INTRODUÇÃO
Este artigo visa problematizar as tecnologias de si (neo)liberais a partir do exemplo da literatura de autoajuda a fim de pensá-la como um importante dispositivo da governamentalidade neoliberal em estreita articulação com as tecnologias do poder pastoral (Foucault, 1978/2008a) e da sociedade de controle (Deleuze, 2013): dobra da anatomopolítica disciplinar e do gerenciamento populacional biopolítico em uma tecnologia do Eu que replica lógicas pelo contágio da culpa e do desejo em um capitalismo cognitivo (Marazzi, 2002) modulado por ferramentas motivacionais, do marketing, da comunicação social. Culpa, vergonha, medo e desejo se tornam, aqui, territórios de afirmação de ideais de Eu e de Eus ideais replicados micropoliticamente em cada sujeito por meio de dispositivos simultaneamente molares (mídias de massa, plataformas digitais, big tech, big data etc.) e moleculares (contágios, compartilhamentos, viralizações, enxames etc.) que promovem uma tecnologia de construção dos Eus baseada em princípios do marketing-de-si, do empreendedorismo e da meritocracia-culpocracia como dispositivo de sensibilização-inteligibilização das agências: o sujeito pensa e sente a si mesmo como um produto-empresa e suas relações no mundo tornam-se seu branding pessoal na obtenção de capital social-cognitivo.
O trajeto que nos traz aos tempos de autopromoção empreendedora da autoajuda, passam fortemente pela emergência da modernidade-colonialidade e suas principais tecnologias de governo dos sujeitos. A modernidade desde sua emergência é marcada como uma resposta à crise do pensamento ocidental europeu que sofre abalos e se descola parcialmente da autoridade eclesiástica-escolástica no Renascimento (Montaigne, 1580/1961; Roterdã, 1511/1986): a busca por um novo fundamento da verdade encontra guarida no indivíduo e na ciência como nova política narrativa de nós mesmos (Descartes, 1637/1999; Kant, 1785 /2011). Desde a filosofia moderna até a iluminista, vemos a construção de uma plataforma pretensamente universal na qual se busca a inscrição de todos e tudo que há no mundo: humanidade, cadeias zoológicas, botânica, política etc., emergem como esquadros com desejo de enquadrar-ordenar ao mundo desde a linguagem formalizadora lógico-geométrica-matemática das ciências modernas. Não por acaso, junto dessa plataforma científica emerge outra plataforma numérica formalizadora-objetificadora do mundo e seus seres: o mercado acelera com as caravelas e grandes monoculturas além-mar em seu processo de captura e mercantilização das pessoas, das faunas, floras e paisagens. Assim, a modernidade se afirma como novo território pretensamente universal para traduzir a autoridade do império católico na santíssima trindade em novos termos: indivíduo, ciência e natureza (unidos pelo capital como comutador universal).
No entanto, a construção de tal novo porto seguro implica na constituição da modernidade como máquina crítica capitalística: inaugurada pela dúvida como forma de chegar às certezas, trata-se de uma máquina que destitui pontos de referência tradicionais para afirmar novas tradições assimilatórias das anteriores, operando por constantes processos de desterritorialização das pessoas, comunidades, objetos e seres em geral para sua reinscrição no território abstrato sobre codificado pelo capital como comutador universal (Deleuze & Guattari, 1972/2010) e pela ciência como pretenso discurso geral da natureza. A modernidade e a lógica capitalística inauguram, ao mesmo tempo, uma era de crises, aniquilações, violências extremas e sistemáticas, organizadas em modos de sucessivas invasões territoriais e sequestros para escravização em meio aos modos modernos e sua ode ao urbano, à ciência e ao mercado. Violentas desterritorializações e reterritorializações nas quais os únicos pontos de orientação são o indivíduo, a propriedade e o capital, pensados desde uma perspectiva moderno-colonial, ou seja, desde uma perspectiva alterocida (Mbembe, 2018a).
Desde então, extirpar territórios, aniquilar populações, estabelecer crises e desterritorializações violentas, passam a ser estratégias acompanhadas de um profundo processo de colonização eurocentrado em uma lógica racista, machista, capacitista, cisheteronormativa etc., a qual é tanto reiterada pelas estratégias necropolíticas (Mbembe, 2018b), disciplinares (Foucault, 1975/2013) e biopolíticas (Foucault, 1979/2008b), quanto também pela reconfiguração das estratégias do poder pastoral (Foucault, 1978/2008a) em tecnologias de construção do Eu (Foucault, 2004; Rose, 2011) ao modo das práticas de autoajuda contemporâneas. No caso desta última, ainda que seja mais difícil divisar a violência de suas formas de condução das condutas, elas podem provocar intensas experiências de sofrimento ao ensejarem, de modo menos nítido e mais difuso, processos de colonização nos quais o próprio sujeito assume o papel de agente colonizador de si (Butler, 2017; Han, 2018). Tais tecnologias do Eu produzem uma constante desterritorialização do sujeito das suas tramas singulares por meio da promoção de “crises” diante das quais prontamente ofertam guarida reterritorializante, ao apresentarem o ideal de eu dos “sujeitos de sucesso”, que elevam a si mesmos às pretensas conquistas almejadas pelas lógicas moderno-coloniais capitalísticas. Assim, tal máquina de subjetivação consegue articular extremos de flexibilização com extremos de conservação em uma dinâmica liberal-conservadora e laico-religiosa que viceja em nosso tempo.
As seções que seguem explicitam e desdobram as tecnologias de si da governamentalidade neoliberal trazendo o exemplo da presença na literatura da autoajuda do imperativo do ‘nascimento do empreendedorismo e da crise do presente’ como estratégias de fomento de criação de capital social mediante o incremento das competências individuais de governamento de si e des outres. Para isso, esta pesquisa analisou alguns exemplares desse gênero textual ao entendê-lo como parte do campo de saberes denominado genericamente no discurso cotidiano como “psicológico”, por serem voltados para uma modulação dos comportamentos e dos afetos com o objetivo de incrementar performance, promover de bem-estar e prevenir sofrimentos mentais. Esse material criado a partir do saber psi, se configurou como um arcabouço teórico fundamental à condução dos sujeitos a partir da modulação dos afetos, pensamentos, sentimentos e emoções.
