APRESENTAÇÃO
Esta entrevista foi efetivada no dia 28 de novembro de 2023, com base em uma atividade acadêmica proposta a fim de analisar pesquisas qualitativas na disciplina de Pesquisa e Investigação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)/RS. Inicialmente ocorreu a busca por obras que abordassem temáticas de Psicologia Social em meio a pesquisas qualitativas. Logo, encontrou-se três artigos da professora Liliam Deisy Ghizoni – “Saúde mental na Universidade: subjetividades discentes afetadas”, “Fui para casa muito cansada e com muita fome’: narrativas de trabalhadoras domésticas sobre a escravidão contemporânea”, “Dispositivos para uma escuta clínica do sofrimento no trabalho dos catadores de materiais recicláveis”. A partir desses artigos, o tópico “Jornadas de Trabalho Não Reconhecidas” surgiu e, então, originou-se a trama dessa entrevista. Em continuidade, realizou-se o convite para que ela participasse desse projeto.
A compreensão da problemática das jornadas de trabalho não reconhecidas é fundamental para compreender os contextos psicológicos que envolvem aspectos sociais, como a precarização do trabalho, a invisibilidade dos trabalhadores de aplicativos e a relação entre gênero, raça e vulnerabilidade social. Nesse contexto, o presente trabalho tem como função sintetizar as principais informações obtidas através da entrevista realizada à psicóloga Liliam Deisy Ghizoni com o objetivo de promover uma compreensão abrangente das experiências e perspectivas da entrevistada, evidenciando a complexidade e relevância dos impactos das jornadas de trabalho não reconhecidas aos indivíduos.
Destarte, as respostas fornecidas ao longo da narrativa incluem sua trajetória educacional e profissional, suas percepções acerca da Psicologia do Trabalho, sobre o sofrimento do trabalhador, em meio a intersecção de raça e gênero, e suas considerações sobre o futuro da pesquisa em Psicologia. Suas narrativas são de grande relevância para o estudo dos aspectos psicológicos proporcionados por essas jornadas, possíveis estratégias de enfrentamento e os impactos na saúde mental dos trabalhadores. Portanto, a conversa com a doutora Liliam Deisy Ghizoni oferece oportunidade de ressignificar o mundo do trabalho, visibiliza temáticas que ainda são pouco abordadas na Psicologia, no Brasil, como a sobrecarga das trabalhadoras domésticas, os serviços informais, além das relações do trabalho escravo contemporâneo com as questões de gênero e raça, tal qual a crítica sobre o adoecimento mental nas universidades.
ENTREVISTA
Entrevistadora: Como é que se deu a tua escolha para o curso de Psicologia?
Liliam Deisy Ghizoni (L.D.G.): Ah, é com maior prazer que eu respondo isso. E essa minha escolha do curso, ela já tem… acho que mais de 30 anos. Eu tive Psicologia numa disciplina do ensino médio. E no Magistério, a gente tinha uma disciplina que se chamava Psicologia da Educação. E ali eu conheci a Psicologia e fiquei encantada. E falei, como uma boa adolescente, falei para os meus pais: “Eu quero fazer Psicologia”. Eles moravam no interior e eu morava em uma outra cidade, chamada Lages, onde eu fazia ensino médio morando com os meus tios. Então eles falaram assim: “Não, não tem Psicologia aqui. Não tem como você fazer, porque só tem na capital, em outras cidades… E você tem que fazer um curso que tem aqui, porque é muito difícil você ir para uma outra cidade”. Assim eu fiz. Eu fiquei lá, na mesma cidade, e fiz vestibular para qualquer coisa que eu pudesse passar. Eu passei no vestibular para Matemática. Eu reprovei em todas as disciplinas de Cálculo e eu passei em todas as disciplinas de humanas: filosofia, sociologia, psicologia… porque era um curso que também formava professores, então tinha essas disciplinas.
Eu fiquei um ano fazendo essa faculdade e em um ano eu consegui convencer meus pais de que não adiantava eu ficar lá. E eles me apoiaram de vir para a capital, que é onde eu estou hoje, em Florianópolis. Eu já estava aqui, fazendo cursinho, de fevereiro a julho. Em julho teve o vestibular de uma Universidade particular aqui, para Psicologia. Eu fiz este vestibular e passei. Quando eu passei em Psicologia, esqueci o resto: larguei cursinho, larguei tudo… falei: “Agora eu vou morar nessa cidade”. Essa cidade se chama Itajaí. Eu não conhecia ninguém lá, não conhecia nem Itajaí. Nunca tinha nem ido para essa cidade. Mas eu fui. Arrumei uma bolsa e fui.
