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Psicologia: teoria e prática

Print version ISSN 1516-3687

Psicol. teor. prat. vol.24 no.3 São Paulo  2022  Epub Mar 10, 2025

https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptpsp14140.pt 

Psicologia Social e Saúde das Populações

Gênero e suas implicações nas práticas religiosas: Estudo exploratório entre universitários brasileiros

Alberto M. Martins1 
http://orcid.org/0000-0002-6032-3122

Adriano Roberto Afonso do Nascimento2 
http://orcid.org/0000-0002-7752-0114

1Faculdade de Ciências Humanas (FACH), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

2Departamento de Psicologia (DePsi), Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)


Resumo

Como práticas sociais, as religiões reproduzem discursos que refletem a sociedade. Este estudo teve como objetivo analisar as implicações de gênero nas práticas religiosas de um grupo de homens e mulheres universitários brasileiros. Participaram 561 estudantes de diferentes cursos de graduação, selecionados por meio de amostra de conveniência, os quais responderam a um formulário virtual com 48 questões, analisadas por meio de estatística descritiva. Os resultados evidenciam a importância da religiosidade no cotidiano de estudantes universitários e revelam diferenças no modo como homens e mulheres a concebem e colocam em prática. As mulheres consideram-se mais religiosas e também possuem um maior repertório de crenças e práticas religiosas do que os homens, utilizando-as de forma mais recorrente como suporte para os desafios da vida universitária. Os dados também revelam a importância de propostas que abram espaços para a discussão sobre as religiosidades no âmbito universitário.

Palavras-chave: religião; construção social do gênero; universidades; religião e psicologia; psicologia social

Abstract

As social practices, religions reproduce discourses that reflect society. This study aimed to analyze the gender’s implications for the religious practices of a group of Brazilian university men and women. Five hundred and sixty-one university students from different undergraduate programs from all regions of Brazil participated in the study, selected through a convenience sample, who answered a virtual form with 48 questions, analyzed using descriptive statistics. The results show the importance of religiosity in the daily life of Brazilian university students and reveal the differences in the way men and women conceive and put it into practice. Women consider themselves more religious and have a greater repertoire of religious beliefs and practices than men, using them more often as a support for the challenges of university life. The data also reveal the importance of proposals that allow for spaces for the discussion of religiosity at the university level.

Keywords: religion; social construction of gender; universities; religion and psychology; social psychology

Resumen

Como prácticas sociales, las religiones reproducen discursos que reflejan la sociedad. Este estudio buscó analizar las implicaciones de género en las prácticas religiosas de un grupo de universitarios brasileños. Participaron 561 estudiantes universitarios de diferentes carreras de todas las regiones de Brasil, seleccionados a través de una muestra de conveniencia, quienes respondieron un formulario virtual con 48 preguntas, analizadas mediante estadística descriptiva. Los resultados muestran la importancia de la religiosidad en la vida cotidiana de los estudiantes universitarios brasileños y revelan las diferencias en la forma en que hombres y mujeres conciben y ponen en práctica su vida religiosa. Las mujeres se consideran a sí mismas más religiosas y tienen un mayor repertorio de creencias y prácticas religiosas que los hombres, utilizándolas con mayor frecuencia como apoyo para los desafíos de la vida universitaria. Los datos también revelan la importancia de mayores inversiones en acciones y propuestas que abran espacios para la discusión de la religiosidad a nivel universitario.

Palabras clave: religión; construcción social del género; universidades; religión y psicología; psicología social

O Brasil é um dos países mais religiosos do mundo, contribuindo para a construção de um contexto social marcado pela convivência, nem sempre harmônica, de uma diversidade de crenças, doutrinas, dogmas e grupos religiosos (Camurça, 2019; Silva, 2017). Historicamente, discursos religiosos se articulam com estratégias políticas, sobretudo de grupos conservadores que buscam nas religiões espaço para construção de alianças que fortaleçam suas agendas e seus interesses (Rivera & Fidalgo, 2019; Silva, 2017). Nos últimos anos, no contexto brasileiro, a articulação entre religião e política vem se intensificando e tornando-se ainda mais explícita, ocupando um lugar estratégico no cenário eleitoral e na discussão de temáticas consideradas polêmicas, como aquelas relacionadas aos direitos humanos (Rivera & Fidalgo, 2019; Silva, 2017).

Segundo Jodelet (2013), o campo religioso é constituído pela vida religiosa, caracterizada pela forma como os diferentes sujeitos concretizam a sua interação com suas religiões e experienciam a sua religiosidade. Em outras palavras, as religiões remetem a práticas socialmente construídas e compartilhadas, ancoradas em valores e orientações específicos que orientam o exercício da religiosidade e a interação com a dimensão espiritual (Jodelet, 2013). Estudos apontam que as religiões possuem importantes funções sociais, auxiliando os sujeitos nos modos como compreendem e agem consigo, com os outros e com o mundo (Bairrão, 2017; Cunha & Scorsolini-Comin, 2019; Jodelet, 2013; Moscovici, 2011; Paiva, 2017).

As instituições e os rituais religiosos auxiliam na criação de sentidos para eventos complexos que permeiam a existência humana, dando respostas para questões existenciais de difícil simbolização, como a finitude e o sentido da vida (Freitas & Holanda, 2014; Paiva, 2017). Além disso, as religiões têm a função de criar soluções para problemas e desafios materiais e espirituais com os quais os sujeitos se deparam em seu cotidiano (Bairrão, 2017; Jodelet, 2013). Nesse contexto, situam-se as buscas por curas físicas, mentais e espirituais, os rituais e as promessas que visam ao enfrentamento de problemas, tais como as doenças, o desemprego, a aquisição de bens materiais e a busca por parceria afetivo-sexual, que transformam os fiéis em consumidores de uma série de produtos disponíveis em um vasto mercado religioso (Cunha & Scorsolini-Comin, 2019; Freitas & Holanda, 2014; Martins, 2019).

