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Psicologia: teoria e prática
versão impressa ISSN 1516-3687
Psicol. teor. prat. vol.27 no.1 São Paulo 2025 Epub 06-Fev-2026
https://doi.org/10.5935/1980-6906/eptpcp15547.pt
Artigos de revisão (sistemática ou de escopo)
Terapia de Casal com Mulheres Lésbicas: Evidências Atuais e Recomendações aos Terapeutas
2Faculty of Philosophy, Sciences, and Letters of Ribeirão Preto, University of São Paulo (FFCLRP-USP), Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Apesar do crescente interesse pelas questões de saúde mental de pessoas LGBTQIAPN+, poucos estudos de revisão foram publicados focalizando exclusivamente a terapia com casais lésbicos. O objetivo deste estudo é analisar as evidências existentes na literatura sobre terapia de casal com mulheres lésbicas, conhecer as abordagens existentes e identificar lacunas de conhecimento sobre suas especificidades. Foi realizada revisão sistemática com busca de estudos primários nas bases PubMed, LILACS, PsycINFO e Web of Science, seguindo as diretrizes PRISMA. Foram adotados os critérios de inclusão: artigos publicados no período entre 2011 e 2023, nos idiomas português, espanhol ou inglês e que responderam à questão norteadora. De 789 acessos, 12 registros preencheram os critérios de inclusão e foram selecionados para revisão. Destes, nove correspondiam a estudos empíricos. Com baixo nível de evidência, os estudos concentram-se predominantemente em populações jovens e socioeconomicamente heterogêneas. A temática ainda é estudada de modo incipiente pela literatura. Predomina entre terapeutas uma tendência de generalizar táticas de intervenção terapêutica empregadas para casais que se enquadram no padrão de conjugalidade heteronormativa. Essas limitações sugerem a necessidade de desconstruir os efeitos discursivos da heteronormatividade e investir em contextos dialógicos e enquadres inclusivos e sensíveis à expressão das diferenças que se manifestam nos casais lésbicos. Estudos futuros devem focar na necessidade de resguardar as particularidades que caracterizam a dinâmica conjugal lésbica no espaço da terapia de casal, especialmente no contexto atual de maior visibilidade conquistada pelas configurações familiares divergentes do modelo heteronormativo.
Despite growing interest in mental health problems among LGBTQIAPN+ people, few literature reviews have focused exclusively on lesbian couple therapy. The aim of this study was to analyze existing evidence in the literature on lesbian couple therapy, understand current approaches and identify gaps in knowledge about the specificities of therapy with this group. Following the PRISMA guidelines, we conducted a systematic review, performing searches for primary studies in the PubMed, LILACS, PsycInfo® and Web of Science databases. The inclusion criteria were studies published between ٢٠١١ and ٢٠٢٣ in Portuguese, Spanish or English that answered the guiding question. Twelve of the ٧٨٩ records retrieved by the searches met the inclusion criteria and were selected for review, nine of which were empirical studies. Characterized by a low level of evidence, the studies focused mainly on young and heterogeneous populations in social and economic terms. The findings show that research on this topic is still in its infancy. There is a tendency among therapists to generalize therapeutic intervention tactics employed for heteronormative couples to non-heteronormative couples. These limitations indicate a need to deconstruct the discursive effects of heteronormativity and invest in dialogical contexts and frameworks that are inclusive and sensitive to the expression of the differences manifested in lesbian couples. Future studies should focus on the need to safeguard the particularities that characterize the marital dynamics of lesbian couples in the space of couple therapy, especially given the current backdrop of visibility of family configurations that deviate from the heteronormative model.
Keywords: couples therapy; female homosexuality; homophobia; prejudice; systematic review
Palavras-chave: terapia de casal; homossexualidade feminina; homofobia; preconceito; revisão sistemática
A pesar del creciente interés por los problemas de salud mental de las personas LGBTQIPN+, se han publicado pocos estudios de revisión centrados exclusivamente en la terapia de pareja con lesbianas. El objetivo de este estudio es analizar la evidencia existente en la literatura sobre terapia de pareja con mujeres lesbianas, conocer los enfoques existentes e identificar las lagunas de conocimiento sobre sus especificidades. Se realizó una revisión sistemática con búsqueda de estudios primarios en las bases de datos PubMed, LILACS, PsycInfo y Web of Science siguiendo las directrices PRISMA. Los criterios de inclusión fueron: publicados entre 2011 y 2023, en portugués, español o inglés y que respondieran a la pregunta guía de la revisión. De 789 resultados, 12 registros cumplieron los criterios de inclusión y fueron seleccionados para la revisión. De estos, nueve eran estudios empíricos. Con un nivel de evidencia bajo, los estudios se centraron predominantemente en poblaciones jóvenes y socioeconómicamente heterogéneas. El tema aún se estudia de forma incipiente en la literatura. Existe una tendencia predominante entre los terapeutas a generalizar las tácticas de intervención terapéutica utilizadas para las parejas que se ajustan al patrón de conyugalidad heteronormativo. Estas limitaciones sugieren la necesidad de deconstruir los efectos discursivos de la heteronormatividad e invertir en contextos y marcos dialógicos que sean inclusivos y sensibles a la expresión de las diferencias que se manifiestan en las parejas de lesbianas. Futuros estudios deberían centrarse en la necesidad de salvaguardar las particularidades que caracterizan las dinámicas conyugales lesbianas en el espacio de la terapia de pareja, especialmente en el contexto actual de mayor visibilidad de las configuraciones familiares que divergen del modelo heteronormativo.
Palabras-clave: terapia de parejas; homosexualidad femenina; homofobia; prejuicio; revisión sistemática
Contemporaneamente, os problemas relacionados aos conflitos conjugais, bem como à separação e ao divórcio de modo particular, figuram entre as condições mais estressantes que as pessoas enfrentam em seu processo de amadurecimento e que, na maioria das vezes, afetam negativamente o seu bem-estar físico e emocional (Carr, 2019; Snyder et al., 2006). Parceiras(os) engajadas(os) em relacionamentos problemáticos são mais propensas(os) a apresentar sintomas de ansiedade, depressão e abuso de substâncias, problemas de saúde agudos e crônicos, bem como condições geradoras de incapacidades, como funcionamento imunológico prejudicado e hipertensão arterial sistêmica, propensão aumentada a acidentes e a manter comportamentos de risco à saúde associados às infecções sexualmente transmissíveis – ISTs (Gurman, 2015; Johnson, 2019). Nesse cenário de profundas mutações nos relacionamentos amorosos, que acompanham a dinâmica das transformações sociais, a terapia de casal emerge como uma das modalidades terapêuticas que mais tem se desenvolvido na história recente das técnicas de intervenção psicossocial (Lebow & Snyder, 2022).
Grosso modo, podemos identificar duas categorias distintas de terapias de casal. A primeira inclui modelos que se impuseram precocemente na história do campo mais amplo da terapia familiar. Embora os atributos fundamentais desses métodos terapêuticos tenham perdurado ao longo de várias gerações de terapeutas que seguiam os pressupostos da teoria sistêmica, hoje foram consideravelmente revistos e refinados. Como exemplos de tais abordagens, podemos mencionar as terapias estruturais, as abordagens estratégicas, as baseadas na psicanálise, especialmente na teoria das relações objetais, e as inspiradas na teoria de Bowen (Gurman, 2015; Scharff & Scharff, 2014; Snyder et al., 2006).
