da saúde mental de cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos no Brasil.

MECANISMOS DE BUSCA

A partir do enquadramento e consolidação da temática, além da relevância da pergunta mobilizadora do presente estudo de revisão sistemática, desenvolveu-se as primeiras etapas de busca para a coleta dos dados. Sendo assim, o processo de busca foi realizado entre os meses de outubro e novembro do ano de 2023 a partir dos seguintes operadores booleanos e descritores: a) saúde mental AND cuidadores AND câncer, b) saúde mental AND família AND câncer, c) saúde mental AND cuidadores AND oncologia, d) saúde mental AND família AND oncologia; sendo as pesquisas realizadas nas bases de dados da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PEPsic), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed e Scientific Electronic Library (SciELO). A consulta nas bases de dados supracitados deu-se pela decisão prévia de produções científicas publicadas nos últimos dez anos no Brasil acerca da temática abordada, ou seja, artigos publicados entre os anos de 2013 a 2023.

CRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE E INELEGIBILIDADE

Como apresentado, foram elegíveis para este estudo artigos científicos originais publicados entre os anos de 2013 e 2023 sobre o tema saúde mental de cuidadoras informais de pacientes oncológicos adultos e/ou idosos em cuidados paliativos, sendo incluídos produções disponibilizadas de forma integral nos meios eletrônicos de pesquisas e no idioma português (Brasil).

Foram excluídas as produções científicas que versavam sobre pacientes pediátricos em cuidados paliativos oncológicos devido às complexidades e particularidades próprias deste público, além das produções que não abordavam os cuidados paliativos. Além disso, foram excluídas revisões de literatura, capítulos de livro, anais, construção/validação de instrumentos, teses, monografias e dissertações. Também foram consideradas inelegíveis produções que centralizam como informantes, exclusivamente, pacientes e/ou profissionais da saúde e que descreviam doenças não-oncológicas. Desta forma, acredita-se que o objeto de estudo será mais fundamentalmente alcançado.

SELEÇÃO E PROCESSOS DE COLETA DE DADOS

Para que ocorresse de forma precisa o alcance do objetivo proposto, buscou-se seguir etapas que respaldassem os achados e respeitassem os critérios estabelecidos, dessa forma, foram elencados e respeitados as seguintes fases de busca para a construção da revisão sistemática: (a) Fase 1: buscou-se estudos nas bases de dados supracitadas, dispondo como norteador os operadores booleanos, os descritores, o recorte temporal (2013-2023), idioma (português brasileiro) e o tipo da produção acadêmica (ou seja, artigo científico); (b) Fase 2: compilou-se todas as produções encontrados num mesmo banco de dados, elaborado pelos autores, e excluiu-se os estudos repetidos; (c) Fase 3: realizou-se a leitura e análise de todos os títulos dos artigos; (d) Fase 4: efetuou-se criteriosas e cuidadosas leituras dos resumos dos achados; e (e) Fase 5: empreendeu-se a leitura dos artigos na íntegra. Ao final das fases estabelecidas, a análise desta revisão sistemática foi concebida em 14 artigos científicos.

RESULTADOS

A partir de uma análise aprofundada dos estudos encontrados foi possível a discussão e elaboração de dados acerca das condições da saúde mental das cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, expressando, através de produções científicas, os conteúdos que estão presentes ao discutir sobre saúde mental neste público. Nota-se, através da coleta de dados e da análise, um expressivo número de trabalhos que abordam essa temática. O fluxograma (Figura 1) sintetiza as etapas de busca e inclusão dos achados.

Fonte: Elaborada pelos autores (2024).

Figura 1 Processo de coleta de dados nas bases de dados 

Compreende-se a importância e necessária apresentação do conteúdo geral dos 14 artigos presentes para a análise final desta revisão sistemática e têm-se a seguir a explanação dos seguintes dados: título, ano, autoria, objetivo do trabalho, metodologia, estado que foi realizada a intervenção e categoria profissional dos autores.

O trabalho de Oliveira et al. (2017) discute sobre a percepção do familiar/cuidador de pacientes com diagnóstico oncológico avançado em cuidados paliativos domiciliares. A pesquisa foi realizada em Pernambuco a partir da metodologia qualitativa, os autores são da área da enfermagem e medicina. Vale et al. (2019) objetivaram conhecer as necessidades de autocuidados de familiares cuidadores que são referência para o paciente em cuidados paliativos domiciliares, reiterando estratégias para a realizado do autocuidado, a pesquisa foi realizada através da metodologia qualitativa no estado do Pará e todas as autoras são da área da enfermagem.

Oliveira et al. (2015) utilizaram o Questionário de Avaliação do Bem-estar Global para analisar o bem-estar de cuidadores informais de pacientes oncológicos adultos em cuidados domiciliares, a pesquisa foi realizada no Paraná através de metodologia quantitativa e os autores são da área da enfermagem e educação física. Gayoso et al. (2018) verificaram a associação entre o nível de conforto do cuidador e as variáveis sociodemográficas presentes, incluindo a situação funcional e a presença de sintomas, utilizou-se metodologia quantitativa sendo realizada no estado de São Paulo, os autores possuem formação em enfermagem ou medicina.