Em se tratando de um país de maioria cristã, como o Brasil, as crenças religiosas influenciam não apenas na vida privada dos fiéis, mas também interferem em aspectos macrossociais e decisões políticas amplas, como a construção de legislações e a definição de direitos de grupos socialmente marginalizados (Machado, 2018; Martins, 2019; Rivera & Fidalgo, 2019; Silva, 2017). Estudos vêm revelando as implicações das crenças religiosas na formação de opiniões, quase sempre contrárias, dos entrevistados sobre diferentes temas políticos, como a adoção de crianças por homossexuais, a legalização da união entre casais do mesmo sexo, a interrupção de gravidez, entre outros (Machado, 2015; Vaggione & Machado, 2020). Além disso, os eleitores brasileiros também levam em consideração a opinião e o apoio de suas lideranças religiosas ao escolherem seus candidatos (Camurça, 2019; Machado, 2018).

Outros estudos apontam para a influência da religiosidade na vida de estudantes universitários (Chaves et al., 2015; Piergiovanni & Depaula, 2018). Nesse sentido, fazer parte de algum grupo religioso pode trazer benefícios tanto para a saúde física quanto para a saúde mental dos estudantes, como prevenir o envolvimento dos jovens com a violência (Doane & Elliot, 2016; Ribeiro & Minayo, 2014), diminuir a utilização de álcool e outras drogas (Guimarães et al., 2020), reduzir a ansiedade (Chaves et al., 2015), aumentar o sentimento de felicidade e propósito na vida (Nascimento & Roazzi, 2017), entre outros.

Além disso, estudos apontam que a religiosidade impacta de forma positiva a satisfação com a vida e com a busca por melhores estratégias para enfrentamento de problemas e desafios na universidade (Fleury et al., 2018; Nascimento & Roazzi, 2017). A religiosidade também vem sendo apontada como um importante recurso para que estudantes universitários enfrentem a rotina estressante e as pressões sociais do meio acadêmico (Piergiovanni & Depaula, 2018). Contudo, outros estudos apontam que a religiosidade também pode comprometer o bem-estar e a qualidade de vida dos jovens, sobretudo quando impõe rituais e regras rígidas, as quais exigem mudanças radicais, como a negação de si mesmo (Pereira & Holanda, 2019). Além disso, a dificuldade de expressar suas crenças e vivências religiosas no ambiente universitário vem sendo apontada como um fator que compromete o bem-estar espiritual e aumenta a presença de conflitos cognitivos e religiosos que se somam aos desafios impostos pelo ingresso no ensino superior (Pereira & Holanda, 2019).

As religiões também possuem uma terceira e importante função social: criar identidades para os fiéis (Jodelet, 2013; Martins, 2019). Nessa vertente, as religiões contribuem para a integração social dos indivíduos, uma vez que os inserem nos processos de sociabilidade e possibilitam o acesso a um novo grupo de pertença, cingindo suas biografias num antes e depois da conversão religiosa, exigindo transformações nos modos de pensar sobre si próprios e buscar por novos padrões de atitudes e comportamentos no cotidiano (Moscovici, 2011). Como práticas sociais, as religiões, por meio de seus dogmas e rituais, também orientam os seus fiéis no que se refere às questões de gênero, ao prescreverem normas que auxiliam os neófitos na construção de um “novo homem” e de uma “nova mulher” e reproduzirem concepções e discursos que refletem a sociedade na qual esses sujeitos estão inseridos (Freitas & Holanda, 2014; Jodelet, 2013; Martins, 2019).

Estudos indicam que homens e mulheres vivenciam de formas distintas a sua vida religiosa, revelando a forte influência do processo de socialização e das normas de gênero na forma como esses sujeitos simbolizam o sagrado e interagem com ele (Buchardt, 2017; Martins, 2019). Apesar da incipiência de estudos que analisam as singularidades entre as crenças e os comportamentos religiosos de homens e mulheres, a literatura aponta para uma maior frequência de atividades religiosas do público feminino que, em geral, busca conforto espiritual não apenas para si, como também para toda a sua família, sobretudo para os homens que dela fazem parte (Rosas, 2015). Apesar de menos assíduos aos rituais e às cerimônias religiosas, é recorrente que os homens assumam as lideranças dos principais segmentos espirituais, cabendo às mulheres as funções secundárias e subalternas, como o cuidado do grupo religioso e a manutenção dos templos e locais de culto (Martins, 2019).

Para Moscovici (2011), a sociedade é uma “máquina de fazer deuses”, que os produz à sua própria imagem e semelhança. Nesse sentido, a sociedade se personifica em suas divindades, imprimindo nas suas criações religiosas as suas concepções, os seus valores e os seus modos de organizar a vida cotidianamente, incluindo as desigualdades de gênero. Moscovici (2011) também lembra que as religiões não se restringem aos assuntos espirituais e transcendentais, mas ocupam funções econômicas e políticas, quase sempre atendendo às demandas dos grupos e das classes dominantes.

Em se tratando de uma sociedade antropocêntrica e patriarcal, e majoritariamente cristã, como a brasileira, é preciso destacar que os deuses aqui “fabricados” passam a ser reconhecidos e representados como figuras masculinas e viris e que também encarnam os ideais de masculinidade e contribuem para a naturalização e a manutenção de uma suposta supremacia dos homens sobre as mulheres (Bourdieu, 1998/2011; Martins, 2019). Conforme destaca Martins (2019), as instituições religiosas podem ser reconhecidas não apenas como “fábricas de deuses”, mas também como uma fábrica em que se produzem corpos e identidades masculinos e femininos.

