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Psicologia: teoria e prática
versão impressa ISSN 1516-3687
Psicol. teor. prat. vol.26 no.1 São Paulo 2024 Epub 16-Dez-2024
https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptpcp15651.pt
Psicologia Clínica
Gravidade da Depressão Materna, Parentalidade e Comportamento de Escolares: Uma Revisão Sistemática
2Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
A depressão tem alta incidência e recorrência, com episódios de diferentes níveis de gravidade, sendo mais frequente em mulheres. A depressão materna tem reconhecido impacto para a parentalidade e para o comportamento de escolares. Contudo, a influência da gravidade da depressão tem sido abordada de forma menos sistemática. Objetivou-se analisar estudos empíricos recentes que abordem conjuntamente o impacto da gravidade da depressão materna para a parentalidade e para o comportamento de alunos. Procedeu-se a busca de artigos empíricos publicados entre 2016-2022, adotando-se as diretrizes do PRISMA e as palavras-chave: “maternal depress*; parenting; behavior problem”. Identificaram-se nas bases PsychInfo, PubMed, Web of science, Lilacs e SciElo 737 estudos e selecionaram-se 10 para análise. Outros dois estudos foram incluídos por meio das referências bibliográficas dos artigos identificados totalizando 12 estudos para análise final. Com relação aos delineamentos, a maioria dos estudos adotou o transversal e fizeram análises de predição. Verificou-se que a depressão em diferentes níveis de gravidade foi associada a menos práticas positivas e a problemas de comportamento de escolares e que a depressão atual, em relação à cronicidade do transtorno, pode explicar, de melhor forma, o impacto negativo para as práticas parentais. Tais achados podem ser norteadores para profissionais de saúde que atendem a crianças com problemas de comportamento, no sentido de pautarem as suas orientações considerando também a condição de saúde mental das mães. Sugere-se que novos estudos abordem de forma conjunta o impacto de diferentes níveis de gravidade da depressão materna para a parentalidade e para o comportamento.
Palavras-chave: depressão; relações familiares; comportamento infantil; criança; revisão sistemática
Depression is highly incident and recurrent, with episodes of different levels of severity being more frequent among women. Maternal depression is known for its impact on parenting and schoolchildren’s behavior. However, the influence of depression severity has been less systematically addressed. Therefore, the objective was to analyze recent empirical studies that address the impact of the severity of maternal depression on parenting and schoolchildren’s behavior. Empirical articles published between 2016-2022 were searched using PRISMA guidelines and the keywords: “maternal depress*; parenting; behavior problem.” A total of 737 studies were found in PsychINFO, PubMed, Web of Science, Lilacs, and Scielo databases, ten of which were selected for analysis. Another two studies found in the bibliographic references of the articles identified were included; hence, 12 studies were included in the final analysis. Regarding the studies’ designs, most adopted a cross-sectional design and performed prediction analyses. Depression at different levels of severity was associated with fewer positive practices and behavior problems among students; however, the chronic nature of current depression was found to explain the negative impact on parental practices better. Such findings can guide health professionals assisting children with problem behavior, providing guidelines that consider the mothers’ mental health condition. Further studies are suggested to address the impact of different levels of severity of maternal depression on parenting and schoolchildren’s behavior.
Keywords: depression; family relations; child behavior; child; systematic review
La depresión tiene alta incidencia y recurrencia, con episodios de diferentes niveles de gravedad, siendo más frecuente en mujeres. La depresión materna tiene reconocido impacto en la parentalidad y en el comportamiento de escolares. Sin embargo, la influencia de la gravedad de la depresión ha sido abordada de forma menos sistemática. Se tuvo por objetivo analizar estudios empíricos recientes que aborden, conjuntamente, el impacto de la gravedad de la depresión materna en la parentalidad y en el comportamiento de escolares. Se procedió a buscar artículos empíricos publicados entre 2016 y 2022, adoptando las directrices del PRISMA y las palabras clave: “maternal depress*; parenting; behavior problem”. Se identificaron, en las bases de datos PsychINFO, PubMed, Web of science, Lilacs e Scielo, 737 estudios y se seleccionaron 10 para el análisis. Otros dos estudios fueron incluidos por medio de las referencias bibliográficas de los artículos identificados, totalizando 12 estudios para el análisis final. Con relación a los delineamientos, la mayoría de los estudios adoptó el transversal y se realizaron análisis de predicción. Se verificó que la depresión en diferentes niveles de gravedad fue asociada a menos prácticas positivas y a problemas de comportamiento de escolares; y, que la depresión actual, en relación a la cronicidad del trastorno, puede explicar mejor el impacto negativo en las prácticas parentales. Esos hallazgos pueden servir de guía para profesionales de la salud que atienden niños con problemas de comportamiento, con el fin de orientar sus directrices, considerando también la condición de salud mental de las madres. Se sugiere que nuevos estudios aborden de forma conjunta el impacto de diferentes niveles de gravedad de la depresión materna en la parentalidade y en el comportamiento.
Palabras-clave: depresión; relaciones familiares; comportamiento infantil; niños; revisión sistemática
A depressão é um transtorno frequente, que atinge mais de 300 milhões de pessoas no mundo (WHO, 2023). Enquanto transtorno mental, denominado transtorno depressivo maior, tem como aspectos centrais o humor deprimido e a perda de prazer e/ou interesses em atividades que antes traziam satisfação para o indivíduo, com prejuízos significativos em áreas importantes da vida, como os relacionamentos interpessoais e o trabalho (DSM-5-TR, 2022).