Ribeiro et al. (2019) possuíram como objetivo a caracterização sociodemográfica e os hábitos do cuidador informal, além da descrição das atividades desenvolvidas, a pesquisa foi realizada em Minas Gerais utilizando a metodologia quantitativa e as autoras são da área da enfermagem. Corrêa et al. (2019) investigaram o perfil socioeconômico e de saúde do cuidador familiar de pacientes em cuidados paliativos hospitalares, a pesquisa foi realizada na região norte do Brasil utilizando pesquisa quantitativa, cujas autoras da área da enfermagem ou medicina.

Teixeira et al. (2022) objetivaram a avaliação do nível de sobrecarga e de sintomas depressivos de cuidadores informais, além da análise da dependência dos sujeitos adoecidos para atividades básicas ao utilizar instrumentais de vida diária dos idosos, a pesquisa foi realizada em Minas Gerais utilizando metodologia quantitativa, cujos pesquisadores eram da área da fisioterapia. Maffei et al. (2019) buscaram compreender as estratégias de coping de cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, utilizaram metodologia qualitativa e a aplicação ocorreu na região sul, as autoras eram da área da psicologia e enfermagem.

Lima et al. (2019) objetivaram descrever as vivências de cuidadores informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, analisando as implicações dos cuidados da enfermagem, a pesquisa não informou o local da intervenção e utilizou a metodologia qualitativa, todas as autoras são da área da enfermagem. Barbosa et al. (2020) buscaram compreender a experiência do cuidador informal dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos e nos cuidados de fim de vida, utilizou-se a metodologia qualitativa e a intervenção ocorreu na Paraíba, cujas autoras são das áreas da fisioterapia, enfermagem, medicina ou psicologia.

Oliveira et al. (2016) buscaram conhecer as representações sociais construídas pelos cuidadores informais de pacientes em cuidados de fim de vida no domicílio, sendo realizada pesquisa qualitativa no Rio Grande do Sul, as autoras são da área da enfermagem ou psicologia. Marchi et al. (2016) compreenderam o significado do ser-cuidador de um familiar em adoecimento oncológico e com níveis elevados de dependência para atividades diárias, realizou-se pesquisa qualitativa no Paraná, as autoras são da área da enfermagem.

Pinho et al. (2019) compreenderam as formas de ocupar-se dos cuidadores de referências de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, a pesquisa foi realizada na região norte utilizando a pesquisa qualitativa, as autoras são da área da terapia ocupacional e psicologia. Rocha et al. (2020) buscaram correlacionar o impacto da sobrecarga do cuidador na qualidade de vida do paciente em cuidados paliativos oncológicos, utilizou-se pesquisa quantitativa no Rio Grande do Sul, as autoras são da área da enfermagem, educação física e farmácia.

Verificou-se a equiparidade entre pesquisas qualitativas e quantitativas, enquanto estas foram a abordagem utilizada em seis artigos, aquelas estavam presentes em oito artigos, apresentando a variabilidade das pesquisas desta temática e da emergência da cuidadora como sujeito do processo de tratamento. Acerca da categoria profissional, o total de autores foi 67, distribuídos entre os 14 artigos, destes tiveram presentes as seguintes categorias: enfermagem (42), fisioterapia (7), psicologia (6), medicina (5), educação física (3), terapia ocupacional (3) e farmácia (1); nota-se o predomínio dos estudos sobre a saúde mental do público aqui estudado na área da enfermagem.

Apesar de um artigo (Lima et al., 2019) não especificar a localidade ou estado de execução da pesquisa, nota-se a prevalência do eixo Sul-Sudeste (=8 artigos) nas publicações acerca da temática de saúde mental das cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, totalizando 57% das publicações. Pontua-se, ademais, a presença de publicações do Nordeste (=2), Norte (=3), além disso, vale destacar a ausência de produções no centro-oeste no período pesquisado. Os estados que possuem achados são Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco e Paraíba; três trabalhos tiveram apenas a região identificada (1 no Sul e 2 no Norte), sem a definição do estado do estudo. Na Figura 2, a análise e distribuições geográficas das regiões das pesquisas identificadas apresentam a visualização organizada desta análise.

Fonte: Elaborada pelos autores (2024).

Figura 2 Distribuição dos artigos por região brasileira 

Ademais, a amostragem do estudo se deu no período de 10 anos (2013-2023), pelo qual observou-se a distribuição de achados em cada ano. Os aspectos quantitativos podem ser observados de forma gráfica (Figura 3), já os dados qualitativos serão explorados no tópico Discussão do presente artigo, a fim de aprofundar os debates acerca da temática pesquisada.

Fonte: Elaborada pelos autores (2024).

Figura 3 Distribuição dos artigos de acordo com o ano de publicação 

Em síntese, a partir da distribuição (Figura 3), é possível verificar a distribuição inconstante ao decorrer dos anos. Observa-se os seguintes quantitativos: o pico de seis produções encontradas no ano de 2019, dois artigos nos anos de 2016 e 2020, um artigo em 2015, 2017, 2018 e 2022 e 0 nenhum artigo encontrado em 2013, 2014, 2021 e 2023. Ressalta-se que a presente pesquisa foi realizada em 2023, o que pode influenciar o quantitativo encontrado neste ano. Salienta-se o entendimento dos impactos da pandemia nas produções científicas, já que o Coronavírus Disease de 2019 (Covid-19) centralizou, em grande parte, os estudos na área da saúde entre os anos de 2020-2022 devido sua urgência em saúde.