Nessa perspectiva, este estudo tem como objetivo analisar as implicações de gênero nas práticas religiosas de um grupo de homens e mulheres universitários

Método

Participantes

Participaram do estudo 561 estudantes universitários de diferentes cursos de graduação, de todas as regiões do Brasil, selecionados por meio de amostragem de conveniência. A partir de postagens divulgadas em grupos de redes sociais, voltadas para o público universitário, foram enviados convites para que os participantes respondessem a um formulário on-line. Os critérios de seleção dos participantes foram: ser maior de 18 anos, estar cursando graduação em qualquer área do conhecimento e aceitar o convite de participação. Nesse sentido, excluíram-se 38 respostas de estudantes de outros níveis de ensino (médio, técnico, pós-graduação), bem como outras quatro por se tratar de respostas de menores de 18 anos, que não atendiam, portanto, aos critérios de inclusão já mencionados.

Instrumentos

A partir da literatura científica (Martins, 2019; Pereira & Holanda, 2019; Swatowiski et al., 2018), construiu-se um formulário virtual composto por 48 questões que, com auxílio do Google Forms, foi disponibilizado para fins da coleta de dados entre outubro de 2018 e fevereiro de 2019. No primeiro bloco, por meio de 15 questões, eram solicitadas informações relacionadas ao perfil sociodemográfico dos estudantes, como gênero, idade, raça/cor, estado civil etc.

Em seguida, os participantes responderam a uma série de 23 questões voltadas para a identificação de crenças e comportamento religiosos, incluindo a utilização desses fenômenos no âmbito universitário. Nesse sentido, as questões desse bloco abordavam temas como vinculação religiosa (atual e anterior), práticas religiosas (participação em cerimônias, contribuições financeiras etc.), crenças específicas (Deus, Diabo, vida após a morte, reencarnação etc.) e relação da vida religiosa com a graduação (influência na escolha do curso, apoio religioso para os estudos e vida profissional etc.).

Análises dos dados

Os dados foram examinados por meio de análise estatística descritiva, com auxílio do software R-Studio. Realizaram-se análises das frequências absolutas e relativas das respostas e, para analisar possíveis associações entre as variáveis (categóricas nominais), utilizou-se o teste do qui-quadrado de independência de Pearson (x2). Em todas as análises, utilizou-se significância estatística de 95% e considerou-se uma associação estatisticamente significativa quando o p-valor era < 0,05.

Aspectos éticos

Todos os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e manifestaram o seu consentimento por meio da adesão ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, disponibilizado na primeira página do formulário virtual. O projeto de pesquisa foi avaliado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Salgado de Oliveira (Universo) e recebeu o Parecer nº 2.255.232.

Resultados

Caracterização dos participantes

Conforme apontado na Tabela 1, participaram do estudo 561 universitários, sendo 394 (70,3%) mulheres e 167 (29,7%) homens. Dentre os entrevistados, a maior parte dos participantes se declarou branca (43,5%) e parda (39,6%), heterossexual (81,5%), solteira (72,7%) e sem filhos (78,1%). Trata-se de um público jovem, com idade entre 18 e 30 anos (77,5%), sendo a idade média de 26,7 anos, com baixo poder econômico, uma vez que 58,5% possuíam rendimentos de até dois salários-mínimos (em torno de R$ 2.000,00) e 11,4% declararam não ter renda.

Tabela 1 Perfil sociodemográfico dos estudantes entrevistados 

Variáveis n %
Gênero Feminino 394 70,3
Masculino 167 29,7
Raça/cor Amarela 3 0,5
Branca 244 43,5
Indígena 3 0,5
Negra 89 15,9
Parda 222 39,6
Orientação sexual Heterossexual 457 81,5
Homossexual 47 8,4
Bissexual 50 8,9
Outras 7 1,2
Idade De 18 a 20 anos 91 16,2
De 21 a 30 anos 344 61,3
De 31 a 40 anos 81 14,5
De 41 a 50 anos 35 6,3
De 51 a 60 anos 9 1,6
Acima de 60 anos 1 0,1
Estado civil Casado(a) 103 18,4
Solteiro(a) 408 72,7
Divorciado(a) 25 4,4
União estável 24 4,3
Viúvo(a) 1 0,2
Filhos Sim 123 21,9
Não 438 78.1
Renda Sem renda 64 11,4
Menos de R$ 1.000,00 143 25,5
Entre R$ 1.000 e R$ 1.999,99 185 33
De R$ 2.000,00 a R$ 2.999,99 73 13
De R$ 3.000,00 a R$ 3.999,99 31 5,5
De R$ 4.000,00 a R$ 4.999,99 22 3,9
R$ 5.000,00 ou mais 37 6,6
Não informada 6 1,1
Cursos por áreas do conhecimento Humanas 249 44,4
Saúde 88 15,7
Exatas e da terra 88 15,7
Ciências biológicas 12 2,1
Ciências sociais e aplicadas 91 16,2
Ciências agrárias 7 1,2
Linguística, letras e artes 21 3,8
Não informado 5 0,9
Tipo de instituição de ensino Privada e/ou filantrópica 392 69,9
Pública 169 30,1
Região Centro-Oeste 12 2,1
Norte 12 2,1
Nordeste 36 6,4
Sudeste 467 83,3
Sul 32 5,7
Exterior 1 0,2
Não informada 1 0,2

A maioria dos participantes (83,3%) reside na região Sudeste do país, sendo também constatado um maior número de entrevistados matriculados em cursos das áreas de ciências humanas (44,4%), sociais e aplicadas (16,2%), saúde (15,7%) e exatas e da terra (15,7%). Houve uma menor participação de estudantes das áreas de ciências agrárias (1,2%), ciências biológicas (2,1%), assim como da área de linguística, letras e artes (3,8%). Quanto à instituição de origem, 69,9% dos entrevistados cursavam a graduação em instituições privadas ou filantrópicas e 30,1%, em universidades públicas.

