Introdução
O jornalismo, desde que se profissionalizou no século XX, exerce uma forte influência sobre a sociedade ao cumprir o papel político de transmitir fatos e democratizar as informações. Historicamente, o fazer jornalístico sempre esteve exposto a reações violentas por parte dos atores sociais, uma vez que os repórteres têm um contato direto com esses atores nas coberturas que fazem e que os editores produzem publicações que podem provocar tensões em um determinado público específico (Rios & Bronosky, 2019 ).
Recentemente, em tempos digitais permeados pelo fenômeno da pós-verdade, em que as emoções se sobrepõem à razão, a organização do trabalho jornalístico se reestruturou. A linha que separava o que é ou não jornalismo esmoreceu, a precarização do trabalho aumentou. O cenário político está polarizado, marcado por disputas ideológicas, em que fake news e desinformações são propagadas a fim de favorecer determinada posição ideológica e enfraquecer outra (Alves & Maciel, 2020 ). Como consequência disso, os pressupostos substanciais da liberdade de expressão, da comunicação e do direito à informação estão sofrendo violações, ao passo que a democracia e a pluralidade política encontram-se ameaçadas, pois há uma desmoralização do jornalismo comprometido com a qualidade da apuração dos fatos, em decorrência da submissão da população a grupos ou lideranças político-ideológicas, que se autoproclamam fonte de informação legítima (Oliveira & Gomes, 2019 ).
O assédio virtual e a produção de fake news são atos de natureza violenta que se agravaram com a ampliação do contato entre o jornalista e o público, em virtude da midiatização (Rios & Bronosky, 2019 ). Existe um discurso de ódio anti-jornalista e anti-mídia que atravessa fronteiras. “A prática jornalística está sujeita à violência porque o mundo da mídia não apenas a revela (às vezes excessivamente), mas também a produz” (Le Cam, Pereira, & Ruellan, 2021 , p. 12). A polarização política e a midiatização são potencialmente geradoras de violências. No imaginário de simpatizantes de determinados movimentos ideológicos, o trabalho jornalístico passou a ser visto como uma força contrária e inimiga, uma oposição.
A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura publicou um relatório (Smyth, 2020 ) analisando as coberturas jornalísticas de protestos em 65 países entre 2015 e 2020. O relatório demonstra que a agressão contra jornalistas é um aspecto comum no mundo inteiro, pois, em contextos turbulentos caracterizados por tensão civil e política, há um aumento expressivo dos casos de agressão contra jornalistas e uma degradação da segurança durante as reportagens realizadas em locais públicos. Os monitores de liberdade de expressão da ONU (Resolução 39/6, 2018) também registraram que líderes políticos que utilizam de discursos que se referem à mídia como “inimiga do povo” incentivam a violência e a intolerância contra jornalistas (Smyth, 2020 ).
Nitidamente, o perfil dos agressores foi se reconfigurando ao longo dos anos. A título de exemplo, em 2013, os principais agressores foram policiais militares e/ou guardas municipais atuando na crescente onda de manifestações que aconteceram. Este perfil mudou, a partir de 2018, com a eleição presidencial, quando a polarização política acirrou os ânimos da população e os jornalistas tornaram-se alvos de agressões. O ápice desses ataques se consolidou com a posse do presidente Jair Bolsonaro, alcançando o maior número de notificações de violência registradas pela Federação Nacional dos Jornalistas desde seu primeiro relatório (Federação Nacional de Jornalistas, 2020 ). Houve uma institucionalização da violência que aumentou a descredibilização dos jornalistas e que se tornou uma ameaça à liberdade de imprensa, considerando que o chefe do Estado, além de não proteger essa categoria profissional, foi responsável por muitas dessas violências (Jung, 2021 ).
Durante a crise mundial do coronavírus iniciada em 2020, os jornalistas assumiram um papel de linha de frente, expondo-se ao risco do contágio em busca de informações concretas e fidedignas. Em alguns países, esse papel resultou em admiração e reconhecimento. No Brasil não foi assim. Os relatórios de violência da Federação Nacional de Jornalistas ( 2020 ) apontam que em 2020, em decorrência do colapso sanitário e da crise econômico política no país, o número de violências cometidas contra jornalistas alcançou patamar recorde, aumentando cerca de 105,77% em relação ao ano de 2019, sendo que 40,89% do total foram perpetradas diretamente pelo ex-presidente da República. Com a permanência do cenário político, em 2021, a hostilidade em relação à categoria dos jornalistas no Brasil teve um aumento de apenas 0,47%, mas permaneceu enraizada (Federação Nacional de Jornalistas, 2021 ).
A constância da violência contra jornalistas de um ano para outro está diretamente associada a três fatores: à sistemática ação do presidente da República, Jair Bolsonaro, para descredibilizar a imprensa; à ação de seus auxiliares e apoiadores contra veículos de comunicação social e contra os jornalistas; e à censura estabelecida pelo governo Bolsonaro aos profissionais da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
(Federação Nacional de Jornalistas, 2021 , p. 7).
As ocorrências hostis podem ser geradas dentro das organizações, ou fora delas, na rua ou mesmo nas redes sociais. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo alerta sobre o risco de as agressões online extrapolarem o meio virtual e se tornarem atos físicos de agressão (Abraji, 2018 ). Os ataques virtuais podem acarretar danos emocionais aos jornalistas, gerando consequências à saúde física e mental desses trabalhadores e afetando diretamente a rotina de trabalho.