Pode-se qualificar a depressão em níveis de gravidade relativos à intensidade e à duração dos sintomas e aos prejuízos para a funcionalidade. A depressão grave apresenta mais sintomas do que os necessários para o diagnóstico, trazendo muito sofrimento para o indivíduo e impactando seriamente sua vida social e laboral. Já a depressão moderada apresenta um número de sintomas suficientes para o diagnóstico, causando sofrimento significativo e prejuízos em áreas importantes da vida. A depressão leve, por sua vez, apresenta menos sintomas do que os necessários para o diagnóstico, sua intensidade é mais branda e afeta pouco a funcionalidade do indivíduo. A depressão também pode ser caracterizada como atual, quando os sintomas estão presentes nas duas últimas semanas, ou como crônica, quando os sintomas são recorrentes e persistem por pelo menos dois anos (DSM-5-TR, 2022).
Em relação à prevalência, o transtorno tem uma taxa maior em mulheres, com índices quase duas vezes superiores aos dos homens, especialmente no período entre a menarca e a menopausa (DSM-5-TR, 2022). No Brasil, dados relativos à Pesquisa Nacional de Saúde [PNS] de 2019 mostram que a prevalência do transtorno autorreferido na população adulta foi de 10,2%; para as mulheres essa taxa foi de 14,7% (Brito; Bello-Corassa; Stopa; Sardinha; Dahl & Vianna, 2022).
A maior prevalência em mulheres e o período de incidência na idade fértil colocam em foco a relevância da depressão para mulheres que são mães. Na maioria das culturas, a população feminina é a principal responsável pelo cuidado dos filhos, sendo a depressão materna associada à qualidade das práticas de cuidado que são oferecidas e à adaptação das crianças (Goodman, Simon, Shamblaw & Kim, 2020).
As práticas de cuidados com os filhos podem ser referidas como parentalidade, uma adaptação de parenting, da língua inglesa - termo que, embora não exista formalmente na língua portuguesa, tem sido amplamente utilizado (Barroso & Machado, 2015). A parentalidade pode ser definida como o papel de cuidar dos filhos, enquanto um conjunto de ações destinadas a promover e facilitar o desenvolvimento, a aprendizagem e a socialização das crianças (Wei, Swan, Makover, & Kendall, 2017).
A adaptação de crianças tem especificidades de indicadores de acordo com as faixas etárias; para a idade escolar, os indicadores relativos ao comportamento são bastante reconhecidos, considerando que os problemas de comportamento são as dificuldades mais frequentes nessa faixa etária. Os problemas de comportamentos podem ser especificados em externalizantes, caracterizados por impulsividade, agressividade e hiperatividade, ou em problemas internalizantes, caracterizados por distúrbios pessoais, retraimento, baixa autoestima, sentimento de inferioridade, tristeza, queixas somáticas e de medo (Achenbach et al., 2008).
A associação positiva da depressão materna com problemas de comportamento infantil é bastante estabelecida, assim como a associação da depressão a múltiplas variáveis contextuais (Goodman et al., 2011), dentre essas, incluem-se a parentalidade e a gravidade do transtorno depressivo.
A metanálise de Goodman et al. (2020) identificou que a depressão foi significativamente associada a prejuízos em diversos domínios do funcionamento infantil, com efeitos mais expressivos em crianças em idade escolar, quando comparadas às mais jovens. Na análise, foram consideradas múltiplas variáveis contextuais, incluindo a parentalidade. Verificaram um papel moderador da parentalidade na relação entre depressão materna e o funcionamento infantil.
O impacto da gravidade e cronicidade dos sintomas depressivos para o comportamento das crianças tem sido abordado em alguns estudos. Conners-Burrow et al. (2016) verificaram que os filhos de mães com depressão de gravidade leve e grave tiveram duas vezes mais chances de apresentar problemas comportamentais, quando comparados aos filhos de mães sem depressão, contudo, não foram identificadas diferenças significativas quanto à sintomatologia leve e grave. Entrentanto, Cerniglia (2020) relatou com base em um estudo longitudinal que a depressão crônica de gravidade leve contribuiu significativamente para a predição de problemas de comportamento internalizantes e externalizantes das crianças.
Sintomas depressivos maternos atuais e passados e em diferentes níveis de gravidade foram abordados no estudo longitudinal de O’Connor, Langer e Tompson (2017) no tocante a crianças em idade escolar. A cronicidade, independentemente da gravidade, foi preditora de mais problemas externalizantes, destacando-se um efeito residual significativo de sintomas depressivos anteriores. Os autores constataram que, mesmo na presença de um histórico de depressão grave, menos sintomas atuais tiveram impacto para o comportamento das crianças.
As interações entre gravidade e cronicidade da depressão materna para os problemas cognitivos, comportamentais e emocionais das crianças foram abordadas na recente metanálise de Sutherland et al. (2021). No estudo, constatou-se que os filhos que conviveram com depressão materna de alta gravidade e crônica apresentaram mais problemas de comportamento do que crianças que conviveram exclusivamente com depressão crônica ou grave.
Ao se analisar a literatura citada, evidencia-se uma ampla e consolidada produção acerca do impacto negativo da depressão materna para a parentalidade e para os problemas de comportamento infantil. Contudo, mesmo nas metanálises mais recentes (Sutherland et al., 2021; Goodman et al., 2020), a gravidade das manifestações do transtorno depressivo materno não foi abordada como foco de análise em conjunto com a parentalidade e os problemas comportamentais.
A presente revisão sistemática se insere nessa lacuna e visa analisar estudos empíricos recentes que abordam conjuntamente o impacto que a gravidade da depressão materna tem sobre a parentalidade e o comportamento de escolares. Tem-se como hipótese norteadora que a maior gravidade e/ou cronicidade da depressão materna suscetibiliza diretamente os problemas de comportamento e as práticas parentais. Buscar-se-á identificar nos estudos analisados os possíveis efeitos mediados entre tais variáveis.
