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Cadernos de Psicologia Social do Trabalho

Print version ISSN 1516-3717On-line version ISSN 1981-0490

Cad. psicol. soc. trab. vol.27  São Paulo  2024  Epub Mar 21, 2025

https://doi.org/10.11606/issn.1981-0490.cpst.2024.200159 

Artigos originais/Original articles

A clínica do trabalho na universidade: experiências, desafios e possibilidades

The clinic of work at the university: experiences, challenges and possibilities

Beatriz Amália Albarello1 
http://orcid.org/0000-0002-7116-7428

Lêda Gonçalves de Freitas1 
http://orcid.org/0000-0002-1288-7134

1Universidade Católica de Brasília (UCB) (Brasília, DF, Brasil)


Neste artigo, apresentamos as experiências de clínicas do trabalho feitas em diversos contextos por pesquisadores nas universidades, que realizam a pesquisa-ação inspirados na clínica psicodinâmica do trabalho (PdT), as possibilidades e os desafios enfrentados na prática. O objetivo foi compreender as diversas formas de se fazer a clínica do trabalho, nas quais são utilizados dispositivos da psicodinâmica e as adaptações são realizadas em laboratórios de pesquisa em universidades no Brasil. A proposta do espaço de fala na universidade é criar uma cultura de sensibilização do sofrimento, ofertando um serviço de atenção para o trabalhador e, a partir disso, pensar em práticas para além das paredes institucionais, ou seja, nas comunidades. No âmbito da universidade, a clínica do trabalho desenvolvida com o coletivo de alunos, egressos e pesquisadores, fomenta um espaço de expressão, de diálogo, de liberdade para o pensar, sentir e agir de forma colaborativa, a fim de que as ações no coletivo potencializem a mobilização subjetiva.

Palavras-chave: Trabalho; Psicodinâmica; Clínica do trabalho

ABSTRACT

This study describes the work clinical experiences university researchers carried out in different contexts, conducting action-research inspired by the psychodynamic clinic of work and its possibilities and challenges faced in practice. It aimed to understand the different ways of carrying out clinical work, which uses psychodynamic devices, and the adaptations in university research laboratories in Brazil. The proposal of the discourse space at the university aims to create a culture of awareness of suffering, offering care for workers and, based on this, thinking about practices beyond institutional walls, i.e., in communities. Within the university, a clinic of work, developed with a collective of students, graduates, and researchers, fosters a space for expression; dialogue; and freedom to think, feel, and act collaboratively so collective actions can enhance subjective mobilization.

Keywords: Work; Psychodynamics; Work clinic

Introdução

Em que pesem as adversidades do mundo do trabalho, a perspectiva deste estudo tematizando a psicodinâmica do trabalho (PdT) compreende que o trabalho é espaço de sofrimento-prazer. Estuda-se a relação do sujeito com o trabalho, na qual os trabalhadores estão em busca permanente de integridade física e psíquica. Assim, essa abordagem está diretamente conectada com a área da saúde mental no trabalho ao estudar os processos de adoecimento psíquico e o impacto dos contextos de trabalho na saúde mental dos sujeitos. A psicodinâmica do trabalho é pautada nos princípios da pesquisa-ação e, ao unir pesquisa e intervenção, busca compreender as organizações de trabalho e os processos de gestão sobre a vida psíquica dos trabalhadores e os modos de enfrentamento (Dejours, 2004a, 2005, 2011, 2012; Dejours, Abdoucheli & Jayet, 2012).

A organização do trabalho é a divisão do trabalho, das tarefas, do controle, da hierarquia, do ambiente físico, das condições de trabalho e relações socioprofissionais que abarcam o trabalho prescrito às regras, no que diz respeito aos mecanismos de controle (Dejours, 1992; 2004b). Nessa relação de atender às demandas, o trabalhador, no contexto de produção, se depara com as contradições do mundo do trabalho entre o prescrito e o real.

Nessa forqueadura, de um lado temos a organização do trabalho com suas prescrições rígidas, ou seja, normas, regras, procedimentos, tarefas a executar. Do outro lado, temos o trabalho real, que implica na práxis, no trabalho vivo, não obstante às normas, nas transgressões e nos modos de enfrentamento, na inteligência prática, no empenho, na criatividade e na sensibilidade dos trabalhadores para lidar com o real do trabalho, que procura corrigir e compensar as deficiências da organização do trabalho no plano da coordenação, tratada no ponto de vista do zelo, isto é, as pessoas se engajam para que a produção saia a contento, mesmo que o trabalhador tenha que agir de forma engenhosa (Sznelwar et al., 2011).

Dejours (2004a, 2005, 2011, 2012) considera que o trabalho aparece nesse encontro do trabalhador com o real, sendo que esse antagonismo provoca criação e subjetivação, na tentativa de reduzir esse sofrimento em vista de aumentar o prazer, por meio de possibilidades reais de realização, liberdade de expressão e reconhecimento. Do ponto de vista humano, o trabalho está implicado no saber-fazer, no engajamento do corpo e na capacidade de refletir, de reagir às situações, de sentir, de pensar e de inventar.

Dejours (2013) argumenta que, no trabalho prescrito, a construção de regras e normas é uma parte relevante que consome energia vital dos indivíduos. Nessa lógica, a atividade deôntica concerne às regras não apenas técnicas, mas também sociais, pois implica convivência. Prontamente, o trabalho vivo envolve a relação com o outro, sendo no contexto de produção, sendo no contexto de troca de experiências e colaboração, ou seja, para executar a tarefa é necessário que o trabalhador demonstre engenhosidade, iniciativa e inventividade. Nessa dimensão, a atividade exige investimento de energia para lidar com as adversidades, uma vez que para se adaptar às regras, formais ou informais, o sujeito aplica toda sua experiência e seus saberes práticos para enfrentar o mundo do trabalho.