Em estudo realizado com dez jornalistas que trabalharam durante a pandemia da Covid-19, Tabaí, Dos Santos e Coqueiro ( 2022 ) constataram efeitos negativos à saúde e à qualidade de vida intimamente relacionados ao trabalho; os participantes relataram sofrer das repercussões do medo da infecção pelo vírus Sars-Cov-2, mudança salarial e violência. Em conclusão, os autores apontaram a relevância em valorizar a profissão por meio do fortalecimento de políticas públicas para a proteção dos jornalistas e o combate à violência. Essa foi uma das inspirações do presente estudo.
Considerando a importância da imprensa livre para a manutenção da democracia, a atualidade e a relevância da problemática da violência impetrada contra jornalistas e partindo da necessidade de investigar as ocasiões em que a violência se manifesta durante o exercício da profissão, seja ela nas organizações, nos meios digitais ou nas ruas, é de suma importância trazer à tona e gerar conhecimento sistematizado sobre a natureza dessas violências e as consequências, sobretudo do ponto de vista subjetivo, a fim de instrumentalizar profissionais, organizações sindicais e profissionais da saúde, para que possam contrapor esses ataques e promover medidas de proteção e profilaxia aos trabalhadores.
Este estudo objetiva investigar situações de ataque ou violência contra jornalistas no exercício da profissão e o impacto dessas situações na saúde mental e na subjetividade dos jornalistas que as vivenciaram.
Metodologia
O estudo aqui proposto é exploratório-transversal, qualitativo-compreensivo. A compreensão e discussão dos resultados foram guiadas pela teoria psicodinâmica do trabalho, com apoio da literatura referente à violência contra jornalistas.
Os participantes foram jornalistas que reconhecidamente sofreram atos de violência no contexto laboral. O critério de inclusão foi constar no registro de casos de violência da FENAJ ( 2020 ), ou trabalhar em organização que pratica violência institucional. A amostragem foi não probabilística, baseada em informadores privilegiados, de acordo com o método snowball sampling (Dewes, 2013 ). Ela se iniciou com uma pequena seleção de sujeitos identificados pelo fato de possuírem conhecimento privilegiado do tema tratado que indicarão outros conhecidos, até que se componha o número de entrevistas necessário para a coleta de informações relevantes ao tema.
Tendo em mãos o Relatório da Fenaj de 2020, as pesquisadoras selecionaram 95 jornalistas que se enquadraram nos critérios da pesquisa. Desta lista, foi possível encontrar o contato e fazer o convite padrão para 34 jornalistas. A partir do retorno de 12 profissionais, foi possível compor a amostra com os sete jornalistas que aceitaram participar do estudo. Um jornalista foi indicado por um colega que sabia que ele havia sofrido violência no exercício da profissão.
Inicialmente, pretendia-se convidar os participantes para um coletivo de discussão, porém, devido às resistências e recusas dos jornalistas abordados em falar do seu sofrimento diante de colegas, as pesquisadoras optaram por realizar entrevistas individuais semiestruturadas a partir de roteiro aberto contendo questões sobre a experiência da violência sofrida. As entrevistas foram realizadas online , intermediadas pelas plataformas Google Meet ou WhatsApp.
Uma vez que o texto das falas foi transcrito na íntegra, realizou-se uma análise de conteúdo, que consistiu, em um primeiro momento, em realizar a leitura flutuante e interpretação das falas, para, em seguida, organizar as informações em unidades de registro, tendo como eixo um amplo tema central (Caregnato & Mutti, 2006 ). O conteúdo das entrevistas foi categorizado de acordo com semelhanças e diferenças, para organizar e desdobrar os sentidos e significações encontrados no texto. Ademais, para representar a análise por categorias temáticas, as unidades de texto foram divididas e exploradas considerando as nuances de cada entrevistado. A integridade de cada fala foi preservada.
O estudo está de acordo com a regulamentação do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, em especial, as Resoluções nº 466/2012, que reconhece as especificidades éticas das pesquisas em Ciências Humanas e Sociais e n° 466/2012. Ele foi registrado na Plataforma Brasil (CAAE 46987521.8.0000.5505) e aprovado pelo Comitê de Ética em pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Número do Parecer: 4.870.965).
Resultados e discussão
Sete jornalistas participaram do estudo, seis dos quais estavam na lista da Fenaj 2020, e um foi recomendado por um colega da lista. A Tabela 1 expõe a caracterização da amostra em termos de função e tipo de violência sofrida. Os nomes são fictícios, a fim de preservar o anonimato e sigilo dos participantes.
Tabela 1: Caracterização da amostra e dos tipos de violência
| Jornalista | Função | Tipo de violência |
|---|---|---|
| Bruno | Repórter | Agressões verbais, virtuais, intimidações, ameaças |
| Fernando | Repórter | Agressão física |
| Larissa | Repórter e assessora de imprensa | Agressões verbais, virtuais, intimidações, ameaças |
| Leandro | Repórter | Agressão física, intimidações, ameaças |
| Marcos | Repórter | Agressões verbais, ataques virtuais, agressão física |
| Paula | Assessora de comunicação | Assédio moral no trabalho, intimidações, ameaças |
| Sara | Repórter e colunista | Censura, agressões verbais, ataques virtuais |
Fonte: elaborada pelas autoras (2024)
Como grande parte dos jornalistas relatou ter sofrido agressões verbais e virtuais, essa temática será abordada em primeiro lugar. Em seguida, estudou-se como a violência física se fez presente no trabalho desses profissionais, refletindo sobre o sofrimento e as psicopatologias decorrentes. Enfim, a perda do sentido do trabalho e o sofrimento ético decorrente foram analisados.
