Serviços Personalizados
Journal
artigo
Indicadores
Compartilhar
Psicologia: teoria e prática
versão impressa ISSN 1516-3687
Psicol. teor. prat. vol.27 no.1 São Paulo 2025 Epub 23-Fev-2026
https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptppa16272.pt
Artigos originais baseados em dados empíricos
Adaptação Transcultural do Questionário de Ambiente de Literacia Familiar para o Brasil (Home Literacy Environment Questionnaire)
1Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, Minas Gerais, Brasil.
Literacia familiar (ou home literacy) consiste em práticas realizadas no ambiente familiar que favorecem a aprendizagem infantil. No Brasil, pesquisas relacionadas a esse tema ainda são escassas, e os instrumentos de medida para o construto, quase inexistentes. O presente estudo tem como objetivo realizar a adaptação transcultural do questionário Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017) para o português e o contexto brasileiro. Foram realizadas seis etapas neste procedimento: tradução do instrumento de origem, síntese das versões, avaliação por especialistas, avaliação pelo público-alvo, tradução reversa e aprovação pelos autores originais e estudo-piloto. No estudo-piloto, participaram 32 mães de crianças entre 4 e 6 anos de idade e de diferentes níveis socioculturais. O estudo-piloto demonstrou que os participantes não tiveram dificuldades em preencher o questionário. Complementarmente às etapas de adaptação do instrumento, avaliamos também as características sociodemográficas das famílias. Análises preliminares foram realizadas para entender como fatores familiares relacionados com o nível socioeconômico se correlacionaram com as medidas do instrumento de literacia familiar. Os resultados dessa análise foram consistentes com os encontrados na literatura. Ou seja, quanto maior a escolaridade materna, maior a renda familiar mensal e escores mais elevados nas dimensões de literacia familiar apresentadas no questionário. Ao final do estudo, realizamos a tradução e adaptação, um instrumento que tem equivalência semântica e cultural com a original, linguagem clara, boas propriedades psicométricas e adaptado ao contexto brasileiro.
Palavras-chave: alfabetização; aprendizagem; criança; leitura; levantamentos e questionários
Home literacy encompasses practices adopted at home to promote children’s learning. In Brazil, few studies have addressed this topic, and the instruments used to measure the construct are nearly nonexistent. This study aims to adapt the Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017) to the Brazilian context through a cross-cultural adaptation process. The procedure followed six steps: translation of the original instrument, reconciliation of versions, expert evaluation, assessment by the target audience, back-translation and approval by the original authors, and a pilot study. Thirty-two mothers of four-to-six-year-old children from diverse sociocultural backgrounds participated in the pilot study. The results indicated that participants experienced no difficulties completing the questionnaire. Along with the instrument adaptation, sociodemographic data were collected from the families. Preliminary analyses were conducted to explore correlations between families’ socioeconomic characteristics and the dimensions of the home literacy questionnaire. The findings align with existing literature: higher maternal education levels and family income were associated with higher scores in the home literacy dimensions. In conclusion, the adapted instrument demonstrates semantic and cultural equivalence with the original, uses clear language, exhibits good psychometric properties, and is suitable for the Brazilian context.
Keywords: Literacy; Learning; Reading; Children; Surveys and Questionnaires
originales y estudio piloto. En el estudio piloto participaron 32 madres de niños de aproximadamente cuatro a seis años de edad y de diferentes niveles socioculturales. El estudio piloto demostró que los participantes no tuvieron dificultades para completar el cuestionario y, además de las etapas de adaptación del instrumento, también se evaluaron las características sociodemográficas de las familias. Se llevaron a cabo análisis preliminares para comprender cómo los factores familiares relacionados con el nivel socioeconómico se correlacionaban con las medidas del instrumento de alfabetización familiar. Los resultados de este análisis fueron consistentes con los encontrados en la literatura. En otras palabras, cuanto mayor es el nivel educativo de la madre, mayor es el ingreso familiar mensual y mayores puntuaciones en las dimensiones de alfabetización familiar presentadas en el cuestionario. Al final del estudio, tradujimos y adaptamos un instrumento que tiene equivalencia semántica y cultural con el original, lenguaje claro, buenas propiedades psicométricas y adaptado al contexto brasileño.
Palabras-clave: Alfabetización; Aprendizaje; Niño; Lectura; Encuestas y Cuestionarios
A apxrendizagem da leitura e da escrita pode ser um dos maiores desafios na vida da criança em sociedades letradas (Gough & Hillinger, 1980). Apesar da importância incontestável da escola na alfabetização, o início desse processo acontece muito antes da escolarização formal (Whitehurst & Lonigan, 1998). Estudos demonstram que as atividades desenvolvidas em casa, mesmo antes do período escolar, podem auxiliar no desenvolvimento posterior da linguagem oral e escrita. Ou seja, existe uma importância crucial da família nessa aprendizagem inicial das crianças (Altun et al., 2021; Borges & Azoni, 2021; Cardoso & Mota, 2015).
Home literacy pode ser definido como as características do ambiente familiar que contribuem para o aprendizado posterior da leitura e escrita (Payne et al., 1994). Exemplos de aspectos incluídos nesse construto são a leitura compartilhada de livros infantis entre pais e filhos, a exposição a livros de histórias, a quantidade de livros infantis disponíveis para a criança e as condições de vida propiciadas pelo nível socioeconômico familiar. Tais práticas beneficiam o desenvolvimento infantil de uma forma geral e, mais particularmente, a linguagem oral e escrita (Mendelsohn et al., 2020; Incognito & Pinto, 2021; Sénéchal et al., 1998; Ong’ayi et al., 2019).
No contexto brasileiro, home literacy, ou sua tradução, literacia familiar, ainda não tem uma definição clara. Utilizaremos neste artigo a definição de literacia familiar como práticas de leitura e experiências com a língua escrita às quais uma pessoa é exposta em seu ambiente domiciliar que transcendem o letramento, abrangendo, para além disso, práticas de alfabetização (Mota, 2014). São escassas as investigações sobre literacia familiar no contexto brasileiro. Dessa forma, torna-se crucial entender a natureza dessas atividades, uma vez que elas podem influenciar a alfabetização (Mota, 2014).
A exposição direta a livros infantis e o ensino dos pais estão diretamente relacionados às competências de alfabetização infantil, como um maior vocabulário e melhor compreensão da linguagem (Sénéchal & LeFevre, 2002). Oportunidades para as crianças explorarem e aprenderem, incluindo a disponibilidade de livros e brinquedos educacionais, é fundamental para o desenvolvimento infantil (Ong’ayi et al., 2019). Oliveira et al. (2016) estudaram diversos fatores relacionados às práticas parentais e encontraram que a disponibilidade de recursos materiais, como a quantidade de livros em casa e materiais para a criança desenhar e escrever, foi o fator de maior significância relacionado à leitura de palavras. Ou seja, para aprender a ler, as crianças precisam ser expostas à escrita, o que somente a disponibilidade desses recursos no cotidiano das crianças pode oferecer.
