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Revista Psicologia Política

On-line version ISSN 2175-1390

Rev. psicol. polít. vol.24  São Paulo  2024  Epub Aug 23, 2024

https://doi.org/10.5935/2175-1390.v24e24466 

Dossiê Psicologia e Políticas da Deficiência: Ativismos, aleijamentos e a luta anticapacitista - Artigo

PSICÓLOGAS BILÍNGUES EM PORTUGUÊS/LIBRAS: HISTÓRIAS PARA INSPIRAR E (IN)FORMAR

Psicólogas bilingües en portugués/libras: historias para inspirar y (in)formar

Bilingual psychologists in portuguese/libras: stories to inspire and (in)form

LUCILA LIMA DA SILVA1  , Concepção, Análise de dados, Elaboração do manuscrito, Revisões críticas de conteúdo intelectual importante, Aprovação final do manuscrito
http://orcid.org/0000-0001-7320-9188

INGRID MOURA BARROSO RODRIGUES2  , Análise de dados, Elaboração do manuscrito, Revisões críticas de conteúdo intelectual importante, Aprovação final do manuscrito
http://orcid.org/0000-0001-8919-1007

1Orcid ID: 0000-0001-7320-9188 E-mail: lulima_psi@yahoo.com.br Doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Psicóloga Escolar no Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES).

2Orcid ID: 0000-0001-8919-1007 E-mail: ingridmoura_psicologia@yahoo.com.br Doutoranda em Psicologia na Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestra em Diversidade e Inclusão pela Universidade Federal Fluminense.


RESUMO

Esse artigo tem como objetivo trazer contribuições para profissionais e estudantes de Psicologia que buscam formar-se como bilíngue em Português / Língua Brasileira de Sinais. A partir da narrativa das experiências das duas autoras, levantamos os pontos que entendemos como principais para a atuação com a comunidade surda sinalizante ou bilíngue. Apostamos na potência do encontro com a diferença para a atuação com as pessoas surdas, na busca da construção de um mundo comum. Nossas narrativas vêm para esse artigo não como anedotas, mas como histórias únicas que podem se conectar com outras histórias, e nesse movimento o pessoal se faz político. Esperamos, com isso, que profissionais ou futuras profissionais de psicologia bilíngues possam se sentir inspiradas e menos solitárias nos seus processos de formação e atuação.

Palavras-chave: Psicologia Bilíngue; Formação; Surdos; Narrativas; Encontro

RESUMEN

Este artículo tiene como objetivo traer aportes a profesionales y estudiantes de Psicología que buscan ser bilingües en portugués / lengua de signos brasileña. A partir de la narración de las experiencias de las autoras, planteamos los puntos que entendemos como principales para trabajar con la comunidad sorda que usa la señalización o bilingüe. Creemos en el poder del encuentro de las diferencias trabajar con personas sordas, en la búsqueda de la construcción de un mundo común. Nuestras narrativas llegan a este artículo no como anécdotas, sino como historias únicas que pueden conectarse con otras historias, y en este movimiento lo personal se vuelve político. Con esto esperamos que las profesionales o futuras profesionales bilingües de la psicología puedan sentirse inspiradas y menos solas en sus procesos de formación y desempeño.

Palabras clave Psicología Bilingüe; Formación; Sordo; Narrativas; Encuentro

ABSTRACT

This article aims to bring contributions to Psychology professionals and students who seek to become bilingual in Portuguese / Brazilian Sign Language. Based on the narrative from the experiences of the two authors, we raised the points that we understand as main points for working with the deaf-signing or bilingual community. We believe in the power of encountering differences in working with deaf people, in the search for the construction of a common world. Our narratives come to this article not as anecdotes, but as unique stories that can connect with other stories, and in this movement the personal becomes political. With this, we hope that bilingual psychology professionals or future professionals can feel inspired and less lonely in their training and performance processes.

Keywords Bilingual Psychology; Training; Deaf; Narratives; Encounter

INTRODUÇÃO

O que vem na sua cabeça quando você lê a palavra política? Bem sabemos que política não se encerra nas dinâmicas partidárias, tampouco na disputa entre direita e esquerda. Entendemos aqui que as práticas psicológicas, incluindo as de pesquisa e escrita, também são gestos políticos à medida que modulam mundos e constroem realidades. “Não uma realidade genérica, abstrata ou universal, mas sim local, específica, que visibiliza e possibilita diferentes modos de existência” (Oliveira & Silva, 2020). Nossos posicionamentos, nossos atos cotidianos, e a forma como os narramos são movimentos políticos. De tal modo, os caminhos que adentramos na nossa formação profissional, como psicólogas, o público que atendemos, as intervenções que fazemos são permeados de histórias e afetos. Não há neutralidade nesse processo. Defendemos o viés que convoca a psicóloga1 a ser com o outro, que é um modo de pensar a psicologia bilíngue com ênfase em Português e Língua Brasileira de Sinais (Libras) muito além do eixo comunicacional, com atuação entrelaçada ao paciente como um ser biopsicossocial e espiritual, levando em conta os diversos aspectos que permeiam a vida das pessoas surdas. Explicitamos que aqui falaremos especificamente a partir do encontro com as pessoas surdas sinalizantes e/ou bilíngues2, ainda que reconhecendo que há diversas formas de se constituir e se viver como uma pessoa surda - que se constituem a partir de suas experiências com a comunidade surda e com a comunidade ouvinte, oralizando, sinalizando, fazendo uso ou não de tecnologias reabilitadoras3 - e entendemos que todas as formas de se ser surdo são igualmente válidas e nenhuma é hierarquicamente superior à outra.

Nossos caminhos, das duas autoras deste artigo, se cruzam na experiência de sermos psicólogas bilíngues. As experiências particulares e singulares de cada uma deram base para uma atuação profissional com maior foco e dedicação a partir das nossas vivências. Tais experiências por vezes se conectam e outras se diferenciam. Optamos por marcar nossas histórias e vivências singulares - narradas a partir de memórias ou diários de campo (DC) - em itálico e com referência indicando a autoria e o ano do registro. De tal forma, esse artigo escrito à 4 mãos é conjugado ora na primeira pessoa do plural, ora na primeira pessoa do singular.

Chamamos aqui de Psicologia Bilíngue a atuação psicológica a partir de referenciais do campo dos Estudos Surdos, pautados no olhar para a população surda com suas formas diversas de subjetivação, e uma escuta que se constrói com o entendimento da surdez não como falta, mas como uma forma diferenciada de experimentar o mundo a partir da centralidade de outros sentidos que não a audição. Entendemos que isso se dá singularmente para cada pessoa, mas há algo que atravessa esses processos de subjetivação: o uso ou não de tecnologias reabilitadoras; o encontro com os pares na comunidade surda; a constituição de uma cultura surda e seus artefatos (Strobel, 2008a); o uso de tecnologias visuais; e especialmente a língua de sinais, pautada na visualidade e na possibilidade de expressar-se através das mãos, do corpo e do espaço, e de receber a comunicação através da visão e do tato (no caso das pessoas surdocegas). Compreendemos, assim, que a Psicologia Bilíngue não se limita à, mas tem como base a língua de sinais, especificamente a Libras no nosso caso, com o foco no atendimento psicológico em Libras/Português, contribuindo para a garantia do acesso de pessoas surdas sinalizantes e/ou bilíngues a todos os serviços prestados pelos profissionais desta categoria.

Este campo não nos parece consolidado na Psicologia brasileira. Bem sabemos que a própria nomenclatura - Psicologia Bilíngue - ainda está aberta para discussão, porém por hora é o que temos encontrado para nos dirigirmos ao nosso campo de atuação. Em junho de 2018 o termo foi proposto e debatido em São Paulo no primeiro (e até então único) Congresso Nacional de Psicologia Bilíngue, organizado por profissionais bilíngues - falantes de português e Libras. Nos parece um momento que marca a articulação de profissionais da psicologia que atendem ou desejam atender pessoas surdas em diferentes espaços - clínica, hospitais, escolas, por exemplo.