Segundo Hamraoui (2014), na lógica Marxista, o trabalho vivo é originalmente uma práxis que torna possível o compartilhamento de eventos comuns dos mundos humano e animal e transforma corpos em movimento em sua forma útil à vida. Nessa perspectiva, o trabalho vivo se opõe ao trabalho abstrato e alienado, símbolo de um empobrecimento da vida fundamentado no sistema de produção capitalista, ou seja, na relação da autoridade ligada à submissão dos corpos e mentes em detrimento da racionalidade instituída pelo direito, quiçá na relação entre o indivíduo e o poder instituinte, em que a ação tem suas raízes no contrato que associa aquilo que diz respeito à força vital e social de trabalho e o capital.

Primeiramente, o trabalhador só desenvolve sua atividade laboral, de fato, quando seu trabalho pertence ao capital, de tal forma que a ele parece ser uma força da qual o capital é dotado por natureza, uma força produtiva imanente. Nada obstante, na relação com o real, no trabalho vivo, os trabalhadores encontram possibilidades concretas de realizar a sua potência criadora, tão necessária para a estruturação psíquica dos sujeitos (Dejours, 2012; Freitas, 2013).

Nesse processo do trabalhar é importante que haja um desejo ou uma motivação que afete o sentido do trabalho. Esse trabalhador, enquanto sujeito ativo e atuante na sociedade, tem um papel fundamental de construção e modificação de sua realidade. Essa relação é compreendida como um processo intersubjetivo, no qual o sujeito que trabalha engaja toda a sua subjetividade para criar, inventar e reafirmar a sua identidade nas organizações de trabalho. Nessa lógica, o trabalho assume o sentido de luta pela transformação do sofrimento de angústia e incertezas em sentido de vida, de criação, de sublimação ou realização (Dejours, 1992, 2004b, 2012; Dejours et al., 2012).

A partir de novos saberes, novos constructos, novas formas de saber-fazer, os trabalhadores criam novas metodologias, transformando as novas regras de trabalho, que são construídas a partir da confiança recíproca. Assim, os trabalhadores procuram ser reconhecidos por sua contribuição, por sua atitude proativa, criativa, inventiva e construtiva com a organização, esperando ser recompensados (Sznelwar, 2015).

De toda forma, anseiam que o seu contributo tenha retribuição, não apenas material, mas acima de tudo uma retribuição simbólica, cuja importância é o reconhecimento, que fortalece a sua identidade, a sua saúde e seu bem-estar no trabalho e desempenha um papel crucial para a prevenção do sofrimento no trabalho, pois confere significado aos esforços dados por cada trabalhador (Facas et al., 2015).

Dejours (1992) propõe que o sofrimento e o adoecimento psíquico podem ser fruto de relações de trabalho precárias, em que as condições e a organização do trabalho afetam a saúde dos trabalhadores. Assim, no encontro com a atividade, os trabalhadores fazem uso de estratégias defensivas e mobilizam a inteligência corporal para dar conta da tarefa, buscando prazer, sentido no trabalho e emancipação, que transforma o sofrimento patogênico em sofrimento criativo. A emancipação tem a capacidade de substituir o constrangimento advindo da dominação pela exigência de mensurar-se com os poderes de seu corpo e de sua inteligência, confrontados à resistência do real (Freitas, 2018).

Nessa perspectiva, o sofrimento ético, ou seja, um conflito moral e emocional consigo mesmo, suscita possibilidades de luta e formas de enfrentamento, que, com a práxis ou a ação, essencialmente política, possibilita a emancipação individual e a transformação das situações de trabalho por meio de ações coletivas. Essa forma de sofrimento, convertido em criatividade, traz contribuições que beneficiam a percepção de identidade e aumentam a resistência dos trabalhadores frente ao risco de desestabilização psíquica e social (Mendes & Araujo, 2012).

Não obstante, a precarização social do trabalho nos últimos anos acentuou-se com a vinda das tecnologias, a mundialização do capital e a reestruturação dos modos de produção, advindos do processo de acumulação do capital que comanda a sociedade na busca insaciável de lucrar e produzir, atos cada vez mais estimulados pela concorrência intercapitalista no mundo (Druck, 2011; Sennett, 2015). Os novos métodos de gestão organizacional, não somente de mudanças estruturais, mas também culturais, ambientais e tecnológicas às organizações do trabalho têm-se modificado e adaptado às mudanças nas políticas de emprego, em novos métodos de trabalho, acarretando sofrimento ético e político e adoecimento aos trabalhadores de todas as categorias.

A clínica do trabalho

Para compreender essa subjetividade e os modos de enfrentamento, a clínica do trabalho surge com dispositivos para uma escuta qualificada do trabalhador em situação de sofrimento e prazer relacionados ao modo de produção, suas relações com a organização, as condições de trabalho e todo o contexto de precarização na atualidade.

A clínica do trabalho estuda as relações entre trabalho e subjetividade, com uma diversidade teórica e metodológica, apresentando-se como uma clínica social, em que, ao se realizar pesquisa sobre a subjetividade do trabalhador, realiza-se também uma ação sobre o sujeito, o qual está implicado em seu sentimento de prazer ou sofrimento relacionado ao trabalho.

No Brasil, as clínicas do trabalho formam um conjunto de abordagens teórico-metodológicas com foco investigativo na relação entre trabalho e subjetividade. Em decorrência disso, diversas são as práticas clínicas, tais como a Clínica Psicodinâmica do trabalho, a Clínica da Atividade, a Psicossociologia e a Ergologia (Bendassolli & Soboll, 2011).

Neste estudo, o foco é compreender as adaptações da Clínica Psicodinâmica do trabalho feitas por pesquisadores brasileiros que utilizavam em seu prescrito a abordagem da Psicodinâmica e atualmente estão bebendo em outras fontes, à vista de uma clínica social, uma vez que tem a realidade vivenciada pelos sujeitos como foco de pesquisa e intervenção.