DISCUSSÃO

SOBRE OS LUTOS

Ao falar de adoecimento oncológico e cuidados paliativos, pensamentos, sensações e sentimentos relacionados à morte podem aparecer nas vivências do ser cuidador. Acerca disso, Oliveira et al. (2017) descreve que a possibilidade de morte do familiar a partir do agravamento do quadro clínico surge como um aspecto que pode interferir negativamente na saúde mental das cuidadoras. Em torno dessa problemática, Lima et al. (2019) infere que a própria palavra câncer é associada com o medo da morte por 66,6% dos entrevistados da sua pesquisa, reforça-se, assim, a relação entre finitude, oncologia e cuidados paliativos.

Acerca da finitude diversos pesquisadores e autores discorrem sobre sua definição, demonstrando o diverso e amplo interesse da ciência e cultura em relação a essa temática. A partir de diversas modificações nessa conceitualização, compreende-se, atualmente, o luto como uma forma de reação esperada a uma perda significativa que gera sofrimento emocional diante da perda do vínculo (Silva & Coutinho, 2022).

Salienta-se que a possibilidade de perda afeta as vivências e a saúde mental das cuidadoras familiares, Maffei et al. (2019) e Barbosa et al. (2020) explanam a dificuldade de construir planos futuros devido a aproximação da morte do familiar adoecido. Muitas vezes, segundo esses autores, ocorre a impossibilidade de construção de planos sem que a função de cuidadora esteja centralizada no cotidiano dessas famílias. Assim, enquanto alguns familiares vivem o luto antecipatório e realizam adaptações e planos, outros não possuem perspectivas de retornar a vida para além dessa função adquirida após o adoecimento do familiar amado.

Ademais, Barbosa et al. (2020) descrevem que, diante da proximidade da morte da pessoa cuidada, ocorre uma carga de estresse que amplifica o sofrimento tanto físicos como psicológicos das cuidadoras familiares, acarretando sobrecarga de acordo com a piora clínica do sujeito adoecido e a progressão da doença. Além disso, segundo o autor, podem ocorrer sentimentos intensos e mais presentes relacionados à culpa, tristeza e medo, podendo, muitas vezes, intensificar o sofrimento da família cuidadora.

Sobre isso, Barbosa et al. (2020), e Lima et al. (2019) e Maffei et al. (2019), discorrem sobre estratégias que possam minimizar ou prevenir o agravamento do sofrimento das cuidadoras de pacientes oncológicos em cuidados paliativos diante da possibilidade de morte. Lima et al. (2019) reitera que a partir do suporte multiprofissional e familiar haverá uma compreensão que converge ao entendimento da finitude humana e de suas vivências.

A atuação da equipe multiprofissional torna-se importante nesse cuidado através de preparação da perda iminente e de apoio profissional capacitado, contribuindo para que a vivência do luto antecipatório possa ocorrer com suporte adequado, Barbosa et al. (2020) pontua que a cuidadora que não recebe preparação prévia pode desenvolver quadros de culpa, depressão e não aceitação por períodos mais extensos do que aqueles que recebem preparação prévia da equipe multiprofissional.

A MUDANÇA DE PAPEL: DE FAMILIAR PARA CUIDADORA

Oliveira et al. (2017) e Ribeiro et al. (2019) trazem como ponto primordial a mudança de papéis e as novas funções adquiridas para que o cuidado seja realizado, funções, inclusive, que não dominavam anteriormente ao adoecimento do familiar e que desenvolveram, muitas vezes sozinhos, ao decorrer do processo de cuidado.

Além disso, Ribeiro et al. (2019) desenvolve que o despreparo técnico da familiar cuidadora de paciente oncológico em cuidados paliativos gera repercussões na vida afetiva e sociofamiliar do cuidador, ocorrendo especialmente devido às alterações no cotidiano devido ao adoecimento oncológico. Ademais, as alterações eram intensificadas devido o cuidado ser centralizado na cuidadora principal, sendo o restante dos familiares ausentes na contribuição para o desenvolvimento dessas novas habilidades, aumentando a sobrecarga.

Acresce-se que, muitas vezes, como afirma Lima et al. (2019) a cuidadora principal toma essa função não apenas por escolha afetiva e própria, mas sim por se sentirem obrigadas a ocuparem o papel de cuidadora devido à escolha dos restantes dos familiares. No entanto, como destaca Pinho et al. (2019), salienta-se compreender que assumir esse papel gera transformações na rotina, reforçando que “a vida do cuidador passou por uma reorganização dos afazeres, o que não foi algo fácil,” (Pinho et al., 2019, p. 124), sendo necessária uma reorganização de todas as atividades diárias, demandando da cuidadora estratégias para adaptação.