Cabe apontar uma observação pertinente sobre o termo Psicologia Bilíngue: em uma sociedade colonialista e capacitista, o termo bilíngue faz remeter ao bilinguismo de línguas orais, especialmente uma delas sendo o inglês. Sendo assim, podemos pensar que usar a ideia de Psicologia Bilíngue e pensar o bilinguismo a partir dos Estudos Surdos e da educação bilíngue para surdos (que preconiza a Libras e o português na modalidade escrita como línguas de instrução) pode ser subversivo contra a hegemonia vigente. Tal argumento pode ser melhor desenvolvido em trabalhos futuros.

Até o momento, na área de Psicologia, temos poucas pesquisas que consolidam esse termo, porém em geral os profissionais já o utilizam com a intenção de propagá-lo, e com ele, as propostas éticas e metodológicas de atendimento à pessoa surda que podem vir agregadas. A produção de artigos e livros sobre a atuação de profissionais de psicologia bilíngues também é escassa no país. Na maioria dos cursos de Psicologia não há discussão específica sobre o atendimento à pessoa surda. Esbarramos com algumas disciplinas que abordam o atendimento da pessoa com deficiência, mas os relatos dos estudantes e dos profissionais com os quais nos encontramos geralmente vem acompanhado da queixa da falta de informações para o atendimento de tal população na graduação. A Libras, por exemplo, não é uma disciplina geralmente incluída na grade da formação em Psicologia, sendo oferecida apenas como matéria optativa em algumas faculdades e universidades.

Essas observações se dão a partir dos nossos percursos como psicólogas ouvintes bilíngues - uma de nós desde 2013, e uma de nós desde 2016 - nas diversas frentes de atuação que exercemos, bem como na nossa inserção na comunidade surda: como psicóloga escolar, psicólogas clínicas, intérpretes de língua de sinais, familiar e amigas de pessoas surdas, professora de cursos complementares de formação em psicologia, palestrantes em cursos de graduação diversos e também em outros eventos fora deles.

Diante desse cenário, escrevemos esse artigo contando nossas experiências pessoais, nossos trajetos para nos formarmos como psicólogas ouvintes bilíngues e atendermos pessoas surdas, com o objetivo de contribuir com a formação de mais profissionais ouvintes que desejem atuar junto à população surda. Buscamos, de fato, dialogar com a classe de profissionais de Psicologia, em especial nossos pares ouvintes, sobre a importância do domínio da Libras e entendimento sobre a cultura surda para acessibilidade e inclusão da comunidade surda. Dessa forma, intentamos disponibilizar o conhecimento que nós mesmas encontramos dificuldade em acessar, tanto pelo formato tradicional da academia quanto por conta própria. Esse artigo apresenta parcialmente os rumos que seguimos para construir (nunca sozinhas) esse conhecimento.

Apostamos em contar nossas histórias pessoais entendendo que o pessoal é político na medida em que “estes pedaços de história façam sentido para os outros. . . . Poder sentir e dizer junto: ‘isso importa’.” (Despret & Stengers, 2011, p. 31)4. Dessa maneira, não são histórias para ilustrar uma atuação, nem modelos de quais são as formas certas e erradas de se atuar, e sim nossas histórias intentam provocar conexões e reflexões que possam se desdobrar em práticas e ações. Partindo do micro para o macro, emprestando nossas lentes para que o outro possa ter acesso a um outro ponto de vista sobre determinado aspecto e, quem sabe, provocar deslocamentos em sua atuação profissional. Tal metodologia vem sendo usada por uma de nós nos últimos anos (Oliveira & Silva, 2020; Silva, 2018; Silva & Moraes, 2019).

Neste artigo, após nos localizarmos como ouvintes na comunidade surda, e refletirmos sobre esse lugar, contamos nossas experiências em subtópicos, desde nossos primeiros contatos com pessoas surdas e entrada na comunidade surda até nosso desenvolvimento profissional. A cada subtópico, levantamos alguns ecos e reverberações que essas histórias nos trazem, articuladas com autores e autoras que conversam com nosso campo. Por fim, apontamos algumas pistas que recolhemos nos nossos trajetos, a fim de colaborar com a formação de mais profissionais de psicologia que despertam o interesse nessa área.

O LUGAR DE PSICÓLOGAS OUVINTES NA COMUNIDADE SURDA

Um ponto de partida importante é nos localizarmos enquanto psicólogas ouvintes na comunidade surda. Muitas vezes marcamos aquilo que chamamos de outro, naturalizando uma hegemonia social. Assim, marcamos a pessoa surda, e esquecemos que ser ouvinte também é uma marca, também é uma forma de inscrever-se no mundo. Nós, ouvintes, falamos daquele amigo surdo, ou daquela professora surda. Mas qual o propósito de trazer essa marca na fala? E porque quando o amigo ou a professora é ouvinte, não aparece caracterizado, da mesma forma?

Para além de repetir a pergunta recorrente na comunidade surda: você é surdo ou ouvinte? - que muitas vezes diferencia para hierarquizar posições e corpos - queremos aqui trazer um pouco da complexidade de ser ouvinte inseridas na comunidade surda. O que implica pesquisar com uma população que tem no corpo uma marca evidentemente distinta da nossa? Qual nosso lugar de ouvinte nessa comunidade? Como ser ouvinte na comunidade surda também nos marca? O que levamos adiante com essa marca?

Quando falo em marca, lembro que certa feita uma ilustre profissional e sensível amiga, na época Mestra, hoje Doutoranda Luciane Rangel, e que também é surda, me colocou nessa posição que foi um momento decisivo em minha vida para o início da minha trajetória como psicóloga bilíngue (Português/Libras). Após convite feito por ela para eu ministrar uma aula sobre atendimento à comunidade surda, em uma universidade em que Luciane é docente e, ao fim do evento, ao conversarmos, ela perguntou por que eu ainda não estava divulgando meus serviços como psicóloga para os surdos e eu expliquei que estava esperando um pouco mais de segurança para avançar nesse sentido. E ela, com muita precisão, direto ao ponto, olhou nos meus olhos e respondeu:

- O que você está esperando? Pode começar a se divulgar como psicóloga bilíngue, agora! Você é ouvinte, mas tem alma surda.

Nesse momento, a emoção tomou conta de mim e eu cheguei em casa já trabalhando no novo projeto de divulgação para atender surdos, de fato. Como foi importante essa confirmação, essa marca. Para mim, até hoje, é muito significativo, pois foi quando iniciei como profissional bilíngue, com a certeza de que estava pronta não para eles mas, sim, com eles. E esse sentimento me impulsionou ainda mais a continuar me aprimorando e desenvolvendo nessa área, onde pude descobrir que além de psicóloga poderia explorar outros campos de atuação como usuária da Língua. Agradeço a todos os amigos da comunidade surda por darem cada feedback, validando-me a cada dia como a profissional bilíngue que sempre me esforcei e sempre me esforçarei para ser (DC, Rodrigues, 2016)

No trabalho e na pesquisa, no interesse em estar com os surdos, temos que operar modulações em nós, ouvintes. Recebemos um sinal, aprendemos Libras, conhecemos a ideia de cultura surda, participamos da comunidade surda, militamos pela inclusão social dos surdos e pela disseminação da língua de sinais. A disponibilidade para o encontro com o outro produz mudanças em nós e há algum nível de mistura, mas não gera um campo de igualdade. Isso não implica nem tem como efeito o apagamento de nossas marcas.

