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Psicologia: teoria e prática
versão impressa ISSN 1516-3687
Psicol. teor. prat. vol.27 no.1 São Paulo 2025 Epub 06-Fev-2026
https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptpcp16871.pt
Artigos originais baseados em dados empíricos
Adolescência e relação filho(a)-mãe solo: Percepção de filhos(as) adolescentes na monoparentalidade feminina
1Federal University of Santa Maria, Department of Psychology, Graduate Program in Psychology, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
2Integrated College of Santa Maria, Bachelor’s Degree in Psychology, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
Este estudo teve por objetivo compreender a perspectiva dos(as) filhos(as) adolescentes sobre a sua atual fase do desenvolvimento, assim como sobre a relação com suas mães solo. Participaram do estudo 10 adolescentes que eram filhos ou filhas de famílias monoparentais femininas, simples ou extensa de um município no interior do Rio Grande do Sul. A pesquisa foi caracterizada como descritivo-exploratório e de cunho qualitativo. Em relação aos instrumentos, utilizou-se uma ficha de dados sociodemográficos e uma entrevista sobre ser filho(a) adolescente em uma família de mãe solo, a qual foi analisada a partir da Análise de Conteúdo. Os resultados encontrados demonstraram que os(as) adolescentes do estudo tinham uma visão de certa forma adultizada de si, possivelmente por terem experiências preparatórias para as tarefas desenvolvimentais do mundo adulto. De modo geral, mantinham uma relação positiva com suas mães, com boa comunicação. Constatou-se a dificuldade de alguns adolescentes em se afastarem da figura materna, para realizar novos investimentos concernentes à adolescência. Mesmo que algumas intercorrências tenham sido percebidas, a relação filho(a)-mãe solo foi considerada de qualidade e características de saúde familiar estiveram presentes. Tais achados podem contribuir para o desenvolvimento de práticas profissionais e políticas públicas não estigmatizantes e de apoio aos filhos adolescentes e às mães solo no nosso país.
This study aimed to understand the perspective of adolescent children on their current stage of development, as well as on their relationship with their solo mothers. Ten adolescents who were sons or daughters of female single-parent families, simple or extended, from a municipality in the interior of Rio Grande do Sul participated in the study. The research was characterized as descriptive-exploratory and qualitative in nature. Regarding the instruments, a sociodemographic data sheet and an interview about being a teenage child in a solo mother family were used, which was analyzed using Content Analysis. The results found demonstrated that the adolescents in the study had a somewhat adultized view of themselves, possibly because they had preparatory experiences for the developmental tasks of the adult world. In general, they maintained a positive relationship with their mothers, with good communication. It was noted that some adolescents found it difficult to move away from the mother figure, to make new investments related to adolescence. Even though some complications were noticed, the child-solo mother relationship was considered to be of good quality and family health characteristics were present. Such findings can contribute to the development of professional practices and public policies that are non-stigmatizing and supportive of adolescent children and single mothers in our country.
Keywords: adolescence; solo mother; single-parent family; parenthood; life cycle
Palavras-chave: adolescência; mãe solo; família monoparental; parentalidade; ciclo vital
Este estudio tuvo como objetivo comprender la perspectiva de los niños adolescentes sobre su etapa actual de desarrollo, así como sobre su relación con sus madres solteras. Participaron del estudio diez adolescentes hijos o hijas de familias monoparentales femeninas, simples o extendidas, de un municipio del interior de Rio Grande do Sul. La investigación se caracterizó por ser de naturaleza descriptiva-exploratoria y cualitativa. En cuanto a los instrumentos, se utilizó una ficha de datos sociodemográficos y una entrevista sobre ser hijo adolescente en una familia monoparental, la cual se analizó mediante Análisis de Contenido. Los resultados encontrados demostraron que los adolescentes del estudio tenían una visión adulta de sí mismos, posiblemente porque tuvieron experiencias preparatorias para las tareas de desarrollo del mundo adulto. En general, mantuvieron una relación positiva con sus madres, con buena comunicación. Se observó que a algunos adolescentes les resultó difícil alejarse de la figura materna para realizar nuevas inversiones relacionadas con la adolescencia. Aunque se observaron algunas complicaciones, la relación hijo-madre sola se consideró de buena calidad y estaban presentes características de salud familiar. Estos hallazgos pueden contribuir al desarrollo de prácticas profesionales y políticas públicas no estigmatizantes y solidarias con los niños adolescentes y las madres solteras en nuestro país.
Palabras-clave: adolescencia; madre solitaria; familia monoparental; paternidad; ciclo vital
A família corresponde ao lugar no qual, de modo geral, o indivíduo mantém seus primeiros relacionamentos com pessoas importantes (Romanelli, 1997). Considera-se que as trocas emocionais que ocorrem na família são necessárias para o desenvolvimento de todos os membros, assim como para a obtenção de condições físicas e mentais para as demais etapas do ciclo vital familiar. É possível compreender que, mesmo diante de todas as mudanças nas configurações familiares, esta continua parte importante da constituição de seus membros. Desta forma, a qualidade dos vínculos e das trocas realizadas influenciam o desenvolvimento dos indivíduos como pessoa, assim como as relações com outros grupos sociais (Penso & Costa, 2008).