Agressões verbais e virtuais a jornalistas no exercício da profissão e além
A segurança de jornalistas é um dos desafios para a imprensa livre e democracia no mundo (Waisbord, 2022 ). A ação violenta é definida como toda prática que ameaça a vida ou prejudica a integridade física, moral ou espiritual de um indivíduo (Minayo & Souza, 1998 ). Logo, seja proveniente de maus-tratos físicos ou pela dominação no nível verbal, a violência provoca uma excitação que sobrecarrega o aparelho psíquico e provoca desagregação do pensamento (Dejours, 2022a , 2022b ), o que no caso dos jornalistas é um impedimento ao trabalho de qualidade. Onde carne e afetividade estão ausentes, o único pensamento que prolifera é o pensamento de empréstimo, que reproduz estereótipos socialmente aceitos (Dejours, 2022a , 2022b ), prejudicando inteligência e expressividade.
Invalidar a imprensa é uma estratégia de ação utilizada por governos populistas em todo o mundo. No espectro nacional, Jair Bolsonaro praticou esse tipo de ataque em vídeos publicados pelo YouTube, sendo que entre 26 de fevereiro e 4 de junho de 2020, a imprensa foi citada em 36% do conteúdo sob forma de críticas (40%), ataques verbais (28%) e descredibilização (26%) (Nicoletti & Flores, 2022 ). Os participantes mencionaram que discursos de ódio e de incitação de violência proferidos por figuras de grande influência se apresentam como motores para comportamento agressivo de parte da população.
A violência, para além de sua execução física, pode ser instrumentalizada no âmbito verbal, usando-se da linguagem para causar danos, ferir a dignidade e prejudicar a saúde mental do sujeito por meio de técnicas dissuasivas e de inibição, tais como: insultos, ridicularizações, ameaças e intimidações. Estes últimos, quando não balanceados por momentos de reconhecimento e possibilidade expressiva, podem levar a uma destruição da autoestima, que provocaria uma crise de identidade (entendida aqui como unidade da personalidade e sentimento de continuidade), o que poderia levar à descompensação psicopatológica (Dejours, 2022a , 2022b ).
A tecnologia democratizou e modificou a forma com que as informações são produzidas, permitindo que qualquer pessoa possa contribuir com novos dados, sejam eles verdadeiros ou falsos. Partindo dessas mudanças, Barrueco ( 2021 ) analisa as novas formas de comunicação pela internet e seus impactos no comportamento social, em especial a influência das falas do ex-presidente Jair Bolsonaro para incitação à violência, quando estava no exercício da função. Ao utilizar agressividade explícita, ironia e ridicularização para manchar a imagem social de certos grupos e naturalizar a violência, influencia o comportamento de massa, a partir da interação verbal em rede social, de tal forma que a violência verbal se replica exponencialmente entre seus apoiadores contra os grupos alvos. E dentro desta polarização, os jornalistas trabalham divulgando informações que muitas vezes vão contra as convicções de um determinado grupo, o que torna esses profissionais uma das principais vítimas dos ataques em massa, visto que, quando uma opinião consolidada como regra por certo grupo é questionada, pode provocar uma resposta violenta de seus apoiadores (Barrueco, 2021 ).
Nos casos analisados, a violência verbal se manifestou principalmente no meio digital. Uma matéria que antes era divulgada em rádios, televisão ou jornais se tornava pauta de discussões entre pequenos grupos, agora pela internet um grande público pode reagir instantaneamente às publicações. Os jornalistas mais do que nunca estão em contato com o público, que mais do que expor sua opinião e responder a cada publicação, pode até mesmo acessar o perfil privado dos profissionais para elogiá-los, confrontá-los ou até mesmo deferir xingamentos e ameaças contra eles.
A jornalista Sara conta sua experiência com os ataques virtuais relacionados ao seu trabalho. Sara apresentava um programa que expunha questões sociais que considerava essenciais para informar a população, sobretudo feminina. Em seu relato, refere que os ataques começaram após a alta repercussão na imprensa nacional de uma matéria de sua autoria denunciando a má conduta de um juiz (apoiador do governo Bolsonaro) frente a uma vítima de violência doméstica. Apesar de estar defendendo questões referentes aos direitos humanos, foi identificada dentro de um espectro partidário. Sara identificou os ofensores como apoiadores do governo (de Bolsonaro). Eles se posicionaram para defender o juiz citado em sua publicação e, na sequência, direcionaram ataques em massa nas redes sociais e, por meio de denúncias, derrubaram seu canal no YouTube que estava há mais de uma década no ar.
No site recebi ameaças do tipo ‘esse site tem que sair do ar, essa repórter tinha que ser presa, você tinha que morrer’, xingamentos e coisas horrorosas. Nas minhas redes sociais foi um bombardeio de memes me mandando lavar louça, falando que lugar de mulher é na cozinha, perguntando o que eu estava fazendo ali, e também recebi memes super machistas (Jornalista Sara).
Percebe-se que a violência no trabalho invade todas as esferas da vida, não somente a profissional. Ademais, a forma que a violência se manifesta “reduzindo” Sara unicamente ao gênero feminino cria uma despersonalização, a coloca em posição de inferior e subjugada, e anula a sua capacitação profissional, devido às relações sociais de dominação às quais as mulheres estão sujeitas (Oliveira, Neves, Brito, & Rotenberg, 2021 ). O foco é retirado dos fatos e das análises que a jornalista apresenta na matéria publicada e desviado para sua pessoa fragilizando seu posicionamento. A própria vida da profissional é ameaçada, simplesmente porque estava realizando seu trabalho.