Método
Trata-se de uma revisão sistemática conduzida pela pergunta de pesquisa: a gravidade da depressão materna tem impacto diferenciado para a parentalidade e para o comportamento infantil? A presente revisão foi registrada no protocolo preestabelecido no registro prospectivo internacional de revisões sistemáticas (Prospero, CRD42021246049) e conduzida seguindo todos os procedimentos relatados de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses [PRISMA] (Liberati, Tetzlaff & Altman, 2009).
Critérios de inclusão do material na revisão
Procedeu-se a pesquisa nas bases de dados PubMed, PsycInfo, Web of Science, Lilacs e na biblioteca eletrônica SciELO, buscando-se identificar artigos empíricos, publicados no período de 2016 a agosto de 2022 que abordaram de modo combinado a gravidade da depressão materna, a parentalidade das mães e os problemas de comportamento dos filhos em idade escolar.
Para a pesquisa nas bases de dados, utilizaram-se filtros relativos ao ano de publicação. No PubMed, PsycInfo e Web of Science foi utilizada a seguinte combinação de palavras-chave: parenting AND (current OR past OR recurrent depression OR severity OR chronicity) AND (maternal depress* OR depress* mother) AND (behavior problem OR behavioral problems OR internalizing OR externalizing problems). Nas fontes Lilacs e SciELO foram pesquisadas quatro duplas de palavras-chave: maternal depress* AND parenting; maternal depress* AND behavior problems; maternal depress* AND cronicity; parenting AND behavior. Adicionalmente, verificaram-se as referências bibliográficas dos artigos incluídos e analisados na íntegra, buscando-se identificar outros estudos com a mesma temática da revisão que atendessem aos critérios de inclusão e exclusão.
Adotou-se como critérios para a inclusão dos artigos: (1) publicados nos últimos seis anos (2016 a agosto de 2022); (2) idioma inglês, português ou espanhol; (3) população humana; (4) empíricos quantitativos; (5) conduzidos com crianças em idade escolar, entre 6 e 11 anos (nos estudos longitudinais, consideraram-se aqueles em que a medida de desfecho foi realizada em pelo menos um dos momentos com a faixa etária especificada); e (6) que adotaram medidas sistemáticas de depressão materna, parentalidade materna e problemas de comportamento das crianças.
Adotou-se como critérios para a exclusão dos estudos: (1) modalidades de estudos como revisão, metanálises, comentários, recomendações, cartas, editoriais, psicométricos, qualitativos e mistos; (2) objetivos ou foco principal em medidas e variáveis biológicas, em outros transtornos mentais de mães e/ou crianças, em condições médicas gerais; na exposição à violência e/ou abuso; em variáveis psicossociais ou interculturais; e (3) voltados para a descrição, aplicação e avaliação de programas de intervenção.
Procedimentos de coleta dos dados dos estudos
Os estudos identificados nas bases de dados referidas foram extraídos para o software de uso livre Rayyan® (Ouzzani et al., 2016). Desse conjunto, duas juízas, de forma consensual, selecionaram os estudos com base nos critérios de inclusão e exclusão preestabelecidos, por meio da leitura de títulos e resumos. Em alguns casos, foi necessária a leitura do texto completo para avaliar se ele seria ou não incluído.
O percurso de seleção dos estudos está apresentado na Figura 1.

Fonte: http://www.prisma-statement.org/PRISMAStatement/FlowDiagram
Figura 1 Percurso de seleção dos artigos.
Procedimentos de análise dos dados dos estudos
Os estudos incluídos foram lidos na íntegra pelas duas juízas, e as informações foram inseridas em uma tabela, considerando-se as características relativas aos objetivos, delineamento, participantes, instrumentos, procedimentos de coleta e análise de dados, resultados principais relativos à parentalidade e ao comportamento, limitações e recomendações descritas nos estudos.
A qualidade metodológica dos estudos empíricos incluídos foi aferida por meio de três ferramentas do Joanna Brigs Institute [JBI] (2020). Foram utilizados o JBI Checklist for Analytical Cross Sectional Studies, composto por oito itens, para avaliar seis artigos transversais; o JBI Checklist for Cohort Studies, composto por 11 itens, para avaliar cinco artigos de coorte; e o JBI Checklist for Case Control Studies, composto por dez itens, para avaliar o estudo de caso controle inserido na revisão. A codificação dos estudos foi realizada por dois avaliadores independentes, com índices de concordância de 95%. Quando da ocorrência de discordâncias, os pontos de dúvida foram discutidos, e considerou-se para a análise final a pontuação de consenso.
Resultados
A caracterização das variáveis apresentadas com relação aos estudos analisados será referida considerando-se os números daqueles contidos nas tabelas. Os resultados estão agrupados em três tabelas que apresentam a caracterização dos estudos quanto às amostras, delineamentos, informantes e indicadores de viés (Tabela 1); quanto aos principais instrumentos e procedimentos utilizados (Tabela 2); e quanto aos objetivos dos estudos e aos principais resultados (Tabela 3).