Eu não fazia nem ideia o que um psicólogo fazia. Eu não conhecia nenhum psicólogo. Eu venho de uma cidade muito pequena, estava em outra muito pequena, vim para outra um pouquinho maior, fui para outra um pouquinho maior. Fui conhecendo. Mas eu nunca tinha feito psicoterapia, meus pais nunca tinham feito, não tinha psicólogo na cidade. Ninguém nem sabia o que um psicólogo fazia. Vejam bem, nós estamos falando dos anos 90. Lá não existia nenhuma Política Pública de saúde mental. Não existia as Políticas do SUAS (Sistema Único de Assistência Social), não existia CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), não existia nada desses programas que existem hoje que é difundido na área da Psicologia, o próprio SUS (Sistema Único de Saúde) nascendo.
Era um curso que me chamou atenção, mas eu não sabia nada. Eu fui descobrindo e fazendo o curso. Mas fui cada vez mais descobrindo e me encantando.
Entrevistadora: O nosso tema é “Jornada de trabalho não reconhecidas”, que vai de acordo com os teus artigos. Como é que tu avalias a situação das mulheres, dos catadores e dos estudantes nesse sentido.
L.D.G.: Achei muito legal vocês terem feito esse recorte nas minhas publicações. Foram publicações com alunos que vieram fazer mestrado, TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), que vieram estudar comigo. E no primeiro Pós-Doc, que eu fiz em 2018, também foi sobre trabalho escravo contemporâneo. Sempre tem essa coisa do sofrimento do trabalhador, do adoecimento do trabalhador, do que implica esse trabalhador.
Eu estou com um projeto atualmente, que depois eu quero falar dele, que também vai falar de invisibilidade, só que ele tem um outro nome: é “A ocultação do adoecimento do trabalhador”. É um projeto novo, que a gente está iniciando na UFT, mas é um projeto nacional; são 12 Universidades que estão trabalhando com ele. Esse projeto, da ocultação do adoecimento laboral, é fazer com que aquele trabalhador que sofreu um acidente, ou que adoeceu… geralmente a gente tem o motorista de Uber, o entregador do IFood… ele não tem amparo nenhum, e nós que vamos fazer esse amparo dentro da Universidade; nós é que vamos atendê-lo, que vamos entender o tipo de adoecimento dele. É outra invisibilidade que a gente vai tentar trazer à tona.
Mas, no geral, que eu tenho feito é trazer à tona o que esses trabalhadores passam pela nossa lente sem que a gente os perceba. Eu não sou uma feminista, eu não me considero uma feminista, eu não me aprofundo em temas feministas. O que eu digo é isso: é uma condição de trabalho das mulheres. Aconteceu isso entre as catadoras de recicláveis; as mulheres eram as gestoras do empreendimento. Elas tiveram que enfrentar um homem que não era o gestor, mas era ele que fazia a gestão. Durante o percurso de escuta dessas catadoras - que foi mais de um ano -, elas conseguiram perceber o lugar delas e dizer para ele: “Olha, eu sou a presidenta. Eu vou assumir”; ele falava que ela não tinha capacidade de assumir, que ela não ia conseguir fazer o que ele fazia; ela era uma presidente só de “assinatura”. E não… a gente trabalhando, a gente via que ela tinha capacidade. E ela foi presidente por muito tempo, agora a presidente estava sendo a filha dela. Eu já não trabalho mais com a Associação, mas mantenho contato com eles.
É mais nesse sentido de trazer à tona a história dessas pessoas e o potencial que essas pessoas têm de serem mais do que às vezes elas acreditam que são. Histórias das empregadas domésticas, como foi um dos TCC’s que veio, tem muito diálogo com o trabalho escravo contemporâneo. É a gente considerar que determinadas atividades são consideradas naturais pela repetição. “A minha bisavó fazia, a minha avó fazia, então também vou fazer”.
É nosso papel como psicólogos do trabalho, inclusive, dizer isso para o trabalhador; é garantir esse direito, é fazer com que ele saiba que tenha esse direito, e que ser motorista de Uber não é uma coisa boa; que ser motorista de Uber é a cara da precarização do trabalho no mundo do trabalho. Ele dificilmente percebe isso; ele vai dizer que é empreendedor, dono do próprio negócio, que ele trabalha a hora que quer, que tem liberdade. E ele não tem nada disso! Ele é um refém, porque se ele não trabalhar 12 horas, não ganha o suficiente para pagar a comida para dentro de casa. É um cenário muito triste que a gente vive de precarização do trabalho no mundo, em esfera global; não é uma questão brasileira, só da América Latina, e que é considerado natural pelos próprios trabalhadores. A gente perdeu a capacidade de luta pelos nossos meios no mundo do trabalho.
