INTRODUÇÃO
Os métodos quantitativos são com frequência associados a um tipo de positivismo que categoriza a experiência humana entre polos distintos de um mesmo continuum. Entretanto, ao direcionar o debate sobre os métodos quantitativos e o seu uso pela Psicologia Social brasileira é necessário suspender julgamentos construídos a priori para buscar compreender como o método é delimitado e o que ele delimita em uma pesquisa científica.
A tomada de decisão do cientista sobre o método mais adequado para o desenvolvimento da pesquisa não depende exclusivamente de uma escolha epistemológica e teórica. Apesar de serem aspectos extremamente importantes, o método de uma pesquisa precisa indicar o caminho para responder a uma pergunta. O método quantitativo é delimitado pela pergunta de pesquisa e delimita estratégias específicas para coleta de dados e estratégias específicas para a análise dos dados coletados. Partindo-se de um problema de pesquisa mapeado, da pergunta norteadora e do objetivo principal da investigação, o pesquisador consegue tomar decisões sobre os caminhos possíveis a serem trilhados, entre levantamento de informações, dados ou correlações.
O levantamento de informações sobre um determinado campo de pesquisa é necessário como caminho metodológico quando a literatura científica não tem ampla documentação sobre o assunto em questão e, nesse contexto, as pesquisas exploratórias sistematizam essas informações. Partindo-se de uma documentação já existente é possível analisar alguns dados específicos com mais profundidade por meio de uma pesquisa descritiva. E as perguntas podem também levar o pesquisador a buscar uma compreensão maior sobre os fenômenos por meio de uma investigação explicativa (dalfovo, Lana, & Silveira, 2008).
Dentro de um universo de possibilidades, as escolhas realizadas pelo pesquisador esclarecem, por meio do seu objetivo de pesquisa, qual é o objeto de sua investigação. Essas escolhas delimitam se a pesquisa será exploratória, descritiva ou explicativa e se, para isso, é necessário realizar algum tipo de experimento, levantamento ou estudo de caso, entre outras técnicas que viabilizam a coleta dos dados. Esses dados podem ser organizados e analisados em profundidade, quando o pesquisador opta por uma pesquisa qualitativa, quanto de maneira mais ampla e geral, quando o pesquisador opta por uma pesquisa quantitativa. É a maneira de abordar um determinado problema, com a pergunta e definição do objetivo e objeto de pesquisa que vai delimitar o método quantitativo ou qualitativo.
O método quantitativo, por sua vez, delimita decisões sobre a coleta dos dados e análises, considerando que, nessa abordagem, a realidade complexa passa a ser organizada por meio dos números, das hipóteses e categorias de análise.
No debate entre métodos qualitativos e quantitativos não há perdedor e nem ganhador. Há o reconhecimento de uma interdependência dos métodos em uma ciência que não está presa a um dogma e nem isolada em evidências fragmentadas de uma realidade social complexa. O método quantitativo, por meio da representação utilizada, consegue responder adequadamente a perguntas que se referem ao reconhecimento de padrões e tensões envolvendo o comportamento humano e a dinâmica social. é possível trabalhar com um grupo maior de pessoas nesse tipo de investigação, porém com uma restrição significativa em relação às variáveis e aprofundamento sobre as particularidades das variáveis envolvidas no projeto de pesquisa.
Construir hipóteses e mapear variáveis faz parte do repertório científico para responder adequadamente aos problemas sociais disparadores das perguntas e objetivos das pesquisas. A utilização dos métodos quantitativos para o desenvolvimento das pesquisas em Psicologia Social respondem a investigações envolvendo um grupo maior de pessoas, e atendendo a necessidades exploratórias, descritivas e explicativas em diferentes temáticas, com distintas teorias e epistemologias. O método é o meio para desenvolver a pesquisa, é o caminho, e não a finalidade. A análise crítica sobre o método quantitativo precisa sempre considerar o seu uso em função da pergunta de pesquisa, e não de maneira isolada (Cervi, 2009).
As pesquisas sobre o comportamento humano que utilizam métodos quantitativos evidenciam um caminho possível de organização dos dados para gerar informações que enriquecem o diálogo científico sobre a realidade social concreta. é importante que os pesquisadores saibam manejar as ferramentas disponíveis, mesmo que tenham uma maior experiência com uma ferramenta em detrimento de outra. Nesse sentido, é necessário ampliar o entendimento sobre o método quantitativo na Psicologia Social para que o desenho dos caminhos metodológicos respondam aos problemas sociais, superando restrições impostas pela tradição de cada área que coloca o método como uma escolha do pesquisador, ao invés de destacar o método como decisão definida pelo problema, pergunta, objetivo e objeto de pesquisa.
Este estudo teve por objetivo identificar trabalhos que utilizaram técnicas quantitativas aplicadas ao Modelo Analítico de Consciência Política (MACP) de Salvador Sandoval. O MACP foi inspirado na tradição da Psicologia Social e da Sociologia iniciada por George Herbert Mead com sua abordagem de Interacionismo Simbólico. Esta tradição pragmatista de pesquisa social permite a utilização de procedimentos qualitativos e quantitativos, possibilitando o estudo de fenômenos sociais através de uma abordagem multimétodos (Creswell, 2003).
O banco de dados reunindo as publicações que utilizaram o MACP como referencial analítico foi organizado pelos participantes do Núcleo de Psicologia Política e Movimentos Sociais (NuPMOS) da Pontifícia universidade Católica de São Paulo – PuC-SP. Essa iniciativa fez parte das atividades comemorativas dos 20 anos do lançamento do modelo na Revista de Psicologia Política, em 2001.
O levantamento bibliográfico para a constituição do banco de dados seguiu procedimentos metodológicos convencionais, buscando publicações em sites específicos da internet, como repositórios de teses e dissertações de universidades federais e estaduais, além dos catálogos de artigos, teses e dissertações da CAPES e da Scielo. Também foram incluídos autores mencionados em grupos de pesquisa na área de Psicologia Política. Nesse primeiro momento, o levantamento se concentrou em publicações nacionais. No entanto, com o avanço e a internacionalização do modelo, referências de publicações e teses internacionais (Goñes & Cueto, 2022) identificadas pelo grupo de pesquisa também foram incluídas no catálogoAtualmente, o catálogo conta com aproximadamente 200 referências de publicações.