CUIDADORES OU CUIDADORAS? O IMPACTO DO GÊNERO AO ASSUMIR A FUNÇÃO DE CUIDADO

Além disso, compreende-se as questões de gênero para o entendimento das mudanças de papéis, especialmente a quem assume essa função. Nota-se que em todos os artigos selecionados existe um dado valioso para a compreensão das condições da saúde mental das cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos: a maioria das informantes são mulheres, sejam filhas, esposas, irmãs ou outros familiares, são as mulheres que aparecem na função de cuidadora.

Nesse sentido, a quantidade de participação feminina neste cuidado demonstra ser preponderante, as pesquisas apresentam como dado que, no mínimo, 55% das informantes são do sexo feminino (Teixeira et al., 2022), possuindo como porcentagens médias de 70-80% das entrevistadas (Barbosa et al., 2020; Corrêa et al., 2019; Gayoso et al., 2018; Lima et al., 2019; Oliveira et al., 2015; Oliveira et al., 2017; Pinho et al., 2019; Ribeiro et al., 2019; ).

Nota-se que esses dados revelam aspectos socioculturais importantes para a compreensão do processo de cuidado e das vivências relacionados a essa função, incluindo a própria expressão do sofrer. Desse modo, Teixeira et al. (2022) e Oliveira et al. (2016) debatem que esses achados se relacionam com a condição que associa o cuidado como tarefa estritamente feminina, sendo um ideal construído socialmente e historicamente, constituindo como um dos fatores predominantes na decisão de quem assume o cuidado familiar.

Ademais, Ribeiro et al. (2019) discorre que devido a maioria destas mulheres viverem relacionamentos conjugais entende-se que o crescimento de cobranças e necessidades de cuidados dos pacientes pode gerar e influenciar em sobrecarga biopsicoemocional, inclusive interferindo na relação conjugal.

Sobre o poder decisório Lima et al. (2019) aponta que por diversas vezes ocorre violência simbólica acerca da escolha da cuidadora, pontuando a presença de alegações dos demais familiares acerca da limitação dos homens no cuidado, condiciona-se, assim, que os revezamentos dos cuidados devem ser feitos apenas entre as mulheres ou, em alguns casos, o cuidado se torna responsabilidade da única filha mulher. Assim sendo Rocha et al. (2020) aponta que essas diversas questões culturais acarretam em maiores índices de sobrecarga em cuidadoras do sexo feminino.

Araujo et al. (2013) pontua que “a mulher sempre foi responsável pelo cuidado, seja da casa ou dos filhos, ou mesmo dos membros familiares adoecidos, enquanto o papel do homem era de trabalhar fora para garantir o provimento financeiro da família” (Araujo et al., 2013, p. 155). Deste modo, os papéis sociais pré-definidos acarretam, muitas vezes, na limitação da escolha de ser ou não cuidadora, ou, até mesmo, na sobrecarga no cuidado tido como esperado para o gênero feminino.

A AMBIVALÊNCIA DE SENTIMENTOS NO CUIDAR

Durante as vivências presentes no cuidar de pacientes oncológico em cuidados paliativos diversos esgotamentos podem ocorrer devido o cuidado, sejam desgastes físicos, econômicos, sociais e/ou emocionais, acarretando maior risco de desenvolvimento de adoecimento psicológico, como depressão (Oliveira et al., 2017). Para além disso, sentimentos e experiências classificadas como positivas para a cuidadora em relação ao sujeito cuidado podem estar presentes, apresentando a ambivalência no cuidar no âmbito oncológico e dos cuidados paliativos, variando entre mudanças negativas e experiências positivas (Oliveira et al., 2017).

Ademais, Vale et al. (2019) e Ribeiro et al. (2019) descrevem que as cuidadoras de pacientes oncológicos em cuidados paliativos trazem sentimentos de amor, compromisso, disposição e empenho como presentes no processo de cuidar, além disso, a relação integrativa entre cuidador-cuidado acarreta a cumplicidade durante o processo.

Acrescenta-se, segundo Oliveira et al. (2017), que a própria presença nos cuidados em domicílio, apesar dos inúmeros sentimentos presentes, acarreta o conforto da família por poderem executar os cuidados no lar e de forma familiar, assim, o acompanhamento, familiar e profissional, permite que sentimentos mais serenos também possam estar presentes. Além disso, Maffei et al. (2019) e Ribeiro et al. (2019) afirmam a potência em desenvolver a melhor forma de executar o papel de cuidadora mesmo com as vulnerabilidades presentes, sendo a história vivida entre familiar adoecido-cuidador um dos potencializadores para se manter ao lado do familiar.

No entanto, Vale et al. (2019) discorre sobre as dificuldades e sentimentos ambíguos que podem estar presentes no cuidado, em especial no domiciliar, a obrigação do cuidado gera uma função mais exaustiva durante o processo, podendo acarretar maior sobrecarga e que o processo de cuidar se torne uma atividade dolorosa. Além disso, o falecimento em domicílio pode gerar sentimento de culpa e responsabilidade na cuidadora por ser visto como a responsável pelos cuidados pelos demais familiares no lar.

