INTRODUÇÃO
A sociedade neoliberal contemporânea é formada por uma visível divisão de classes sociais, sendo estas pré-determinadas por fatores sócio-históricos e culturais, onde questões de gênero, raça, etnia e cultura atravessam as maneiras de ser vista, de se colocar e ser colocada no mundo. É certo que a hegemonia europeia, se tornou decretória sobre a maneira que tais divisões seriam e são concebidas. Tendo em vista que a dominância política, econômica, religiosa e cultural esteve/está com o homem branco europeu no decorrer da história mundial, vale ressaltar que tal ‘homem branco europeu’ se encontra em uma perspectiva que beira o literal em todas as extremidades mundiais, deixando sua marca em todas as partes mesmo quando esta não é bem-vinda (Gohn, 2019; Guimarães, Maciel, & Gershenson, 2020; Souza & Duarte, 2020).
Portanto, o que difere desse modelo, sofre grandes consequências em seu percurso, por exemplo, as mulheres, tidas como “sexo frágil”, inferiores e obrigadas a estar em um lugar de subserviência devido a visão patriarcal, passaram por dolorosas lutas para terem seus direitos mínimos estabelecidos, tais como, o direito de se negar ao casamento e ao voto. Isso perpassa para como se estrutura a sociedade em todos os seus quesitos, a discrepância salarial, por sua vez, é um marco e uma realidade comum, onde mulheres desempenhando o mesmo serviço que homens recebem bem menos que os mesmos; o excesso de trabalho quando se tem uma atividade profissional externa, aliada ao trabalho doméstico que em sua grande maioria ainda repousa responsabilidade sobre o gênero feminino; além disso, há dificuldade de acesso, permanência e invisibilidade em ambientes educacionais, acadêmicos e científicos, sem contar no constante risco de ter sua integridade física, sexual, psicológica, material e moral violada, geralmente por quem está a ela mais próximo (Bessa & Ortiz, 2020; Zanatta & Faria, 2018).
Outro fator determinante é a cor da pele, é sabido como pessoas africanas e de ascendência africana foram por séculos escravizadas e postas como inferiores as pessoas de pele branca, o que por sua vez, reforçou a ideia de uma raça superior a outra e transformou a sociedade em um poço, não apenas de exploração e exclusão, mas de perseguição e preconceitos que perpassam gerações, as amarras do tempo e da “evolução da sociedade”, se reconfigurando, aparecendo e se consolidando no decorrer e através dele, mesmo na ilusória pós-abolição, se impondo de maneira explícita ou velada em cada setor que a constitui (Alves, 2022).
Tendo em vista que, 300 anos de escravidão, como ocorreu no Brasil, não se anulam radicalmente, ainda mais quando foram negados subsídios necessários para uma reestruturação e reparação, trazem assim grandes e incontáveis consequências sociais. Assim, percebe-se como todo o percurso histórico mundial foi traçado através de relações de poder que determinaram os rumos que as vivências de diversos grupos tomaram, como os já exemplificados acima, além de muitos outros, tais como as questões étnicas e culturais envolvidas com a subjugação do povo judeu e dos povos indígenas (Machado & Coppe, 2022; Zanatta & Faria, 2018).
Nota-se, portanto, o lugar em que a mulher preta é colocada. Ela está em último em toda a hierarquia social, pois ao se analisar os percalços aqui citados em relação a gênero e raça, se percebe a dupla “desvantagem” em que ser uma mulher e uma pessoa preta pode se encontrar. Em maio de 1962, Malcom X discursa: “A pessoa mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra”. Tais palavras foram ditas na década de 60 nos Estados Unidos, porém ela serviria tranquilamente para o dia de hoje e para diversos outros países dominados por pessoas brancas, como o Brasil.
Questionamentos podem surgir quanto à afirmativa de que o Brasil é um país de domínio branco, tendo em vista que a maioria da população é preta e parda (54%), porém consiste em um dos frágeis argumentos utilizados pelo mito da democracia racial, que devido a miscigenação encontrada no país ainda é propagada a ideia da inexistência de racismo, porém os dados revelam o contrário. Segundo o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça - 1995 a 2015, desempenhado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a população branca com 12 anos ou mais de estudo passa de 12,5% para 25,9%, enquanto a população negra passa de meros 3,3% para 12%, o avanço é visível, porém é ainda mais evidente o tamanho da discrepância de acesso educacional entre as raças. Além disso, os dados também mostram que as mulheres brancas recebem 70% a mais que as mulheres pretas, reafirmando o lugar social de subalternidade desse grupo (IPEA, 2017).
O racismo atinge, portanto, a todas as áreas da sociedade, por isso ele se constitui estruturalmente; neste estudo veremos suas consequências no sistema educacional. Sabe-se que por mais que o acesso à educação tenha sido expandido com diversos programas e políticas públicas educacionais, ela ainda se encontra em um lugar de privilégio, tanto em perspectiva de qualidade quanto de acesso. Pessoas com maiores condições econômicas e com vantagens sociais têm maior facilidade de adentrar e permanecer em tais espaços (Lima, 2020; Nascimento & Santos, 2020).