As terapias de casal também incluem uma segunda onda de abordagens que foram desenvolvidas nas últimas décadas e que se tornaram muito influentes na prática, formação e pesquisa, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a comportamental integrativa, a terapia narrativa e a focada em soluções de conflitos, a abordagem focada em emoções e a de Gottman, bem como as abordagens integrativas (Gurman, 2015; Snyder et al., 2006). Evidentemente, o papel do(a) terapeuta na terapia de casal ganha contornos, nuances e especificidades de acordo com cada abordagem teórico-clínica aplicada à situação conjugal (Lebow & Snyder, 2022).
Para além de uma simples técnica, a psicoterapia foi assimilada como parte significativa da cultura ocidental, integrada aos costumes e às visões de mundo contemporâneas e, como tal, constitui uma rica fonte de produção de sentidos para o que somos e o que fazemos de nossas vidas (Gurman, 2015). Na apropriação da psicoterapia como objeto cultural, em suas variadas modalidades e tipologias, a terapia de casal contribui para engendrar significados que vão muito além das interações cliente-terapeuta, ao mesmo tempo que pode ser vista como um termômetro dos costumes e perspectivas relacionais que sustentam o repertório interpretativo das relações de casal disponível em nossa cultura. Desse modo, entre cultura e terapia de casal há uma relação de influência recíproca (Johnson, 2019).
Dado que parte significativa da literatura disponível sobre terapia de casal presume um status heterossexual que supostamente marcaria o vínculo estabelecido entre os casais que se mobilizam em busca de “tratamento” (Spengler et al., 2020), muitas(os) terapeutas têm dúvidas sobre como conceituar e intervir ativamente nos problemas clínicos de casais dissidentes do modelo heteronormativo. Isso pode encorajar uma tendência, entre psicoterapeutas, de generalizar as táticas de intervenção terapêutica empregadas para casais que se enquadram no padrão de conjugalidade heteronormativa (Grafsky & Nguyen, 2019; Heiden-Rootes et al., 2020).
Uma das características mais singulares que distingue os casais não heteronormativos como um grupo com particularidades e referências próprias é que todas(os) as(os) parceiras(os) (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-binárias e outras identidades e orientações não explicitamente representadas no acrônimo – LGBTQIAPN+) são expostas(os) a diversos tipos de preconceito, discriminação e segregação perpetrados por pessoas e instituições que funcionam em uma lógica heterossexista, heteronormativa e cis-centrada que regula as relações (Alexandre & Santos, 2019; Coolhart, 2023). Essa lógica hegemônica exclui deliberadamente a existência de outros padrões de relacionamento afetivo-sexual, não reconhecendo a legitimidade da pluralidade de amores, afetos e vínculos conjugais que compõem o arco das relações humanas (Alexandre & Santos, 2019; Grove & Blasby, 2009; Tombolato et al., 2018).
Pioneira nos estudos de gênero, Rich (1980) argumenta que os discursos que oprimem as mulheres lésbicas tentam naturalizar a premissa de que a heterossexualidade é a base para o funcionamento harmonioso da sociedade. Essa retórica excludente e opressiva, que a autora nomeia de heterossexualidade compulsória, é definida em termos de normas de gênero e sexualidade impostas como naturais, ocultando sua real origem na esfera política e das relações de poder – e, portanto, de dominação. Uma das maneiras mais eficientes de reforçar a heteronormatividade é manter a existência lésbica velada sob o manto da invisibilidade, ou como uma possibilidade impensável ou ainda como uma sexualidade intermitente e volátil, que aparece de tempos em tempos, de forma difusa ou fragmentada, e que depois torna a desaparecer (Rich, 1980; Toledo & Teixeira Filho, 2010; Wittig, 1992).
A lesbofobia é uma reação diante da possibilidade de a mulher sair da matriz de inteligibilidade de gênero, de acordo com o conceito de Butler (2003), que se refere à ideia de uma suposta continuidade linear entre sexo, gênero, desejo e orientação sexual. Inclui várias formas de negatividade em relação às lésbicas, seus relacionamentos afetivos e expressões da sexualidade, vistas como ameaçadoras porque escapam ao controle e domínio masculino.
Profissionais que atuam com casais formados por mulheres lésbicas e bissexuais costumam se deparar com questões singulares com que esses casais lidam no cotidiano (Green & Mitchell, 2015; Wahlig & Long, 2019). Elas podem iniciar a psicoterapia para lidarem com desafios específicos de se entenderem como lésbicas ou bissexuais, que geralmente estão ligados aos preconceitos enfrentados em uma ou ambas as famílias de origem das(os) parceiras(os), no ambiente de trabalho ou sobre “o quanto, como e se” devem se assumir em suas comunidades e os constrangimentos na manifestação pública de afeto (Green & Mitchell, 2015).
Ao defenderem a necessidade de se adotar uma abordagem terapêutica afirmativa nas intervenções com casais e famílias LGBTQIAPN+, Grafsky e Nguyen (2015) mencionam que é relevante lembrar que a primeira tarefa da(o) terapeuta é avaliar se e em que medida os problemas do casal estão relacionados aos desafios de pertencerem à comunidade LGBTQIAPN+ ou se têm ligação com outras questões genéricas da vida conjugal, como estilos de vinculação, padrões de comunicação ou processos de gestão de conflitos. É preciso também permanecer aberto à possibilidade de que alguns problemas cruciais que fragilizam o vínculo conjugal possam ter pouco ou nada a ver com o fato de as(os) parceiras(os) serem LGBTQIAPN+.
Ao formular suas hipóteses, as(os) terapeutas enfrentam um duplo risco: o de superestimarem ou de subestimarem a importância da influência dos fatores presentes no cotidiano dessa população na provável origem de uma situação apresentada como problemática (Ackbar & Senn, 2010; Grafsky & Nguyen, 2019; Green & Mitchell, 2015). É importante que terapeutas explorem, com clientes LGBTQIAPN+, como se deu sua internalização das normas tradicionais de gênero e como percebem o preconceito, velado ou aberto, interno e externo, e a discriminação que reiteradamente enfrentam em suas redes de apoio – familiares, vizinhos, colegas de trabalho, profissionais de educação e saúde (Coolhart, 2023; Grove & Blasby, 2009).
As pesquisas com casais lésbicos têm apontado certos aspectos que são peculiares a essas formas de organização conjugal, evidenciando que elas não podem ser reduzidas à compreensão que se tem comumente sobre as configurações heterossexuais (Biaggio et al., 2002; Wahlig & Long, 2019). Os casais, independentemente de sua orientação sexual e status do relacionamento, deparam-se com uma série de questões que se apresentam ao longo do ciclo vital e na dinâmica própria da relação, enfrentando alguns dilemas próprios do processo de amadurecimento do vínculo amoroso. No entanto, há maneiras pelas quais as relações nas díades lésbicas se mostram únicas e peculiares. Assim, embora terapeutas se deparem com determinadas questões na clínica de casais que, à primeira vista, parecem similares para todos os casais, os pares conjugais homoafetivos apresentam vivências e preocupações distintas, que afetam sua saúde mental e relacional de formas bem específicas (Hartwell et al., 2017).
Como seres singulares, além de pessoas engajadas em uma relação de casal, as mulheres que escolhem dividir sua intimidade afetivo-sexual com outras mulheres são confrontadas, diuturnamente, com a experiência generalizada do heterossexismo e da lesbofobia (Auad & Lahni, 2013; Biaggio et al., 2002; Wahlig & Long, 2019). Assim, o impacto da exposição recorrente a situações adversas oriundas de visões preconceituosas disseminadas na sociedade também deve ser considerado, como apontam pesquisas que analisam situações de discriminação enfrentadas por lésbicas na adoção e educação de filhos (Tombolato et al., 2018, 2019). Essa discussão é cada vez mais necessária e oportuna, considerando o impacto de leis que criminalizam a homossexualidade em várias partes do globo, como a África Austral e países governados pelo populismo de extrema direita. Sem contar que, em inúmeros países, ainda persistem no ordenamento jurídico diversas formas de resistência à inclusão, como as barreiras à aprovação da união civil e da adoção de crianças por pessoas que divergem do padrão heteronormativo (Human Dignity Trust, 2023; The International Lesbian, Gay, Bisexual, Trans and Intersex Association, 2023).