Ser reconhecida como uma ouvinte de alma surda gerou naquele momento uma validação, um afeto que possibilitou e impulsionou o início de um trabalho nessa comunidade. E em outro momento, pode voltar como uma interpelação: ter alma surda não significa ser surda de fato, e não nos isenta do privilégio de sermos ouvintes no mundo que vivemos, onde prevalece a corponormatividade, “um ideal de corpo apto, fisicamente capaz, sem lesão ou impedimento” (Mello, 2016, p. 3266). A comunidade surda vem discutindo sobre o Privilégio Ouvinte nos últimos anos, como podemos ver em alguns perfis nas redes sociais (Castilho, 2020a, 2020b; Diversilibras, 2020; Ferreira, 2020a, 2020b, 2020c, 2020d, 2020e). Principalmente quando somos parte da população inserida na norma hegemônica – e por isso mesmo tidos como não-marcados – é relevante reconhecermos nossas marcas, o que possibilita sustentar as diferenças. Reconhecer minhas marcas não é dar caráter determinístico a elas, mas antes com elas e a partir delas tecer outras relações com a vida. Outra vida, portanto.

De modo que, se nossas marcas não se apagam – não deixaremos de ser ouvintes, não somos quase-surdas – ainda assim no reconhecimento delas podemos operar deslocamentos em nós, construir um corpo outro, e estar de modo diferente tanto no encontro com surdos quanto no encontro com os ouvintes.

Estar na comunidade surda tem um efeito interessante, parece afetar não apenas a mim, mas a outros com quem convivo e a quem eu levo histórias sobre meus encontros com a surdez: passei a ver (e passaram a me contar de) muito mais surdos ao redor. A surdez passou a me convocar em diferentes espaços. E várias pessoas agora, após contato comigo (com este meu ‘migo’, esse eu que vivencia e fala muito sobre surdez e Libras), começam a se sentir convocadas pela surdez também. A ponto que uma amiga chegou a me dizer: tá com mais surdo na rua hoje em dia, né?

Prestávamos, agora, mais atenção à existência de surdos. De repente o mundo estava povoado de surdos como eu nunca vi antes. Nós (eu e essas várias pessoas que têm contato com meu pezinho neste campo) passamos a ser fisgados pelos surdos e pela surdez. Tenho notícias disso à medida que as pessoas me vêem como referência para contar qualquer “causo” que aconteça no encontro delas com algum surdo, com a surdez, seja como personagem ou como espectadores. Além disso, quando as pessoas descobrem que eu sei Libras, normalmente têm uma reação de interesse, dizem que gostariam de estudar essa língua também, e pedem que eu ensine alguns sinais. (DC, Silva, 2017)

Não só nossas falas, mas nossas escritas parecem ter também este efeito. Algumas pessoas ouvintes que nos leem, nos contam em seguida de seus encontros com a surdez. Tais encontros pareciam a elas (e a nós) tão esporádicos e, de repente, são tão frequentes, que vamos nos dando conta que “a presença do povo surdo é tão antiga quanto a humanidade. Sempre existiram surdos. O que acontece, porém, é que nos diferentes momentos históricos nem sempre eles foram respeitados em suas diferenças ou mesmo reconhecidos como seres humanos.” (Strobel, 2008b, p. 42). Com efeito, passamos a notar quantas vezes a falta de interesse, de informação ou de atenção e respeito às diferenças refletiram na invisibilidade das pessoas surdas. Do mesmo modo, percebemos que nosso próprio movimento de buscar e divulgar informações e experiências com a comunidade surda nos torna aliadas à luta das pessoas surdas pela possibilidade de existência e ocupação de mais diversos espaços e relações.

Quando você volta só para o encontro entre os ouvintes, ainda que não tenha nenhum surdo, existe alguma coisa da surdez que tá ali. Que tá com você, na verdade. Então se a gente tá discutindo. . ., sei lá, o edital, prova de língua, tem alguém ali, você que tá ali, para estranhar: “pera lá, mas se chegar um surdo, qual a língua do surdo?” Entendeu? É isso que eu tô querendo dizer. Ainda que não tenha um surdo, tem uma marca da surdez que te atingiu de alguma maneira, ainda que você continue ouvinte. (DC, Silva, 2017 - registro de uma fala em orientação da professora e orientadora de mestrado e doutorado Marcia Moraes).

Assim, ainda que não sejamos surdas, somos marcadas pela surdez, de algum modo. Não à toa as pessoas nos trazem histórias de encontros com surdos. E essa marca se transmite, em certo grau, porque as pessoas passam a ser afetadas pela surdez de modo diferente. Nós levamos essa marca adiante. A partir dela e com ela tornamo-nos ativistas por um mundo mais plural e comum, que seja menos centrado de modo tão hegemônico na audição. Que possa incluir outras sensorialidades e outros sentidos.

EXPERIÊNCIAS

ENTRADA NA COMUNIDADE SURDA

De acordo com um autor desconhecido, “O ser surdo está presente como sinal e marca de uma diferença, de uma cultura e de uma alteridade que não equivale à dos ouvintes.” Entendi que era algo muito mais complexo do que somente dominar mais uma Língua e sim me entregar ao outro em sua expectativa, ao novo do outro. Tudo começou com um cumprimento feito com as mãos de forma visual e, a seguir, outro sinal, mais um sinal. A partir das mãos de minha prima surda foi-me apresentada a Libras, com aproximadamente 8 anos de idade.

Apesar de eu ainda não dominar a Língua, criávamos estratégias para nos comunicar. Quanto mais o tempo ia passando, mais curiosa e encantada eu ficava, porém como ainda era criança não tinha autonomia para buscar cursos e aprendizado da Libras. Já na adolescência - com o advento da internet, que ainda era discada - tive acesso a cursos bem simples e básicos como Introdução da Língua. Entretanto, ainda não era suficiente.

O tempo foi passando e eu percebia que a minha prima não tinha diálogos de qualidade com nossos parentes e,e m mais uma festa de família, ela desabafou, com o auxílio de seu irmão, me contou que já estava cansada de fingir: fingir que entendia as conversas, que achava graça das piadas que nunca entendeu, que estava satisfeita com aquela situação. E eu falei: Um dia eu serei fluente em Libras e vamos conversar e rirmos bastante sem ninguém entender! E hoje minha prima tem orgulho em me indicar como profissional bilíngue. Mas meu desenvolvimento não parou por aí. Até hoje, prossigo conhecendo novas pessoas, fazendo novos cursos e enfrentando muitos desafios como docente, psicóloga bilíngue e intérprete. O mais importante foi perceber como a teoria está muito aquém da prática e pude vislumbrar que esse era o ponto onde eu tinha que focar, desenvolvendo-me cada dia mais, principalmente no contato com cada pessoa, cada família, cada profissional bilíngue e intérprete, que é o que nos faz ser comunidade surda. (DC, Rodrigues, 2014)

Sou psicóloga em uma escola pública bilíngue para surdos desde maio de 2013. A partir de minha chegada ali como trabalhadora, entrei em contato com a comunidade surda, com a Libras e com a cultura surda.

Entrei nessa escola pela primeira vez na ocasião em que fui entregar documentos para a posse da vaga de psicóloga. Eu havia passado em um tão desejado concurso público para trabalhar em uma escola, conforme meus planos de construir uma carreira de psicóloga escolar. Imaginava uma escola parecida com as que eu conheci durante minha vida escolar, acadêmica e profissional.

Caminhando até meu destino, a sala dos recursos humanos, ouvi a algazarra dos alunos no pátio. Quem disse que a surdez é um mundo de silêncio? Esbarrei ainda com alguns que conversavam tão rápido com as mãos que logo percebi que o alfabeto que aprendi com a Xuxa pouco me ajudaria ali. Senti que estava entrando em um mundo diferente. O que eu precisava para habitar esse novo mundo?