A estruturação de tal sistema se dá de diversas maneiras, podendo ser visualizado desde o desemprego e o número de mortos serem em sua maioria da população preta, quanto à maneira como este povo é retratado nos livros de história e de literatura, onde toda a grandiosidade, seus feitos passados, suas grandes construções e avanços tecnológicos e medicinais, são apagados e tudo isso é reduzido ao período em que foram escravizados, vide exemplo a representação midiática e do audiovisual de embranquecimento do Egito. Portanto, se prova necessário fomentar reflexões sobre como se perpetua o sistema racista que permeia o sistema educacional, principalmente quanto à mulher preta, já que ela se encontra à mercê dos mais escusos desejos de subjugação econômica e social regida pelos ‘novos donos de senzala’, por seu capital e poderio, isso através de todas as estratégias sociopolíticas, científicas e culturais que tenham alcance (Gomes & Oliveira, 2019; Santos, 2022).
A Psicologia Escolar, por exemplo, foi por muito tempo uma ferramenta para manutenção do poder capitalista e da perspectiva embranquecedora, pois sua atuação era baseada na obtenção de lucro e aquisição econômica do poder vigente através da exploração de teorias e práticas normativas e excludentes. A Teoria da Carência Cultural, por exemplo, postulava que pessoas de classes pobres e desfavorecidas socialmente, como o povo preto, teriam uma capacidade menor de aprender, sendo assim inferiores intelectualmente, e, portanto, seriam incapazes de alcançar e ocupar novos lugares (Negreiros, Barros, & Carvalho, 2020).
Tais concepções passaram a ser questionadas no Brasil por volta da década de 80 através da dissertação de Maria Helena de Souza Patto, que trouxe o peso dos processos históricos, sociais, culturais e políticos na educação, fazendo assim uma crítica direta a postura da Psicologia enquanto ciência no âmbito educacional, propondo uma prática que lute por uma educação democrática e que não tampe os olhos para todo o encarceramento histórico que existiu, que existe e que o próprio sistema educacional e científico perpetuou, sendo assim uma forma de se valer de tal criticidade e utilizar a Psicologia como um instrumento emancipatório, coletivo-social e a favor dos direitos humanos. Portanto, a Psicologia Escolar Crítica se constituiu como importante ferramenta para subsidiar conhecimento e práticas que romperam com a visão quantitativa do ser e da educação, propondo assim, perspectivas que se adequem a tal contexto e suas muitas realidades (Minin & Lima, 2018; Patto, 1997).
Posto isto, considerando a invisibilidade e o descaso com a mulher preta e o racismo estrutural que atinge a sociedade, sendo esta uma realidade advinda das múltiplas violências que a população negra foi submetida ao longos dos anos e enraizada naturalmente nos mais diversos âmbitos da sociedade, bem como, a educação, este estudo tem como objetivo, investigar através de uma revisão sistemática, as trajetórias da mulher preta no sistema educacional, realizando uma análise sob a ótica da Psicologia Escolar.
MÉTODO
O estudo trata de uma revisão sistemática acerca da trajetória escolar e o papel ocupado pela mulher preta dentro do contexto educacional. Para a coleta e análise dos materiais, seguiu as etapas propostas pelo Checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analysis (PRISMA): (a) delimitação da temática a ser estudada e escolha dos descritores; (b) seleção das bases de dados; (c) busca e extração dos arquivos; (d) escolha dos arquivos a partir dos critérios de inclusão e exclusão; e (e) interpretação e análise dos arquivos selecionados (Galvão & Ricarte, 2019).
As buscas pelos materiais incluíram cinco bases de dados: Scopus, PsycInfo, Web of Science, Pepsic e Lilacs. Para o acesso integral a essas bases, a busca foi realizada através do Portal CAFe (Comunidade Acadêmica Federada), que permite a conexão de forma remota com conteúdos assinados pelo CAPES através do login e senha institucionais.
Para a pesquisa foram utilizados três descritores, “black woman”, “education” e “psychology”, juntamente com os operadores booleanos “AND” (black woman AND education AND psychology). Como critérios de inclusão, foram utilizados: (a) trabalhos publicados entre os anos de 2017 e abril de 2022; (b) disponibilizados na íntegra; e (c) trabalhos em inglês, espanhol e português e como critérios de exclusão foram aplicados: (a) arquivos duplicados; e (b) trabalhos que não abordavam a temática de mulheres pretas na educação.
A partir da leitura e análise dos artigos e dissertações na íntegra, foram elencados focos de análise a fim de evidenciar as discussões. Para a análise dos dados será utilizada a abordagem teórica da Psicologia Escolar Crítica, a fim de explorar os impactos sofridos pela mulher preta durante seu processo de ensino e aprendizagem, considerando sua trajetória no ambiente escolar e sua (não) permanência nesses espaços.
RESULTADOS
Uma pesquisa inicial a partir dos descritores revelou 1098 arquivos, onde 187 foram selecionados por se adequarem aos critérios de inclusão. Em seguida, foram aplicados os critérios de exclusão no qual foram descartados 10 arquivos duplicados e 153 por não abordarem a temática de mulheres pretas no contexto educacional. Dessa forma, a amostra final de materiais contou com 24 trabalhos, sendo 22 em inglês e 2 em português, em que 16 são artigos e 8 dissertações, assim como mostra a figura 1.