Em um caso semelhante de violência virtual, a jornalista Larissa conta que foi vítima de perseguição por mais de 12 meses após ser vítima de uma fake news . Enquanto cobria uma manifestação, foi convidada a ser entrevistada por um homem (no momento do ocorrido, a jornalista não tinha conhecimento que o homem era um youtuber, aspirante à vida política), que pediu autorização para gravar a entrevista, porém a editou, deturpando as falas. Apesar de ter seus próprios registros, a matéria da jornalista não teve o mesmo alcance que o conteúdo deturpado do youtuber. O vídeo repercutiu em uma onda de ataques à Larissa pelos apoiadores do youtuber, que seguiam a mesma ideologia política, contrária ao que supostamente foi retirada das falas da jornalista . “As pessoas não estavam preocupadas se estavam certas ou se estavam erradas, elas iam lá para marcar uma posição para destruir a imagem de alguém.”
Larissa definiu boa parte dos xingamentos como comentários machistas e misóginos, “Eles não falavam você é ruim, era: você é gorda, você é horrível, você é vagabunda” , em grande parte os ataques ocorriam em suas redes sociais privadas, contudo algumas vezes foi constrangida em público quando era reconhecida. Apesar disso, Larissa frisa que o mais difícil dessa experiência foi lidar com os ataques direcionados à sua família “Eles irem nas redes sociais da minha família foi uma coisa muito chocante, da crueldade das pessoas, . . . é muito chocante a perseguição que eles fazem”. Além dos ataques pessoais e a sua família, alguns perseguidores também tentaram interferir na estabilidade de Larissa na empresa que trabalhava, exigindo a demissão da jornalista do veículo. Esses acontecimentos afetaram a subjetividade da repórter, como ilustra a fala abaixo.
É uma coisa que não era proporcional ao meu esforço intelectual. Então eu fui me desgastando muito assim, e financeiramente eu sentia que nunca iria conseguir ter o que eu queria estando ali. Isso estava me deprimindo muito (Jornalista Larissa).
Em revisão sistemática da literatura, MacDonald e colaboradores ( 2021 ) identificaram que as principais causas de depressão em jornalistas foram (1) exposição a traumas pessoais e relacionados ao trabalho, (2) ameaças a si próprios ou à sua família e (3) níveis reduzidos de apoio familiar e de pares, reconhecimento social e educação. Autores têm mostrado que o abuso online afeta desproporcionalmente as mulheres com visibilidade pública, notadamente jornalistas (Simões, 2021 ). Os ataques contra jornalistas mulheres vem crescendo exponencialmente (Gomes, 2021 ; Konow-Lund, 2023 ; Silva, Fontes, & Marques, 2023 ). O relatório de uma pesquisa global realizada pela Unesco com 900 participantes em 125 países identificou que 73% das entrevistadas tinham sofrido violência online , notadamente ameaças físicas (25%) e sexual (18%). 47% desses ataques foram relativos ao gênero. Os homens jornalistas também são vítimas de violência online , porém o abuso contra mulheres é mais virulento (Posetti et al., 2020 ).
Quando a violência verbal se torna repetitiva, Charaudeau ( 2019 ) a define como assédio verbal. Dessa forma, mesmo que a propagação de discursos difamatórios, discursos de ódio ou de exclusão sejam proferidas por diferentes autores, a violência sofrida pelos jornalistas pode se qualificar como assédio verbal, uma vez que a intenção de um grupo em atingir uma pessoa ou categoria profissional específica configura o teor repetitivo das agressões que operam uma desestabilização do psiquismo.
Segundo a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (Organization for Security and Co-operation in Europe, 2019 ), o assédio e o abuso online podem ser classificados em: (1) cyberstalking , no qual o remetente envia, insistentemente, inúmeras mensagens sem a solicitação do destinatário, gerando com isso diferentes formas de sofrimento ao alvo, como aflição e ansiedade; (2) envio de mensagens intimidadoras, ameaçadoras ou ofensivas, que representam os crimes de ameaça, calúnia, difamação ou injúria; (3) trollagem e personificação online, forma de ataque indireto que apresenta como premissa atingir a vítima ao enviar explanações verídicas ou modificadas a terceiros; (4) campanhas de assédio online , conduta que integra, a propósito, o assédio em massa que pode vir a ser incitado; são campanhas geralmente estimuladas a partir de uma manifestação de uma pessoa que possui grande influência que induz as outras; (5) doxing , que consiste na busca de informações pessoais, como telefone, e-mail ou endereço, gerando com isso intimidação (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo; Organização dos Advogados Brasileiros, 2020 ).
Cada uma das vítimas enfrentou diferentes formas de violência online: Sara foi alvo de cyberstalking , Larissa sofreu diversos tipos de abuso virtual e Marcos relatou ter sido vítima de doxing, ressaltando o perfil ameaçador de seus agressores, que investigaram seus dados pessoais com o intuito de lhe provocar desestabilização emocional por meio da exposição e relatou ter ficado abalado em sua autoestima e organização mental.