A seguir, apresentamos os trabalhos de Lúcia Azevedo (2011), Fernando Alves (2013), Adelina França (2015), Rubens Coriolano (2019) e Ezio Silva (2021). Cada pesquisa possui suas especificidades, demonstrando a flexibilidade do modelo na aplicação da metodologia do tipo survey.
PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, CONSCIÊNCIA POLÍTICA E UNIVERSIDADE
A pesquisa de Azevedo (2011), intitulada A Participação Política dos Alunos de Universidades Particulares no Vale do Paraíba, é desenvolvida a partir da observação da pesquisadora sobre o desinteresse dos alunos na participação política vinculada à atividade acadêmica.
COLETA DE DADOS
O questionário da pesquisa procura investigar a participação dos alunos nos espaços coletivos, considerando a relevância do movimento estudantil na história política do país. O grupo amostral é constituído por universitários de instituições particulares, localizadas no Vale do Paraíba em São Paulo. A base empírica para a pesquisa quantitativa é obtida através de um survey, com 58 perguntas, aplicado a 301 estudantes. Essas questões utilizam como referência o instrumento desenvolvido por Robinson et al. (1999).
Azevedo (2011) escolhe as cidades de Lorena, Taubaté e São José dos Campos para a pesquisa, em decorrência da representatividade econômica na região e estrutura dos cursos oferecidos. Participam da pesquisa alunos das ciências humanas já familiarizados com o contexto universitário.
REFERENCIAIS TEÓRICOS
Como base teórica, Azevedo (2011) utiliza o Modelo de Análise da Consciência Política de Salvador Sandoval (2001) e pesquisas que compartilham desse mesmo referencial. As sete dimensões de análise desenvolvidas no modelo citado são utilizadas para a estruturação do instrumento de coleta e discussão teórica.
A proximidade dos interesses entre um grupo de pessoas é elemento formador da consciência (modelo de estudo cumulativo), além de uma estrutura que viabilize o encontro dessas pessoas no espaço coletivo (modelo de estudo estruturalista). Entretanto, essas perspectivas sociológicas não respondem aos aspectos psicológicos que levam pessoas a se envolverem em um movimento social, para isso a Psicologia Social é utilizada como referencial. é dessa integração que o MACP se desenvolve, contribuindo para o avanço da pesquisa sobre o que leva as pessoas a se engajarem, ou não, em um movimento. Para analisar os dados coletados sobre as dimensões da Consciência Política e investigar a participação política dos alunos, Azevedo (2011) utiliza o programa estatístico SPSS.
RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES
Os resultados da pesquisa indicam a preocupação dos alunos quanto às questões coletivas, e ao mesmo tempo foi observado resistência à participação política. A pesquisa evidencia interesse dos alunos por eventos públicos, eleições, dedicação do tempo à comunidade, compromisso com deveres e, por outro lado, rejeição à ideia de se manter distante de outros alunos ou de não agir pelos outros, o que mostra um movimento de proximidade e solidariedade. Há, entretanto, dados que mostram a não participação em partidos políticos, grupos culturais, executivas de curso (representações estudantis regionais ou nacionais de uma área do conhecimento), grupos coletivos e instituições sociais. O envolvimento em partidos políticos é um tipo de participação política, entretanto a pesquisadora observa a tendência dos alunos de se afastarem dos mesmos.
A maior parte dos alunos observa que o governo não compreende os problemas que as pessoas enfrentam e é incapaz de lidar com os principais problemas do país, além de sinalizar que o governo se envolve em atividades que não faz parte da sua atribuição. Os estudantes também mostram que as pessoas não recebem as mesmas chances, ou têm o mesmo tipo de tratamento perante a justiça.
As promessas de campanha são observadas como retóricas sem comprometimento dos políticos para torná-las executáveis, e os alunos relatam não confiar na maior parte dos políticos, sendo necessário monitorar ações e posicionamentos. Também percebem que as autoridades não parecem atribuir importância ao que eles pensam.
Os alunos sinalizam a relevância do contato entre colegas e das experiências de estágio para a formação política, mas mostram tendência a não participar de campanhas, doar dinheiro para campanhas ou utilizar algum tipo de button de propaganda política. Em relação a fazer contato com alguma autoridade política, também a maior parte nunca fez esse movimento. Nesse mesmo sentido, a maioria diz nunca ter se envolvido para resolver algum problema da comunidade.
Azevedo (2011) também faz análises comparando o resultado entre os cursos e as cidades pesquisadas. Em suas considerações finais observa a presença de um sentimento de solidariedade entre os alunos, mas com pouca participação política. A pesquisadora coloca o envolvimento nos espaços coletivos como parte da cidadania. Ao atribuir um sentido negativo à política, mas não agir para transformar a mesma, os estudantes perdem, e a sociedade perde uma liderança jovem, que tem um sentimento de solidariedade com o grupo. A autora destaca que os estudantes evitam participar politicamente em decorrência do sentido pejorativo que atribuem à política e aos movimentos sociais.
CONSCIÊNCIA POLÍTICA DOS TRABALHADORES METALÚRGICOS DO GRANDE ABC
A pesquisa de Alves (2013) intitulada A consciência social dos trabalhadores metalúrgicos do grande ABC: um estudo psicossocial no contexto das empresas para a inovação tecnológica desafiou trazer ‘alguns olhares’ epistemológicos acerca da consciência e das relações do trabalho no âmbito das organizações fabris. Palco de inúmeras transformações, escolher o cenário da região revelou uma memória econômica, social, cultural e política, capaz de traduzir os anseios humanos e da luta laboriosa para a constituição do trabalhador.
Diante do desafio do pesquisador no cotidiano das relações fabris, esta pesquisa objetivou compreender a constituição da consciência dos trabalhadores metalúrgicos em empresas tecnológicas do Grande ABC. Este arcabouço teórico recorre ao MACP de Salvador Sandoval (2001) ao estabelecer as correlações e as dimensões nas quais permitem o estudo das ações humanas desses trabalhadores, seu cotidiano e suas proposições diárias no âmbito das empresas. é diante dessa relação dual entre o capital e o trabalho que a consciência permite aos seres humanos ações de transformação das relações intersubjetivas, constituinte do humano. Entender a constituição dessa consciência durante as relações de trabalho passou a ser fundamental na era do conhecimento, desafiada pelo cotidiano das fábricas, seus comportamentos, suas linguagens e das práxis laborais.
