INTRODUÇÃO
Para Lélia González (2020), ser mulher, brasileira e negra representa ser alvo de uma tripla discriminação, que é racista, classista e sexista. O movimento feminista negro foi gestado e criado por mulheres negras a fim de se pensar nas diversas encruzilhadas que se colocam para aquelas que não se encaixam no que Talíria Petrone (2019) denomina como uma concepção universalista de ser mulher e que exclui outras possibilidades de existências femininas. Ainda que o movimento feminista, em sua pluralidade de manifestações, promova olhares, críticas e (re)existências ao sexismo e à misoginia, nem todos os feminismos acolhem e emancipam as diferentes formas de se ser mulher (Petrone, 2019).
Aqui, cita-se Patricia Collins e Sirma Bilge (2019) que discorrem sobre como o movimento feminista esteve, em grande parte, movido pelos interesses de mulheres brancas e em ascensão social, sem considerar a análise interseccional sobre raça e etnia, gênero, classe, sexualidade. Por outro lado, pensando na colonização vivida em território brasileiro, mesmo o movimento negro e o ativismo antirracista estão sujeitos a negligenciarem as questões de gênero que tangenciam as experiências de mulheres negras (Collins & Bilge, 2019).
Isso conduz a uma reflexão sobre uma possível cisão existente entre experiências racializadas, gendradas e de classe. Contudo, sendo o patriarcalismo e a escravidão constitutivos da sociabilidade burguesa (Petrone, 2019), esses contingenciam as experiências destas mulheres com o outro e na construção de suas próprias identidades. Raça, classe e gênero não são categorias alienadas de si mesmas, mas dimensões sociais do ser que se influenciam e se apresentam simultaneamente. Portanto, a análise de todos esses atravessamentos exige a compreensão dessa múltipla interação, tarefa que pode ser melhor realizada com o auxílio do conceito de intersecionalidade.
Collins e Bilge (2020) discorrem sobre a interseccionalidade enquanto ferramenta analítica da realidade social. Trata-se de um caminho teórico e metodológico para compreensão das experiências de múltiplas opressões vividas por mulheres negras em função dos marcadores sociais de raça, classe, gênero e de outras violências correlatas - como o capacitismo, LGBTQIA+fobia, dentre outros (Akotirene, 2019).
A interseccionalidade coloca-se enquanto um caminho que visibiliza a experiência de quem é marginalizada, viabilizando a produção de discursos contra-hegemônicos que contribuam para ações efetivas em prol da transformação da realidade social. Leoncio Camino e Eliana Ismael (2012) discorrem sobre o importante papel que a Psicologia ocupa nesse processo, sobretudo na luta contra processos de exclusão, uma vez que esta é uma ciência cujo olhar possui grande peso na compreensão da sociedade sobre fenômenos sociais. Porém, é importante contextualizar que o modo tradicional de fazer Psicologia em muito contribuiu para a manutenção de hierarquias e opressões.
No Brasil, a história da Psicologia pautou-se na importação de teorias eurocêntricas e estadunidenses e, portanto, na reprodução de ideias e técnicas que pouco se adaptam à realidade do país (Vilela, 2012). Tal movimento pode ser compreendido enquanto um dos diversos desdobramentos do colonialismo que, nas palavras de Silvio de Almeida (2019), foi um fenômeno global de subordinação e subalternização de povos não-ocidentais por povos europeus, através da violência, submissão e apagamento cultural e epistemológico. Esse processo foi fortemente influenciado pelo conceito de “raça”, termo pretensamente neutro, o qual constitui-se enquanto um conceito relacional e político, que só faz sentido se levarmos em consideração a história do surgimento da noção de raças e da categorização entre elas. Assim, povos não brancos eram vistos como primitivos, pouco desenvolvidos, o que justificava, através de um discurso de salvação do homem cis branco europeu, sua exploração.
