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Revista Psicologia Política

On-line version ISSN 2175-1390

Rev. psicol. polít. vol.24  São Paulo  2024  Epub Aug 26, 2024

https://doi.org/10.5935/2175-1390.v24e24043 

Artigo

PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO E SUBJETIVIDADE NÔMADE DE ROSI BRAIDOTTI EM INTERFACES COM A PSICOLOGIA

Processes of subjectivation and nomadic subjectivity by Rosi Braidotti in interfaces with psychology

Procesos de subjetivación y subjetividad nómada de Rosi Braidotti en interfaces con la psicología

Wiliam Siqueira Peres1 

Doutorado em Saúde Coletiva – Instituto de Medicina Social – UERJ. Pós Doutorado em Psicologia e Gênero pela UBA – Universidade de Buenos Aires. Professor aposentado do Programa de Pós-graduação em Psicologia e Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras – UNESP


http://orcid.org/0000-0002-5968-4203

1Instituto de Medicina Social - UERJ. Psicologia e Gênero pela UBA - Universidade de Buenos Aires. Programa de Pós-graduação em Psicologia e Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras - UNESP (Universidade Estadual Paulista), Campos de Assis/SP


Resumo:

Este artigo dialoga com a produção da subjetividade enquanto modos de constituição de sujeitos que são produzidos no campo social, político e cultural (Gilles Deleuze & Félix Guattari), e de como a partir daí, Rosi Braidotti problematiza processos de subjetivação nômade e a emergência de sujeitos nômades advindos da vida que se produz na marginalidade dos processos normativos, se distanciando da ideia de totalização do ser humano, considerando sua multiplicidade. Trata-se de outras dimensões de análises dos novos campos de existencialização que figuram diferentes expressões de sujeitos na contemporaneidade e que pede ampliações para que a Psicologia considere outras possibilidades políticas de conceituação teórica e metodológica na formação, extensão e pesquisa psicológica, dialogando com outros saberes e posições éticas, estéticas e políticas de conceber novas existências na contemporaneidade. Nesta perspectiva apostamos no compromisso da Psicologia com a transformação social e religação com o respeito às diferenças e direitos humanos emancipatórios.

Palavras chaves: Psicologia; Subjetividade; Nomadismo; Política

Resumen:

Este artículo dialoga con la producción de subjetividad como forma de constituir sujetos que se producen en el campo social, político y cultural (Gilles Deleuze & Félix Guattari), y cómo, a partir de ahí, Rosi Braidotti problematiza procesos de subjetivación nómada y el surgimiento de sujetos nómadas de la vida que se desarrolla al marg de los procesos normativos, alejándose de la idea de totalización del ser humano, considerando su multiplicidad. Estas son otras dimensiones de análisis de nuevos campos de existencialización que presentan diferentes expresiones de los sujetos en la época contemporánea y que exigen ampliaciones para que la Psicología considere otras posibilidades políticas de conceptualización teórica y metodológica en la formación, extensión y investigación psicológica, dialogando con otros saberes y posiciones éticas, estéticas y políticas para concebir nuevas existencias en la contemporaneidad. En esta perspectiva, creemos en el compromiso de la Psicología con la transformación y la reconexión social con el respeto a las diferencias y los derechos humanos emancipadores.

Palabras clave: Psicología; Subjetividad; Nomadismo; Política

Abstract:

This article dialogues with the production of subjectivity as a way of constituting subjects that are produced in the social, political and cultural field (Gilles Deleuze & Félix Guattari), and how, from there, Rosi Braidotti problematizes processes of nomadic subjectivation and the emergence of nomadic subjects arising from life that is produced in the margins of normative processes, moving away from the idea of the totalization of the human being, considering its multiplicity. These are other dimensions of analysis of new fields of existentialization that feature different expressions of subjects in contemporary times and that call for expansions so that Psychology considers other political possibilities of theoretical and methodological conceptualization in psychological training, extension and research, dialogue with other knowledge. and ethical, aesthetic and political positions for conceiving new existences in contemporaneity. In this perspective, we believe in Psychology’s commitment to social transformation and reconnection with respect for differences and emancipatory human rights.

Keywords: Psychology; Subjectivity; Nomadism; Politics

PISTAS PARA UMA ESCRITA CARTOGRÁFICA

O presente artigo se orienta a partir de uma perspectiva de escrita cartográfica. A cartografia surge como um modo de acompanhar processos, ou seja, não se propõe a coletar dados e analisá-los em uma territorialidade fixa e imutável, mesmo porque a ideia de território que nos pautamos o coloca sempre em movimento, considerando que apesar de geograficamente poder ser demarcado como limitado, sua interioridade sempre se processa por conteúdos em movimentos, em construção permanente, dadas as negociações políticas presentes nas relações entre corpos, afetos, discursos e narratividades.

A escolha por uma metodologia centrada no método cartográfico vem ao encontro de nossa valorização do campo da ética-estética-política que, em nenhum momento, busca por verdades absolutas ou estabelecimentos de modelos prontos.

Virginia Kastrup (2009) nos indica que o método da cartografia foi formulado por Gilles Deleuze e Félix Guattari, “visa acompanhar processos, e não representar um objeto, . . . trata-se sempre de investigar um processo de produção . . . a ideia de desenvolver o método cartográfico para utilização em pesquisas de campo no estudo da subjetividade se afasta do objetivo de definir um conjunto de regras abstratas para serem aplicadas. Não se busca estabelecer um caminho linear para atingir um fim. A cartografia é sempre um método ad hoc (Kastrup, 2009, p. 32).

Uma cartografia pode ser realizada tanto sobre dados empíricos (observações territoriais, entrevistas, rodas de discussão, percepções sensoriais), como sobre dados literários (livros, artigos, revistas, jornais, músicas, fotografias, como entre outras obras gráficas).