De acordo com Dias (2011), a definição de família foi ampliada tendo em vista os novos modelos familiares, assim como seu reconhecimento e legitimação. Com as mudanças no estilo de vida das famílias, estas experienciam novos valores, crenças e práticas sociais. Neste tocante, destaca-se a família monoparental, que, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), é caracterizada como a família na qual há somente a presença de uma pessoa responsável pela unidade doméstica, masculino ou feminino, com a presença de pelo menos um(a) filho(a) ou outra criança, ou um adolescente sob sua guarda. Ainda, pode haver ou não outro adulto, parente ou não, residindo no lar. Concernente à monoparentalidade feminina ou “maternidade solo”, como passará a ser abordada no presente estudo, no ano de 2015 esta correspondia a 26,8% dos arranjos familiares no Brasil (IBGE, 2016).
Com o surgimento dos estudos e trabalhos com grupos de mulheres a partir dos anos 1970, foi possível observar a expansão da psicologia feminista e, consequentemente, das terapias feministas. Nesse sentido, a terapia feminista de família, uma vertente da terapia familiar, propõe a inclusão de discussões acerca do gênero e das diferenças de poder no sistema familiar como necessárias à prática da terapia de família (Nogueira, 2001; Rampage, & Avis, 1998). Mantém também presente o questionamento acerca das concepções tradicionais de família e propõe visibilidade e legitimidade para as demais configurações que não se encaixam no padrão heteronormativo (Canevacci, 1987; Figueira, 1987). Para as mães solo ainda há uma opinião social que argumenta sobre a falta do pai, e que considera essa mãe como uma figura frequentemente alvo de críticas (Goodrich et al., 1990). No entanto, de acordo com Goodrich et al. (1990), as famílias monoparentais femininas operam com base em uma organização consensual. Essas famílias não funcionam a partir de uma estrutura hierárquica, e sim de uma democracia participativa, visando à satisfação das necessidades de cada membro. Nesse sentido, podem experienciar menos conflitos interpessoais na medida em que a figura materna se sente mais capaz de gerir os recursos, mesmo quando são mais escassos, e as atividades rotineiras.
A expressão “mãe solo”, surgida nos debates desenvolvidos por mulheres, principalmente nas redes sociais, passou a se inserir no campo acadêmico na segunda década do século XXI, em substituição à consagrada denominação pejorativa “mãe solteira”. O novo uso linguístico está em acordo com as mudanças sociais ao dissociar a maternidade do estado civil da mulher (Galvão, 2020), preconizando a caraterística de ser esta mulher aquela que coabita, cuida, cria e educa o(as) filho(as) majoritariamente sozinha (Câmara & Almeida, 2021). Segundo Finamori e Bastista (2022), além de problematizar a relação entre maternidade e conjugalidade, o termo associa-se à reivindicação por legitimidade e pela positivação das vivências daqueles que compõem tais arranjos familiares. Para o presente estudo, será dado destaque a famílias compostas por mães solo e seu/sua(s) filho(as) adolescente(s).
A adolescência, de acordo com Cerqueira-Santos et al. (2014), não se caracteriza como uma transição da infância para a idade adulta, mas sim é carregada de peculiaridades em termos das experiências subjetivas, além de sofrer influências de diversos contextos de vida. A adolescência ocorre diferentemente para cada sujeito, e está em constante influência da cultura na qual cada um está inserido. Com isso, pode-se pensar na adolescência como um fenômeno cultural, individual e histórico. Silva et al. (2021) sugerem considerá-la como parte de um processo de amadurecimento e intenso aprendizado de vida.
Como etapa do ciclo de vida familiar, a adolescência dos filhos apresenta algumas tarefas específicas que implicam todos os membros da família. Esse processo é comumente caracterizado pelas reorganizações de papéis, das exigências, dos interesses, assim como das relações dentro e fora da família. É necessário que a família revise os padrões relacionais e autorize uma maior flexibilidade nas fronteiras estabelecidas entre os subsistemas (Luisi & Cangelli Filho, 1997). Conforme Preto (1995), a flexibilidade constitui-se em característica-chave para a qualidade das relações intergeracionais nas famílias com filhos adolescentes. Questões envolvendo a sexualidade e seus efeitos sobre os adolescentes e seus pais/mães, assim como a questão da identidade dos filhos, tornam-se relevantes, em um movimento de maior autonomia e da tomada de decisões por parte dos filhos. De modo profundo, as transformações das famílias durante a adolescência dos filhos dizem respeito a apego, separação e perda e são necessárias para que a família possa seguir seu curso de vida (Preto, 1995). Contudo, como ressaltam McGoldrick e Shibusawa (2016), embora se tornem mais independentes e autônomos na adolescência, os filhos ainda precisam de relações de proximidade, afeto e cuidado por parte de seus cuidadores.
Assim, pode-se pensar que parte do papel dos pais/mães estaria em possibilitar um contexto de vida que favoreça o desenvolvimento dos seus filhos. Um funcionamento familiar saudável estaria caracterizado por construtos como o apoio, a coesão, a comunicação clara entre os membros (Sprinthall & Collins, 2003). Tendo em vista os(as) filhos(as) adolescentes nas famílias de mães solo, este estudo teve por objetivo compreender a perspectiva dos(as) filhos(as) adolescentes sobre a sua atual fase do desenvolvimento, assim como sobre a relação com suas mães.