A SOBRECARGA DA CUIDADORA DE PACIENTES ONCOLÓGICOS EM CUIDADOS PALIATIVOS

A sobrecarga das cuidadoras de pacientes oncológicos em cuidados paliativos surge como tema central nas discussões acerca da saúde mental dessas cuidadoras. Apresentam-se como temáticas recorrentes a responsabilidade solitária, o apoio fragmentado, a insegurança no cuidado técnico, o sofrimento do familiar adoecido e dos demais familiares, o abandono da rede de proteção social, a diminuição no lazer/atividade física que gera sofrimento e esgotamento físico e emocional, inclusive intensificando a ausência do autocuidado (Barbosa et al., 2020; Oliveira et al., 2017; Vale et al., 2019).

Assim, a atenção necessária e ininterrupta do familiar em adoecimento retira, quando não há apoio familiar e profissional, a possibilidade do autocuidado e da manutenção de atividades de lazer. Por conseguinte, a ausência do autocuidado gera sentimentos de tristeza, solidão, privação de sono e alimentação, abalo na autoestima, sobrecarga emocional e física, além do aparecimento de doenças psicossomáticas e a diminuição da qualidade de vida, especialmente em cuidados de fim de vida (Maffei et al., 2019; Marchi et al., 2016; Pinho et al., 2019; Teixeira et al., 2022; Vale et al., 2019).

Assim, a partir do desgaste de si e da centralidade do outro no cuidado o sofrimento psicológico torna-se presente entre essas cuidadoras, Teixeira et al. (2022) aponta que 45% das cuidadoras apresentam transtornos mentais, sejam sintomas de depressão leve ou moderada; Rocha et al. (2020) encontrou como dado que quanto maior for o catastrofismo da dor do paciente, maior será a sobrecarga da familiar cuidadora, além disso, seu estudo confirmou que 40% das cuidadoras apresentam sobrecarga severa. Com isso, o desenvolvimento de distúrbios de sono, somatização, transtorno de estresse pós-traumático, altos níveis de ansiedade e angústia surgem como entraves na estabilidade emocional dos cuidados de pacientes oncológicos em cuidados paliativos (Teixeira et al., 2022), ocorrendo, ainda, o uso de psicofármacos como forma de alívio dos sintomas (Maffei et al., 2019).

Ademais, considerando a perspectiva de análise da saúde mental a partir de preceitos biopsicossociais, o desemprego e/ou a necessidade de afastamento laboral afeta a qualidade de vida e a saúde mental destas cuidadoras gerando vulnerabilidades socioeconômicas que afetam diretamente os indicadores de saúde das cuidadoras e aumentam a sobrecarga (Lima et al., 2019; Ribeiro et al., 2019; Vale et al., 2019).

PROMOÇÃO DO CUIDADO EM SAÚDE MENTAL

Encontrou-se, a partir dos achados, que reforços para a manutenção e/ou criação de estratégias de enfrentamento se mostram indispensáveis para o suporte físico, emocional e espiritual, além da aquisição de informações técnicas oferecidas pela equipe de saúde para que possam sentir segurança na execução do cuidado (Oliveira et al., 2017). Segundo este autor, os apoios oferecidos podem contribuir para a minimização de efeitos adversos ao decorrer do tratamento, adoecimento e cuidado, promovendo a qualidade de vida e a preservação da saúde mental das cuidadoras.

Agrega-se, segundo Maffei et al. (2019), Oliveira et al. (2015), Ribeiro et al. (2019) e, que a espiritualidade e religião podem contribuir para a significação das mudanças ocasionados a partir do adoecimento do familiar e se tornar um fator positivo no processo de cuidar, assim, discutem, que o bem-estar e a preservação da saúde mental podem ser influenciadas pelos aspectos espirituais, contribuindo para o desenvolvimento de comportamentos relacionados à esperança, aceitação, enfrentamento do adoecimento e aquisição de perspectiva para o futuro.

Salienta-se que Lima et al. (2019, p. 933) reitera que “familiares cuidadores com forte religiosidade e espiritualidade apresentam melhor estado geral de bem-estar e menor incidência de ansiedade e depressão e mais confiança” contribuindo para a espiritualidade como mecanismo de enfrentamento e diminuição da ansiedade. A espiritualidade, dessa forma, apresenta-se como um importante recurso e se deve valorizar quando se mostra essencial para a cuidadora familiar, paciente e restante dos familiares.

A partir de Barbosa et al. (2020), Maffei et al. (2019) e entende-se que a espiritualidade e a religiosidade são relevantes para a manutenção da estabilidade emocional e nas vivências relacionadas à finitude daquele que é cuidado, assim, tratando-se de cuidadoras de pacientes em cuidados paliativos rezas, cultos e a espiritualidade vivenciada de forma individual ou coletiva aparecem como importantes estratégias de enfrentamento. Dito isso, Maffei et al. (2019, p. 294) discorre que “os indivíduos perante situações de dificuldades recorrem à espiritualidade como estratégia de enfrentamento e, por meio do sentido atribuído, podem passar por esse processo de uma forma menos dolorosa.

Além da espiritualidade, o suporte sociofamiliar se apresenta como um importante mecanismo de enfrentamento e adaptabilidade, sobre isso Gayoso et al. (2018) e Oliveira et al. (2015) discorrem que a presença de uma rede de apoio e suporte minimizam o sofrimento vivenciado pelas cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, possibilitando a facilitação do cuidado e o conforto neste processo.