O NASCIMENTO DO EMPREENDEDORISMO DE SI
O nascimento do empreendedorismo de si está intrinsecamente relacionado às artes neoliberais de governar e à emergência da autoajuda no século XX como uma variação do que Michel Foucault (2004) postula como ‘Tecnologia de Si’. Gênero do mercado editorial que se transformou em um dos recursos mais utilizados para se tentar solucionar individualmente as agruras suscitadas em nós mesmas/os pela modulação da oni-crise do presente (Bottoni, 2017; Hardt 2000) e sua constante produção-gerenciamento de riscos, emergências e crises por estratégias biopolíticas e de controle. Como veremos, a autoajuda aposta no duplo vínculo esquizofrenizante (Deleuze & Guattari, 1972/2010) bem próprio de tais estratégias de governo: promoção de crise e segurança, abertura e fechamento, flexibilização e redução de foco, desorientação e orientação, concomitantes como forma de promover desterritorializações que arrancam aos modos de existência de seus singulares estriamentos para, subsequentemente reinscrevê-los em sobrecodificações homogeneizantes de estrias mais esparsas e simétricas reduzidas às lógicas do mercado. Na economia da atenção do capitalismo cognitivo (Marazzi, 2002) é fundamental promover um constante estado de “sempre alerta”, uma prontidão para toda e qualquer oportunidade ou perigo que pode brotar de qualquer canto e situação: medo e esperança se coadunam no duplo-vínculo para a promoção de um circuito dos afetos (Safatle, 2020) o qual constitui tal estado de espera, atenção e motivação como tecnologias hegemônicas para a construção do eu em tempos de pânico e ansiedade crônicos. Assim, a promoção da sociedade de segurança (Foucault, 1979/2008b) é a promoção da sociedade do risco (Beck, 2010), a promoção da esperança é a promoção do medo (Safatle, 2020), a promoção da autonomia da autoajuda é a garantia da auto-sujeição em busca de um eu economicamente viável em um mercado extremamente agressivo das existências (Rolnik, 1997).
Para melhor delimitar a construção desta máquina de subjetivação moderno-colonial neoliberal, esmiuçaremos algumas linhas de força que a constituíram e constituem. Em “O Nascimento da Biopolítica”, Foucault (1979/2008b) deu sequência ao projeto de investigação iniciado no ano anterior – continuos com as teses apresentadas no curso do Collège de France intitulado “Segurança, Território e População”. Nestas aulas, o autor apresenta uma série de enunciados econômicos, para pensar a razão de Estado, que ajudaram a inventar as práticas biopolíticas que até hoje vicejam ao controle dos corpos. Dessa forma, com uma mirada genealógica, será apresentada suscintamente o caminho que os principais discursos neoliberais percorreram para ganhar força e se constituir como um dos maiores produtores de prescrições do presente, uma vez que tais discursividades foram importadas para o nosso país: como e quais linhas discursivas operaram/operam à invenção do empreendedorismo de si?
Para que se possa compreender o que é a biopolítica, Foucault (1979/2008b) afirma que se faz premente percorrer o pensamento das escolas neoliberais:
a boa política penal não tem em vista, de forma alguma, uma extinção do crime, mas sim um equilíbrio entre curvas de oferta de crime e de demanda negativa. ... a sociedade vai bem com certa taxa de ilegalidade e iria muito mal se quisesse reduzir indefinidamente essa taxa. (p. 350)
A Sociedade de Segurança parte de uma governamentalidade através da gestão estatística que visa jogar com a probabilidade dos comportamentos e não mais apenas com a docilidade: prevenção e promoção ao invés de determinação. Como já destacamos, a arte de governar dos dispositivos de segurança é pensada a partir de uma racionalidade econômica, ou seja, conseguir extrair o máximo com o mínimo de esforço: aprender a governar os fluxos sem estancá-los, mas sim modulá-los para promover o esplendor do Estado e do Mercado sem produzir gastos desnecessários e prescindindo ao máximo de esforços autoritários os quais, por sua vez, possibilitem reações de resistência ao governo. Garantir ordem com certa liberdade exige sofisticar as estratégias de governo para garantir a aliança liberal-conservadora.
Se o ponto central que alicerçava as ações do Soberano nas relações feudais era a de saber se o seu governo estava de acordo com as leis divinas e a moralidade que dela derivava; a Razão de Estado (séculos XVI e XVII) trouxe a inovação de se buscar detalhar com máxima acuidade a economia dos seus movimentos maximizando eficiência. A pergunta da modernidade é a de como estabelecer o cálculo proporcional dos limites da gerência a partir desse limiar entre mínimo e máximo de intervenção. É primordialmente por essa mudança de paradigma que Foucault (1979/2008b) afirma que Adam Smith rompeu com os fisiocratas dizendo que a economia é uma ideia ateia – o poder do Soberano não deveria existir, portanto. A sua crítica se endereçava ao tamanho do Estado e mais precisamente a questão fiscal, pois era apenas esse poder divino sobre o reino que assegurava as taxas. Nesse sentido, Smith é pioneiro em falar sobre a sociedade dos egoístas. Para esse pensador, todos os indivíduos eram livres, iguais em direitos e se assemelhavam justamente a partir de seu egoísmo, de maneira que esse princípio faria com que a economia funcionasse. Com esse argumento, ele coloca em questão o fato de que os fisiocratas propunham a liberdade econômica, mas ainda acreditavam em um Estado totalitário. E é nesse interim que ele propõe a sua famosa tese da mão invisível – cabe ressaltar certa insistência do divino nessa imagem e, em especial, na crença da natureza como o melhor dos mundos. Se a sociedade é composta por homens livres, o mercado também deve ser, o Estado não precisa fazer nada para que as relações econômicas transcorram. O que garante a economia é a livre concorrência. Esta funcionaria por um mecanismo simples, um empreendedor egoísta para poder satisfazer os seus desejos irá produzir da melhor maneira possível para que consiga vender. Assim, o mercado passaria autonomamente a se regular, pois os consumidores, como sujeitos econômicos, também são egoístas e tendem a procurar, em uma relação de custo e benefício, pelos melhores produtos.
O principal entrave nesse meio todo seria se o Estado utilizasse o seu poder para atrapalhar esse mecanismo dessa suposta competição natural. Essa tese foi uma das grandes impulsionadoras da revolução à sociedade civil. Esse pensamento é muito importante, pois ele concede as condições de possibilidade à transformação do jogo mercantil de resultado nulo ao mundo do capital. O antigo jogo compreendia a riqueza como uma só, assim, o Estado que acumulasse mais ouro seria o vencedor, tal como o império espanhol – que ruiu tão rápido quanto a velocidade com que saqueou as suas colônias. No entanto, nas relações capitalistas o que impera é a sobrecodificação dos resultados. Assim, a produção industrial rompe com essa lógica, sobre a justificativa de que a competição faria com que todos pudessem enriquecer, e não somente o Estado. No entanto, o que se observou na história europeia foi o inverso dessa lógica de competição sadia entre sujeitos livres e econômicos. “Afinal de contas, com o século XIX, entra-se na pior época da guerra, das tarifas aduaneiras, dos protecionismos econômicos, das economias nacionais, dos nacionalismos políticos, das maiores guerras que o mundo já conheceu etc.” (Foucault, 1979/2008b, p. 80). Aqui, cabe ressaltar que é esse pensamento de expansão para incrementar os resultados econômicos o germem do que se conhece, hoje, como a mundialização do mercado.