Observa-se na literatura uma corrente que admite que, em sua maior parte, as técnicas terapêuticas utilizadas na psicoterapia de casais heterossexuais também podem ser empregadas com os casais lésbicos, desde que haja sensibilidade para considerar como cada cônjuge responderá a intervenções específicas, entendendo que são as próprias clientes que vão dizer o que consideram problemático na relação. Mas isso não exime os profissionais da responsabilidade ética de enfrentar os desafios de criar formas de investigação colaborativa, com vistas a robustecer o arcabouço teórico e ampliar o repertório de recursos da(o) terapeuta de casais e inventar práticas de atendimento mais inclusivas ao público LGBTQIAPN+ (Ackbar & Senn, 2010; Grafsky & Nguyen, 2019). Admite-se que a abordagem terapêutica, bem como o gênero ou orientação sexual da(o) terapeuta, podem ser de alguma importância na terapia de casal, uma vez que alguns casais de lésbicas podem preferir trabalhar com uma terapeuta mulher ou abertamente lésbica. Lésbicas engajadas no ativismo político podem solicitar uma terapeuta lésbica “assumida” ou uma profissional que se declare feminista (Biaggio et al., 2002). No entanto, a literatura das últimas quatro décadas está permeada por heterocentrismo, além de negligenciar questões de classe, raça e gênero (Hartwell et al., 2017).
Estudos publicados nas últimas décadas sobre terapia de casais lésbicos mostraram que os desfechos favoráveis são relacionados à alta satisfação das clientes com as intervenções de casal e à percepção de progresso em indicadores variados, como melhora no relacionamento e nas relações em geral, nos comportamentos relacionados à saúde ou no abuso de álcool e outras drogas (Fals-Stewart et al., 2009; Kousteni & Anagnostopoulos, 2020). Em vista dessas considerações, torna-se imperioso conhecer como se configura o panorama dos estudos sobre essa temática, de modo a identificar as lacunas e prospectar novas perspectivas de investigação que se fazem necessárias para fortalecer as bases teóricas e práticas desse campo (Spengler et al., 2020).
Além disso, analisar os resultados de pesquisas nessa área permite reconhecer possíveis variações entre modelos teóricos, abordagens técnicas e demandas que influenciam o processo psicoterápico. Considerando o exposto, o objetivo deste estudo é analisar as evidências existentes na literatura sobre terapia de casal com mulheres lésbicas, conhecer as abordagens existentes e identificar lacunas de conhecimento sobre suas especificidades.
Método
Estudo de revisão sistemática da literatura, que consiste em um método ordenado e organizado para operacionalizar uma síntese de resultados de pesquisa extraídos de publicações arbitradas. Uma revisão deste tipo parte de uma pergunta formulada de forma clara e utiliza métodos rigorosos e explícitos para identificar, selecionar e avaliar criticamente resultados de pesquisas relevantes. Trata-se de uma modalidade de revisão de natureza descritiva, na qual se almeja delinear uma análise crítica do material bibliográfico levantado por meio de procedimentos sistemáticos, inteligíveis e replicáveis, com o propósito de integrar, descrever e apontar eventuais divergências e convergências e orientar novas direções para as pesquisas da área (Carvalho et al., 2019).
O protocolo da revisão foi registrado no International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO). Para alcançar o objetivo proposto neste estudo, foram seguidos os seguintes passos metodológicos preconizados para a realização de revisões sistemáticas (Carvalho et al., 2019; Silva et al., 2017): (1) identificação do tema e delimitação da questão norteadora; (2) definição das estratégias de busca e dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos que devem compor o corpus de pesquisa; (3) consulta às bases de dados para eleger os artigos científicos das áreas de ciências humanas e da saúde; (4) exclusão dos estudos repetidos entre as bases; (5) seleção, descrição e categorização das informações de interesse a serem extraídas dos estudos elegíveis (identificação dos autores, ano de publicação, país, objetivos, resultados e conclusões); (6) avaliação, interpretação e síntese dos estudos, contendo uma análise descritiva e discussão crítica de suas principais contribuições, etapa na qual também são identificadas e apontadas as lacunas existentes na literatura.
O estudo de revisão foi orientado pela seguinte questão norteadora: “Qual é o status da produção científica nacional e internacional acerca da terapia de casal para mulheres lésbicas?” Foi utilizada a estratégia PICOS para a elaboração da questão norteadora da revisão (Carvalho et al., 2019). O acrônimo inclui: participantes/pacientes (mulheres lésbicas), intervenção (terapia de casal), controle ou comparação (intervenção padrão ou a mais utilizada, ou nenhuma intervenção), desfecho/resultados (benefícios da terapia) e delineamento dos estudos (observacionais, transversais, longitudinais, clínicos, de campo e de caso).
Os procedimentos de busca foram cuidadosamente definidos. Para responder a essa pergunta, a coleta de dados incluiu periódicos indexados nas bases de dados bibliográficos PubMed, LILACS, PsycINFO e Web of Science. Os termos de busca foram definidos de acordo com as listas de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS, via Portal da Biblioteca Virtual em Saúde – BVS), Medical Subject Headings (MeSH) e Thesaurus of Psychological Index Terms (APA Thesaurus). O uso de DeCs, MeSH, APA Thesaurus ou palavras-chave foi determinado pelas exigências de cada base de dados. Foram selecionados os artigos indexados com unitermos utilizando-se a string (Lesbian Couples) OR (Homosexuality, Female) AND (Marital Therapy) OR (Couples Therapy). Os operadores booleanos AND e OR foram empregados para limitar as variações de resultados e uniformizar as estratégias de busca em cada fonte consultada.
Na pesquisa bibliográfica, foram considerados os seguintes critérios de inclusão: (1) artigos redigidos nas línguas inglesa, portuguesa e espanhola; (2) estudos primários que abordavam o tema terapia de casal com mulheres lésbicas; (3) artigos que veiculavam resultados empíricos e estudos teóricos; (4) que disponibilizavam o acesso ao resumo completo nas bases de dados; (5) publicados entre janeiro de 2011 e outubro de 2023. Justifica-se utilizar esse limite para o período de busca devido ao grande impulso de desenvolvimento da terapia de casal na última década, considerando que essa modalidade tem alcançado sua maturidade a partir do final do século passado, com fortalecimento de bases empíricas firmemente estabelecidas, que dão suporte à efetividade das intervenções com casais. Segundo Kousteni e Anagnostopoulos (2020), foi nesse período que a terapia de casal se tornou uma forma de tratamento de escolha para problemas conjugais.
Os critérios de exclusão foram: (1) apresentação no formato de dissertação, tese, capítulo de livro, livro, monografia, manual, editorial, resenha, carta ao editor, comentário ou crítica; (2) estudos de revisão de literatura, metanálise e metassíntese; (3) artigos que apenas tangenciavam o tema investigado, mas que, ao serem examinados detidamente, mostravam-se distantes do objetivo definido pela revisão, como estudos com foco em terapia individual, aconselhamento e psicoeducação para manejo de dificuldades advindas do enfrentamento de doenças crônicas e transtornos mentais, como uso de álcool e outras substâncias.