Por conseguinte, após a leitura dos resumos, os materiais foram classificados tendo em vista os autores e o ano de publicação, o objetivo do estudo, tipo de metodologia utilizada e o papel exercido pelas(os) participantes dos estudos como mulher preta dentro do contexto educacional no qual foi realizada a pesquisa. Essa classificação pode ser observada na Tabela 1.
Tabela 1 Delineamento dos Estudos
| ID | AUTOR E ANO | OBJETIVO | TIPO DE ESTUDO E MÉTODO |
LUGAR OCUPADO |
|---|---|---|---|---|
| 01 | Mills (2020) | Investigar as microagressões raciais ambientais vivenciadas por estudantes universitárias(os) negras(os) que frequentam uma instituição predominantemente branca |
Artigo Estudo qualitativo, entrevista com grupos focais |
Estudantes universitárias (os) |
| 02 | Fernández, Gaston, Nguyen, Rovaris, Robinson, & Aguilar (2018) | Analisar como as experiências estudantis de universitárias negras de uma faculdade neoliberal catalisaram seu desenvolvimento sociopolítico |
Artigo Estudo qualitativo, pesquisa-ação |
Estudantes universitárias |
| 03 | McLemore (2021) | Refletir sobre as experiências de ser uma mulher negra desfavorecida e os domínios que contribuíram para sua resiliência. |
Dissertação Estudo autoetnográfico |
Estudante universitária |
| 04 | Hargons, et al., (2022) | Investigar como estudantes negras(os) de uma universidade predominantemente branca definem o trauma racial. |
Artigo Estudo qualitativo, entrevista |
Estudantes universitárias(os) |
| 05 | Elliott, Reynolds, & Lee (2021) | Buscar entender quais os fatores protetivos de estudantes de doutorado negras(os) de instituições predominantemente brancas utilizaram para persistir em seus programas de doutorado em psicologia. |
Artigo Estudo qualitativo, entrevista |
Doutorandas(os) |
| 06 | Gadson & Lewis (2022) | O objetivo deste estudo foi utilizar uma estrutura feminista negra e de interseccionalidade para estender a pesquisa desenvolvendo uma taxonomia de microagressões raciais de gênero vivenciadas por meninas adolescentes negras |
Artigo Estudo qualitativo, entrevista com grupo focal |
Estudantes de ensino médio |
| 07 | Evans-Phillips (2021) | Analisar o percurso organizacional e educacional para determinar como a jornada de liderança se desenrolou através das lentes da liderança transformacional |
Dissertação Estudo qualitativo, estudo de caso |
Líder organizacional |
| 08 | Days (2020) | Explorar as complexidades do “eu”que impactam a individualidade e o desenvolvimento da aprendizagem e profissional, como terapeuta de cor. |
Dissertação Estudo qualitativo, estudo autoetnográfico |
Doutoranda |
| 09 | Noh (2017) | Examinar a liderança eficaz através da história oral de um líder educacional |
Dissertação Estudo qualitativo, história oral |
Líder educacional |
| 10 | Davis (2021) | Explorar a vivência racializada de garotas e mulheres negras em escolas K-12, a partir da perspectiva de uma administradora negra |
Dissertação Estudo qualitativo, estudo autoetnográfico |
Diretora assistente |
| 11 | Haskins (2020) | Explorar as experiências vividas de diretoras negras |
Dissertação Estudo qualitativo |
Diretoras |
| 12 | Lewis-Flenaugh (2021) | Buscar entender como as mulheres no ensino superior navegam para e através dos desafios organizacionais. |
Dissertação Estudo qualitativo, entrevistas |
Líderes organizacionais |
| 13 | Neely (2018) | Compreender como mulheres pretas conseguiram seus cargos, quais apoios e barreiras que enfrentam na transição de professoras para diretoras. |
Dissertação Estudo qualitativo, entrevistas |
Diretoras |
| 14 | Musatti-Braga & Rosa (2020) | Abordar os desdobramentos da observação e escuta do não dito social sobre os estudantes, as mães e sua configuração familiar. |
Artigo Estudo qualitativo, entrevistas |
Estudantes de ensino médio |
| 15 | Johnson, Pietri, Fullilove, & Mowrer (2019) | Investigar quem são os modelos identitários para as mulheres negras no campo educacional e científico |
Artigo Estudo quantitativo |
Estudantes de escolas de Ciência e engenharia e graduandas de cursos STEM |
| 16 | Johnson & Reynolds (2018) | Explorar os fatores que influenciam o sucesso acadêmico na faculdade afro-americana para mulheres |
Artigo Estudo quantitativo |