Os primórdios do mercado financeirizado aprendeu que a mão invisível do livre mercado precisava de uma grande ajuda. Para tentar se ocupar dessas lacunas, o pensamento neoliberal passou a ganhar força. O início do século XX trouxe consigo vários desastres econômicos. As duas grandes guerras, a quebra da bolsa de Nova York em 1929, entre outros fatores. Para lidar com essas crises, as saídas clássicas foram a das planificações a partir das medidas keynesianas de Estado. Frankling Delano Roosevelt, no New Deal, adotou esse sistema que consistia em um Estado amplamente interventivo e assistencialista, com a criação em massa de empregos, junto a táticas de protecionismo.
Sob a problemática dos Estados encontrarem alternativas à planificação econômica emergem as escolas neoliberais da Alemanha e dos EUA. O problema das relações capitalistas e dos efeitos da imaterialidade desse modo de produção gerou um grande conflito a ser resolvido pelos pensadores germânicos. Após a nova derrota na II Grande Guerra, com a terra arrasada e inúmeras contas a pagar, a Alemanha precisava determinar as políticas que deveriam ser implementadas. A planificação keynesiana não deveria ser uma saída, visto que tais práticas facilmente remontariam a centralidade estatal autoritária do Terceiro Reich. Com isso, a escola neoliberal de Friburgo conseguiu força suficiente para influenciar as tomadas de decisão acerca da economia e influenciar outras vertentes que emergiram (como a Escola Austríaca e a Escola de Chicago) – com nomes expoentes as encabeçando como Wilhelm Ropke, Friedrich Hayek, Walter Eucken, Ludwig von Mises.
O modelo que foi implementado na Alemanha utilizava três zonas de intervenção do Estado: ataque aos monopólios, através de uma moldura jurídico-institucional; ações conformes: reguladoras, (criação de leis para que os preços pudessem ser mantidos) e ordenadoras (formação ao longo do tempo de mão-de-obra qualificada); e, por fim, no campo da política social, foi firmado que ela seria da ordem de uma suposta economia social de mercado, ou seja, através única e exclusivamente do crescimento econômico gerado pelas demais medidas. No fundo, a escola alemã aceitou que não há naturalidade na competição, de maneira que aí entra o papel da governamentalidade neoliberal: o fomento do mercado. Contudo, isto não poderia se dar através de subsídios ou políticas sociais, pois o mercado precisa ser livre, as ações deveriam centrar-se na população e principalmente na criação de uma moldura jurídica que regularia a competição do jogo econômico.
É devido à criação dessa moldura institucional, nesse máximo de intervencionismo jurídico para prever as regras do jogo, que Foucault (1979/2008b) vai destacar o começo da virada da sociedade disciplinar e biopolítica para a sociedade biopolítica-empresarial. Esse estado de direito na Alemanha que fomenta a competitividade traz consigo implícita a ideia de que os únicos agentes econômicos devem ser as empresas. “Um jogo de empresas regulado no interior de uma moldura jurídico-institucional garantida pelo Estado: é essa a forma geral do que deve ser o quadro institucional de um capitalismo renovado” (p. 238). O capitalismo se reinventou, de modo que o Eu que se quer nessa sociedade é o Eu competitivo/empresarial. Assim, assemelhando-se ao modus operante da sociedade, os sujeitos passam a ser entendidos também como empresas: as bases para o empreendedorismo de si.
Cruzando o Atlântico, o liberalismo em solo estadunidense nasceu no período das guerras pela independência, deste modo os princípios liberais são fundadores do Estado: a liberdade de busca pela felicidade está inscrita na constituição do país, em uma nítida delimitação da liberdade enquanto ausência de intervenção sobre os desígnios individuais e sua busca por autorrealização. Não por acaso, a perspectiva humanista vicejará no contexto dos EUA em sua escola centrada na pessoa (Ferreira, Curvello, & Monteiro, 2009; Leitão, 1990). Assim, diferentemente da questão alemã, é uma forma nacional de se pensar ao/ como sujeito: o Estado adentra a esfera pública apenas para garantir e fomentar a sacralidade do privado (propriedade privada e liberdades individuais), a ordem (conjunto de leis que conjugam o moral com o econômico) considerada necessária para empreender e, por fim, a capacidade de cada indivíduo sair em busca da própria felicidade. Dessa forma, o problema neoliberal nos EUA, segundo Foucault (1979/2008b), centra-se nos níveis de criminalidade e na questão que mais interessa às práticas da governamentalidade: o capital social, a máxima contração do sistema de (re)produção no indivíduo tomado enquanto potencial de ação. Para o pensamento neoliberal da Escola de Chicago, a principal problemática que os atravessava era exatamente o problema do trabalho. Para eles, nem Adam Smith, tampouco a escola alemã, falava efetivamente de trabalho – nem mesmo Marx falou de trabalho, uma vez que tratou da organização do trabalho e de como a mais-valia expropria o trabalhador. Nesse ponto é que o autor encontra a inovação dessa corrente:
Não é uma concepção da força de trabalho, é uma concepção do capital-competência, que recebe, em função de variáveis diversas, certa renda que é um salário, uma renda-salário, de sorte que é o próprio trabalhador que aparece como uma espécie de empresa para si mesmo. Temos aqui, como veem, levado ao extremo, esse elemento que já lhes assinalei no neoliberalismo alemão e até certo ponto no neoliberalismo francês, a ideia de que a análise econômica deve encontrar como elemento de base dessas decifrações, não tanto o indivíduo, não tanto processos ou mecanismos, mas empresas. (p. 310)
A questão para a nova agenda da governamentalidade seria a de fomentar as competências de seus indivíduos, fazer a economia se fortalecer através da qualificação dos trabalhadores e não do trabalho, uma vez que o encaram como um conceito abstrato. A educação por competências, financeira, por projetos e os meios para aferir seus resultados (variados índices educacionais) são exemplos dessa perspectiva de incremento de capital humano para o Estado. Para exemplificar tal programa individualizante, podemos citar Deleuze, “O princípio modulador do ‘salário por mérito’ tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame” (2013, p. 225): à escola disciplinar-industrial e seu fomento de padrão-obediência sede, sobrepõe-se a capacitação permanente e a promoção de habilidades e competências específicas a cada situação (Santin, 2019), a cada oportunidade-desafio. Esse é o modelo educacional personalizado, voltado para capacidades específicas dos sujeitos enquanto potenciais empreendedores. No entanto, sob a imagem da flexibilização, se esconde o processo de precarização dos serviços públicos e da própria noção de comunidade.