A presença de recursos não é suficiente para garantir a alfabetização, há necessidade de interação com esse material. No entanto, quando há disponibilidade de livros e outros materiais educacionais em casa, há uma maior probabilidade que essas interações ocorram. O envolvimento materno, paterno e de outros membros da família em atividades como contação de histórias e leitura de livros está associado à maior capacidade de identificação de letras, nomeação de símbolos e leitura das palavras em pré-escolares (Ong’ayi et al., 2019). O ambiente de literacia familiar pode incluir ainda a observação pelos filhos da leitura realizada por seus pais (por exemplo, a leitura de livros, jornais, contas), da escrita dos pais (listas de compras, cartas, planejamentos), visitas à biblioteca e oportunidades para a criança ler e escrever independentemente dos pais (Kassow, 2006). Além disso, outros estudos destacam também a crença familiar dos pais sobre a importância da leitura e escrita em casa como uma faceta importante na literacia familiar (Altun et. al., 2021; Buvaneswari & Padakannaya, 2017; Myrtil & Jiang, 2019).
Mata e Pacheco (2009) caracterizam as práticas de literacia familiar em três tipos. O primeiro diz respeito às atividades diárias das famílias, como ler e escrever receitas culinárias e ler rótulos de embalagem. O segundo tipo está relacionado com o entretenimento, envolvendo o lúdico e realizado nos momentos livres. Esse tipo envolve, por exemplo, ler e escrever histórias e brincar de rimar com o filho. Por fim, existem as práticas de treino, direcionadas a ensinar, como ajudar o filho a ler e a escrever o próprio nome e o de familiares. Essas práticas familiares são preditores importantes do desenvolvimento educacional das crianças (Haney & Hill, 2004; Faver & Lonigan, 2006).
Apesar de poucos estudos no âmbito nacional, pesquisas brasileiras têm sido conduzidas para avaliar o ambiente de literacia familiar e sua consequente influência na alfabetização infantil no Brasil. Fatores como o nível de escolaridade dos pais e a leitura compartilhada de livros estão diretamente associados a melhor capacidade expressiva e vocabulário receptivo em crianças de baixa renda no Norte do país (Mendelsohn et al., 2020). Mendelsohn et al. (2020) investigaram 506 díades de mães e filhos em um programa de leitura em voz alta e concluíram que interações preventivas de leitura realizadas no âmbito familiar devem ser consideradas, inclusive para famílias com baixo nível de alfabetização.
Cardoso e Mota (2015) investigaram práticas cotidianas familiares, como a quantidade de livros infantis em casa e visitas frequentes às bibliotecas, e habilidades precursoras da alfabetização, como consciência fonológica, conhecimento do nome das letras e vocabulário receptivo das crianças. Os resultados apontaram um melhor desempenho das crianças de escolas particulares em todas as medidas investigadas. Curiosamente, as autoras também encontraram que a condição econômica associada à classe social não foi um fator determinante para práticas de literacia familiar. Observou-se que crianças com renda familiar entre 1 e 4 salários-mínimos, que estão matriculadas em escolas particulares, têm desempenho semelhante ao das crianças da mesma escola, e não do mesmo nível socioeconômico. Esses dados sugerem que questões ligadas à escolaridade e/ou o investimento dos pais na educação dos filhos podem compensar possíveis desvantagens econômicas. Ao final do estudo, concluíram que as práticas de literacia familiar não estavam diretamente relacionadas ao conhecimento sobre alfabetização das crianças. Cardoso e Mota apontam que isso pode possivelmente ser explicado devido ao baixo nível socioeconômico das famílias da amostra investigada, ocasionando uma interação insuficiente das atividades em casa para a aprendizagem infantil.
Piccolo et al. (2012) realizaram um estudo longitudinal investigando a contribuição de diversos fatores no desempenho em leitura de crianças brasileiras, correlacionando a capacidade em leitura de pré-escolares às variáveis psicossociais e socioeconômicas. Esse estudo demonstrou que a competência em leitura se relaciona a fatores psicossociais, como idade e escolaridade materna, renda média familiar, número de moradores na casa, quantidade de horas que a mãe permanece com o filho por dia e aspectos de psicopatologia materna. Foi encontrado que quanto menor o número de pessoas na casa e mais dedicação materna, melhor a habilidade de leitura da criança. De forma geral, quanto maior o status socioeconômico da família, mais alto o desempenho nas tarefas de leitura realizadas pela criança.
É consenso na literatura, tanto internacional como nacional, a necessidade de compreensão dos aspectos do ambiente familiar que contribuem para o desenvolvimento infantil. Compreender as vivências que as crianças trazem de suas casas para a escola é um passo importante para auxiliar nas habilidades precursoras de alfabetização (Farver et al., 2013). Assim, podemos perceber que é extremamente importante investigar questões relacionadas à literacia familiar. Porém, ainda se faz necessário ampliar os estudos relacionados à literacia familiar e à aprendizagem infantil no contexto brasileiro e compreender quais facetas estão relacionadas a esse construto.
Conhecer as práticas de literacia familiar se torna uma questão de saúde pública, uma vez que é de extrema relevância para o desenvolvimento adequado da linguagem infantil (Borges & Azoni, 2021). Apesar do crescente interesse nos estudos de literacia familiar no Brasil, os instrumentos disponíveis para investigar tal temática são poucos e limitados. Mota (2014) argumenta que, devido ao baixo desempenho em leitura e à alta incidência de fracassos escolares no âmbito brasileiro, são necessárias evidências empíricas que, entre outros aspectos, considerem a construção e/ou a adaptação de instrumentos para nosso país.
No contexto brasileiro, temos um instrumento de medida disponível para avaliação das práticas de literacia familiar. O Questionário de home literacy (Cardoso & Mota, 2015; Palinha & Mota, 2019) foi elaborado por Mota em 1998. O instrumento foi adaptado de pesquisas que avaliaram crianças na Califórnia. Entretanto, o questionário é para avaliação breve, abrangendo poucas facetas do ambiente familiar e tendo apenas 24 itens. Além disso, os itens foram construídos e avaliados na década de 1990, o que possivelmente pode demonstrar uma realidade distinta do contexto atual familiar.
Devido à escassez de artigos disponíveis em português e à ampla disponibilidade de materiais em inglês, o processo de adaptação de instrumentos que já existem é uma alternativa para sanar as lacunas sobre determinados construtos (Borsa & Bandeira, 2014). Essa adaptação, realizada de uma língua para outra, é um processo complexo, pois exige que sejam compreendidas as semelhanças e as diferenças entre as populações, além de serem necessários testes imparciais em diferentes segmentos de uma mesma população (Hambleton & Rogers, 1991). Sendo conduzido com rigor científico, esse processo tem inúmeras vantagens, como comparar os dados em diferentes amostras e maior capacidade de generalização dos dados obtidos (Borsa et al., 2012).