Podemos cartografar uma cena ocorrida em uma praça, em um grupo terapêutico, em um show musical, mas também em uma música, um filme, uma dança, sempre orientados pelo máximo de dispositivos de análise para sua avaliação. Isso indica que a cartográfica tanto pode ser empírica, como literária.

No artigo proposto nosso itinerário de investigação se orienta por um recorrido teórico que faz uso de conceitos coletados em textos que dialogam entre si via atração e repulsa, ora se complementando, ora se contradizendo, porém, sempre em busca de uma construção de argumentos que se interligam na composição da escrita.

Ao pensar sobre os modos de registros e de escrita sobre a produção de dados de pesquisa, Laura Barros e Kastrup (2009) recorrem aos apontamentos realizados por Michel Foucault (1992) quando ele realizou seus estudos sobre as práticas de si dos gregos, como modo de reunir fragmentos coletados, os hipomnemata, juntando coisas lidas, ouvidas e pensadas para, com isso, transformá-los em matéria prima para a escrita de conteúdos mais sistematizados.

Essas proposições auxiliam na organização da apresentação conceitual, nos diálogos entre as autorias e na produção propriamente dita da análise dos dados e uma suposta tentativa de conclusão. Como a proposta da cartografia não busca conceitos rígidos e muito menos uma conclusão absoluta, nossa trajetória na produção da escrita desse artigo se propõe a uma ampliação de diálogos que expandam o debate sobre os processos de subjetivação, considerando suas implicações interseccionais, políticas e culturais.

UM RECORRIDO SOBRE OS ESTUDOS DA SUBJETIVIDADE

Os estudos sobre as subjetividades e seus processos de subjetivação colocam em tela questionamentos a respeito da emergência de novas expressões de existencializações que temos nos deparados na atualidade. Ademais, a chegada de teorias decoloniais e das interseccionalidades (Akotirene, 2020; Crenshaw, 2012; Lugones, 2008; Mignolo, 2008; Nogueira, 2017; Platero Méndez, 2012; Quijano, 1992; Santos, 2012 Vergès, 2020) solicitam novas reflexões a respeito dos modos de subjetivação que levam em conta os marcadores sociais, tais como, classes sociais, raças, etnias, sexos, sexualidades, gêneros, capacitismos, gerações e territórios geopolíticos localizados e situados nas perspectivas do Sul.

Partimos do pressuposto de uma aposta que a Psicologia, enquanto dispositivo analítico das relações humanas, precisa dialogar com saberes diversos (Filosofia, Antropologia, Sociologia, Ecologia, Biologia, Ciência Política), de modo a contribuir para que suas problematizações a respeito do universo contemporâneo sejam ampliadas, no sentido de contribuir com a promoção do bem estar psicossocial das pessoas em interfaces com a defesa dos direitos sexuais e humanos, assim como, da emancipação psicossocial, política e cultural de grupos e coletivos humanos.

Entre esses diálogos e intersecções colocamos em evidência conversações entre a Psicologia e a Filosofia da Diferença, assim como com os feminismos decoloniais produzidos a partir de construções epistemológicas advindas de problematizações realizadas por Gilles Deleuze (1997), Félix Guattari e Sueli Rolnik (1986), Michel Foucault (1986), Rosi Braidotti (2006), Judith Butler (2003), Donna Haraway (1995), Paul Preciado (2011).

Inicialmente, quando falamos em subjetividade referimo-nos ao modo como Suely Rolnik e Félix Guattari nos apresenta esse conceito, a saber: a subjetividade é produzida por agenciamentos de enunciação “toda a produção de sentido, de eficiência semiótica - não são centrados em agentes individuais . . . nem em agentes grupais (Rolnik & Guattari, 1986, p. 31).

A subjetividade, neste sentido, nada teria a ver com a individuação do corpo, nem com uma interioridade essencializada, mas com a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação, algo que seria produzido no registro do social, da cultura e vivido pelas pessoas em suas existências particulares. Essas vivências podem ser pensadas a partir de oscilações situadas em dois extremos:

uma relação de alienação e opressão, na qual o individuo se submete à subjetividade tal como a concebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o individuo se reapropría dos componentes de subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização. (Rolnik & Guattari, 1986, p. 33)

Esses primeiros ensaios conceituais nos permitem pensar a subjetividade como o modo pelo qual o individuo é colocado à disposição do campo social; de como é atravessado por relações de poder, de controle e de resistências; por componentes discursivos e imagéticos advindos de um campo de forças que ora é normatizador, ora é singularizador nos processos de subjetivação. Como processo em construção permanente, a subjetividade é composta pela multiplicidade, por multidões que por serem diversas trazem marcas das interseccionalidades e negociações políticas nos processos de subjetivação.

Esses marcadores interseccionais participam da construção de sistemas de opressões e de privilégios que hierarquizam modos de vidas e de acessos ou não à direitos; ou seja, definem por si mesmo quais corpos sujeitos devem viver e quais devem morrer.

Em uma análise sobre o olhar que intersecta através da visão, as estéticas e imagens das pessoas que são normatizadas e outras estéticas que se tornam abjetas e, que, participam comumente dos processos de subjetivação, Haraway (1995) adverte-nos que o dispositivo do olhar em si mesmo revela uma dimensão de poder, de disciplina e controle sobre os corpos e, a partir dessa dimensão advoga que “a visão é sempre uma questão de poder ver - e, talvez, da violência explícita em nossas práticas de visualização. Com o sangue de quem foram feitos meus olhos?” (Haraway, 1995, p. 25).