Tabela 1 Caracterização dos estudos analisados quanto as amostras, delineamentos, informantes e indicadores de risco de viés* (n=12).
| Estudos | Amostras | Desenho | Informantes | Score JBI* |
|---|---|---|---|---|
| 1- Ahun, et al. (2017) | 1218 Coorte |
Longitudinal Preditivo |
Mães e professores | 10/11** |
| 2- Bolsoni-Silva & Loureiro (2020) | 70 Comunidade |
Transversal Preditivo |
Mães | 9/10*** |
| 3- Bolsoni-Silva & Loureiro (2019) | 151 díades/74 escolares Comunidade |
Transversal Comparação grupos |
Mães | 8/8* |
| 4- Burlaka, et al. (2017) | 251 Comunidade |
Transversal Preditivo |
Mães e crianças | 6/8* |
| 5- Cilino, et al. (2018) | 100 Comunidade |
Transversal Correlacional |
Mães | 8/8* |
| 6- Gajos & Beaver (2017) | 6691 Coorte |
Longitudinal Preditivo |
Mães | 9/11** |
| 7- Gruhn, et al. (2016) | 180 Comunidade |
Transversal Preditivo |
Mães | 8/8* |
| 8- Kuckertz, Mitchell & Wiggins (2018) | 5581 Coorte |
Longitudinal Preditivo-mediação |
Mães | 8/11** |
| 9- Rodrigues-Palucci, Pizeta & Loureiro. (2020) | 60 Comunidade |
Transversal Preditivo-mediação |
Mães e crianças | 8/8* |
| 10- Swetlitz, et al. (2021) | 206 Coorte |
Longitudinal Preditivo-mediação |
Mães e professores | 10/11** |
| 11- Watson, et al. (2022) | 116 Comunidade |
Transversal Preditivo |
Mães e crianças | 8/8* |
| 12- Wolford, Cooper & McWey (2019) | 325 Comunidade- especificidadeCoorte |
Longitudinal Preditivo-mediação |
Mães e crianças | 11/11** |
Legenda:
*JBI Checklist for Analytical Cross Sectional Studies,
**JBI Checklist for Cohort Studies e
***JBI Checklist for Case Control Studies.
Tabela 2 Caracterização dos instrumentos e procedimentos utilizados pelos estudos analisados para aferir a depressão materna e qualificar a gravidade, as práticas parentais e os tipos comportamentos infantis estudados (n=12).
| Estudos | Depressão materna | Práticas parentais | Comportamento |
|---|---|---|---|
| 1- Ahun, et al. (2017) |
CES-D DM: crônica |
Home Observation Measurement of the Environment PP: autoeficácia parental, impacto parental, coerção, afeição, superproteção, percepção das qualidades da criança |
Preschool Behaviour Questionnaire PC: internalizantes |
| 2- Bolsoni-Silva, et al. (2020) | PHQ-9 DM: atual leve (subclínica) e moderada/grave-(clínica) |
RE-HSE-P PP: conjunto de práticas agrupadas em positivas e negativas |
CBCL QRSH-Pais PC: internalizantes, externalizantes e escore total |
| 3- Bolsoni-Silva, et al. (2019) | PHQ-9 DM: atual moderada/grave |
RE-HSE-P PP: conjunto de práticas agrupadas em positivas e negativas |
CBCL PC: escore total |
| 4- Burlaka, et al. (2017) | CES-D DM: atual moderada/grave |
Alabama Parenting Questionnaire PP: envolvimento, PPP, pobre monitoramento, disciplina inconsistente, punição corporal |
YRS PC: internalizantes |
| 5- Cilino, et al. (2018) |
SCID-IV SDQ DM: crônica |
Entrevista semiestruturada PP: padrões positivos de organização familiar (flexibilidade, envolvimento parental, suporte) |
SDQ PC: escore total |
| 6- Gajos, et al. (2017) |
CES-D- 12 itens DM: atual moderada/grave e crônica |
Index criado para mensurar: parentalidade pobre; supervisão parental; demonstração de amor ou elogios; qualidade da interação |
Child antisocial behavioural index PC: escore total |
| 7- Gruhn, et al. (2016) |
BDI-II/ SCID-IV DM: atual moderada/grave e histórico de depressão prévia |
Iowa Family Interaction Rating Scales PP: parentalidade retraída e intrusiva |
CBCL PC: internalizantes/ externalizantes |
| 8- Kuckertz, et al. (2018) | CIDI-SF DM: diagnóstico |
The Parent Child Conflict Tactics Scales PP: agressão psicológica, disciplina não violenta, abuso físico e negligência |
CBCL PC: internalizantes |
| 9- Rodrigues-Palucci, et al. (2020) | PHQ-9 DM: atual moderada/grave |
EQIF PP: conjunto de práticas agrupadas em positivas e negativas |
SDQ PC: escore total |
| 10- Swetlitz, et al. (2021) | BSI-18 DM: atual moderada/grave |
Observação de brincadeira livre- (Parentalidade sensível e agressivo-intrusiva) | CBCL PC: internalizantes/ externalizantes |
| 11- Watson, et al. (2022) |
BDI-II DM: atual moderada/grave |
Observação de discussão entre mãe e filho- (mensagens de enfrentamento primárias, secundárias e desengajadas | CBCL PC: internalizantes |
| 12- Wolford et al. (2019) | CES-D DM: atual moderada/grave |
Parent to Child Conflict Tactics Scale PP: agressão psicológica e física |
CBCL PC: internalizantes/ externalizantes |
Legenda: DM (depressão materna); PC (problemas de comportamento); PP (práticas parentais) BDI-II (Beck Depression Inventory-II); BSI-18 (Brief Symptom Inventory-18); CBLC (Child Behavior Checklist); CES-D (Center for Epidemiologic Studies Depression Scale); CIDI-SF (Composite International Diagnostic Interview-Short Form); DM (depressão materna); EQIF (escala de qualidade nas interações familiares); PC (problema de comportamento); PCE (problemas de comportamento externalizante); PCI (problemas de comportamento internalizante); PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9); PP (práticas parentais); PPN (práticas parentais negativas); PPP (práticas parentais positivas); QRSH-Pais(Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para Pais); RE-HSE-P (Roteiro de Entrevista de Habilidades Sociais Educativas Parentais); SCID-IV (Structured Clinical Interview for DSM-IV); SDQ (Strengths and Difficulties Questionnaire); TRF (Child Behavior Checklist Teacher’s Report Form); YRF (Internalizing Problems Scale of the Youth Self-Report); YRS (Internalizing Problems Scale of the Youth Self-Report).