Método
Participantes
Participaram deste estudo 10 adolescentes que eram filhos ou filhas de mães solo, sendo quatro homens e seis mulheres. Os participantes tinham idades entre 15 e 20 anos e não haviam experienciado outra configuração familiar que não a monoparental feminina. Todos(as) os(as) adolescentes participantes da pesquisa moravam em um município no interior do Rio Grande do Sul. Alguns mantinham um contato eventual e esporádico com o pai. Em relação à raça/etnia dos participantes, 7 eram considerados brancos e 3, pardos.
Em relação ao critério de idade, optou-se por aquele estipulado pela Organização Mundial da Saúde (1965), que caracteriza como adolescente aquele com idade entre 10 e 20 anos e que se refere à segunda década da vida do sujeito. Todos os adolescentes tinham 15 anos de idade ou mais, caracterizando-se como na adolescência final (Outeiral, 1994). Tal delimitação foi relevante para que os participantes tivessem tempo de experiência familiar como adolescente em suas famílias.
A Tabela 1 apresenta a caracterização dos participantes do estudo, bem como de suas famílias. Ressalta-se que, para preservar as identidades, os(as) participantes serão identificados(as) a partir da letra A, de Adolescente, acompanhado do número em que ocorreram as entrevistas.
Tabela 1 Caracterização dos participantes do estudo
| Participantes | Sexo | Idade | Escolaridade do adolescente | Escolaridade da mãe | Profissão/ Ocupação do(a) adolescente | Profissão/ Ocupação da mãe | Reside com? | Renda Familiar1 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| A1 | F | 18 | Superior incompleto | Médio completo | Estudante | Cuidadora de idosos | Mãe (47a) Irmã (20a) |
1 a 3 |
| A2 | F | 17 | Médio incompleto | Superior completo | Estudante | Autônoma | Mãe (41a) Tias (50 e 55a) Primo (24a) |
1 a 3 |
| A3 | F | 16 | Médio incompleto | Superior completo | Estudante | Enfermeira | Mãe (42a) | 6 a 9 |
| A4 | F | 19 | Superior incompleto | Médio completo | Estudante | Autônoma | Mãe (38a) | 1 a 3 |
| A5 | F | 15 | Médio incompleto | Superior completo | Estudante | Enfermeira | Mãe (44a) | 3 a 6 |
| A6 | M | 20 | Médio completo | Médio completo | Militar | Técnica de enfermagem | Mãe (51a) | 3 a 6 |
| A7 | M | 17 | Médio incompleto | Fundamental incompleto | Estudante | Doméstica | Mãe (59a) Irmão (19a) Irmão (20a) |
1 a 3 |
| A8 | M | 20 | Médio completo | Fundamental incompleto | Militar | Autônoma | Mãe (59a) Irmão (17a) Irmão (19a) |
1 a 3 |
| A9 | M | 19 | Médio incompleto | Fundamental incompleto | Militar | Dona do lar | Mãe (58a) Irmão (17a) irmão (20a) |
1 a 3 |
| A10 | F | 20 | Técnico em enfermagem | Médio completo | Técnico enfermagem | Doméstica aposentada | Mãe (54a) | 1 a 3 |
Fonte: Elaborada pela autora.
Delineamento
Trata-se de uma pesquisa com cunho qualitativo, e para Minayo (2014), a abordagem qualitativa está relacionada ao entendimento do ser humano e de suas relações, correlacionando com seus significados, experiências e valores. Ela visa à categorização, compreensão e interpretação do fenômeno estudado.
A pesquisa também teve caráter descritivo exploratório. Conforme Gil (2010) defende, ela é descritiva, pois pretendeu analisar a descrição de características, ou de algum fenômeno. Por fim, seu caráter exploratório deve-se à intenção de explicitar o fenômeno em questão e familiarizar-se com este.
Procedimentos e instrumentos
Tendo recebido o parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), sob o número CAAE: 58459322.2.0000.5346, o contato com os participantes deu-se por meio da rede social WhatsApp, seguido da divulgação da pesquisa em outras redes sociais, como o Instagram e Facebook, ou por indicações. A coleta de dados ocorreu de forma virtual com sete participantes e de forma presencial com três participantes, conforme a preferência e disponibilidade dos adolescentes. Os encontros virtuais ocorreram por meio do aplicativo Google Meet, e os presenciais foram realizados nas dependências da universidade à qual a pesquisadora está vinculada. Com base no proposto na teoria do menor maduro (Cornock, 2007), foi possível obter a dispensa da assinatura do TCLE por parte das mães dos(as) adolescentes, e os(as) adolescentes assinaram o Termo de Assentimento, compartilhado por meio da plataforma on-line Google Forms.
Os instrumentos utilizados para a realização da pesquisa foram a ficha de dados sociodemográficos, com a caracterização dos participantes, assim como do seu contexto de vida familiar e de suas mães, e uma entrevista sobre a experiência de ser filho(a) adolescente em família de mãe solo. A entrevista foi organizada e aplicada de forma semiestruturada, com o propósito de entender as construções acerca da própria adolescência, bem como sobre experiências relacionadas à rotina e ao relacionamento com suas mães. A realização das entrevistas durou cerca de 1h30min, gravadas em áudio e posteriormente transcritas para análise.