A partir dessas perspectivas podemos afirmar que a subjetividade é processada no campo da exterioridade situada no mundo, permitindo falarmos em dois modos de subjetivação. O primeiro diz respeito à subjetivação normatizadora que produz sujeitos submissos às regras, normas, leis, contratos e instituições disciplinares e regulatórias, constituindo identidades fixas, personalidades aprisionadas, ou ainda, um ‘Eu’ totalizado e imutável. O segundo trata da subjetivação singularizadora que produz sujeitos criativos e potentes que inventam modos de existencialização em construção permanente, mutantes, intempestivos e até mesmo contraditórios.

Os processos de singularização apresentam recusas ao modo de subjetivação normatizadora totalizante e, neste sentido, produzem outros modos de desejar que são feitos por alianças com as multiplicidades, com a produção das diferenças que transbordam e enunciam que não somos reduzidos à individuação absoluta, pois somos compostos pela diversidade de possibilidades de sermos muitos outros.

Os processos de subjetivação constituintes de corpos permitem análises a respeito dos lugares que os sujeitos ocupam no mundo a partir de tessituras das linhas que tecem seus territórios existências, ou seja, se expressam modos normativos ou singulares de expressão de sentidos, de posições de submissão ao bio-poder que disciplina seus corpos e que ao mesmo tempo contribuem e participam de regulações mais amplas de controle das populações (Foucault, 1985), ou se reinventam outros possíveis, que favoreçam fazer das vidas obras de arte, de criarem novas estéticas e novas composições flexíveis para a emergência de novos sujeitos. Tratam-se sempre de processos que produzem e afirmam estilísticas de existências (Foucault, 2003).

Esses lineamentos da subjetivação compostos de modo rizomático (Deleuze & Guattari, 1995) incluem imagens, discursos e narratividades desenhadas por um emaranhado de linhas duras, flexíveis e de fuga. As linhas duras ou de segmentaridade dura compõe os grandes conjuntos molares estratificados, como as classes sociais, as hierarquias de sexo, gênero, raça, etnia e outros marcadores de diferenças que operam as desigualdades, e que podemos chamar de linhas de interseccionalidades; as linhas flexíveis que compõe o plano molecular de desestratificação relativa, presentes nas composições rizomáticas, de fluxos e devires sempre em movimentos, distanciados dos aprisionamentos produzidos pelos estratos; as linhas de fuga e de criação que se apresentam como rupturas com os estratos e as desestratificações absolutas, abrindo conexões para a criação e invenção de novos campos de existencialização.

Neste sentido podemos falar de modulações das subjetividades. Uma vez que são produzidas no campo social e cultural, nas relações estabelecidas entre as pessoas e nos contextos nos quais estão situadas em cada espaço-tempo regidas por discursos que enunciam vozes vias de existências, tem-se que a subjetividade é plástica, transitória e negociada a cada encontro vivido pelos corpos sujeitos.

Considerando que a subjetivação é produzida no campo social, cultural e político, os efeitos de subjetivação ora normatizam os sujeitos regulando e disciplinando os corpos a partir de dispositivos de poder disciplinar, ora singularizam esses mesmos corpos de modo criativo e vibrante de produção de novas existencializações, problematizando a respeito daquilo que escapa dos processos de normatização, das amarras impostas pelo bio-poder disciplinar e suas regulações biopolíticas, agindo sobre grupos e coletivos, anunciando a emergência de novos sujeitos de direitos que reivindicam emancipações pessoais, sociais, políticas e culturais, levando em consideração as interseccionalidades que demarcam as diversidades categoriais de classes, raças, sexos, sexualidades, gêneros, desejos, prazeres, capacidades, posições geopolíticas e geracionais.

A partir desses mapeamentos cartográficos a respeito das subjetivações e suas modulações dos modos de produção de corpos sujeitos passamos a problematizar a respeito da emergência de sujeitos de borda, que se situam nos campos de forças em que se processam embates nada sutis de enfrentamentos entre pessoas capturadas pela norma e que dão manutenção para a permanência de modelos reativos de existências, de manutenção à identidades fixas e imutáveis e, as pessoas que resistem a essas imposições e ampliam as referências sobre o humano, sobre o vivo. Será na borda que encontraremos as multiplicidades em ação que desmancham as certezas identitárias e subvertem as ações do poder disciplinar e regulador (Deleuze & Guattari, 1997). Em todos os espaços habitados pela multiplicidade encontraremos as demandas das diversidades humanas, as expressões que nos indicam cada vez mais que somos diversos e por isso marcados pelas diferenças.

Na borda encontramos o embate entre o “anormal” e o “anômalo” considerando que todos temos uma dimensão anormal e outra anômala que nos habita e nos compõe na diversidade. De modo conceitual, Deleuze e Guattari (1997) alertam-nos que “o anormal só pode definir-se em função das características, específicas ou genéricas; mas o anômalo é uma posição ou um conjunto de posições em relação a uma multiplicidade” (Deleuze & Guattari, 1997, p. 27).

Enquanto o “anormal” diz respeito a uma categoria de individuação, de aprisionamento conceitual a uma unidade, a uma verdade absoluta e totalizante, o “anômalo” nada tem a ver com certezas e reducionismos falocêntricos e monolíticos, pois não se anuncia como portador da espécie em estado puro enquanto modelo único.

O anômalo não é um individuo nem espécie, ele abriga apenas afetos, não comporta nem sentimentos nem sentimentos familiaristas ou subjetivados, nem características específicas ou significativas. . . . Nem individuo, nem espécie, o que é o anômalo? É um fenômeno, mas um fenômeno de borda. (Deleuze & Guattari, 1997, p. 27)

Isso coloca em pauta os usos indiscriminados do conceito de norma e sua contraposição, o “anômalo”, como discurso higienista que atesta a superioridade de algumas pessoas sobre as outras, de modo a desqualificá-la, inferiorizá-la e destruí-la enquanto pessoa de direito a ser respeitada, muitas vezes se apropriando do dispositivo de patologização como único recurso de análise.