Uma busca realizada em indexadores internacionais por questionários que avaliam home literacy encontrou um instrumento promissor na avaliação da literacia familiar, construído por Buvaneswari e Padakannaya (2017). Este questionário está escrito em inglês e foi construído para ser utilizado em famílias na Índia. No Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017), os autores realizaram uma ampla pesquisa, considerando cinco facetas importantes na avaliação da literacia familiar: o ambiente físico de alfabetização; hábitos de alfabetização dos pais; hábitos de alfabetização da própria criança; interação pai-filho para atividades de linguagem e alfabetização e crenças dos pais sobre a alfabetização. Essas facetas estiveram então intimamente relacionadas com o desenvolvimento de diversos aspectos da alfabetização emergente, como o conhecimento das letras, a consciência fonológica e o vocabulário infantil. Tal instrumento tem consistência interna dos itens dentro dos parâmetros esperados de Alfa de Cronbach e validade de conteúdo em níveis aceitáveis. Desse modo, o questionário se mostra promissor na avaliação da literacia familiar infantil.
O presente artigo tem como objetivo principal descrever o processo de adaptação transcultural do Home Literacy Environment Questionnaire de Buvaneswari e Padakannaya (2017) para o contexto brasileiro, seguindo as sugestões dos estudos de Beaton et al. (2000), Borsa e Bandeira (2014), Borsa et al. (2012) e Gjersing et al. (2010) e realizar análises de consistência interna dos itens do questionário. Espera-se, ao final desse processo, obter um instrumento de fácil compreensão e boa consistência interna que dê a possibilidade de acesso às dimensões de literacia familiar no contexto brasileiro.
Diversos preditores estão associados à aquisição dos conhecimentos linguísticos das crianças. Estudos mostram que o nível socioeconômico (aspectos educacionais, ocupacionais e de renda) da família podem impactar diretamente o desenvolvimento cognitivo infantil (Alves & Soares, 2009; Piccolo et al., 2012). Por exemplo, pais com escolaridade mais alta demonstraram maior engajamento em atividades de literacia familiar e subsequentes melhores resultados nas atividades de alfabetização (Incognito & Pinto, 2021; Mendelsohn et al., 2020; Myrtil et al., 2019). Dessa forma, como objetivo secundário, pretende-se entender como fatores familiares relacionados com o nível socioeconômico se correlacionaram com as medidas do instrumento de literacia familiar e avaliar se as correlações detectadas são similares às encontradas na literatura.
Método
Para realizar a adaptação transcultural do instrumento, seguimos as seguintes etapas: 1) tradução do questionário para o português; 2) síntese das duas versões traduzidas; 3) avaliação da síntese por experts na área; 4) avaliação do instrumento pelo público-alvo; 5) tradução reversa e aprovação pelos autores originais e 6) realização do estudo-piloto (Beaton et al., 2000; Borsa & Bandeira, 2014: Borsa et al., 2012; Gjersing et al., 2010). Nessa última etapa, além do preenchimento do questionário, os participantes também responderam questões relacionadas ao nível socioeconômico familiar com o objetivo de entender melhor como os fatores familiares socioeconômicos estão relacionados às diferentes dimensões avaliadas no instrumento de literacia familiar.
Participantes
Para a primeira etapa, em que foi realizada a tradução do instrumento para o idioma-alvo, a pesquisa contou com a participação de dois juízes bilíngues português-inglês. As duas pesquisadoras responsáveis pelo projeto realizaram a segunda etapa e fizeram a síntese das versões traduzidas. Três profissionais com experiência na área de avaliação psicológica foram requeridos para avaliar questões relativas ao conteúdo dos itens do Home Literacy Environment Questionnaire na terceira etapa. Participaram ainda duas mães de crianças de 4 anos, moradoras da cidade de São João del-Rei, MG, que realizaram uma análise qualitativa dos itens do instrumento como auxílio para a quarta etapa do procedimento. Na quinta etapa, houve a retrotradução do instrumento e um juiz bilíngue inglês-português foi convidado. Por último, na sexta etapa, contamos com a participação de 32 mães no estudo-piloto.
Instrumentos
Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017)
O questionário está escrito em inglês e foi construído com o objetivo de avaliar crianças do jardim de infância que vivem na Índia, falam tâmil e inglês e que frequentam escolas de língua inglesa. O instrumento final foi elaborado a partir da consulta a diferentes artigos, com 55 itens, considerando-se cinco dimensões importantes na avaliação da literacia familiar: o ambiente físico (oito itens), hábitos de alfabetização dos pais (oito itens), hábitos de alfabetização infantil (seis itens), interação pais-filhos com a linguagem (vinte e três itens) e as crenças dos pais relacionadas à aprendizagem da língua (dez itens). O questionário é um instrumento de relato parental. Para responder aos itens, os pais são convidados a selecionar de 1 a 5, indo de nunca a muito frequentemente e de discordo definitivamente a concordo definitivamente, com relação tanto à frequência como à importância dessas atividades.
Questionário socioeconômico
O questionário foi desenvolvido pelas pesquisadoras responsáveis pelo estudo com base na literatura estudada. O questionário serve a dois objetivos. O primeiro objetivo é a caracterização da amostra, e o segundo, é investigar se diversas características sociodemográficas do ambiente domiciliar, como escolaridade dos pais, renda, idade das crianças e tipo de escola que frequentam, podem estar associadas às diversas facetas de literacia familiar avaliadas no instrumento adaptado.
Procedimentos
Para realizar a tradução e adaptação do Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017) para o português brasileiro, inicialmente fizemos contato com os autores do instrumento, por e-mail, e solicitamos a autorização para realizar os procedimentos. Com o assentimento dos pesquisadores, realizamos o download da versão em inglês. Com o intuito de manter seu conteúdo, suas qualidades psicométricas e a validade do instrumento, o processo se deu em etapas com base em Borsa et al. (2012) no ano de 2022. A Figura 1 ilustra brevemente os passos da adaptação.
Tradução do instrumento
Nesta primeira etapa, o objetivo foi a tradução do instrumento do idioma de origem, inglês, para o idioma-alvo, português. Os tradutores foram instruídos a não realizar a tradução literal dos itens, mas sim equilibrar considerações referentes à língua, cultura e ao contexto do construto observado (Beaton et al., 2000). Foram realizadas duas traduções independentes do questionário original para minimizar riscos de vieses de compreensão linguística, cultural ou interpretativa. Os tradutores foram pessoas fluentes no inglês e que tinham como língua nativa o idioma-alvo de aplicação do questionário – o português brasileiro. Um dos tradutores compreendia o construto a ser avaliado e o outro não, conforme recomendado por Beaton et al. (2000). Tal fato é significativo, uma vez que, tendo perfis diferentes dos tradutores, idiossincrasias pessoais podem ser evitadas. Os dois tradutores receberam a versão original e uma tabela para assinalarem a tradução dos itens, das instruções e possíveis considerações.