Considerações éticas
Foram contemplados os preceitos éticos estabelecidos pelas Resoluções nº 466 de 2012 e nº 510 de 2016, que regimentam as pesquisas com seres humanos e, em especial, em Ciências Sociais e Humanas (Brasil, 2016), além das orientações da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa para estudos em ambientes virtuais (Ministério da Saúde, 2021). Destaca-se que para os(as) participantes do estudo foi garantida a confidencialidade dos dados, assim como sua privacidade e a possibilidade de desistirem da sua participação na pesquisa a qualquer momento. Por fim, também foram repassadas as informações relativas aos riscos e benefícios da pesquisa.
Análise dos dados
Para a análise dos dados obtidos por meio das entrevistas foi utilizada a análise de conteúdo de Bardin (2011). Esta pretende, por meio de procedimentos sistemáticos, buscar sentidos e compreensões comuns aos dados obtidos e a definição de categorias a serem analisadas e discutidas. A partir das entrevistas transcritas, buscou-se identificar unidades de sentido, com o intuito de constituir as categorias temáticas, a fim de ter uma melhor compreensão e sintetização dos resultados. Ao fim desta análise, os resultados foram organizados nas seguintes categorias: (1) Adolescência e percepção de si e (2) Relação filho(a)-mãe solo.
Resultados
Adolescência e percepção de si
No que se refere à experiência da adolescência, alguns participantes relataram a saída da casa da mãe (devido à entrada na universidade) ou o ingresso no mercado de trabalho e no Exército Brasileiro (“quartel”) como marcos importantes da adolescência e aproximação da vida adulta, associados a novas exigências e tarefas desenvolvimentais: “Foi extremamente difícil para mim [se adaptar à nova rotina morando sem a mãe]. Eu nunca tinha precisado e fui para psiquiatra, porque foi uma coisa que realmente me tirou do eixo completamente. E toda essa mudança de uma vez só, porque eu passei [na universidade]. Então, final de março, começo de abril, já tinha aula e é tudo diferente, tudo novo. Então, foi bem cansativo mentalmente, fisicamente também, porque é outra rotina. É completamente diferente” (A4). “Pra mim, é bom [as responsabilidades que ele assume dentro de casa], porque me ensina, na vida adulta, praticamente. E cria responsabilidade e disciplina também” (A7). “Foi uma oportunidade nova pra mim. Como eu não trabalhava de carteira assinada e recebia pouco, ir pro quartel foi a melhor coisa que aconteceu pra mim” (A8). Um participante indicou uma percepção de si como ingressante na vida adulta, ou, ao menos, ensaiando-se para tal a partir da associação de responsabilidades do mundo do trabalho: “Nesse ano, eu estou me estressando bastante, porque eu nunca tinha trabalhado. E o quartel, as coisas estão passando muito rápido. Então, recém eu estou me adaptando, em questão de problemas, essas coisas na vida adulta. […] É que eu tô começando agora a vida adulta, então, tô procurando evitar problemas, dentro e fora do quartel. O meu profissionalismo e essas coisas” (A9). Essa visão de si está ao encontro da literatura, que diz que na família com filhos adolescentes as mudanças ocorrem em termos estruturais e na renegociação dos papéis familiares, visto que os adolescentes buscam maior autonomia e independência (Luisi & Cangelli Filho, 1997).
Ainda, pode-se conjecturar que, por terem sido criados por mães solo, os adolescentes do presente estudo tenham experienciado a necessidade de se tornarem mais participativos e responsáveis em atividades que outros filhos poderiam ser poupados. Os(as) adolescentes relataram, ainda, uma visão positiva sobre sua participação e contribuição para suas famílias. Indicaram um senso de pertencimento e de importância e colaboração para suas famílias, assim como suas mães eram percebidas por eles.
“Às vezes, eu tomo decisões certas, às vezes erradas. Eu ajudo no que eu posso. Se eu tenho alguma coisa que está sobrando, eu ajudo. Ajudo com o meu conhecimento, ajudo com alguma coisa material, algum objeto que eu tenha. Eu sou uma pessoa humilde, uma pessoa presença, se me chamar eu estou lá também. Uma pessoa que ajuda praticamente dentro da minha família” (A7); “Eu acho isso bem importante, até para não sobrecarregar ela [mãe], porque isso também ajuda a gente a entender um pouco da vida real das pessoas. Tu já vais meio que se acostumando. Tipo, teve uma época que eu tinha que fazer comida, porque a mãe ia viajar e ela voltava um pouco tarde, eu fazia o almoço. Ou, então, quando ela ficava lá [no trabalho], fazendo plantão, daí eu vinha para casa e fazia a comida. Então, são essas poucas coisas que já vão me preparando para a vida adulta. Eu já sei cozinhar, eu já sei lavar a louça, secar a roupa, varrer a casa, o que eu vejo que não é muito comum hoje em dia. Eu tinha um colega meu que ele nunca tinha pegado um pano na vida. Nunca lavou uma louça. Eu fiquei, ‘Meu Deus do céu, eu faço isso desde que me conheço por gente’” (A5).
