INTRODUÇÃO
O termo “câncer” tem origem na palavra grega Karkinos (caranguejo), pois o tumor característico da doença tem formato semelhante ao de um caranguejo. Os primeiros registros da doença são datados em 1700 a.C., através dos papiros egípcios, neles afirmava-se que os tumores protuberantes, frios ao toque, eram incuráveis. Egípcios e gregos foram responsáveis pelas primeiras escrituras acerca dos tumores nos seios e do tratamento, na época já realizavam amputações e utilizavam como remédios os miolos de vaca e excremento de vespa (Instituto Nacional de Câncer [INCA], 2018).
O câncer é uma doença com crescente incidência nos últimos anos. No Brasil para o triênio de 2023 a 2025 as estimativas apontam que ocorrerão cerca de 704 mil novos casos da doença (INCA, 2022b). Atualmente, com os avanços da Ciência, sabe-se que câncer é o nome dado ao crescimento desordenado de células que sofrem uma mutação genética e passam a receber informações erradas para as suas atividades. Devido a isso, ao invadirem os tecidos e órgãos, estas células dividem-se e multiplicam-se rapidamente com tendência a serem muito agressivas e incontroláveis, o que leva à formação de tumores. De acordo com as variadas células corporais surgem os diversos tipos de câncer (INCA, 2022a).
Trata-se de uma doença que ainda carrega o estigma da morte, pelo fato de materializar uma ameaça à preservação do corpo físico, também por estar vinculada a experiências de sofrimento. Portanto, o diagnóstico da neoplasia pode ocasionar sentimentos de medo, incertezas e angústia (Alencar et al., 2021).
Diante desse cenário, psicólogos têm integrado as equipes multidisciplinares, proporcionando apoio psicossocial diante das fragilidades de pacientes (Alencar et al. 2021). Isto evidencia a importância de considerar não apenas a doença, mas o indivíduo em sua integralidade, visto que o câncer perpassa pelo real do corpo, podendo causar repercussões subjetivas (Simonetti, 2004).
Nesta perspectiva, destaca-se a psico-oncologia, como um campo de atuação que estabelece a interface entre a Psicologia e a Oncologia, voltando-se para as questões psicológicas envolvidas no adoecimento. A psico-oncologia visa intervir junto a pacientes acometidos pela neoplasia, familiares e equipes de cuidadores, no que diz respeito às questões subjetivas relacionadas com o diagnóstico, tratamento, a reabilitação, e em alguns casos, com a fase terminal da doença (Alencar et al., 2021). Da mesma forma, a presença de profissionais da Psicologia é obrigatória nas equipes de Serviços de Suporte em Centros de Atendimento Especializado em Oncologia, a partir da promulgação da Lei nº 3.535 de 02/09/1998. Este requisito passou a figurar como um dos critérios essenciais para o cadastramento de centros de atendimento em Oncologia junto ao Sistema Único de Saúde (SUS) no país (Ministério da Saúde [MS], 1998).
Considera-se que a atuação do profissional da Psicologia se fundamenta no cuidado aos aspectos psicológicos mobilizados pela doença e seus tratamentos (Alencar et al., 2021). Do mesmo modo, auxilia na transmissão do diagnóstico, por meio da mediação entre paciente, família e equipe multiprofissional. Também contribui para a melhoria da qualidade de vida (QV) de pacientes com câncer, atuando como facilitador no enfrentamento de eventos estressantes relacionados ao adoecimento e à gravidade da doença (Silva & Langaro, 2023).
Por meio da escuta, o psicólogo proporciona um espaço para o indivíduo expressar seus medos, desejos e sentimentos, restituindo-lhe a posição de sujeito (Simonetti, 2004). Além disso, auxilia na elaboração do luto decorrente das perdas advindas com a doença e dos sentimentos emergentes durante o processo de adoecimento (Silva & Langaro, 2023). Isso ajuda a atenuar sentimentos de ansiedade, angústia e medo relacionados às perdas. O atendimento psicológico deve oferecer acolhimento, suporte e construção de recursos de coping (Campos et al., 2021). O conceito de coping está presente na Psicologia da Saúde e em estudos sobre espiritualidade e saúde. O termo, originário do inglês, é traduzido para o português como “enfrentamento”. Nesse contexto, o coping espiritual/religioso (CER) refere-se ao uso de crenças e comportamentos relacionados à espiritualidade e/ou religiosidade para lidar com as situações estressantes (Foch et al., 2017).