Síntese das versões traduzidas
Após a etapa de tradução do instrumento, foi realizada a síntese das duas versões produzidas. Com o objetivo de comparar as diferenças das traduções, foram avaliadas as possíveis divergências semânticas, idiomáticas, conceituais, linguísticas e de contexto, para chegar a uma tradução única (Borsa et al., 2012). Para realizar a síntese, as pesquisadoras responsáveis pelo projeto avaliaram cada item em particular, considerando quatro pontos importantes a serem observados: equivalência semântica (avaliação da correspondência gramatical e de vocabulário das palavras para o novo idioma); equivalência idiomática (avaliação do significado dos itens de uso coloquial na língua); equivalência experiencial (avaliação da coerência de aplicação dos itens àquela cultura-alvo) e equivalência conceitual (avaliação da adequação dos conceitos dos itens) (Borsa et al., 2012).
Avaliação da síntese por experts
Com base em estudos recentes (Borsa & Bandeira, 2014) e objetivando avaliar questões práticas do instrumento, como aspectos linguísticos, estrutura, layout, instruções, fonte e disposição das informações, convidamos três juízes para avaliarem os itens do questionário. Os especialistas são pessoas capacitadas nas áreas de desenvolvimento infantil e avaliação psicológica. Nessa etapa, solicitamos que os experts avaliassem cada item do questionário seguindo uma escala Likert (entre 1 e 5 pontos) em relação a Pertinência (P) (“O item é pertinente para avaliar o construto?”), Formulação (F) (“O item está bem formulado?”), Clareza (C) (“O item está claro para a compreensão?”), Modificação (M) (O item deve ser modificado? Se sim, qual é a sugestão de modificação?) e, por fim, deixamos um campo em branco para as possíveis sugestões. Essa etapa foi realizada de forma presencial, e discussões da equipe de especialistas foram feitas ao final, avaliando cada item do questionário.
Avaliação pelo público-alvo
Para avaliar se todos os itens do questionário, as instruções e toda a distribuição das informações estavam compreensíveis ao público-alvo, foram convidadas duas participantes para um Grupo Focal com o objetivo de avaliarem os itens do questionário. Solicitamos, então, que as duas mães de crianças pré-escolares respondessem ao questionário e emitissem sua opinião sobre as informações contidas no instrumento. Conversamos, inicialmente, sobre o conceito de literacia familiar e solicitamos que elas respondessem às perguntas. Após o término das questões, realizamos uma leitura em voz alta e requisitamos um feedback por parte das respondentes e pedimos a cada mãe que emitisse seu parecer sobre cada um dos itens, se estavam compreensíveis em informações linguísticas, conceituais e de layout.
Tradução reversa
Com o objetivo de verificar o quanto o instrumento traduzido reflete o instrumento original, fizemos uma retrotradução dos itens com um tradutor cuja língua nativa é o idioma de origem do instrumento (inglês), fluente em português e não conhecedor do construto avaliado. O tradutor recebeu a versão traduzida e uma tabela para assinalar a tradução dos itens, das instruções e possíveis considerações. Após realizada, a tradução reversa do instrumento foi enviada aos autores de origem para que avaliassem a concordância dos itens com o construto inicial. Essa etapa é importante, uma vez que o autor do questionário pôde avaliar se os itens traduzidos e adaptados tinham o mesmo conceito do instrumento original. Por fim, solicitamos a uma especialista na língua portuguesa que verificasse o documento e detectasse qualquer problema ortográfico ou gramatical.
Estudo-piloto
O estudo-piloto teve a participação de mães que responderam ao questionário de modo on-line, por meio da plataforma Google Forms. Divulgamos a pesquisa pelas redes sociais e fizemos um texto introdutório e informativo sobre o assunto. Para os participantes, solicitamos o consentimento de participação na pesquisa e demos todas as instruções possíveis para que o instrumento fosse de fácil compreensão para todos. Foi solicitado aos participantes que apontassem quaisquer dificuldades ou sugestões durante o preenchimento do questionário. Desse modo, foi possível sondar se os participantes compreendiam todos os itens, evitando, assim, itens confusos ou imprecisos. Nos itens do questionário, colocamos perguntas referentes ao nível socioeconômico, para identificarmos questões como idade e gênero das crianças e dos responsáveis, renda, nível de escolaridade do respondente e número de filhos na família. Essa etapa teve o objetivo de testar, em uma pequena amostra com as mesmas características da população-alvo, o instrumento em tradução e adaptação transcultural. Como sugerido em Gjersing et al. (2010), de 30 a 40 pais de crianças pré-escolares foram convidados a responderem ao instrumento.
Resultados
Tradução do instrumento
A maioria dos itens não apresentou nenhuma dificuldade de tradução. Os dois pesquisadores realizaram traduções similares e sem nenhuma discrepância significativa. Apenas dois itens foram sinalizados pelos tradutores. O item 23 da quarta dimensão, interação entre pais e filhos, “I translate the stories into our home language when my child does not understand English words”, foi apontado com ressalvas pelos dois tradutores, por envolver um contexto bilíngue que não é típico das crianças brasileiras. O item 10 da quinta dimensão, crença dos pais, “I think that it is important to develop my child’s ability to hear the separate sounds in spoken words such as “f”in “fish” ([p] in [padagu] in Tamil)”, também foi considerado em nota pelos tradutores, uma vez que a tradução envolveria uma complexidade maior, por serem sons de outras línguas que precisam de adaptação.
Síntese das versões traduzidas
Pelo fato de as duas traduções terem sido semelhantes, existem poucos itens a serem destacados. No item 3 da primeira dimensão, ambiente físico, consideramos importante dar exemplos sobre o que se refere a movimentos refinados, “Brinquedos ou jogos que exigem movimentos refinados, como recortar, desenhar ou abotoar”. No item 23 da quarta dimensão, interação entre pais e filhos, “I translate the stories into our home language when my child does not understand English words”, deixamos uma observação para que seja retirado, por não abarcar a realidade brasileira; por fim, no item 10 da última dimensão, crença dos pais, foi acrescentado outro exemplo para melhor compreensão dos pais: “Acho que é importante desenvolver a capacidade do meu filho(a) de perceber os sons das letras das palavras, como ‘ffff” em ‘faca’ ou ‘zzzz’ em ‘zebra’”.