De acordo com Arnett (2000), o período até os 20 anos, correspondente aos anos finais da adolescência, são significativos e vividos com profundas mudanças. Muitos atingem o nível de educação e formação exigidos para a vida profissional. Antes de muitos jovens fazerem escolhas de vida de longo alcance, aos 20 anos eles passarão por um intenso período de experimentação. Nesse sentido, Ponciano e Féres-Carneiro (2014), a partir de estudo com pais e mães que tinham filhos de 15 a 26 anos de idade, salientam a relevância da presença ativa dos pais/mães nesse período de transição para a vida adulta, ao promover um suporte para o crescimento e a autonomia dos seus filhos.
Alguns participantes também referiram conflitos e desentendimentos vividos na relação com a mãe em face da crescente necessidade de diferenciação e autonomia vivida por eles, sendo alguns dos conflitos vistos de forma diversa no momento referido: “É que eu acho que ela se preocupa bastante comigo. Eu falo que ela é bem coruja. Ela olha meu celular todo dia. Ela fala que eu não tenho direito à privacidade, daí olha minhas conversas. Aí se eu saio, ela sabe, obviamente, que nem toda mãe, tem que falar com quem vai, para onde vai, quando que volta. Eu não gosto muito, eu falo que eu não consigo ter nem um pouco de privacidade. E tem vezes que, por exemplo, eu tenho que excluir alguma mensagem, porque é coisa dos meus amigos que tão chorando e querem me contar alguma coisa. E daí eles falam: ‘Ah, não conta pra ninguém’. Aí, eu tenho que ir lá e excluir. Daí, depois, ela me xinga e briga comigo” (A5). “No começo, quando eu tava entrando [na adolescência], uns 15, 16, tava ficando meio rebelde. Aí, meu pai não tava conosco, pensava que, se tivesse ele junto, mudaria alguma coisa. Jogava a culpa pra ela [para a mãe]. Aí, eu fui crescendo e vi que era totalmente diferente. O que ela me falava, tava certo. Foi mais ali na adolescência que deu uma complicadinha, mas depois foi melhor” (A8).
Relacionado a isso, Segrin e Flora (2018) defendem que o relacionamento conflituoso entre pais/mães e filhos pode ser considerado normativo na adolescência e, até mesmo, pode promover ajustes para as renegociações de papéis. Os adolescentes experimentam sentimentos conflituosos em relação aos pais/mães, à medida que buscam liberdade e autonomia em diversos âmbitos de suas vidas. É um processo marcado por novas descobertas que residem fortemente na exploração de construções identitárias (Watari & Romanelli, 2005). Para Branje et al. (2012), os conflitos originados na adolescência auxiliam no reforço dos laços afetivos entre pais/mães e filhos, tanto a curto quanto a longo prazo, ao passo que podem incentivar a comunicação sobre a relação.
Ressalta-se, contudo, que a adolescência não será caracterizada, necessariamente, pelo conflito, como uma etapa do desenvolvimento conturbada, variando conforme a sociedade, cultura e época. Em estudo desenvolvido com 295 adolescentes da cidade de Porto Alegre (RS), Wagner, Falcke, Silveira e Mosmann (2002) encontraram que a comunicação que os adolescentes estabeleciam com suas famílias era considerada boa por estes, contrariando a visão, muitas vezes estereotipada, que associa a adolescência a problemas e conflitos familiares. Por outro lado, isso não significa desconsiderar um grau de sofrimento que extrapola o esperado para a etapa do desenvolvimento, associado a transtornos emocionais e dificuldades relacionais mais profundas: “Na minha adolescência, eu acabei desenvolvendo depressão, por conta da minha mãe, por ser tratada como segunda opção. Eu me isolava no meu quarto. Teve uma fase que eu cheguei até a me cortar, porque a minha mãe brigava muito comigo, muito, muito. Era na minha fase da adolescência. Eu fazia as coisas escondido, eu queria sair, eu queria beber, pra tentar achar um ponto de fuga. […] Olha, eu acredito que eu aprendi a lidar, por pensar que eu não tenho que ser dependente da minha mãe. Porque antes, qualquer coisa que ela falava, ou falava mal comigo, eu já ficava mal, eu já ficava triste. Acredito que são fases, que vem e voltam, conforme a minha relação com a minha mãe, com meu pai, na minha vida. Mas eu nunca procurei tratamento” (A10).
Resultados semelhantes foram encontrados no estudo de Mesquita et al. (2011), realizado com 408 adolescentes de 15 a 22 anos, no norte de Portugal. Embora a quase totalidade dos adolescentes tenham relatado a presença de algum sintoma depressivo, automutilação ou vontade de morrer, o relacionamento com os pais/mães esteve associado à forma com que os participantes reagiam e ao grau em que apresentavam tais comportamentos. Para Baptista, Baptista e Dias (2001), deve-se considerar a relevância da qualidade do funcionamento familiar como fator de influência na saúde mental do adolescente. A insatisfação com o ambiente familiar e a falta de condições adequadas ao desenvolvimento pode estar associada ao surgimento de sintomas e psicopatologias na adolescência.