Perante o adoecimento, muitos pacientes encontram-se em um momento de esvaziamento de sentidos. Neste contexto, a espiritualidade ligada à transcendência pode ajudar no enfrentamento, pois oferece respostas para além da esfera pessoal, auxiliando na compreensão e significação do processo de saúde-doença (Meira et al., 2023). Em vista disso, sabe-se que a assistência espiritual é um direito assegurado pela Lei nº 9.982/2000, a qual estabelece a prestação de assistência religiosa nas entidades hospitalares públicas e privadas, para dar atendimento religioso a pacientes e/ou familiares, desde que estes estejam de acordo (MS, 2000).
Destaca-se que embora utilizadas como sinônimos, espiritualidade e religiosidade, possuem significados distintos, sendo necessário distingui-las, para compreender melhor a sua expressão e função no universo psíquico. Religiosidade está ligada a um sistema de crenças, símbolos e rituais, que trazem explicações a respeito da vida e morte, e são propostas por determinada instituição religiosa (Meira et al., 2023). Enquanto, a espiritualidade é definida como uma característica individual pela busca humana em direção a um sentido, envolvendo reflexões sobre o significado e o propósito da vida, podendo ou não estar ligada a uma figura divina ou força superior. Também, está relacionada com a transcendência, isto é, a busca por significação (Kovács, 2007; Meira et al., 2023).
No que concerne à interlocução entre espiritualidade e religiosidade, está a fé, relacionada à força espiritual e a crença em um sentido maior (Kovács, 2007). Essa fé pode apresentar origem divina, levantando questões sobre o significado da religiosidade na experiência da espiritualidade, auxiliando no encontro de recursos para enfrentamento da doença devido às crenças ligadas a determinada religião. Do mesmo modo, há pacientes que desenvolvem suas próprias convicções a respeito da vida a partir de suas próprias construções individuais, contribuindo para a compreensão do que traz significado à vida de cada pessoa (Kovács, 2007).
Ao enfrentar o processo de adoecimento, o sujeito lida com diversas perdas decorrentes tanto da própria doença quanto do tratamento, vivenciado sentimentos de medo, tristeza e angústia. Diante disso, é essencial buscar estratégias de enfrentamento para oferecer suporte em momentos de fragilidade. Neste sentido, a espiritualidade pode ser um recurso significativo, pois proporciona um senso de controle que vai além do humano, servindo de apoio para que pacientes enfrentem esse momento de adversidades (Meira et al., 2023).
Desta forma, a fé oferece a pacientes suporte por meio da confiança para enfrentar esse momento. Além disso, possibilita uma estratégia para atravessar momentos difíceis da vida, como a doença e a morte (Meira et al., 2023). Na prática da Psicologia Hospitalar, é importante considerar os aspectos espirituais, pois, embora fé e Psicologia tenham distinções, ambas colaboram para que pacientes se confrontem com o real da “doença”. Seja ao impulsionar pacientes em direção a uma verdade maior e transcendente, como Deus, ou porque o profissional da Psicologia pode auxiliar no encontro do sujeito com seus desejos frente a experiência do adoecimento (Simonetti, 2004).
Diante do exposto, é fundamental investigar as abordagens teóricas adotadas por pesquisadores para analisar a relação entre espiritualidade e Oncologia. O objetivo deste estudo é realizar uma revisão sistemática da literatura existente sobre a produção científica acerca da relação entre espiritualidade e Oncologia, visando compreender se a espiritualidade proporciona benefícios a pacientes com câncer.
METODOLOGIA
Segundo Galvão e Ricarte (2019), a revisão sistemática segue protocolos específicos e busca responder a um problema de pesquisa, focando no caráter de reprodutibilidade por outros pesquisadores. Os trabalhos de revisão bibliográfica sistemática são originais porque utilizam dados da literatura sobre um assunto definido, e são realizados de forma metodologicamente rigorosa. Trata-se de uma pesquisa científica composta pela definição das estratégias para a seleção e avaliação crítica dos estudos, utilizando critérios de inclusão e exclusão de artigos, visando assegurar o rigor metodológico e científico do estudo.
Esta revisão sistemática foi realizada de acordo com as recomendações propostas pela metodologia Preferred Reporting Items For Systematic Reviews And Meta-Analyses (PRISMA). A abordagem do PRISMA possibilita o relato transparente e abrangente das revisões sistemáticas, garantindo a confiabilidade e a aplicabilidade dos resultados. Isso se deve ao seu enfoque no planejamento e na execução da pesquisa, assegurando que todas as informações recomendadas sejam capturadas. Para isso, a metodologia inclui listas de verificação, orientações detalhadas e diagramas de fluxo que auxiliam na coleta de dados e na apresentação dos resultados (Page et al., 2021).