Avaliação dos experts
Durante a avaliação do questionário, os experts convidados sugeriram mudanças em relação a alguns itens. O item 6 da primeira dimensão do questionário, ambiente físico, “Livros do alfabeto/ blocos/ letras magnéticas/ cartões de memória/ livros de atividades”, foi considerado pouco claro e mal formulado, com a sugestão de modificação para “letras com ímãs” e retirando “cartões de memória”. Na segunda dimensão, hábitos de alfabetização dos pais, o primeiro item, “Nossa família compra e lê o jornal diário”, foi classificado em 3 na escala Likert (entre 1 e 5 pontos) quanto à sua pertinência, devido ao contexto cultural da maioria dos brasileiros atuais lerem notícias on-line. Como sugestão para o item, os especialistas sugeriram que fosse retirada a palavra “compra”, para que não houvesse duas informações em uma mesma questão e para que a leitura abrangesse também outras formas de notícias, e não somente o jornal impresso. Foi considerado pelos experts que o item 7 da mesma dimensão, “Eu pessoalmente gosto de ler e tenho o hábito da leitura”, também apresenta duas informações em uma mesma questão. O corpo de especialistas sugeriu, então, que o item fosse mudado para “Eu pessoalmente tenho o hábito de ler”. Dessa forma, o item ficou apenas com a informação referente ao hábito pela leitura. O item 4, da terceira dimensão, hábitos da criança, “Meu filho(a) finge ler livros ou conta histórias para si mesmo”, recebeu classificação 3 na escala Likert (entre 1 e 5 pontos), considerando sua pertinência e, para ele, foram sugeridas modificações na parte final do item: “conta histórias em voz alta”. Na quarta dimensão, interação pai-filho, o primeiro item, “Eu ensino simples palavras de boas maneiras (por favor, desculpe, obrigado etc.)” foi considerado pouco claro e mal formulado, recebendo a sugestão de inversão da ordem da sentença para uma melhor compreensão, sendo alterado para “Eu ensino palavras simples relacionadas às boas maneiras (por favor, desculpe, obrigado etc.)”. O quarto item da mesma dimensão, “Eu nomeio ilustrações em livros e converso sobre as ilustrações”, recebeu classificação 3 na escala Likert (entre 1 e 5 pontos) para formulação e clareza, pois os especialistas o consideraram vago, por não se referir a quem é dirigida a conversa. Foi sugerido que esse item fosse avaliado pelo público-alvo para observar a compreensão. O item 15, “Quando lemos, peço ao meu filho(a) que indique diferentes letras/números impressos no livro”, recebeu a classificação 4 na escala Likert (entre 1 e 5 pontos) para clareza, e a sugestão de modificação foi para que houvesse a troca da palavra “indique” por “nomeie”. O vigésimo item, “Meu filho(a) e eu fazemos novas rimas brincando com palavras/sons”, recebeu a sugestão de modificação de se retirar a palavra “novas” para que seja melhor compreendido e tenha uma abrangência maior sobre as rimas. O item 23 na versão original, “I translate the stories into our home language when my child does not understand English words”, foi retirado do questionário traduzido, uma vez que, em sua criação, foram consideradas crianças bilíngues (inglês e tâmil), não sendo a realidade da maioria dos brasileiros, que falam apenas uma língua.
Para os itens do questionário que eram redigidos como “Meu filho(a) me vê escrevendo/digitando”, foram sugeridas mudanças para “Meu/minha filho/(a)”, por uma questão de abrangência de gêneros (30 itens). Os itens quatro e cinco da segunda dimensão, “Meu filho(a) me vê jogando jogos de palavras, palavras cruzadas etc.” e “Gosto de conversar sobre livros relacionados a vários assuntos com amigos e familiares”, foram considerados práticas pouco frequentes no Brasil e intimamente relacionados ao nível socioeconômico das famílias. O painel acreditava que poderia não ser muito relevante, porém sugeriram deixar o item e verificar se estaria correlacionado ao nível socioeconômico familiar.
Grupo focal
Durante a realização da quarta etapa, avaliação pelo público-alvo, os participantes sugeriram que, no início do questionário, fosse acrescentada uma descrição do que é literacia familiar, uma vez que não é um termo usualmente conhecido pela população brasileira. Dessa forma, a explicação foi adicionada à versão final do instrumento. No primeiro item da segunda dimensão, “Nossa família lê jornal diariamente”, foi relatado pelo grupo que as famílias não leem jornal, mas sim notícias on-line, sendo sugerida, então, a modificação para notícias em geral. No terceiro item da mesma dimensão, foi sugerido que houvesse uma oposição de ideias melhor explicitada. O item ficou “Meu/Minha filho/a me vê lendo coisas não relacionadas ao trabalho, mas por prazer (como hobby, por exemplo)”. No sexto item, “Eu vou a livrarias/biblioteca junto com meu filho(a)”, foi discutida a ideia de que as mães não necessariamente levem os filhos a livrarias e/ou bibliotecas, mas sim a lojas que vendem esses materiais devido ao contexto da cidade em que residem. No sexto item da última dimensão, “Os pais devem selecionar livros com base em ilustrações coloridas, conteúdo interessante e linguagem corriqueira”, foi sugerido que a expressão “dia a dia” fosse acrescida ao item para uma melhor compreensão.
Retrotradução do instrumento e avaliação pelos autores
O processo de tradução reversa foi relativamente simples e com poucas considerações feitas pelo tradutor. O responsável pela tradução reversa do questionário nos enviou a sugestão de acrescentar a palavra “têm” na instrução da primeira dimensão, para que ela seja melhor compreendida: “As perguntas a seguir estão relacionadas aos materiais usados para ler e escrever em sua casa. Selecione um número, de 1 a 5, para indicar a frequência com que você usa (ou têm) estes itens em sua casa com seu/sua filho/(a)”. No envio aos autores originais, recebemos o aval para continuarmos o processo e a confirmação de que todos os itens mantiveram seus sentidos originais.
Estudo-piloto
Caracterização da amostra
Participaram do estudo-piloto 32 participantes, todas do sexo feminino e mães, com idade média de 37,41 anos, com idade mínima de 23 anos e máxima de 46 anos. A maioria das mães tinha Ensino Superior completo (62,5%) e renda familiar mensal de dois a cinco salários mínimos (56,3%). As crianças tinham em média 5 anos e 3 meses, sendo a idade mínima 3,48 anos e a máxima 6,45 anos. Das crianças, 53,1% eram do sexo masculino e 46,8% do sexo feminino. Referente às escolas, 53,1% das crianças estudavam em escola pública e 46,8% em escola particular. A maioria das famílias participantes do estudo tinham dois filhos (53%) ou um filho (37%) residentes na mesma casa.
Questionário de literacia familiar
Foi solicitado a todas as pessoas que sinalizassem itens confusos ou que enviassem sugestões para que o questionário ficasse mais apropriado ao contexto brasileiro. Nenhuma participante reportou dificuldades ou sugestões para melhoria do instrumento, o que demonstra que o instrumento foi de fácil compreensão para as famílias.
Para a análise de consistência interna dos itens do questionário adaptado, utilizou-se o coeficiente alfa de Cronbach (Cronbach, 1951). O alfa de Cronbach é uma ferramenta estatística que quantifica, numa escala de 0 a 1, até que ponto todos os itens em um teste medem o mesmo construto e, portanto, está conectado à inter-relação dos itens dentro do teste. Nesse estudo, a medida de literacia familiar é um construto com cinco dimensões. O instrumento original reportou apenas medidas para as dimensões, já que, segundo os autores do instrumento original, se um instrumento tem subescalas, então a medida de consistência interna deve ser aplicada separadamente às subescalas (Buvaneswari & Padakannaya, 2017). Optou-se por seguir a indicação dos autores do instrumento original e realizar as análises de consistência apenas nas dimensões separadamente. Para a dimensão de ambiente físico (8 itens, Figura 2), o valor de alfa foi .813. Para a dimensão de hábitos de literacia parentais (8 itens, Figura 3), o valor de alfa foi .890, e para os hábitos da criança (6 itens, Figura 4) foi .785. Por fim, as atividades de interação da criança com linguagem e literacia (22 itens, Figura 5) foi de .951, e as crenças parentais (10 itens, Figura 6) foi de .883. Todas as dimensões da escala adaptada apresentaram valores acima de .7 para consistência interna.