Relação filho(a)-mãe solo
Na compreensão dos(as) adolescentes participantes da pesquisa, de modo geral, eles mantinham uma relação positiva com suas mães. Para alguns, a mãe desempenhava um papel central em suas vidas e em seus relacionamentos, indicando um laço de muita proximidade e companheirismo: “É inexplicável, bem dizer, a nossa companhia. A gente tá sempre junto. Eu acho até por essa falta de presença paterna, a gente tenha criado um laço muito, muito mais forte. […] É algo incrível a relação que eu tenho com a minha mãe. Óbvio, volta e meia tem algumas brigas e tal, alguns desentendimentos. Mas, no geral, em si é muito positiva. Muito positiva. Eu e a minha mãe, a gente sempre foi muito unido, desde criança” (A6); “Pra mim ela é muito importante. Eu não sei realmente o que eu seria sem ela, qual pessoa eu seria, sabe. Tipo, se eu fosse criada com meu pai, eu acredito que eu seria uma pessoa perdida assim, de estudo, de querer algo com a vida, de ter um objetivo. Eu acredito que é por isso que ela é muito importante pra mim” (A10).
Conforme Teperman et al. (2020), um relacionamento harmonioso entre pais/mães e filhos auxilia para que os filhos cresçam com confiança, segurança e autonomia, pois desenvolvem a capacidade de respeito ao outro, assim como estão mais aptos a reconhecer o que é importante para suas vidas. Nesse sentido, Nolte e Harris (2005) defendem que, quando a casa da família representa um local seguro para o adolescente, os filhos se fortalecem para lidar com as adversidades da vida. Ainda, para Camarano (2006), os filhos só alcançam a independência e autonomia a partir de uma condição de dependência, que pode lhes trazer sensações de segurança e sustentação, à medida que conseguem se expressar e ser quem eles verdadeiramente são. Acredita-se que a dependência e independência dos pais/mães se relacionam mutuamente e auxiliam os indivíduos a se desenvolverem e crescerem.
Alguns participantes do estudo indicam ainda uma comunicação aberta e uma relação mãe-filho(a) próxima: “É muito bom, na verdade. Eu sou muito próxima da minha mãe. Então, a gente faz praticamente tudo junto, quando a gente tem tempo. Nos fins de semana, a gente fica junto. [...] Hoje em dia, a relação é bem aberta, a gente conversa sobre tudo, relacionamento, faculdade, tudo. Eu gosto que é uma relação bem aberta, e que eu sinto que eu posso falar tudo pra ela, e que ela também pode me contar tudo. Então, quando ela tem algum problema, ela vem e conversa comigo, principalmente quando é problema de trabalho, ela vem e fala comigo. E é a mesma coisa eu com ela” (A1); “Geralmente, fim de semana, eu fico por casa. Então, a gente tem um contato maior. Agora, ultimamente, a gente não tem olhado filme, passado tanto tempo junto, mas o possível a gente faz, a gente vai cozinhar junto, alguma coisa assim, sair junto. A gente sai junto bastante. Eu sou tipo o companheiro dela, e vice-versa, ela é minha companheira. Tanto que, às vezes, a gente se olha assim: ‘Vamos beber? Vamos’, tipo, daí a gente vai ali no barzinho, vai em outro lugar. Bem legal. É mais a nossa companhia mesmo” (A6). “A preocupação dela, ela se preocupa com o que que eu… Às vezes, eu chego em casa, falo que não foi um bom dia, aí ela se preocupa” (A9).
No estudo de Wagner et al. (2002), a mãe também foi citada como a pessoa da família com quem os filhos adolescentes mais conversavam, seguida pelo pai e depois pelos irmãos. Estes também salientaram um bom nível de comunicação em casa, e a classificaram como muito importante. O estudo evidenciou a concepção tradicional da função da mãe como a responsável pelo cuidado e pela mediação das relações familiares. O pai, embora ocupasse uma posição secundária na vida do adolescente, foi avaliado de forma positiva pelos adolescentes.
O diálogo entre pais/mães e filhos adolescentes se configura como um desafio extra à relação, porém, é por meio dele que a família pode redirecionar as representações sociais de pais e filhos, especialmente quando prioriza a transmissão do afeto, mediante o respeito e o cuidado (Morgado et al., 2014). Uma boa comunicação entre pais/mães e filhos tem um impacto positivo na saúde dos adolescentes, associada à maior qualidade de vida e menor presença de sintomas de saúde nos filhos (Tomé et al., 2012). Assim, a comunicação constitui-se em uma importante dimensão do funcionamento familiar. Ela estaria vinculada ao desenvolvimento de uma autoestima positiva, uma identidade autônoma e independente. Nesses contextos familiares, os adolescentes tendem a valorizar a preocupação dos pais/mães com o seu bem-estar, estimulam a satisfação do filho com o ambiente familiar e, consequentemente, favorecerem um menor envolvimento em comportamentos de risco (Riesch et al., 2006; Sprinthall & Collins, 2003; Yu et al., 2006).