Com base nisso, efetuou-se uma pesquisa bibliométrica para analisar produções científicas sobre a temática proposta por este estudo, foram elencados critérios de inclusão e exclusão dos artigos, com base nos objetivos da pesquisa. Como critérios de inclusão, foram considerados apenas artigos empíricos, revisados por pares, publicados no período de 2019 a 2024, que contemplassem manuscritos no idioma português e inglês, e que tratassem da espiritualidade em pacientes com câncer. De acordo com os critérios de exclusão, não fizeram parte da análise as pesquisas teóricas, monografias, teses, dissertações, estudos publicados em plataformas restritas, artigos duplicados em diferentes bases de dados e manuscritos com enfoque em crianças e adolescentes.
Os descritores empregados foram consultados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) - serviço de vocabulário estruturado baseado no Medical Subject Headings (MeSH) e foi utilizada a estratégia PICO: população, interesse, contexto. Os descritores utilizados na estratégia de busca foram: “espiritualidade” AND “oncologia” AND “psicologia”, em português e os respectivos termos em inglês. As bases de dados utilizadas foram: Biblioteca Virtual de Saúde em Psicologia (BVS-Psi); Base de dados da American Psychological Association (PsycInfo); Scientific Electronic Library Online (SciELO); Base de dados da editora Elsevier (ScienceDirect); e, SciVerse Scopus (Scopus). A escolha dessas bases deu-se a partir da relevância das suas publicações no assunto estudado.
O processo de seleção dos estudos ocorreu simultaneamente e independente, sendo que cada pesquisador seguiu as seguintes etapas: Etapa 1- Identificação dos estudos nas bases de dados por meio dos descritores no DeCs; Etapa 2 - Procura dos artigos: título das publicações e resumos foram analisados primeiramente para determinar se o estudo aborda o tema de interesse; Etapa 3 - Elegibilidade: os estudos foram avaliados pela leitura na íntegra para determinar sua adequação ao tema e se contemplava os critérios de elegibilidade, culminando na inclusão dos estudos. Por fim, foram apresentados e discutidos os resultados, e então realizadas as considerações finais levando-se em conta todos os achados desta pesquisa.
RESULTADOS
Após as buscas efetuadas nas bases de dados, inicialmente, foram identificados 221 estudos potencialmente relevantes para o estudo, com a eliminação de dois duplicados, restaram 219. Na fase de análise dos títulos e resumos, 50 artigos foram excluídos por não abordarem a temática, enquanto outros 86 estudos foram descartados por se tratarem de pesquisas teóricas, monografias, teses e dissertações. Outras 28 publicações estavam em plataforma restritas, não estando disponíveis em acesso aberto, nove eram protocolos de pesquisa e cinco tinham um público-alvo distinto. Como resultado, restaram 22 artigos elegíveis, dos quais 12 foram excluídos devido a não abordarem diretamente a relação entre espiritualidade e Oncologia. Portanto, a amostra final foi composta por dez artigos. O Fluxograma apresentado na Figura 1 detalha as etapas do processo de obtenção da amostra.
A Quadro 1 mostra uma síntese de alguns resultados dos artigos selecionados para esta revisão de literatura, sendo que em sua organização utilizaram-se os seguintes critérios: título, autores, país, ano, delineamento e principais resultados (Akuoko et al., 2022; Ata e Kiliç, 2022; Barata et al., 2022; Gudenkauf et al. 2019; Lebowa et al. 2023; Reis et al. 2020; Riklikienė, Kaselienė et al. 2020; Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. 2020; Velasco-Durantez et al., 2024; Yavuz e Koç, 2023).
Quadro 1 Características dos artigos empíricos sobre espiritualidade e Oncologia, publicados entre 2019 e 2024
| Título | Autoria (ano) | Delineamento | Principais resultados |
|---|---|---|---|
| Spirituality and Emotional Distress Among Lung Cancer Survivors | Gudenkauf et al. 2019. | Estudo longitudinal prospectivo. | O artigo traz que a espiritualidade atua como um fator de proteção para o sofrimento emocional entre os sobreviventes do câncer do pulmão. |
| Spiritual Wellbeing of Cancer Patients: What Health-Related Factors Matter? | Riklikienė, Kaselienė et al. 2020. | Estudo exploratório, transversal, descritivo e correlacional. | O bem-estar espiritual influencia positivamente o bem-estar emocional, refletindo na satisfação com a vida e felicidade, destacando a importância do cuidado espiritual na promoção do bem-estar emocional dos pacientes oncológicos. |
| Religiosity, spirituality, and the quality of life of patients with sequelae of head and neck cancer | Reis et al. 2020. | Estudo transversal. | A espiritualidade está diretamente relacionada à QV dos pacientes oncológicos e é influenciada por diversos fatores psicossociais. Isso ressalta a importância de intervenções de cuidado que sejam abrangentes, considerando o bem-estar espiritual. |