A psicodinâmica do trabalho concebe um aporte teórico para a compreensão de uma prática e um agir clínico, no qual a ação ocorre na emancipação do sujeito diante das dificuldades e dos modos de enfrentamento. Nessa perspectiva, o método da pesquisa e intervenção acontece no agir coletivo. Consequentemente, na clínica psicodinâmica do trabalho é possível identificar estratégias de mobilização subjetiva nos sujeitos, as quais são caracterizadas pelo modo de pensar, sentir e agir diante do coletivo, fundamentado na inteligência prática, na cooperação e no espaço público de discussão (Dejours, 2012).

No espaço da clínica do trabalho, as mudanças e as transformações são possíveis na medida em que o coletivo de pessoas se compromete com o agir, com a mobilização e com a mudança. A dimensão da clínica do trabalho é um dispositivo de pesquisa e ação na construção de um agir clínico nas universidades, para dialogar sobre o emprego da clínica como mecanismo de resistência e cooperação diante da precarização do trabalho e o modo de agir frente às questões psicossociais que são antagônicas e conflituosas (Freitas, 2018).

Posto isso, neste estudo, objetivou-se compreender as diversas formas de se fazer a clínica do trabalho, nas quais se utilizam dispositivos da psicodinâmica e as adaptações realizadas em laboratórios de pesquisa em universidades do Brasil. Compreende-se que analisar o saber-fazer a clínica do trabalho em diversos contextos por pesquisadores em universidades trará elementos teóricos e metodológicos para aprofundar a prática da clínica, tendo em vista as resistências necessárias frente ao real do trabalho cada vez mais precário.

Método

Trata-se de um estudo de natureza qualitativa, tendo realizado uma pesquisa descritiva e análise do relato de experiências de pesquisadores clínicos do trabalho, para capturar e mostrar o cenário do saber-fazer a clínica, descrevendo cada uma das práticas apresentadas, para, posteriormente, correlacionar as variáveis que possam ser aplicadas no contexto da universidade.

Como critério de inclusão, participaram do estudo 4 (quatro) pesquisadores da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) que realizam a prática clínica do trabalho na universidade utilizando a psicodinâmica do trabalho em seus estudos, conforme apontado na pesquisa de revisão sistemática sobre a clínica psicodinâmica do trabalho no Brasil (Albarello & Freitas, 2022), em que foram levantadas as produções acadêmicas e científicas de pesquisadores que utilizam os dispositivos clínicos da psicodinâmica e os que realizam adaptações na clínica do trabalho no contexto da universidade.

Dispositivos da clínica PdT

Quanto aos dispositivos da psicodinâmica, no que se refere ao método, a clínica PdT se desenvolve em três etapas: a pré-pesquisa, a pesquisa propriamente dita e a validação (Dejours, 2011).

No Brasil, foram demandadas modificações na metodologia para a condução da Clínica, propostas por Mendes e Araujo (2012), mas mantiveram os referenciais teóricos desenvolvidos por Christophe Dejours. As autoras destacaram a importância de alguns dispositivos clínicos como a demanda, a elaboração e perlaboração, a construção de laços afetivos, a interpretação e a formação clínica. Também apresentaram outras dez condições delineadoras para os procedimentos da clínica: organização da pesquisa; construção e análise da demanda; instituição das regras de conduta do coletivo de pesquisa e do coletivo de supervisão; constituição do espaço da fala e da escuta; estruturação do memorial; restituição e deliberação; diário de campo e registro dos dados; supervisão; apresentação dos relatos e avaliação. Mendes e Araujo (2012) também criaram, para a análise dos dados coletados durante as sessões coletivas com os trabalhadores, a Análise Clínica do Trabalho (ACT), que é composta por três etapas: análise dos dispositivos clínicos, análise da psicodinâmica do trabalho e análise da mobilização do coletivo de trabalho.

Procedimentos de coleta e análise de dados

Em relação aos procedimentos, inicialmente foram selecionados pesquisadores que realizam seus estudos empíricos fundamentados na Psicodinâmica do Trabalho, vinculados aos grupos de duas universidades federais da região Norte: o Laboratório de Psicodinâmica do Trabalho (LAPSIC), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), e o Grupo de Pesquisa Trabalho e Emancipação: Coletivo de Pesquisa e Extensão, da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Posteriormente, foram escolhidos os pesquisadores que têm utilizado de outros dispositivos clínicos no modo de fazer a clínica do trabalho, vinculados aos grupos de pesquisa de duas universidades federais do estado do Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Como técnica de coleta de dados, foi realizada a entrevista semiestruturada, embasada no roteiro com questões relacionadas à prática clínica no âmbito da universidade. O roteiro foi estruturado da seguinte forma: a. instituição em que atua; b. tempo de atuação como professor(a) e pesquisador(a); c. quanto tempo faz escuta do trabalho, descrevendo a prática clínica do trabalho que realiza em sua instituição, como a prática clínica do trabalho se articula com a formação dos psicólogos e quais os desafios da prática clínica do trabalho no atual contexto de precarização crescente do mundo do trabalho.

As entrevistas ocorreram no período de maio a novembro de 2021, as quais foram gravadas pela plataforma Zoom, e, na sequência, ocorreu a transcrição das narrativas dos pesquisadores participantes, que assinaram um termo de consentimento livre esclarecido (TCLE) concordando com os termos da entrevista, autorizando o uso das informações coletadas e sua identificação para a produção científica. As entrevistas tiveram a duração de aproximadamente 1 hora e 15 minutos cada, contemplando as temáticas sobre a trajetória do pesquisador na prática clínica do trabalho e como é o fazer da clínica do trabalho na universidade.

Nos procedimentos de análise dos dados foram utilizados a análise das narrativas dos sujeitos no formato descritivo sobre as experiências com a clínica do trabalho na universidade, como ocorre a formação dos clínicos do trabalho, a construção do espaço da clínica na universidade e como é o processo de escuta clínica, as adaptações utilizadas no contexto e os desafios da prática clínica do trabalho.