O lance de ser massacrado por eles é algo que pesa muito na sua cabeça. Isso me deixou meio maluco, eu fiquei meio atrapalhado quando eu vi isso acontecendo. Eles sabem te atacar e te investigar, são pessoas que você não conhece, mas que parou o que estava fazendo para ir no seu Facebook ou para jogar o seu nome no Google e te investigar. É um bagulho muito louco. Você sente vontade de sair do país assim, né? (Jornalista Marcos).
Além do espaço virtual, a pressão psicológica de ser alvo de perseguição, por questões políticas, também pode ocorrer dentro das organizações de trabalho. Tal fatalidade ocorreu com Paula, que assinalou o caráter desestabilizante de ameaças veladas sofridas dentro da instituição. A jornalista evidenciou como a conjuntura política mudou a organização interna da instituição que trabalhava e como essas mudanças levaram a situações de violência onde trabalhava. Paula relatou que os episódios iniciaram após a nomeação dos novos cargos de gestão indicados com a troca de governo, entre os anos de 2016 e 2018. Descreve que durante meses foi constantemente exposta a reações explosivas da chefia, que a tratava com gritos e desqualificava seu trabalho. Em outras situações, descreveu atitudes mais sutis, mas que lhe traziam muito sofrimento, como fofocas e difamações a seu respeito que partiam da gestão e que lhe foram relatadas por outros funcionários. Essas práticas tiveram um efeito significativo em Paula, levando-a a sentir-se, em suas palavras, “torturada psicologicamente”.
Paula também descreveu situações em que recebia interferências no seu trabalho pautadas em questões políticas, e não de qualidade. Pedidos que lhe causavam sofrimento ético, uma vez que exigiam que seu trabalho fosse modificado, alterando a veracidade e a integridade da fala dos entrevistados pela jornalista, para que os conteúdos publicados não fossem contra a ideologia do governo vigente na época. O sofrimento ético ocorre quando o trabalhador executa ordens que contrariam seu ordenamento moral e provocam desalento, angústia e desespero (Molinier, 2013 , p. 145). Paula sofreu um tipo de violência que utiliza de táticas mais sutis, porém igualmente prejudiciais à sua saúde mental. Notou-se que a constância de repetição dos casos de ataques verbais, difamação, ameaças veladas e situações em que sofria humilhação, degradação, diminuição de valor geraram na jornalista um intenso sofrimento psicológico; fatos que podem ser enquadrados em um caso de assédio moral, acometido dentro da organização de trabalho.
Marie-France Hirigoyen ( 2019 ) descreve de forma clara quão destrutivas as violências silenciosas são para a saúde do trabalhador. A autora salienta que a hostilidade no trabalho não é necessariamente uma explosão violenta, podendo se apresentar em pequenas doses de agressividade, com chantagens, intimidações e ameaças veladas. O que caracteriza seu potencial avassalador é a constância e a repetição, que deixam marcas profundas na vítima.
Atos de violência perpetrados no espaço público, sofrimento e psicopatologias
Os participantes fizeram menção a outras questões de disputas políticas, que se concretizam em atos de violência física contra jornalistas perpetradas nas ruas, fora do ambiente organizacional, que também deixam marcas geradas pelo medo. O risco de violência é maior quando os trabalhadores estão expostos ao contato direto com o público, sujeitos a sofrer abusos verbais, violência física e ameaças. Jornalistas estão expostos a condições instáveis e de alto risco nas ruas, principalmente quando se trata do exercício de reportagem e jornalismo investigativo, em que muitas vezes é necessário trabalhar em zonas de conflito, ou ainda por se tornarem alvos de atentados de ódio.
Muitos jornalistas no Brasil se encontram trabalhando entre grandes públicos ao realizar cobertura de manifestações, porém, devido ao caráter instável e imprevisível inerente a situações dessa ordem, conflitos e situações de violência podem eclodir, contando muitas vezes com intervenções militares, que colocam em risco a integridade dos profissionais em campo. Além disso, os jornalistas, muitas vezes por razões ideológicas, são enquadrados como alvos de certo público, e, com isso, podem sofrer perseguição, abuso verbal, destruição de equipamentos e agressão física.
O jornalista experimenta o efeito de exercer uma profissão “pública” passível de receber aclamação, críticas ou até mesmo respostas violentas em grandes proporções. O trabalho jornalístico pressupõe um compromisso com a transmissão de fatos imparciais; entretanto, muitos jornalistas ficam marcados pela “bandeira” do veículo de informação em que trabalham, ou pelo perfil temático de suas pautas, que se aproximam mais ou menos de questões polêmicas, de conflitos políticos. As produções dos jornalistas podem ser recebidas de maneira muito pessoal pelo público, que está emocionalmente muito envolvido com as questões retratadas. O público que assumiu um lado designa uma posição para esse trabalhador, podendo identificá-lo como um aliado ou como um rival nesta disputa ideológica.
O jornalista Marcos reflete sobre a educação midiática dos bolsonaristas, que reconhecem e identificam a função do jornalista e para qual emissora trabalha, pressupondo com isso seu posicionamento político e direcionando seus ataques, a fim de lesar o jornalista e criticar seu trabalho. Neste enredo, os jornalistas também criam mecanismos de defesa com intuito de identificarem possíveis agressores, buscando manter uma postura mais discreta entre os manifestantes, escondendo as insígnias, como as manoplas com os símbolos de seus veículos de imprensa, evitando dessa forma sua identificação como um “rival ideológico” do público.