A herança colonial persistiu e ainda persiste ao longo dos séculos, naturalizando interpretações de mundo baseadas nessa visão de povos pouco desenvolvidos em contraposição a povos desenvolvidos. Assim, a epistemologia dos grupos que se encaixam na primeira categoria foi e é deslegitimada quando em comparação com a epistemologia daqueles que se enquadram na segunda categoria. O termo “colonialidade do saber” designa a restrição da compreensão de mundo aos conhecimentos produzidos e impostos por homens brancos e ocidentais - sobretudo os de origem francesa, alemã, inglesa, estadunidense e italiana - que monopolizam a construção do conhecimento, instituindo saberes hegemônicos e desqualificando outras perspectivas (Menezes, Lins, & Sampaio, 2019).
Ainda pensando sobre como tais questões se desenvolvem no Brasil, compreende-se que o colonialismo do saber está intimamente ligado com o epistemicídio, termo que Sueli Carneiro (2005) desenvolve para denunciar as constantes desqualificações dos saberes construídos pela população afro-brasileira. Quando pensamos no apagamento ou no “rebaixamento” de outras epistemologias e de outras formas de compreensão das experiências humanas, sobretudo na produção de conhecimento no âmbito da Psicologia, é preciso levar em consideração o projeto de epistemicídio em curso na sociedade. Trata-se de uma obliteração, colonização e apagamento de práticas sociais não-ocidentalizadas de conhecimento, por meio da opressão e da violência (Santos, Meneses, & Nunes, 2004). Dentro desta lógica, a pluralidade epistemológica de povos e culturas é reduzida à lógica do colonizador que, por sua vez, postula um modelo supostamente universal e generalizável de existência e produção de conhecimento sobre o mundo. É importante ressaltar que, ainda de acordo com os autores, essa epistemologia dominante é contextual, sustentando-se em um modelo político-social cristão e econômico capitalista.
É um “processo persistente de produção da indigência cultural” (Carneiro, 2005, p. 97), que desqualifica não só formas de conhecimento daqueles que foram dominados, mas também esses próprios povos, de maneiras individuais e coletivas. Isso se dá por meio da negação ao acesso à educação universal e de qualidade e do rebaixamento intelectual e cognitivo da população negra, seja por práticas discriminatórias ou pela carência material no processo educacional e de ensino. Em última instância, tais práticas reafirmam um lugar de subalternidade desse grupo na produção do conhecimento, colocando-o como incapaz de (re)construir saberes e legitimando quais as características dos autores considerados válidos.
E quais as implicações dessa colonialidade do saber na construção de compreensões sobre as experiências de mulheres negras? A princípio, retomamos as críticas já levantadas ao movimento feminista, sobre esse nem sempre ser inclusivo a todas e limitar-se a uma concepção universal de ser mulher, que por sua vez possui implicações sexistas em sua construção. Resgatamos o dado de que a experiência de homens cis, heteros, brancos, proprietários e sem deficiência é tomada enquanto paradigma para compreensão de todas as experiências de ser, tornando-se, de forma arriscada, um ponto de partida para uma construção de saberes generalistas sobre o ser. A epistemologia feminista sempre teceu críticas às estruturas objetivas que naturalizam conceitos e olhares em torno da experiência de ser mulher, o que não seria diferente na produção do conhecimento científico, nos mais diversos campos de saberes.
Partindo de tais considerações, a questão central desta pesquisa bibliográfica indaga sobre quais são os olhares que a Psicologia lança sobre os corpos de mulheres negras, bem como sobre como suas experiências são interpretadas por meio dessa ótica racista e sexista. Para essa revisão, optamos por refletir sobre as vivências de mulheres negras e psicólogas, pois as compreendemos inicialmente enquanto aquelas que, rompendo com o lugar de objeto de estudo para tornar-se sujeito, desafiam a lógica das ciências modernas e tornam-se porta-voz de suas próprias experiências.
Assim, a proposta deste artigo é conhecer as experiências de mulheres negras psicólogas em sua formação e inserção no mercado de trabalho, a partir das publicações acadêmicas produzidas por essas mulheres. Escolhemos dar visibilidade a essas produções enquanto uma forma de romper com a objetificação da mulher negra (inclusive enquanto “objeto de estudo”), reposicionando-a enquanto sujeito político, intelectual e de luta. Trata-se ainda de uma forma de visibilizar histórias, narrativas e questões políticas pertinentes à Psicologia.