Gênero e religiosidade no cotidiano dos universitários

Conforme pode ser observado na Tabela 2, houve um maior número de estudantes que se denominaram evangélicos (30,3%), seguidos pelos católicos (24,2%), espíritas (6,9%) e umbandistas (2,9%), 61,7% dos participantes são adeptos de sua religião há mais de dez anos e 51,7% nunca tiveram outra vinculação religiosa. Além disso, 12,7% afirmaram não ter religião e 13,7% se reconhecem como ateus ou agnósticos, que, juntos, representam 25,9% da amostra.

Tabela 2 Afiliação e práticas religiosas dos homens e das mulheres participantes 

Variáveis Geral Fem. Masc. X2 p
n % n % n %
Religião Católicos 136 24,2 109 27,7 26 4,6 14,95 < 0,001
Evangélicos 170 30,3 124 31,5 46 27,5
Espíritas 39 6,9 32 8,1 7 4,2
Umbandistas 16 2,9 11 2,8 4 2,4
Outras religiões 55 9,8 34 8,6 22 13,2
Agnósticos 31 5,5 17 4,3 14 8,4
Ateus 43 7,7 15 3,8 28 16,8
Sem religião 71 12,7 52 13,2 20 12,0
Tempo de adepto Menos de um ano 19 3,4 12 3,0 7 4,2 21,02 0,003
De 1 a 2 anos 29 5,2 17 4,3 12 7,2
De 3 a 5 anos 73 13 42 10,7 31 18,6
De 6 e 9 anos 67 11,9 38 9,6 29 17,4
10 anos ou mais 346 61,7 264 67,0 82 49,1
Sem religião 19 3,4 15 3,8 4 2,4
Missing 8 1,4 6 1,5 2 1,2
Teve outra religião? Sim 271 48,3 173 43,9 98 58,7 9,66 0,001
Não 290 51,7 221 56,1 69 41,3
Considera-se uma pessoa religiosa? Sim 282 50,3 206 52,3 76 45,5 10,23 0,006
Não 183 32,6 113 28,7 70 41,9
Talvez 96 17,1 75 19,0 21 12,6
Frequência com que vai a igreja, cultos e serviços religiosos Mais de uma vez por semana 95 16,9 66 16,8 29 17,4 13,29 0,102
Uma vez por semana 123 21,9 92 23,4 31 18,6
Uma vez a cada 15 dias 53 9,4 44 11,2 9 5,4
Uma vez por mês 52 9,3 37 9,4 15 9,0
Uma vez a cada seis meses 36 6,4 28 7,1 8 4,8
Uma vez por ano 37 6,6 22 5,6 15 9,0
Não costuma ir 163 29,1 103 26,1 60 35,9
Missing 2 0,4 2 0,5 0 0,0
Frequência com que realiza orações e preces Raramente 66 11,7 46 11,7 20 12,0 41,04 < 0,001
Diariamente 277 49,4 216 54,8 61 36,5
Não faço 84 15,0 35 8,9 49 29,3
Algumas vezes na semana 134 23,9 97 24,6 37 22,2
Contribui financeiramente para o grupo religioso Sim, sempre 106 18,9 76 19,3 30 18,0 2,7 0,258
Sim, às vezes 161 28,7 120 30,5 41 24,6
Não 294 52,4 198 50,3 96 57,5

Nota. X2: coeficiente qui-quadrado de Pearson; p = valor de p.

Observa-se uma associação entre o gênero e o fato de ter uma religião (p = < 0,001, X2 = 14,95), de modo que houve um maior número de agnósticos, ateus e pessoas sem religião entre o público masculino (37,2%). Entre as mulheres, esse grupo é representado por apenas 21,3% das entrevistadas. Também foi possível constatar um maior número de mulheres evangélicas (31,5%), católicas (27,7%), espíritas (8,1%) e umbandistas (2,8%) do que de homens, que representam 27,5%, 4,6%, 4,2% e 2,4%, respectivamente. Ademais, observou-se uma associação significativa (p = 0,003, X2 = 21,02) entre o gênero e o tempo de adepto, de modo que houve um maior número de mulheres (67%) com dez anos ou mais de vinculação à mesma religião, em relação aos homens (49,1%). Constatou-se ainda uma associação entre gênero e ter tido outra religião (p = 0,001, X2 = 9,66), havendo a mudança religiosa mais comum entre o público masculino (58,7%).

Metade dos estudantes (50,3%) se considera uma pessoa religiosa, sendo esse número maior entre as mulheres (52,3%) do que entre os homens (45,5%), revelando uma associação com a variável gênero (p = 0,006, X2 = 10,23). Observa-se ainda que o grupo de participantes é assíduo às cerimônias religiosas, de modo que 21,9% frequentam esses espaços uma vez por semana e 16,9% mais de uma vez, nesse mesmo período. Apesar de não ter sido possível identificar uma associação estatisticamente significativa, constatou-se um maior número de homens que não costumam ir aos cultos e serviços religiosos (35,9%), em relação às mulheres (26,1%).

Quase metade dos estudantes (49,4%) realiza orações e preces diariamente. Também foi possível constatar uma associação dessa variável com o gênero (p = < 0,001, X2 = 41,04), uma vez que o número de mulheres que realizam preces diariamente foi superior (54,8%) ao de homens (36,5%). Além disso, enquanto 29,3% dos homens afirmaram não realizar preces e orações, apenas 8,9% das mulheres não realizam essas práticas em seu cotidiano. Constatou-se ainda que 47,6% dos participantes contribuem frequente ou esporadicamente para seu grupo religioso, não havendo diferenças significativas entre os dois grupos.