Conforme elucidado por Dejours ( 2022a , 2022b ), durante o processo de trabalho, os trabalhadores inevitavelmente se deparam com o real, ou seja, com situações adversas, inesperadas, que podem atingir as prescrições de execução do trabalho. Eles se mobilizam para enfrentar esses impedimentos por meio de uma implicação de si mesmo, considerando que o real se manifesta sempre afetivamente para o sujeito, sob forma de fracasso, angústia, irritação, dor, decepção, entre outras.
Os jornalistas entrevistados relatam ter desenvolvido astúcias para alcançar os objetivos de seu trabalho a fim de o executarem de forma segura ao exercerem alguma atividade em campo, superando os obstáculos. Essa inteligência astuciosa age por meio do mimetismo e de artifícios, no qual o trabalhador se implica e se esforça por meio de uma sabedoria prática, do improviso, da inventividade e sobretudo a partir de uma sensibilidade e flexibilidade, que permite lidar com o desconhecido e com o cotidiano do trabalho (Dejours, 2022a , 2022b ).
As violências sofridas pelos jornalistas muitas vezes também são banalizadas por parte da população, pela organização do trabalho dentro de veículos de imprensa e pela justiça. Contudo, a astúcia desses profissionais também se manifesta na capacidade de contornar esse desamparo perante as violências, tornando-se “invisíveis” e, por meio do esforço coletivo, criar entre pares uma rede de suporte que funcione em momentos de urgência e ganhar a simpatia da população.
Dentre os cinco jornalistas que atuavam diretamente com o público, quatro relataram ter sofrido algum tipo de violência, seja de ordem física ou material, durante a cobertura jornalística em manifestações. Em um dos casos, o profissional estava cobrindo uma pequena manifestação pró-Bolsonaro quando começou a filmar um alvoroço entre manifestantes e motoristas, até que um dos atores do conflito, percebendo a presença do jornalista, se direcionou contra ele, empurrando-o e tentando o agredir. Após o ocorrido, o repórter foi orientado por seu chefe a sair do local, pois dada a intensidade do ato de violência, sentiu receio de que a violência física se concretizasse.
Na mesma ocasião, o repórter ainda sofreu ofensas e xingamentos de terceiros criticando-o por trabalhar nessa emissora, como se o sucedido fosse uma consequência merecedora, o que evidencia o impacto sofrido pelos jornalistas ao exercerem seu trabalho em meio a um público polarizado, que os enxergam como um alvo em iminência:
Algumas pessoas da direita proferiram ‘tinha que apanhar mesmo’ e essa lógica do conteúdo foi muito maluca por si só, porque no final das contas, independente de qualquer veículo que você esteja empregado, se for parado aos extremos da bolha, você vai sofrer de qualquer forma (Jornalista Marcos).
O jornalista Fernando passou por situações semelhantes ligadas à violência policial em manifestações. No primeiro ocorrido, foi cerceado por policiais, sendo tratado com tom intimidatório, enquanto no segundo ato, foi agredido duas vezes com spray de pimenta, que o deixou com a visão seriamente prejudicada e dificultou seu retorno para casa. Fernando explica que a violência policial é um risco para os jornalistas há algum tempo; no entanto, ressalta que foi intensificada durante e pós-eleições de 2018. O jornalista qualificou as situações de violência que passou como brandas quando comparadas às experiências de outros colegas de trabalho, e conta o relato de um companheiro de profissão:
Já tive amigo que foi perseguido, uma delegada que era sua fonte dentro da polícia, informou que um grupo de policiais estava monitorando o jornalista e tinham fotos dele na porta de casa com pessoas queridas e familiares (Jornalista Fernando).
Apesar de descrever como “branda” sua experiência pessoal, o que já pode ser uma defesa individual pela eufemização, Fernando relata que sentiu medo após o ocorrido e passou a se questionar sobre a possibilidade de cruzar com um policial armado e sofrer um atentado à sua vida. As defesas coletivas que protegem do medo, escamoteando os perigos, foram rompidas, e as decompensações psíquicas encontram terreno fértil (Dejours & Gernet, 2016 ). Desse modo, relacionava a violência como a situação “gota d’água” para seu crescente adoecimento, dado que já vinha sentindo sintomas como cansaço e estresse, que se aprofundaram após o ocorrido. Além do mais, sentiu-se isolado, desajustado, com sensação de que poderia ter morrido e com questionamentos acerca do próprio trabalho: “Eu tô fazendo tanto pra nada?”, sobretudo porque após se afastar, devido ao adoecimento, foi demitido. A perda do sentido do trabalho e a degradação da situação de trabalho provocam impasse do engajamento subjetivo no trabalho, abrindo espaço para sentimentos de inaptidão, indignação, podendo levar à depressão (Dejours & Gernet, 2016 ). O processo afetou também o corpo do jornalista que relata.
Eu tive uma esofagite gravíssima há dois anos. Isso significa que minha alimentação me prejudicou muito, mas a questão emocional também interfere. Hoje, meu esôfago é fudido por causa do jornalismo. A rotina é muito intensa, e lá atrás eu tinha uma válvula de escape, que era a bebida (Jornalista Fernando).
Compartilhando a experiência de agressão em meio a manifestações, o jornalista Leandro também foi agredido enquanto cobria uma manifestação polarizada. Ele cruzou com simpatizantes nazistas e foi intimidado por policiais civis, após denunciar uma situação de conflito envolvendo um policial militar. Leandro estava gravando o ocorrido e foi interrompido por um policial que lhe empurrou, derrubando seu equipamento de trabalho que quebrou ao cair no chão. Ao denunciar o ocorrido, ele foi ridicularizado e hostilizado pelos policiais civis que o atenderam, que riram da situação do jornalista e o coagiram a não prestar sua denúncia, responsabilizando-o por injúria, difamação e falso testemunho.