Resultados

Serão apresentados os resultados das práticas clínicas analisadas de forma a demonstrar o saber-fazer clínico de cada pesquisador.

Saber-fazer na Universidade Federal do Tocantins

Participou da entrevista a Dra. Liliam Deisy Ghizoni, líder do coletivo de pesquisa e extensão Trabalho e Emancipação da UFT. Neste grupo, o viés é a escuta clínica das narrativas e o alinhamento com a clínica psicodinâmica do trabalho, conforme o prescrito de Dejours, seguindo as etapas: análise da demanda, formação dos clínicos e supervisão, coleta dos dados com os registros das falas; a transcrição para análise dos dados, a devolutiva e a avaliação do processo clínico três meses após a intervenção realizada. Em relação ao registro das sessões, os pesquisadores utilizam o diário de campo, a construção dos memoriais e os relatórios de sessões para a análise clínica e devolutiva das sessões. As pesquisas interventivas são realizadas pelos pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade.

O grupo de trabalho é um coletivo de pesquisadores que fazem parte dos projetos de pesquisa e extensão da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde a clínica acontece no contexto do trabalho ao qual a demanda emerge e os pesquisadores são mobilizados para a pesquisa-ação. Muitas demandas são advindas das instituições conveniadas como o Sindicato dos Trabalhadores. Para a prática clínica, o espaço é cedido pelo Sindicato, que organizava a parceria com outras instituições públicas e privadas para a realização dos encontros, a fim de que a escuta acontecesse.

No campus de Palmas não há um espaço adequado para a realização dos encontros coletivos para que o serviço seja realizado. O grupo de pesquisa divide o espaço físico com outros núcleos de pesquisa, não tendo divisórias, e não há um espaço de atendimento ao trabalhador. Alguns docentes e psicólogos se incorporam aos projetos de pesquisa do laboratório, mas não são vinculados formalmente. A instituição não tem meios de manter psicólogos e pesquisadores dedicados em tempo parcial ou integral para o serviço e pesquisas sobre trabalho.

No que tange às atividades de ensino e extensão com a abordagem da Psicologia do Trabalho, são ofertadas disciplinas eletivas e optativas para os alunos da graduação em Administração, que, nesses espaços, fomenta discussões sobre a saúde e o adoecimento no trabalho. No laboratório, são feitas escutas na perspectiva dejouriana, e a clínica é realizada na tentativa de se fazer um diálogo teórico entre a comunicação e os estudos da psicologia, com coletivos de trabalhadores, seguindo o processo metodológico proposto pela PdT, mas com todas as escutas dentro da estrutura dos sindicatos, em que cada participante aborda uma realidade de trabalho e compartilha suas questões subjetivas.

Segundo Ghizoni et al. (2015), a clínica psicodinâmica do trabalho caracteriza-se pela análise dos processos psíquicos mobilizados pelo encontro entre o sujeito e as imposições geradas pela organização do trabalho. Contudo, as práticas que sistematizam a metodologia em clínica do trabalho apresentam especificidades e singularidades, a depender da realidade sociocultural e institucional de cada categoria estudada.

Sobre os desafios das práticas clínicas do trabalho, a pesquisadora justifica que a psicodinâmica não atende às demandas como outrora. Por isso estão ocorrendo várias adaptações à própria metodologia dejouriana. Na dimensão teórica, a abordagem da psicodinâmica ou da psicanálise não atende aos questionamentos e às dificuldades do mundo contemporâneo, tendo em vista os atravessamentos provocados pelas adversidades do mundo do trabalho, e há a necessidade de aprofundamento da psicossociologia enquanto movimento de ação.

A questão a ser discutida no contexto da clínica é como trazer para a universidade o desmobilizado, ou seja, como escutar o sujeito adoecido que já desistiu de si e talvez não tenha consciência de seu processo de adoecimento, e como acessar os trabalhadores em situação de vulnerabilidade, para falar de sua organização ou sua trajetória profissional, a fim de que haja um mobilizar-se, um agir. Para a entrevistada, as adaptações brasileiras realizadas nos laboratórios de trabalho, subjetividade e práticas clínicas utilizam o aporte teórico da Psicodinâmica do Trabalho, mas têm apresentado outros dispositivos metodológicos que contribuem para o agir clínico.

Para Ghizoni et al. (2022), desenvolver a clínica do trabalho e da ação na realidade brasileira é sempre um desafio, haja vista uma distância irredutível entre o trabalho prescrito e o realizado, de tal forma que nem todos os procedimentos estão prescritos, e que demanda a mobilização dos pesquisadores para preencher as lacunas no real da clínica. Em seus estudos, há apontamentos para a necessidade de uma articulação com outros campos que contribuam para aprofundar o uso dos dispositivos de escuta.

Prática da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Participou da entrevista a Dra. Rosângela Dutra de Moraes, professora aposentada do Laboratório de Trabalho, Saúde e Subjetividade (LAPSIC). Nesse laboratório, todo o processo da clínica do trabalho se estruturava conforme o prescrito de Dejours, seguindo as etapas: análise da demanda, organização dos grupos e materiais, coleta dos dados dos participantes por meio de registros com gravadores, a degravação e transcrição para análise, o registro do diário de campo e a construção dos memoriais e relatórios de sessões até a análise das narrativas das verbalizações para a produção científica. Assim, os pesquisadores que aplicam a Psicodinâmica do Trabalho encontram grandes desafios no que tange à aplicação do método prescrito por Dejours e a Clínica do Trabalho e da Ação. Para Moraes et al. (2019), uma das grandes dificuldades diz respeito à demanda, que deve partir dos trabalhadores. Frequentemente, o uso desse método não é viável nas práticas clínicas da região Norte do Brasil, e quando há adaptações, busca-se preservar a essência da escuta clínica, recorrendo a diferentes técnicas, o que se constitui em um permanente desafio, com o risco de conduzir a impasses.