Para isso, desenvolvemos uma revisão narrativa de literatura visando conhecer as reflexões que psicólogas negras têm produzido e publicado sobre suas experiências no âmbito da formação acadêmica e profissional. Como objetivos específicos, buscamos: (a) identificar e dialogar com os temas abordados; (b) conhecer as ancoragens teóricas que sustentam essas investigações; (c) identificar os contornos metodológicos dos estudos desenvolvidos (modalidades de pesquisa, ferramentas usadas na construção das informações etc); (d) mapear temporalmente essas produções e os veículos usados para sua publicação.
MÉTODO
Optou-se por realizar uma revisão narrativa a qual é apropriada para descrever e discutir o desenvolvimento ou o estado atual de conhecimento sobre um determinado assunto (Rother, 2007). Tal modalidade, quando comparada à revisão sistemática, mostra-se mais aberta, dificilmente partindo de uma questão específica bem definida, mas de um tema amplo (Cordeiro et al., 2007).
Comumente, as revisões narrativas não apresentam as fontes de informação utilizadas, a metodologia de busca das referências, nem os critérios utilizados na avaliação e seleção dos trabalhos (Rother, 2007). Entretanto, explicita-se nas linhas abaixo os passos que foram seguidos para a construção deste estudo, com vistas a evidenciar as decisões que conduziram ao escopo e às análises apresentadas.
Inicialmente foram consultadas as bases: Coleciona SUS, Google Acadêmico, LILACS e SciELO, objetivando a busca de artigos completos. Todavia, em virtude do reduzido número de publicações encontradas, decidiu-se pela inclusão do catálogo de teses e dissertações da CAPES no âmbito das buscas, e também resumos publicados em anais de eventos. Ainda em função do baixo número de estudos encontrados, não foi empregado nenhum filtro temporal referente ao ano de publicação. Em todas as bases foram utilizados os termos “psicóloga negra”, “psicóloga preta” e os seus respectivos plurais, além do filtro de idioma em língua portuguesa, para a localização de publicações.
Definimos como principal critério de inclusão a temática abordada, que deveria buscar refletir sobre a formação e inserção profissional de psicólogas negras. Como critério de exclusão, descartamos todos os estudos que não tratavam de questões raciais voltadas para a compreensão das experiências de psicólogas negras, de acordo com o tema desta revisão, além das repetições encontradas.
Quadro 1 Síntese dos resultados com o emprego das palavras-chave “psicóloga negra” e “psicólogas negras”.
| Base de dados | Total de resultados para busca com “psicóloga negra” | Total de resultados para busca com “psicólogas negras” | Total de estudos selecionados |
|---|---|---|---|
| Catálogo de teses e dissertações da CAPES |
0 | 4.652 | 2 |
| Coleciona SUS | 1 | 0 | 1 |
| Google Acadêmico | 74 | 54 | 5 |
| LILACS | 0 | 0 | 0 |
| SciELO | 1 | 0 | 1 |
| TOTAL | 9 |
Quadro 2 Síntese dos resultados com o emprego das palavras-chave “psicóloga preta” e “psicólogas pretas”.
| Base de dados | Total de resultados para busca com “psicóloga preta” | Total de resultados para busca com “psicólogas pretas” | Total de estudos selecionados |
|---|---|---|---|
| Catálogo de teses e dissertações da CAPES | 0 | 1.116 | 1 |
| Coleciona SUS | 0 | 0 | 0 |
| Google Acadêmico | 6 | 3 | 1 |
| LILACS | 0 | 0 | 0 |
| SciELO | 0 | 0 | 0 |
| TOTAL | 2 | ||
Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionadas 11 publicações (apresentadas no Quadro 3), dentre teses de dissertação, artigos científicos e resumos publicados em anais de eventos. O próximo passo consistiu na leitura e releitura do material, de modo a mapear seus elementos centrais e identificar os principais temas abordados, de acordo com os objetivos.