O capital social se corporifica como conjunto de competências e habilidades no trabalhador: enquanto conjunto de possibilidades de comportamentos economicamente rentáveis, é o maior capital de uma nação e, por conseguinte, das suas empresas. Para a Escola de Chicago “A economia é a ciência do comportamento humano, a ciência do comportamento humano como uma relação entre fins e meios raros que tem usos mutuamente excludentes”. (Foucault, 1979/2008b, p. 306). Deixando bastante evidente como deveria ser estabelecido a volta do crescimento americano, a partir da qualificação dos sujeitos, pois estes deveriam ser entendidos como indivíduos econômicos e ativos. Aí se encontraria a recuperação econômica, uma vez que a somatória da remuneração meritória da/o trabalhadora/or (qualificado) e seus comportamentos rentáveis (de produção, consumo e endividamento) farão a economia girar. Os técnicos americanos passam a incidir sobre a análise dos comportamentos para fomentar capital humano para a nação: as ciências do comportamento se tornam aliadas na busca por modelar comportamentos, transformar atitudes, promover flexibilidade, resiliência, proatividade, motivação etc., como estratégia centrada no campo de cognições, afetos e comportamentos possíveis dos indivíduos para conduzir às condutas a céu aberto e sem a necessidade de coerções e vigilâncias ostensivas. Assim, o mercado como mar aberto encontra suas âncoras tão duras quanto leves, perdurando no tempo ao mesmo tempo que flutuam no espaço: o indivíduo como conjunto de tendências de cognição-comportamento e o capital como comutador universal.
RATIO DE ESTADO COMO CRISE DO PRESENTE E A MÁGICA DO EMPREENDEDORISMO DE SI
Segundo Foucault (2004), a governamentalidade, ou razão de Estado, pode ser definida como o agenciamento entre as tecnologias do saber/poder e as tecnologias de produção do eu (Rose, 2011) e de cuidado de si (Foucault, 2014). Assim, esta seção dará especial destaque às tecnologias de si, e os exemplos da autoajuda serão encarados como uma variação contemporânea possível destes dispositivos pelos quais o sujeito assujeita-se a si mesmo. Na conferência sobre as tecnologias de si (publicada originalmente em 1982), o autor faz uma apresentação de como as práticas de “cuidado de si” e “conhecimento de si” eram prescritas durante a antiguidade clássica e passaram a assumir uma nova roupagem com o advento do cristianismo como religião oficial do Império Romano, sendo, posteriormente, integradas às dinâmicas do biopoder por meio das ciências clínicas (medicina, psiquiatria, psicologia), jurídicas (criminologia) e pedagógicas – no último curso ministrado pelo autor, “A Coragem da Verdade”, Foucault (2011) faz uma extensa explanação acerca do tema, quando se pergunta como o “conhece a ti mesmo” do oráculo de Delfos à Alcebíades se transforma em práticas ascéticas no Cristianismo. Essas tecnologias são compostas por prescrições de comportamentos e instrumentos reguladores que atuam a fim de que o sujeito efetue vigilância e intervenção constantes sobre o seu próprio pensamento, corpo, modos de ser, movimentos, visando alcançar estados de bem-estar, erudição, prosperidade etc., ou seja, modular-se a partir de operações sobre si mesmo para conformar-se a imperativos morais e éticos próprios das lógicas moderno-coloniais capitalísticas.
Como afirma Rodrigo Orellana (2004) em sua tese doutoral sobre a obra de Foucault, é necessário compreender o “si” como uma inquietação constante com o próprio processo de subjetivação, no entanto, iremos aqui dividir as tecnologias de si/ tecnologias de produção do eu (as quais voltam-se para produzir estabilizações do movimento produtor de si sem colocar em questão os regimes de aceitabilidade, pensabilidade, performatibilidade etc.) e o cuidado de si (o qual seria uma ação crítica sobre o movimento de produção de si no sentido de suspender parcialmente e deslocar os regimes de condições de possibilidade dos juízos que conformam pensares, fazeres, sentires etc.). Essa ressalva é muito importante para não cairmos no falso entendimento do conceito de tecnologia de si como algo que remete a uma interioridade individual tanto criticada pelo autor, assim como diferenciar as práticas de si voltadas a pensar a própria vida como obra de arte em uma ética do desassossego das demais tecnologias de si voltadas à promoção do governo de si e de outres em acordo com as estilísticas moderno-coloniais capitalísticas. Assim, se o cuidado de si é uma ação crítica de tecnologia de si em uma ético-estética do desassossego, por outro lado, temos muitas outras variantes de tecnologias do eu que reiteram as lógicas instituídas na movimentação da produção de si, sendo até mesmo a própria tecnologia de si voltada ao desassossego, também, muitas vezes, capturada pelas lógicas capitalísticas neoliberais no ímpeto capitalístico de revolução de si.
As âncoras leves e duras dos dispositivos psi participaram/participam de forma tão nítida quanto esfumaçada em benevolência para as tecnologias de gerenciamento. Segundo Nikolas Rose (2011), o principal papel das práticas psi é efetuar a tradução entre as táticas de sedução do governo para o fomento das competências desse tal sujeito livre: “A codificação, a matematização e a padronização fizeram do teste um minilaboratório para a inscrição da diferença, permitindo a realização de qualquer esquema psicológico de diferenciação de indivíduos em um curto espaço e tempo” (p. 108). Aos testes militares e os testes de inteligência norte-americanos da década de 1930, juntam-se outras tecnologias micropolíticas voltadas para a modulação afetivo-comportamental do coletivo concebido enquanto conjunto de indivíduos: pesquisas de aferição da opinião pública e das atitudes populacionais, assim como os experimentos com grupos como ferramentas de governo, implementados especialmente por Elton Mayo, Kurt Lewin, Solomon Asch e Muzafer Sheriff (Barros, 2007). O saber psicológico foi utilizado para fomentar a individualização do social a partir de sua expertise que traduz o mundo enquanto campo de crenças, tendências de comportamento e emoções, concedendo caráter de verdade e legitimidade para as táticas do Estado, sempre naquele limite entre determinar o máximo efeito diante do mínimo de ações: a psicologia foi um dos principais campos utilizados para promover a interferência da governamentalidade neoliberal na vida dos sujeitos por meio da sua agência em um campo dispersivo e flexível (afetos, desejos, crenças, cognições, comportamentos).