Questionário de literacia familiar e medidas sociodemográficas
A Tabela 1 demonstra os resultados das dimensões da medida utilizada para avaliar a literacia familiar. Não existem notas esperadas para cada uma das dimensões. No entanto, quanto maior for o escore em cada dimensão, maior o comprometimento da família com atividades relacionadas à leitura e escrita no ambiente familiar. Para facilitar a interpretação, os resultados serão apresentados de forma concisa, demonstrando as pontuações em cada uma das dimensões do instrumento e divididos em dois grandes grupos, crianças matriculadas em escolas públicas e particulares. A literatura indica que existe uma diferença nos resultados dos questionários de pais de crianças de escolas públicas e particulares que extrapolam outras variáveis socioeconômicas (Cardoso & Mota, 2015).
Tabela 1 Média (M) e desvio padrão (DP) total das dimensões do Questionário de Ambiente de Literacia Familiar
| nº | Dimensão (número de itens) | Escola privada M (DP) | Escola pública M (DP) |
|---|---|---|---|
| 1 | Ambiente físico (8) | 3,92 (0,46) | 3,83 (0,80) |
| 2 | Hábitos de alfabetização dos pais (8) | 3,21 (0,71) | 3,21 (1,05) |
| 3 | Hábitos de alfabetização da própria criança (6) | 3,85 (0,65) | 4,11 (0,72) |
| 4 | Interação pai-filho para alfabetização (22) | 3,72 (0,60) | 3,64 (0,81) |
| 5 | Crença dos pais (10) | 4,52 (0,49) | 4,20 (0,43) |
Na dimensão ambiente físico, as médias de respostas das mães estavam acima da média e se mantiveram similares entre as crianças matriculadas em escolas públicas e privadas. Um único item nessa dimensão apresentou uma diferença. “Existe um local próprio para livros e brinquedos em casa” obteve média mais elevada em alunos da rede privada, mas que não foi estatisticamente significativa (Privada M= 4,06; Pública M= 3,88). Os itens “Meu/Minha filho/(a) me vê jogando jogos de palavras, como palavras cruzadas, caça-palavras etc.” (Privada M= 2,06 Pública= 2,64) e “Eu vou a livrarias/ bibliotecas/lojas que vendam livros junto com meu/minha filho/(a)” (Privada M= 2,46 Pública M= 2,76) da segunda dimensão obtiveram médias baixas, um possível indicador de que essas não sejam práticas muito frequentes dos brasileiros. Na terceira dimensão, os itens referentes aos alunos da escola pública receberam média relativamente mais elevada em relação aos alunos da rede privada. O item “Meu/Minha filho/(a) pede ajuda para escrever”, por exemplo, teve uma média 4,47 na escola pública e média 3,53 na privada, uma diferença estatisticamente significativa (ρ = .008). Na quarta dimensão, o item “Eu leio histórias para meu/minha filho(a)” teve uma média diferente nos dois tipos de escolas, com a escola privada tendo uma média mais elevada (Privada M= 4,13 e Pública M= 3,70, sem diferenças estatísticas) e, em contrapartida, o item “Quando leio, peço para meu/minha filho/(a) mostrar diferentes letras/números impressos no livro” também apresentou uma disparidade, mas com a escola pública apresentando uma média mais alta, apesar de não ser estatisticamente significativa (Privada M= 2,86 e Pública M= 3,05). Na quinta e última dimensão, todos os itens referentes às crianças da rede privada apresentaram médias mais elevadas. O item “A maioria das crianças se sai bem na leitura de palavras na escola porque seus pais as ensinam a ler em casa” (Privada M= 4,46 e Pública M= 3,76) e o item “Os pais têm a responsabilidade de ensinar habilidades de leitura e escrita a seus/suas filhos/(as) (Privada M= 4,40 e Pública M= 3,76) apresentaram diferenças estatisticamente significativas (ρ = .030 e ρ = .048, respectivamente).
Foram realizadas análises de correlação de Spearman entre os itens do questionário de Literacia Familiar e os resultados do questionário sociodemográfico. Espera-se que as variáveis sociodemográficas se correlacionem com pelo menos algumas das dimensões do questionário de literacia familiar, como encontrado na literatura. O total da dimensão “ambiente físico” se correlacionou positivamente com a escolaridade materna (ρ = .39, ρ = .025) e a renda familiar mensal (ρ = .37, ρ = .035). Quanto maior a escolaridade e renda, maior a pontuação nesta dimensão. Os hábitos de alfabetização dos pais, em geral, se correlacionaram positivamente com a escolaridade da mãe (ρ = .36, ρ = .041). Os valores totais da dimensão” hábitos de alfabetização da própria criança” não se correlacionaram com nenhuma variável dos aspectos socioeconômicos. A quarta dimensão, “interações pais-filhos em atividades referentes à alfabetização”, se correlacionou com a renda familiar mensal (ρ = .37, ρ = .035). Quanto maior a renda, maior os escores nessa dimensão. A crença dos pais se correlacionou com o tipo de escola frequentada pela criança (ρ = .35, ρ = .045). Mães de escolas particulares apresentaram escores mais altos nesta dimensão do que as de escolas públicas.
Discussão
O objetivo geral do presente estudo foi realizar a adaptação transcultural do Home Literacy Environment Questionnaire (Buvaneswari & Padakannaya, 2017) para o português do Brasil seguindo as instruções de Beaton et al. (2000), Borsa e Bandeira (2014), Borsa et al. (2012) e Gjersing, et al. (2010). Além disso, realizamos, com o estudo-piloto, uma coleta de dados socio-econômicos do público-alvo com o anseio de caracterizar a amostra do estudo e perceber como as facetas da literacia familiar avaliadas pelo questionário estão ligadas aos fatores econômicos e sociais das famílias.
Neste trabalho, por meio das etapas do processo de adaptação transcultural dos itens para o português brasileiro, buscamos adaptar um questionário sobre literacia familiar utilizando uma linguagem clara, com itens bem formulados e pertinentes à realidade da população em geral. Para que o processo permanecesse eficaz em sua estrutura, foi observada a equivalência semântica, idiomática, experiencial e conceitual entre o instrumento original e a versão adaptada. Além disso, autores do instrumento original verificaram sua versão adaptada e garantiram que o sentido primário de todos os itens foi preservado.
A relevância da avaliação de características parentais, práticas familiares e a disponibilidade de recursos de aprendizagem em casa vêm se tornando cada vez mais pertinentes. O presente estudo realizou a adaptação transcultural de um instrumento que avalia diversos aspectos relacionados à literacia familiar considerados importantes pela literatura da área, a saber: ambiente físico, hábitos de alfabetização dos pais, hábitos de alfabetização da própria criança, interação pai-filho para alfabetização e crença dos pais sobre a importância do ambiente familiar no desenvolvimento da leitura e escrita.