Quadro 3 relação de publicações selecionadas.
| Autoria | Título | Ano de publicação |
Fonte |
|---|---|---|---|
| Corpo editorial da revista “Psicologia: Ciência e Profissão” | Eu, mulher, psicóloga e negra | 1984 | Psicologia: Ciência e Profissão [online], 4(2), 10-15. |
| Cerqueira, F. B. P. | Processos de subjetivação e saúde mental de mulheres negras: o impacto do racismo | 2013 | Resumo publicado em Anais da II Semana de Reflexões sobre Negritude, Gênero e Raça, 2, Brasília/DF. |
| Santana, H. M.; Castelar, M. |
Racismo e branquitude na prática profissional de psicólogas brancas e negras | 2015 | Revista brasileira de Psicologia, 2(nspe), 85-99. |
| Mariosa, G. S.; Pereira, A. A. |
Mulher, negra e psicóloga: de Candaces a Maria Bonita | 2017 | Resumo publicado em Anais do XIX Encontro Nacional da ABRAPSO (p. 247). ABRAPSO Editora (Poa). |
| Senna, A. | A trajetória acadêmica de uma psicóloga, mulher trans e negra na universidade | 2018 | Revista latino-americana de Geografia e Gênero, 9(2), 304-317. |
| Amaro, T. V., Alves, M. C., & Molon, S. I. | Trajetórias e (re)existências de mulheres pretas psicólogas | 2019 | Capítulo de livro. In Núcleo de Relações Raciais: percursos, histórias e movimentos(pp. 28-48). CRP-RS. |
| Silva, C. F. P. | Enegrecer a Psicologia e a academia: um caminho que começou no nosso corpo | 2019 | Dissertação de Mestrado e m Políticas Públicas Universidade do Estado do Rio de Janeiro, RJ. |
| Lima, C. D. | Narrativas e reflexões de uma psicóloga negra em formação na Saúde da Família e da Comunidade | 2020 | Trabalho de Conclusão de Residência em Sáude, Grupo Hospitalar Conceição, Porto Alegre/RS. |
| Amaro, T. V. | Processos de subjetivação de mulheres pretas psicólogas: humanidades e (re)existências | 2021 | Dissertação de Mestrado em Psic. Social, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, RJ. |
| Santos, A. S. R.; Emílio, S. A. |
A mulher negra e a formação em Psicologia. Quais as barreiras existentes? | 2021 | Revista Semina: Ciências Sociais e Humanas, 42(1), 115-132. |
| Santos, G. R. | Experiências pessoais, profissionais e a construção da identidade racial de psicólogas negras | 2021 | Dissertação de Mestrado em Sociologia, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte/MG.. |
Após a leitura exaustiva do material, foram identificadas três categorias centrais: a experiência de ser mulher negra, o ingresso no ensino superior e as experiências relacionadas ao trabalho como psicóloga. Estas serão discutidas a seguir, sendo importante mencionar que a primeira está fundamentalmente imbricada nas outras duas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Todas as publicações selecionadas adotaram embasamento teórico nas diferentes perspectivas teóricas que compõem o campo das relações étnico-raciais e/ou de gênero e que se alinham com a militância do movimento antirracista e antissexista. Partiram, assim, de uma compreensão social e crítica de suas informações, sem recorrer às escolas tradicionais da Psicologia ou a análises individualistas. A maior parte do material é composto por uma escrita autobiográfica, rompendo com o viés de uma suposta imparcialidade e neutralidade em pesquisa científica.
Oito publicações adotaram a abordagem qualitativa para construção das informações, utilizando diferentes ferramentas para tal (entrevistas semiestruturadas, pesquisas documentais, relato de experiência e autoetnografia). Já o estudo de Claúdia Ferreira Silva (2019) se caracterizou como uma produção teórico-reflexiva, resgatando bibliografias sobre as relações étnico-raciais a partir de reflexões produzidas em suas experiências enquanto psicóloga e militante.