Levando em consideração que todas essas violações são operadas via silenciamento e são retroalimentadas pela impunidade, é evidente que o medo e a autocensura se propagam entre os jornalistas que investigam determinadas pautas (Jung, 2021 ). A maioria dos jornalistas entrevistados relata ter sofrido ataques que produziram ansiedades, frustrações, medos e preocupações.
O medo existe em algum grau em todo tipo de trabalho devido à exposição aos diversos riscos que podem afetar a integridade física do sujeito, porém frequentemente são imanentes à função exercida e não estão sob o controle dos trabalhadores (Dejours, 2022a , 2022b ). No caso dos jornalistas, o perigo que enfrentam pode surgir inesperadamente de fontes diversas e a exposição ao risco é variada. Eles confrontam riscos no ambiente organizacional, no meio digital ou no meio urbano, pois a rua também faz parte do ambiente de trabalho, sendo um espaço em que exercem e executam sua profissão. A superexposição ao perigo aumenta a carga emocional, podendo afetar a saúde mental dos trabalhadores.
O medo gerado pelos riscos de acidentes pode atingir todo o coletivo envolvido em uma tarefa (Dejours, 2022a , 2022b ). Entretanto, os parâmetros de segurança propostos pela organização do trabalho são incompletos e individualizantes, e os riscos não são eliminados. Os acidentes são frequentemente imputados à responsabilidade dos trabalhadores. Os jornalistas entrevistados relataram que recorrem a denúncias individuais sobre as violências sofridas no exercício de sua profissão e procuram individualmente recursos para manter sua saúde física e mental. Poucos jornalistas se sentiram amparados pelos veículos em que trabalhavam; eles relatam ainda que em alguns casos a organização não só não prestou solidariedade com o sofrimento do trabalhador, como também o aprofundou.
Enquanto o jornalista Marcos mencionou que sentia medo de sair nas ruas, o jornalista Fernando relatou que apenas conseguiu reconhecer o real tamanho de seu medo ao realizar acompanhamento terapêutico. A jornalista Sara discorreu acerca das consequências negativas e patogênicas ligadas aos ataques que recebeu:
São vários aspectos que tiram o seu sono e quando a matéria é publicada, vem todos os xingamentos e isso te gera uma ansiedade, um medo real. Você não consegue nem comer direito, você perde até o apetite, porque é nervosismo até as coisas se acalmarem, até passar a turbulência. Então há um cansaço físico e mental, porque é muita pressão (Jornalista Sara).
A doença somática, no caso aqui ansiedade, insônia, inapetência foram desencadeadas provavelmente pela forclusão do agir expressivo e por uma dinâmica intersubjetiva insuficientemente protetora (Dejours, 2019 ). O jornalista Bruno destaca que muitas vezes é afetado psicologicamente por sentir dificuldades em trabalhar com o jornalismo em sua essência, que em tese deveria lhe garantir liberdade de expressão, porque se sente ameaçado e pressionado psicologicamente devido às intimidações que sofre. Esse mesmo jornalista pontua que sofrer ameaças e intimidações faz parte do trabalho, quando é feito seriamente, e que isso não é um problema exclusivo seu, pois todos que fazem um jornalismo ético e político passam por isso. Quanto mais o trabalhador está implicado e mobilizado subjetivamente pelo trabalho, a traição ao ethos profissional será prejudicial para o funcionamento psíquico (Dejours & Gernet, 2016 , p. 143).
Fernando aponta as dificuldades de manter equilibrado o sentido do trabalho jornalístico, ao mesmo tempo que tem que atender as demandas das empresas:
Você tem que acreditar muito no que você faz ou pensa que é só um trabalho. Ou você se blinda no sentido de manter a mente fechada na sua ideologia de ser um jornalista que quer mudar o mundo, ou então você vira e fala, isso aqui é meu ganha pão, eu tenho que fazer bem-feito para ter um emprego e conseguir viver (Jornalista Fernando).
Da mesma maneira, Leandro citou que o sofrimento é consequência de um bom trabalho realizado. A psicodinâmica do trabalho considera que tanto o trabalho oferece oportunidade de mobilizar a inteligência e ampliar a subjetividade, quanto travar a engenhosidade e provocar um impasse dessa ampliação. Duas formas de resistência ameaçam a experiência subjetiva do trabalho, o real da organização do trabalho e o real do inconsciente. Ademais, há as relações sociais, inclusive as de gênero, e a dominação (Dejours, 2022a , 2022b ). Quando Leandro é impedido de fazer o que considera um bom trabalho, o sofrimento criativo cede o lugar ao patogênico. Fernando deixa aberta a porta da alienação quando desinveste o trabalho e contenta-se em ganhar o pão que lhe permite viver.
A jornalista Paula, vítima de assédio moral por parte de seus superiores, os quais a ameaçaram insinuando que algo prejudicial poderia lhe acontecer, caso não mudasse suas matérias em prol da instituição, se sentiu impotente e sem capacidade profissional para concretizar um trabalho que acreditava. A impotência experimentada pelo trabalhador no assédio moral, segundo Margarida Barreto ( 2005 ), se enquadra também como uma dominação pelo medo, pois o agressor se apodera dos conflitos sustentando suas ações em um desbalanceamento do sistema afetivo da vítima. Esse processo pode se iniciar com símbolos e sinais sutis, como olhares irônicos que evoluem para atos mais explícitos, como humilhações que minam a autoestima do trabalhador.