Entrevistadora: Sobre o teu trabalho sobre a escravidão contemporânea: como esse tema chegou para você? Como você se interessou por ele? E qual foi a origem dessa pesquisa? Porque se a gente parar para refletir, esses catadores, essas empregadas domésticas são negros ainda… então, infelizmente, a população utiliza desse trabalho dos negros, querendo ou não, da mão da escravatura.
L.D.G.: Ah, perfeito você perguntar isso! Se a gente olha para essas empregadas domésticas que estavam em uma condição de escravidão ou outro trabalho… a dissertação da Thamyres (Maciel & Ghizoni, 2020). Ela pegou uma página do Facebook só de denúncias de empregadas domésticas. Uma página chamada “Eu Empregada Doméstica”, alguma coisa assim. Qual é o perfil da empregada doméstica? É a mulher negra. E se a gente vai pensar quem é o trabalhador escravo que vai trabalhar nas roças, lá do Tocantins para tirar toco, fazer roça? O Tocantins é o quarto estado fornecedor de mão-de-obra escrava. Quem é esse sujeito? Negro e homem é o perfil com nenhuma escolaridade; até 4 anos de escolaridade tem essa população em sua grande maioria.
Se a gente vai olhar agora… estou curiosa para saber isso desses trabalhadores que a gente vai aprender na UFT… Quem são esses trabalhadores que vão procurar por esse serviço, que estão sofrendo porque não têm nenhum tipo de assistência; sofreram algum tipo de acidente de trabalho e não vão receber nada por aquilo ali: estão totalmente desassistidos ou estão adoecidos e desassistidos também. E se for comprovado que a doença dele tem a ver com o trabalho dele, a empresa é autuada; já tiveram várias ações que a Uber teve que pagar para esse trabalhador, mesmo sem ter o vínculo trabalhista, a carteira assinada; mas foi considerado o que a gente chama de “Nexo Causal”, que a doença que ele teve tem a ver com a função que ele executava na organização. Provavelmente essa população que vai procurar esse serviço será negra em sua maioria. Então… principalmente no Brasil, quem ocupa esses lugares dos trabalhos mais precarizados, menos valorizados são os negros. Os catadores de recicláveis eram negros em sua maioria.
Entrevistadora: Infelizmente são os que são mais expostos a essa situação de negligência.
L.D.G.: Exatamente. Sabe que eu quero fazer… um link sobre isso nesses dados dos estressores acadêmicos nos estudantes, porque no Tocantins nós temos mais negros que brancos; eu acredito que isso - e o indígena, um outro público -, as minorias que temos lá… se eles têm estressores significativamente diferentes do que o aluno que é branco; é um atravessamento que a gente não pode deixar passar.
Como também a questão do gênero, que aí eu quero trazer a questão do feminino aqui. Nos estudos agora sobre a saúde mental dos estudantes, nessa revisão bibliométrica que eu fiz, nesses estudos internacionais dos 906, quem é a mais afetada é a estudante mulher; são os estudantes dos primeiros períodos e dos últimos períodos, isso é recorrente no mundo. Então, é um perfil; quando a gente junta isso - mulher e negra -, a vulnerabilidade se amplia, e é onde vem o diálogo da questão da empregada doméstica: quem é? É aquela que não pôde estudar, é aquela que não teve acesso, que a mãe dela também já não pôde. A gente está tendo uma repetição de histórias dessas mulheres ao longo da vida.
Entrevistadora: Quais os desafios que tu tiveste no processo de fazer essa pesquisa? E o acesso a essas populações: mulheres, catadores, estudantes? Teve algum tipo de empecilho?