Aos poucos a percepção de mundo diferente se materializou com as falas sobre o mundo surdo. O que no início foi um impacto tornou-se um incômodo: se há um mundo surdo, isso significa que há um mundo ouvinte? Porque insistimos em separar os vários mundos? (Excertos da dissertação, Silva, 2018)

Apesar de todos os percalços que podemos esbarrar no caminho de nos tornarmos psicólogas bilíngues, podemos destacar a felicidade de ter encontrado o que estávamos procurando, o que tanto almejávamos para a vida profissional. Uma sensação de, não exatamente completude, mas preenchimento. A sensação de estar exatamente onde deveríamos estar. E de poder ser feliz com a vida profissional. Perceber que é possível fazer o que se gosta, ter prazer com o trabalho. E isso nos movimenta a estar sempre em busca de novidades, aprendizados e deslocamentos, em um tom de curiosidade tal qual a que se refere Michel Foucault na introdução do livro História da sexualidade 2 – o uso dos prazeres:

É a curiosidade — em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que procura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece? Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir. (Foucault, 1998, p. 12)

É esse tipo de curiosidade que buscamos mobilizar - através das narrativas das nossas experiências - em quem agora nos lê, para que possa iniciar ou dar continuidade em seus estudos, práticas e aprofundamentos. Para isso, é vital o entendimento sobre o contexto da comunidade e cultura surda e o contato com as pessoas surdas.

A comunidade surda é composta por pessoas surdas e ouvintes com vínculos simbólicos, interesses comuns e propostas coletivas, além de terem por base o paradigma da surdez enquanto diferença cultural e linguística. Alguns autores rejeitam a ideia de comunidade surda, preferindo a expressão mundo surdo, restringindo-o apenas àqueles que usam a língua de sinais e se identificam com a cultura surda. Karin Strobel (2008a) compartilha da ideia de comunidade surda, mas diferencia esta ideia do conceito de povo surdo, pessoas surdas que, ainda que não ocupem o mesmo espaço geográfico, “estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução linguística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços” (p. 31).

A cultura surda apresenta-se como um modo próprio do surdo de ver e agir o mundo, com diversas produções, “a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando-os com as suas percepções visuais … . Isso significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo” (Strobel, 2008a, p. 24). Nesse livro, Strobel apresenta e discorre, então, sobre alguns artefatos da cultura surda: a experiência visual; a língua de sinais; o artefato familiar (relação com a família, surda ou ouvinte); a literatura surda; a vida social e esportiva; as artes visuais; a política (movimentos e lutas do povo surdo); os materiais (instrumentos tecnológicos próprios para acessibilidade).

Nesse contexto, muitas pessoas chegam até nós perguntando: e como ter contato com a comunidade e com pessoas surdas? Pragmaticamente indicamos: fazer cursos de Libras, prioritariamente com professores surdos, online ou presencialmente; participar de eventos da comunidade surda, como acontecem com mais frequência no mês do orgulho surdo, em Setembro; acompanhar palestras, lives e apresentações observando os intérpretes de língua de sinais para se familiarizar com a língua; seguir surdos e pessoas sinalizantes nas redes sociais como Instagram e YouTube, escolhendo as áreas que você mais tem afinidade (artes, slam do corpo, maternidade, relacionamento, vocabulário em Libras, culinária, saúde, educação). E principalmente ter vontade de estar com as pessoas surdas, e explicitar para elas - com afetos, gestos, palavras e presença - o desejo de estar junto.

BATISMOS E REBATISMOS

A quem chega, meu nome é Lucila. Esse é meu sinal:

Vídeo do sinal, com movimento:https://youtu.be/GRCVUL6Q45M

Figura 1  5 Duas imagens de Lucila, da cintura para cima, fazendo seu sinal em Libras. Na primeira imagem, o sinal de óculos, com o dedo indicador e o polegar fazendo o formato da lateral de um óculos, tocando no rosto ao lado do olho. Na segunda imagem, o sinal de sorriso, com o dedo indicador esticado abaixo da boca e o polegar para cima. Lucila é uma mulher branca de cabelos cacheados na altura dos ombros, usa óculos de armação preta, tem bochechas grandes, lábios carnudos e sorriso largo. Veste uma camiseta preta. 

Mas o que é um sinal? É um signo que me representa, em Libras. É a maneira como as pessoas se referem a mim, em Libras. É meu nome em Libras. Mais que isso, se um sinal é um signo, um sinal de batismo é sua marca. Normalmente, mas não exclusivamente, está ligado a uma característica física ou fisionômica que te identifique visualmente. O sinal de batismo indica também que de alguma maneira você já se encontrou com a comunidade surda, pois tradicionalmente o sinal é dado por uma pessoa surda (convencionalmente um ouvinte não batiza ninguém).

Eu ganhei meu sinal de um grupo de adolescentes e jovens surdos. Certa noite de trabalho na escola, um colega da equipe me levou ao grupo de adolescentes que compunham o grêmio estudantil. Eu pedia um sinal. Eu queria uma identificação! Algo que me dissesse que eu também poderia participar daquele mundo, que eu também teria um nome. E estava tão nervosa e também empolgada frente àqueles adolescentes surdos que não consegui parar de sorrir. Um sorriso bem largo. Daí meu sinal (óculos--sorriso). Posteriormente alguns surdos questionaram: te deram dois sinais juntos?! Muito longo, melhor só um! Só óculos. Ou só sorriso.

Mas eu nunca deixei de curtir demais meu sinal, e é ele que eu levo adiante e com ele me apresento.

É interessante o fato de que antes de receber esse sinal eu nunca tinha percebido meu sorriso como uma marca. Eu inclusive me achava uma pessoa de semblante muito sério, e achava que as pessoas poderiam confundir minha timidez com antipatia, me acharem mal-encarada. Porém não há uma pessoa para quem eu me apresente que não diga algo como: nossa, seu sinal combina muito mesmo com seu sorrisão! Ter sido batizada com esse sinal me ajudou a ressignificar minha auto-imagem.

Tenho uma paciente, no consultório privado, que me rebatizou: ela só se refere a mim com o sinal de L (mão fechada com o polegar esticado para o lado e o indicador esticado para cima) fazendo o contorno/espiral dos cabelos cacheados + o sinal de sorriso. Eu considero um apelido dela pra mim. Na primeira vez que ela fez isso, expliquei novamente meu sinal, e ela me explicou o porquê de fazer mais sentido para ela usar o sinal que ela me deu. Então hoje não corrijo mais. Ela se referir a mim dessa forma diz do nosso encontro, meu momento de cabelão, da percepção visual dela sobre mim e também da história dela - uma amiga surda uma vez me disse que o sinal composto por uma letra da datilologia em geral é assim quando é dado por um surdo influenciado pelo português, o que faz sentido no caso da minha paciente e em vários outros casos que vejo por aí. (Excertos da dissertação e memórias, Silva, 2018, 2022)

No que concerne ao batismo com sinal em Libras, sempre mostrei curiosidade e vontade de fazer parte da comunidade surda o que me auxiliou a receber um sinal com maior facilidade pois, desde sempre, tive contato com pessoas surdas e ao iniciar os cursos e práticas pude ter a felicidade de ser presenteada com meu primeiro sinal em um grupo de surdos - como foi há muitos anos, não me recordo quem me batizou. Mas sempre tive muito orgulho ao me apresentar e mostrar minha identificação em Libras, o meu sinal.

Meu primeiro sinal era a letra I (mão fechada com o dedo mínimo esticado para cima) descendo em movimento espiral pela lateral do cabelo, pois na época eu costumava sempre fazer cachos em meus cabelos alisados. Os anos se passaram e por volta de 2016, em um evento de psicologia bilíngue que eu organizei para encontros de psicólogas e estudantes de psicologia interessados no tema, conheci outra psicóloga que estava com intuito de iniciar a atender surdos, começando a aprender Libras e à procura de pares para trocas e supervisão.

Então quando ela se apresentou ao grupo, fiquei surpresa, pois tinha o mesmo nome e o mesmo sinal em Libras que eu. Quando o evento acabou, fomos até uma pessoa que se juntou a nós para falar um pouco sobre a importância da psicóloga no atendimento aos surdos, e perguntamos se ela poderia trocar nossos sinais. Ela retrucou: Ah! Por que trocar? Fica assim, gêmeas, Ingrid branca e Ingrid preta.

Dessarte, aceitamos a sugestão, pois sempre respeitamos o posicionamento das pessoas surdas em relação ao batismo dos sinais. Mas cada surdo traz consigo sua subjetividade e com ela determinações dentro de seus conceitos e do que acreditam.