Quanto às crenças religiosas, como poder ser observado na Tabela 3, 79,6% dos estudantes afirmaram acreditar na existência de Deus (p = < 0,001, X2 = 38,15) e 56,6% na existência do Diabo (p = < 0,001, X2 = 18,05), com diferença significativa entre os gêneros. Nesse sentido, houve um maior número de mulheres que afirmaram acreditar nesses seres (86% e 61,9%) do que homens (64,7% e 47,3%). Ainda nessa vertente, 57,4% dos entrevistados afirmaram crer na existência de vida após a morte, não sendo possível constatar diferenças significativas entre os dois grupos. Entretanto, observou-se uma associação entre o gênero e a crença na possibilidade de reencarnação (p = 0,002, X2 = 12,13), sendo essa mais recorrente entre as mulheres (35%) do que entre os homens (22,2%). Entre o grupo geral, a porcentagem de pessoas que acreditam na reencarnação foi de 31,2%. Além disso, 33,2% dos entrevistados afirmaram já ter tido contato com algum ser sobrenatural (anjos, demônios, espíritos etc.), não sendo possível observar diferenças significativas entre homens e mulheres.

Tabela 3 Crenças e valores religiosos dos participantes 

Variáveis Geral Fem. Masc. X2 p
n % n % n %
Acredita na existência de Deus Sim 447 79,6 339 86,0 108 64,7 38,15 < 0,001
Não 57 10,2 22 5,6 35 21,0
Talvez 57 10,2 33 8,4 24 14,4
Acredita na existência do Diabo Sim 323 57,6 244 61,9 79 47,3 18,05 < 0,001
Não 153 27,3 87 22,1 66 39,5
Talvez 85 15,1 63 16,0 22 13,2
Acredita na existência de vida após a morte Sim 322 57,4 234 59,4 88 52,7 3,74 0,15
Não 147 26,2 94 23,9 53 31,7
Talvez 92 16,4 66 16,8 26 15,6
Acredita na possibilidade de reencarnação Sim 175 31,2 138 35,0 37 22,2 12,13 0,002
Não 291 51,9 186 47,2 105 62,9
Talvez 95 16,9 70 17,8 25 15,0
Já teve contato com algum ser sobrenatural? Sim 186 33,2 133 33,8 53 31,7 0,28 0,869
Não 293 52,2 203 51,5 90 53,9
Talvez 82 14,6 58 14,7 24 14,4
Namoraria uma pessoa adepta de uma religião ou grupo ou com uma visão religiosa diferente da sua? Sim 341 60,8 239 60,7 102 61,1 0,01 0,990
Não 70 12,5 49 12,4 21 12,6
Talvez 150 26,7 106 26,9 44 26,3
Em época de eleições, costuma levar em consideração a opinião de líderes da sua igreja ou religião? Sim 63 11,2 49 12,4 14 8,4 1,94 0,378
Não 422 75,2 292 74,1 130 77,8
Talvez 76 13,6 53 13,5 23 13,8
Votaria em um candidato adepto de uma religião diferente da sua? Sim 455 81,1 320 81,2 135 80,8 0,30 0,857
Não 23 4,1 15 3,8 8 4,8
Talvez 83 14,8 59 15,0 24 14,4
Já deixou de fazer alguma coisa ou atividade por uma razão ou crença religiosa? Sim 212 37,8 149 37,8 63 37,7 4,47 0,106
Não 314 56,0 215 54,6 99 59,3
Talvez 35 6,2 30 7,6 5 3,0

Nota. X2: coeficiente qui-quadrado de Pearson; p = valor de p.

Dentre os participantes, 37,8% dos respondentes já deixaram de fazer alguma coisa ou atividade por alguma razão ou crença religiosa. Observa-se também que apenas 12,5% afirmaram que não namorariam uma pessoa adepta de uma religião diferente da sua, assim como apenas 4,1% dos estudantes responderam que não votariam em um candidato a um cargo político com vinculação religiosa distinta da sua. Contudo, 11,2% afirmaram levar em consideração a opinião dos seus líderes religiosos em época de eleições. Para essas variáveis, não foram encontradas associações estatisticamente significativas entre os gêneros.

No que tange à vida acadêmica, conforme observado na Tabela 4, apenas 7,9% dos participantes consideram que a sua religião influenciou a escolha do seu curso de graduação e 24,8% afirmaram que já sentiram medo ou constrangimento de manifestar sua visão religiosa na instituição na qual estudam. Apenas 32,2% dos entrevistados participaram de alguma aula ou evento acadêmico que discutisse o tema da religiosidade. Também não foi possível identificar diferenças significativas entre as respostas de homens e mulheres para essas variáveis.

Tabela 4 Religiosidade no cotidiano acadêmico dos homens e das mulheres participantes 

Variáveis Geral Fem. Masc. X2 p
n % n % n %
Sua religião e/ou visão religiosa influenciaram a escolha do seu curso de graduação? Sim 44 7,9 28 7,1 16 9,6 1,30 0,519
Não 481 85,7 342 86,8 139 83,2
Talvez 36 6,4 24 6,1 12 7,2
Já sentiu medo ou constrangimento em manifestar, na faculdade/universidade, sua visão religiosa? Sim 139 24,8 89 22,6 50 29,9 3,67 0,159
Não 377 67,2 274 69,5 103 61,7
Talvez 45 8,0 31 7,9 14 8,4
Acredita que Deus ou alguma figura sobrenatural pode ajudá-lo(a) nos estudos? Sim 320 57,1 247 62,7 73 43,7 27,65 < 0,001
Não 165 29,4 90 22,8 75 44,9
Talvez 76 13,5 57 14,5 19 11,4
Acredita que Deus ou alguma figura sobrenatural pode ajudá-lo(a) nos resultados das provas e dos trabalhos? Sim 223 39,7 181 45,9 42 25,1 30,96 < 0,001
Não 250 44,6 146 37,1 104 62,3
Talvez 88 15,7 67 17,0 21 12,6
Acredita que Deus ou algum ser sobrenatural pode ajudá-lo(a) em sua profissão? Sim 355 63,3 271 68,8 84 50,3 29,85 < 0,001
Não 142 25,3 74 18,8 68 40,7
Talvez 64 11,4 49 12,4 15 9,0
Já participou de alguma aula ou evento acadêmico que discutisse o tema da religiosidade em seu curso de graduação? Sim 181 32,2 130 33,0 51 30,5 0,86 0,647
Não 370 66,0 256 65,0 114 68,3
Talvez 10 1,8 8 2,0 2 1,2