Outro aspecto importante diz respeito à evolução temporal das publicações onde nota-se um considerável espaço de tempo entre os materiais encontrados. A maior diferença temporal se deu entre a primeira publicação selecionada, produzida pelo corpo editorial do periódico “Psicologia: Ciência e Profissão”, de 1984, e o resumo de Cerqueira (2013), 29 anos. O próximo estudo publicado em uma revista científica e selecionado para essa revisão é do ano de 2015. Somente nos anos de 2019 e 2021 foi encontrado mais de um material publicado. Foram identificados mais artigos científicos (04), seguidos de dissertações de mestrado (03), resumos publicados em anais de congressos (02), trabalho de conclusão de residência (01) e capítulo de livro (01).
Com relação aos temas abordados, esses foram agrupados em três categorias gerais, apresentadas a seguir. Na primeira categoria, analisamos a experiência da mulher negra por meio da interseccionalidade; na segunda, consideramos seu ingresso no ensino superior, muitas vezes viabilizado por políticas afirmativas, refletindo mais especificamente sobre a formação em Psicologia; e, por fim, tomamos as experiências de psicólogas negras em suas relações de trabalho.
AS INTERSECÇÕES DA EXPERIÊNCIA DE SER MULHER E NEGRA
O objetivo dessa primeira categoria temática é discutir sobre as experiências de ser mulher e negra em uma sociedade capitalista, patriarcal e racista. Tal problematização se faz necessária, pois identificou-se que as questões de raça, gênero e classe atravessam, em todas as publicações selecionadas, as experiências de suas autoras.
O trabalho de Gabriele Santos (2021) discute o cultivo do auto-ódio entre mulheres negras e o distanciamento de suas identidades raciais, por um lado, e, por outro, a busca por uma afirmação identitária que cesse a luta contra si mesma e reconstrua possibilidades de assumir a própria origem étnico-racial. A construção da subjetividade da mulher negra sofre fortes implicações do racismo e do sexismo, sobretudo no que diz respeito à percepção de si e do próprio corpo. A partir de um padrão de beleza eurocêntrico, atributos e características físicas que remetem à ancestralidade africana e demarcam a negritude de uma mulher são encarados por uma perspectiva pejorativa, reforçando posições de inferioridade e desumanização perante o modelo estético branco e sexista (Santos, 2021).
Frantz Fanon (1952/2020) discorre que, dentro da estrutura da branquitude, o negro e a negra encontram dificuldades na elaboração de seu esquema corporal. Isso porque a experiência de percepção do próprio corpo se dá, primordialmente, pela negação e pela construção de um conhecimento em terceira pessoa. Refletimos que essa experiência se dá de forma alienada, não com a pessoa conhecendo a si mesma por meio dos referenciais de sua própria cultura étnico-racial, mas pela perspectiva do colonizador, com o olhar voltado para a negação daquelas características que a tornam diferente do branco.
Dessa forma, à mulher negra é fácil despender um esforço para aproximar-se de um embranquecimento de si mesma, pois há estruturas promovendo uma dor por reconhecer-se negra em uma sociedade racista e sexista, viabilizando assim a negação de sua própria existência. Todavia, Santos (2021) aponta que é justamente a afirmação de sua identidade racial que promove um fortalecimento de si mesma para combater ao auto-ódio e a baixa autoestima, continuamente reforçados em suas vivências.
Um exemplo nesse sentido, exposto por Santos (2021) e Tainá Amaro (2021), é o assumir a textura cacheada ou crespa dos cabelos. Há um forte discurso estético racista legitimando, por meio da classificação racial de pessoas, o que é belo e o que não é, sendo o alisamento capilar um importante símbolo na promoção do embranquecimento de pessoas negras (Aguiar & Costa, 2021). Contudo, assumir as texturas naturais de seus cabelos, se apropriando dessa negritude que habita esse corpo e enegrece os espaços por onde essas mulheres percorrem, simboliza um grande ato de resistência e de fortalecimento de si mesma.
Mesmo as crianças não escapam da internalização de elementos que contribuem para a construção de um auto-ódio e de uma percepção de si de forma subalternizada. Camila Lima (2020) resgata uma série de intervenções realizadas junto a crianças, no sentido de desconstruir o racismo em seus discursos, contrapor-se ao movimento de embranquecimento e fortalecer o enegrecimento da subjetividade dessas crianças.