Posteriormente, já em 2018, eu estava como pós-graduanda em um Curso de Tradução/ Interpretação e Docência em Libras e em uma das aulas um aluno por nome Reggis (nome real e autorizado a divulgar), um grande amigo atualmente, que estudava em minha turma, me perguntou qual era o significado do meu sinal e eu expliquei sobre o cabelo. Já aproveitei para falar sobre o ocorrido do evento junto à outra profissional com o mesmo nome e sinal, na qual não me deixou à vontade. Ele respondeu que entendeu a situação e o objetivo do meu sinal, até porque nesse dia eu também tinha feito cachos em meu cabelo.

Em nosso próximo encontro, que era uma vez por mês, Reggis me chamou e falou que refletiu bastante sobre nossa conversa da última aula. Como pós-graduando, disse que pensando na realidade acadêmica, seria muito ruim se por algum acaso eu e a outra psicóloga Ingrid nos apresentássemos como palestrantes em um grande evento ou congresso, e as pessoas nos definissem pela nossa cor - já que os nossos sinais e nomes eram idênticos. Então ele me perguntou se poderia mudar o meu sinal. Eu, já muito emocionada, aceitei. Era tudo que eu queria.

Desse modo, em meio ao intervalo da aula da pós, na sala de aula, em companhia de muitos estudantes surdos e ouvintes sinalizando, conversando e trocando sobre a cultura surda, eu pude ser rebatizada. Nesse momento, já com olhos marejados, eu não sabia que ele já havia pensado em um sinal específico para mim. Então ele explicou que durante esse mês de espaço entre as aulas ele pensou em um sinal novo. Eu já estava atenta para receber o sinal novo, quando me surpreendi. Reggis declarou: Ingrid, esse sinal faz parte de quem você é na comunidade surda, agora seu sinal é esse; e sinalizou, juntando o sinal de psicologia, com uma das mãos aberta com a palma virada para dentro, e a letra I do meu nome, com a outra mão fechada e o dedo mínimo esticado para cima, com um movimento para frente e para trás intercalando as mãos. E finalizou: Você é a psicóloga da comunidade surda.

Vídeo do sinal, com movimento:https://youtu.be/h6lMHBJqA-g

Figura 2 Mostra Ingrid, da cintura para cima, apresentando seu sinal em Libras: as duas mãos em frente ao rosto, na vertical, com palmas para dentro. Uma das mãos está aberta e a outra mão fechada com o dedo mínimo esticado para cima. Ingrid é uma mulher preta de cabelos alisados, encaracolados nas pontas, abaixo dos ombros, e sorri. Usa camisa e unhas rosa choque, maquiagem, pulseira e colar na cor prata. 

Meu novo sinal representa então, como dito anteriormente, a junção dos sinais de Psicologia e da letra I em Libras. E por que é tão importante explicar meu sinal? Foi a partir das primeiras apresentações com meu sinal novo, após ser rebatizada, que eu não preciso me apresentar como psicóloga. Só de mostrar meu sinal, as pessoas já sabem qual é a minha profissão, o que já me identifica como psicóloga bilíngue e fico muito honrada em estar nessa posição dentro da comunidade surda. (DC, Rodrigues, 2018)

O batismo foi um dos primeiros passos para começarmos a entrar na comunidade surda. E toda a nossa trajetória em trocas de vivências, experiências e sinalizações nos trazem o reconhecimento de pertencer a essa comunidade. Não estamos sozinhas: comunidade surda é junção, onde o mais marcante é a radicalidade do encontro em que “somada às trajetórias e experiências de vida de cada sujeito surdo compõe-se um universo de formas de se comunicar e relacionar” (Romano & Serpa, 2021, p. 3).

É assim que se ganha um sinal: no encontro com uma pessoa surda. Às vezes acontece no primeiro encontro, às vezes demora um pouquinho mais. Às vezes é espontâneo, às vezes você tem que pedir ou avisar que ainda não tem um sinal, para que possa ser batizada.

Interessante observar que o batismo, esse sinal, acontece no encontro. Esse encontro é crucial para o envolvimento com a comunidade surda, para o pertencimento e reconhecimento como uma pessoa que compartilha e participa dessa comunidade. Podemos observar isso no processo de reconhecimento e validação dos nossos sinais: com Ingrid, a flexibilidade de aceitar o primeiro sinal e, posteriormente, modificá-lo; e Lucila, levando adiante sempre o mesmo sinal, apesar das tentativas de outras pessoas de alterá-lo. Os efeitos dos encontros e do sinal dado no encontro são diversos: para Lucila, ressignificou sua auto imagem; para Ingrid, consolidou e autorizou uma imagem e um lugar de psicóloga. No caso de Ingrid, o processo de subjetivação de cada surdo trouxe um olhar diferente de como se poderia estabelecer um sinal para ela a partir de suas marcas. E podemos inferir que o processo de subjetivação de cada indivíduo influencia diretamente em como irão se posicionar em relação ao outro e como pode modificar a criação de cada sinal pessoal em Libras.

Enfim, o encontro é formado por uma quantidade indefinida de vetores sócio-históricos, políticos, afetivos, etc. Entendemos que assim se dá também nos atendimentos psicológicos. Temos que estar atentas e abertas para os encontros e o que poderá surgir deles, tecendo neles e a partir deles as possibilidades de existências múltiplas e diversas. Não a partir de mim ou de você, mas desse algo que se dá entre eu e você. Isso implica que em uma situação diferente, em que outras pessoas estivessem envolvidas, ou em um tempo histórico que fosse outro, o sinal poderia ter sido completamente diferente. E você também.

OS CAMINHOS DA ATUAÇÃO NA PSICOLOGIA ESCOLAR E NA PSICOLOGIA CLÍNICA

Venho construindo minha formação como psicóloga escolar desde a graduação, onde entendi que eu gostava de trabalhar em e com instituições, e mais especificamente, no campo da educação e da saúde mental. Na instituição em que trabalho atualmente, atendemos a comunidade escolar e eventualmente a comunidade externa. Nossas ações na Psicologia Escolar são pautadas em um corpus de discussão teórica e prática adquirido desde a graduação, e balizado por regulamentações e outras publicações do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2005, 2019; Francischini & Viana, 2016). É importante frisar que, a partir desses referenciais, temos um olhar para a instituição e para as relações que se constituem ali. Ainda que a maior demanda seja individual, resquícios da lógica do aluno-problema, devemos desconstruir essa demanda e realizar atendimentos e intervenções preferencialmente no coletivo. Mesmo que eventualmente realizemos intervenções individuais, temos que cuidar para que nossa escuta não seja individualizante - ou seja, não reforce um estigma sobre a/o estudante ou culpabilize o indivíduo, e sim entenda as forças que atuam para que certa condição ou situação se apresente e busque intervir nessas forças e estruturas, concomitantemente dando apoio ao indivíduo que se vê enredado nelas.

A atuação em uma instituição de educação de surdos se diferencia no olhar que devemos ter para essa população, como as questões mais recorrentes que trazem; a língua que utilizam; a articulação com a rede de cuidados de cada pessoa, incluindo a rede de assistência pública (como o Sistema Único de Saúde e o Sistema Único de Assistência Social); a mediação entre família (geralmente ouvinte, muitas vezes sem conhecimento profundo de Libras) e estudante (surda/o sinalizante).

Se eu não fosse psicóloga escolar, eu não estaria na comunidade surda. O interesse na carreira de psicóloga escolar foi o que me levou ao concurso público para a instituição onde atuo. Como consequência, minha inserção na comunidade surda. Mas não é uma matemática pura e simples. Eu poderia estar trabalhando ali e não me interessar em me envolver na comunidade surda. A questão é que estar ali me abriu portas para uma comunidade que eu não conhecia e não sabia que existia. Ali fiz um curso básico de 5 módulos (2 anos e meio) e comecei a aprender Libras. A partir do meu interesse na língua de sinais, comecei a buscar outros espaços de contato e trabalho com pessoas surdas - na religião, na clínica, nas artes, em cursos diversos sobre a cultura, a língua e a comunidade surda. Eu vi uma porta aberta e eu entrei. E permaneci.