A perspectiva do “anômalo” se distancia das capturas normativas para se situar no lugar de resistência e ampliar a ideia que se possa ter de ser humano; o “anômalo” tem mais aproximação à ideia de diferença, de pluralidade e de criação. Enquanto expressão das diferenças que habita a borda, ele se mostra inserido no plano da multiplicidade, dado que

uma multiplicidade se define, não pelos elementos que a compõem em extensão, nem com as características que a compõe em compreensão, mas pelas linhas e dimensões que ela comporta em “intensão”. Se você muda de dimensões, se você acrescenta ou corta algumas, você muda de multiplicidade. Donde a existência de uma borda de acordo com cada multiplicidade, que não é absolutamente um centro, mas é a linha que envolve ou é a extrema dimensão em função da qual se pode cortar as outras. (Deleuze & Guattari, 1997, p. 27)

As oscilações da multiplicidade nos mostram como os modos de subjetivação singularizantes precisam ser considerados nas análises psicossociais e políticas, no sentido de problematizar as expressões das diferenças como composições existenciais possíveis, nada tendo de pecado, crime ou patologia quando de suas emergências no campo social e presentes nas relações interpessoais.

Será na borda que encontraremos os sujeitos das diferenças já problematizados em outros momentos e que foram trazidos por Donna Haraway (2009) como corpos-sujeitos ciborgues, alertando-nos que os ciborgues seriam seres que habitam as fronteiras e, por isso, se compõe com multiplicidades e devires em fluxos contínuos de subjetivação. Assim, falarmos de subjetivação em trânsito e em construção permanente que destrói as intenções nada inocentes de uma ciência psicológica restrita a padrões estéticos e conceituais cristalizados e imutáveis, evidenciando novos desafios de reconexão da Psicologia com a realidade, de posicionamento político do observador “em favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade em sua construção” (Haraway, 1995, p. 42).

De modo complementar, Paul Preciado (2011) nos fala sobre corpos-sujeitos queer, de como os corpos não podem ser reduzidos a uma identidade totalizada por uma subjetivação monista, considerando que todos os corpos são compostos por multiplicidades, sendo destacado pelo autor como multidões queer. A noção de multidão contestaria a própria ideia de diferença sexual, produzida por uma contraposição binária e totalizante, considerando que

ela se opõe às políticas paritárias derivadas de uma noção biológica da “mulher” ou da “diferença sexual”. Opõe-se às políticas republicanas universalistas que concedem o “reconhecimento” e impõem a “integração” das “diferenças” no seio da República. Não existe diferença sexual, mas uma multidão de diferenças, uma transversalidade de relações de poder, uma diversidade de potências de vida. Essas diferenças não são “representáveis” porque são “monstruosas” e colocam em questão, por esse motivo, os regimes de representação política, mas também os sistemas de produção de saberes científicos dos “normais”. Nesse sentido, as políticas das multidões queer se opõem não somente às instituições políticas tradicionais, que se querem soberanas e universalmente representativas, mas também às epistemologias sexopolíticas straight, que dominam ainda a produção da ciência. (Preciado, 2011, p. 19)

Essa referência coloca o corpo-sujeito queer como um corpo hibrido e, neste sentido, como efeito da subjetivação singularizadora que dialoga com o corpo-sujeito ciborque de Donna Haraway, mas que também se aproxima da ideia de corpo-sujeito nômade proposto por Braidotti (2000), quando afirma que o nômade possui

diferentes facetas de la noción de “sujetos nómades” como una figuración teorética conveniente para la subjetividad contemporánea. . . . expresa salidas alternativas a la visión falocêntrica de sujeto . . . una subjetividad alternativa. . . . a fin de inventar nuevos marcos de organización, nuevas imágenes, nuevas formas de pensamiento . . . que vaya más allá de las imposiciones dualistas y los hábitos perversamente monológico del falocentrismo. (Braidotti, 2000, p. 26)

A EMERGÊNCIA DO SUJEITO NÔMADE DE ROSI BRAIDOTTI E SEUS PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO

Como objetivo de nossas indagações a respeito dos processos de subjetivação que vimos expondo até então, vamos privilegiar o modo corpo-sujeito de resistência que compõe os processos de singularização, regidos pela subjetivação singularizadora, qual seja, o sujeito nômade anunciado por Rosi Braidotti (2000, 2006) e seu modo de produção: a subjetivação nômade.

Queremos problematizar a respeito de como essas expressões nômades podem contribuir com a Psicologia, no sentido de ampliar as análises psicológicas e psicossociais que orientam as práticas psis em suas dimensões clínicas e institucionais.

Tendo como ponto de partida o texto de Deleuze e Guattari (1997) que trata sobre a nomadologia, Rosi Braidotti nos apresenta problematizações a respeito do nomadismo, e, de como novos sujeitos emergem em contraposição à modelos rígidos de produção de sujeitos-corpos binarizados e aprisionados pela lógica patriarcalista, identitária, falocêntrica e totalizante.

Rosi Braidotti (2000) se propõe a desenvolver uma visão da subjetividade feminista de um modo nômade a partir de alternativas à visão falocêntrica patriarcal de sujeito e, neste sentido, pensa a consciência nômade como um imperativo epistemológico e político para o pensamento crítico na pós-modernidade.

O termo pós-modernidade é usado por Braidotti para assinalar um momento específico da história no qual as transformações profundas do sistema de produção econômica estão alterando também as estruturas sociais e padrões tradicionais, evidenciando a decadência dos sistemas de pensamentos e dos controles exercidos pelo Estado, pela família nuclear burguesa e pelos dispositivos falocêntricos de regulação.

A decadência desses sistemas aponta para uma crise de valores que constituem uma abertura para novas possibilidades, produzindo novas perguntas: que questões nos trazem essa nova criatividade teórica e política? De onde surge o novo? Que paradigmas podem nos ajudar a elaborar novos esquemas? O modelo racionalista está desacreditado ou ainda pode produzir alguma inspiração? O modelo de criatividade artística nos indica alguma alternativa melhor? (Braidotti, 2000).