Tabela 3 Objetivos e principais resultados relativos às associações da depressão materna, parentalidade e comportamento infantil.
| Estudos/Objetivos | Principais resultados |
|---|---|
| Ahun, et al. (2017) Verificar associações entre a história de DM na primeira infância dos filhos e a trajetória desenvolvimental dos PCI das crianças antes e depois de controlar os fatores familiares associados a DM |
DM crônica preditora de PCI DM na primeira infância associada às trajetórias de PCI: Grupo: altos índices de PCI (Av. mães) e níveis crescentes (Av. professores) Grupo: baixos níveis de PCI (Av. mães) e nível moderado (Av. professores) Grupo: altos níveis de PCI (Av. mães e Av. professores) Baixa autoeficácia parental associada aos grupos de trajetórias de PCI elevados Sem associações entre DM e PCI com demais práticas |
| Bolsoni-Silva, et al. (2020) Identificar o efeito preditivo de práticas parentais positivas e negativas, e DM para os PC de crianças de famílias biparentais |
DM atual moderada/grave preditora de PCE DM (indicadores subclínicos) associada a mais PC (escore total) Associações da amostra total: PPN associadas a mais PC (escore geral) Sem associações significativas entre DM atual moderada/grave e PPP e PPN com PCI |
| Bolsoni-Silva, et al. (2019) Comparar as práticas parentais de mães de pré-escolares e escolares considerando variáveis DM e PC das crianças |
DM atual moderada/grave associada a menos PPP para escolares, não identificado para pré-escolares Menos PPP associadas a mais PC de escolares |
| 4- Burlaka, et al. (2017)
Examinar a associação entre PCI com variáveis do ambiente da criança, a saber: parentalidade e DM |
DM atual moderada/grave e pobre monitoramento preditores de PCI DM atual moderada/grave associada a monitoramento alto, disciplina inconsistente e punição corporal Punição corporal associada a mais PCI PPP associadas a menos PCI |
| 5- Cilino, et al. (2018)
Comparar associações entre padrões de organização familiar, e PC de filhos de mães com depressão recorrente, com filhos de mães sem transtornos psiquiátricos |
DM crônica associada a menos padrões positivos de organização familiar e a mais PC Padrões positivos de organização familiar associados a menos PC |
| 6- Gajos, et al. (2017) Examinar diferenças de mães deprimidas e não deprimidas quanto aos PC antissocial dos filhos, considerando diversas covariáveis, incluindo a parentalidade |
DM moderada/grave mensurada aos 6 e 11 anos foi preditora de PC aos 11 anos DM atual moderada/grave mensurada aos 9 anos não foi preditora de PC aos 11 anos DM crônica (mensurada aos 6, 9 e 11 anos) não foi preditora de PC aos 11 anos. Sem associações significativas entre DM e PC com práticas parentais |
| 7- Gruhn, et al. (2016)
Examinar a especificidade da relação entre parentalidade intrusiva e retraída com PCI e PCE de meninos e meninas no contexto de um histórico de depressão parental |
DM histórico/atual associada a parentalidade intrusiva (meninos), parentalidade retraída (ambos os sexos), PCI e PCE (ambos os sexos) DM histórico/atual preditora de PCI (meninas) e de parentalidade retraída (meninas) Parentalidade intrusiva preditora de PCI (ambos os sexos) Parentalidade retraída preditora de mais PCE (meninas) |
| 8- Kuckertz, et al. (2018)
Verificar os efeitos preditivos da DM para os PCI dos filhos e investigar potenciais mediadores, como a agressão psicológica, disciplina não violenta e abuso físico |
DM diagnosticada aos 3 anos preditora de PCI aos 9 anos, mediados pela agressão psicológica aos 5 anos Disciplina não violenta aos 5 anos preditora de mais PCI aos 9 anos Sem associações significativas entre DM e PC com agressão física |
| 9- Rodrigues-Palucci, et al. (2020)
Identificar associações entre DM, PC das crianças e percepções da qualidade das interações familiares, com foco na predição e mediação das variáveis |
PPP mediaram a relação preditiva entre DM e PC DM atual moderada/grave associada a menos PPP (Av. mães e Av. crianças), mais práticas parentais negativas (Av. mães e Av. crianças) e mais PC PPN associadas com mais PC (Av. mães) PPP associadas com menos PC (Av. crianças) |
| Swetlitz, et al. (2021) Verificar efeitos preditivos entre DM aos 6 meses com PCI e PCE relatados pelos professores aos 7 anos. Investigar o efeito moderador do envolvimento materno em conversas com o filho sobre experiências compartilhadas por ambos e da parentalidade sensível e intrusiva aos 5 anos |
Mais envolvimento materno em conversas com o filho sobre experiências compartilhadas por ambos mediaram a relação de predição entre DM atual moderada/grave aos 6 meses e PCE aos 7 anos Menos envolvimento materno em conversas com o filho sobre experiências compartilhadas por ambos aos 5 anos preditor de PCE (Av. professores) aos 7 anos Menos sintomas de DM atual moderada/grave aos 6 meses foi preditora de mais envolvimento materno em conversas com o filho sobre experiências compartilhadas aos 5 anos |
| 11-Watson, et al. (2022)
Verificar DM como potencial moderadora da associação entre mensagens de enfrentamento maternas e ajustamento das crianças |
DM atual moderada/grave preditora de PCI (Av. mães e Av. crianças) Menos mensagens de enfrentamento secundárias adaptação a um estressor- (Av. mães) foram preditores de PCI (Av. crianças) Menos estresse dos filhos entre os pares (Av. crianças) e mais mensagens desengajadas - fuga de um estressor-preditores menos de PCI Mais indicadores de depressão atual e menos mensagens de enfrentamento primário - encorajamento para enfrentar um estressor-preditores de mais PCI |
| 12- Wolford et al. (2019)
Verificar os efeitos mediadores da parentalidade rude na relação entre DM e PC das crianças, visando identificar fatores associados com a redução de transmissão de risco |
DM atual moderada/grave preditora de PCI e PCE - Relação mediada parcialmente pela agressão física e psicológica DM atual moderada/grave (6 e 12 anos) associada mais à agressão psicológica, à agressão física (6 anos), a PCI e a PCE (6 e 12 anos) Mais agressão física e psicológica (6 anos) associada a mais PCI e PCE (6 e 12 anos) |
Legenda: Av. (avaliação); DM (depressão materna); PC (problemas de comportamento); PCE (problemas de comportamento externalizantes); PCI (problemas de comportamento internalizantes); PP (práticas parentais); PPN (práticas parentais negativas); PPP (práticas parentais positivas).