Estudantes universitárias afro-americanas |
| 17 | Porter & Byrd (2021) | Destacar os entendimentos da hashtag BlackGirlMagic (BGM) como mantra para mulheres negras |
Artigo Estudo qualitativo, entrevista com grupo focal |
Estudantes universitárias |
| 18 | Shahid, Nelson, & Cardemil (2018) | Examinar o estresse da tensão racial, bem como seus potenciais fatores moderadores |
Artigo Estudo quantitativo |
Estudantes universitárias |
| 19 | Woods, Chronister, Grabow, Woods, & Woodlee (2021) | Examinar o aconselhamento e experiências clínicas de pós-graduandos pretos quanto a fadiga da batalha racial |
Artigo Estudo quantitativo |
Estudantes de pós-graduação de Psicologia |
| 20 | Freeman, Winston-Proctor, Gangloff-Bail, & Jones (2021) | Explorar as percepções de estudantes de graduação afro-americanos sobre suas experiências e motivação acadêmica dentro de universidades historicamente negras |
Artigo Estudo qualitativo, análise semântica |
Estudantes universitários de faculdade ou universidade historicamente negra |
| 21 | Chance (2022) | Analisar as adversidades e as experiências vividas por mulheres negras na liderança do ensino superior |
Artigo Estudo qualitativo, análise de conteúdo |
Mulheres em posição de liderança no ensino superior |
| 22 | Zounlome, Wong, Klann, David, & Stephens (2019) | Investigar a percepção de mulheres negras universitárias frente a violência sexual e as suas percepções quanto as barreiras culturais para procurar ajuda |
Artigo Estudo qualitativo, análise de conteúdo |
Estudantes universitárias |
| 23 | Maseti (2018) | Revelar experiências de (des)pertencimento e exclusões na academia de uma mulher negra |
Artigo Estudo autoetnográfico |
Estudante universitária |
| 24 | Santos (2020) | Promover reflexão sobre o processo de descolonização mental, desigualdades educacionais e sua intersecção de gênero, raça e classe social |
Artigo Estudo qualitativo, relato de experiência |
Docente universitária |
Quanto à quantidade de trabalhos publicados no decorrer dos últimos seis anos, é perceptível um maior número nos anos de 2021 (nove trabalhos), 2020 e 2018 (ambos com cinco trabalhos), como é possível observar no Gráfico 01. É oportuno ressaltar, que tais anos com maior quantidade de publicações correspondem a épocas de fortes movimentos sociais como o Me Too (final de 2017/2018 - movimento iniciado por mulheres artistas e da indústria cinematográfica contra assédio e agressão sexual) e o Black Lives Matter (iniciado em 2013 mas revivido em 2020, após a trágica morte de George Floyd, um homem negro norte-americano em decorrência da violência policial), tais movimentos ganharam repercussão global e demonstraram uma forte influência nos mais diversos contextos culturais mundialmente.
Considerando o objetivo do estudo, foram elencados os papéis ocupados pela mulher preta diante dos estudos analisados, como pode ser observado no Gráfico 02. Na maioria dos estudos, a mulher preta exerce a tarefa de estudante, sendo elas de ensino médio (Gadson & Lewis, 2022; Musatti-Braga & Rosa, 2020) e escola técnica (Johnson et al., 2019), universitárias (Fernández et al., 2018; Freeman, et al., 2021; Hargons et al., 2022; Johnson & Reynolds, 2018; Maseti, 2018; Mills, 2020; Porter & Byrd, 2021; Shahid, et al., 2018; Zounlome, et al., 2019;), de pós-graduação (Woods et al., 2021), e de doutorado (Days, 2020; Elliott et al.,2021). Além disso, também foram apresentadas mulheres atuantes profissionalmente dentro do ambiente educacional, sendo elas líderes organizacionais/educacionais (Chance, 2022; Evans-Phillips, 2021; Lewis-Flenaugh, 2021; Noh, 2017), diretoras (Davis, 2021; Haskins, 2020; Neely, 2018;) e docente universitária (Santos, 2020).
A partir do exposto, foi possível constatar que os estudos verificados revelaram as diversas adversidades enfrentadas pela mulher preta dentro da educação. As violências sofridas por essa população perpassam os diversos níveis educacionais, desde garotas no ensino médio até mulheres líderes em suas instituições. Esses preconceitos produzem implicações nas trajetórias escolares, acadêmicas e profissionais dessas mulheres. Tal fato é evidenciado quando são apresentados os estudos que investigam esses diversos fatores, como demonstra a Tabela 2.