Rosi Braidotti afirma acreditar que as ficções políticas e teorizações a respeito da crise dos paradigmas possam dar pistas de novos arranjos na atualidade, e com isso promover novas alianças de enfrentamento às ideias retrogradas e de promoção de novos sujeitos do feminismo, o que acreditamos beneficiar as populações como um todo. Aposta na ideia de transposição ao considerar que esse conceito

Indica una transferencia intertextual que atraviesa fronteras, transversal, en el sentido de un salto desde un código, un campo o un eje a outro, no meramente en el modo cuantitativo de multiplicaciones plurales sino, antes bien, en el sentido cualitativo, de multiplicidades complejas. No se trata solo de entretejer diferentes hembras, las variaciones sobre un tema (textual o musical), sino también y más precisamente de interpretar la positividad de la diferencia como un tema específico en si mismo. En el ámbito musical, la transposición indica las variaciones y cambios de escala dentro de un esquema discontinuo pero harmonioso. Se crea así una especie de espacio intermedio de zig-zag y cruce: no lineal pero tampoco caótico; nómada y, sin embargo, responsable y comprometido; creativo, pero también cognitivamente válido; discursivo y también materialmente corporizado en el conjunto: es coherente sin caer en la racionalidad instrumental. (Braidotti, 2006, p. 20)

As questões de Braidotti se orientam por problematizações a respeito da emergência de novas demandas de subjetivação que geraria aquilo que a filósofa chama de sujeitos nômades. A emergência desses sujeitos solicita novas proposições e transposições a respeito dos processos de subjetivação nômades, o que amplia e transporta a ideia de subjetivação da abjeção para a idéia de subjetivação da potência.

A ideia de transcontemporaneidade é trazida por Braidotti para pensar a crise dos paradigmas e as urgências de revisão teórica e metodológica diante da produção de saberes que, orientada por Donna Haraway (1995), são sempre parciais e localizadas. Para ela, as influencias do patriarcado e do falocentrismo comprometem a produção do conhecimento devido à ausência de críticas políticas que reduzem as relações humanas em padrões de normatizações estatísticas e de classificações nosográficas determinadas pelas desigualdades sociais, sexuais e de gêneros, evidenciando a urgência de negação de classificações e conceitualizações caducas e descontextualizadas.

O ponto de partida da maior parte das redefinições contemporâneas da subjetividade é uma nova forma de materialismo que desenvolve o conceito de materialidade corporal colocando ênfase na estrutura corporificada. Portanto, sexualmente diferenciada dos corpos sujeitos contemporâneos. Em consequência reconecta as raízes corporais da subjetividade como ponto de partida para iniciar um projeto epistemológico de nomadismo. O corpo, a corporificação do sujeito, não deve ser entendida unicamente como uma categoria biológica nem como uma categoria sociológica, mas como um ponto de superposição entre o físico, o simbólico e o sociológico, pelas interseccionalidades que produzem sistemas de opressão e de privilégios, repudiando radicalmente o essencialismo.

Do lugar em que fala Braidotti os sujeitos não são tomados como uma essência monolítica definida de forma acabada, mas como um conjunto de experiências múltiplas, complexas e potencialmente contraditórias, definidas por variáveis que se superpõem, tais como: classe, raça, idade, estilo de vida, gênero, preferências sexuais, capacidades e outras marcações de estigmas. A autora assume uma posição anti-essencialista dizendo que quantas mais figurações alternativas se associarem nesta fase da prática feminista, mas também de outros grupos críticos ao poder normativo, tanto melhor. Ou seja, as análises pautadas pelas teorias sobre interseccionalidades não apenas são válidas, como imprescindíveis.

O nômade é a própria figuração de uma interpretação situada, pós-moderna, culturalmente diferenciada do sujeito em geral e do sujeito da resistência em particular; na medida em que eixos de diferenciação, tais como classe, raça, gênero, idade e outros marcadores sociais entrem em intersecção e interação entre si, contribuirão para constituir a subjetividade, e nesta perspectiva a noção de nômade será composta pela presença simultânea de muitos de tais eixos.

Rosi Braidotti (2000) afirma que o sujeito nômade é um mito, uma ficção política que permite analisar com detalhes as categorias estabelecidas e os níveis de experiências e deslocamentos estabelecidos por eles: borrar as fronteiras sem desmanchar as pontes de conexão, cartografando assim, os lugares de borda. Implica acreditar na potência e na relevância da imaginação, na construção de mitos, como um modo de êxtase político e intelectual destes tempos contemporâneos.

A figura mítica do sujeito nômade se mostra como um movimento contra a natureza estabelecida e conservadora do pensamento teórico binário e totalizador padronizado. Esta figuração consiste em priorizar a ação política diante da decadência das identidades estáveis, fixas e totalizadas.

Para Braidotti (2000), as imagens dos sujeitos nômades se inspiram nas próprias experiências nômades, de modo que o nomadismo em questão se refere ao tipo de consciência critica produzida pelos modos socialmente codificados de pensamentos e condutas. O que define o estado nômade é a subversão às convenções estabelecidas como regimes de verdades inquestionáveis.

A autora apropria-se do esquema de pensamento apresentado por Gilles Deleuze que resiste às tentações românticas implicado em uma dissolução total da idéia de centro, de noções de lugares originários ou de identidades autenticas de qualquer tipo. Aposta na advertência crítica feita por Deleuze e Guattari de que haveria riscos de que os sistemas pós-modernos, com sua fragmentação e sua perda de unidade, poderiam reproduzir globalmente as relações de poder em pequenas escalas, como os micro-fascismos: formações de poderes menores, mais localizados, igualmente explosivos, caracterizados pela reprodução de hegemonias disseminadas, em uma escala global. Uma epistemologia nômade radical diz respeito a uma forma de resistência ao micro-fascismos, na medida em que solicita um distanciamento qualitativo dessas hegemonias, ainda que tenha um alcance local.