Ao considerar a proximidade mãe-filho, identifica-se certa idealização da relação por parte dos(as) adolescentes do estudo. A esse respeito, enquanto as mães e os pais de filhos adolescentes precisam estar disponíveis aos movimentos de aproximação e distanciamento dos filhos, cabe destacar o cuidado para que os filhos não assumam um lugar de “parceiros” ou “companheiros” de suas mães, podendo sentir-se livres para realizar novos investimentos relacionais fora do grupo familiar e, inclusive, conflituar com as figuras parentais. Pode ser que os filhos de mães solo se sintam mais convocados a fornecerem apoio social para suas mães, enfrentando maiores dificuldades em romper ou se afastar da figura materna, mesmo que temporariamente, em função dos novos investimentos da adolescência.
Para alguns participantes, a mãe indicava claramente não poder assumir o papel unicamente de amiga, precisando preservar o papel materno na relação com o(a) filho(a): “Aí tenta se compreender, tem uma amiga. E às vezes tudo isso junto não dá muito certo. Eu falo para ela que eu gostaria só que ela fosse minha amiga, nesse sentido. Obviamente, é a minha mãe. Só que ela é uma pessoa que ela fala que ela não consegue ser minha amiga. Que, a princípio, ela é a minha mãe” (A5).
Alguns(mas) dos(as) adolescentes ainda referiram certa distância afetiva ou reserva em relação às suas mães. Para eles(as), o seu investimento na relação existia, porém, muitas vezes, não era percebido como correspondido pelas mães: “A minha relação com a minha mãe não é ruim, é boa. Ela é uma pessoa super mente aberta, é uma pessoa que eu sei que gosta muito de mim, que quer meu melhor, só que, às vezes, eu sinto que, agora eu não sinto mais tanto, mas sentia que tinha uma barreira entre nós e que ela não ligava muito. […] E eu sinto que eu posso falar qualquer coisa com ela. Só que eu acabo não falando, muitas vezes. Não sei” (A2); “Não é 100% [a relação mãe-filho]. Eu chego em casa, às vezes, eu falo que eu fiz isso, que eu deixei de fazer aquilo, aí, vem xingamentos, essas coisas, mas eu me acostumo já” (A9); “Eu acho que a gente tenta sempre se entender. Acaba que uma hora sempre um cede. Normalmente, sou eu, mas a gente procura não ficar brigada. A gente, normalmente, briga bastante, mas a gente tenta não ficar brigada. Normalmente, eu saio do castigo. Eu não sei se falta confiança minha, ou nela ou se alguma outra coisa. Normalmente, eu descubro as coisas sozinha, e ela dá uma bisbilhotadinha nas coisas” (A5).
Para Delgado e Jiménez (2004), uma vez que os conflitos na família forem bem encaminhados, tendem a ter uma positiva influência para as relações, visto que podem atuar como catalisadores, auxiliando no processo de ajuste das relações familiares. Dessa forma, as discussões e os conflitos podem servir para que pais/mães percebam que seus filhos estão se desenvolvendo e que necessitam de um tratamento diferente do que recebiam na infância. Para algumas famílias, a adolescência pode ser caracterizada como um período difícil tanto para os filhos quanto para os pais/mães, de modo que a comunicação também fica prejudicada em determinados momentos. A falta de comunicação entre pais/mães e filhos está ligada a mudanças nos padrões de interação, e, diante disso, a família precisará flexibilizar tais padrões ao se adaptar a um novo funcionamento, para que possa oferecer um ambiente que promova o crescimento e o desenvolvimento de seus filhos adolescentes (Barnes & Olson, 1985; Steinberg, 1981).
Adams e Laursen (2007), em seu estudo com 469 adolescentes da Flórida (EUA), encontraram que as consequências do conflito dos adolescentes com as mães, pais e melhores amigos dependiam da qualidade do relacionamento. O conflito moderado estava associado a resultados favoráveis, apenas em adolescentes que tinham baixos níveis de percepção de negatividade. Já o conflito excessivo estava interligado a dificuldades sociais e acadêmicas, mesmo para os adolescentes que tinham as melhores relações sociais. Dessa forma, o desacordo não era prejudicial em si. Porém suas consequências dependiam da frequência com que ocorriam e com quem era experenciado. Por fim, no estudo de Peixoto (2004) com 265 adolescentes de Lisboa (Portugal), o autor identificou que uma melhor resolução das conflitivas familiares esteve associada à construção de uma autoimagem positiva dos adolescentes.
Discussão
Este estudo teve por objetivo compreender a perspectiva dos(as) filhos(as) adolescentes sobre a sua atual fase do desenvolvimento, assim como sobre a relação com suas mães, em uma amostra de 10 adolescentes provenientes de famílias de mães solo. As dificuldades e intercorrências relatadas, em geral, compõem a variedade das experiências do período de desenvolvimento da adolescência. Identificou-se que os(as) filhos(as) adolescentes demonstraram uma visão de certa forma adultizada de si. Esse comportamento pode estar atrelado a algumas experiências preparatórias para as tarefas desenvolvimentais do mundo adulto. Concernente à etapa desenvolvimental da adolescência, muitos dos(as) participantes já se encontravam na adolescência tardia, tendo em vista que a grande maioria já se considerava ingressante no mundo adulto, pois já auxiliava financeiramente em casa em função de seus empregos.