| Spiritual needs and their association with indicators of quality of life among non-terminally ill cancer patients: Cross-sectional survey | Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. 2020. | Estudo descritivo transversal. | Este estudo evidencia empiricamente as necessidades espirituais dos pacientes oncológicos na Lituânia, ressaltando a importância de abordar esses aspectos nos cuidados clínicos. |
| Correlation of spiritual well-being with hope and depression in oncology patients: The case of Turkey | Ata e Kiliç, 2022. | Estudo descritivo e relacional. | O artigo aponta que há redução do sentimento de depressão e desesperança à medida que o bem-estar espiritual aumenta, recebendo influência de fatores, como nível educacional, percepção da doença e estágio clínico. |
| Supportive care needs of women with advanced breast cancer in Ghana | Akuoko et al., 2022. | Estudo transversal exploratório. | O estudo expõe que as mulheres com câncer de mama em Gana, enfrentam necessidades espirituais, não sendo satisfeitas devido a dificuldades no acesso aos serviços, por isso a importância de avaliar as lacunas e oferecer cuidados às necessidades apresentadas. |
| Continua | |||
| Continuação | |||
| Spiritual well-being, distress and quality of life in Hispanic women diagnosed with cancer undergoing treatment with chemotherapy | Barata et al., 2022. | Análise secundária de um estudo clínico randomizado. | O bem-estar espiritual pode estar associado a menos sintomas de depressão e ansiedade, também, com a melhor QV relacionada aos aspectos emocionais, sociais e funcionais. |
| Religious attitude, spirituality and mental adjustment in Turkish geriatric oncology patients | Yavuz e Koç, 2023. | Estudo transversal e correlativo. | O estudo sugere que há correlação entre os níveis de bem-estar espiritual dos pacientes geriátricos oncológicos e as suas reações psicológicas ao câncer e atitudes de enfrentamento. |
| The Influence of Religiosity and Spirituality on the Quality of Life of Patients With Multiple Myeloma | Lebowa et al. 2023. | Estudo observacional transversal. | A religiosidade/ espiritualidade são fundamentais para a QVRS dos pacientes com Mieloma Múltiplo, inclusive atuando como estratégia para enfrentamento da doença. |
| Prospective study of predictors for anxiety, depression, and somatization in a sample of 1807 cancer patients | Velasco-Durantez et al., 2024. | Estudo prospectivo, observacional e consecutivo. | A espiritualidade atua como fator de proteção e recurso para enfrentamento do sofrimento psicológico, associada ao bem-estar mental e a menores índices de ansiedade, depressão e somatização. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Quanto ao ano de publicação, é possível verificar na Figura 2, que os estudos sobre a relação entre espiritualidade e oncologia, foram publicados em sua maioria no ano de 2020, contando com três artigos. Os anos de 2022 e 2023 contaram com duas publicações cada. Enquanto, em 2019, 2021 e 2024, identificou-se um artigo em cada ano, assim totalizando dez artigos.

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Figura 2 Gráfico de demonstração dos estudos encontrados nos últimos cinco anos (2019-2024)
Em relação a área de concentração dos artigos, verificou-se a maior prevalência em periódicos na área da Psicologia, com três artigos. As revistas de Enfermagem e Medicina contaram com duas publicações cada, a Psiquiatria, Odontologia e multiprofissional contribuíram cada uma com um artigo (Figura 3).

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Figura 3 Gráfico de demonstração da área de concentração dos estudos publicados nos últimos cinco anos (2019-2024)
A Figura 4 mostra que, quanto ao país de origem dos artigos publicados, os Estados Unidos da América (EUA), Lituânia e Turquia lideram com duas publicações cada. Além disso, Brasil, Espanha, Gana e Polônia contribuíram com um artigo cada. No que se refere ao idioma, a maioria dos estudos foi publicada em língua inglesa.

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).
Figura 4 Gráfico de demonstração da concentração de estudos de acordo com os países
No que refere à formação profissional dos autores, a Enfermagem apresenta o maior número, com cinco artigos. Psicólogos são responsáveis por quatro publicações, sendo dois destes em colaboração com médicos, resultando em duas publicações na área da Medicina, profissionais da Odontologia contribuíram com a escrita de um artigo.
Gudenkauf et al. (2019) demonstram que a espiritualidade está associada a um menor sofrimento emocional, atuando como um fator de proteção. Pacientes com câncer de pulmão enfrentam um alto grau de sofrimento e dificuldades emocionais, o que impacta negativamente sua QV, o estudo aponta que a espiritualidade está associada a uma melhoria na QV geral, proporcionando um sentido à existência e servindo como um recurso para lidar com o sofrimento. Isso revela a importância de rastreamento e avaliação do nível de espiritualidade de pacientes, o que pode trazer benefícios significativos. Além disso, a Psicoterapia centrada no significado também foi demonstrada como uma forma eficaz de melhorar o bem-estar psicológico em pacientes com câncer.