Numa inspiração maiêutica, o MACP permitiu nas pesquisas em campo o avanço sobre os estudos da consciência política. O alicerce epistemológico no qual a pesquisa está embasada, percorreu alguns teóricos para a construção desse resultado. Importa dizer, preocupamo-nos em entender os desdobramentos das transformações sociais acerca da complexidade conceitual da atividade humana – trabalho – na perspectiva da psicologia política e social para a formação do psiquismo humano. Revistar o trabalho como atividade humana psicossocial em Clot (2007), Furtado, (2011) e Arendt (1997), a construção sócio histórica do humano de Lane (1980, 1988) ou mesmo Heller (2000) e ainda exploradas em Berger e Luckmann (2009); o psiquismo humano de Leontiev (1978) e a formação da identidade com Ciampa (1997, 2008) formam a trama intelectual na qual desafia-se a contemporaneidade na busca por respostas às indagações trazidas no bojo do capitalismo.
Corroborando com o MACP, o autor enfatiza a importância da formação do self e o outro generalizado de George Mead (1993) para a consciência pessoal e coletiva nos escritos de Sandoval (1989, 1994). Elevados ao patamar de grupo, o autor busca entender a relação interdependente nos movimentos sociais desses grupos contida na eloquência de Henri Tajfel (1982, 1983), mediados pela linguagem do agir comunicativo do humano revelados e difundidos em Jürgen Habermas (2012), traduzindo e traçando a linha tênue que conduz a discussão acerca da formação desse sujeito histórico no palco dos movimentos políticos e sindicais que permanece “em movimento” nesta pesquisa. Sem esses alicerces, é impossível pensar a consciência social, as relações humanas e os desdobramentos psicossociais da formação do sujeito na contemporaneidade.
Fernando Alves (2014) optou por utilizar uma abordagem multi-método em que articulou a abordagem quantitativa e qualitativa, desdobrando num multi-método com a finalidade de construir e aprofundar os construtos (as dimensões) da pesquisa.
Procurando facilitar o entendimento acerca do tratamento e análise dos dados coletados na pesquisa, cabe entender a força das cargas fatoriais representadas nas ilustrações das dimensões do modelo, empregadas na pesquisa mediante a análise fatorial exploratória para determinar a validação das variáveis construídas e aplicadas a fim de consolidar o MACP. A demonstração dos modelos empíricos para cada dimensão do modelo foi construída após o agrupamento no SPSS1 e Smart2 permitindo separadamente pela análise fatorial3 na qual as forças das cargas fatoriais em determinar cada construto do modelo PLS-PM. A segunda análise foi o tratamento quantitativo de modelagem em equações estruturais4.
A pesquisa identificou a significância na relação entre os construtos extraídos da literatura, mais especificamente entre as quatro dimensões aí empregadas: o ambiente na empresa, as relações de trabalho que incluem valores pessoais, organizacionais e identificação, a consciência e a prática inovativa no trabalho. O autor analisou essas quatro dimensões à luz das variáveis contidas no tratamento estatístico quando da aplicação dos questionários – survey – e a partir da análise fatorial exploratória e do PLS-PM – Partial Least Squares – Path Modeling. Importante dizer que a validação estatística passou pelos testes de KMO – Kaiser-Meyer-Olkin, o teste de Bartlett e a MSA – medida de adequação da amostra5.
Compõe-se a dimensão ambiente da empresa de oito fatores, conforme exposta no modelo, sendo o fator de maior significância, o espaço físico de trabalho, apresentando a maior causalidade do modelo (0,817).
Para a dimensão do modelo de relações pessoais, a evidência da força fica a cargo das variáveis dos valores pessoais e sucesso parecidos com os da empresa, com uma força representada em (0,852) do modelo, conforme apresentado a seguir:
Construindo a dimensão de inovação no ambiente de trabalho, as variáveis da pesquisa versaram sobre oito fatores agrupados: confiança e conhecimento entre os trabalhadores para a formação da equipe de trabalho, utilização de manuais e normas técnicas para a inovação, troca de conhecimentos entre a equipe de trabalho em busca da inovação, inovação como benefícios para a empresa e para o trabalhador, troca de conhecimentos entre os colegas de trabalho, inovação como elemento importante para a empresa, o estudo das normas e manuais para a melhoria na rotina de trabalho e o entendimento e a utilização das normas e manuais para a inovação. O fator preponderante foi representado pelas variáveis de confiança e conhecimentos entre os trabalhadores, com maior força de causalidade da inovação (0,837).
Na construção da dimensão a consciência dos trabalhadores, abordou-se os aspectos referentes à determinação da consciência pessoal e social do trabalhador, composta de variáveis que, agrupadas, resultaram em cinco fatores determinantes: participação dos trabalhadores nas mudanças na empresa, relação com o sindicato, participação dos trabalhadores em questões políticas e sociais, participação em movimentos políticos e sociais e o entendimento do órgão institucional na relação com os trabalhadores. Mesmo estando as variáveis levantadas presentes na literatura e no MACP, esse constructo é fundamental para a compreensão das dimensões psicossociais dos trabalhadores em empresas tecnologicamente inovadoras. diante desse resultado, extrai-se o modelo abaixo, sendo o fator da participação dos trabalhadores nas mudanças na empresa com maior força significativa, com resultado de 0,810 ao explicar o constructo da consciência.
AFINAL, E A INOVAÇÃO?
A busca pela determinação da inovação do modelo construído versou sobre as dimensões apresentadas acima. O modelo construído e validado na pesquisa referente às cargas fatoriais da relação entre as dimensões para determinar a inovação, apresentado abaixo circunscreve as relações de trabalho 0,414 e a consciência 0,290 como fatores determinantes do processo de inovação. Embora elemento impulsionador da dinâmica capitalista, a inovação também o é como catalisador dos comportamentos humanos ao se deparar com as transformações ocorridas na sociedade, sejam elas de âmbito social, econômico, cultural e político.
Alves (2013) enfatizou as análises das forças dos construtos apresentados no modelo construído e a relevância das variáveis nas percepções dos trabalhadores metalúrgicos na análise qualitativa, o multimétodo em questão. O tratamento qualitativo foi realizado mediante a interlocução com os trabalhadores em dois grupos focais para aprofundar as dimensões construídas apresentadas nos modelos. Justifica-se a participação dos trabalhadores por serem eles a manifestação da presença dos “sujeitos” e porque dão voz à entidade jurídica para conhecer as particularidades dos espaços das relações interpessoais. O autor recorreu sobremaneira às anotações de campo, observações e relatos formais e informais nas visitas de aplicação da pesquisa, bem como as entrevistas com um roteiro semiestruturado acerca das situações de trabalho com os trabalhadores metalúrgicos.