As buscas foram realizadas no mês de outubro de 2023. Os procedimentos de busca, seleção e análise dos artigos foram realizados por dois juízes (iniciais omitidas), membros experientes da equipe de pesquisa, com expertise na área dos estudos sobre psicoterapia familiar e de casal, gênero e sexualidade, que trabalharam de acordo com as etapas descritas anteriormente. Seguindo os passos propostos pela literatura, os avaliadores examinaram o material de maneira independente, mas realizando os mesmos procedimentos, com vistas a permitir a comparação posterior dos resultados obtidos e a verificação do índice de concordância na seleção dos estudos.
O software de gerenciamento de referências Rayyan for Systematic Reviews® (Ouzzani et al., 2016) foi utilizado pelos dois juízes como ferramenta para organizar, de forma sistemática, os estudos primários, separando os rastreados, elegíveis e incluídos na revisão sistemática, bem como para suprimir da lista os artigos duplicados (Etapa 2), possibilitando a depuração dos resultados. Utilizou-se a opção “Busca Avançada” para restringir os campos de pesquisa (títulos, assuntos, resumos e palavras-chave), sendo aplicado o filtro “idioma” quando disponível na base de dados. Após as buscas, os títulos e resumos de todos os artigos foram lidos pelos avaliadores e selecionados aqueles estudos que atendiam aos critérios de inclusão. Os estudos cujos resumos não apresentavam informações suficientes foram lidos integralmente.
Após a leitura dos títulos e resumos avaliados para elegibilidade, procedeu-se à seleção e recuperação dos artigos na íntegra, de acordo com os critérios de inclusão/exclusão adotados. O material coligido foi submetido a minucioso exame, e as listas elaboradas pelos avaliadores foram cotejadas para verificação da concordância quanto à inclusão ou exclusão de artigos. Os casos discordantes, isto é, nos quais não foi obtido consenso entre os revisores, foram encaminhados para avaliação de um terceiro juiz. Ao final desse processo sistemático de refinamento, os artigos selecionados e examinados na íntegra constituíram o corpus de análise da revisão.
Após a leitura integral das publicações, iniciou-se a extração dos dados de interesse (Etapa 3), utilizando-se para tanto de um formulário delineado para esse propósito. As categorias propostas para análise dos artigos foram: autores, ano de publicação, país em que o estudo foi realizado, objetivos, delineamento do estudo, número de participantes, perspectiva teórica, principais resultados e conclusões. Os conteúdos foram exportados para uma planilha do Microsoft Office Excel versão 2016, de acordo com as categorias previamente estabelecidas. Posteriormente, as informações foram sistematizadas e compiladas em tabelas e figuras e organizadas em ordem numérica crescente por ano de publicação.
Após nova leitura criteriosa realizada pelos juízes, os resultados não quantitativos do corpus da pesquisa foram submetidos à análise temática, com o intuito de extrair os principais temas abordados pelas publicações, com amparo do software NVivo e organizados em categorias segundo a técnica proposta por Braun e Clarke (2013) para esse tipo de análise. Esse procedimento mostra-se particularmente útil para organizar descrições densas de um tópico por meio da criação de temas. Os eixos temáticos construídos foram de natureza emergente, isto é, não foram definidas pelos pesquisadores como categorias teóricas a priori; ao contrário, surgiram indutivamente de acordo com o objetivo do estudo e foram discutidas com a equipe do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicologia da Saúde (LEPPS-USP). Procedeu-se da seguinte forma:
(1) Codificação inicial. Os resultados e conclusões dos estudos foram agrupados, lidos exaustivamente e codificadas pelos dois avaliadores, assumindo como guia aspectos gerais considerados relevantes para responder aos objetivos da pesquisa. Foram identificados 16 códigos acordados pelos juízes. (2) Depuração e seleção de códigos. Uma nova leitura e depuração dos códigos foi realizada, tomando como base aspectos que respondiam mais pontualmente ao objetivo, visando identificar os resultados mais significativos. Dessa análise resultaram oito códigos. (3) Análise temática dos códigos selecionados. Os códigos foram tematizados indutivamente e resultaram em quatro eixos temáticos (Braun & Clarke, 2013).
O marco teórico para análise dos resultados foi a perspectiva de gênero, a partir das contribuições de Adrienne Rich (1980), com sua teorização sobre “existência lésbica” e heterossexualidade compulsória, e Monique Wittig (1992), com o conceito de “pensamento hétero”, que concebem o gênero como campo de forças no qual se organizam relações de poder histórica e socialmente constituídas pela dominação masculina. Além disso, para analisar os resultados, também se recorreu à literatura sobre a terapia de casal com pessoas LGBTQIAPN+.
Resultados
Dos 789 estudos listados inicialmente, e excluindo-se aqueles que se repetiam entre as bases de dados, 12 preencheram os critérios de inclusão e foram selecionados para compor o corpus da revisão. O índice de concordância, por consenso, entre os dois avaliadores foi de 100%. O processo de construção do corpus da revisão, incluindo as etapas de seleção e refinamento da amostra, foi sumarizado por meio do fluxograma elaborado conforme as diretrizes da estratégia PRISMA – Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Moher et al., 2009) (Figura 1).

Fonte: Elaboração dos autores.
Figura 1 Diagrama de fluxo do processo de busca e seleção dos artigos que compuseram o corpus de análise da revisão, de acordo com as diretrizes PRISMA.
A Tabela 1 apresenta uma síntese das características mais relevantes dos estudos revisados.
Tabela 1 Caracterização dos artigos recuperados segundo autoria, ano da publicação, país de origem do primeiro autor, tipo de estudo, principais resultados e conclusões obtidas.