Corrêa et al. (2019) e Maffei et al. (2019) alertam sobre os benefícios da divisão de tarefas e responsabilidades para a manutenção da saúde mental das cuidadoras informais, quando ocorre rodízio entre as cuidadoras o autocuidado é fortalecido e a redução da sobrecarga possibilitada, deste modo, o suporte social e familiar revelam como um aspecto fundamental ao se falar do cuidado com a cuidadora informal e da potencialidade da qualidade de vida destes sujeitos. Para Pinho (2019, p. 122):

Observou-se a necessidade destas pessoas sentirem-se confortadas e amparadas, seja por gestos, atitudes, orações ou coisas materiais. O sentimento de que não estão sozinhas nessas horas que tanto precisam, lhes dá força, incentivo e coragem. O apoio social é fundamental para os cuidadores sentirem-se confortados, há quem tenha os amigos e vizinhos como sua própria família, então é como se fosse, realmente, um suporte familiar.

Complementa-se como um dos fatores protetivos fundamentais o suporte da equipe de saúde que acompanha a cuidadora principal, a família e o sujeito adoecido, diversos autores trouxeram o acompanhamento humanizado e próximo entre cuidador-equipe como um dos fatores que auxiliam e desenvolvem o bem-estar da cuidadora, em especial no fortalecimento da segurança no processo de cuidado e na diminuição da distância entre os atores envolvidos no cuidado (Gayoso et al., 2018; Lima et al. 2019; Maffei et al., 2019; Oliveira et al., 2015; Vale et al., 2019).

Destaca-se que o papel da equipe multiprofissional dos cuidados paliativos ultrapassa a mera transmissão de informações sobre o quadro clínico, para além disso as cuidadoras esperam empatia, a criação da relação de cuidado e a presença humaniza destes profissionais, considerando a cuidadora como sujeitos centrais na execução do trabalho multiprofissional, a percepção de que possuem apoio e são sujeitos ativos apresentam relação com a manutenção da saúde mental e com o ideal de suporte esperado por esses familiares a seus aspectos emocionais, especialmente quando se relaciona ao processo de finitude do familiar adoecido (Lima et al. 2019; Marchi et al. 2016; Oliveira et al., 2017; Ribeiro et al., 2019; Vale et al. 2019;).

A partir disso, como cita Maffei et al. (2019), o suporte oferecido através de um contexto empático que possibilita a expressão do pensar e do sentir contribuem para que a cuidadora se sinta confortável para a expressão dos seus medos, fantasias, problemas familiares e dúvidas relacionadas ao quadro de saúde do familiar, sabendo que existe apoio dos profissionais da equipe multiprofissional em cuidados paliativos oncológicos.

Nota-se, desse modo, a necessária atenção que deve ser deslocada para as cuidadoras dos pacientes oncológicos em cuidados paliativos, apesar da importância da religião, espiritualidade e suporte familiar torna-se necessário nos responsabilizarmos no processo de cuidado desses sujeitos, sendo a equipe multiprofissional um diferencial mister para a promoção do bem-estar das cuidadoras informais (Silva & Petry, 2021).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo buscou investigar e compreender os conteúdos das produções acerca das condições da saúde mental de cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, dessa maneira, foi possível acessar diversos aspectos presentes no entendimento desta temática.

Verificou-se uma escassa produção no Brasil acerca das cuidadoras de adultos e idosos de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Entende-se, desse modo, a importância de mais estudos, em especial que possuam psicólogos como pesquisadores em saúde mental, devido ao domínio de enfermeiras e enfermeiros nas produções científicas, sabe-se que o psicólogo é um dos profissionais basilares nos cuidados paliativos, principalmente por sua expertise acerca da saúde mental.

Salienta-se a necessária atuação e produção científica nesta área de atuação, para além da assistência que é fundamental para os familiares. Ademais, pontua-se a importância da criação de estratégias e pesquisas que possam contribuir para uma atuação fidedigna com as necessidades das cuidadoras informais.

Agrega-se que foi identificado aspectos socioculturais como relevantes para se entender a saúde mental de cuidadoras, em especial o gênero, pois o domínio da tarefa de cuidar para as mulheres contribui para a sobrecarga e o sofrimento psicológico. Além disso, a própria mudança de papel, muitas vezes inesperada, gera responsabilidades antes não existentes com influência na qualidade de vida desses sujeitos. Assim sendo, os suportes técnico-profissional, sociofamiliar e espiritual possibilitam a diminuição da sobrecarga e do sofrimento biopsicossocial das cuidadoras, contribuindo para a manutenção da qualidade de vida relacionada à saúde mental.

Este trabalho contribuiu para o enriquecimento da temática pesquisada, gerando dados para o entendimento da importância do gênero, da família, da equipe multiprofissional, dos aspectos relacionados à finitude e a espiritualidade para uma atuação condizente com as vivências das cuidadoras informais de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Indica-se estudos que abarcam a vivência feminina no cuidar, as possibilidades de intervenções dos psicólogos neste público e estudos que contribuam para o entendimento e diferenciação do cuidar em domicílio e no hospital, acarretando no enriquecimento da temática de cuidadoras informais e cuidados paliativos.