Em alguns casos, o modo figurativo pode funcionar como aquilo que Braidotti (2000) tem chamado de filosofia do “como se” - é como si algumas experiências trouxessem reminiscências ou evocassem outras; essa capacidade de fluir de uma série de experiências a outras seria uma qualidade de interconectividade, em que o fluxo de conexões não estaria relacionado necessariamente como atos de apropriação, pois pelo contrário, marca transições entre estados ou experiências comunicantes. As idéias de linhas de fuga e de devir apresentadas por Deleuze e Guattari (1997), se mostram como importantes fontes de inspiração.

O devir nômade não é uma repetição, nem uma mera imitação, pois se constituem como uma aproximação empática, uma interconectividade intensa. O devir, nos diria Deleuze e Guattari (1997, p. 18), “não é uma correspondência de relações. Mas tampouco é ele uma semelhança, uma imitação e, em última instancia, uma identificação . . . devir não é progredir nem regredir segundo uma série”. Os autores ainda complementam: “Enfim, devir não é uma evolução, ao mesmo uma evolução por dependência e filiação. O devir nada produz por filiação; toda filiação seria imaginária. O devir é sempre de uma ordem outra que a da filiação. Ele é da ordem da aliança” (Deleuze & Guattari, 1997, p. 19).

Enquanto devires os deslocamentos nômades designam um estilo criativo de transformação - metáforas performativas - que permitem que surjam encontros e fontes de interação de experiências, de filiações, negociações e conhecimentos insuspeitos, e que, de outro modo dificilmente teriam lugar de expressão. Como expressão de multiplicidade o nômade não reivindica um lugar fixo e muito menos uma identidade acabada, ele se afirma enquanto modulações de diferenças em expansão.

A prática de “como si” seria uma técnica de relocalização estratégica do nômade que lhe permite resgatar o que precisa do passado a fim de traçar caminhos de transformação de novas vidas no aqui agora enquanto processualidade. Este processo consiste em reconhecer e negar simultaneamente certos atributos ou experiências que escapem do pensamento pós-moderno de corrente patriarcal e falocentrica que parece caracterizar a maior parte das discussões, por exemplo, sobre diferença sexual. Não se pode esquecer que essa prática não tem um efeito subversivo automático, pois, como adverte Judith Butler (2003), a força do modo paródico consiste precisamente em esforçar-se por evitar as repetições monótonas que provocam o estancamento político.

No modo apresentado por Butler (2003), a paródia pode ser politicamente potencializadora com a condição de que esteja sustentada por uma consciência crítica que engendre transformações e mudanças. Desde o momento em que se postula uma consciência crítica radical como condição prévia se estará comprometido a abordar questões relacionadas com a repetição, a diferença e a subversão de códigos dominantes que exigem esquemas de explicação mais complexos, considerando que as pessoas e as situações são sempre reversíveis, o que permitiria esclarecer que o fluxo constante das experiências se associa a um continuum de alta tecnologia entre diferentes níveis de experiências.

O sujeito nômade como figura performativa permite cruzar diferentes níveis de experiências, contendo elementos pessoais e coletivos contemplando uma visão pós-metafísica da subjetividade. Para Braidotti, esse tipo de figura do sujeito nômade lhe permite conjugar um modo de política implicada com uma variedade de outras preocupações discursivas e imagéticas, como explorar o enfoque performativo do nomadismo e a riqueza metafórica presente nas experiências, indagando sobre algumas ressonâncias cognitivas e afetivas da imagem do nômade, como processualidades desejantes nem sempre previsíveis.

No entendimento de Braidotti (2000), os sujeitos nômades são capazes de liberar a atividade do pensamento do jogo do dogmatismo patriarcal falocêntrico e de devolver a sua liberdade, vivacidade e beleza. Para Braidotti (2000), há uma dimensão estética na busca de figurações nômades alternativas e a teoria feminista, assim como, com outras teorias críticas ao binarismo, e neste sentido, orientada por Donna Haraway, afirma que necessitamos de figuras feministas e de diversidades de humanidade que oponham resistências à figuração tradicional, promovendo novas metáforas, novas figuras de linguagem, novas possibilidades históricas, novos processos desejantes, o que por sua vez promove novas perguntas e contestações.

O poliglota, nos alerta Braidotti (2000), é um nômade linguístico, um especialista na natureza enganosa da língua, de qualquer língua. As palavras têm uma maneira de não permanecerem imóveis, de seguir seus próprios caminhos. Vão e vem perseguindo rastros semânticos preestabelecidos, deixando para trás impressões acústicas, gráficas ou inconscientes. Como ilustração, recorda que em Alice no país das maravilhas, de Lewis Carol, Humpty Dumpty nos lembra que o que importa definir as significações das palavras é quem está no mando da situação.

Impulsionada pela necessidade e o desejo de radicalizar o universal, se apoia nas leituras realizadas por Michel Foucault sobre a subjetividade. Foucault (2012) sustenta que a constituição do sujeito frágil, cindido, da era pós-metafísica é, na realidade, um processo que consiste em codificar culturalmente certas funções e atos como significativos, aceitáveis, normais, desejáveis. Através desse processo pode-se inferir que a subjetivação de um sujeito se dá a partir de uma série de interdições e permissões discursivas, que inscrevem a própria subjetividade em uma base petrificada de poder, como efeito de discursos que se confundem com os lineamentos duros, flexíveis e de fuga em constantes negociações. O sujeito é, então, um monte de partes fragmentadas que se mantém unidas graças a sua adesão a ordem patriarcal falocentrica ou a identificação com ele. Nesta perspectiva, Braidotti (2000) se diz impressionada diante da violência do gesto que une as pessoas à ilusão performativa de unidade totalizante e o perigo de sua naturalização.