No LAPSIC, a clínica do trabalho acontecia conforme as demandas chegavam das organizações privadas ou públicas que eram parceiras da universidade. Os pesquisadores clínicos eram alunos de graduação ou pós-graduação, e, com a equipe de professores que faziam parte do grupo de pesquisa, as ações eram realizadas no contexto do trabalho no qual a demanda surgia.

Referente à formação dos clínicos, a pesquisa era supervisionada pelo pesquisador docente. Antes de integrar as equipes de pesquisa, todos os alunos cursavam a disciplina Psicodinâmica do Trabalho, que era oferecida na graduação e na pós-graduação. Aqueles que se interessavam pela área, faziam a disciplina, participavam dos encontros semanais do grupo, faziam o estágio básico e a monografia de final de curso com a linha de pesquisa sobre trabalho, subjetividade e saúde, realizando trabalho de campo, participando da observação clínica em campo, dando suporte com o gravador, escutando as entrevistas e auxiliando na degravação.

Para se trabalhar com a clínica, os pesquisadores têm que ter uma atitude de cooperação, desde o mobilizar-se nos encontros do grupo de pesquisa para estudar as bases teóricas e metodológicas, para os encontros presenciais das sessões clínicas, as análises das escutas transcritas e as produções científicas e acadêmicas até as supervisões coletivas, como estratégia para o saber-fazer ou inspiração para as próximas pesquisas.

(Rosângela Moraes)

Com a construção do espaço da clínica, os pesquisadores formavam uma cultura de sensibilização do sofrimento do trabalho, em que o LAPSIC realizava ações e parcerias com as instituições públicas e privadas, convidando os psicólogos dos institutos, como o Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST1), para favorecer o processo de acolhimento das demandas clínicas e desenvolvimento das pesquisas com os alunos estagiários da universidade no próprio espaço da instituição. Nesse laboratório, a maioria das demandas eram realizadas seguindo o prescrito de Dejours, no local da organização do trabalho ou nas instituições conveniadas para atender às demandas.

Em relação às adaptações no pressuposto metodológico, dispositivos clínicos foram articulados com a utilização de grupos de conversação, oficinas de grupo operativo com relatos clínicos e dinâmica de grupo como ponto de partida, além de palestras de sensibilização com os trabalhadores e episódios de “quebra de paredes” com o uso das oficinas de escuta do sofrimento no trabalho.

Nas sessões coletivas presenciais, as dinâmicas utilizadas permitiam uma escuta sensível e qualificada, em que o contato visual e gestual era essencial para se estabelecer o vínculo terapêutico. Outro dispositivo utilizado foi a escuta individual do sofrimento do trabalho a partir da articulação entre pressupostos da Psicodinâmica do Trabalho e da Psicoterapia Breve.

Um dos pontos apresentados sobre as dificuldades enfrentadas na clínica do trabalho é o fato de a demanda de escuta não chegar à universidade. Um aspecto desafiador é sensibilizar o trabalhador a falar de seu trabalho no espaço da universidade, tendo em vista que ele tem que ir ao espaço, pensar a respeito do seu trabalho e falar sobre o real do trabalhar e suas implicações em refletir e tentar mudar aquilo que o incomoda.

Sobre os desafios, a pesquisadora apresenta as dificuldades advindas das organizações em promover os espaços públicos de fala com os trabalhadores no contexto do trabalho. Nesse caso, o trabalho de promoção e divulgação da clínica e as parcerias com as instituições públicas e privadas são mecanismos de mobilização para fazer acontecer a clínica do trabalho no espaço das empresas, tendo em vista as dificuldades do trabalhador em se deslocar até a universidade.

Outro ponto apresentado se refere aos desafios do trabalho remoto que se apresentam para a realização da clínica na modalidade on-line. De acordo com a pesquisadora, perde-se na qualidade da escuta ativa, da interação e da avaliação dos sujeitos; contudo, ganha-se em relação ao deslocamento e logística que favorece a participação dos trabalhadores. Independente disso, mobilizar as empresas para a realização da clínica do trabalho tem sido o maior desafio. As organizações do trabalho estão cada vez mais resistentes ao processo clínico.

Saber-fazer da Universidade Federal Fluminense

Participou da entrevista a professora Dra. Soraya Rodrigues Martins, da UFF, Polo Rio das Ostras, que realizava a clínica do trabalho a partir das práticas de ensino e extensão, vinculada ao Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) do curso de Psicologia, no qual a pesquisadora desempenhou a função de coordenadora das práticas clínicas do trabalho, em que as sessões são feitas na modalidade individual e/ou em grupo, na medida em que a demanda emerge.

Os alunos da graduação, em estágio supervisionado, recebiam as demandas e realizavam as intervenções por meio de práticas de acolhimento, análise da demanda e encaminhamento para a intervenção no coletivo ou no individual. Quando o coletivo era formado, os pesquisadores utilizavam os dispositivos da clínica PdT, com a análise da demanda, formação dos clínicos, constituição do espaço coletivo de fala e escuta, a estruturação do memorial e diário de campo, registro e transcrição dos dados, os relatórios, os debates na supervisão e no grupo de pesquisa e extensão, a apresentação dos relatos aos participantes e a avaliação da pesquisa com os trabalhadores.

No serviço, as demandas coletivas ocorriam a partir de instituições conveniadas que ofereciam o atendimento clínico, por meio de projetos de pesquisa e intervenção, em que as demandas eram solicitadas pelas organizações, e, em casos de demandas espontâneas, os atendimentos eram realizados na modalidade individual. As demandas coletivas geralmente surgiam de parcerias com prefeituras ou solicitação de gestores de organizações, trabalhos nas escolas com encontros semanais no espaço da instituição e na criação dos espaços cedidos pela diretoria pedagógica.