| Nº | Autores | Ano | País | Tipo de estudo | Resultados e conclusões |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | McGeorge & Carlson | 2011 | Estados Unidos | Teórico | Terapeutas heterossexuais precisam estar cientes de que nem todas as clientes LGB percebem a heteronormatividade como um fator que influencia sua busca por atendimento. Entretanto, ainda assim é importante que as(os) terapeutas explorem com suas clientes LGB a possibilidade de que os condicionamentos impostos pela heteronormatividade possam estar contribuindo para sua experiência atual de sofrimento, o que se reflete na queixa que impulsionou a busca pela terapia. Esta poderia ser a chave decisiva de compreensão e interpretação do pedido de ajuda. |
| 2 | Powell & Neustifter | 2012 | Estados Unidos | Teórico | Terapeutas devem se manter atentas(os) às condições especiais que cercam a vida dos casais de idosas LGB e investigar situações potenciais de violência; devem saber onde as cônjuges podem buscar recursos médicos e de problemas habitacionais para poder orientá-las; estar preparadas(os) para lidar com as questões de sexualidade na velhice; terem prontidão para discutir tanto os benefícios como os inconvenientes implicados na decisão de revelar ou não o relacionamento aos membros das famílias de origem. |
| 3 | Reibstein & Sherbersky | 2012 | Reino Unido | Estudo de caso único | As estratégias eram introduzidas de forma colaborativa, isto é, convidando à participação ativa, em vez de direcionar impositivamente o casal a utilizá-las. As instruções foram empregadas dentro de uma ampla lente contextual. Circularidades e padrões interacionais foram anotados. Algumas estratégias foram explicitamente comportamentais, enquanto outras visaram ao fortalecimento da base empática do casal. |
| 4 | Grove, Peel, & Owen-Pugh | 2013 | Reino Unido | Qualitativo | A forma como os casais se posicionaram – seja como parte de um “grupo minoritário”, seja como parte de um grupo genérico de casais que lidavam com problemas de relacionamento – teve impacto diferenciado sobre como discutiam e se posicionavam sobre a busca de ajuda profissional. |
| 5 | Pepping & Halford | 2014 | Austrália | Teórico | Os autores descrevem desafios distintos para casais do mesmo sexo (por exemplo, discriminação homofóbica, homofobia internalizada e escasso apoio das famílias). Esses desafios distintos sugerem que uma adaptação das abordagens existentes para o aconselhamento e terapia de casais poderia aumentar sua relevância e eficácia para casais homossexuais. |
| 6 | Belous | 2015 | Estados Unidos | Estudo de caso único | Embora o casal lésbico ainda mantivesse alguma dificuldade em se socializar dentro da comunidade LGBT, começou a demonstrar interesse por frequentar determinados estabelecimentos com temáticas LGBT. Além disso, as mulheres passaram a desfrutar de interações mais positivas com suas famílias de origem, o que foi interpretado como resultado de um senso de identidade mais sólido, com fortalecimento da autoestima. |
| 7 | McGeorge, Carlson, & Toomey | 2015 | Estados Unidos | Quantitativo | Os resultados indicaram associação positiva entre a inclusão de conteúdos em sala de aula sobre terapia afirmativa LGB e as crenças dos membros do corpo docente sobre indivíduos e relacionamentos LGB. Particularmente os docentes que relataram crenças mais positivas a respeito de clientes LGB parecem ser mais propensos a incluir os conteúdos da terapia afirmativa LGB nos cursos que lecionam. |
| 8 | McGeorge & Carlson | 2016 | Estados Unidos | Misto (quantitativo e qualitativo) | Os participantes, profissionais que cursavam formação em terapia de casal e de família, relataram ter crenças positivas sobre indivíduos LGB, afirmaram que seus programas de treinamento contemplavam ambientes afirmativos e que conteúdos do curso LGB afirmativos eram incluídos no currículo dos programas. |
| 9 | Blount, Peterson, & Monson | 2017 | Estados Unidos | Estudo de caso único | Ter a oportunidade de abordar o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) em um contexto conjunto (isto é, com o casal) ajudou a cônjuge acometida pelos sintomas a desafiar suas crenças desadaptativas sobre si mesma e seus relacionamentos, o que teve um papel fundamental no desfecho do tratamento. No geral, o casal relatou grande satisfação com a Terapia Cognitiva-Comportamental Conjunta para TEPT e expressou gratidão pela oportunidade de participar do tratamento. |
| 10 | Garanzini, Yee, Gottman, Gottman, Cole, Preciado, & Jasculca | 2017 | Estados Unidos | Quantitativo | Houve melhorias significativas no nível de satisfação com o relacionamento conjugal após 11 sessões de terapia, tanto para casais gays masculinos como para os casais lésbicos. A magnitude dos efeitos observados sugere que a terapia foi altamente eficaz. As comorbidades psicológicas iniciais não afetaram a magnitude das mudanças; na verdade, algumas mudanças foram significativamente maiores para certas comorbidades iniciais. |
| 11 | Gottman, Gottman, Cole, & Preciado | 2020 | Estados Unidos | Quantitativo | Casais que iniciam a terapia são propensos a sentir mais angústia e mais comorbidades do que foi presumido na literatura anterior. Casais de mesmo sexo apresentam um conjunto particular de forças e desafios específicos em comparação com os casais heterossexuais. Casais de gays, em comparação com os casais de lésbicas, mostraram diferenças nos níveis de confiança e manutenção da monogamia, assim como os casais de lésbicas quando comparados com casais heterossexuais. |
| 12 | Tadros & Smithee | 2021 | Estados Unidos | Estudo de caso único | Os apoios sociais são vistos como um fator de proteção nos relacionamentos entre lésbicas encarceradas; no entanto, se houver falta desses apoios devido ao fato de a pessoa se assumir como LGBTQ, os sintomas de depressão continuarão a aumentar gradualmente. Aconselha-se que os terapeutas estejam atentos aos múltiplos estigmas associados à identificação como mulher lésbica e ao fato de estar encarcerada. |
Fonte: Elaboração dos autores.
Com relação ao delineamento, foram identificados quatro estudos de caso (33%), três pesquisas com enfoque quantitativo (25%), três estudos teóricos (25%), uma investigação qualitativa (8%) e uma com método misto (8%). No que se refere ao ano de publicação, verificou-se que os anos de 2012, 2015 e 2017 contribuíram com dois artigos cada, representando 54,5%. Foi encontrada uma publicação em cada um dos seguintes anos: 2011, 2013, 2014, 2016, 2020 e 2021. Não foram encontrados estudos publicados em 2018, 2019, 2022 e 2023.
Quanto ao país da instituição de pesquisa a qual o primeiro autor estava vinculado, nove artigos eram de autoria de pesquisadores dos Estados Unidos, dois do Reino Unido e um da Austrália. Percebe-se, assim, o predomínio de autores de países desenvolvidos da América do Norte e da Europa. Nenhum estudo latino-americano foi encontrado com base nos critérios adotados, o que sugere uma possível lacuna de conhecimento, a requerer investimentos e políticas de fomento científico na comunidade local de pesquisadores, inclusive no Brasil.
Sobre a formação dos terapeutas, apenas Garanzini et al. (2017) relataram que as intervenções com os casais foram realizadas por psicoterapeutas. Nenhum outro artigo especificou se as(os) profissionais que atenderam os casais eram psicólogas(os) ou não. Belous (2015) declarou que o casal que participou de sua pesquisa realizou 69 sessões de psicoterapia; Blount et al. (2017) mencionaram que escalas psicométricas e psicoeducação foram aplicadas com o casal, e Reibstein e Sherbersky (2012) relataram que utilizaram intervenções psicodinâmicas.
Em relação ao idioma no qual os estudos foram divulgados, constatou-se que a totalidade dos artigos foi redigida em língua inglesa. Os estudos foram publicados em oito periódicos conceituados, de elevado padrão editorial. O periódico Journal of Marital and Family Therapy concentrou cinco artigos. A análise temática permitiu identificar quatro categorias nos artigos selecionados: (a) Motivos que levaram à busca por terapia de casal (artigos 1, 2, 3, 4, 5, 9, 11, 12); (b) Mudanças percebidas pelos casais após a terapia (artigos 2, 3, 5, 6, 9, 10, 12); (c) Abordagens terapêuticas utilizadas (artigos 1, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12); (d) Recomendações para terapeutas de casal (artigos 1, 2, 4, 5, 7, 8, 12).
3.1 Motivos que levaram à busca por terapia de casal
Os motivos ou queixas que levaram à busca do atendimento pelos casais foram abordados em sete estudos. O casal Karen e Rebecca procurou terapia para lidar com a demanda de assumir o relacionamento perante a família de Rebecca; o casal estabeleceu essa meta como parte de seu projeto de ter um bebê (Reibstein & Sherbersky, 2012). Outro estudo de caso ilustra a busca da terapia de casal para auxiliar no tratamento do transtorno mental de cônjuges; no caso, trata-se de uma oficial do Exército dos Estados Unidos diagnosticada com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) (Blount et al., 2017). Outra investigação apresentou o caso de Anna e Barbara, que mostravam sentimentos conflitantes em relação a se sentirem pertencentes à categoria de “casais tradicionais” ou “casais minoritários”, o que fez com que decidissem procurar terapia para auxiliá-las a repensar seus sentimentos de pertencimento à comunidade LGBTQIAPN+ (Grove et al., 2013).
Outros problemas vivenciados no relacionamento do casal, como lidar com estresse, comorbidades e uso abusivo de álcool ou outras drogas, também foram demandas endereçadas à psicoterapia (Gottman et al., 2020; Pepping & Halford, 2014; Powell & Neustifter, 2012), bem como perceber a existência de assimetrias no vínculo e considerar que a parceira não está completamente comprometida com o relacionamento conjugal (McGeorge & Carlson, 2011). Já o casal incluído na pesquisa de Tadros e Smithee (2021) buscou ajuda para se adaptar ao novo relacionamento quando uma delas estava em situação de encarceramento e também devido a problemas sexuais anteriores ao encarceramento.