IMPACTO DA INTERNET NA PARTICIPAÇÃO E CONSCIÊNCIA POLÍTICA DE JOVENS
França (2015) analisou, por meio de pesquisa quantitativa, o impacto da internet na participação e consciência política de adolescentes e jovens da região metropolitana de São Paulo (N = 1.165). A amostra foi composta por adolescentes e jovens adultos, estudantes de escolas públicas e privadas, das regiões norte, sul, oeste e centro, de 13 a 30 anos e distintos estratos sociais. Foram investigadas as seguintes variáveis: Eficácia Política, Predisposição para Participar, Interesse em Política, Motivação Interna e Externa, Participação Política, Percepção de Engajamento Cívico, Predisposição para Intervir, Confiança nas Instituições, Confiança nas Pessoas, Valores em Relação à Democracia, Satisfação com a Democracia Brasileira, Consumo de Mídia, Interesse na Mídia, uso da Internet, Valores, Sentimento sobre Política, Eficácia Política, Associativismo, Liderança, Grau de Pertencimento, Conhecimento, Interesse Político de Amigos e Pais, Influência dos Pares, Empatia e Iniciação Política.
O referencial teórico apoiou-se principalmente no MACP desenvolvido por Salvador Sandoval (2001) e na tipologia de Participação Política proposta por Erik Amna e Joakim Ekman (2012), pesquisadores do YeS – Núcleo de Pesquisa sobre Juventude e Política da universidade de Orebro, Suécia, onde a pesquisadora estagiou.
Para fins de análise, o conceito adotado foi o da internet como um espaço, um produto social, feito por e para a prática social (Lefebvre, 1974). Sendo assim, espaços são percebidos de maneira a corresponder à utilização específica dos mesmos.
O software SPSS v. 20 foi empregado para realizar as análises estatísticas. Foram usadas tabelas de frequência absoluta e relativa, com resultados de medidas de tendência central (média e mediana), medidas de dispersão (desvio padrão) e intervalos. O Modelo Linear Generalizado para Medidas Repetidas foi utilizado para verificação de comparação através do teste Hottelling’s Trace. Foram feitos ainda agrupamentos por similaridade pelo método de ligação Ward, a fim de analisar os diferentes temas de interesse dos jovens ao utilizar a internet e relacioná-los com a variável participação política.
A autora concluiu que, apesar do potencial mobilizador da internet, o seu uso indiscriminado não se traduz de forma direta na participação e consciência política da amostra analisada – apenas os que fazem uso diferenciado da internet sofrem influência positiva e direta dos efeitos do seu uso nesse contexto.
RESULTADOS
PARTICIPAÇÃO POLÍTICA E INTERNET
Foram selecionados abaixo alguns gráficos resultantes da pesquisa. Em relação à participação política, o uso da internet foi considerado significativo estatisticamente. Porém, ao investigar em maior profundidade os dados, diferenças foram apontadas, o que levou à investigação de agrupamentos de interesse específico dos jovens.
Ao utilizar o teste t-Student na comparação entre o grupo de “usuários da internet” e “não usuários da internet” foi observada significância estatística, indicando que o grupo que utiliza a internet apresenta maior participação política (p<0,0001) em relação ao grupo que não utiliza a internet.
AGRUPAMENTOS DE INTERESSE ESPECÍFICO
Para investigar a relação entre participação política e diferentes usos da internet foi realizada uma análise de clusters ou agrupamentos. Nesse tipo de estudo, as variáveis são agrupadas por similaridade e de acordo com características em comum entre elas. As respostas são agrupadas em um dendograma. O Método de ligação Ward6 foi utilizado agrupando indivíduos e variáveis.
Ao analisar os diferentes usos da internet e participação política, foram encontrados quatro agrupamentos, diferenciados pelos seguintes temas de interesse: Grupo 1: temas – curiosidade, notícias, política e religião; Grupo 2: temas – sexo, jogos, esporte; Grupo 3: tema – outros; Grupo 4: temas – assinar abaixo assinado; participar de reuniões sociais ou políticas; colher abaixo-assinado; usar adesivo ou broche para demonstrar apoio à causa; distribuir panfletos; contatar político; boicotar ou comprar produtos; escrever para político ou representante político; usar camiseta com conteúdo político; participar de ato ou manifestação legal; participar de ato ou manifestação ilegal.
Observou-se, que existem diferentes grupos de interesse, e que alguns tangenciam o tema política e outros não. diferentes grupos de jovens fazem uso também diferenciado da internet. Esse tipo de análise revela que o impacto da internet na participação e consciência política dos jovens é também mediado pelos seus próprios interesses e forma de utilização do instrumental.
Segundo França, observou-se a presença de quatro grupos distintos de interesse, separados por temas de interesse na internet. No eixo Y, foi identificado um primeiro grupo que liga os pontos 13 a 18; um segundo grupo ligando os pontos de 11 a 9; um terceiro ligando os pontos 4, 7 e 5; e um quarto grupo ligando os pontos 2, 3, 1, 6 e 8.7
Por fim, ao investigar a relação entre participação política e os diferentes conteúdos acessados ao utilizar a internet, percebeu-se a formação de distintos grupos de interesse relacionados. Conclui-se que a utilização da internet pode estimular a participação política, mas a possibilidade desse despertar de consciência está também fortemente vinculado à utilização que o próprio usuário faz do instrumento. A autora afirma que o uso da internet está sim relacionado à participação política, mas não em uma relação direta e positiva: dependerá da forma de utilização do instrumental e de outros estímulos do ambiente no processo de socialização e composição de uma cultura política.
Esta constatação evidencia o papel fundamental exercido pelo usuário na utilização do instrumento, e na relação existente entre os seus valores, em como ele se relaciona com os espaços de pertencimento e seus sentimentos de eficácia pessoal e política – fortes elementos de subjetividade que compõem a sua identidade política – descritos por Sandoval como dimensões psicossociologias na elaboração da consciência política dos indivíduos.
Os resultados também estão alinhados com estudos realizados no campo da mídia e socialização política de jovens, segundo França. Essas pesquisas indicam que o uso da internet em si tem pouco impacto determinístico no comportamento social, reforçando o caráter proativo dos jovens nos seus processos de socialização nesse campo (Amna et al., 2011).