Pode-se conjecturar que, por terem sido criados por mães solo, os adolescentes tenham experienciado algumas responsabilidades que outros adolescentes não precisariam assumir. A necessidade de serem mais participativos e envolvidos em atividades domésticas, bem como terem uma relação mais dependente com suas mães, servindo como um apoio social a elas, são algumas das características descritas pelos participantes. Cabe reconhecer que assumir essas posições para os(as) filhos(as) adolescentes esteve associado a diferentes experiências, que dizem respeito ao estreitamento dos laços afetivos com a mãe. A comunicação aberta e clara é descrita como o aspecto mais importante da relação, o que aparece como um fator que favorece o desenvolvimento dos filhos(as) adolescentes. Além disso, destaca-se o senso de pertencimento e importância às suas famílias, percebido pelos(as) adolescentes ao mencionarem a sua importância para a sua família, à medida que conseguiram contar sobre si e sobre suas responsabilidades dentro de casa. Não obstante, faz-se necessário referir a dificuldade de alguns adolescentes em se afastarem da figura materna, para que pudessem realizar novos investimentos concernentes à adolescência e transição para a vida adulta.
Cabe ressaltar que os conflitos que foram apresentados, assim como a distância afetiva das mães em alguns casos, não foi identificado pelos participantes como algo negativo, ou associado a um relacionamento ruim com a mãe. Ademais, os(as) adolescentes apresentaram uma boa capacidade de reflexão sobre suas histórias e experiências. O suporte também se mostrou fundamental no dia a dia dessas famílias, principalmente aos adolescentes, que tiveram a oportunidade de expressar suas experiências como filho(as) e suas vivências como jovens.
Mesmo que esses aspectos tenham sido percebidos pelos participantes do estudo, a relação mãe-filho(a) foi considerada de qualidade, na qual características de saúde familiar estiveram presentes. Visualiza-se que os(as) adolescentes conseguiam exercer as inúmeras atividades que assumiam, como no trabalho e em casa. Logo, foi possível identificar o reconhecimento e predomínio de uma relação harmoniosa nas diversas instâncias de vida dos participantes com suas mães. No entanto, acredita-se que é necessário maior foco de investigação sobre esse fator, a fim de atentar para as dificuldades socioeconômicas, bem como as limitações na rede de apoio a essas famílias.
Com isso, reforça-se uma concepção de adolescência não como natural ou universal, e sim resultante de uma história de vida, de determinados sujeitos em suas realidades sociais e momentos históricos, sendo influenciados e as influenciando continuamente. Como defendido por Fonseca e Ozella (2010), acerca da não patologização ou universalização da experiência adolescente, cada sujeito vivenciará a adolescência a sua maneira, dependendo de suas interações sociais, de seus interesses, suas necessidades, constituindo a própria história, dentro de suas possibilidades objetivas e subjetivas.
Ao considerar o pertencimento a uma família de mãe solo, os adolescentes não referiram nenhum sentimento de pesar quanto à sua configuração familiar, bem como nenhum relatou sentir a ausência paterna dentro do lar. Isso não significa validar tal ausência ou negar possíveis sentimentos dolorosos associados a ela, mas ressalta a positividade da experiência e a necessidade de que não seja considerada a partir da ótica da falta ou de um referencial que toma a família nuclear heteronormativa como ideal. A esse respeito, destaca-se ainda a importância de desnaturalizar tanto o preconceito e o julgamento social recaído sobre as mulheres mães solo quanto a ausência paterna e as desigualdades de gênero nas relações parentais e no cuidado e responsabilização pelos filhos.
Cabe ainda um olhar para as dificuldades de subsistência e de inserção e manutenção das mulheres mães solo no mercado de trabalho, o que impacta na sobrecarga materna e no sustento, na educação e na qualidade de vida proporcionado aos filhos(as) (Borges, 2020). Diante das desigualdades sociais mais amplas, Finamori, Rocha e Achilei (2021) apontam como questão central a problematização sobre a privatização do cuidado de crianças e adolescentes, reivindicando uma partilha social do cuidado (processo reprodutivo) que ultrapasse a esfera da conjugalidade ou da família extensa e seja considerada responsabilidade político-social mais ampla.
Por fim, o estudo avançou no conhecimento científico sobre a temática de filhos(as) adolescentes em famílias monoparentais femininas, temática pouco investida na literatura brasileira. Considera-se a ressalva de que este estudo retrata a realidade de alguns adolescentes de famílias predominantemente de nível socioeconômico baixo e da cultura gaúcha, não representando a realidade de outras adolescências de nosso país. Nesse sentido, sugere-se a realização de outros estudos envolvendo a temática, abordando outras realidades, examinando amostras diversificadas, bem como de diferentes regiões, como capitais e interiores de estado, a fim de compreender as diversidades socioeconômicas. Além disso, considera-se a relevância de colaborar no desenvolvimento de práticas profissionais não estigmatizantes e de apoio aos filhos adolescentes e às mães solo.
Financiamento:A coautora Vanessa Antunes Alves é bolsista de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
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Recebido: 22 de Março de 2024; Aceito: 28 de Março de 2025










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