A Tabela 1 traz as características gerais dos estudos quanto aos delineamentos adotados, caracterização das amostras e a qualidade metodológica.
O número de díades nas amostras dos estudos variou entre 50 e 17.067, tendo seis estudos entre 1 e 200 díades (2; 3; 5; 7; 9; 11). Verificou-se que 11 estudos foram conduzidos com amostras da comunidade e um foi conduzido com uma amostra da comunidade de mães que sofreram maus tratos (12).
Quanto aos aspectos metodológicos, sete estudos adotaram delineamentos transversais (2; 3; 4; 5; 7; 9; 11) e cinco foram longitudinais prospectivos (1; 6; 8; 10;12). Predominaram trabalhos de delineamento transversal (sete estudos) e que investigaram relações de predição (dez estudos), sendo um exclusivamente de comparação entre grupos (3) e um exclusivamente correlacional (5). Em relação aos informantes, seis estudos tiveram como avaliadoras apenas mães (2; 3; 5; 6; 7; 8) como informantes das três variáveis. A metade das comunicações teve, como avaliadores, múltiplos informantes, mães e crianças ou mães e professores.
Com relação à qualidade metodológica, avaliada pelas ferramentas do Joanna Brigs Institute (JBI), os seis estudos transversais (3; 4; 5; 7; 9; 11) apresentaram alta qualidade metodológica, dentre os quais apenas um deles (4) não obteve nota máxima no checklist, não contemplando os itens relativos à boa definição dos critérios de inclusão para a amostra e não fazendo uso de um instrumento validado para aferir a variável de desfecho. Os cinco estudos de coorte (1; 8; 6; 10; 12) também foram classificados com alta qualidade; um deles, inclusive, teve escore máximo. O item menos comtemplado nas pesquisas foi relativo à análise das perdas quanto à amostra inicial do estudo. O único artigo com delineamento caso controle (2) também foi classificado com alta qualidade, não contemplando apenas um item do checklist.
A Tabela 2 apresenta os principais objetivos dos estudos e os instrumentos utilizados para investigar as variáveis depressão materna, práticas parentais e problemas de comportamento.
Para mensurar a depressão materna, nove estudos utilizaram exclusivamente instrumentos de rastreamento, tendo como principais o CES-D em quatro deles (1; 4; 6; 12) e o PHQ-9 em três (2; 3; 9). Apenas duas comunicações utilizaram instrumentos de diagnóstico de depressão (5-SCID; 8-CIDI-SF); e um artigo utilizou um instrumento de diagnóstico e outro de rastreamento (7).
As práticas parentais foram mensuradas por medidas de autorrelato em oito trabalhos (2; 3; 4; 5; 6; 8; 9; 12). Tarefas observacionais foram utilizadas em quatro estudos (1; 7; 10; 11), os registros das sessões foram gravados, transcritos e codificados por avaliadores independentes.
Os problemas de comportamento foram mensurados a partir de instrumentos de autorrelato, fazendo uso principalmente do CBCL em sete investigações (2; 3; 7; 5; 8; 9; 10; 11) e do SDQ em duas (5; 9). Quatro instrumentos foram utilizados uma única vez. Todos os estudos incluídos utilizaram instrumentos validados e com boas propriedades psicométricas para a população de interesse. Quanto aos desfechos, apenas um estudo não fez uso de um instrumento validado para a população de interesse (4).
A Tabela 3 apresenta os objetivos dos estudos, com foco nos aspectos abordados nesta revisão, e os principais resultados identificados.
Foram inseridos na tabela os aspectos específicos dos objetivos dos estudos relativos à questão abordada nesta revisão. As outras variáveis associadas são apresentadas após a descrição da tabela.
Dos 12 estudos incluídos, seis (3; 4; 9; 10; 11; 12) abordaram a depressão materna atual de gravidade moderada/grave. Dentre os seis, dois (10; 12) estudaram problemas de comportamento internalizantes e externalizantes e verificaram que a depressão foi preditora de externalizantes em ambos e internalizantes em um (12). Outras duas pesquisas analisaram, exclusivamente, problemas de comportamento internalizantes (4; 11); em ambos, a depressão foi preditora de mais internalizantes. Por fim, dois estudos (3; 9) abordaram um escore total de problemas comportamentais - constatou-se que a depressão foi preditora de mais problemas de comportamento em um (9), e o outro (3) não identificou associação significativa entre essas variáveis.