Riklikienė, Kaselienė et al. (2020) apontam que a forma como as pessoas enfrentam o câncer está ligada às relações consigo mesmas e com as outras a sua volta, incluindo a dimensão espiritual. Nesse sentido, o bem-estar espiritual tem sido abordado em diferentes contextos de saúde, sendo associado a vários fatores relacionados com a saúde. Fatores como nível de educação, condição física, experiência de dor, perda ou manutenção da autonomia influenciam diretamente o bem-estar espiritual. A espiritualidade exerce influência sobre o bem-estar emocional, ressaltando a importância do cuidado espiritual na promoção do bem-estar emocional de pacientes com câncer.
Segundo Reis et al. (2020) a espiritualidade mostra-se estritamente relacionada à QV de pacientes com câncer. A pesquisa verificou que pacientes com maiores escores de espiritualidade e religiosidade tendem a apresentar melhores níveis de QV. Esse resultado confirma a correlação entre espiritualidade/religiosidade e os aspectos relativos à saúde. Compreende-se que a espiritualidade atua como um recurso para enfrentamento da doença, isto porque, proporciona alívio do estresse e atenuação do sofrimento. O estudo sugere que os fatores psicossociais repercutem na QV de pacientes com câncer de cabeça e pescoço, destacando a necessidade de intervenções de cuidado abrangentes e adaptadas a esses pacientes, considerando seu bem-estar espiritual.
O estudo de Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. (2020) evidencia as necessidades espirituais de pacientes com câncer na Lituânia, reconhecendo que nem sempre é possível atendê-las completamente, porém ressaltando a importância de abordar esses aspectos nos cuidados clínicos. Em vários casos, as necessidades de pacientes, correlacionam-se com aspectos relacionados à saúde, como ansiedade, depressão, desesperança e baixa satisfação com a vida. Portanto, a espiritualidade é uma dimensão adicional da QV e do bem-estar, exigindo a atenção de profissionais de saúde para garantir o manejo adequado nos cuidados clínicos, visando melhorar as necessidades espirituais de pacientes.
De acordo com Ata e Kiliç (2022) na medida em que o bem-estar espiritual aumenta, observa-se uma redução nos sentimentos de depressão e desesperança, influenciada por fatores como nível educacional, percepção da doença e estágio clínico. Um alto nível de bem-estar espiritual está correlacionado com o bem-estar psicológico e a diminuição do estresse, refletindo na melhoria da QV e na capacidade de compreensão da doença. Dessa forma, pacientes com câncer recorrem aos recursos espirituais para enfrentar seu adoecimento.
Akuoko et al. (2022) apontam que as mulheres com câncer de mama, em Gana, enfrentam necessidades espirituais que influenciam diretamente em sua QV. Isso se deve ao fato de que as ganenses percebem a espiritualidade como uma forma de suporte social e um mitigador das questões psicológicas. Contudo, tais necessidades não são atendidas devido a dificuldades no acesso aos serviços de saúde. Portanto, é crucial avaliar essas lacunas e oferecer cuidados que abordem as necessidades espirituais específicas dessas mulheres.
Segundo o estudo de Barata et al. (2022), o bem-estar espiritual está correlacionado com a redução dos sintomas de depressão e ansiedade, além de estar associado a melhor QV, especialmente nos aspectos emocionais, sociais e funcionais. Considerando que pacientes com câncer encontram na espiritualidade recursos para atribuir significado e propósito à vida, funcionando como uma estratégia para enfrentar a experiência da doença.
Yavuz e Koç (2023) ressaltam a relação entre espiritualidade, religião e saúde, indicando que esses elementos podem influenciar tanto a saúde mental quanto a física. A espiritualidade repercute na QV, redução do sofrimento psicológico e fortalecimento das relações sociais. O estudo evidencia que pacientes geriátricos com câncer recorrem à espiritualidade como uma estratégia para lidar com o sofrimento psicológico e físico decorrente do câncer, utilizando-a como um apoio significativo para enfrentar a doença. Dessa forma, ao integrar aspectos espirituais no cuidado, a equipe de saúde pode aprimorar a comunicação com pacientes e facilitar a adesão ao tratamento.
Conforme destacado por Lebowa et al. (2023), pacientes com mieloma múltiplo (MM) adotam diversas estratégias de enfrentamento, dentre elas a espiritualidade. Nesse sentido, a dimensão espiritual pode desempenhar um papel central para lidar com os desafios impostos pela doença, contribuindo para a redução dos níveis de ansiedade, depressão e desamparo. No âmbito da saúde mental, a espiritualidade está correlacionada ao bem-estar psicológico e à QV de pacientes com MM. Além disso, quando esses aspectos são considerados nos cuidados hospitalares, a espiritualidade pode agir como uma estratégia eficaz para enfrentar a doença.