Estudos demonstram que esses cinco fatores avaliados pelo presente instrumento são práticas familiares importantes no desenvolvimento educacional das crianças (Faver & Lonigan, 2006). Oportunidades para as crianças explorarem e aprenderem, incluindo a disponibilidade de livros e brinquedos, é fundamental para o desenvolvimento infantil. Materiais disponíveis para a criança desenhar e escrever, incluindo a quantidade de livros, visitas à biblioteca e oportunidades para a criança ler e escrever independentemente dos pais são fatores importantes no desenvolvimento infantil (Kassow, 2006). O ambiente de literacia familiar pode incluir ainda a observação pelos filhos dos hábitos familiares em relação à leitura e escrita, mesmo que informais (Mata & Pacheco, 2009). Outra prática parental importante é o envolvimento ou engajamento parental nas atividades da criança relacionadas à leitura e escrita. Ou seja, na interação dos pais com as crianças (Ong’ayi et al., 2019). Além disso, estudos ainda destacam a crença familiar dos pais sobre a importância da leitura e escrita em casa como uma faceta importante na literacia familiar (Altun et al., 2021).
Neste estudo, avaliamos também a consistência interna dos itens, ou seja, se eles estão avaliando o mesmo construto. De todas as medidas de consistência interna, o alfa de Cronbach é o mais utilizado e fornece a análise mais completa dos padrões de consistência interna (Tavakol & Dennick, 2011). No instrumento original, os valores de alfa de Cronbach para análise da consistência interna foram inferiores a .7 em três dimensões: ambiente físico, hábito de alfabetização dos pais e crenças dos pais sobre alfabetização. No presente estudo-piloto, realizado com o instrumento adaptado, todas as dimensões apresentaram valores superiores a .7 de consistência interna (Cronbach, 1951). Portanto, o questionário adaptado demonstra ter boas propriedades psicométricas na avaliação inicial, com índices inclusive mais altos do que o do instrumento original. No entanto, na dimensão sobre as atividades de interação da criança com linguagem e literacia, que consta de 22 itens, o valor de alfa foi de .951. Alfa é afetado pelo comprimento e dimensionalidade do teste. Um teste mais longo aumenta a confiabilidade, independentemente de ser homogêneo ou não. Um alto valor de alfa (> 0,90) pode sugerir redundâncias e mostrar que o comprimento do teste deve ser reduzido (Tavakol & Dennick, 2011).
Estudos demonstram que domicílios com nível socioeconômico mais alto incluíam mais fatores relacionados à literacia familiar (e.g., Pandith et al., 2022). Um objetivo secundário deste estudo foi realizar uma análise preliminar e entender se o instrumento adaptado se correlaciona com dados sociodemográficos encontrados na literatura. De fato, o estudo demonstrou que a escolaridade materna está intimamente relacionada às facetas da literacia familiar, medidas através do questionário adaptado. Quanto mais alto o nível de escolaridade materna, mais altos foram os resultados de diversos itens, como “Livros de crianças (no mínimo 10)” e “Eu, pessoalmente, tenho o hábito de ler”. A renda familiar mensal foi correlacionada positivamente com as dimensões do ambiente físico e interação entre pais e filhos em atividades de alfabetização, também consistente com estudos que demonstram a importância dessa variável na literacia familiar e aprendizagem infantil (Ong’ ayi, 2019; Myrtil & Jiang, 2019).
No contexto brasileiro em particular, a literatura aponta que pais de crianças matriculadas em escolas particulares demonstram escores mais elevados em medidas de literacia familiar (e.g., Cardoso & Mota, 2015). Esses resultados foram corroborados em parte no presente estudo. Pais de crianças matriculadas em escolas particulares obtiveram pontuações maiores na quinta dimensão do instrumento, sobre crenças familiares. A crença dos pais sobre a importância da leitura e escrita em casa é uma faceta importante na literacia familiar (e.g., Altun et. al., 2021).
A adaptação transcultural é o primeiro passo para o estabelecimento desse instrumento de medida de literacia familiar no Brasil. Neste estudo, investigamos preliminarmente algumas variáveis socioeconômicas importantes que devem se correlacionar com o construto. São necessários futuros estudos para avaliar as qualidades psicométricas de validade e fidedignidade do questionário no contexto brasileiro.
Outra limitação desta pesquisa é que ela foi realizada durante o período pandêmico no Brasil e, dessa forma, precisamos ajustar nosso estudo para a aplicação do estudo-piloto de modo on-line. É possível que esse modo de aplicação tenha enviesado os resultados, já que foi observada uma amostra com nível socioeconômico mais alto do que o esperado para a realidade brasileira, e os resultados podem ter sofrido influência desses fatores socioeconômicos. Em investigações futuras, parece ser essencial a coleta de dados de forma presencial que abarque pessoas de diferentes níveis de escolaridade e com rendas familiares mensais de acordo com a maioria da população brasileira.
Considerações finais
Neste estudo, realizamos a tradução e adaptação de uma medida de literacia familiar para o contexto brasileiro. O instrumento tem equivalência semântica e cultural com a original e é facilmente aplicável à população-alvo, pais de crianças em idade pré-escolar. Este é o primeiro passo no estabelecimento de um instrumento de medição adaptado que possa ser utilizado tanto no contexto escolar como no contexto clínico. O instrumento permite também que sejam feitas comparações dos resultados sobre aspectos de literacia familiar no contexto brasileiro e em outros países, a fim de compreender as semelhanças e diferenças entre culturas.
Financiamento:O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.