Os primeiros dados analisados apontaram a formação básica do tecido social da estrutura da amostra, e revelaram principalmente o forte impacto de duas variáveis: a condição socioeconômica e a questão racial/ étnica. O espectro de informações exibido permitiu verificar quais são as variáveis que provocam maior impacto na participação e consciência política no universo da amostragem, incluindo vários cruzamentos que possibilitaram também avaliar como essas variáveis relacionam-se com o uso da internet.
A testagem estatística em relação ao interesse e participação política entre as diferentes raças/ etnias e renda familiar mostrou haver diferenças entre as categorias; ou seja, significância estatística. Isso evidencia que o universo dos elementos que envolvem a participação e a consciência política dos que se autodeclaram brancos é distinto dos pardos/pretos, num país em que a pobreza e a exclusão envolvem especialmente a segunda categoria. Assim, os brancos apresentam médias bem maiores de participação política do que os pardos/pretos. França faz referência à necessidade de analisarmos historicamente a composição étnica e social do país para compreender esse resultado
Dentre todas as variáveis estudadas, a de maior impacto na participação política da amostra mostrou ser a renda familiar: a maior faixa de renda da amostra corresponde também à maior utilização da internet. de outra parte, o maior percentual de não usuários está entre aqueles com renda de até dois salários mínimos. Isso se deveu, segundo a autora, não apenas ao custo do acesso, mas dentre outras possibilidades, também à maior disponibilidade de tempo livre destinada à navegação virtual.
Na amostra analisada neste estudo, foi possível identificar que a variável gênero não mostrou diferenças, e a faixa etária que demonstrou maior participação política foi a de 21 a 25 anos. A variável de maior impacto neste estudo, porém, demonstrou ser a renda familiar. A autora ressalta que quanto mais recursos materiais ou renda as pessoas possuem, mais tempo e energia para se envolverem em questões políticas elas terão. Tais fatores, associados ao acesso a recursos de tecnologia e informação possibilitam que as camadas mais altas busquem informação e reflexão sobre temas relacionados à política. O mesmo não acontece com os estratos de baixa renda.
Ao considerarmos a internet um espaço é possível traçar paralelos com o conceito de mapas mentais, que são basicamente representações do mundo e uma estratégia cognitiva de apreensão da realidade (dows & Stea, 1982). Segundo esse conceito, a permissão para penetrar os espaços nos é previamente estabelecida por um mapeamento “permitido” pelas relações sociais. Mesmo que se tenha a possibilidade de conhecer outros conteúdos por meio da utilização da tecnologia, o acesso fica restrito à possibilidade cognitiva. Essa relação pode ser evidenciada pelos diversos usos que grupos distintos fazem da internet.
Sendo assim, a identidade política dos jovens vai se compor por meio da integração de elementos do seu próprio contexto social, permeados pelas condições de gênero, cor/raça, estratificação social, que, por sua vez são moldados de acordo com os valores sociais internalizados pelos jovens, e as “permissões” cognitivas para explorar ou não os espaços virtuais ou presenciais que vão definir os repertórios possíveis de atuação política nas suas vidas.
A internet, segundo a autora, oferece possibilidades de romper essas barreiras, mas os aprisionamentos cognitivos aprendidos pelas relações sociais e determinantes econômicos, e a ausência de elementos que impulsionam a reflexão podem impedir que o processo de conscientização da importância de sua participação política e do próprio valor da política como elemento de transformação do mundo a sua volta aconteça.
SOCIALIZAÇÃO VIRTUAL, CONSCIÊNCIA POLÍTICA E VOTO DE ELEITORES UNIVERSITÁRIOS
A pesquisa de Coriolano (2019), intitulada A internet como instrumento para a formação da consciência política de eleitores universitários e sua relação com o voto foi realizada em um momento de transição tecnológica, em que a internet passa a ter grande relevância nas campanhas eleitorais, daí o interesse do autor em investigar o impacto da socialização, através da plataforma virtual, na articulação da consciência política e no comportamento eleitoral. O grupo amostral, formado por universitários de instituições da grande São Paulo, foi escolhido por já ser usuário frequente da internet, na época do estudo.
Como base epistemológica, Coriolano recorre ao MACP de Salvador Sandoval (2001) e às três grandes escolas de comportamento eleitoral conhecidas como sociológica, econômica e psicossocial. O modelo sociológico foi desenvolvido pelos pesquisadores Paul Lazarsfeld, Bernard Berelson e Hazel Gaudet (1949/1968) da universidade de Columbia, o modelo econômico pelo professor Antony downs (1957/2013) da universidade de Chicago e o modelo psicossocial por Angus Campbell, Philip Converse, Warren Miller e donald Stokes (1960) da universidade de Michigan.
A base empírica de sua pesquisa quantitativa foi obtida através de um survey seccional aplicado à 398 estudantes, entre 10 de setembro e 11 de outubro de 2018. Foram escolhidas, de forma não probabilística, dez instituições de ensino superior da região e os questionários aplicados em alunos de treze diferentes cursos nas áreas das ciências exatas, humanas e biológicas. Todas as análises estatísticas foram feitas utilizando-se o software R.
RELAÇÃO ENTRE VARIÁVEIS IDENTITÁRIAS COM VARIÁVEIS DE SOCIALIZAÇÃO E VOTO
Inicialmente, o autor investiga, através de um teste qui-quadrado de independência, as possíveis associações significativas8 entre as variáveis de interesse sobre socialização midiática e voto e as variáveis identitárias dos universitários. Essas relações geraram uma matriz de influências relacionando os dois tipos de variáveis, que serviu de ponto de partida para a seleção de variáveis explicativas para um modelo de regressão9. As variáveis com maior frequência foram: faixa etária, renda familiar, vínculo de pagamento10, religião, atividade profissional e cor. Dentre uma série de comparações entre as variáveis sobre socialização midiática e voto realizadas pelo autor, destacam-se duas a seguir.
INTERNET E CONHECIMENTO SOBRE CANDIDATOS
Coriolano (2019) identifica a correlação entre o grau de conhecimento dos universitários sobre os candidatos e seus programas de governo e a avaliação que fizeram sobre a contribuição da internet para conhecê-los. Conforme apresentado no quadro a seguir, a percepção de conhecimento sobre os candidatos e seus programas é baixa, entre a maioria (66,7% dos casos) que avalia a contribuição da internet em baixo grau e na outra ponta, predomina, em 47,3% dos universitários, a percepção de alto conhecimento entre aqueles que acreditam que a internet tenha contribuído em alto grau.