Segundo Martins et al. (2021), as ações em clínicas ocorriam em diferentes coletivos, tais como profissionais da educação (rede municipal), trabalhadores vinculados à socioeducação, como o caso da unidade do Centro de Recursos Integrados ao Adolescente do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (CRIAAD)2, que recebe adolescentes em conflito com a lei em cumprimento de medidas socioeducativas; e estagiários em clínica médica (ambulatorial e hospitalar) do curso de nutrição da UFRJ/Macaé.

Nesse contexto, a clínica ocorreu seguindo a base teórica da psicanálise, da psicologia institucional e da psicodinâmica do trabalho. O serviço contava com uma equipe multidisciplinar, em que a escuta clínica do trabalho ocorria em formato de grupo operativo no processo interventivo, na dimensão da clínica ampliada com a perspectiva biopsicossocial para a compreensão do sujeito dentro do contexto e seus atravessamentos, ao se pensar na história singular, a história coletiva, a histórica, social, cultural, econômica dentro de uma escuta.

As escutas eram realizadas por graduandos de Psicologia em estágio supervisionado e atividade de extensão. O manejo clínico ocorreu com o acolhimento e a análise das demandas com a realização de visita no local, reuniões, entrevistas individuais, oficinas de escuta clínica e gestão de estresse com os servidores, escuta clínica dos servidores em sessões coletivas e em pequenos encontros e conversas apoiadas na intervenção institucional e a construção de espaços de escuta clínica qualificada para os participantes falarem sobre suas vivências relacionadas ao seu trabalho e aos problemas enfrentados.

A escuta clínica do trabalho se distingue com “a perspectiva do trabalho enquanto centralidade, e a escuta sensível e ativa sobre o trabalho é ter essa visão do trabalho como central na vida das pessoas, de como ele interfere na vida do sujeito e o trabalho interferindo nos modos de ser”. Na ótica da escuta ativa da subjetividade, a pesquisadora considera:

A escuta no individual é diferenciada na medida que pelo individual você escuta o coletivo, tendo em vista que em sua prática clínica é possível escutar o coletivo a partir da narrativa do “porta-voz” do sujeito, pois ao falar de si ele fala das relações e traz uma vivência coletiva, que sai de uma clínica individual para pensar numa clínica mais ampliada com o olhar da clínica do trabalho em que o trabalho entra como centralidade.

(Soraya Martins)

Em decorrência de sua formação psicanalítica, a pesquisadora se apropria de seu conhecimento e utiliza-se de adaptações no fazer a clínica usando recursos como seminários, oficinas de sensibilização, consciência corporal e destinos pulsionais por meio de narrativas no grupo. Em relação às metodologias adaptativas, o trabalho do grupo ocorre dentro de oficinas coletivas, numa perspectiva freireana. Em todas as intervenções clínicas, a escuta do trabalho é o norteador das sessões, e, nesse caso, as categorias dejourianas são utilizadas na análise dos mecanismos de estratégias defensivas e de enfrentamento, seja no individual ou no coletivo. Também se destaca a interface entre clínica e política como ação de resistência ético-política (Martins et al., 2021).

Segundo Martins (2021), o processo de escuta coletiva em grupo é desafiador, pois o espaço tem que ser no local de trabalho dos sujeitos, em decorrência das dificuldades de deslocamento e regularidade dos encontros semanais. Em alguns casos, o processo grupal ocorre quinzenalmente ou uma vez ao mês, tendo em vista a organização do trabalho. “A formação de grupo é difícil, pois precisa-se construir uma cultura de grupos para trabalhar com as demandas do coletivo”.

Outro desafio está na modalidade de fazer a clínica PdT acontecer, tendo em vista que, com o trabalho remoto, as ações foram adaptadas para o formato on-line, seja no coletivo ou no individual, a fim de que as demandas urgentes fossem atendidas em detrimento do sofrimento provocado pelas adversidades do mundo contemporâneo. Nessa dimensão do atendimento on-line, perde-se na relação ou no estabelecimento dos vínculos terapêuticos e, para além disso, a análise dos sujeitos na composição grupal, na análise corporal, na análise do silêncio no grupo, tendo em vista que a construção das narrativas no processo grupal não acontece somente nas falas, mas também no silêncio, nos olhares, nos sorrisos que compõem as narrativas do coletivo.

Por isso é importante criar o setting terapêutico on-line, no qual todos devem ligar a câmera, estar num espaço adequado para o processo clínico, um espaço sigiloso e confidencial e que não seja interrompida (Soraya Martins).

Saber-fazer da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Participou da entrevista o Dr. João Batista de Oliveira Ferreira, coordenador do Núcleo Trabalho Vivo – Pesquisas em Arte, Trabalho, Ações Coletivas e Clínica. O serviço da clínica do trabalho se consolida em duas áreas, ou seja, nesse contexto, existem duas grandes linhas de pesquisa, sendo uma vertente relacionada à saúde do trabalhador, que envolve atendimento clínico em clínicas escolas e abrange pesquisas de iniciação científica, monografias e trabalhos de mestrado e doutorado; e na outra vertente na clínica transversal, as práticas clínicas de movimentos sociais chamadas de poéticas políticas.

Na área de saúde dos trabalhadores há o estágio curricular de alunos da graduação na clínica escola, com atendimentos clínicos na abordagem transdisciplinar que dialoga com a Psicodinâmica do Trabalho.

Na dimensão da clínica do trabalho, o dispositivo clínico utilizado é a escuta qualificada do trabalhador. A Clínica é desenvolvida com base nas atividades e práticas do Núcleo Trabalho Vivo vinculado à Graduação em Psicologia e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia. As práticas clínicas da universidade integram estágios curriculares na clínica-escola da Divisão de Psicologia Aplicada (DPA), com a participação de graduandos de Psicologia (nos atendimentos) e de doutorandos e mestrandos nas supervisões clínicas coordenadas pelo professor orientador.