Alerta-nos sobre a importância da resistência política à ilusão de unidade como sendo uma prioridade importante quando apostamos na emergência de novos sujeitos no campo da subjetivação, o que por sua vez produzem novas linguagens e conceituações. Escapar das amarras normativas e inventar novos campos de existencialização podem contribuir para novas formulações conceituais que ampliem a própria visão de homem e de mulher cis-heteronormatizados que fundamentam uma Psicologia do ressentimento amparada na idéia de sacerdócio, como nos propõe Friedrich Nietzsche (1987), resgatados por Wiliam Peres (2014).

Ao pensarmos nos processos de subjetivação como vozes vias de produção de sujeitos, nos moldes como nos adverte Félix Guattari (1993), a subjetividade deve ser problematizada dentro de variações que o leva a definí-la como polifônica e heterogênica, o que incluem aspectos ontológicos e ecológicos e, desta forma, a ideia de subjetividade se distancia de seu aspecto monolítico e se aproxima de uma perspectiva coletiva, “no sentido de uma multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto à intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica dos afetos mais do que de uma lógica de conjuntos bem circunscritos” (Guattari, 1993, p. 175).

Para Braidotti (2000), não há língua materna imutável, mas somente lugares linguísticos que a gente toma como ponto de partida. O poliglota não tem uma linha unificada, mas muitas linhas de trânsito, de transgressão; perde alguns hábitos comuns, como por exemplo, o de poder recordar em que idioma canta as canções de ninar, em que língua sonha, ama ou fantasia. Ele sabe que o idioma não é somente o instrumento de comunicação; sabe que é um lugar de intercambio que nos vincula a todos em uma rede tênue, e ainda que viável, de mal entendidos midiatizados que chamamos civilização, mesmo porque, todo conhecimento é situado e parcial. Todos gaguejamos na busca de palavras mesmo quando falamos fluidamente.

Da mesma forma Glória Anzaldúa (2009) problematiza as variações que a língua pode produzir em diferentes contextos como expressão de corpos-sujeitos, o que nos mostra a polifonia dos enunciados que compõe o modo de subjetivação, mostrando a riqueza da multiplicidade das vozes que habita os corpos falantes em suas dimensões diversas. Para além da unidade, a subjetividade é produzida no campo social, político e cultural, compondo sempre com um plano afetivo, da ordem das afetações que permeiam os encontros dos corpos sujeitos.

Sendo assim, se pensarmos em uma identidade nômade, ou ainda em uma expressão nômade, ela seria possível através dos mapas dos lugares por onde passou, das linguagens que utilizou, das experiências que viveu, de modo a reprocessá-la posteriormente e inventar novos campos de existencialização re-significados, subvertendo os discursos patriarcais falocêntricos para se posicionar como diversidade, como diferença da diferença (Deleuze & Parnet, 1998).

As linguagens presentes nestas polifonias da subjetivação nos inclinam a problematizar a respeito dos processos desejantes que participam de sua subjetivação, que anunciam a emergência do desejo nômade. Tal como a subjetivação se dá no registro do social, o desejo também será produzido no campo social, político e cultural, evidenciando o que podemos chamar de processos desejantes. Neste sentido, podemos pensar o desejo como produção ao considerarmos que por habitar o campo social, ao entrarmos em relação com esse campo, seremos atravessados por ele e, com isso, passamos a desejar o desejável. Ou seja, dependendo das forças presentes no encontro com o contexto no qual estamos inseridos e as forças disponíveis nesse momento, o desejo poderá ser tanto desejoso da norma, como de resistência a essa mesma norma e com isso expressar o desejar criativo, enquanto imperativo da arte, da invenção e fluição de diferenças e possibilidades de novos campos existenciais. Torna-se importante para a prática da Psicologia não patologizar o desejo criativo em contraposição ao desejo da norma que classifica binariamente os corpos sujeitos em enfermidades, conforme ainda e com certa frequência se ensina na formação em Psicologia que se ampara em modelos arcaicos do século XIX (Peres, 2014).

Será na modulação do desejo enquanto criação que veremos a emergência do sujeito nômade, de resistência ao poder que institui modelos absolutos para promover abertura diante do novo. Um desejo que anuncia os corpos sujeitos da diferença que reivindicam respeito e direitos, sejam esses corpos LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros, Queer, Intersexos, + outros grupos sexuais e de gêneros dissidentes da cisheteronormatividade) de mulheres racializadas e periféricas, ou de outros corpos oprimidos pelas desgraças das interseccionalidade, oprimidos pelas hierarquias de sexo, gênero, classe e outros marcadores sociais de diferença (Lugones, 2008).

O desejo é produtivo porque continua fluindo, mantém-se em movimento, porém sua produtividade implica também relações de poder, transições entre registros contraditórios, deslocamentos de ênfases, mudanças de sentidos.

A partir dos processos desejantes vemos também a emergência daquilo que Braidotti (2000) denominará como sendo uma estética nômade. Quando pensamos a estética nômade estamos falando de posições éticas e políticas que se misturam e produzem imagens e posições de corpos - sujeitos que afirmam determinado modo de existência, no sentido de afirmar-se como possibilidade concreta de expressão e de liberdade.

A partir de processos e questionamentos apresentados por Rosi Braidotti em seus livros “Sujetos Nómades” (2000) e “Transposiciones: sobre la ética nómada” (2006) a autora abre possibilidades para que possamos colocar em análise os modos de subjetivação, a produção de sujeitos e suas dimensões éticas em uma perspectiva nômade.