3.2 Mudanças percebidas pelos casais após a terapia
As mulheres lésbicas que participaram das pesquisas relataram que, depois que encerraram o processo terapêutico, perceberam diminuição de seus sintomas depressivos (Blount et al., 2017; Reibstein & Sherbersky, 2012) e melhoras na comunicação e no relacionamento com a parceira (Belous, 2015; Blount et al., 2017; Garanzini et al., 2017; Reibstein & Sherbersky, 2012; Tadros & Smithee, 2021). Também relataram que estavam se sentindo mais confortáveis com sua identidade pessoal e mais à vontade para conversarem abertamente com outras pessoas sobre sua orientação sexual (Belous, 2015; Pepping & Halford, 2014). Outras afirmaram que conseguiram projetar melhor seu futuro e reorganizar suas vidas (Powell & Neustifter, 2012; Reibstein & Sherbersky, 2012) ou que compreendiam melhor os posicionamentos da companheira e eram capazes de vislumbrar maneiras saudáveis de gerir as dificuldades e diferenças existentes no casal (Belous, 2015; Blount et al., 2017; Garanzini et al., 2017; Reibstein & Sherbersky, 2012; Tadros & Smithee, 2021). Algumas relataram cessação da ideação ou intenção suicida (Blount et al., 2017), identificaram melhora no relacionamento com as famílias de origem e relataram que as interações com familiares estavam mais positivas do que anteriormente (Belous, 2015; Reibstein & Sherbersky, 2012). Também perceberam fortalecimento da autoestima (Belous, 2015), redução do uso abusivo de álcool e outras drogas (Garanzini et al., 2017) e melhoria do relacionamento sexual (Tadros & Smithee, 2021).
3.3 Abordagens terapêuticas utilizadas
A terapia sistêmica é uma das abordagens que fundamentam intervenções terapêuticas aplicadas às clientes lésbicas (Pepping & Halford, 2014; Reibstein & Sherbersky, 2012; Tadros & Smithee, 2021). Reibstein e Sherbersky (2012) argumentaram que as estratégias terapêuticas foram introduzidas de forma colaborativa no trabalho realizado, ou seja, convidaram as clientes a se engajarem no processo, em vez de administrar intervenções diretivas que tentassem persuadi-las a utilizar determinados recursos de resolução de conflitos. Já Trados e Smithee (2021) utilizam uma abordagem chamada “Teoria da Mudança de Trados”, que é um modelo integrado de terapia familiar e de casal que combina elementos da terapia familiar estrutural, terapia familiar narrativa e terapia familiar com foco em soluções.
Outra abordagem frequentemente utilizada na terapia do casal lésbico é a TCC, que se vale de diversas técnicas comportamentais de resolução de problemas (Blount et al., 2017; Pepping & Halford, 2014; Reibstein & Sherbersky, 2012). A terapia afirmativa LGBTQIAPN+ foi outra abordagem empregada no cuidado terapêutico com casais. Algumas participantes manifestaram ter preferência por serem atendidas por terapeuta que demonstre alguma compreensão e, sobretudo, aceitação das relações afetivas entre pessoas do mesmo gênero (Grove et al., 2013; McGeorge & Carlson, 2011, 2016; McGeorge et al., 2015).
Belous (2015) apresentou um estudo de caso no qual intervenções contextuais e procedimentos investigativos, como Genograma, Terapia pela Fala, Avaliações, Coaching e Parcialidade Multidirecionada, foram recursos utilizados de forma combinada na terapia de casal. Outra abordagem, a terapia de casal do método Gottman, propõe uma plataforma para facilitar que casais lésbicos e gays discutam suas reivindicações singulares quanto a um relacionamento igualitário (Garanzini et al., 2017). Também criada pelo casal John Gottman e Julie Schwartz Gottman, a “casa do relacionamento saudável” é uma abordagem teórica que avalia a relação do casal lésbico em três domínios: amizade e intimidade, gestão de conflitos e significado compartilhado (Gottman et al., 2020).
3.4 Recomendações para terapeutas de casal
Pesquisa que investigou o corpo docente responsável pela formação de terapeutas de casal e família destacou a importância de assegurar que os profissionais recebam treinamento específico em terapia afirmativa LGBTQIAPN+, seja em seus programas de doutorado, seja por meio de oportunidades de educação continuada (McGeorge et al., 2015). Outro artigo evidenciou que os docentes de cursos e institutos que oferecem formação de terapeutas de casal e família percebem que o ensino é impregnado de conceitos heteronormativos, que naturalizam e reforçam privilégios heterossexuais (McGeorge & Carlson, 2016). É importante que os(as) terapeutas busquem adquirir conhecimento e referências consistentes sobre o estigma e preconceito contra a população LGBTQIAPN+ para poderem auxiliar efetivamente suas clientes lésbicas, abastecendo-se com ferramentas e habilidades por meio de formações complementares (Powel & Neustifter, 2014; Tadros & Smithee, 2021).
Dois dos estudos revisados ilustram a importância de explorar, preliminarmente, o problema dentro de seu contexto mais amplo, considerando o que é viver em desacordo com as prescrições e regulações da sociedade heteronormativa. Terapeutas devem rotineiramente perguntar aos casais formados por mulheres sobre questões relacionadas ao nível de aceitação e apoio ao seu relacionamento por parte das famílias e amigos(as), encorajando a discussão de quaisquer dificuldades vivenciadas nessas áreas. Estudos sugerem que mostrar abertura para refletir sobre o impacto dessas questões no dia a dia do casal pode facilitar a negociação das diferenças individuais, além de melhorar a comunicação (McGeorge & Carlson, 2011; Pepping & Halford, 2014).
A partir de uma investigação com casais de lésbicas idosas, Powell e Neustifter (2012) pontuam que, como tradicionalmente são as mulheres que são designadas para cuidar, as(os) terapeutas devem estar preparadas(os) para oferecer apoio individual e relacional para as tensões relacionadas ao assumirem o papel de cuidadora da parceira íntima, especialmente quando ambas podem estar cuidando de suas respectivas famílias de origem, bem como uma da outra. Manifestações de luto complicado podem eventualmente ser selecionadas como foco da terapia após a perda de uma companheira, especialmente se a vivência do luto não puder ser socialmente compartilhada devido a um ambiente opressivo e não acolhedor.
Uma questão interessante foi abordada por um dos estudos e que, se não for visibilizada logo no início do processo terapêutico, pode se transformar em barreira para a busca ou continuidade do atendimento (Grove et al., 2013). Uma das participantes da pesquisa explicitou sua percepção de que todas as terapeutas lésbicas seriam profissionais confiáveis e preparadas para ouvir e trabalhar as questões sexuais, enquanto todas as terapeutas heterossexuais seriam supostamente pouco sensíveis a esses assuntos por não terem essa experiência de vida. Esse tipo de generalização deve ser objeto de exame honesto logo nas primeiras sessões de terapia. Por fim, é importante que as(os) terapeutas defendam os direitos de suas pacientes, não patologizem o relacionamento dos casais que atendem, validem os estressores que casais LGBTQIAPN+ enfrentam e valorizem a resiliência de suas pacientes (Tadros & Smithee, 2021).