Para Ferreira et al. (2019), a clínica das formas de vida no trabalho é um dispositivo de pesquisa, experimentação e intervenção que busca mapear e problematizar situações de sofrimento e adoecimento no trabalho. As formas de existência e as formas de vida são fundamentais para orientar as pesquisas no mundo do trabalho. Assim, a clínica do trabalho, nas suas diversas formas de agir, procura ser um espaço micropolítico de afirmação da existência e do direito à vida digna. É necessário, então, juntar as forças e construir coletivos da vida contra a dominação, com mais encontros para a criação do comum, em um ato de criação pela vida em sua construção coletiva.

O dispositivo pluridisciplinar utilizado na Clínica do Trabalho é fundamentado no olhar das experiências do real, em que a dimensão mais importante é o trabalho, como também as formas de vida no trabalho e relacionadas a ele. Por esse fator, a clínica das formas de vida no trabalho, na qual o valor mais importante e fundamental para a construção social é a vida digna, e tudo aquilo que a ameaça a tem que ser colocado em questão, como forma de resistência (Martins et al., 2021).

Para Ferreira, em sua narrativa, as pessoas demonstram que estão adoecidas por questões que vão para além do trabalho, mas que em sua centralidade o trabalho é afetado. Em termos representativos, suas vivências e experiências são entrelaçadas com o trabalho. Nessa ótica, a clínica das formas de vida se apresenta de maneira transversal.

Toda a clínica é atravessada pelo próprio tempo, ou seja, pelo contemporâneo. No momento em que existe uma precarização das relações do trabalho, do mundo social em função de uma exacerbação do neoliberalismo, articular a clínica com esses espaços sociais econômicos e políticos com o mundo contemporâneo no contexto pandêmico torna-se essencial no ponto de vista de uma clínica que precisa afirmar direitos de existência, direitos humanos.

(João Ferreira)

No que tange às atividades de ensino na universidade, disciplinas de Psicodinâmica do Trabalho são oferecidas para a graduação, pensando o trabalho como uma dimensão psicossocial. Segundo o pesquisador, ele convida os alunos sobre o modo de trabalhar com a psicologia, que, por sua vez, devem aspirar à atividade laboral dos psicólogos para pensar numa psicologia do trabalho a partir do trabalho com a psicologia.

Na dimensão de projetos de extensão, a universidade apresenta diversas atividades com o curso de Psicologia, como as oficinas e práticas artísticas para pensar o trabalho com artistas como constituinte no trabalhar. Recentemente, foi apresentado o projeto de extensão com a clínica das emergências na favela da Babilônia, na cidade do Rio de Janeiro, sendo uma linha da clínica das formas de vida.

Neste projeto, o sujeito da pesquisa-ação aprende como essas pessoas que lidam com essas adversidades que não são poucas, e quais as estratégias que elas usam. E ao mesmo tempo, um espaço onde essas potências e forças destas pessoas possam se apropriar das suas forças, que elas já têm, mas que muitas vezes elas não percebem a força que têm, os saberes do vivido.

(João Ferreira)

Há uma equipe interdisciplinar de pesquisadores clínicos e coletivos de trabalhadores que participam de ações de mobilização e formação de grupos em redes de compartilhamento, para realizar atividades como rodas de conversa, apresentações, oficinas, performances, saraus e outras, com participação de estudantes, técnicos e docentes interessados nos eixos temáticos do projeto. Segundo Ferreira, os atendimentos clínicos são realizados por estudantes de Psicologia e com base nas abordagens da Esquizoanálise e da Clínica das Formas de Vida. A clínica do trabalho foi pensada inicialmente com grupos, mas sua prática não é realizada no ambiente do trabalho. Na realidade brasileira, não necessariamente se consegue chegar nas organizações do trabalho e fazer escuta do sofrimento.

Outra questão é o trabalhador ter acesso à clínica, seja no presencial ou remoto. A questão é acolher o trabalhador e realizar uma clínica, seja no individual ou no coletivo, independentemente do método. Na verdade, a escuta clínica nunca é individual, por que um grupo de dois já é um grupo, e cada pessoa forma uma multidão. E ela ter espaço para falar dessa multidão que cada um tem, inclusive como potência e forças de transformação, é algo de extrema relevância e condição da pessoa perceber que ela já faz muitas coisas para enfrentar isso e às vezes ela está desvalorizada socialmente.

(João Ferreira)

Na concepção do entrevistado, na dimensão da pesquisa e intervenção, a clínica do trabalho ocorre na experimentação de cada situação em que a demanda acontece e com base nesses sentidos, do cuidado e de atenção às formas de vida, ou seja, nos princípios do sentido do real a partir daquilo que vai surgindo da escuta.

Se o real for respeitado, não há problema de fazer uma escuta fora da organização do trabalho. O mais importante é escutar os(as) trabalhadores(as) em situações de sofrimento, acolher essas pessoas e tanto quanto possível construir com elas um espaço para que elas possam fazer isso e possam se apropriar de sua própria condição de enfrentamento.

(João Ferreira)

Na perspectiva da experiência, o pesquisador apresenta um olhar crítico sobre o modo de fazer a clínica do trabalho em vários espaços em que a subjetividade pode ser dialogada, compartilhada e acessada pelos clínicos. Ainda, de acordo com o pesquisador, na dinâmica da clínica, o trabalhador encontra meios de refletir e pensar sobre a organização do trabalho e o modo de trabalhar, independentemente do local em que a clínica acontece.

No espaço da clínica, o(a) trabalhador(a) pode perceber sua potência de agir no coletivo quando percebe que ele(a) faz muitas coisas extraordinárias de enfrentamento como força vital. Neste espaço de acolhida, de escuta ativa e reconhecimento há uma potência do Ser ao mobilizar sentidos na concepção de Spinoza sobre o poder de existir. Fazer o trabalho com populações em situações de vulnerabilidade é ainda mais deixar que esse real aponte os caminhos da clínica.