Dessa forma, imersos nas lógicas de governamento dispersivos, são poucos os cais de porto que podem ser vislumbrados com a certeza necessária para fincarmos os nossos pés. Sem lançar mão de eufemismos, desde que a governamentalidade neoliberal passou a imperar, as estratégias de condução de condutas primam pelo imperativo da oni-crise do presente (Hardt, 2000). Para este autor, essa modulação de crise é imprescindível ao controle imaterial, visto que as câmeras de vigilância são exercidas pelos próprios sujeitos-empresas, dado que é nosso papel estar em constante desassossego para não ficarmos reféns das intempéries sem estarmos minimamente municiados com a última boia-competência quando porventura cairmos em mar aberto. Na esteira desse pensamento, Moisés Alves (2018) propôs um personagem conceitual (Deleuze & Guattari, 2013): o sujeito em crise. Essa máquina de crise fomenta a dívida infinita nessa sociedade de insegurança. O que nos tira das margens plácidas é essa planificação da próxima crise que se avizinha a qualquer instante. Assim, somos convocados individualmente a dar conta de todos os aspectos societários que nos trouxeram até aqui, como se fossemos apartados dos regimes de disputa das condições de possibilidade. A crise se torna constituinte de nós e do contemporâneo, uma modulação imperiosa do presente que nos impele ao paradoxo de que qualquer parada se torna estagnação, qualquer respiro de um suposto sucesso vale tanto quanto o próximo título, o próximo título de capitalização, título do tesouro direto, título de mestre, título de pós doc, a próxima aquisição de uma ação de fundo imobiliário, quando tão logo formos informados que este também é de baixo risco, somos convocados a ampliar o leque de nossa carteira a soprar e surfar ao sabor do próximo vendaval da bolsa.
Contudo, felizmente, nós não estamos sozinhos, ou melhor, as tecnologias dos Eu-empresas nos prometem aquelas mãos generosas que nos auxiliam a descer da jangada quando aportamos em terra firme. Hoje, se observa o crescimento exponencial das propagandas e do marketing de coachings junto da autoajuda. É fácil, é mágico, dois finais de semana e já estamos aptos a novamente curar a crise que acabou de passar a partir de algum simples (mas eficazes) passo a passo, remada pós remada. Essas promessas são sempre da ordem do ser de exceção, do ser do excesso preso à imagem e semelhança da métrica colonial-capitalística: homem-branco-europeu-cisgênero-rico, sujeito que, na economia dos afetos, sempre aparenta estar pronto/preparado para a próxima crise e, por isso, rema seguro na direção da insegurança do mercado aberto. Essa é a função primordial da lógica de desterritorialização-reterritorialização da máquina esquizofrênica do capital (Deleuze & Guattari, 1972/2010), que faz a comparação de tudo e de todes a partir da moeda – aliás, todo e qualquer processo singular facilmente se torna relação de uso/consumo. Essa máquina de produção de duplo-vínculos (há saída da não saída pelo entrar mais no não sair), essa sensação corpórea de crise se concentra no encontro de duas correntezas, quando recebemos duas informações conflitantes entre si a um só tempo e somos tragados (sem seguro) para o mar: como diria Zygmunt Bauman (2010) você vale tanto quanto o seu último sucesso. Se há sucesso (lembrando que é o do ser excepcional) ele é um afeto ínfimo, posto que é efêmero frente ao excesso de fracassos à normalização do inconsciente colonial capitalístico (Rolnik, 2018). É como se estivéssemos sempre em dívida, sempre em culpa à espreita da próxima crise que chegará, impelidos a nos esforçar cada vez mais para adquirir a próxima competência a agregar em nossa carteira de investimentos – nesse regime de economia, o WhatsApp também nos auxilia a poupar até 12 horas de nosso dia, se optarmos por colocar os áudios em 2x, permitindo o dobro de horas nos mesmos 1440 minutos: poupamos o tempo para gastá-lo mais, buscamos vencer a prisão dos relógios nos afundando ainda mais na subdivisão do tempo e na sobreposição das temporalidades ao reduzi-las à probabilidade das oportunidades, medidas não mais pelas horas, mas enquanto perdas ou ganhos. Não por acaso, Spencer Johnson, autor do best-seller “Quem mexeu no meu queijo” (2000), lançou, antes desse livro, uma série de obras prescrevendo uma tecnologia do eu baseada em técnicas como, por exemplo, as “metas-minuto”, “repreensões-minuto” e os “elogios-minuto”. Os títulos de tais livros são, por si só, autoexplicativos: “Pai Minuto” (Johnson, 1995), “Mãe Minuto”, “O presente precioso”.
Há um grande sufoco, pois, como já dissemos, sempre encontramos as mãos (invisíveis) amigas para nos ajudar com aquele pulo do barco ao mar. Pelo poder pastoral (Foucault, 1978/2008a), encontramos aqueles enviados pelo divino para cuidar de suas ovelhas. A literatura de autoajuda, nos parece se inserir nesse local de magia onipotente afirmando ser possível resolver todas as nossas questões pela sua inteligibilização enquanto crises individuais (e não singulares) que dependem estritamente de uma mudança de atitude, de crenças, de comportamento, do eu. Como um lobo em pele de cordeiro, tal literatura se apresenta em diferentes roupagens editoriais, dialogando com diferentes gêneros literários e/ ou dimensões da vida e da produção de conhecimento: possui versões voltadas à promoção de um bem-viver baseado em diferentes filosofes, ou ainda, trazendo ensinamentos religiosos, mas sempre traduzindo tais campos discursivos a um conjunto de tecnologias de governo do eu voltadas para uma duplo-vinculante busca do sucesso. Enquanto tecnologias do eu, estas obras buscam sempre alguma sustentação direta ou indireta nas ciências de governo do comportamento: psicologia, medicina, administração, economia etc. Dizendo de outra forma, dentro do campo técnico-científico das literaturas de tais disciplinas, as obras de autoajuda se apresentam não apenas como livros voltados para o público leigo em geral, como também pretendem ser uma espécie de manual prescritivo para alcançar certos objetivos: sucesso, riqueza, felicidade etc.