REFERÊNCIAS
Altun, D., Tantekin Erden, F., & Hartman, D. K. (2021). Preliterate Young Children’s Reading Attitudes: Connections to the Home Literacy Environment and Maternal Factors. Early Childhood Education, 50, 567–578. https://doi.org/10.1007/s10643-021-01177-2 [ Links ]
Alves, M. T. G., & Soares, J. F. (2009). Medidas de nível socioeconômico em pesquisas sociais: uma aplicação aos dados de uma pesquisa educacional. Opinião Pública, 15(1), 1–30. https://doi.org/10.1590/s0104-62762009000100001 [ Links ]
Beaton, D. E., Bombardier, C., Guillemin, F., & Ferraz, M. B. (2000). Guidelines for the process of cross-cultural adaptation of self-report measures. Spine, 25(24), 3186–3191. https://doi.org/10.1097/00007632-200012150-00014 [ Links ]
Borsa, J. C., & Bandeira, D. R. (2014). Adaptação transcultural do Questionário de Comportamentos Agressivos e Reativos entre Pares no Brasil. Psico-USF, 19(2), 287–296. https://doi.org/10.1590/1413-82712014019002015 [ Links ]
Borsa, J. C., Damásio, B. F., & Bandeira, D. R. (2012). Cross-cultural adaptation and validation of psychological instruments: some considerations. Paidéia, 22(53), 423–432. https://doi.org/10.1590/S0103-863X2012000300014 [ Links ]
Borges, M. T., & Azoni, C. A. S. (2021). A literacia familiar no desenvolvimento de habilidades linguísticas e metalinguísticas de pré-escolares Revista Cefac, 23(4). https://doi.org/10.1590/1982-0216/20212342521 [ Links ]
Buvaneswari, B., & Padakannaya, P. (2017). Development of a home literacy environment questionnaire for Tamil-speaking kindergarten children. Language Testing in Asia, 7(1). https://doi.org/10.1186/s40468-017-0047-y [ Links ]
Cardoso, V. C. & Mota, M. M. P. E. da. (2015). Home-Literacy e os precursores da alfabetização. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 15(2). http://dx.doi.org/10.12957/epp.2015.17667 [ Links ]
Cronbach, L. J. (1951). Coefficient alpha and the internal structure of tests. Psychometrika, 16(3), 297–334 [ Links ]
Farver, J. A. M., Xu, Y., Lonigan, C. J., & Eppe, S. (2013). The home literacy environment and Latino head start children’s emergent literacy skills. Developmental Psychology, 49(4), 775–791. https://doi.org/10.1037/a0028766 [ Links ]
Farver, J. A. M., Xu, Y., Eppe, S., & Lonigan, C. J. (2006). Home environments and young Latino children’s school readiness. Early Childhood Research Quarterly, 21(2), 196–212. https://doi:10.1016/j.ecresq.2006.04.008 [ Links ]
Gjersing, L., Caplehorn, J. R., & Clausen, T. (2010). Cross-cultural adaptation of research instruments: language, setting, time and statistical considerations. BMC Medical Research Methodology, 10(1). https://doi.org/10.1186/1471-2288-10-13 [ Links ]
Gough, P. B., & Hillinger, M. L. (1980). Learning to read: An unnatural act. Bulletin of the Orton Society, 30, 179–196. https://doi:10.1007/BF02653717 [ Links ]
Hambleton, RK, & Rogers, HJ (1991). Avanços na medição referenciada a critérios. Em RK Hambleton & JN Zaal (Eds.), Avanços em testes educacionais e psicológicos: Teoria e aplicações (pp. 3–43). https://doi.org/10.1007/978-94-009-2195-5_1 [ Links ]
Haney, M., & Hill, J. (2004). Relationships between parent-teaching activities and emergent literacy in preschool children. Early Child Development and Care, 174(3), 215–228. https://doi.org/10.1080/0300443032000153543 [ Links ]
Kassow, D. (2006). Parent-Child Shared Book Reading Quality versus Quantity of Reading Interactions between Parents and Young Children. 1(1). https://www.parentingcounts.org/wp-content/uploads/2021/08/sharedbook1.pdf [ Links ]
Incognito, O., & Pinto, G. (2021). Longitudinal effects of family and school context on the development on emergent literacy skills in preschoolers. Current Psychology. https://doi.org/10.1007/s12144-021-02274-6 [ Links ]
Mata, L., & Pacheco, P. (2009). Caracterização das práticas de literacia familiar. In: B. Silva, L. Almeida, A. Lozano, & Uzquiano (Eds.), Actas do X Congresso Galaico-Português de Psicopedagogia, Centro de Investigação em Educação – CIE, Universidade do Minho, Braga. [ Links ]
Mendelsohn, A. L., Piccolo, L. da R., Oliveira, J. B. A., Mazzuchelli, D. S. R., Lopez, A. S., Cates, C. B., & Weisleder, A. (2020). RCT of a reading aloud intervention in Brazil: Do impacts differ depending on parent literacy? Early Childhood Research Quarterly, 53, 601–611. https://doi:10.1016/j.ecresq.2020.07.004 [ Links ]
Mota, M. M. P. E. (2014). Home-literacy e alfabetização: Uma revisão sistemática da literatura. Revista Psicologia Argumento, 32(78), 109–115. https://doi:10.7213/psicol.argum.32.078.AO06 [ Links ]
Myrtil, M. J., Justice, L. M., & Jiang, H. (2019). Home-literacy environment of low-income rural families: Association with child- and caregiver-level characteristics. Journal of Applied Developmental Psychology, 60, 1–10. https://doi:10.1016/j.appdev.2018.10.002 [ Links ]
Oliveira, A. G. D., Conceição, M. C. P., Figueiredo, M. R., Campos, J. L. M., Santos, J. N., & Martins-Reis, V. D. O. (2016). Associação entre o desempenho em leitura de palavras e a disponibilidade de recursos no ambiente familiar. Audiology-Communication Research, 21. doi: 10.1590/2317-6431-2016-1680 [ Links ]
Ong’ayi, D. M. M., Dede Yildirim, E., & Roopnarine, J. L. (2019). Fathers’, Mothers’, and Other Household Members’ Involvement in Reading, Storytelling, and Play and Preschoolers’ Literacy Skills in Kenya. Early Education and Development, 31(3), 442–454. https://doi.org/10.1080/10409289.2019.1669125 [ Links ]
Palinha, K. D. M., & Mota, M. M. P. E. da. (2019). O Papel da Home Literacy e da Educação Infantil no Desenvolvimento dos Precursores da Alfabetização. Estudos e Pesquisas em Psicologia, 19(3), 704–717. https://doi.org/10.12957/epp.2019.46911 [ Links ]
Pandith, P., John, S., Bellon-Harn, M. L., & Manchaiah, V. (2022), Parental Perspectives on Storybook Reading in Indian Home Contexts. Early Childhood Education Journal, 50, 315–325 https://doi.org/10.1007/s10643-020-01147-0 [ Links ]
Payne, A. C., Whitehurst, G. J., & Angell, A. L. (1994). The role of home literacy environment in the development of language ability in preschool children from low-income families. Early Childhood Research Quarterly, 9(3-4), 427–440. https://doi.org/10.1016/0885-2006(94)90018-3 [ Links ]
Piccolo, R. L da., Fernandes, C. L., Levandowski, D. C., Grassi-Oliveira, R., & Salles, J. F. (2012). Variáveis Psicossociais e Desempenho em Leitura de Crianças de Baixo Nível Socioeconômico. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 28(4), 389–398. https://doi.org/10.1590/S0102-37722012000400004 [ Links ]
Sénéchal, M., & LeFevre, J.-A. (2002). Parental Involvement in the Development of Children’s Reading Skill: A Five-Year Longitudinal Study. Child Development, 73(2), 445–460. https://doi.org/10.1111/1467-8624.00417 [ Links ]
Sénéchal, M., Lefevre, J.-A., Thomas, E. M., & Daley, K. E. (1998). Differential Effects of Home Literacy Experiences on the Development of Oral and Written Language. Reading Research Quarterly, 33(1), 96–116. https://doi.org/10.1598/rrq.33.1.5 [ Links ]
Tavakol, M., & Dennick, R. (2011). Making sense of Cronbach’s alpha. International Journal of Medical Education, 27, 53–55. doi:10.5116/ijme.4dfb.8dfd [ Links ]
Whitehurst, G. J., & Lonigan, C. J. (1998). Child Development and Emergent Literacy. Child Development, 69(3), 848–872. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.1998.tb06247. [ Links ]
Recebido: 07 de Julho de 2023; Aceito: 02 de Dezembro de 2024










texto em 