A emergência de sujeitos na contemporaneidade precisa ser distanciada de modelos ultrapassados, ainda usados na formação e na prática da Psicologia, e que foram produzidos e fixados em outras épocas, restritos a conceitos essencializados, binários e totalizados, como se, ao longo do tempo, não tivessem sofrido mutações ou ainda se mantivessem aprisionados em modelos identitários cristalizados.

A partir dos postulados da filosofia nômade de Rosi Braidotti (2000, 2006) podemos repensar as teorizações feitas pela Psicologia e problematizar a respeito da emergência de uma subjetividade que não é unitária e, muito menos utilitária, pois ela é produzida por modos de subjetivação ampliado e implicado em contextos sociais e culturais. Sobre isso, a autora afirma-nos que

con subjetividad no utilitaria me estoy referendo a una visión nómada, dispersa, fragmentada que, sin embargo, es funcional, coherente y responsable, principalmente por que está encarnada y corporizada . . . visión en términos de responsabilidad y acción ética y política y explora la posible creación de un sistema de valores éticos que, lejos de requerir una visión fija y unificada del sujeto, se basa en una visión no utilitaria, nómade y rizomática . . . ejemplos concretos de ética tomados de los campos del ambientalismo, del feminismo, del antirracismo y de los estudios de ciencia y tecnologia. (Braidotti, 2006, p. 20)

Neste sentido, o sujeito não pode ser entendido como uma mônada, como uma individuação restrita a uma unidade, ao indivisível e limitação dos modos totalizantes. Juntamente com Deleuze e Guattari (1995) apostamos que o sujeito contemporâneo é produzido por multiplicidades constitutivas, por variações de componentes coletivos de enunciação, o que o caracteriza como sujeito marcado por interseccionalidades enquanto um emaranhado de linhas de entrecruzamentos políticos, sociais e culturais, que se multiplicam conjuntamente com a biologia e as repetições maquínicas, evidenciando sua dimensão polifônica o que, por sua vez, ilumina a presença de marcadores sociais das diferenças, que compõem sistemas de opressões e privilégios, tais como, classe, raça, etnia, sexo, sexualidade, gônadas, hormônios, peso, altura, gerações, desejos e localizações geopolíticas.

São esses lineamentos que configuram aquilo que Rosi Braidotti propõe como imbricações constitutivas do sujeito, caracterizados como transposições de multiplicidades que como processos em devires anunciam o sujeito diverso, amplo, e, inclusive contraditório.

REFLEXÕES QUASE CONCLUSIVAS

Apresentamos por meio da escrita cartográfica desse manuscrito algumas problematizações a respeito dos processos de subjetivação, no qual apostamos na idéia da subjetividade como produção de real social, ou seja, ela nada teria a ver com a interioridade ou ainda com uma essência restrita a modelos monistas e totalizados. A subjetividade enquanto algo processado a partir de negociações permanentes resulta da interação de lineamentos que podem tanto segmentar os corpos - sujeitos e aprisioná-los em uma identidade fixa tida como “natural”, como pode promover um estado de arte que o tempo todo pode promover esses corpos sujeitos como estilos de vida, como diferenças que não são classificáveis por instancias binárias e totalizadoras, mas, coloca-los em processos de reinvindicação de respeito e direitos de viver, fora das amarras do pecado, do crime e das patologizações.

Dialogando com autoras e autores da filosofia das diferenças, tais como, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Rosi Braidotti, assim como, com autoras e autores dos estudos sobre interseccionalidades, somados às autoras e autores decoloniais, entre outras referências teóricas apresentadas, apostamos em conexões que possam contribuir para a produção de uma Psicologia política e emancipatória, que se assuma como defensora dos corpos sujeitos das diferenças e seus respectivos direitos de ser, estar e viver no mundo com dignidade e saúde mental garantida.

Apostas nos corpos sujeitos que habitam a borda, sejam corpos ciborgues, queers ou nômades, como corpos livres e autorizados para se expressarem em suas singularidades, podem favorecer uma formação e uma prática da Psicologia mais antenada com seu tempo histórico e com compromisso social, cultural e político que promova o bem estar psicossocial independente das desgraças interseccionais que promovem sistemas de opressão e de privilégios. A luta contra os sexismos, machismos, racismos, misoginias e lgbtqia+fobias não são somente restritas a grupos excluídos, mas pertence também à Psicologia no sentido de promoção da saúde mental e promoção de direitos à cidadania da população em geral..

De modo mais incisivo, apresentamos as proposições dos processos de subjetivação nômades na produção de corpos sujeitos nômades, com suas estilísticas nômades, que acreditamos promover outras perspectivas para a conceituação da subjetividade, dos processos desejantes e dos novos campos de existencialização.

Será essa ampliação da ideia de sujeito na contemporaneidade que coloca em tela uma nova proposta para que a Psicologia interaja com a dimensão do humano nas formulações teóricas e conceituais, nas suas metodologias e nas práticas concretas de suas ações.

Que possamos refletir e problematizar sobre a Psicologia que queremos e praticamos em nossos cotidianos e, assim, assumir posições políticas que favoreçam a emancipação dos povos em suas diferenças, sejam eles, indígenas, afrodescendentes, mulheres em vias de independência e emancipação do patriarcado e do falocentrismo, mulheres racializadas e periféricas, sejam corpos sujeitos LGBTQIA+, em especial, as travestis e homens e mulheres transexuais.

Assumir as pautas das lutas e reivindicações coletivas advindas dos movimentos sociais e culturais coloca a Psicologia como dispositivo que defende a liberdade, a diferença e a vida como valor maior.

Financiamento Não houve financiamento

Consentimento de uso de imagem Não se aplica.

Aprovação, ética e consentimento Não se aplica.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 28 de Maio de 2022; Revisado: 24 de Abril de 2024; Aceito: 30 de Abril de 2024

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