A marcação de um início é sempre arbitrária, pois os limites nunca são linhas, mas sim nuvens com mais conexões do que divisões, no entanto, vamos tomar aqui uma obra como sendo emblemática da constituição da literatura de autoajuda como filão do mercado editorial: “Como fazer amigos e influenciar pessoas?” (Carnegie, 1936/2012). Esta linha editorial cresceu vertiginosamente a partir dos anos 1980 em uma estreita associação com alguns elementos da cultura new age que também vicejava neste momento: ambas afirmando sempre o imperativo do querer sobre o ser em uma ode à famigerada “força de vontade”. O flerte com a ciência como território de legitimação se dá de diferentes modos: via uma articulação estreita com a linguagem da administração, das ciências psi, das neurociências ou até mesmo com a emulação estilizada de terminologias da física quântica (Arntz, 2007; Byrne, 2015; Ourives, 2020). Vemos que o flerte com as ciências muitas vezes não passa de referências vagas e adoção de conceitos homônimos aos das áreas científicas. Do mesmo modo, acompanhamos que tal aproximação de uma terminologia científica não arrefece a forte conexão com elementos da transcendência e religiosidade: os filmes “Quem somos nós?” (Vicente, Arntz, & Chasse, 2004) e “O segredo” (Heriot, 2007), por exemplo, nitidamente promovem articulações entre elementos descontextualizados da física quântica, com a ode da “força de vontade” do arbítrio individual e metodologias da chamada “programação neurolinguística” (PNL), com concepções de espiritualidade nas quais os indivíduos podem afirmar o “Bem” no mundo pelo autodisciplinado direcionamento de sua vontade individual na direção de suas realizações almejadas.
Com isso, tem-se o cenário perfeito para um remodelamento das tecnologias gerenciais. A vida passou a ser planejada a partir de metas a serem alcançadas, dos riscos que precisavam ser calculados e assumidos. As relações organizacionais passaram a agregar valor na vida social, tudo para que a competitividade se tornasse a mais eficaz possível. Aqui, Rose (2011) volta a insistir no novo vocabulário que se cunhou aos sujeitos empreendedores.
O empreendedorismo, nesse sentido, refere-se a uma série de regras para a conduta da existência diária de uma pessoa: energia, iniciativa, ambição, cálculo e responsabilidade pessoal. O self empreendedor fará da sua vida um empreendimento, procurando maximizar o seu próprio capital humano, projetando o seu futuro e buscando se moldar a fim de se tornar aquilo que desejava ser. (p. 215)
O trabalhador precarizado, sem direitos ou vínculos formais, se transforma, em um passe de mágica em empreendedor, vendedores autônomos em consultores, o próprio desempregado é repaginado e é tratado por alguém em busca de emprego. É como se pudéssemos observar a fetichização das mercadorias se transporem a uma espécie de auto fetiche, para a venda de si mesmo, em que a construção da imagem toma um lugar central tanto nas mercadorias como nos indivíduos. E não se trata apenas de um marketing de si para os demais, mas também de um exercício constante de endo marketing pessoal, fazendo com que as diferentes violências e dificuldades enfrentadas no dia a dia possam ganhar um registro distinto na experiência cotidiana: são os desafios enfrentados por pessoas heroicas a mirarem no horizonte, pois focar no problema seria o problema de fato para tais perspectivas. Tal estratégia promove um engajamento ímpar no trabalho, em meio a uma negação constante da própria situação de precariedade e exploração por conta de dois elementos: as precariedades seriam culpa individual da pessoa e esta, ao dedicar-se a pensar e/ ou queixar-se destas, findaria por torná-las reais ou mais intensas, precisando encontrar no otimismo e pensamento positivo uma ferramenta para transformar seu mundo. Assim, nesta cruel lógica, sofrer não seria efeito, mas sim causa das agruras enfrentadas pela população.
Temos um exemplo perfeito da experiência duplo-vinculante de auto-sujeição da lógica empreendedora no filme “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (Gomes, 2019), em uma pequena cidade brasileira quase toda população vive da confecção de jeans, ao invés de grandes fábricas com trabalhadores contratados, temos uma profusão de micro-empreendimentos nos quais as jornadas de trabalho ultrapassam as dez, doze horas. Mesmo assim, acordando na madrugada e indo dormir também na madrugada, o relato dos trabalhadores e trabalhadoras, empreendedores de si, é de que a é muito mais vantajosa a flexibilidade de ganharem por peça feita do que serem contratados pela CLT. Existe uma nítida experiência de agência sobre a própria vida, mesmo que tal ação seja extremamente limitada pela precariedade econômica e social que enfrentam cotidianamente. A muito referida no filme, liberdade, se demonstra mais um afeto e uma ideia do que a possibilidade de decidir seus próprios desígnios. Por vezes, tal experiência de liberdade parece repousar exclusivamente na ausência da relação trabalhista com um empregador. Evidentemente tal situação nos fala muito das modulações escravocratas das relações trabalhistas no dia a dia do nosso país, no entanto, percebemos também aí a operação do empreendedorismo como tecnologia de si a efetuar uma micropolítica dos afetos a promover uma experiência de liberdade. Uma experiência de liberdade que se sustenta somente pelo dispositivo de individualização do social, que o psicologiza e reduz a mérito ou culpa diante das escolhas e competências motivacionais.
Assim, a literatura de autoajuda se fortalece para dar suporte às metas tanto da governamentalidade neoliberal como a dos sujeitos livres. Ela se empreende no vácuo dessa necessidade, na perspectiva do aconselhamento e terapêutica ao bem viver. Assim, os parâmetros do mercado da livre concorrência são mantidos e há o apagamento do Estado nessa relação que seria da ordem privativa, em que o Eu empresa adquire/consome para que possa cada vez mais se qualificar e, para utilizar da linguagem corporativa, se auto impulsionar através das competências. As novas técnicas da psicologia passam a entrar nesse jogo: os treinos de habilidades sociais, as técnicas para equipar os sujeitos a serem assertivos nas suas relações, os passos para conter a ansiedade – promovendo o autodomínio de si. “Nós agora podemos ser governados pelas escolhas que nós mesmos fazemos, sob a condução das autoridades cognitivas e culturais, no espaço da liberdade regulada, na nossa busca individual pela felicidade, autoestima e autorrealização” (Rose, 2011, p. 231). O que precisa ficar evidente é que o Eu empresa, ou essa figura do microempreendedor individual, é o responsável único por sua carreira.