(João Ferreira)

No quesito desafios da clínica do trabalho na universidade, Ferreira problematizou a questão sobre “o fazer” a clínica, tendo a temática trabalho em sua centralidade, e não necessariamente a ocorrência de um prescrito para o processo acontecer, conforme a clínica da PdT. A escuta deve acontecer para além das paredes da universidade, ou seja, nos espaços da comunidade, no contexto no qual o trabalhador vivencia seus dramas e sua forma de vida.

Discussão

Sobre as diversas formas de se fazer a clínica do trabalho na universidade, há que se pensar na organização do agir clínico e nas análises das situações de trabalho para a compreensão dos processos de tensionamentos entre produção e negação da vida, tendo em vista a compreensão do trabalho como ação constituinte das formas de vida ética e politicamente qualificadas (Ferreira et al., 2019).

A clínica do trabalho inicia-se na formação dos grupos de pesquisa no contexto acadêmico, em que o professor/orientador responsável pelo grupo recebe os alunos da iniciação científica, da graduação, da pós-graduação, egressos e pesquisadores, organizando os encontros para discutir as temáticas que compõem a abordagem da Psicodinâmica do trabalho.

No Brasil, comumente, a demanda não parte dos trabalhadores, mas são os pesquisadores que provocam a demanda para o serviço acontecer. Raras são as exceções em que as pesquisas seguem o prescrito da clínica PdT quando a demanda chega à universidade pela gestão de saúde do trabalho das empresas públicas ou privadas conveniadas. Nesse caso, os pesquisadores precisam mobilizar instituições, organizações não governamentais, tais como sindicatos, cooperativas, associações e trabalhadores para a construção de coletivos de escuta para a promoção de saúde no trabalho (Ghizoni et al., 2022; Moraes et al., 2019).

No processo de escuta, o fazer clínico na universidade acontece por meio da ação dos alunos da graduação e da pós-graduação. Esse serviço ocorre desde o processo de divulgação e recebimento do trabalhador, do acolhimento, da análise da demanda, no registro e transcrição das gravações, na construção dos memoriais até a produção dos relatórios (Moraes et al., 2019).

O processo de agir clínico desenvolve-se no coletivo com encontros presenciais ou on-line. Alguns laboratórios utilizam adaptações metodológicas com o uso de dinâmicas de grupo, oficinas e práticas artísticas para a construção dos laços afetivos e da constituição do espaço de fala e de escuta. Em outros laboratórios, as escutas ocorrem numa dimensão ampliada, seja individual, coletiva ou grupal, em espaços da universidade, na organização do trabalho ou na comunidade na qual o trabalhador se encontra.

A distância entre o prescrito e o real, evidenciada neste estudo, também está presente no fazer dos pesquisadores, demandando mobilização e criação de alternativas adequadas a cada realidade, para além do saber-fazer a clínica do trabalho nas empresas. O espaço de liberdade e de ação da clínica do trabalho no contexto da universidade permite criar, ousar e o saber-fazer a escuta para além das paredes, sendo os trabalhadores reconhecidos por sua atitude proativa, criativa e inventiva. A partir dos laços de confiança, diálogo e discussões novos modos de mobilização e enfrentamentos são construídos, transformando o sofrimento patogênico em criativo, evidenciando a potência de ser (Bendassoli & Soboll, 2011; Dejours, 2013; Freitas, 2018; Mendes & Araujo, 2012; Sznelwar, 2015).

Isto posto, compreender os modos de se fazer a clínica do trabalho nos espaços abertos fomentados pela universidade se faz necessário para criar um serviço que atenda à comunidade em busca de saúde no trabalho. Assim, as escutas do sofrimento no trabalho devem acontecer nos espaços públicos de discussão, nas ruas, nos jardins, nas calçadas, nas vias públicas e nas comunidades em que os trabalhadores se encontram.

Considerações finais

Portanto, para que a clínica do trabalho funcione como prática no âmbito da universidade, seja no contexto das instituições públicas ou privadas, o mais indicado para a realização da escuta é a organização de um corpo docente efetivo da universidade que faça parte do laboratório de pesquisa sobre trabalho, o qual possibilita um planejamento de médio e longo prazo para o fomento do ensino, pesquisa e extensão nessa dimensão. Ter um grupo de pesquisadores dedicados ao projeto e um espaço apropriado para o atendimento clínico é essencial para que o processo seja organizado e o serviço seja ofertado. É no processo cooperativo que professores, alunos, pesquisadores e egressos da universidade se incorporam na causa do trabalho, e é no movimento do pensar e agir que a clínica acontece como expressão de diálogo e liberdade para o pensar, sentir e agir em cooperação, a fim de que a práxis no coletivo potencialize a mobilização subjetiva e a potência de ser.

Nessa perspectiva, a escuta suscita possibilidades de luta e formas de enfrentamento, em que pese o sofrimento no trabalho diante dos conflitos, que com a práxis, essencialmente política, possibilita a transformação das situações de trabalho em ações coletivas de resistência e enfrentamento frente ao risco de adoecimento psíquico e social (Freitas, 2018).

À guisa de conclusão, a proposta do espaço público de fala e escuta no âmbito da universidade é criar uma cultura de sensibilização quanto ao sofrimento do trabalho e ofertar um serviço de atenção psicossocial para o trabalhador, levando-se em consideração o medo dos trabalhadores em falar sobre suas queixas individuais e dialogar a respeito disso no contexto do trabalho, e, a partir dessa questão, pensar em práticas clínicas dentro das comunidades. Esse olhar é o que mobiliza os pesquisadores no modo de ser e agir e postula um movimento coletivo, por meio da criação de grupos de pesquisa no âmbito da universidade.

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2CRIAAD-DEGASE/Macaé – abriga menores em conflito com a lei, em regime semiaberto.

Recebido: 17 de Julho de 2022; Aceito: 15 de Março de 2024; Revisado: 05 de Outubro de 2023

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