Financiamento:Próprio.

Notas

1Optou-se, neste trabalho, utilizar o termo cuidadora devido as questões de gênero presentes na ocupação da função de cuidado, em diversas pesquisas são as mulheres que se tornam a maioria das informantes e entrevistadas (Nogueira & Braúna, 2021).

REFERÊNCIAS

Araujo, J. S., Vidal, G. M., Brito, F. N., Gonçalves, D. C. A., Leite, D. K. M., Dutra, C. D. T., & Pires, C. A. A. (2013). Perfil dos cuidadores e as dificuldades enfrentadas no cuidado ao idoso, em Ananindeua, PA. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 16(1), 149-158. https://doi.org/10.1590/S1809-98232013000100015. [ Links ]

Barbosa, R. P. S., Batista, J. B. V., Santos, B. M. P., Costa, M. I. A. L., Santos, M. S. D. L., & Fernandes, M. A. (2020). Paciente com câncer na fase final de vida em cuidados paliativos: vivência do cuidador familiar. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, 12, 696-702. https://doi.org/10.9789/2175-5361.rpcfo.v12.9455. [ Links ]

Carlos, C. A. L. V., & Teixeira, K. M. D. (2023). Diagnóstico e tratamento oncológico: reflexão acerca das mudanças na vida do paciente e de sua família. Boletim de Conjuntura (BOCA), 13(39), 473-490. https://doi.org/10.5281/zenodo.7786596. [ Links ]

Corrêa, A. R. S., Santana, M. E., Mendes, C. P., Costa, E. G. O., & Ximenes, W. L. O. (2019). Condição de saúde do cuidador do paciente em cuidados paliativos oncológicos. Revista de Enfermagem da UFPI, 8(3), 36-42. https://doi.org/10.26694/reufpi.v8i3. [ Links ]

Delalibera, M., Presa, J., Barbosa, A., & Leal, I. (2015). Sobrecarga no cuidar e suas repercussões nos cuidadores de pacientes em fim de vida: revisão sistemática da literatura. Ciência e Saúde Coletiva, 20(9), 2731-2747. https://doi.org/10.1590/1413-81232015209.09562014. [ Links ]

Dias, L. V., Oliveira, S. G., Bezerra, B. C. C., Schiller, G. S., & Fonseca, E. A. F. (2022). Cuidadores familiares de pacientes sob cuidados paliativos no domicílio e hospital: revisão integrativa. Salud, Arte y Cuidado, 15(2), 63-74. https://doi.org/10.5281/zenodo.7394991. [ Links ]

Eugenio, A. P. L., & Savaris, L. E. (2021). A vivência de cuidadores/as de doentes de câncer: impactos, desafios e estratégias de enfrentamento. Revista de Saúde Pública do Paraná, 4(3), 115-131. https://doi.org/10.32811/25954482-2021v4n3p115. [ Links ]

Gaino, L. V., Souza, J., Cirineu, C. T., & Tulimosky, T. D. (2018). O conceito de saúde mental para profissionais de saúde: um estudo transversal e qualitativo. SMAD, Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool e Drogas,14(2), 108-116. https://doi.org/10.11606/issn.1806-6976.smad.2018.149449. [ Links ]

Galvão, T. F., Pansani, T. D. S. A., & Harrad, D. (2015). Principais itens para relatar revisões sistemáticas e meta-análises: a recomendação PRISMA. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 24(2), 335-342. https://doi.org/10.5123/S1679-49742015000200017. [ Links ]

Gayoso, M. V., Avila, M. A. G., Silva, T. A., & Alencar, R. A. (2018). Avaliação do nível de conforto de cuidadores de pacientes com câncer em cuidados paliativos. Revista Latino-americana de Enfermagem, 26, e3029. https://doi.org/10.1590/1518-8345.2521.3029. [ Links ]

Lima, L. E. S, Santana M. E, Correa Júnior A. J. S, Vasconcelos E. V. (2019). Juntos resistimos, separados caímos: vivências de familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, 11(4), 931-931. https://doi.org/10.9789/2175-5361.2019.v11i4.931-936. [ Links ]

Maffei, B., Arrieira, I. C. O., Ferreira, R. A., & Cardoso, D. H. (2019). Estratégias de enfrentamento de cuidadores de pacientes em cuidados paliativos no domicílio. Psicologia: Teoria e Prática, 21(3), 282-302. https://doi.org/10.5935/1980-6906/psicologia.v21n3p303-322. [ Links ]

Marchi, J. A., Paula, C. C., Girardon-Perlini, N. M. O., & Sales, C. A. (2016). Significado de ser-cuidador de familiar com câncer e dependente: contribuições para a paliação. Texto & Contexto-Enfermagem, 25, e0760014. https://doi.org/10.1590/0104-07072016007600014. [ Links ]

Ministério da Saúde (BR). (2022). Estimativa 2023: incidência de câncer no Brasil. Instituto Nacional do Câncer. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2023.pdf. [ Links ]

Ministério da Saúde (BR). (2023). Manual de cuidados paliativos (2a ed. rev. ampl.). https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2023/manual-de-cuidados-paliativos-2a-edicao/view. [ Links ]