Ariane Senna (2019) contribui para que ampliemos nossos olhares, uma vez que a autora compartilha, por meio de uma autoetnografia, violências sofridas pelo fato de ser uma mulher trans e negra. Se por um lado, fizemos a análise do sexismo, do racismo, do classismo e dos modos como estes contingenciam a experiência de mulheres cisgênero, as mulheres trans e travestis negras ainda sofrem com a transfobia. Isso se dá devido ao extenso histórico de discriminação e patologização de identidades de gênero que rompem com a cisnormatividade (Jesus, 2014), e também à misoginia. Vemos aqui a confirmação de ser indispensável lançar mão da interseccionalidade como ferramenta de análise, pois esta permite lançar um olhar para as múltiplas experiências de violência vividas por mulheres, sejam cis, trans ou não-binárias.
Além disso, é importante resgatar o quanto o racismo e o sexismo estão imbricados nas relações sociais dessas mulheres, inclusive familiares (Santos, 2021). Isso resulta na reprodução de violências por meio de seus parentes, ainda que estes e estas sejam pessoas negras, representando não apenas a vitimização dessas mulheres, mas também uma autodegradação. Acrescenta-se que a autora aponta para o papel de cuidadora que mulheres negras assumem dentro desses sistemas familiares, produzindo suporte e promovendo cuidado para outras mulheres. Apesar disso, é preciso problematizar o estereótipo de “força” atribuído à mulher negra, tecendo reflexões sobre quem cuida de quem cuida.
Lima (2020) destaca esse estereótipo, pois em seus atendimentos percebe a recorrência da temática e o quanto mulheres negras estão exaustas de cuidarem dos outros acima de si mesmas, de suportarem sozinhas suas próprias questões e processos pessoais, da dificuldade em pedir ajuda e apoio nos momentos de sofrimento. Para além das ações discriminatórias voltadas para essas mulheres, há que se lembrar do genocídio em curso da juventude negra brasileira e do constante risco que essas mulheres experienciam de perder seus maridos, filhos e familiares para o racismo.
Por fim, reafirma-se que a experiência de mulheres negras pode ser melhor compreendida através do olhar interseccional, abarcando tudo aquilo que pode produzir discriminação em suas vivências. Não obstante, ainda que se aborde as experiências de preconceito, discriminação e subalternização, deve-se reforçar que a identidade delas está para além dos atravessamentos provocados pelo racismo, pelo sexismo e pelo classismo. Embora não se trate de um objetivo individual - pois os estudos em torno da discriminação e do preconceito nos auxiliam a encontrar estratégias coletivas de enfrentamento aos mesmos -, o resgaste de uma herança ancestral, a desconstrução do auto-ódio e uma afirmação de si que busque se enegrecer contribui para que nós, mulheres negras, vivamos de maneira digna.
CONSIDERAÇÕES SOBRE A MULHER NEGRA E A FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA
Neste segundo tópico, objetiva-se refletir sobre o ingresso e permanência de mulheres negras no curso de graduação em Psicologia, discutindo sobre o que é vivenciar essa experiência e o tipo de formação encontrada por essas mulheres. Por um lado, as ações afirmativas representaram uma importante conquista social no que diz respeito a promover o ingresso de grupos socialmente marginalizados no ensino superior. Entretanto, não basta garantir o direito de acesso à educação universitária, tornando-se fundamental promover diálogos e ações que visem à permanência de mulheres negras no curso de Psicologia, objeto de nossa análise.
A entrada em um curso de graduação é vista por essas mulheres como um importante projeto pessoal, uma promessa de ascensão social e de mudança da realidade vivida (Amaro, 2021; Santos, 2021). Todavia, tal sonho vem acompanhado por uma série de desafios, dentre os quais destacam-se as condições históricas de discriminação e preconceito racial que vulnerabilizam pessoas negras; a falta de informação sobre os meios de entrada na universidade; dificuldades financeiras; falta de apoio nas relações sociais; e implicações de raça e gênero na escolha de um “curso superior ideal” para uma mulher negra (Amaro, 2021; Santos, 2021; Santana & Castelar, 2015).