Velasco-Durantez et al. (2024) apontam que a idade, sexo, estadiamento do câncer, enfrentamento e espiritualidade, influenciam o sofrimento psicológico em pacientes com câncer. Os resultados do estudo indicam que aqueles/as com um maior bem-estar psicoespiritual tendem a lidar de maneira mais eficaz com o processo de adoecimento e a terminalidade, pois a espiritualidade oferece suporte no enfrentamento de experiências que desafiam seu sentido de vida. Assim, a espiritualidade desempenha um papel protetor e se apresenta como um recurso no enfrentamento do sofrimento psicológico, relacionando-se com a saúde mental e menores índices de ansiedade, depressão e somatização.
Estes resultados contribuem para o entendimento mais aprofundado sobre a influência da espiritualidade em pacientes com câncer, identificando seus benefícios para a QV e melhoria nos índices de saúde mental, caracterizando-se como um importante recurso no enfrentamento do adoecimento. Isso reforça a importância de uma abordagem biopsicossocioespiritual no cuidado a pacientes com câncer, enfatizando a necessidade de que os profissionais de saúde sejam capacitados para integrar esses aspectos na prática diária de trabalho.
DISCUSSÃO
Os principais achados apontam que a maioria das publicações sobre espiritualidade e saúde, se concentram nos EUA e estão escritas na língua inglesa, refletindo o interesse do país em pesquisar a área. A espiritualidade tem sido incorporada nas universidades norte-americanas. Esse movimento é promovido pelo incentivo a pesquisas em centros de estudo de espiritualidade e saúde, bem como pela oferta de disciplinas obrigatórias sobre o tema, tanto na Graduação quanto nas Residências Médicas (Ljubičić Bistrović et al., 2021; Marques & Pucci, 2021; Monteiro et al., 2020; Pallini et al., 2019).
Outro fator relevante é que no campo da saúde, as áreas de Psicologia e Medicina têm se dedicado a entender a relação entre espiritualidade e Oncologia. Nos últimos anos tem surgido a demanda por práticas humanizadas de cuidado, visando o melhor atendimento a pacientes, para tanto, levando em consideração as crenças pessoais (Pallini et al., 2019). Apesar das investigações tenham se tornado uma vertente nos últimos tempos, ainda se percebe a escassez de produções teóricas sobre o tema, o que afeta a prática profissional devido à falta de subsídios (Marques & Pucci, 2021; Monteiro et al., 2020; Pallini et al., 2019). Assim, ao abordar essa temática, abre-se a possibilidade de desenvolver intervenções no âmbito biopsicossocioespiritual.
Da mesma forma, a relação entre espiritualidade e saúde mental tem sido o foco de diversos estudos, demonstrando que a espiritualidade desempenha um papel central para a maioria da população, estando associada a melhores índices de saúde mental e bem-estar (Ljubičić Bistrović et al., 2021; Monteiro et al., 2020). Essas pesquisas evidenciam que o manejo da espiritualidade proporciona cuidados que colaboram com a QV de pacientes, atuando como um instrumento de apoio e auxílio durante o processo de adoecimento (Ljubičić Bistrović et al., 2021; Hoffmann et al., 2021; Marques & Pucci, 2021; Monteiro et al., 2020).
De acordo com os estudos de Akuoko et al. (2022), Ata e Kiliç (2022), Barata et al. (2022), Reis et al. (2020), Gudenkauf et al. (2019), Lebowa et al. (2023), Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. (2020) e Yavuz e Koç (2023), a espiritualidade está estreitamente relacionada à QV de pacientes com câncer. Isso se deve ao fato de que esta, contribui para o bem-estar físico e psicológico, podendo reduzir o estresse e a ansiedade decorrentes do câncer.
Pesquisas anteriores têm destacado que a espiritualidade é um dos pilares da QV, pois o bem-estar de pacientes deve ser considerado em todas as suas dimensões: biológica, psicológica, social e espiritual (Ferreira et al., 2020; Marques & Pucci, 2021; Arenas-Massa et al., 2020; Miranda et al., 2015). O estudo de Miranda et al. (2015) já havia demonstrado que escores mais altos de espiritualidade estão associados a maiores índices de QV.
Em consonância com essa perspectiva, a saúde mental é abordada nos estudos de Lebowa et al. (2023), Velasco-Durantez et al. (2024) e Yavuz e Koç (2023), enquanto o bem-estar emocional e psicológico aparece nos trabalhos de Akuoko et al. (2022), Ata e Kiliç (2022), Gudenkauf et al. (2019), Lebowa et al. (2023), Riklikienė, Kaselienė et al. (2020), Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. (2020) e Velasco-Durantez et al. (2024). Essas pesquisas propõem uma relação entre a espiritualidade e os aspectos psicológicos, associando a espiritualidade a melhores índices de bem-estar psicológico e indicadores de saúde mental.