Nota. X2: coeficiente qui-quadrado de Pearson; p = valor de p.

Outros 57,1% afirmaram acreditar que Deus ou alguma figura sobrenatural pode ajudar nos estudos (p = < 0,001, X2 = 27,65), assim como nos resultados das provas e dos trabalhos (39,7%, p = < 0,001, X2 = 30,96) e no exercício da sua profissão (63,3%, p = < 0,001, X2 = 29,85). Novamente, constatou-se que a crença na ajuda de seres sobrenaturais foi mais recorrente entre as mulheres do que entre os homens.

Discussão

O perfil das estudantes participantes do presente estudo reflete as recentes e constantes transformações no cenário religioso brasileiro, especialmente no que se refere ao crescimento rápido e contínuo dos evangélicos, bem como das pessoas sem religião (Camurça, 2019). Vale lembrar que, no Brasil, os evangélicos constituem um grupo diverso e heterogêneo marcado por disputas e divergências dogmáticas entre os diferentes segmentos (Rivera & Fidalgo, 2019). Nesse sentido, o fato de a maior parte dos estudantes ter se declarado evangélica parece refletir essa diversidade, sobretudo nas últimas décadas, em que esse segmento religioso vem ganhando novas expressões no país, assim como mais adeptos (Camurça, 2019). Estudos como os de Lages (2019) e Nogueira (2020) vêm indicando que a intolerância religiosa que as religiões de matrizes africanas sofrem na sociedade brasileira também é vivenciada no contexto universitário, contribuindo para que os adeptos desses grupos omitam sua vinculação religiosa, identificando-se como sem religião ou como fiéis de outros grupos menos estigmatizados.

Diferentes fatores vêm sendo apontados como responsáveis pela expansão dos grupos de evangélicos no Brasil - entre eles, a redução do poder institucional da Igreja Católica, antes responsável por diferentes aspectos da vida do cidadão brasileiro, como registro de nascimento, definição de leis, gerenciamento de cemitérios, entre outros (Camurça, 2019; Silva, 2017); o grande investimento dos grupos evangélicos em ações proselitistas que visam à evangelização e conversão em massa da população (Silva, 2017; Rivera & Fidalgo, 2019); e, principalmente, o engajamento de novas igrejas evangélicas em propostas de culto que visam à solução mágica e imediata de diferentes males, em especial aqueles relacionados à saúde e à vida financeira, proporcionando aos fiéis uma expectativa de ascensão social e melhoria das condições de vida, antes sequer imaginadas pela população mais pobre do país (Camurça, 2019; Rivera & Fidalgo, 2019).

Os dados também revelam que as crenças e as práticas religiosas constituem o cotidiano dos universitários. Além disso, muitos dos universitários participantes desta investigação preservam suas crenças e práticas religiosas e, portanto, acreditam em Deus, no Diabo e na existência de fenômenos sobrenaturais, como a vida após a morte e a reencarnação. Resultados semelhantes vêm sendo constatados na literatura científica, indicando que, durante a trajetória acadêmica, os estudantes preservam suas crenças e práticas religiosas, contudo vivenciam-na de forma privada, temendo os efeitos da intolerância, caso a compartilhem com seus colegas e docentes nas universidades (Lages, 2019; Nogueira, 2020; Swatowiski et al., 2018).

Esses dados também refletem as crenças religiosas da população brasileira que ainda hoje se mantêm como importantes elementos organizadores dos modos de pensar, sentir e agir em relação a diversos temas (Bairrão, 2017; Camurça, 2019). Estudos realizados com a população universitária brasileira também observaram a influência da religiosidade nos comportamentos dos estudantes, como nas práticas de lazer, no consumo de substâncias psicoativas (álcool e outras drogas), entre outros (Lages, 2019; Nascimento & Roazzi, 2017; Pereira & Holanda, 2019; Swatowiski et al., 2018).

Observa-se ainda que, para o grupo de estudantes investigado neste estudo, a religiosidade ocupa um papel de estratégia de enfrentamento das situações estressantes que permeiam a vida acadêmica. Nesse sentido, os participantes deste estudo acreditam que Deus ou alguma figura sobrenatural pode auxiliá-los nos estudos, nos resultados das provas e dos trabalhos, assim como no exercício da sua profissão. Resultados semelhantes vêm sendo identificados na literatura científica, que vem apontando que a religiosidade influencia positivamente a satisfação com a vida, a melhoria da saúde mental e a busca por estratégias mais saudáveis e positivas para os desafios da vida universitária (Fleury et al., 2018; Piergiovanni & Depaula, 2018).