Discussão
A literatura sobre terapia de casais lésbicos ainda está em construção. As pesquisas apontam como uma das responsabilidades da(o) terapeuta, no início do atendimento, avaliar as perspectivas de cada membro do casal sobre a natureza das dificuldades que as conduziram à terapia (Lebow & Snyder, 2022). Isso requer que a(o) terapeuta compreenda a natureza geral da relação lésbica, considere cuidadosamente suas expectativas e aspirações em relação à terapia e não tente impor, mesmo que de forma sutil e não consciente, um padrão de vida heterossexual ao casal (Biaggio et al., 2002; Smith et al., 2019). Para que a(o) terapeuta respeite o vínculo do casal e avalie de maneira adequada a relação, é importante que a(o) profissional: (1) mantenha-se bem-informada(o) sobre as relações e a cultura lésbica; (2) respeite os relatos e as concepções das clientes sobre suas dificuldades; (3) concentre-se em uma análise funcional da relação amorosa, entendendo como o relacionamento funciona na experiência particular de cada membro do casal (Biaggio et al., 2002; Johnson et al., 2023).
Cinco dos artigos revisados (McGeorge & Carlson, 2011, 2016; McGeorge et al., 2015; Pepping & Halford, 2014; Powell & Neustifter, 2012) reafirmam a ideia de que a(o) terapeuta de casal precisa levar em consideração as possíveis especificidades das mulheres lésbicas e compreender que cada casal tem uma dinâmica própria de relacionamento. Esses estudos também ressaltam o cuidado que terapeutas devem ter para não reproduzirem inadvertidamente discursos heteronormativos e a importância de estudarem temáticas que envolvam gênero e sexualidade. A literatura sobre terapia de casal com a população LGBTQIAPN+ corrobora esses achados e acrescenta que muitos profissionais ainda não sabem como agir quando estão atendendo um casal dissidente dos padrões heterocentrados (Grafsky & Nguyen, 2019; Spengler et al., 2020).
O perigo da(o) terapeuta de casal reproduzir na prática clínica seus pressupostos implícitos sobre as relações de gênero e sexualidade está enraizado no conceito de heterossexualidade compulsória (Rich, 1980; Spengler et al., 2020). Com esse construto, Rich (1980) concerne os discursos que endossam a régua moral com a qual se mede o comportamento afetivo-sexual, lastreada na ideia de que o correto e legítimo é pautar a vida nos limites estritos da heteronormatividade. A experiência lésbica é comumente vista em uma escala que vai do comportamento desviante ao odioso, ou simplesmente não é vista, torna-se invisível ou é sumariamente apagada.
O principal efeito de sentido que esses discursos engendram é erradicar a possibilidade de as mulheres lésbicas criarem as próprias categorias e reinventarem a vida com liberdade e em nos próprios termos (Rich, 1980; Wittig, 1992). Desse modo, observa-se a naturalização da opressão que acompanha o “pensamento hétero”, que busca transformar seus conceitos em leis universais, reafirmando a falácia essencialista e generalizante de que elas são reproduzidas em todas as sociedades, em todas as épocas e por todos os indivíduos (Wittig, 1992). As(os) terapeutas de casal precisam se atentar para não reproduzirem a heteronormatividade implícita em seus atendimentos, pois assim acabariam invisibilizando as relações lésbicas.
Para evitar essas armadilhas na prática clínica, Benson et al. (2012) delineiam cinco princípios comuns para a terapia de casal baseada em evidências: (a) trabalhar a visão do casal sobre o problema apresentado para poder redescrevê-lo de modo mais objetivo, contextualizado e diádico; (b) reduzir o comportamento emocional e disfuncional; (c) estimular o comportamento privado, evitativo e baseado em emoções; (d) ampliar os padrões de comunicação construtivos; (e) enfatizar as fortalezas, os pontos fortes do relacionamento conjugal, e reforçar os ganhos da mudança. Esses princípios foram observados em vários dos estudos revisados (Belous, 2015; Blount et al., 2017; Garanzini et al., 2017; Reibstein & Sherbersky, 2012; Tadros & Smithee, 2021), por meio de exame dos desfechos favoráveis da terapia, como progressos obtidos no padrão de comunicação entre os membros do casal e com os demais membros da família, mitigação de sintomas depressivos, cessação do uso abusivo de álcool e outras drogas, aprender a gerir melhor os problemas enfrentados e valorização das fortalezas das pacientes.
Em relação às abordagens utilizadas no processo terapêutico, as três mais citadas foram: terapia afirmativa LGBTQIAPN+ (Grove et al., 2013; McGeorge & Carlson, 2011, 2016; McGeorge et al., 2015), TCC (Blount et al., 2017; Pepping & Halford, 2014; Reibstein & Sherbersky, 2012) e terapia sistêmica (Pepping & Halford, 2014; Reibstein & Sherbersky, 2012; Tadros & Smithee, 2021). Costa et al. (2017) observaram que a TCC e a terapia sistêmica são duas das perspectivas teóricas mais recorrentes nos estudos de terapia de casal. Grafsky e Nguyen (2019) e Smith et al. (2019) destacaram a relevância de aplicar a terapia afirmativa com a população LGBTQIAPN+, a fim de promover ambiente inclusivo para que casais se sintam pertencentes ao contexto terapêutico. Coolhart (2023) observou que casais queer passam por diversas experiências de invalidação e desrespeito em diversos momentos de suas vidas e, portanto, acabam se sentindo verdadeiramente aliviados ao encontrarem um(a) terapeuta afirmativo(a). Observa-se que, independentemente da abordagem, é necessário que haja um empenho da(o) terapeuta em evitar pressupostos heteronormativos (Heiden-Rootes et al., 2020; Spengler et al., 2020), confrontando as próprias visões estereotipadas sobre os relacionamentos entre mulheres.
Os motivos que levaram as mulheres lésbicas a procurarem terapia de casal são diversos e podem estar ou não diretamente relacionados com a questão da orientação sexual. Os estudos revisados abordaram casais que buscavam ajuda para se assumirem para a família (Reibstein & Sherbersky, 2012), assim como casais que estavam em terapia por conta de algum transtorno psicológico específico (Blount et al., 2017). Grafsky e Nguyen (2019) e Heiden-Rootes et al. (2020) endossam a ideia de uma multiplicidade de demandas e argumentam que muitos clientes LGBTQIAPN+ procuram a terapia por vivenciarem sintomas depressivos e ansiosos, conflitos no relacionamento ou dificuldades com transições do ciclo vital; essas demandas não estão necessariamente relacionadas com a orientação sexual. É claro que questões como a discriminação sofrida, a dificuldade de se relacionar com alguns familiares e o temor de revelar sua orientação sexual poderão surgir na terapia, porém podem não ser um foco elegível por todos os casais.
Outra questão relevante abordada por um dos estudos explora a influência do gênero sobre a saúde das mulheres, investigando criticamente a naturalização do cuidado como encargo exclusivamente feminino (Powell & Neustifter, 2012). Na maioria das vezes, a responsabilidade pelo cuidado dos membros da família é atribuída às mulheres, e essa responsabilidade pode sobrecarregá-las (Renk et al., 2022). Esse papel de cuidadora “compulsória” também se estende às mulheres lésbicas. Assim, é importante que a terapia com casais lésbicos leve em consideração os aportes das teorias feministas e dos estudos de gênero, que buscam desessencializar construções historicamente sedimentadas que legitimam a subjugação feminina. É preciso dar visibilidade às preocupações e experiências das clientes em contexto, considerando a opressão estrutural com base no princípio organizador de gênero (Knudson-Martin & Wells, 2019; Wahlig & Long, 2019).
