A ciência é uma empreitada comunitária. Cientistas formam comunidades ao redor de objetos de estudo, instrumentos de investigação, e de perguntas de pesquisa. Quem pretende fazer parte de uma comunidade científica precisa conhecer os objetos, os métodos e as ferramentas partilhadas no campo. Seja para seguir as perspectivas vigentes, seja para ir além delas, é necessário entender o que já foi feito, e porque foi feito de certo modo. Afinal, além de comunitária, a ciência é também uma empreitada histórica, quer dizer, ela tem caráter transformativo e não termina no ciclo de vida de nenhum cientista.
Por não se esgotar ao longo da vida de ninguém, o ofício de cientista precisa ser transmitido entre gerações. A ideia de orientação durante cursos de mestrado e doutorado é a ferramenta mais famosa para fazer isso acontecer. Estágios pós-doutorais, não tão famosos no Brasil, também são essenciais para este fim. Eles permitem às gerações recém-formadas de pesquisadores construírem seu ofício com, contra, e para além dos limites enfrentados pelas gerações anteriores e à luz das necessidades do presente. Um desafio para cientistas nesse momento de suas trajetórias é combinar o compromisso com a história do campo e a necessidade de ajustar a direção na qual ela vem sendo construída.
Identificar objetos, ou temas, cuja relevância entre os membros da comunidade da qual se faz parte perdura no tempo, oferece alternativas interessantes para aqueles que lidam com o dilema entre continuar e renovar. Assim, a proposta desse dossiê nasceu do meu desejo em contribuir com a história da psicologia política no Brasil, focando em uma ideia muito cara para a comunidade de pesquisadores interessados na participação política e na transformação social, a saber: a consciência política. Enquanto pesquisava o sindicalismo brasileiro, e trabalhava ao lado de Paulo Freire e Silvia Lane, Sandoval Salvador colocou para si e para a psicologia política a seguinte questão: e se tivéssemos um modelo para estudar a consciência política?
Abrimos o dossiê com uma entrevista na qual Sandoval Salvador retoma o contexto histórico e as motivações iniciais da proposição de uma estrutura para estudar a participação, ou não participação, das pessoas na política. Salvador, com o tom descontraído que lhe é característico, apresenta as ancoragens teóricas e os pressupostos utilizados na construção do modelo, discute suas intenções ao abordar o assunto e pondera sobre a importância da ideia de consciência política para os estudos sobre participação e engajamento dos cidadãos na vida pública.
Em seguida, Suellen dos Santos e Marcia Prezzotti, autoras de “Modelo conceitual de consciência política em dissertações e teses no Brasil”, apresentam uma pesquisa bibliográfica exploratória, de natureza qualitativa, em teses e dissertações realizadas em programas de pós-graduação no Brasil. Esse mapeamento joga luz tanto nas características da participação em diversos espaços coletivos – conselhos de políticas públicas, movimentos sociais, pastoral carcerária, organizações não governamentais, empresas júniores em contextos universitários – quanto em aspectos metodológicos usados para abordar a consciência política e os processos de conscientização.
Em um esforço semelhante, o texto de Ezio da Silva, Antonio Alves, Fabiane Rosa, Adelina França e Rubens Coriolano apresenta as “Aplicações de métodos quantitativos associados ao modelo analítico de consciência política”. Os autores sublinham os benefícios oriundos do uso de instrumentos quantitativos para o estudo das diversas dimensões propostas pelo modelo, e valem-se da pouca prevalência de investigações com esse arranjo metodológico para apontar a inexistência de uma cultura de estudos quantitativos pela Psicologia Social e pela Psicologia Política no Brasil.
O terceiro texto do dossiê, intitulado “Consciência política em análise: 20 anos de uso de um modelo psicopolítico”, escrito por André Sales, Fernanda Salgado e Henrique Aragusuku, examina 28 artigos, publicados entre 2001 e 2020, frutos de pesquisa qualitativas com o modelo. O trabalho identifica e discute as ferramentas de coleta de dados eleitas, o tipo de objeto estudado e os aportes teóricos utilizados nas investigações. Em suas conclusões, os autores sublinham a necessidade de análises menos normativas e prescritivas sobre a participação política, bem como a urgência de investigações sobre a consciência política de sujeitos e grupos alinhados com a direita radical e a extrema direita.
Aline Hernandez e Demétrio Ribeiro de Andrade defendem a importância de memória no texto “Sentidos em disputa: memória política como dimensão transversal do modelo da consciência política”. Escrutinando os efeitos e as relações entre memória e consciência de si e do mundo sobre a experiência política, os autores argumentam pela necessidade de atentar aos impactos da memória sobre a identidade coletiva, as crenças, os valores e as expectativas societais; sobre os interesses coletivos; a eficácia política; os sentimentos relacionados aos adversários; as metas e o repertório de ação e a vontade de agir coletivamente.
Por fim, Euzébios Filho, em diálogo com as dimensões determinantes da consciência política propostas no modelo, realiza uma análise da crise de representatividade vivida pelas democracias ocidentais e os processos de polarização política, utilizando uma abordagem materialista histórica e dialética. No texto “Cinismo, eficácia política e outras reflexões da conjuntura inspiradas no marxismo e psicologia política”, o autor combina elementos econômicos e psicopolíticos em seu diagnóstico dos fatores que alimentam tanto as confusões ideológicas e o ódio à democracia quanto as produções criativas daqueles que resistem a isso.
A publicação desse dossiê marca o fim de meu estágio pós-doutoral na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob a supervisão de Sandoval1. Uma das atividades que desenvolvi durante esse período foi a de coordenar os esforços dos integrantes do Núcleo de Estudos em Psicologia Política e Movimentos Sociais (NUPMOS) em uma investigação sobre as publicações científicas nas quais o modelo da consciência política é adotado. Enquanto sistematizávamos e analisávamos nossos achados, pensamos em convidar pesquisadores que haviam trabalhado com o modelo para escrever sobre ele e se juntar a nós na empreitada de compartilhar com a comunidade interessada em psicologia política o que havia acontecido passados 20 anos da proposta feita por Salvador e endereçada aos pesquisadores dispostos a entender melhor os determinantes da consciência política. Sou grato a Salvador pelo suporte para seguir inventando meu eu cientista e a todos os integrantes do NUPMOS que trabalharam comigo nessa publicação, bem como à editora geral da Revista de Psicologia Política, professora Kátia Maheirie, e à editora executiva, Ana Lídia Brizola, que aceitaram a proposta e tornaram meu trabalho de editor muito mais simples. Devo agradecer também aos pareceristas cuja leitura atenta foi fundamental para qualidade dessa publicação.
Durante os quatro anos em que fui um pós-doutorando na PUC-SP, não apenas desenvolvi as competências técnicas necessárias para atuar como pesquisador psicólogo, mas também entendi a importância de estar atento às preocupações, propostas e anseios daqueles que trabalharam pela construção da comunidade da qual faço parte. Os artigos aqui reunidos mapeiam os frutos do modelo proposto por Salvador Sandoval e indicam direções de trabalho para que cientistas como eu possam continuar construindo o campo da psicologia política brasileira.
Torço para que o dossiê relembre o caráter histórico da empreitada científica. Espero que ele faça justiça aos esforços daqueles que ocuparam o campo e alargaram as fronteiras da área no passado e ajude a geração atual de pesquisadores a refletir sobre quais direções tomar na construção da psicologia política que queremos para o futuro.