Duplo-vínculo das exigências simultâneas de inovação (pensar fora da caixa) e de respeito às “leis do mercado”, de lançar-se ao risco e de ser bem-sucedido, levam a uma autonomização do Eu como prioridade central pelo poder político. Para Rose (2011), o pensamento neoliberal transcende o limiar da filosofia política, é “uma concepção sobre como as autoridades devem usar os seus poderes para melhorar o bem-estar nacional” (p. 214). A “ética do Eu empreendedor” seria almejada para que se chegue ao bem-estar social pela “livre iniciativa” e não através da burocracia estatal. O dever do governo nesta concepção seria, portanto, fomentar esse Eu empresa, esse Eu do risco, que responde individualmente por seus acertos e fracassos, méritos e culpas. Assim, a autoajuda adentra tal dispositivo individualizante reforçando a dimensão intangível de uma culpa que apaga contextos, complexidades e responsabilidades sociais.
Diante de um contexto de tantos riscos e vertigens, a linguagem da autoajuda em terminologias empresariais articuladas com imagens bíblicas em frases simples no imperativo, são uma necessidade fundante ao Empreendedorismo de Si. O livro de Dale Carnegie (1936/2012) é um ótimo exemplo em sua estruturação: ao final de cada capítulo existe um princípio que pretende resumir seu conteúdo por uma ordem ao leitor. Por exemplo: “1. Torne-se verdadeiramente interessado na outra pessoa” (p. 98); 2. “Sorria” (p. 106); 3. “Lembre-se que o nome de uma pessoa é para ela o som mais doce e mais importante que existe em qualquer idioma” (p. 114); 4. “Seja um bom ouvinte. Incentive os outros a falar sobre eles mesmos” (p. 123); 5. “Fale de coisas que interessem à outra pessoa” (p. 128); 6. Faça a outra pessoa sentir-se importante e faça-o com sinceridade” (p. 139). Os manuais de regras da autoajuda são da ordem do fazer: instrumentalizam o seu leitor a replicar seu sistema e se tornar capaz de habilmente manipular os demais.
Augusto Cury (2014), com uma vasta produção do gênero (com uma coletânea de livros analisando o comportamento de Jesus Cristo), por sua vez, ensina a acelerar o pensamento para combater o pensamento acelerado de modo muito semelhante. Também de maneira altamente prescritiva, ele dedica quatro páginas inteiras para simplesmente elencar várias funções do Eu como gestor dos pensamentos – de modo que o leitor se sinta pressionado a incrementá-las. E na vigésima quinta afirma: “educar-se em todas as 24 funções mais complexas da inteligência citadas acima para desenvolver a mais notável delas: ser autor da própria história ou gestor da sua mente” (p. 80). Neste livro, o primeiro da trilogia sobre a ansiedade, mediante uma estilística que emula parcialmente a das ciências, o autor visa instrumentalizar as/os leitoras/es a combater a sua “Síndrome do Pensamento Acelerado”, diagnosticado pelo autor como o grande mal de nosso tempo: nos informa que a síndrome “atinge cerca de 80% das pessoas” (Cury, 2014, p. 17), contudo, não refere a fonte dos seus números impactantes. Facilmente somos seduzidos a acreditar que estamos imersos nesse montante assustador, de modo que desejamos devorar o livro a fim de chegarmos ao suposto bem-estar dos 20% excepcionais, aqueles que conseguem preservar individualmente a sua mente: vemos, aqui, o jogo do desejo de curar-se do sofrimento e de ser diferenciado diante da massa.
Outra obra que também está entre as mais lidas no Brasil é a de Jamess Hunter (2004). Novamente, munido dos discursos das ciências sociais aplicadas em comunhão com a religião, o autor faz uma narrativa de como podemos conduzir as condutas, em uma atualização no mínimo estranha dos monges de pés descalços. Em “O Monge e o Executivo”, percorremos diversas lições de como nos tornarmos líderes e influenciadores de nossas equipes através das máximas cristãs: humildade, amor ao próximo, e altruísmo. Trata-se de vestir o hábito em tons amarronzados do servir ao próximo para que o próximo possa, então, nos servir, movido pelo vínculo afetivo empático erigido: a captura (pela benevolência e devoção) des outres para o incremento e, por que não, fomento de novos hábitos regulados nestes que se quer controlar de forma imaterial em uma micropolítica dos afetos empáticos de identificação e sacrifício. Com isso, como mágica, pela fé depositada no afeto vinculante, conseguimos não exatamente fazer com que as pessoas façam o que desejamos, mas que o fazer delas seja enlaçado pelo nosso desejo, promovendo um fazer, pensar e sentir em acordo com o clima organizacional cultivado nas relações deste coletivo.
Vemos, portanto, nas tecnologias de governo de si e das/os outres da autoajuda a modulação motivacional do anímico transformado em capital humano: a promoção do fortalecimento da ânima por meio do cultivo da fé na técnica mágica. Magia da promoção de motivação pelo contágio da cultura organizacional. Magia do governo pela empatia, promovendo no outro o desejo do que eu quero pelo amor ao “eu” que queremos ser. Magia da culpa difusa, da vergonha, como falta nebulosa diante de Deus e do Mercado, inalcançáveis em sua ausência de modelos fixos em decorrência das metas móveis e da flexibilidade/ volatilidade dos cenários: nunca se sabe quando o que se faz é suficiente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: TUBARÕES, PEIXES E HUMANOS.
Em um poema, Bertold Brecht nos conclama a imaginar “Se os tubarões fossem homens” (2006). O poeta nos descreve um mundo no qual os tubarões ergueriam hospitais para curar peixinhos doentes, fariam festas ocasionais para espantar a melancolia e cuidariam da sua vida para crescerem saudáveis: “Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal” (p. 53). Haveria também escolas, nas quais aprenderiam tudo que é necessário para sua nobre missão de encontrarem os grandes tubarões no oceano e pularem em suas bocas para seu destino final. Tal finalidade das suas vidas seria descrita e exaltada em diferentes obras de arte, tratados científicos, morais ou filosóficos.
Nas guerras entre os diferentes grupos de tubarões pela conquista de mais gaiolas, seria explicado aos pequenos peixes porque os peixinhos das outras nações seriam “maus”, um perigo a suas vidas, e mereceriam ser mortos. Haveria uma hierarquia entre os pequenos peixes e os que habitassem os postos mais altos poderiam até devorar os de mais baixa patente. Como conclui o autor: “Em suma, haveria uma civilização no mar, se os tubarões fossem homens” (Brecht, 2006, p. 54). O escritor alemão foi muito feliz na escolha do animal para a fábula: o tubarão habita nosso imaginário enquanto um feroz e implacável predador, imagem da violência que faz do outro objeto ao dilacerar a carne e estraçalhar os corpos: um caçador veloz que, dizem, nunca pode parar seu curso sobre o risco de afogar-se. É uma imagem da máquina capitalística moderno-colonial de subjetivação a singrar os mares: tão admirado quanto temido e odiado, está presente em filmes desde a posição de grande protagonista do medo indizível, ou ainda, como contumaz coadjuvante em tanques de super-vilões.