Tabela 2 Foco dos Estudos
| Foco do estudo | principais resultados |
|---|---|
| As violências sofridas por mulheres pretas durante seu percurso na educação | Racismo sistêmico e institucional (Hargons et al., 2022; Mills, 2020); A violência sofrida afeta na permanência no meio educacional (Chance, 2022; Gadson & Lewis, 2022); Violência aceitável pela sociedade (Zounlome et al., 2019); Silenciamento e banalização do saber (Maseti, 2018) |
| O desenvolvimento de estratégias de resistência | Inserção em movimentos ativistas político-sociais (Fernández et al., 2018); Usar abordagens menos ativas e mais adaptativas (Woods et al., 2021); Procurar apoio na família, religião e na própria comunidade negra (McLemore, 2021); buscar espaços externos ao ambiente educacional e distanciar-se de discussões de raça em ambientes majoritariamente brancos (Elliott et al., 2021); Incorporação do arquétipo da mulher negra forte (Shahid et al., 2018) |
| Como o ser preta afeta sua vida nas mais diversas dimensões | Dificuldade de achar voz em uma academia branca (Days, 2020; Davis, 2021); A configuração familiar é interferida pelo imaginário social do negro inferior, (Musatti-Braga & Rosa, 2020); Sub-representação nas ciências (Johnson et al., 2019); Aculturação e a religiosidade influi “sucesso” acadêmico (Johnson & Reynolds, 2018); Opressão e marginalização pela cultura no ensino superior (Porter & Byrd, 2021; Santos, 2020) |
| A influência da presença/ausência de modelos de mulheres pretas em posições de liderança | Liderança transformacional (Evans-Phillips, 2021); Neogerencialismo (Haskins, 2020); A falta de discussão sobre violência indica um enraizamento da desigualdade racial e de gênero (Lewis-Flenaugh, 2021); A importância do suporte para a permanência no meio educacional (Neely, 2018); Falta de equidade e oportunidade dificulta o corpo preto a alcançar certas posições de poder (Noh, 2017); Universidades e faculdades historicamente negras são fonte de motivação e impulsionamento para o povo preto (Freeman et al., 2021) |
DISCUSSÃO
Diante dos resultados encontrados, verificou-se uma incipiência de estudos voltados para a América latina, tendo em vista que a maioria dos materiais encontrados se referem a estudos realizados nos Estados Unidos. Tal fato, pode ressaltar a possível negação da existência ou relevância de tal demanda e problemática nesse território, mesmo que ela esteja presente, bem como pode refletir a diminuição de estudos no geral feitas na América Latina devido a pandemia de Covid-19, tendo em vista que este estudo abarca este recorte temporal (Oliveira, 2021). Para além disso, destacou-se também uma escassez de estudos na área da Psicologia Escolar, demonstrando então ainda ser uma temática pouco explorada por essa área de conhecimento.
Quanto aos métodos utilizados nos estudos coletados, houve uma predominância de estudos qualitativos (16), seguido de uma abordagem quantitativos (4), estudo autoetnográfico (2) e por último estudos mistos entre qualitativo e autoetnográfico (2).
Assim sendo, a discussão será norteada com base em quatro focos de estudo, encontrados a partir da leitura dos textos selecionados, sendo eles: (a) As violências sofridas por mulheres pretas durante seu percurso na educação; (b) o desenvolvimento de estratégias de resistência; (c) como o ser preta afeta sua vida nas mais diversas dimensões; (d) a influência da presença/ausência de modelos de mulheres pretas em posições de liderança. A discussão será realizada com base nos pressupostos da Psicologia Escolar Crítica.
AS VIOLÊNCIAS SOFRIDAS POR MULHERES PRETAS DURANTE SEU PERCURSO NA EDUCAÇÃO
Ser uma mulher negra na sociedade atual, é um marcador identitário assinalado por uma histórica rede de violências, sendo elas de gênero, de raça e de classe. As violências sofridas por essas mulheres perpassam suas vidas de forma geral, atravessando os mais diversos aspectos que as constituem, onde na maioria das vezes os atos violentos sofridos pela mulher preta são aceitáveis pela sociedade, pois esta foi construída a partir dos lucros que a exploração dessas mulheres gerou. Além disso, como (Johnson et al., 2019), aborda em seu estudo, há invisibilização do seu sofrimento dentro do contexto educacional das universidades, onde as instituições tomam como medida frente a esses atos de violência, somente “palestras” de prevenção, disponibilizando ainda meios constrangedores de denúncia e nenhum suporte para as vítimas.
Dentre os estudos encontrados, foi possível constatar algumas formas de violências sofridas pela mulher preta dentro dos ambientes educacionais. O racismo sistêmico e institucional, por exemplo, foi destacado por Hargons et al. (2021) e Mills (2020). As pesquisas realizadas por eles revelaram como o sistema educacional lida com essa mulher preta, promovendo ações segregatórias evidentes e a falta de políticas, que não só proporcionam seu direito a uma educação de qualidade, mas a sua própria segurança.
O silenciamento e banalização do saber foi apontado como um outro modo de violência experienciado pela mulher preta no contexto educacional. Maseti (2018) explana sua vivência na pós-graduação, em que veio carregada de questionamentos sobre suas habilidades acadêmicas e cognitivas, onde sua capacidade intelectual era sempre posta à prova e seu estudo sobre raça diminuído e silenciado. Chance (2022) e Gadson e Lewis (2022) exploram essas dificuldades que atravessam os caminhos escolares da mulher negra, e ainda expõe que todas essas adversidades se apresentam como um fator fundamental para continuação (ou não) das mulheres nesse contexto, sendo refletido então na diminuição de cargos de liderança educacional sendo assumidos pela mulher preta.
Apesar dos estudos apresentarem uma diversidade de contextos educacionais e as diversas adversidades enfrentadas pela mulher preta nesses espaços, não houveram estudos que abordassem a Psicologia Escolar e sua atuação frente a essas questões. Vale lembrar que a Psicologia Escolar entende a violência como um fenômeno multifacetado, social e histórico, tendo diferentes formas de apresentar-se, variando a partir de contextos sociais e econômicos. Assim, a atuação do Psicólogo Escolar nesses contextos é essencial, pois contribuiria para a identificação das violências sofridas por essas mulheres pretas, a avaliação e reflexão acerca da dinâmica nesses ambientes educacionais e como estes interagem com a mulher negra. Dessa forma seria possível desenvolver intervenções que minimizassem essas violências e apresentassem suporte para as vítimas (Freire & Aires, 2012).
O DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS DE RESISTÊNCIA
Dentro dessa perspectiva, as violências sofridas pela mulher preta modificam sua maneira de encarar as adversidades dentro do contexto educacional, dessa forma estas procuram as mais diversas formas para o enfrentamento dessas violências supracitadas que atravessam seu percurso. Sabe-se que ser uma mulher preta na sociedade atual requer o desenvolvimento de vários aspectos protetivos e assumir um papel de mulher forte pode ser um deles. Shahid, Nelson, e Cardemil (2018) afirmam que a sociedade espera que as mulheres negras sejam autossuficientes e cuidadoras, e especialmente aqueles em ambientes universitários espera-se que a resiliência esteja sempre presente. Dessa forma, os autores pontuam que muitas estudantes acabam por incorporar esse aspecto de mulher negra forte a fim de promover um bem-estar psicológico, usando abordagens menos ativas e mais adaptativas frente às violências sofridas e, em sua maioria, demonstram melhor forma de lidar com tais questões do que os homens (Woods et al., 2021)
Outros autores apontam que a saída (temporária) desse contexto educacional também é um meio utilizado por essas mulheres (Elliott et al., 2021). Como supracitado, muitas mulheres negras sofrem de um silenciamento e banalização de seu conhecimento dentro desse contexto, assim na pesquisa dos mesmos as participantes afirmaram que sair desse espaço de violência e procurar ambientes onde se sentem valorizadas como pessoas e tenham suas qualificações e experiências reconhecidas, provocavam alívio e forças para continuarem seus estudos. Além disso, outro fator importante apontado pelos autores é a abstenção de opinião dessas estudantes frente a discussões de raça presentes nas instituições no qual estudam. As participantes afirmaram que ao se tratar de um ambiente predominantemente branco, muitas vezes é necessário o não envolvimento nessas discussões a fim de evitar um desgaste emocional.
É fato que uma rede de apoio consistente é essencial ao vivenciar a violência. Ter a família, amigos e a própria comunidade como suporte, faz total diferença ao enfrentar as adversidades presentes no percurso escolar. Para tanto, McLemore (2022), evidencia esse aspecto em seu estudo, trazendo para o primeiro plano a importância da religião durante sua trajetória educacional e na construção de sua resiliência. Fernandez et al. (2018) também explora em sua pesquisa a importância dos grupos e da comunidade para essas mulheres negras, no entanto aborda a partir da inserção delas em movimentos sociais. Essas mulheres ativistas utilizam desses movimentos para lutar contra as violências sofridas dentro das instituições educacionais, onde refletem sobre como essa sociedade interpreta seus corpos, sua raça, gênero e sexualidade. Assim sendo, a partir dessas atividades e discussões nesses movimentos políticos e sociais as mulheres negras procuram formas de enfrentar tais violências, sejam elas através de ações realizadas pelas instituições ou mesmo a criação e avaliação de políticas públicas.
A partir das discussões apresentadas, constata-se a importância do desenvolvimento de fatores protetivos para auxiliar a mulher negra no enfrentamento das violências sofridas durante seu percurso educacional. A luz da Psicologia Escolar, esses fatores contribuem não somente para permanência dessas mulheres nas instituições escolares, mas também estão altamente ligadas a apresentação de resultados positivos dentro desse contexto, um melhor relacionamento interpessoal, desenvolvimento e manutenção da autoestima, autoeficácia e resiliência (Guzzo, 2016).
COMO O “SER PRETA” AFETA SUA VIDA NAS MAIS DIVERSAS DIMENSÕES
Levar na pele e nas características físicas, cor e traços que uma sociedade considera inferior em todos os aspectos, por mais que o discurso seja o contrário, acarreta sobre essa pessoa uma diversidade de consequências, que não apenas influenciam em como o seu dia será, mas em todas as dimensões que o viver em sociedade proporciona (Hilário, 2021). Nos textos de Davis (2021) e Days (2020) as autoras trazem seu relato de experiência enquanto alunas de doutorado pretas nos Estados Unidos, e em ambos os estudos é ressaltado como as vivências e complexidades de ser uma pessoa negra meio a uma academia branca e elitizada trouxeram impacto para suas percepções de si, quanto ao seu eu subjetivo e ao seu eu profissional, e como é difícil encontrar sua voz, tendo em vista que outrora e cotidianamente sofrem ataques, correndo o risco de ser silenciada.
O racismo dentro da academia pode ser percebido desta e de diversas maneiras, e intensificado mais ainda quando o recorte de gênero é feito, o estudo de Johnson et al. (2019) expõe como as mulheres pretas são sub representadas nas ciências, principalmente quando envolvem as áreas da tecnologia, matemática e engenharia. Em estudo feito com mulheres graduandas e graduadas em faculdades predominantemente brancas de STEM (science, technology, engineering and mathematics- ciência, tecnologia, engenharia e matemática), o que mais se aflorou, foi a dificuldade de se sentir pertencente ao ambiente acadêmico, tendo em vista, que ser uma minoria, tanto de raça quanto de gênero, ressaltando a importância da presença de outras negras e negros para o seu bem-estar e sentimento de pertença.