Quatro dos artigos revisados (McGeorge et al., 2015; McGeorge & Carlson, 2016; Powell & Neustifter, 2014; Tadros & Smithee, 2021) também trazem a importância de se abordar questões de gênero e sexualidade na formação das(os) terapeutas de casal e também que as(os) próprias(os) profissionais busquem adquirir conhecimento sobre essa temática. Esses pontos são corroborados pelas guidelines da American Psychological Association (2021), que recomenda que psicólogas(os) recebam treinamento específico nas questões de preconceito e saúde mental da população LGBTQIAPN+ e adotem práticas psicológicas afirmativas informadas por evidências e culturalmente adequadas às especificidades da diversidade sexual e de gênero. Manter o equilíbrio entre reconhecer as diferenças e identificar quando elas precisam ser problematizadas é um ponto capital, que vai impactar na facilidade ou relutância com que as clientes estarão dispostas a se engajar na exploração mais profunda de seus problemas. Para casais formados por mulheres, o temor de se tornarem alvo de estigmatização e hostilidade é parte do cotidiano, considerando as expectativas de violência estrutural, dada a lógica da natureza difusa das experiências de lesbofobia (Auad & Lahni, 2013; Souza et al., 2021).
Esta revisão possibilitou identificar e analisar as evidências existentes e apontar lacunas de conhecimento e algumas “armadilhas” para as quais as(os) terapeutas devem estar atentos na terapia de casal de lésbicas. O estudo responde ao desafio do imperativo ético-político que convida terapeutas de casal e família a criarem estratégias mais inclusivas de abordagem das questões conjugais de mulheres lésbicas. Ao longo do texto foram revisitados resultados de pesquisas que envolvem abordagens terapêuticas que sustentam a clínica com casais; suas principais características e achados foram abordados, com ênfase na consideração das particularidades que revestem as intervenções e os cuidados necessários nesse campo.
Os resultados deste estudo confirmam que a terapia de casal de mesmo sexo ainda é sub-representada nas pesquisas, embora haja evidências preliminares de possíveis benefícios das intervenções em casal para essa população (Kousteni & Anagnostopoulos, 2020; Spengler et al., 2020). Desse modo, as pesquisas revisadas forneceram indicações sobre potencialidades e limitações do processo terapêutico com os casais que vivem e lutam por suas (re)existências à margem da heteronormatividade, mostrando que ainda há muito por se avançar no conhecimento científico, especialmente no panorama latino-americano da terapia de casal. Predominaram artigos teóricos e estudos de caso que sem dúvida oferecem subsídios relevantes para a prática clínica, todavia, na hierarquia de evidências científicas, essas investigações são consideradas limitadas. Destaca-se a falta de evidências na esfera populacional. Não foram encontrados ensaios clínicos randomizados. Há notória escassez de estudos com amostras e delineamentos metodológicos robustos e que se dediquem à avaliação de processo e de resultados (outcomes) e de estratégias de prevenção de conflitos nos casais de mulheres.
Em alguns dos estudos analisados, os casais reportaram que o medo de ser alvo de discriminação é intensificado quando a questão ou foco do conflito que gostariam de examinar na terapia tem a ver com diferenças na díade, como no caso de problemas sexuais. Nessa direção, algumas recomendações significativas podem ser extraídas dos estudos, tendo em vista a necessidade de capacitação das(os) terapeutas de casal. As pesquisas mostram que terapeutas que trabalham com casais provavelmente verão casais homoafetivos em sua prática clínica, todavia, há notável despreparo e lacunas de formação no que tange ao trabalho clínico com casais lésbicos. Os gaps na formação podem aumentar o risco de profissionais inadvertidamente reproduzirem crenças que patologizam essa população.
Considerando que é vasta a diversidade de configurações familiares possíveis, os modos de viver em família estão em constante mudança e têm sido reinventados, mostrando a vitalidade da instituição familiar na era contemporânea. Estar bem-informada(o) sobre a enorme gama de possibilidades e especificidades das configurações vinculares e da cultura lésbica requer que a(o) terapeuta compreenda a natureza única desses relacionamentos e o contexto sociocultural no qual as experiências vinculares se estabelecem (Rich, 1980). Também é de suma importância que a(o) terapeuta tome cuidado ao assumir suposições sobre o que pode constituir um relacionamento problemático. Um exemplo de estereotipação que, felizmente, já caiu por terra foi a crença na suposta tendência dos relacionamentos entre mulheres de apresentarem um padrão emocional fusionado. Essa crença foi disseminada de maneira errônea pela literatura cientifica de épocas anteriores, em especial, pelos estudos inspirados no pensamento sistêmico.
Dada a sua singularidade, cada relação de casal deve ser vista como uma cultura em si mesma, e o(a) terapeuta deve aprender com a experiência contextual de cada processo, preocupando-se em lapidar suas intervenções para acolher a singularidade que configura a existência de cada casal lésbico. Mais do que adaptar e reformatar esquemas prontos e estereotipados, é preciso ter abertura para cocriar, ou seja, criar juntamente com outrem, coevoluindo com o casal no decorrer do processo terapêutico, de modo que possam ser formuladas intervenções que logrem ser efetivas porque estão enraizadas em contextos dialógicos numa perspectiva emancipatória. Nessa vertente, este estudo estimula reflexões sobre como terapeutas podem respeitar as singularidades a partir de intervenções terapêuticas potentes e com poder mutativo, posicionando-se como LGBTQIAPN+afirmativos.
Em síntese, apesar de se notar um incremento do interesse pela exploração das diferenças e especificidades na terapia de casal de mulheres lésbicas, a literatura ainda se mostra limitada a investigações que fornecem evidências de baixa qualidade buscando compreender as experiências e os desafios únicos encontrados por essa população. Novos estudos são importantes para preencher a lacuna de conhecimentos que permitam identificar e resguardar as particularidades que caracterizam a dinâmica conjugal lésbica no espaço da terapia de casal, especialmente no contexto atual de maior visibilidade conquistada pelas configurações familiares divergentes do modelo heteronormativo. Nesse sentido, ressalta-se também a importância de estudos futuros com outros grupos minoritários que continuam sendo pouco representados nas publicações, como as pessoas bissexuais, transexuais e assexuais.
Este estudo apresenta algumas limitações. Ao selecionarmos artigos que estejam redigidos em português, inglês e espanhol, corremos o risco de não recuperar publicações relevantes que estejam em outras línguas. Outras bases de dados poderiam ter sido acrescentadas para aumentar as chances de se recuperar artigos e outras combinações de palavras-chave poderiam ter sido utilizadas com o mesmo propósito. Todos os artigos revisados foram assinados por pesquisadoras(es) dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Austrália, o que não permite que os resultados sejam generalizados para outras regiões do planeta que vão ter culturas e costumes diferentes, especialmente do Sul Global. A despeito das limitações encontradas, os achados deste estudo têm implicações importantes para a definição de políticas públicas de saúde, além de oferecer sugestões de pautas para abastecer a agenda de novas pesquisas que se preocupem em examinar as múltiplas possibilidades de fomentar contextos terapêuticos para que lésbicas se apropriem de suas histórias e inventem novas narrativas de futuros possíveis.
Por fim, considerando o que foi exposto anteriormente, entende-se que a pergunta de pesquisa – “Qual é o status da produção científica nacional e internacional acerca da terapia de casal para mulheres lésbicas?” – e o objetivo deste estudo foram respondidos, pois foi possível analisar as evidências existentes na literatura nacional e mundial sobre terapia de casal com mulheres lésbicas, conhecer as abordagens existentes e identificar lacunas de conhecimento sobre suas especificidades.
Financiamento:Este estudo recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio de Bolsa de Doutorado (processo número 2020/0964-3) e do Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, por meio de Bolsa de Produtividade em Pesquisa categoria 1A.
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Recebido: 04 de Agosto de 2022; Aceito: 01 de Dezembro de 2023










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