Entretanto, se os resultados apontam para a importância da religiosidade na vida dos estudantes, os dados também revelam que a discussão dessas temáticas no âmbito universitário ainda se mostra incipiente. Nesse sentido, apenas um terço dos estudantes afirmou ter participado de alguma aula ou evento acadêmico que discutissem temas relacionados à religiosidade. Além disso, quase um terço dos universitários afirmou ter sentido medo ou constrangimento ao manifestar sua visão religiosa em sua instituição de ensino. Esses dados tornam-se ainda mais intrigantes quando se considera a maior participação, no presente estudo, de universitários de cursos de ciências humanas, sociais e aplicadas, que, em geral, incluem em seus projetos pedagógicos discussões sobre diversos fenômenos sociais, como aquelas referentes à vida da própria comunidade universitária. Entretanto, os dados nos levam a questionar se a religiosidade ainda ocupa um lugar limitado e silenciado no ensino superior brasileiro, inclusive em áreas nas quais o debate sobre o tema seria fundamental.

Ao contrário da máxima, popularmente difundida, de que “religião não se discute”, estudos vêm demonstrando a necessidade da inclusão de temáticas relacionadas à vida religiosa no âmbito acadêmico (Chaves et al., 2015; Fleury et al., 2018). Obviamente, não se trata de reproduzir as crenças e as práticas religiosas na universidade, mas, sim, de abrir espaços de discussão crítica sobre um fenômeno importante em nossa sociedade e, como os dados afirmam, tão presente no cotidiano dos estudantes, que passam parte da vida nas universidades (Pereira & Holanda, 2019).

Os resultados também vão ao encontro da literatura científica ao evidenciarem diferenças no modo como homens e mulheres concebem e colocam em prática sua vida religiosa cotidianamente, revelando importantes implicações do modo como eles são socializados e constroem suas experiências masculinas e femininas (Martins, 2019; Rosas, 2015; Swatowiski et al., 2018). Nessa perspectiva, observou-se que as mulheres se consideram mais religiosas e também possuem um maior repertório de crenças e práticas religiosas.

Esses dados corroboram os achados de outros estudos, que apontam para as influências das questões de gênero e do processo de socialização sexista nos modos como os homens e as mulheres se vinculam à vida religiosa (Camurça, 2019; Martins, 2019; Rosas, 2015; Swatowiski et al., 2018). Em um estudo conduzido por Orellana et al. (2020) com um grupo de universitários espanhóis, constatou-se uma forte associação entre as crenças religiosas dos estudantes, sobretudo os homens, com estereótipos e atitudes sexistas. Conforme destaca Rosado-Nunes (2017), a maioria das religiões configura-se como instituições sociais que, historicamente, contribuem para o processo de dominação das mulheres e manutenção do patriarcado, justificando, a partir de discursos religiosos, as desigualdades de gênero e as violências dos homens contra as mulheres.

Vale lembrar que, apesar das constantes lutas pela transformação nas relações entre os gêneros, em contextos marcados pela influência do cristianismo, como o Brasil, ainda predomina, especialmente no âmbito do cristianismo, a representação social de Deus como um homem, caracterizado por atributos, socialmente reconhecidos como masculinos, que ressaltam sua virilidade e hombridade, tais como a força física, a coragem e o seu papel de pai, protetor e provedor da humanidade (Martins, 2019; Schultz, 2017). Tais características passam a ser incorporadas e reproduzidas pelos fiéis, de modo que as crenças religiosas também contribuem para o delineamento de prescrições sobre os comportamentos de homens e mulheres (Martins, 2019; Rosado-Nunes, 2017; Rosas, 2015). Resultados semelhantes vêm sendo constatados no âmbito das religiões de outras matrizes, como as africanas, também expressivas no cenário religioso brasileiro (Barros & Bairrão, 2015; Nascimento et al., 2001).

Em um estudo que investigou as representações de Deus de um grupo de mestrandos e doutorandos em Psicologia Clínica, Ancona-Lopes (2004) observou que Deus era representado como um homem idoso, barbudo, bom e justo, ou caracterizado por qualidades excepcionais, como poder, amor incondicional e onipotência. A autora destaca que, no contexto cristão, “Deus é visto por meio do homem”, o qual passa a se perceber como o “lócus da manifestação da divindade” (Ancona-Lopes, 2004, p. 80). Na mesma vertente, Viero (2005) aponta para a influência da cultura patriarcal e androcêntrica na construção da imagem de Jesus Cristo, no âmbito do cristianismo. Segundo a autora, “se Jesus é homem, então a masculinidade é percebida como uma característica essencial do próprio ser divino, ou pelo menos, como mais próxima do Divino que a feminilidade” (Viero, 2005, p. 172). Ainda de acordo com Viero (2005), essas concepções fortalecem “uma antropologia androcêntrica, que eleva o ser humano de sexo masculino à norma e modelo do humano, distorcendo a boa-nova da salvação cristã” (p.172). Nessa mesma perspectiva, Schultz (2017) destaca que, assim como muitos personagens bíblicos, Jesus também é apresentado como um modelo ideal de masculinidade e lembra que o corpo de Cristo é, antes de tudo, “um corpo de homem”.

Ainda no que se refere às diferenças na vinculação e nas práticas religiosas de homens e mulheres, constatada neste estudo, é preciso considerar que, ainda hoje, a virilidade dos meninos e jovens é colocada à prova, cabendo a eles atestá-la e comprová-la aos demais membros do grupo por meio de comportamentos que garantam a sua autenticidade e o reconhecimento social (Bourdieu, 1998/2011; Martins, 2019). Assim, pensamentos, gestos corporais, modos de falar e vestir, entre outros comportamentos, são cuidadosamente vigiados e, se necessário, punidos, visando a extinguir quaisquer dúvidas sobre a virilidade desses sujeitos (Bourdieu, 1998/2011). Esse processo também produz marcas nas crenças e nos comportamentos religiosos masculinos (Martins, 2019). Estudos apontam que os homens procuram o conforto religioso em situações de graves crises pessoais e familiares, em que já não mais conseguem corresponder aos ideais de masculinidade, como em situações de desemprego, dependência química e adoecimento, que colocam em xeque seu suposto papel, natural e espiritual, de protetor e provedor de suas famílias (Buchardt, 2017; Lemos, 2011; Martins, 2019).