Johnson e Reynolds (2018), fizeram uma pesquisa com 129 mulheres universitárias afro-americanas (dos Estados Unidos) para investigar o “sucesso” das mesmas no ambiente acadêmico, conceito este que pode se traduzir como permanecer e se sair bem nas matérias. Dessa forma, o estudo revelou que mesmo com as barreiras que tal população possui nesse meio, os processos de aculturação e a religiosidade afro-americana tiveram relações significativas para o “sucesso” acadêmico. Outro fator que revela a importância do coletivo, das vivências e experiências com outras pessoas pretas e com a cultura ancestral, são as estratégias de enfrentamento desenvolvidas e utilizadas por essas mulheres como uma maneira de continuar presente em qualquer lugar.
Musatti-Braga e Rosa (2020), trazem um estudo feito com adolescentes em uma escola de São Paulo, com as vivências do Grupo de Conversas; “O não dito”, foi o destaque. O foco foi direcionado aos adolescentes, sua configuração familiar e suas mães, estas interferidas pelo imaginário social do negro inferior, especialmente quando esta é uma mulher que em geral se encontra em posição de servidão e submissão, não apenas pela cultura patriarcal, mas também, pela cultura machista. Como intervenção, propuseram uma discussão política, enaltecendo as potencialidades do grupo e de suas mães, bem como, sua capacidade de resistência frente as violências inaceitáveis e impostas socialmente. Por isso, pensar o que é ser uma mulher negra é fundamental para compreender todo seu percurso e trajetória, tendo em vista, que não se trata de apenas mais um fator, mas sim, algo intrínseco à existência.
Porter e Byrd (2021) e Santos (2020), abordam sobre tal aspecto em seus respectivos estudos, da maneira como a cultura oprime e tenta mesmo, que de maneira velada, colocá-las à margem. Para isso, trazem o recorte do ensino superior de como a construção do pensamento e conhecimento feitos por brancos e para brancos, contribui para esse processo.
Portanto, buscando a perspectiva da Psicologia Escolar Crítica, nota-se a importância desta, trabalhar com afinco, frente às questões raciais, com os gestoras/es e professoras/es, deixando claro como o caráter educacional de uma mulher não será igual aos demais, devido a todos os atravessamentos que vivenciam, sendo impossível construir um ambiente educacional saudável ignorando tal recorte. Além disso, é válido pontuar a Psicologia Política como uma ferramenta importante na instrumentalização e reconhecimento da identidade racial como um importante fator a ser estudado, pensado e utilizado pela profissional, tendo em vista, que se reconhece em um lugar de privilégio (pessoas não negras) e/ou se perceber como diretamente atingido pela estrutura social racista (no caso das pessoas negras) é crucial frente a maneira que tal demanda é trabalhada, bem como ter-se como importante polo de enfrentamento de violências (Feldmann & Guzzo, 2021).
A INFLUÊNCIA DA PRESENÇA/AUSÊNCIA DE MODELOS DE MULHERES PRETAS EM POSIÇÕES DE LIDERANÇA
Durante o estudo, foram ressaltadas as múltiplas barreiras que uma mulher preta enfrenta no decorrer de sua vida, em específico, no sistema educacional. O racismo enraizado meio a sociedade não abre mão de agir também na educação. Principalmente ao pensar em mulheres pretas. que de alguma maneira alcançam determinado status ou posição que não lhes é comum, o de liderança (Martins & Horta, 2021).
Haskins (2020), traz em sua pesquisa as experiências de diretoras pretas, pontuando sua jornada de liderança, desenvolvimento profissional, relacionamentos, sua capacidade de resposta para os alunos e como lidam com as normas envoltas na tarefa de liderar. Por sua vez, foram aparentes as muitas situações de racismo que vivenciaram, as faltas de oportunidades que precisaram enfrentar, além do sentimento de necessitarem trabalhar muito mais que outros colegas que possuem a pele branca, o que, por sua vez, ressaltam o neogerencialismo, que consiste em um discurso que visa impor déficits sobre as habilidades e possibilidades de pessoas pretas e pardas.
Evans-Phillips (2021), traz um estudo de caso sobre suas vivências enquanto mulher preta na liderança educacional de uma universidade, analisou cinco meses de documentos e logísticas, a partir de quatro códigos: Sobrevivência, Educação, Recursos e Recrutamento/Seleção. Assim, trouxe sua perspectiva de liderança transformacional, colocando o diálogo como ponto fundamental de impacto institucional; toda essa reflexão, aparentemente de caráter profissional, tem respaldo em suas vivências enquanto mulher negra. Por se enxergar de tal modo e estar em posição de liderança, reconhece os perigos que rondam o autocuidado, coragem, ação e criação. Chegou à conclusão, que o trabalho, a partir deste ponto de vista, se tornou pessoal, ao ponto que percebia atitudes diferenciadas de integrantes do corpo educacional, apenas por ser ela, uma mulher negra.