Eu brinco que os surdos me deram muitos presentes na vida, e um deles foi a clínica. Eu nunca tive muita vontade de trabalhar como psicóloga clínica. Na atuação como psicóloga escolar, temos como diretriz não realizar um trabalho clínico-assistencial (CFP, 2019), e, se essa for a demanda e necessidade do/da estudante, encaminhar para esse tipo de atendimento em outro espaço mais adequado. No processo desses encaminhamentos, me deparava com a falta de profissionais qualificados para o atendimento clínico da pessoa surda. Qualificação essa que inclui, mas não se limita à, Libras. Era muito difícil encontrar esses profissionais, seja na rede pública já precarizada do Rio de Janeiro devido à falta de investimentos governamentais, seja na rede privada de atendimentos em consultório. Alguns colegas de trabalho também passaram a me procurar como referência para encaminhar seus amigos ou familiares surdos, sempre me indagando se eu atuava como psicóloga clínica. Com essas provocações, após 6 anos na instituição, resolvi começar a atender na clínica também. E ainda que eu trabalhe com o público surdo e ouvinte, foi por causa da comunidade surda sinalizante - e das barreiras que essa comunidade enfrenta - que eu me engajei nessa nova frente de atuação, na qual antes do encontro com os surdos eu nunca tive muita vontade de atuar. Hoje em dia, após 3 anos, sou apaixonada pela clínica e não quero largar nunca mais! (Memórias, Silva, 2022)

Durante a graduação em Psicologia, atuar na clínica com o público surdo sempre foi meu foco de interesse. Ao longo dessa trajetória procurei entender como essa área poderia auxiliar as pessoas que se encontravam em momentos de fragilidade e com barreiras comunicacionais. Cursei diversas disciplinas relacionadas a Psicologia da Saúde e fiz estágios para entender mais sobre este campo.

A partir do contato com a comunidade surda e do estudo das teorias psicológicas, pude compreender como o atendimento desses pacientes é complexo e demanda atenção e um olhar com equidade. Em vários momentos, ouvi relatos de pacientes sobre a falta de simples informações e sobre o desconforto nas relações sociais e familiares que enfrentam em virtude da dificuldade de comunicação entre os ouvintes e surdos. Alguns pacientes ressaltaram o fato de que quando o profissional de saúde disponibiliza tempo para ouvi-los e para esclarecer dúvidas com palavras mais acessíveis, há uma maior compreensão sobre o tratamento, permitindo melhor adesão à psicoterapia e maiores chances de sucesso no tratamento psicológico.

Nesse processo, a comunicação é essencial entre todos os envolvidos. Na área da saúde a interação entre as pessoas é fundamental e um dos pilares para que ela se desenvolva. A partir da minha experiência profissional, foi interessante perceber que uma comunicação de qualidade entre paciente e psicóloga influencia a adesão e o sucesso do tratamento, assim como maior satisfação com o profissional e redução dos níveis de ansiedade.

Em 2018, ingressei no mestrado acadêmico, a fim de contribuir com a construção de uma comunicação mais efetiva entre paciente, família e equipe por meio do aprimoramento de Psicólogas no Campo da Surdez, através da elaboração de um livro digital para os primeiros passos como Psicóloga Bilíngue (Português/Libras). Durante a pesquisa, em contato com diferentes psicólogas ouvintes, pude constatar que a falta de informação e despreparo para esse foco de trabalho faz com que as psicólogas também resistam e sintam-se inseguras para tentar desenvolver a Língua e atender surdos.

Nesse ponto, o que diferencia cada profissional na trajetória bilíngue geralmente é o contato anterior com surdos e a identificação de cada pessoa com essa temática. Então entendemos que como a Libras sempre teve um papel de destaque em minha vida pessoal e aumenta, a cada dia, a inserção das pessoas surdas na psicoterapia, a identificação e contato com essas questões no dia a dia só nos impulsiona a desenvolver em uma área que, naturalmente, já temos inclinação. (DC, Rodrigues, 2016-2020)

Novamente podemos pensar aqui na importância política do desejo de estar junto. Deixar-se afetar e seguir com esse afeto. Os caminhos são singulares - cada pessoa traça os seus. Nós duas seguimos caminhos diferentes até a psicologia bilíngue, mas sempre a partir do encontro com o novo, com o desconforto, com a convocação de produzir um novo mundo, mais plural, em que mais pessoas pudessem existir nas suas diversas maneiras de ser.

Historicamente, a Psicologia é convocada a certa normalização do sujeito, e com a população surda não foi diferente. Ainda hoje vemos algumas práticas que se perpetuam sem levar em conta a diferença. Como os testes psicológicos que são aplicados por alguns profissionais sem a consideração que seus scores foram formulados a partir de pesquisa com uma população ouvinte e em língua portuguesa, sem a necessária adaptação e validação para a língua de sinais junto à população surda. Ou alguns profissionais da psicanálise brasileira que, como critica Edigleisson Alcântara (2018), reproduzem o discurso de que “com a língua de sinais, o surdo ficaria preso à dimensão do signo e, portanto, ficaria preso à dimensão concreta do mundo” (p. 57).

Sendo assim, evidencia-se a articulação entre a clínica e a política, à medida que no momento que nos propomos a atender a comunidade surda, e a atender em língua de sinais, estamos dizendo para essa população: reconhecemos sua existência, e ela é válida. Eu te recebo do jeito que você é, da maneira que você se coloca no mundo. Estou aqui aberta para construir esse mundo com você. Você não precisa de correção, e eu não estou aqui para te corrigir ou exigir que você se constitua de forma a se aproximar da maneira ouvinte de ser6.

E a gente vai seguindo as pistas a cada passo do caminho, atentas à direção que queremos que nos guie. Nesse caso, a direção é estar junto, sustentar as possibilidades de se relacionar com as diferenças que envolvem quaisquer seres que se encontrem, buscando a composição de um mundo comum. E isso dá trabalho! “A composição desse mundo comum jamais está dada de uma vez por todas, ela nos demanda trabalho, investimento para compor e articular elementos díspares e heterogêneos.” (Silva & Moraes, 2019, p. 223)

ATUAÇÃO COMO INTÉRPRETES

Quando iniciei meus estudos sobre Libras e cultura surda o objetivo era somente o atendimento aos pacientes surdos e acolhimento aos familiares em psicologia clínica, porém durante meu processo como discente da pós-graduação em Libras - Tradução, interpretação e docência, também fui parceira da instituição de ensino na qual estudara e realizava funções como dar suporte a cada turma e aos professores, auxiliar nos eventos e atividades. Sempre recebíamos professores surdos e ouvintes para ministrar as aulas nas turmas, então passei a aceitar as solicitações deles para o auxílio nas interações com alunos em diversas situações. Uma delas era facilitar o contato entre estudante e professor, caso alguns alunos ainda tivessem dificuldades em sinalizar em Libras.

Durante esse período, pude me desenvolver em relação a prática da tradução e interpretação em Libras, desde interpretações simultâneas em aulas, palestras, lives, até traduções para atividades da plataforma virtual e também estar mais segura nessa posição. Ao me formar e receber a proficiência na Língua, tinha os recursos necessários para estar nessa área de maneira mais formal e profissional. Então, a informação que eu havia me formado foi se espalhando e eu passei a ser convidada para interpretar em eventos e eu comecei a gostar também desse ramo e avistar possibilidades melhores dentro da profissão. Sempre serei grata por todo o suporte e crédito que deram a mim durante a pós-graduação, valorizando algo em mim que hoje também é uma de minhas fontes de renda. (DC, Rodrigues, 2017)

Estudantes de Psicologia costumam nos perguntar se deveriam fazer graduação de Letras-Libras, acreditando que esta seria a maneira adequada de aprender Libras mais profundamente e assim se capacitar para atender surdos sinalizantes. A partir de nossas experiências, entendemos que não é necessária uma graduação de Letras-Libras ou uma pós-graduação em interpretação para que uma pessoa seja bilíngue. São duas profissões diferentes, as de psicólogas e tradutores/intérpretes, e cada uma exige seus próprios caminhos de formação e capacitação para o desenvolvimento profissional.