Diante disso, sugere-se que a busca pela espiritualidade está ligada aos aspectos físicos e psíquicos (Arenas-Massa et al., 2020; Miranda et al., 2015). Isso ocorre porque, quando o indivíduo vivencia sentimentos de desesperança, angústia, medo e depressão, há uma tendência a recorrer a espiritualidade como uma forma de enfrentamento. Visto que esta proporciona uma sensação de amparo e apoio, como já dito anteriormente, assim contribuindo para melhores índices de saúde mental e QV (Carmo et al., 2022; Arenas-Massa et al., 2020).
Um aspecto de destaque a ser considerado nos estudos de Ata e Kiliç (2022), Barata et al. (2022), Reis et al. (2020), Lebowa et al. (2023), Velasco-Durantez et al. (2024) e Yavuz e Koç (2023), é que a espiritualidade atua como um recurso para enfrentamento utilizado por pacientes com câncer para lidarem com a vivência do adoecimento. O câncer ao provocar um impacto significativo na vida dos indivíduos, gera diversas mudanças tanto pelos sintomas da doença quanto pelas formas de tratamento, resultando no desgaste físico e emocional. Sendo assim, a espiritualidade é uma aliada para lidar com essa situação, porque auxilia na aceitação do tratamento e proporciona conforto, acarretando sentimento de esperança, suporte e apoio (Fornazari & El Rafihi Ferreira, 2010; Freire et al., 2017; Meira et al., 2023; Miranda et al., 2015; Pallini et al., 2019).
Além disso, possibilita a elaboração de um significado para a vida e também para a morte, com isso trazendo sentido para o contexto de adoecimento (Fornazari & El Rafihi Ferreira, 2010; Pallini et al., 2019). Com isso, o indivíduo encontra fonte de apoio e proteção para lidar com o desamparo causado pela doença, através de uma nova perspectiva de ver sua existência, inclusive muitos relatam que houve uma mudança de sua posição frente a vida, e passaram a valorizar as pequenas coisas de seu dia-a-dia (Pallini et al., 2019). Também, estabeleceram uma melhor conexão com outrem, com a vida e com o universo (Alencar et al., 2021). Neste contexto, Akuoko et al. (2022), Reis et al. (2020), Lebowa et al. (2023), Riklikienė Kaselienė et al. (2020), Riklikienė, Tomkevičiūtė et al. (2020) e Yavuz e Koç (2023), destacam a importância do cuidado voltado aos aspectos espirituais de pacientes, o que implica na atuação e intervenção da equipe multiprofissional.
Fornazari e El Rafihi Ferreira (2010), Marques e Pucci (2021) e Meira et al. (2023), apontam que pacientes com câncer consideram fundamental que profissionais de saúde discutam sobre a espiritualidade durante a assistência oferecida. Estes autores percebem essa discussão como essencial para o cuidado humanizado e integral, uma vez que leva em consideração o indivíduo em todas as suas esferas, ou seja, o vê como um ser biopsicossocioespiritual. Tal abordagem resgata a subjetividade de pacientes, reconhecendo que cada indivíduo não é apenas um corpo adoecido e em sofrimento, mas um indivíduo carregado de crenças e valores, marcado por histórias singulares (Fornazari & El Rafihi Ferreira, 2010).
Em vista disso, a inclusão da espiritualidade na assistência a pacientes representa um desafio que exige comunicação entre profissionais. No entanto, essa prática se revela cada dia mais necessária, considerando seu papel na promoção da QV, bem-estar e enfrentamento, pois viabiliza a aceitação e cooperação do paciente durante o processo de tratamento (Marques & Pucci, 2021; Pallini et al., 2019). Esse fator favorece a interação entre paciente e equipe (Fornazari & El Rafihi Ferreira, 2010).
Dessa forma, ao abordar as crenças espirituais de pacientes, a equipe multiprofissional deve estar devidamente capacitada nesta área. É essencial respeitar a singularidade de cada indivíduo e acolher seus aspectos subjetivos, afastando julgamentos pessoais. Nesse âmbito, a Psicologia atua como uma ponte, articulando e promovendo o diálogo entre profissionais, a fim de priorizar práticas de cuidados mais humanizados (Pallini et al., 2019).
O cuidado espiritual, de forma resumida, consiste em proporcionar a pacientes a expressão de sua fé e paz, consolidando a humanização do atendimento hospitalar (Freire et al., 2017). Contudo, há um grande receio em abordar essas questões em virtude da falta de preparo sobre o tema e a incerteza acerca dos desdobramentos que isso pode suscitar (Arenas-Massa et al., 2020). Isso ocorre porque as instituições de ensino se concentram em ensinar como cuidar da parte física, esquecendo-se de formar uma visão holística do indivíduo que padece de alguma doença, o paciente, como um ser integral (Mesquita et al., 2013).