Quadro 1 Comparativo entre a contribuição da internet e a percepção de conhecimento
| Contribuição da internet para conhecer os candidatos e seus programas11 | |||
|---|---|---|---|
| Grau de conhecimento sobre candidatos e seus programas12 | Baixa (1 & 2) | Média (3) | Alta (4 & 5) |
| Baixo (1 & 2) | 66,7% | 35,4% | 12,2% |
| Médio (3) | 22,7% | 45,1% | 40,4% |
| Alto (4 & 5) | 10,6% | 19,5% | 47,3% |
Fonte: Coriolano, 2018.
INTERNET E CONSCIÊNCIA POLÍTICA
O autor também avalia a contribuição da internet para a articulação da consciência política dos universitários. Para tal, desenvolve um escore individual de consciência política13 (ecp), baseado na média da pontuação obtida pelo universitário em perguntas relacionadas ao tema14. Observou-se, conforme apresentado no quadro a seguir, menores escores entre os universitários que em menor grau avaliavam essa contribuição. de forma crescente, escores mais elevados foram observados em universitários que avaliaram a contribuição da internet em maiores graus.
Quadro 2 Relação entre a contribuição da internet para se informar sobre política e o ecp
| Grau de contribuição da internet para se informar sobre política | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
| Escore médio de consciência política (ecp) | 1,6 | 2,5 | 2,9 | 3,3 | 3,7 |
Fonte: Coriolano, 2018.
O pesquisador também investiga a relação entre as variáveis da tríade formada pela consciência política, ideologia e voto, além de identificar os determinantes que se relacionam com a articulação da consciência política do seu grupo de análise.
IDEOLOGIA E CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Para verificar a correlação entre ideologia e consciência política, Coriolano desenvolve um modelo de regressão15, tendo um escore ideológico16 (ei) como variável explicativa e um escore de consciência política17 (ecp) como variável resposta. O modelo confirma a correlação entre as duas variáveis, identificando maiores escores de consciência política em universitários posicionados à esquerda do espectro ideológico e calcula médias18 de ecp e de ei para o grupo de 3,37 e -0,29, respectivamente.
VOTO E IDEOLOGIA
A intenção de voto19 do universitário foi usada como variável de controle e seu escore ideológico como variável resposta em um outro modelo de regressão20. Foram selecionados os quatro candidatos com mais intenções de voto entre os universitários: Ciro Gomes, Fernando Haddad, João Amoedo e Jair Bolsonaro.
A distribuição dos universitários conforme suas intenções de voto e seus escores ideológicos estão representados no diagrama de caixa, a seguir. As estimativas de ei medianos, calculadas pelo modelo, para os diversos subgrupos, foram: (a) -0,84 para universitários com intenção de voto em Fernando Haddad, ou seja, o mais à esquerda de todos; (b) -0,02 para aqueles com intenção de voto em João Amoêdo, o mais à direita de todos, porém ainda à esquerda do centro; (c) -0,06 para os que intencionavam votar em Jair Bolsonaro; (d) -0,52 para os que intencionavam votar em outros candidatos e (e) -0,42 para os entrevistados indecisos.
VARIÁVEIS EXPLICATIVAS DA CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Usando o ecp21 como variável resposta e as variáveis categóricas como variáveis de controle, um terceiro modelo de regressão22 foi desenvolvido. Coriolano usa as variáveis categóricas identificadas na matriz de influências anteriormente mencionadas. Após vários ajustes, chega a um modelo final com as seguintes variáveis significativamente correlacionadas ao ecp: cor, religião, vínculo de pagamento com a instituição de ensino e renda familiar. A partir desse modelo, o autor chega às seguintes conclusões quanto ao grupo em estudo e seus subgrupos: (a) o ecp mediano23 dos universitários foi de 3,50; (b) o ecp mediano dos universitários negros foi 0,30 superior à média, o mais alto de todos os subgrupos; (c) o ecp mediano dos universitários evangélicos foi o mais baixo dos subgrupos, 0,25 abaixo da média; (d) o ecp mediano dos universitários com renda familiar de até três salários foi 0,16 menor que a média e (e) não ser bolsista representou uma redução de 0,16 no ecp.
VOTO E CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Com base nas diferenças de ecp, Coriolano segmenta as intenções de voto entre os subgrupos de universitários com valores extremos de ecp, ou seja, negros e evangélicos, obtendo importantes diferenças de intenções de voto entre os dois subgrupos isolados. Jair Bolsonaro obtém 29,7% entre os universitários do subgrupo com menor ecp e 0% no grupo de maior ecp. Já Fernando Haddad percorre caminho inverso, obtendo apenas 5,4% entre os universitários evangélicos e 41,6% no subgrupo dos universitários negros. Diferenças relevantes também foram verificadas em relação à candidata com perfil evangélico, Marina Silva, e o candidato Guilherme Boulos, com perfil progressista, conforme apresentado no quadro a seguir.
Quadro 3 Intenção de voto segmentado por subgrupos
| Candidatos à presidência | Univ. todos (ecp3 = 3,5) | Univ. negros (ecp = 3,8) | Univ. evangélicos (ecp = 3,25) |
|---|---|---|---|
| Ciro Gomes | 30,8 | 20,8 | 18,9 |
| Fernando Haddad | 18,1 | 41,6 | 5,4 |
| João Amoêdo | 15,2 | 12,5 | 13,5 |
| Jair Bolsonaro | 13,5 | 0 | 29,7 |
| Marina Silva | 10,5 | 12,5 | 21,6 |
| Geraldo Alckmin | 4,2 | 4,2 | 0 |
| Guilherme Boulos | 2,5 | 8,3 | 2,7 |
| Cabo daciolo | 1,7 | 0 | 5,4 |
| Vera Lúcia | 0,4 | 0 | 2,7 |
| Outros24 | 2,9 | 0 | 0 |
Fonte: Coriolano, 2018. Valores percentuais.
Agrupando os candidatos em três categorias ideológicas (esquerda, centro e direita)25, o autor conclui que o voto do subgrupo com maior ecp é mais progressista, o subgrupo com menor ecp é mais conservador e o grupo dos universitários, no todo, mostrou-se, em relação a sua intenção de voto, mais à esquerda do espectro ideológico, em sintonia com seu escore ideológico.