Evidentemente, porém, para se capacitar como profissional bilíngue, é necessário um aprofundamento na sua segunda língua. No caso da Libras, é importante buscar modos de desenvolver a fluência, conhecer a gramática e a estrutura da língua, e saber utilizá-la nos diversos contextos. Essa fluência pode ser alcançada de diversas formas, como já sinalizamos anteriormente, com cursos, formações, e principalmente, convivência com a comunidade surda.

Com o contato com a Língua e necessidades do cotidiano fomos nos desenvolvendo como intérpretes a partir da prática. Essas profissões se entrelaçam, mas são independentes uma da outra, então cabe a cada pessoa entender suas preferências e aptidões. Uma de nós buscou o caminho da formalização de uma segunda profissão, a de tradutora-intérprete. A outra de nós, não. Nós, como psicólogas bilíngues, entendemos que nem toda pessoa bilíngue precisa se tornar intérprete profissional.

Mas muitas vezes somos convocadas ou nos sentimos impelidas a ocupar o lugar de intérprete, devido à falta de estrutura e abertura da sociedade para receber a pessoa surda. E isso mostra as contradições existentes no campo e mesmo na nossa atuação.

Meu papel como tradutora intérprete se dá no âmbito religioso. Desde 2015 participo do movimento surdo espírita, formado por pessoas surdas e ouvintes falantes de Libras, que atua e luta em prol do acolhimento da pessoa surda no movimento espírita do Rio de Janeiro e do Brasil. Desde 2016 vinha recebendo provocações de minhas parceiras sobre a necessidade de eu atuar como intérprete das palestras, pois temos muito poucos intérpretes na nossa religião. Em 2018 tivemos um grande Congresso Espírita no Rio de Janeiro e, muito incentivada pelas minhas companheiras de grupo, eu aceitei o desafio e me vi como intérprete pela primeira vez. Desde então atuo nessa frente dentro da religião, de forma voluntária - como qualquer outra função dentro do movimento espírita. Não tenho formação necessária para atuar profissionalmente e não penso em seguir esse caminho. Isso é um conflito para mim: ao mesmo tempo que vejo a necessidade de não ocupar o lugar de intérprete para assim ajudar a fortalecer a luta e ser coerente com a aposta na valorização e reconhecimento profissional e com a necessidade de formação para atuação como intérprete, ao me deparar com um contexto em que a pessoa surda se beneficiaria da minha possibilidade de mediação da comunicação ou mesmo do acesso linguístico a partir da interpretação me sinto impelida a ocupar esse lugar, para contribuir no acesso das pessoas surdas àquilo que a sociedade estruturalmente lhes nega. Resolvo parcialmente esse conflito também no encontro, analisando com minhas parceiras surdas e ouvintes a cada contexto e convite qual a melhor estratégia para seguir. (Memórias, Silva, 2022)

A ação de tradutores e intérpretes de Língua de Sinais não é novidade, ela está vinculada a história de luta e resistência da comunidade surda. Aqui no Brasil, ela teve início na década de 1980, com as interpretações religiosas, de forma voluntária, em contextos assistencialistas, caritativos e informais, sem perspectiva de remuneração ou profissionalização (Silva, Guarinello, & Martins, 2016). Em épocas passadas esses profissionais eram desconhecidos até no campo acadêmico, muitos iniciaram as traduções e interpretações nas igrejas como voluntários e algumas religiões começaram a desenvolver metodologias com o objetivo de evangelizar os surdos que por muitos anos foram segregados da sociedade, para repassar os ensinamentos religiosos e intermediar a comunicação entre surdos e ouvintes. Assim, no Brasil há uma cultura forte da atuação do intérprete exercendo a função em voluntariado. O exercício dessa atividade como profissão é recente e sua regulamentação aconteceu no ano de 2010 com a Lei n. 12.319/2010, feito que reforçou a luta da categoria pelo reconhecimento e valorização profissional, incluindo salarial. A marca que essa história nos deixou é o risco, que se perpetua até os dias de hoje, do entendimento de que a atuação com a pessoa surda se dará sempre a partir do lugar da caridade.

ATUAÇÃO COMO FORMADORAS E PALESTRANTES

Contrariamente à surpresa da atuação como Tradutora/Intérprete de Libras, estar como docente e palestrante sempre fez parte de toda minha trajetória. Sempre admirei muito os meus mentores e professores que me guiaram e me guiam em meu desenvolvimento profissional; e essa admiração me levou a uma identificação de pensar em como eu também poderia fazer a diferença na vida das pessoas, e as palestras eram uma tática de estimular e incentivar alunos, mas até o momento sem nenhuma aspiração.

Ainda como discente na graduação em psicologia, iniciei movimentos com apresentações de trabalhos, seminários, eventos a partir de convites de docentes da universidade, entre outros eventos. Porém com a inclinação para a Psicologia Bilíngue (Português/Libras) comecei a me interessar atuando no auxílio de novos profissionais que se interessam em entender um pouco desse nicho e como iniciar seu primeiro contato com essa temática. Muitas psicólogas bilíngues iniciantes deram retorno positivo de como esse suporte inicial tem relevância, então continuo me aprofundando nesse viés, agora também trabalhando com mentoria para esse público. Como eu cheguei até aqui? Conto um pouco da minha trajetória e, de forma humanizada, acolho, escuto e de acordo com a necessidade de cada psicóloga ou discente em Psicologia, ofereço estratégias para um desenvolvimento mais acertado com pacientes surdos. Eu não tive muito suporte ou informações que me facilitasse chegar no nível profissional que me encontro hoje, mas certamente, através de minha atuação, muitas psicólogas terão uma realidade diferente, minimizando os efeitos negativos da exiguidade na formação da psicóloga no atendimento às pessoas surdas. (DC, Rodrigues, 2015-2022)

Adoro compartilhar conhecimento. Ouvir as experiências e reflexões de outras pessoas, contar as minhas. Assim, sou muito disponível para isso. Desde a graduação, participei de eventos apresentando trabalhos, e gostava até mesmo dos momentos em que essa era a tarefa pedida como avaliação nas disciplinas da graduação.

Quando alguns colegas souberam que eu comecei a trabalhar em uma instituição para pessoas surdas, passaram a me convidar ou me indicar para ir em turmas de graduação em Psicologia e dar uma ou duas aulas dentro da disciplina que eles ministravam ou palestras em eventos como Semana da Psicologia, ou mesmo (influências da pandemia) em Lives relacionadas à psicologia com temas relevantes para a comunidade surda ou para ouvintes em formação. Ética, Psicologia de Grupo, Psicologia Escolar, Estudos da Deficiência, Saúde Mental - em todas as disciplinas é possível vislumbrar a transversalidade da temática da deficiência e da surdez. Faço questão de aceitar esses convites, e costumo receber o retorno positivo de estudantes sublinhando a importância desses momentos, frente a uma graduação que tem poucas ou nenhuma aula/disciplina instituída para debate, ensino e aprendizagem dessas temáticas.

Também sou procurada - na instituição e fora dela - por bastante estudantes de graduação ou pessoas recém formadas curiosas sobre a atuação da psicologia com a comunidade surda. Me deixa muito feliz ver esse interesse crescendo, e entender que mesmo que elas não se tornem psicólogas bilíngues, estão sensibilizadas para a nossa comunidade e com certeza mais abertas para o encontro com a pessoa surda, onde quer que elas possam atuar no futuro. (Memórias, Silva, 2022)

Como podemos pensar na formalização da capacitação para atuação como psicólogas bilíngues? Uma de nós, em trabalho anterior (Rodrigues, 2019), discutiu como ainda é escassa a formação de profissionais bilíngues no país. Um bom conhecimento da comunidade surda e convivência com a mesma são requisitos necessários para o bom desempenho do profissional, mas não se deve parar por aí. É necessário estar em constante formação, buscar aperfeiçoamento acadêmico, fazer cursos, sempre que possível participar de congressos e eventos com temas relevantes ao meio em que está inserida, pois o tema está sempre sendo atualizado.

