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Psicologia: teoria e prática

Print version ISSN 1516-3687

Psicol. teor. prat. vol.24 no.3 São Paulo  2022  Epub Mar 10, 2025

https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptped15560.pt 

Editorial

Editorial

Cristiane Silvestre de Paula3 

Cleverson Pereira de Almeida and Josep Maria Blanch4 

3Editora-chefe

4Editores da seção especial “Trabalho e Saúde Face às Metamorfoses Contemporâneas”


Prezados(as) leitores(as),

O terceiro número da revista Psicologia: Teoria e Prática encerra as publicações de 2022 trazendo artigos originais, teóricos e empíricos de relevância para a psicologia e áreas afins. No entanto, nossos trabalhos não param por aqui, pois, sendo um periódico em fluxo contínuo, já estamos em atividade para a finalização e publicação dos manuscritos aprovados para os próximos números.

Este número se inicia com um comentário a convite sobre análises quantitativas em psicologia, assinado por três pesquisadores, Hudson Golino, Alexander P. Christensen e Luis Eduardo Garrido, afiliados a universidades estrangeiras, dos Estados Unidos e da República Dominicana. Esta edição contém 16 artigos: nove compõem o fluxo contínuo, que apresentaremos a seguir, e os outros sete pertencem a uma seção especial. Estes foram elaborados por colegas afiliados a diferentes universidades/instituições do Brasil (dos estados de Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Rio Grande do Norte, além do Distrito Federal), de Cuba, Espanha, Colômbia e Equador (essa seção será apresentada subsequentemente). Essa multiplicidade de afiliações contribui para uma das principais metas de nossa revista, que é representar a diversidade de pensamentos e abordagens no campo da psicologia.

No fluxo contínuo, experiências no sistema público foram alvo de dois artigos. Um deles relata os efeitos positivos de capacitação para cuidadores no desenvolvimento de crianças pré-escolares com transtorno do espectro autista (TEA) atendidas no Centro de Reabilitação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Mato Grosso do Sul (CER/Apae), de autoria de Camila G. S. Gomes, Jhuan Fagner Souza, Cíntia H. Nishikawa, Paulo Henrique M. Andrade, Elenne Talma e Débora D. Jardim, afiliados à Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais; ao CER/Apae; e ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino. O segundo artigo descreve a avaliação de profissionais do Sistema Único de Assistência Social (Suas) em relação a visitas domiciliares, consideradas uma das principais ferramentas de atuação nesse campo, de autoria de Girlane Péres, Carmen O. O. Moré e Cibele C. L. da Motta, afiliadas à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Embora a pandemia de coronavirus disease 2019 (Covid-19) tenha arrefecido no Brasil, suas consequências negativas ainda são observáveis e, infelizmente, devem continuar visíveis nos próximos tempos. Dois artigos tratam dos impactos emocionais e das estratégias para lidar com a pandemia. O primeiro artigo, de Laura R. Dalcin, João Leite Ferreira Neto e Marcelo dos S. Guzella, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e Universidade de São Paulo (USP), trata do sofrimento psicológico decorrente do distanciamento social, com base em uma amostra de conveniência de 566 adultos de diferentes regiões do país. Entre os numerosos resultados, verificou-se que os participantes mais jovens, em média, sentiam-se mais solitários, deprimidos, estressados, ansiosos e apresentavam maior dificuldade com o sono; aqueles com menor renda sentiam-se mais deprimidos e ansiosos, além de terem mais receio de ficar sem trabalho. O segundo artigo descreve uma inventiva iniciativa para auxiliar profissionais da saúde no enfrentamento do estresse durante o período da pandemia de Covid-19: o desenvolvimento de uma cartilha psicoeducacional para a prática hospitalar. A cartilha foi baseada em uma revisão sistemática da literatura e no questionário respondido por 141 profissionais de saúde em hospitais do Brasil, da Colômbia, do Peru e da Argentina. De acordo com a análise de juízes, material mostrou bons coeficientes de correlação para o conteúdo e a clareza de linguagem. Os autores desse artigo são Andressa M. B. da Silva, Murilo F. de Araujo, Juanita H. Pinzón, Jodi Dee H. F. do Amaral, Letícia L. Dellazzana-Zanon, Cristiane de A. Lins, Maria Fernanda M. B. de Freitas, Elisa D. T. Mendes, Eliana Cristina C. Vicentini e Sônia Regina F. Enumo, afiliados à Universidade de Sorocaba (Uniso), à Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e à Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Dois artigos versam sobre instrumentos no campo da psicologia: o primeiro descreve evidências de validade do teste das pirâmides coloridas de Pfister, baseando-se nas relações com variáveis externas para uso das cores por dupla com crianças de seis a 11 anos de idade - de autoria de Ticiane R. da Silva, Thays M. de Lima e Lucila M. Cardoso, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). O segundo é uma revisão sistemática da literatura (iniciando com a identificação de 564 artigos) sobre instrumentos para aferição do estigma de cortesia, de autoria de Daniel Augusto C. Maldonado, Thaís S. Pereira, Leonardo F. Martins e Telmo M. Ronzani, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os principais resultados encontrados pelos autores podem ser resumidos em: correlações positivas entre estigma de cortesia e depressão, ansiedade, carga do cuidador, burnout e consciência da desvalorização pública e do estigma; e correlações negativas com qualidade de vida, suporte social, autoestima, qualidade do cuidado e desejabilidade social.