Noh (2017), realizou um estudo de história oral com uma educadora que relatou todo o seu trajeto no ambiente escolar, desde uma jovem estudante negra, até sua atual posição de líder educacional, como diretora. Ressaltando as estratégias de enfrentamento que a fizeram sobreviver às adversidades advindas do racismo estrutural, até “ascender” para uma posição em que muitos corpos como o dela jamais conseguirão chegar. Proporcionando uma válida reflexão sobre o cuidado de não romantizar tal situação, tendo em vista, que muitas pretas não chegarão lá, não por falta de capacidade ou esforço, mas por falta de equidade e oportunidade. O lugar de poder não é para povo preto, e os que se atrevem a conseguir chegar em tal posição, são usados como discurso de um argumento meritocrático e fundado na busca da manutenção do poder do homem branco.
Neely (2018) realizou entrevistas com seis mulheres pretas atuando como diretoras de escolas secundárias nos Estados Unidos, para compreender como o machismo e o sexismo se configuram no sistema educacional e em suas próprias experiências. Como resultado, os suportes para exercer suas funções são: as perspectivas de mulheres pretas trabalhadoras, o fato de possuir orientação e possuir alguém como suporte. Quanto às barreiras, a que mais se apresentou foi o estereótipo da mulher preta raivosa. Apesar de toda a opressão, o movimento de resistência de mulheres negras tem se sustentado com garra ao longo dos anos.
Lewis-Flenaugh (2021), traz um estudo com seis mulheres pretas seniors em trabalhos de liderança no ensino superior historicamente branco, e que, apesar dos múltiplos desafios e obstáculos, vêm encontrando seu lugar nesses espaços, ressaltando que a falta de discussão sobre um assunto em si já consiste em indícios do enraizamento da desigualdade racial e de gênero, destacando a importância do pensamento feminista negro, para nortear e respaldar as especificidades e vivências de tal grupo.
Freeman et al. (2021), exemplificam as resistências meio ao ambiente educacional majoritariamente branco em seu estudo sobre as percepções de estudantes de HBCUs (Historically Black Colleges and Universities), lugar que oferece oportunidades educacionais e de ensino superior há mais de 150 anos para estudantes afro-americanos, sendo uma importante fonte de motivação, impulsionamento e uma ferramenta potente de preservação cultural e valorização ancestral meio ao clima institucional, que, por sua vez, é descrito com sentimentos de carinho, pertença/familiaridade, relacionamentos positivos e o cuidado do corpo docente, intensificado pela convivência e partilha com pessoas semelhantes a si. Além disso, as respostas demonstraram aumento de autoeficácia, orgulho racial/identidade racial, e como a motivação acadêmica está relacionada a tal identificação.
Assim, nota-se a importância do debate sobre os obstáculos, opressões e desafios, que mulheres pretas enfrentam para chegar à uma posição de liderança. Sendo um importante campo onde a Psicologia Escolar Crítica pode promover debates e abrir espaços não apenas de acolhimento, mas de pertença e permanência, valendo-se do pensamento decolonial como uma estratégia de enfrentamento nesse contexto, bem como de políticas públicas educacionais, como as leis: Lei n° 10.639/2003 e Lei n° 11.645/2008; compreendendo sua importância e apesar dela, as razões para não serem aplicadas no processo educacional e pensar estratégias para uma atuação que não apenas discorde do racismo, mas que seja antirracista. Tomar consciência de aspectos como estes, é fundamental para uma prática crítica (Raposo et al., 2021).
CONCLUSÃO
Portanto, pode-se concluir que o racismo enquanto um fenômeno estrutural, afeta todos os âmbitos da sociedade e a educação é um ambiente onde ele se enraíza de uma maneira naturalizada, em que (des)caminhos do preconceito perpassam livros, culturas, políticas, histórias e sociedade, e que de maneira velada e muitas vezes escancarada, perpetuam a desigualdade racial e de gênero, desde a diferença de oportunidades à percursos regados a descriminação e imputação de poder, são mínimas as discussões sobre sua inegável presença, até mesmo por parte da Psicologia Escolar, onde se pode notar uma grande escassez de pesquisas e estudos sobre seus fatores, consequências e possibilidades de ação.
Dessa forma, o presente estudo buscou realizar um resgate das trajetórias escolares da mulher preta e sua influência no papel ocupado por elas no contexto educacional. Assim, foi constatado que a mulher preta possui seu percurso educacional marcado por violências e que muitas vezes tais vítimas se distanciam do meu educacional devido a essas agressões. No entanto, há também àquelas que desenvolveram estratégias de resistência e persistem nesse caminho.
Um outro aspecto revelado durante o estudo, foi a alta concentração de materiais construídos no território norte-americano, e a falta total de estudos na língua espanhola e apenas um na língua portuguesa. O que se faz refletir o porquê deste assunto de tamanha relevância não esteja sendo discutido, principalmente em lugares onde o preconceito racial e de gênero apresentam números expressivos, como o território brasileiro. Por isso, recomenda-se a realização de estudos futuros que busquem explorar outros contextos sociais, econômicos e culturais a fim de obterem uma outra perspectiva acerca do fenômeno estudo.

