Papel ético político, perda do sentido do trabalho e sofrimento ético
As entrevistas realizadas neste estudo ainda revelaram expressões que refletiram a visão que os jornalistas tinham acerca do seu papel profissional e sua identificação com um trabalho transparente e alinhado à democracia. Em comum, as expressões denotam uma ideologia que implica uma função fundamental do jornalismo para sociedade: “ajudar pessoas”, “função de ser o porta-voz entre a população ( sic )”, “contribuir para o direito que as pessoas têm de serem informadas para exercer o direito delas”, “sem medo de dizer a verdade”, “denunciar”, “arrumar o problema [social]”, “mudar pequenas realidades assim e as vidas de muitas pessoas”, “contribuir ainda mais para a cidadania”. Sara reivindica que a luta pela liberdade de imprensa é um dever do jornalista na promoção de uma sociedade democrática:
Temos que lutar pela liberdade de imprensa, hoje em dia estão confundindo liberdade de imprensa com fake news . Fake news é fake news , é mentira e tem que ser combatida, não é censura você tirar uma fake news do ar, é um dever. Agora a imprensa séria deste país que ainda existe e é tão necessária para uma democracia tem que ter liberdade, essa empresa que é responsável e respeitosa tem que ter essa liberdade, ela não pode ser ameaçada porque ameaçar a imprensa é ameaçar a democracia (Jornalista Sara).
O entusiasmo é um testemunho de um processo no âmbito do qual o trabalho conjuga ética e estética e a sublimação é colocada não somente a serviço da luta pelo reconhecimento como também para honrar a vida, alcançando a via da política e da cultura (Dejours, 2022a , 2022b ). O jornalismo teria essa vocação, porém, como vimos aqui, o entusiasmo dos jornalistas vem sendo minado e com ele a violência contra a categoria tem ameaçado a democracia (Mendonça Domingues da Silva, 2023 ).
O jornalista desenvolve uma identidade atrelada ao papel social que considera importante e isso pode agregar valor a si próprio e ser uma condição motivadora para encarar e superar as adversidades devido à identificação com o trabalho e com a ética jornalística. Ao que a literatura aponta e as falas dos participantes ilustram, o jornalismo está se tornando uma profissão de risco que necessita da implementação de uma cultura de segurança, pois cada vez mais os jornalistas estão sendo vítimas de violência pelo trabalho que desempenham, uma vez que são figuras públicas que atuam na defesa dos direitos humanos. Cabe destacar que os agressores constantemente usam a violência como tática de silenciamento, ameaçando os jornalistas e a sociedade ao violar o direito à informação (Federação Nacional de Jornalismo, Observatório de Ética Jornalística ‒ objETHOS, 2022). As instituições democráticas parecem incapazes de proteger os jornalistas, é preciso intensificar a monitorização e a responsabilização (Carey & Gohdes, 2021 ).
Considerações finais
Vimos que o jornalismo ético-político vem sendo prejudicado por ameaças de ódio e incitação à violência por figuras influentes que são os principais motivadores de comportamentos agressivos por parte da sociedade contra os jornalistas. O discurso agressivo é fortalecido pela violência verbal, principalmente no meio digital, até resultar em ameaças e agressões físicas contra jornalistas. A repetição sistemática das múltiplas formas de violência afeta a confiança, a autoestima e a saúde mental dos jornalistas, podendo resultar em traumas psicológicos. Os jornalistas entrevistados ficaram isolados, sentiram medo, ansiedade, insegurança, depressão, perderam o sentido do trabalho e foram acometidos de psicopatologias. Colegas e chefias parecem não ter oferecido apoio coletivo, deixando sob a responsabilidade dos trabalhadores as providências no sentido de buscar recursos para resolver os problemas e proteger a saúde. Isso quando não foi a própria instituição empregadora que perpetuou a violência, como em um caso analisado. Por consequência, alguns dos participantes relataram se sentir desamparados, injustiçados e sem propósito.
Note-se que esses dados se referem a uma amostra restrita de jornalistas que foram vítimas de violência e não se deve fazer generalizações apressadas. Entretanto, o estudo indica a importância de se pensar em formas efetivas de apoio à categoria, dado o nível de exposição e a conjuntura desfavorável. Como indicam os documentos citados anteriormente, existem ao menos uma centena de jornalistas vítimas de agressões que é preciso ouvir e acompanhar, e provavelmente outros mais que não se identificaram ou foram identificados.
Ademais, como indica a literatura, a proteção dos jornalistas é fundamental para garantir a liberdade de imprensa e o direito à informação. Quando jornalistas são atacados ou intimidados, a qualidade e a diversidade da informação disponível para a sociedade são afetadas, limitando a liberdade de expressão e o acesso à informação. Portanto, é importante que as organizações governamentais e de mídia tomem medidas concretas para proteger jornalistas e combater o discurso de ódio e incitação à violência. Essas medidas podem incluir a criação de mecanismos de proteção para jornalistas, a responsabilização de agressores e a sensibilização da sociedade sobre a importância da liberdade de imprensa e o papel dos jornalistas na sociedade. É igualmente importante que os profissionais da saúde mental, sejam eles profissionais liberais, trabalhadores de instituições privadas ou de serviços públicos, estejam preparados para a ocorrência desse tipo específico de sofrimento no trabalho e proponham ações preventivas e profiláticas.