Um artigo no campo da psicologia social e saúde das populações descreve o perfil de 561 universitários de diferentes regiões brasileiras quanto a suas práticas religiosas. Nesse estudo, Alberto M. Martins e Adriano Roberto A. do Nascimento, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), evidenciam a importância da religiosidade no dia a dia dessa população, com destaque para as jovens do sexo feminino, que se consideram mais praticantes e possuem maior repertório de crenças que seus colegas do sexo masculino. Esta edição traz ainda um estudo sobre a desafiadora temática da violência sexual. Com o objetivo de analisar a periculosidade e as características de personalidade de autores de violência sexual, segundo amostra de 69 adultos que cumpriam pena por crimes sexuais em regime fechado, Áquila A. G. R. Zilki e Ana Cristina Resende, autoras afiliadas à Universidade Comunitária da Região de Chapecó e à Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), respectivamente, demonstraram que, na amostra do estudo, quanto maior era a periculosidade, maior era o uso da intelectualização como mecanismo de defesa. Além disso, entre os participantes que tinham sido condenados por vitimizar adolescentes e adultos havia maior grau de periculosidade do que entre os condenados por vitimizarem crianças.

Finalmente, esta edição traz um artigo com implicações para o desenvolvimento humano, particularmente no âmbito da relação entre pais e filhos. Por meio de numerosas análises de correlação, o estudo comprova que a atribuição de valor de emoções positivas e negativas de 33 mães ajudava a explicar o comportamento delas diante da expressão emocional dos filhos. O estudo foi coordenado por Nilton C. dos Anjos Filho, Patrícia Alvarenga e Carmem Beatriz Neufeld, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da USP.

Como mencionado anteriormente, neste número apresentamos também uma seção especial no campo da psicologia social, mais especificamente dedicada à psicologia do trabalho e das organizações, cujo tema central e transversal é “trabalho e saúde”. As intensas e vertiginosas transformações globais, impulsionadas pela confluência de vetores econômicos, ecológicos, geopolíticos, culturais, ideológicos e tecnológicos, repercutem na forma como as pessoas pensam, sentem e enfrentam suas condições de vida e de trabalho. Esse contexto em mudança, bastante acentuada no terceiro milênio, apresenta desafios renovados para a pesquisa sobre o trabalho e os trabalhadores.

Essa seção especial representa a contribuição de um grupo de pesquisadores de vários estados do Brasil e de países estrangeiros, membros do grupo de trabalho (GT) “Trabalho e Saúde”, da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (Anpepp), intitulada “Trabalho e Saúde Face às Metamorfoses Contemporâneas”. Esse GT teve início em 2008 e, desde então, participa de todas as edições bienais do Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico dessa entidade, também com atuação ativa, por meio de diferentes publicações e participação de seus integrantes, em eventos acadêmicos e científicos. As pautas e investigações têm se dado orientadas pelos efeitos da reestruturação produtiva, fundamentalmente de impactos das tecnologias de informação e comunicação, novos “arranjos” para a produção de bens e serviços e, ainda, de novo aparato regulatório para as relações de trabalho. Intensificação, precarização, esvaziamento e reconcepção ou reconfiguração do trabalho são temáticas que emergem como alvo da atenção desse grupo desde a sua formação.

A produção ora apresentada nessa seção especial inclui sete artigos que, tanto em termos teóricos quanto empíricos, abarcam o contexto e a qualidade de vida no trabalho, as trajetórias de carreira e o papel dos psicólogos em sua atuação profissional. Impactos da pandemia vivenciada desde fevereiro de 2020 também se fazem presentes em dois dos artigos.