CONSCIÊNCIA POLÍTICA E FAKE NEWS
A tese proposta por Ezio Silva (2021) é intitulada Psicoesferas e consciência política: uma leitura psicopolítica das fake news busca compreender o fenômeno das fake news sob o prisma epistemológico do MACP de Salvador Sandoval (2001). As psicoesferas são espaços psicossociais nos quais consciências se encontram, produzem sentidos, narrativas e preenchem com significados certos símbolos e esvaziam tantos outros. A concepção de psicoesfera está na obra de Milton Santos (2006).
Para a construção das análises estatísticas foi utilizado o software estatístico SPSS v.26. Foram produzidos tabelas e gráficos de frequências absolutas e relativas, além de utilizados os testes ANOVA26 (teste F) e Post Hoc27 (teste de Tukey)28. Para verificar a relação entre as variáveis qualitativas do posicionamento político e da ideologia com as variáveis das fake news, foram realizados testes qui-quadrado29. Esse teste avalia a relação (ou a dependência) entre cada um dos cruzamentos das variáveis.
Na relação entre o posicionamento político versus fake news, nota-se que o teste apresentou haver indicação da relação, estatisticamente significativa (quando p<5%). O teste está indicando uma relação das fake news com o posicionamento. Idem entre a ideologia com as imagens, nota-se que há uma indicação de relacionamento com as imagens, estatisticamente significante (quando p < 5%), com todas as variáveis (tabela x, em anexos), também indicando uma relação das fake news com a ideologia.
O primeiro bloco do questionário em que estão as chamadas imagens/notícias e são convidados a identificar se essas notícias apresentadas são: (a) integralmente verdadeiras; (b) parcialmente verdadeiras; (c) integralmente falsas; (d) parcialmente falsas ou se (e) não sabem opinar. O segundo bloco tem caráter de investigação sobre quesitos socioeconômicos e demográficos relativos aos sujeitos participantes da pesquisa e, por fim, o terceiro bloco indaga as pessoas do estudo a respeito de questões relativas a aspectos da consciência política delas.
AMOSTRA E PERFIL DOS PARTICIPANTES
A análise dos dados se deu através da discriminação da identidade política dos participantes e a respectiva avaliação/correlação com as imagens. O autor tratou também das variáveis sociodemográficas; da eficácia política; das crenças e dos valores societais. A pesquisa utilizou uma amostra de 365 indivíduos que responderam ao questionário entre o dia 10 de outubro de 2018 e o dia 12 de dezembro de 2018. No que diz respeito ao gênero, 54,5% são homens e 45,5% mulheres.
IDENTIDADE COLETIVA
A análise dos dados se deu através da discriminação da identidade coletiva dos participantes e respectiva avaliação/correlação com fake news. O autor ao indagar o posicionamento político dos participantes, colocou uma gradação (escala Likert) que vai de “muito à esquerda” até “muito à direita”. Os resultados obtidos foram: 27% da amostra se descreve como de esquerda e 28% de centro-esquerda, totalizando 50,7%. Os participantes que se identificam no campo da direita correspondem a 21%, sendo 12% de direita e 9,8% de centro direita. O centro possui 5% de respondentes e aqueles que não souberam se posicionar correspondem a 9,8%. O autor indagou também qual seria a ideologia dos participantes, apresentando no gráfico abaixo diversas possibilidades de rótulos30. Esse recurso em muito foi utilizado para tentar visualizar se os respondentes mantêm algum nível de coerência com várias possibilidades de resposta.

Fonte: Silva, 2021.
Gráfico 4 Identidade coletiva, cruzamento ideologia política e posicionamento político
Para verificar se os rótulos políticos e o auto posicionamento mantêm algum nível de relação, o autor estabeleceu esse cruzamento descritivo dos dados. de forma preliminar pode-se apontar e visualizar a convergência dos rótulos conservador/liberal nos campos mais identificados à direita. Os progressistas, socialistas e comunistas no campo da esquerda.
IDENTIDADE COLETIVA E FAKE NEWS
Na pesquisa de Ezio Silva (2021) foram selecionadas 10 chamadas de notícias em forma de imagens e textos, para as quais os participantes foram convidados a identificar, a opinar se elas correspondem a informações verdadeiras ou não. O objetivo é compreender como participantes com diferentes identidades políticas identificam a relação entre o que é verdade e o que é falso, face às dimensões da noção de consciência política. Para verificar a relação entre as variáveis qualitativas, identidade coletiva (posicionamento político e ideologia) com as variáveis imagens, foi realizado o teste qui-quadrado. Esse teste avalia a relação entre cada um dos cruzamentos das variáveis. Nota-se através do teste que há relação estatisticamente significante (quando p<5%) entre o posicionamento político e todas as imagens. O teste também indica a relação das imagens com a ideologia.
Neste trabalho, o foco foi a imagem relativa à Guilherme Boulos (Psol). de acordo com o texto, a mansão onde viveu o pai do então presidenciável está abandonada e seria avaliada em cerca de R$2,8 milhões. Essa história foi compartilhada em páginas do apresentador Alexandre Frota (PSL) no Facebook. A publicação sugere ao MTST que faça uma invasão no imóvel do genitor de Guilherme Boulos.
As identidades políticas de direita e centro direita foram as que mais consideraram a notícia como parcialmente verdadeira (24,44% e 16,67%). A identidade política de direita foi a que mais considerou a imagem como completamente verdadeira (6,6%). Notem que a maior parte dos participantes de direita e centro-direita, ainda assim afirmaram que se trata de uma notícia falsa ou parcialmente falsa. Aqueles que acreditaram que a notícia é parcialmente verdadeira ainda estão no campo das identidades de direita e centro-direita. do outro lado, as identidades políticas de esquerda, centro-esquerda e centro foram as que mais consideraram a imagem como completamente falsa (52%, 48% e 47% respectivamente).
Apesar disso, cerca de 32% dos participantes, considerando todas as identidades políticas, não souberam informar se a imagem se tratava de uma fake news ou não. O autor inferiu que na ocasião da pesquisa, o político em questão era desconhecido do grande público, mesmo entre aqueles que se descrevem mais à esquerda. dentre todas as imagens apresentadas, a que fez referência a Boulos, corresponde à que mais os participantes responderam “não sei dizer”. de acordo com Ezio Silva (2021) as fake news produzem capturas das identidades políticas e dos afetos, na medida em que as informações visualizadas estão relacionadas diretamente com os sentimentos emotivos dos participantes da pesquisa. de acordo com o autor, as diversas imagens trabalhadas apontam para como a produção de percepção do que é falso e do é verdadeiro atrelada ao posicionamento político e ideológico dos participantes da pesquisa. O que foi exemplificado com a fake news sobre Boulos é verificada nas outras imagens apontadas no estudo do autor. As fake news são fontes de sentimentos emotivos, como o ódio.