Desse modo, a busca por serviços e líderes religiosos pode ser vista, para muitos homens, como um sinônimo de fraqueza e vulnerabilidade, sendo associada ao âmbito do feminino (Rosado-Nunes, 2017; Martins, 2019). Esse fenômeno pode auxiliar na compreensão do fato de os homens participantes deste estudo recorrerem, com menor frequência, aos recursos religiosos para o enfrentamento de situações cotidianas, incluindo aquelas situadas no âmbito universitário. Por sua vez, conforme demonstram alguns estudos, as mulheres encontram nas religiões uma reprodução das desigualdades de gênero, bem como expectativas sociais que reforçam os estereótipos difundidos em outras instituições sociais, favorecendo uma maior adesão religiosa desse grupo (Barros & Bairrão, 2015; Rosado-Nunes, 2017).

Considerações finais

O presente estudo evidencia a importância da religiosidade no cotidiano de um grupo de estudantes universitários brasileiros, indicando a presença de crenças e comportamentos religiosos que compõem o cotidiano desses sujeitos. Os resultados também revelam que, durante a trajetória acadêmica, esses estudantes mantiveram suas crenças religiosas e, inclusive, utilizaram-nas como recursos no enfrentamento dos desafios que se apresentam na vida acadêmica, como trabalhos e provas, e também em situações cotidianas, como nos relacionamentos afetivos, nas escolhas políticas e profissionais, entre outras.

Os dados também apontam para a incipiência da discussão sobre as temáticas relacionadas à religiosidade no âmbito acadêmico investigado, de modo que grande parte dos entrevistados relatou medo ou constrangimento de manifestar sua visão religiosa na instituição em que estudam. Nesse sentido, os dados também revelam a importância de maiores investimentos em ações e propostas que abram espaços para a discussão sobre as religiosidades no âmbito universitário, reconhecendo-as como potentes fenômenos para ampliar a compreensão acerca das relações de gênero.

Também foi possível constatar, entre os participantes, diferenças associadas ao gênero, revelando que, assim como em outros contextos sociais, as instituições religiosas, em geral, também são atravessadas por expectativas sobre papéis masculinos e femininos, as quais orientam seus modos de conceberem a si mesmos, os outros e o mundo. Nesse sentido, no grupo investigado, enquanto grande parte dos homens se autodeclarou sem religião, observou-se que a maioria das mulheres se considera religiosa e apresenta maior tempo de adesão ao mesmo grupo religioso. Quando comparadas aos homens participantes, as mulheres afirmam, com maior frequência, acreditar em Deus, no Diabo, na possibilidade reencarnação e na ajuda de seres sobrenaturais, além de realizarem mais preces e orações do que os homens, refletindo as construções sociais da masculinidade e feminilidade.

As principais limitações do estudo estão relacionadas ao fato de tratar-se de uma amostra de conveniência, de modo que os resultados aqui apresentados e discutidos devem ser generalizados de forma parcimoniosa, considerando os limites desse tipo de investigação. Também é preciso considerar que o estudo foi construído a partir do autorrelato dos estudantes, o que também implica uma limitação, uma vez que nem sempre o discurso dos participantes corresponde às suas práticas e aos seus comportamentos.

Outras limitações, como a diversidade religiosa e de áreas do conhecimento do grupo de participantes, a distribuição geográfica dos estudantes e as diferentes características das instituições de ensino superior às quais os universitários participantes estão vinculados, devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Além disso, é preciso levar em conta a complexidade que envolve o estudo de crenças e comportamentos religiosos, sobretudo quando se considera que outras variáveis não controladas no estudo, como suporte familiar, condições de estudo, qualidade de aulas, motivação, autoeficácia, entre outras, também devem ser ponderadas na interpretação dos resultados.

Assim, embora não tenha sido proposta do estudo realizar comparações entre religiões ou áreas de formação acadêmica, outras investigações poderão dar ênfase a determinadas áreas do conhecimento e segmentos religiosos que compõem o cenário brasileiro. Além disso, é possível que novos estudos considerem outros grupos, como os espíritas, as religiões de matrizes africanas, as orientais, os vegetalistas e, mesmo, as pessoas sem religião, que, apesar de representarem um menor número entre os participantes do presente estudo, também compõem o cenário religioso brasileiro. Tais estudos poderão ampliar a compreensão acerca das singularidades dos modos de pensar, sentir e agir desses grupos, evidenciando como eles auxiliam na construção de identidades masculinas e femininas, assim como em práticas sociais, como as da vida universitária.

Outras investigações também poderão se debruçar sobre o estudo sistemático das práticas e dos comportamentos religiosos, incluindo pesquisas que considerem métodos como a observação em diferentes contextos, tanto nos acadêmicos como nas instituições religiosas. Essas pesquisas poderão considerar as práticas de fiéis, como também de lideranças, e incluir os comportamentos das pessoas que se denominam sem religião. Por fim, recomenda-se a realização de novas pesquisas que analisem outras variáveis não consideradas no presente estudo e que permitam discutir a influência de outros fatores relacionados às características familiares e escolares, às diferenças individuais e de personalidade, entre outros.

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Recebido: 03 de Novembro de 2020; Aceito: 10 de Novembro de 2021

Editor de seção: Enzo Banti Bissoli.

Correspondências referentes a este artigo devem ser enviadas para Alberto M. Martins, Avenida Costa e Silva, s/n, Bairro Pioneiros, Campo Grande, MS, Brasil. CEP 79070-900. E-mail: albertomesaque@yahoo.com.br

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