Não por acaso, tal figura retorna ao imaginário, não para dar nitidez às práticas biopolíticas de forma crítica como fez Bertolt Brecht, mas para tornar nítidas as estratégias da autoajuda em sua lógica motivacional duplo-vinculante a prometer a paz pelo stress. É comum escutarmos dos coachs (lugar narrativo que assumiu a expertise sobre o discurso da autoajuda) hoje em dia uma história que serve como narrativa mítico-pedagógica para ensinarmos e compreendermos a lógica do empreendedorismo de si em nossos tempos. Eles (Medeiros, 2010; Teles, 2021) contam que pescadores japoneses enfrentavam sérios problemas durante suas jornadas de pesca em alto-mar: passavam longos períodos em tal atividade e, para garantir os peixes frescos no retorno ao arquipélago, os colocavam em tanques para mantê-los vivos durante toda viagem. No entanto, com os dias de confinamento, os peixes ficavam prostrados e tal estado de desânimo motor afetava o sabor da sua carne. Foi então que os pescadores inventaram uma eficaz solução para manter a vivacidade do frescor nos pescados: bastava incorporar a cada tanque um pequeno tubarão, pois essa ameaça manteria os peixes em estado de alerta diante do desafio de sobreviver, garantindo vivacidade ao sabor da sua carne quando forem consumidos nas casas e restaurantes do Japão. Tal história é contada como uma narrativa de formação para ensinar às pessoas sobre a necessidade de manter-se sempre em meio a uma realidade plena de desafios para garantir sua saúde empresarial, seu frescor empreendedor: “As empresas, principalmente as líderes de mercado, precisam permanentemente de tubarões no tanque” (Teles, 2021); “O tubarão come alguns peixes, mas a maioria dos peixes chega ‘muito vivo’. Os peixes são desafiados. Portanto, ao invés de evitar desafios, pule dentro deles. Massacre-os” (Medeiros, 2010).
Vemos, neste caso, um interessante e perturbador cruzamento entre as duas histórias envolvendo tubarões como metáforas para a modernidade-colonialidade e sua máquina capitalística: a de Bertolt Brecht como uma crítica às práticas biopolíticas de governo e a narrativa motivacional empreendedora como um exemplo perfeito da dupla-vinculação onipresente nas estratégias de controle da autoajuda (felicidade pelo stress, segurança pela crise etc.). Curioso perceber que na história dos pescadores japoneses a humanidade aparece como um conjunto de consumidores com suas demandas, no entanto, no seu uso metafórico-motivacional, os humanos tornamo-nos uma vez mais os pequenos peixes, restando-nos perguntar o que representariam em tal metáfora os humanos a salivar pela carne fresca dos peixinhos mantidos nos tanques com tubarões? Evidentemente se trata de uma metáfora do mercado e sua intangível mão invisível a nos governar, segundo a narrativa liberal do mundo. O mercado, no caso, não seria exatamente o tubarão no tanque, este seria apenas mais um dos seus atores menores a operar segundo suas leis: os tubarões seriam, neste caso, a operação das estratégias motivacionais nos cotidianos das/os trabalhadoras/es. O mercado mesmo, em sua metafísica assunção como natureza primeira e última das razões de Estado, da governamentalidade e, por fim, do nosso ser, seriam encarnados pelo conjunto de consumidores a aguardar na costa exigindo carnes sempre mais frescas para os juízos do seu paladar. É perturbador perceber que tal narrativa nem ao menos busca reprimir a evidência de que os tubarões nos tanques não têm qualquer benefício para os peixes, que fazem as vezes dos empreendedores, mas sim para um grupo distante de consumidores que aguardam para devorá-los com prazer segundo as leis do mercado. Vemos, assim, com nitidez, as narrativas duplo-vinculantes da autoajuda em sua modulação mútua de sucesso-crise e stress-felicidade agindo segundo a estilística própria da máquina capitalística.
A partir do estudo de algumas tecnologias de si da governamentalidade neoliberal por meio do exemplo de algumas obras de autoajuda apresentadas neste artigo, foi possível observar que os enunciados econômicos seguem com enorme protagonismo no fomento de modulações dos modos de existência. A oni-crise do presente (Hardt, 2000) é um vetor de subjetivação que deriva exatamente dessa discursividade. Ela suscita no corpo dos sujeitos as sensações intempestivas da não seguridade, de modo que se faz necessário estar em constante movimento, para que cada vez mais se estar preparado à próxima crise que irá chegar. Afinal, no mundo das competências e competições individuais, não desejar progredir, acumular, carecer de metas e/ou objetivos é padecer de crise: para toda e qualquer quebra da bolsa, nós temos o antídoto perfeito, e ele está em você.
Esses movimentos são próprios da estilística capitalística (Rolnik & Guattari, 1986/2013): movimentos duplo-vinculantes de desterritorialização constante que não deslocam, no entanto, sua axiomática básica da comutação universal pelo capital, do lucro e da propriedade privada. Assim, habilmente a máquina promove as crises econômicas e de orientação do sujeito em seus processos de subjetivação, ao mesmo tempo que prescreve promessas em imperativos de ordem, metas, técnicas etc. A autoajuda se constitui, assim, tanto enquanto produto deste mercado viral, quanto se torna uma estratégia para aliviar essa sensação de desfazimento dos territórios. A autoajuda, o coaching, o fomento aos sujeitos empreendedores, encontraram um solo fértil para se enraizarem em nosso tempo desenraizado. As tecnologias do Eu ao modo autoajuda são como letreiros de neon piscando em meio ao deserto contemporâneo e seu labirinto sem paredes a desorientar os caminhantes sem rumo. A captura dos leitores passa pela promessa contundente de salvação, pela retórica otimista científico-religiosa plasmada em uma linguagem imperativa com um “passo a passo” aparentemente tão simples, quanto de fato intangível e inalcançável em sua lógica duplo-vinculante. Assim, o sujeito fica aprisionado nas ordens conflitantes. Dizendo de outra maneira: apenas siga sem questionar, o que marca a literatura de autoajuda como uma importante ferramenta ao governamento imaterial do contemporâneo. Estado e capital financeirizado, em seu agenciamento maquínico, constroem as crises e como saída amigavelmente solicitam ao sujeito se auto empreender, socializando apenas a dívida: a fome do mercado a devorar nossos desejos de mundo.