O curso de Psicologia é elitista, embranquecido e racista. Isso demarca o não pertencimento de mulheres negras neste espaço, pois a branquitude e o patriarcalismo afirmam-se na quase ausência de docentes e discentes negros; na exportação de teorias psicológicas descoladas da realidade brasileira; no apagamento de discussões étnico-raciais e de epistemologias africanas na academia; e no racismo e sexismo sofrido e presenciado por estudantes negras dentro da Universidade (Amaro, Alves, & Molon, 2019; Santos, 2021; Santos & Emílio, 2021; Silva, 2019).
Outro obstáculo relevante para permanência de mulheres negras no ensino superior é o fator financeiro. Psicólogas negras entrevistadas por Santos e Emílio (2021) compreendem que a necessidade de trabalhar para sobreviver interfere: (a) na possibilidade de acesso ao ensino superior, sobretudo ao ensino público, uma vez que o curso de Psicologia em universidades federais possui em geral grade horária integral ou diurna; (b) na dedicação aos estudos, já que uma jornada dupla torna-se desgastante; (c) na precarização da situação de vida de pessoas negras que, para sustentar-se na academia, podem fazer renúncias que as levam a passar por dificuldades financeiras.
Conforme as diretrizes curriculares do curso de Psicologia (Parecer CNE/CES nº 179/2022), as questões étnico-raciais devem ser contempladas na formação de psicólogas e psicólogos. Contudo, isso ainda não foi efetivamente institucionalizado. É necessário um forte interesse coletivo, abarcando discentes e docentes que compreendam a relevância dessas discussões para esse campo formativo, para que tais reflexões sejam feitas (Santos & Emílio, 2021; Silva, 2019).
A ausência de representatividade negra em ambientes acadêmicos reverbera na ausência de uma rede de apoio e fortalecimento para essas mulheres, contribuindo para que não se vejam como pertencentes ao campo da Psicologia. Tal fato assume contornos diferentes quando essas mulheres podem contar com uma rede de apoio, geralmente a família.
Para Mariosa e Pereira (2017), pensar gênero, raça e classe na Psicologia, ainda que represente um desafio, favorece que psicólogas negras se apropriem daquilo que lhes é negado, articulando possibilidades de resistência que contribuam significativamente para todas e todos, de forma coletiva. Essas possibilidades podem se dar por meio de eventos, grupos de estudos, associações entre psicólogas e locais de encontros entre semelhantes para compartilhamento de dores e potências. Em certa medida, isso se mostra na tendência de pessoas negras, tanto durante a graduação quanto nos espaços de atuação profissional, em buscar aproximar-se de suas semelhantes. Tal movimento, que nos remete ao aquilombamento das relações, pode ser visto como uma estratégia de sobrevivência para mulheres negras psicólogas e pode contribuir para a soma de forças na busca por estratégias de resistência, enfrentamento e fortalecimento.
Compreende-se o contexto acadêmico como um local potencialmente excludente para mulheres negras. As questões étnico-raciais e de gênero precisam ser abordadas, não apenas nas disciplinas do curso de Psicologia, mas no sistema educacional em geral, com vistas a pensar em estratégias práticas de enfrentamento contra o racismo, o sexismo e outras formas de discriminação. Caso isso não seja feito, a tendência é que situações de violência e exclusão permaneçam naturalizadas e sigam sendo reproduzidas, tanto individualmente quanto institucionalmente, dificultando a permanência de mulheres negras no ensino superior.
A PSICÓLOGA NEGRA E SUAS RELAÇÕES DE TRABALHO
Por fim, o terceiro tema central que perpassa os materiais analisados diz respeito às relações de trabalho de psicólogas negras e as experiências por elas vivenciadas neste contexto. Optamos por iniciar essa discussão apontando que a grande maioria dos estudos volta seus olhares para a clínica particular ou para a Psicologia da Saúde, nos levando a questionar sobre como são experimentadas relações sociais de trabalho dessas profissionais em outros campos de atuação da Psicologia.