Neste trabalho, a autora aponta passos importantes para que a psicóloga se torne uma profissional bilíngue (Português/Libras) e esteja habilitada para atender a comunidade surda:

  1. Entender a história da comunidade surda, que corrobora até os dias de hoje com resistência e sentimentos negativos da maioria dos surdos em relação ao mundo ouvinte;

  2. Entender o objetivo de ser uma psicóloga bilíngue, qual é a razão de estar inclinada a estas questões, se tem uma raiz, uma explicação que a faça refletir sobre esse nicho de atuação.

  3. A fluência na língua de sinais é indispensável. Cursos formais de Libras são modos de adquirir fluência e ter uma boa estrutura da Língua;

  4. Cursos de pós-graduação e pesquisas na área da surdez são caminhos importantes para o amadurecimento profissional.

  5. Estudos das nomenclaturas específicas desta população e contato contínuo com o povo surdo são essenciais para ter referências e entender a cultura surda para atuar com esse público.

Sempre é importante destacar que o conhecimento da Libras e da cultura surda amplia a visão da profissional psicóloga sobre os sujeitos surdos bem como seu entorno social e, com isto, possibilita proporcionar atendimento mais qualificado aos mesmos, minimizando seu sofrimento e resultando na melhoria da qualidade de vida da comunidade. (Rodrigues, 2019, pp. 56-57)

Defendemos aqui que a formação é um ato político. Na nossa existência e atuação em todas essas frentes, inclusive ao nos encontrarmos no lugar de formadoras, estamos levando adiante certo discurso, que pretendemos que seja inclusivo e abra a mente das pessoas para as possibilidades de encontro e atuação com a comunidade surda. Estamos levando o conhecimento que construímos e acessamos para os espaços que habitamos no nosso cotidiano. Não à toa as pessoas do nosso convívio passam a reparar mais na existência da pessoa surda. Esse movimento de levar adiante as histórias que vivemos e os conhecimentos que construímos junto dos surdos é de suma importância para exercermos o lugar de aliadas nessa luta.

À GUISA DE CONCLUSÃO

A proposta deste trabalho foi trazer contribuições para profissionais e estudantes de psicologia que estão em busca da formação para atuação com a população surda. A partir da narrativa de nossas experiências, levantamos os pontos que entendemos como principais para tal atuação. Nossas narrativas vêm para esse artigo não como anedotas, mas como histórias únicas que podem se conectar com outras histórias, e nesse movimento o pessoal se faz político. Esperamos, com isso, que profissionais ou futuras profissionais de Psicologia Bilíngue possam se sentir inspiradas e menos solitárias nos seus processos de formação e atuação.

É imprescindível salientarmos que seguimos apostando na importância do domínio da Libras e do entendimento da cultura surda para uma atuação profissional de excelência com as pessoas surdas e a promoção do direito linguístico que lhes é garantido por lei. O envolvimento com a comunidade surda nos faz desenvolver sempre junto com o surdo, fazendo com que não percamos o real objetivo de estar nesse campo e nos dando mais respaldo e mais experiência para que continuemos avançando como psicólogas bilíngues em Português/Libras. Esse constante contato com a comunidade surda é importante para estarmos sempre atentas e avaliarmos e reavaliarmos nossa postura e nossas ações. Nós temos surdos nos dando as mãos, por trás de nós, na nossa frente, ao nosso lado, nos influenciando, nos conduzindo e, às vezes, nos dando empurrões para nos movimentarmos e irmos adiante. Nós não atuamos sem os surdos. Não tem sentido fazer de outro jeito.

Logo, em concordância com a pesquisadora Marcia Moraes (2010), seguimos com a ética do PesquisarCOM, no qual é possível afirmar o ato de pesquisar “como uma prática performativa que se faz com o outro e não sobre o outro. . . pois o pesquisar com o outro implica uma concepção de pesquisa que é engajada, situada. Pesquisar é engajar-se no jogo da política ontológica.” (p. 42). Entendemos que podemos levar essa ética adiante para nossas práticas cotidianas, para além da pesquisa.

O desenvolvimento do nosso trabalho se dá a partir das nossas vivências e alicerçado no encontro com o outro. Como profissionais, esses encontros e trocas são indispensáveis para nosso amadurecimento nesse campo. Seguimos, assim, na busca da produção de um comum no encontro entre pessoas surdas e ouvintes. Um comum que se constituirá a partir da composição na diferença (Silva, 2018). Reafirmamos o que uma de nós disse anteriormente:

Eu, como ouvinte no campo da surdez, sinto-me convocada a este processo de composição. Preciso sair de um lugar de conforto, me deslocar dos meus saberes e me disponibilizar para o encontro com as pessoas surdas em um funcionamento bem diferente do meu . . . pois caso não o fizesse, me manteria nas mesmas referências, não teria muita possibilidade de troca com os surdos, não conseguiria compor um comum. Ficaria no lugar, talvez, da pessoa que quer normalizar o outro, querendo que o surdo se ajuste e se adapte ao meu modo (ouvinte) de fazer as coisas. (Silva & Moraes, 2019, p. 231-232)

É significativo apontar que a Psicologia Bilíngue, hoje, é nossa profissão e fonte de renda, mas é indispensável levarmos em conta a importância de trabalhar com prazer, curiosidade (Foucault, 1998) e disponibilidade para o encontro. Ao lermos cada experiência percebemos que seguimos caminhos singulares, que ora se aproximam, ora se distanciam, mas nossas trajetórias fluíram e fluem no esforço e na direção de construção desse comum na diferença. Lutando para que cada vez mais pessoas possam saber e fazer saberem: sua experiência é válida, e sua vida importa.

1Ainda que o português formal preconize o masculino como designação de gênero generalizado ou plural, entendemos que a categoria profissional de Psicologia é formada majoritariamente por mulheres, e por isso optamos por usar o gênero feminino quando estamos falando de profissionais generalizadamente ou quando falamos do plural de profissionais da psicologia. Entendemos também que esse é um gesto de afirmação de uma escrita e prática de ciência que vai ao encontro de mudanças de saber-poder, dentro e fora do espaço acadêmico.

2Pessoas surdas sinalizantes são pessoas que se identificam como surdas e usam línguas de sinais como língua principal de comunicação. Pessoas surdas bilíngues são pessoas que se identificam como surdas e usam línguas orais e línguas de sinais, em suas modalidades faladas ou escritas, como línguas de comunicação.

3Entendemos como tecnologias reabilitadoras para as pessoas surdas aquelas tecnologias que intentam produzir uma experiência de audição e fala que se aproxime da experiência de ouvir e falar hegemônica (da pessoa ouvinte), tais quais o implante coclear (IC), o aparelho de amplificação sonoro individual (AASI), o sistema de frequência modulada (sistema FM) e a terapia fonoaudiológica.

4Original em francês, com tradução (não publicada) para o português feita pelo Grupo PesquisarCOM.

5Agradecemos à parceira Gislana Vale pela revisão das descrições de imagens, tanto nas legendas como no corpo do texto.

6Para saber mais sobre ouvintismo, a opressão que a comunidade surda sinalizante sofre na direção e expectativa de que se aproximem o máximo possível do que é considerado norma hegemônica, o ser ouvinte, ver Carlos Skliar (1998), e Francielle Cantarelli Martins e Madalena Klein (2012).

Financiamento

Não houve financiamento.

Consentimento de uso de imagem

Não se aplica.

Aprovação, ética e consentimento

Não se aplica.

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Recebido: 12 de Novembro de 2022; Revisado: 21 de Setembro de 2023; Aceito: 26 de Outubro de 2023

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