No primeiro dos artigos dessa série, Jorge T. da R. Falcão e Izabel Hazin, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), refletem sobre a precarização do trabalho na atuação da psicologia como profissão. A abordagem dos autores difere das convencionais sobre o tema, que consideram esse processo um sintoma e efeito da deterioração das condições externas de trabalho organizacional. Em contrapartida, focalizam uma dimensão relativamente pouco explorada: a da precariedade do “ofício” determinada pela dinâmica de suas “condições de exercício”, levando em conta a relação entre o profissional individual e a profissão como coletivo na psicologia brasileira.

Em seguida, Rodrigo P. Monteiro, José Newton G. de Araújo e João César de Freitas, da PUC Minas, Cristina M. Hashizume, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Júlia Gonçalves, da Faculdade Meridional (IMED), e Suzana da Rosa Tolfo, da UFSC, apresentam um estudo empírico sobre o trabalho dos profissionais de psicologia nas prisões brasileiras como uma “atividade encarcerada”, submetida à regulamentação institucional de um sistema prisional baseado na lógica da repressão e da punição, uma orientação para a ação que, muitas vezes, entra em tensão com a ética da atuação profissional do psicólogo.

O terceiro artigo resume um estudo empírico realizado em uma organização pública no Brasil, desenvolvido por Mario César Ferreira, Letícia A. Santos e Tatiane Paschoal, da Universidade de Brasília (UnB). No texto, os autores analisam as representações de bem-estar e mal-estar no trabalho e suas implicações para a saúde e a segurança ocupacional, para o desempenho organizacional e para uma gestão sustentável da qualidade de vida no trabalho.

Na sequência, Elka L. Hostensky, da UFSC, Josep Maria Blanch, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, e Universidade de San Buenaventura (USB), na Colômbia, Paola Ochoa, da Escuela Superior Politécnica del Litoral Espol, e Vera Regina Roesler, da Perspectivas Desenvolvimento Humano, discutem o desenho e os resultados de um estudo empírico cujo objetivo era analisar a relação que trabalhadores brasileiros do poder judiciário estabelecem entre a avaliação de suas condições de trabalho e a subjetividade da própria experiência profissional, entendida como um conjunto de significados atribuídos a esse trabalho.

Em sua contribuição, Damián V. Santiago, Katherine S. C. Pell e Silvia Miriam P. del Río, da Universidade de Havana, em Cuba, trazem um estudo empírico realizado naquela capital sobre o impacto das condições de trabalho impostas pelo isolamento físico durante a pandemia de Covid-19, abordando a qualidade do sono, as atividades diárias e o estresse vivenciado pelos trabalhadores e por suas famílias.

Por sua vez, Camila C. Torres, do Centro Universitário IESB, Carolina S. P. D. P. Calmon, da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal (e mestranda da UnB), e Elka L. Hostensky, da UFSC, apresentam um estudo acerca do que acontece no quadro das percepções e vivências dos trabalhadores quando o chamado teletrabalho ocupa o espaço-tempo do lar, no contexto do confinamento por causa de Covid-19, salientando o que essa experiência acarreta como fatores favoráveis e desfavoráveis com respeito à qualidade de vida no trabalho.

Concluindo, Maiky D. Pérez e Gabriela C. Lorenzo, da Universidade de Havana, investigam o desenvolvimento de trajetórias de carreira, partindo de questionamentos formulados sobre motivações que estão a mobilizar as pessoas para sua jornada laboral em contexto organizacional, também contemplando o papel contributivo da psicologia no cenário contemporâneo do trabalho e das aprendizagens que se façam necessárias.

Esse conjunto de artigos destaca a pertinência e a relevância do estudo dos fatores estruturais e subjetivos que afetam o desempenho efetivo dos seres humanos nos diferentes contextos de trabalho e, nesse sentido, põe em relevo a busca pelo desenvolvimento de cenários que promovam a saúde ocupacional, a qualidade de vida no trabalho e a organização saudável da atividade produtiva.

Assim, encerramos este editorial, acreditando que a qualidade e diversidade de nossos artigos poderão contribuir para a disseminação de trabalhos realizados no Brasil e em outros países, de cunho teórico e prático, com implicações para o contexto da psicologia atual.

Atenciosamente,

Cristiane Silvestre de Paula
Editora-chefe
Cleverson Pereira de Almeida e Josep Maria Blanch
Editores da seção especial “Trabalho e Saúde Face às Metamorfoses Contemporâneas”

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