Cinco dos seis estudos que abordaram depressão atual moderada/grave abordaram práticas parentais positivas e negativas e verificaram associações significativas entre depressão e menos práticas positivas em quatro estudos (3; 9; 10; 11); entre depressão e menos práticas positivas e mais negativas em um estudo (4). Apenas um estudo que abordou depressão atual moderada/grave investigou exclusivamente práticas negativas, tendo verificado associação entre depressão e mais práticas parentais negativas (12).
Três estudos investigaram depressão crônica (1; 5; 6). Depressão crônica e problemas de comportamento de índice geral foram abordados por dois estudos, em um deles a depressão foi associada a mais problemas comportamentais (5) e, no outro, essa associação não foi significativa (6). A depressão crônica foi preditora de mais problemas de comportamento internalizantes (1) em um estudo que investigou apenas internalizantes. Depressão crônica foi associada a menos práticas parentais positivas em um estudo que abordou exclusivamente essa variável enquanto prática parental (5). Dois estudos que investigaram práticas positivas e negativas (1; 6) não identificaram associações significavas com depressão crônica.
Um único estudo investigou depressão materna atual leve e atual moderada/grave (2) e abordou práticas positivas e negativas e o escore total de problemas de comportamento. A depressão leve foi associada a mais problemas de comportamento e a depressão atual moderada/grave foi preditora de externalizantes, mas não de internalizantes.
Um estudo investigou depressão materna atual moderada/grave (7), sendo toda a amostra diagnosticada com histórico de depressão, práticas parentais negativas e problemas internalizantes e externalizantes. Relataram que a depressão foi associada à parentalidade intrusiva (meninos), parentalidade retraída (ambos os sexos) e internalizantes e externalizantes para ambos os sexos. E que a depressão foi preditora de mais problemas internalizantes e de mais parentalidade retraída somente para meninas.
Apenas um estudo abordou exclusivamente depressão materna diagnosticada (8); nele foram investigadas práticas positivas e negativas e problemas de comportamento internalizantes. Identificou-se que as práticas negativas mediaram a relação de predição entre depressão diagnosticada e mais problemas internalizantes.
Outras variáveis também foram investigadas pelos estudos incluídos, sendo apresentadas aquelas que tiveram associações significativas com as variáveis abordadas nesta revisão, depressão, parentalidade e comportamento. A variável sexo das crianças foi abordada por quatro estudos (4; 7; 10; 11), sendo que sexo feminino foi preditor de problemas internalizantes em dois estudos (4; 11), sexo masculino foi preditor de problemas externalizantes em um estudo (10).
As habilidades sociais das crianças foram abordadas por dois estudos (2; 3), em um deles (2) as práticas parentais positivas foram associadas a mais habilidades sociais e no outro (3) práticas parentais negativas foram associadas a menos habilidades sociais. Relacionamento conjugal foi investigado por um estudo (2), sendo que depressão materna atual leve foi associada a menos relacionamento conjugal positivo, depressão atual moderada/grave foi associada a mais relacionamento conjugal negativo e práticas parentais positivas foram associadas a mais relacionamento conjugal positivo. Uso de álcool pelas mães foi examinado por um artigo (4), sendo associado a menos práticas parentais positivas e mais práticas parentais negativas.
Discussão
A presente revisão teve a seguinte pergunta norteadora: a gravidade da depressão materna tem impacto diferenciado para a parentalidade e para o comportamento das crianças? Para tal, analisaram-se estudos empíricos recentes que abordaram conjuntamente o impacto da gravidade da depressão materna para a parentalidade e para o comportamento de escolares, tendo como hipótese norteadora que a maior gravidade e/ou cronicidade da depressão materna teriam maior impacto para os problemas de comportamento e para as práticas parentais.
Ao se analisar a resposta a tal questão, evidencia-se um limite nas comparações entre os estudos, dado que a maioria deles não fez comparações entre diferentes intensidades de sintomas depressivos ou entre depressão crônica e exclusivamente atual, apresentando dados relativos a um tipo de depressão específica em comparação a pessoas sem transtornos mentais. Assim, de forma a favorecer a discussão que norteia os artigos analisados, destacar-se-ão os blocos de estudos específicos, considerando a gravidade da depressão
Com relação à depressão atual moderada/grave, em cinco dos seis estudos que investigaram exclusivamente essa condição clínica, verificou-se que a depressão foi associada mais a problemas comportamentais diversos (escore total, internalizantes e externalizantes). Em relação às práticas parentais, cinco estudos abordaram práticas negativas e positivas, e todos verificaram que a depressão atual moderada/grave foi associada a menos práticas positivas e apenas um identificou associação com práticas negativas. Um estudo que abordou exclusivamente práticas negativas evidenciou associação da depressão atual moderada/grave com mais práticas negativas. Tais resultados apontam para os dados da metanálise de Goodman et al., 2020, em que a parentalidade foi verificada como moderadora da relação entre depressão materna e dificuldades de funcionamento infantil.
Um segundo bloco de análise, diz respeito à depressão crônica, a qual foi associada a mais problemas de comportamento diversos em dois entre três estudos que abordaram essa gravidade, o que corrobora os dados de O’Connor, Langer e Tompson (2017) quanto à depressão crônica. Em relação às práticas, dois estudos abordaram as positivas e as negativas e não verificaram associações significativas com a depressão crônica. E um estudo que investigou exclusivamente práticas positivas identificou que a cronicidade do transtorno depressivo foi associada a menos práticas parentais positivas.
A gravidade da depressão atual, contrastante, leve ou moderada/grave foi abordada apenas em um estudo (2), demostrando a associação de mais problemas de comportamento com a depressão leve, relação também encontrada pelo estudo de Conners-Burrow et al. (2016). Tais dados evidenciam uma lacuna na literatura em relação aos impactos de sintomas subclínicos depressivos para a parentalidade e para o comportamento de escolares, principalmente pela ausência de busca de auxílio de saúde por parte dos acometidos.