Neste sentido, o estudo de Miranda et al. (2015) propõe que as intervenções conjuntas entre a equipe de saúde e as instituições de cunho espiritual, devidamente orientadas por Psicólogos a fim de prevenir abordagens errôneas, pode ser uma ferramenta benéfica e eficaz no cuidado a pacientes. De encontro com essa ideia, outro estudo propõe que profissionais da saúde devem ser treinados em competências relacionadas à espiritualidade. Isto inclui promover o respeito, empatia, superação dos preconceitos e avaliação da rotina de espiritualidade em cuidados de saúde mental (Vieten et al., 2023).
Nos contextos de saúde, o profissional da Psicologia assume um importante lugar de mediador, por ser aquele que contribui para que a equipe compreenda a importância de considerar tudo aquilo que é significativo para cada paciente (Pallini et al., 2019). Essa posição implica em uma abordagem, que considere o todo do indivíduo, resgatando a autonomia para participar ativamente do processo de tratamento e reconhecer o significado da espiritualidade frente a sua situação atual (Ljubičić Bistrović et al., 2021; Vieten et al., 2023). Destaca-se o papel do tratamento psicológico como uma via terapêutica que contribui para a melhora da QV, pois proporciona um enfrentamento efetivo para a vivência do câncer (Alencar et al., 2021).
Além disso, é essencial reconhecer que os recursos associados à espiritualidade diferem dos psicológicos. Enquanto os recursos psicológicos estão ligados à elaboração emocional, à postura ativa diante do processo de adoecimento e aos mecanismos de defesa funcionais, a dimensão espiritual refere-se às crenças e valores espirituais (Hoffmann et al., 2021).
CONCLUSÕES
O presente trabalho teve como objetivo realizar uma revisão sistemática da produção científica no período de 2019 a 2024, sobre a espiritualidade e a Oncologia. Constatou-se o aumento no interesse de pesquisadores pelo tema, especialmente nos EUA, devido ao incentivo ao estudo da espiritualidade nos principais cursos da Área da Saúde. Isto reflete a crescente necessidade dos pacientes de discutir questões espirituais e receber cuidados direcionados a essa dimensão.
Este estudo, através dos seus resultados e discussão, contribui para que profissionais da saúde compreendam a influência da espiritualidade como uma forma de amparo e conforto, proporcionando tranquilidade em situações de desamparo, como as provocadas pelo adoecimento. Diante do exposto, percebe-se que o câncer revela a fragilidade e as limitações humanas, e a espiritualidade proporciona um senso de controle que transcende o humano, alicerçado na crença em uma força superior ou em algo maior.
Salienta-se, que a espiritualidade e religiosidade são distintas, e essa diferenciação é fundamental ao tratar do cuidado espiritual. Diversas instituições hospitalares oferecem a atenção religiosa a pacientes, por meio de representantes e membros de determinada religião, entretanto, a espiritualidade deve ser vista por outra óptica, para além dos ritos e tradições, mas como uma linha de cuidado que cria espaço para o/a paciente manifestar suas crenças e possibilita momentos de diálogo, a fim de construir significados em sua vivência com o câncer.
Nesse sentido, esta pesquisa pode trazer importantes subsídios para psicólogos, psiquiatras e demais profissionais da área da saúde que atuam com o público que sofre com a doença oncológica. Focar nos aspectos psicológicos mobilizados pelo adoecimento, favorece o reconhecimento do papel subjetivo que a espiritualidade ocupa na vida do indivíduo. Logo, a Psicologia desempenha um papel essencial na mediação do cuidado espiritual, auxiliando a equipe multiprofissional na valorização das crenças e valores de pacientes, com o objetivo de melhorar sua QV e enfrentamento do câncer.
Considerando os resultados apresentados, o levantamento realizado neste trabalho oferece uma caracterização atualizada das pesquisas sobre a espiritualidade e a Oncologia. No entanto, este estudo pode apresentar limitações, uma vez que foi conduzido com descritores e plataformas específicas, além de abranger um período de cinco anos. Dessa forma, novas pesquisas com descritores semelhantes, utilizando outras plataformas e considerando um intervalo de tempo mais amplo, poderão ampliar os achados.
Além disso, observou-se que há uma carência de fundamentos teóricos que orientem a prática profissional, afetando a aplicação efetiva dos cuidados espirituais. Para estudos futuros, sugere-se avaliar como as equipes de saúde podem incorporar cuidados espirituais de maneira eficaz, promovendo uma abordagem mais holística no tratamento oncológico.