Outro achado que chama atenção diz sobre como o vínculo se estabelece entre cliente e psicóloga quando ambos são negros, pois parece haver uma identificação que viabiliza o fortalecimento de uma relação terapêutica. Verificou-se a crescente busca de pessoas negras por psicólogas negras para início do processo de psicoterapia. Mas, para isso, não basta que a psicóloga seja negra, é importante que a mesma tenha se enegrecido e que reconheça a existência do racismo no Brasil (Silva, 2019). A clínica, ainda que seja um espaço de cuidado, pode ser também um local que reproduz opressões. A busca por uma psicóloga negra representa mais que um processo de identificação, mas um processo de politização que contribui para o rompimento de relações hierarquizadas e não politizadas (Camino & Ismael, 2012).
Contudo, essa profissional também está exposta a violências contingenciadas pelo racismo. Isto porque, ao evocar a imagem da psicóloga, geralmente têm-se uma construção que destoa da figura da mulher negra em locais de subalternidade. Amaro et al. (2019) compartilham situações relatadas por duas psicólogas, que foram desclassificadas em processos seletivos por serem negras. Ambas concordaram que uma pessoa negra, formada em Psicologia, teria mais chances de ser contratada para realização de um trabalho se a seleção se desse mediante um concurso público, onde necessariamente apenas o desempenho da pessoa deve ser levado em consideração para a contratação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ser mulher, negra e psicóloga evidencia implicações de raça, gênero e classe nas experiências pessoais e profissionais dessas mulheres. Por um lado, representa um corpo atravessado por múltiplas opressões, nas suas relações cotidianas, e, por outro, este mesmo corpo carrega o convite para se repensar o sujeito universal das ciências modernas, problematizando técnicas e teorias que pouco se atentam à realidade social brasileira.
A mulher negra tem muito a contribuir na desconstrução do olhar colonialista através do qual nascem os conhecimentos sobre o humano, saberes generalizáveis e que não se atentam às particularidades daquelas que estão fora do padrão do homem médio, identificado com o humano. Contudo, tal trajetória ainda é marcada por grandes dificuldades que contam sobre o acesso ao ensino superior, a permanência na academia, a inserção no mercado de trabalho, o rompimento com estereótipos e o enfrentamento de violências racistas e sexistas.
O fio condutor que nos levou a construir esta pesquisa foi o feminismo negro, perspectiva teórica que pode contribuir para que sejam tecidas reflexões através de olhares interseccionais e que também se mostrou presente nos estudos analisados. Com relação à estratégia metodológica utilizada, verificou-se uma diversidade de instrumentos, ainda que a perspectiva utilizada tenha sido essencialmente a pesquisa qualitativa, com destaque para perspectivas autobiográficas.
Uma das limitações deste estudo, sendo uma revisão de literatura, refere-se à análise de materiais já publicados, sendo importante fomentar estudos empíricos que ajudem a construir novas metodologias e demarcar epistemologias emancipatórias, nascidas no intercruzamento dessas questões teórico-reflexivas com o âmbito das práticas e experiências vivenciais dessa população.
O reduzido número de publicações encontradas, cuja característica central é a produção de estudos e reflexões teórico-metodológicas por mulheres negras, é uma evidência inconteste sobre as dificuldades encontradas por essas mulheres em sua inserção acadêmica. Um ponto a se destacar é o gradativo aumento desse tipo de publicação nos anos recentes. Espera-se que o presente artigo possa contribuir para dar visibilidade a essa questão.
Por fim, compreende-se que a Psicologia brasileira deve voltar o seu olhar para as questões históricas que marcam nosso país e grande parcela do seu povo, se opondo radicalmente ao epistemicídio e às violências contra minorias sociais. Isso significa pensar a formação de psicólogas e psicólogos para lidar com esses temas, repensar os autores apresentados em sala de aula com a inclusão de autoras e pesquisadoras negras nas suas fichas de disciplinas, na busca consciente da racialização dos debates e discussões. Tais ações, dentre outras, certamente contribuirão para o fortalecimento de uma prática profissional voltada para a realidade social concreta, promovendo discursos e ações que visem combater os múltiplos preconceitos existentes em nossa sociedade e que possam engendrar processos de subjetivação outros, que não aqueles marcados pela exclusão, pela opressão e pela colonialidade.