O histórico prévio de depressão associado à gravidade atual moderada/grave foi tratado em um único estudo que verificou associações entre depressão e mais práticas parentais negativas e mais problemas internalizantes e externalizantes. Nas análises de predição, a depressão foi preditora de mais problemas internalizantes e de mais práticas negativas somente para meninas, evidenciando a relevância de variáveis contextuais.
O diagnóstico de depressão foi abordado em um estudo que identificou que as práticas negativas mediaram a relação de predição entre depressão e mais problemas internalizantes. Destaca-se que o diagnóstico como critério de inclusão na amostra foi um diferencial positivo de três estudos, em comparação aos demais, que predominantemente utilizaram exclusivamente instrumentos de rastreamento, contribuindo para um importante controle de viés.
Os estudos que foram objeto de análise desta revisão abordaram práticas parentais e problemas de comportamento diversos, aferidos por diferentes instrumentos e medidas, o que torna as comparações limitadas. Alguns estudos abordaram exclusivamente práticas positivas ou negativas, enquanto outros as abordaram conjuntamente. Identificaram-se estudos que abordaram problemas de comportamento sem especificações, enquanto outros avaliaram exclusivamente ou de forma combinada internalizantes e externalizante. E, ainda, mesmo que a variável de interesse dos estudos fosse a mesma, por exemplo, práticas parentais positivas, alguns estudos investigaram conjuntos de práticas positivas, enquanto outros trabalharam com uma prática parental positiva específica.
Em relação às demais variáveis abordadas pelos estudos incluídos associadas com as variáveis de interesse desta revisão (depressão, parentalidade, comportamento), constatou-se que elas foram diversas e presentes em um pequeno número de estudos, tornando-se difícil fazer afirmativas que as considerem, com exceção da variável sexo, abordada em um terço dos estudos. Contudo, essas variáveis apresentaram associações significativas com depressão materna e/ou práticas parentais, o que sugere que podem estar influenciando na interação entre depressão, parentalidade e comportamento infantil, reforçando a questão da multiplicidade de condições que concorrem no contexto familiar de convivência com a depressão materna.
Quanto às características das amostras, todos os estudos adotaram amostras da comunidade e nenhum deles referiu se as mães estavam em tratamento para depressão nem especificaram a modalidade. Pela gravidade da depressão identificada em alguns estudos, é provável que as mães estivessem, ou haviam estado em tratamento, sendo relevante a caracterização dessa condição.
Para mensurar a depressão materna, a maioria dos estudos fez uso de instrumentos de rastreamento e autorrelato. A inclusão de medidas de diagnóstico da depressão, além das medidas de rastreamento, permitiria avaliar com mais precisão o histórico do transtorno.
Considera-se que a presente revisão, mesmo sem incluir a literatura cinzenta, dentro dos limites de tempo adotado, do número de estudos analisados, do tamanho das amostras e da diversidade de instrumentos utilizados, trouxe informações relevantes sobre o impacto combinado da gravidade da depressão materna para a parentalidade e para o comportamento de escolares. A boa qualidade metodológica dos estudos referenda que o impacto combinado dessas variáveis se reveste de importância por evidenciar que a gravidade da depressão influencia as práticas e os comportamentos, especialmente, porque os estudos que fizeram análise de mediação mostraram essa inter-relação, colocando foco nas múltiplas condições envolvidas. A relevância clínica da gravidade da depressão, bastante valorizada pelo impacto na funcionalidade, tem sido pouco abordada na associação com a parentalidade e o comportamento dos filhos, enquanto um indicador de adaptação, mesmo nas metanálises recentes sobre o tema.
Evidencia-se a relevância de novos estudos que analisem o impacto de gravidades diversas da depressão materna, como uma variável de seleção das amostras, de modo a permitir comparações quanto às variáveis parentalidade e comportamento avaliadas pelos mesmos instrumentos, em contextos temporais semelhantes. Outro ponto a ser assinalado diz respeito à especificação de condições do contexto de vida das famílias, o que foi sugerido de forma esparsa por alguns estudos. Nos estudos analisados, foi predominante o delineamento transversal, e os estudos longitudinais não foram concordantes na demonstração da predição da gravidade da depressão e parentalidade para os desfechos comportamentais, o que evidencia a relevância de novos estudos, especialmente longitudinais, que permitam acompanhar ao longo do tempo as influências mútuas dessas variáveis.
Conclui-se, dentro dos limites já destacados, com base na análise dos estudos incluídos nesta revisão, que a depressão em diferentes níveis de gravidade foi associada a menos práticas positivas e a problemas de comportamento de escolares; e que a depressão atual, em relação à cronicidade do transtorno, pode explicar de melhor forma os efeitos negativos da depressão para as práticas parentais e para o comportamento. Com relação à aplicabilidade, como a maioria dos estudos analisados foram conduzidos com amostras da comunidade, os dados desta revisão sistemática podem ser norteadores para profissionais de saúde que atendem a crianças com problemas de comportamento, no sentido de pautarem as suas orientações, tendo em perspectiva também as condições de saúde mental das mães. Em relação às pesquisas, evidencia-se a necessidade de novos estudos que abordem de forma conjunta o impacto de diferentes níveis de gravidade da depressão materna para a parentalidade e para o comportamento.
Agradecimentos
A pesquisa teve apoio financeiro do Capes e CNPq.
Sistema de avaliação: às cegas por pares (double-blind review)
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Recebido: 26 de Outubro de 2022; Aceito: 31 de Julho de 2023










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