Marques Neto, A. C., Vale, J. M. M., Santos, L. M. S., & Santana, M. E. (2020). O enfrentamento dos familiares cuidadores de adoecidos em cuidados paliativos oncológicos domiciliares diante dos estressores do cuidado. Revista Eletrônica Acervo Saúde, 12(2), e2525. https://doi.org/10.25248/reas.e2525.2020. [ Links ]

Nogueira, J., & Braúna, M. (2021). Boas práticas internacionais e do Brasil de apoio ao cuidador familiar. EUROsocial. https://eurosocial.eu/wp-content/uploads/2022/02/Herramienta_80_Boas-praticas-internacionais-e-do-Brasil-de-cuidado-1.pdf. [ Links ]

Oliveira, M. B. P., Souza, N. R., Bushatsky, M., Dâmaso, B. F. R., Bezerra, D. M., & Brito, J. A. (2017). Atendimento domiciliar oncológico: percepção de familiares/cuidadores sobre cuidados paliativos. Escola Anna Nery, 21(2), e20170030. https://doi.org/10.5935/1414-8145.20170030. [ Links ]

Oliveira, S. G., Quintana, A. M., Denardin-Budó, M. L., Luce-Kruse, M. H., Garcia, R. P., Wünsch, S., & Sartor, S. F. (2016). Representações sociais do cuidado de doentes terminais no domicílio: o olhar do cuidador familiar. Aquichan, 16(3), 359-369. https://doi.org/10.5294/aqui.2016.16.3.7. [ Links ]

Oliveira, W. T., Sales, C. A., Fernandes, C. A. M., & Haddad, M. C. L. (2015). Avaliação do bem-estar de cuidadores familiares de adultos com neoplasia maligna no âmbito domiciliar. Revista Eletrônica de Enfermagem, 17(2), 340-349. https://doi.org/10.5216/ree.v17i2.28714. [ Links ]

Pinho, A. C. C., Silva, V. S. M., Souza, A. M., & Corrêa, V. A. C. (2019). Sobre a forma de ocupar-se de cuidar de pessoas sob cuidados paliativos. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 27(1), 118-126. https://doi.org/10.4322/2526-8910.ctoAO1654. [ Links ]

Ribeiro, E. M. H., Fava, S. M. C. L., & Terra, F. S. (2019). Caracterização dos cuidadores informais de pessoas em cuidados paliativos por câncer. Ciência, Cuidado e Saúde, 18(2), e45996. https://doi.org/10.4025/ciencuidsaude.v18i2.45996. [ Links ]

Rocha, E. M., Rocha, R. A. P. L., Machado, M. E., Souza, A., & Schuch, F. B. (2020). Sobrecarga do cuidador de pacientes oncológicos em cuidados paliativos. Revista de Enfermagem UFPE On line,14, e244165. https://doi.org/10.5205/1981-8963.2020.244165. [ Links ]

Silva, A. R., & Petry, S. (2021). As experiências de cuidadores informais de pacientes em tratamento oncológico paliativo: uma revisão integrativa. Ciência, cuidado e saúde, 20, e55978. https://doi.org/10.4025/cienccuidsaude.v20i0.55978. [ Links ]

Silva, R. S., & Coutinho, S. M. G. (2022). Percepção de luto e vivência de luto antecipatório de familiares em uma unidade de cuidados paliativos. Health Residencies Journal, 3(15), 224-240. https://doi.org/10.51723/hrj.v3i15.283. [ Links ]

Silva, P. B., Santos, M. F., & Valentim, N. S. (2022). Cuidados paliativos para o paciente oncológico: impacto psicológico no familiar cuidador Cuidados paliativos e o impacto psicológico no familiar. Revista de Atenção à Saúde, 20(71). https://doi.org/10.13037/2359-4330.8311. [ Links ]

Teixeira, L. A., Borges, M. C., Abreu, D. P. H., Ribeiro, K. B., Shimano, S. G. N., & Martins, L. J. P. (2022). Cuidadores de idosos em cuidados paliativos: nível de sobrecarga e sintomas depressivos. Fisioterapia em Movimento, 35, e35132. https://doi.org/10.1590/fm.2022.35132.0. [ Links ]

Vale, J. M. M., Marques Neto, A. C., Santos, L. M. S., & Santana, M. E. (2019). Autocuidado do cuidador de adoecidos em cuidados paliativos oncológicos domiciliares. Revista de Enfermagem UFPE Online, 13, e235923. https://doi.org/10.5205/1981-8963.2019.235923. [ Links ]

Recebido: 25 de Julho de 2024; Revisado: 28 de Outubro de 2024; Aceito: 07 de Novembro de 2024

Correspondência: Luiz Augusto Souza Barbosa luiz.28.augusto@gmail.com

Conflito de interesses:

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

Ficha técnica

Editor-chefe:

Marcus Vinícius Rezende Fagundes Netto

Editor assistente:

Layla Raquel Silva Gomes

Editor associado:

Mayla Cosmo

Secretaria editorial:

Monica Marchese

Coordenação editorial:

Andrea Hespanha (CRB/8-8151)

Consultoria e assessoria:

Oficina de Ideias

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.