Dessa forma, a participação política de antagonistas produz afetações e mesmo que estejamos abertos ao diálogo, somos tomados por sentimentos emotivos que comprometem a possibilidade de interações (diálogos) genuínas. A polarização de percepções entre o que é verdade ou não está atrelada aos sentimentos emotivos e a nossas identidades coletivas. Estas, por sua vez, podem ser construídas sem a necessidade de sentimento de solidariedade em função da atomização das relações. dito de outra forma, você pode se sentir representado por um grupo, ainda que não pertença ao mesmo (participação ativa em partidos políticos, movimentos sociais), contudo este vínculo mesmo que frágil é o suficiente para que os indivíduos percebam os ataques de antagonistas nas redes sociais, portanto esta consciência percebe seu próprio interesse pessoal atacado. O autor reflete assim, sobre os processos de produção de identidades coletivas reativas e atomizadas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fio condutor que possibilitou o amadurecimento e o desenvolvimento da consciência política entre os autores das pesquisas descritas foi o MACP de Salvador Sandoval (2001). Todos os autores aqui referenciados na utilização da metodologia mista ou multi-método, ou seja, qualitativo e quantitativo, procuraram aprimorar o entendimento original trazido nas ideias aplicadas de Sandoval. Resta-nos saber quais foram as contribuições e os avanços nas pesquisas proporcionaram para o entendimento sobre consciência política, desafio esse que o pesquisador vivencia cotidianamente, aliás, a mola propulsora dos saberes científicos.
Em Lúcia Rangel (2011), a discussão se faz entre a participação política e o espaço universitário na região do Vale do Paraíba. A universidade, como dimensão social de manifestação política dos seres humanos, torna-se um espaço de lutas e reificação identitária. A pesquisa observou estudantes universitários e promoveu um adensamento sobre a discussão do MACP a partir das dimensões originais, num cruzamento quantitativo evidenciado pelo software SPSS. A aplicação do software permitiu o tratamento dos dados estatísticos ampliando as dimensões trazidas em Sandoval (2001) e os desdobramentos acerca da consciência política.
O debruçar de Alves (2013) sobre o MACP verificou as variáveis que consolidam as dimensões do modelo de Salvador (2001). O multi-método, em que o qualitativo foram os grupos focais e o quantitativo originou-se pelo agrupamento do SPSS e Smart, resultou na aplicação do método de análise fatorial e da equação estrutural. A pesquisa trouxe esse cruzamento e, a partir das dimensões construídas em Sandoval, o objetivo do modelo se fez nas novidades resultantes do estudo que permitia a inovação, sem contudo, negligenciar a importância dos estudos anteriores na consolidação da psicologia política. O modelo apontado por Alves (2013) validou as forças fatoriais das dimensões construídas na pesquisa no espaço fabril da região do ABC paulista, palco de intensas reivindicações dos trabalhadores.
França (2015) concluiu que a utilização da internet tem a capacidade de estimular a participação política, mas não em uma relação direta e positiva: dependerá da forma de utilização do instrumental e de outros estímulos do ambiente no processo de socialização e a composição de uma cultura política, evidenciando o papel fundamental exercido pelo usuário na utilização do instrumento e, na relação existente entre os seus valores, seus espaços de pertencimento e sentimentos de eficácia pessoal e política - fortes elementos de subjetividade que compõem a sua identidade política. Sendo assim, a identidade política dos jovens vai se compor por meio da integração de elementos do seu próprio contexto social, permeados pelas condições de gênero, cor/raça, estratificação social, que por sua vez, são moldados de acordo com os valores sociais internalizados pelos jovens, e as “permissões” cognitivas para explorar ou não os espaços virtuais ou presenciais que vão definir os repertórios possíveis de atuação política nas suas vidas. dentre as variáveis estudadas, a de maior impacto na participação política da amostra mostrou ser a renda familiar: a maior faixa de renda da amostra corresponde também à maior utilização da internet.
Para Coriolano (2019), a motivação se fez em pesquisar e trazer as discussões que versam no espaço virtual da socialização, em relação à consciência política, a ideologia e o voto. A coleta de dados se fez junto aos universitários das instituições de ensino superior da grande São Paulo. O cruzamento do método proposto baseou-se na aplicação do software R com a modelagem estatística a fim de promover uma assertividade e precisão nas análises, reduzindo assim, os vieses da subjetividade humana nos quais o pesquisador se depara cotidianamente na construção e busca por resultados. Importa destacar, a relação direta entre conhecimento sobre os candidatos e seus programas de governo e a contribuição da internet, além da associação entre o nível de articulação da consciência política do universitário e seu comportamento eleitoral.
A construção de Ezio Silva (2021) alinhou a abordagem sobre o MACP e as fake news, numa imersão com a utilização da análise multivariada no SPSS. Partindo da abordagem singular sobre a identidade, permitiu vislumbrar a formação da manifestação coletiva em que a identidade política é a base orientadora para as construções acerca da compreensão do que é falso ou verdadeiro.
Pode-se observar que, em todas as pesquisas apresentadas, a base teórica parte do modelo de Sandoval (2001). Os pesquisadores debruçaram-se sobre o modelo numa ação inovadora em elevar ainda mais a construção original dos estudos científicos sobre a consciência política. O MACP foi o referencial do qual cada pesquisador derivou seu submodelo conceitual mais adequado para pesquisar a respectiva problemática. Assim demonstrando a postura dos pesquisadores em trilhar um caminho de adaptar seu referencial conceitual com um enfoque metodológico do multimétodo revelando-se profícuo, numa atitude que reafirma cada vez mais que o cruzamento das tipologias de pesquisas podem se revelar em avanços significativos do saber científico, contribuindo para um conhecimento complexo acerca da consciência política.
Não se pode deixar de mencionar que a tarefa de construir um caminho convergente da pesquisa quantitativa e qualitativa permite vislumbrar um diferencial para as futuras pesquisas nos campos da Psicologia Política e Social. A atual predominância da abordagem qualitativa constitui o método escolhido pela maioria dos pesquisadores da área. Enriquecê-lo com a aplicação de métodos quantitativos provou ser uma tarefa viável.
