L.D.G.: Sempre tem. Quando eu comecei a trabalhar com os catadores de recicláveis, vamos dizer assim, um público que eu não conhecia, foi através de um núcleo; quando eu entrei na Universidade Federal do Tocantins, eu entrei em um núcleo de economia solidária. E esse núcleo já trabalhava com os catadores, então eu passei a desenvolver os projetos que o núcleo estava desenvolvendo. Quando eu formei meu projeto do Doutorado, eu já estava trabalhando com os catadores; eles já tinham confiança em mim, a gente já tinha um vínculo. O que eu tive que adaptar foi: eu tinha um Projeto de Extensão com eles, aí eu mudei para um Projeto de Pesquisa; então tive várias reuniões com eles para explicar isso. Agora eu estava fazendo Doutorado, era outro tipo de trabalho, tem tese. Eu defendi a tese de Doutorado antes para eles - antes de fazer uma apresentação na UnB, fiz uma apresentação para eles - para eles também se sentirem parte; foram quatro anos que fiquei trabalhando com eles, a gente criou muitos laços. Ali, eu tive a felicidade de já estar trabalhando com a população, foi mais fácil o acesso. Com os trabalhadores em situação de escravidão, foi mais difícil acessá-los; também foi através da rede. Eu representava a Universidade Federal do Tocantins num órgão do Estado que combatia a escravidão no estado do Tocantins; era uma rede de pessoas envolvidas. Foi a partir dessa rede que conseguimos chegar a alguns trabalhadores. Nós nos deslocamos até cidades do interior onde eles moravam para poder ir até lá e entrevistá-los. Sempre com o apoio de alguém, de alguma rede para chegar até as pessoas; porque às vezes você vai bater na porta e vão dizer: “Não. Não quero falar sobre isso”, porque é um assunto delicado. Com os trabalhadores em situação de escravidão, foi através dessa rede chamada COETRAE (Comissão de Erradicação do Trabalho Escravo Contemporâneo). Com os estudantes, que eu começo fazendo... Nessa fase eu fiz um projeto piloto só com os estudantes de Administração - que é o [curso] que eu dou aula -, e depois eu ampliei para outros cursos dentro da UFT. Ano passado, eu estava lá, eu ainda estava em sala, era um questionário… então eu tinha que pedir para as pessoas responderem… eu ficava esperando… eu ficava na sala 13 esperando. E eu consegui 60% de participantes. Eu queria mais, né, 80%, 85%, 90%... As pessoas não respondiam, diziam que iam responder depois… meus alunos. Aí eu já me vi pouco esperançosa para a pesquisa deste ano quando fui aplicar o instrumento on-line e à distância; porque eu estava aqui, em Santa Catarina. Contei com as redes sociais da Universidade, o Instagram dos professores, dos cursos, das Pró-reitorias, das matérias, no site da PROGRAD… eu tive muito apoio da Universidade, mas eu tive uma miséria de participantes; tive 346 participantes na pesquisa, e a população total são 6.000 alunos; de 6.000 alunos, 346 responderem é pouco. Mas eu não tinha mais como implorar para esses alunos responderem. Me parece que participar de pesquisa pode ser mais um estressor para o aluno, porque é mais uma coisa que ele tem que fazer. Então a gente encerrou o instrumento com três meses no ar ... encerrou a coleta. Sempre tenho uma adversidade, e eu diria que o mais difícil é fazer com que o sujeito responda ao questionário; é mais difícil do que fazer ele participar de uma entrevista. Convidar e participar de uma entrevista é mais fácil.
Entrevistadora: Como que você acha que essa pesquisa sobre escravidão na contemporaneidade contribuiu para o campo da Psicologia no geral? E para a sociedade?
L.D.G.: Esse tema, da escravidão contemporânea, ele vem de um diálogo justamente entre diversas áreas, e na psicologia eu não senti muito interesse nesse diálogo. É um diálogo muito forte na área do Direito… ele é um diálogo muito importante, tem muitos estudos, na área do Direito, da Sociologia. Na administração nós levamos esse debate, inclusive no Congresso Nacional de Administração; a gente criou uma área de pesquisa, mas nós não tivemos tantos debates assim. Ou seja, os administradores também não se veem estudando essa temática, tem a escravidão urbana e tem a rural. E a Psicologia não é tão engajada com esse tema; então eu não consegui... Embora eu tenha levado esse tema para Congressos de Psicologia, alunos da Administração que fizeram esse estudo… A maioria dos que fizeram foram os alunos de Administração. Foram poucos diálogos na área da Psicologia sobre a escravidão contemporânea. Eu acho que está bem a margem essa discussão na nossa área, a psicologia.
Entrevistadora: Então quais medidas você acha que podem ajudar a reverter esse cenário de injustiça social ou em que os trabalhadores são tão invisibilizados na contemporaneidade? Tu achas que fazer mais pesquisa ajuda ou a gente precisa fazer mais coisa?
L.D.G.: Eu acho que a pesquisa, ela é um caminho. Só que eu não posso fazer a pesquisa e ela virar só um artigo científico, ou um capítulo de um livro, ou um livro, ou um TCC, ou uma dissertação, ou tese… Esses produtos circulam entre nós, na própria academia. A gente precisa pensar em outras estratégias, que é o caso dos Congressos, mas eles ainda são para nós, para a academia. Como que isso vai chegar até essas pessoas? É nesse ponto que eu acho que tem que ter o vínculo da pesquisa com a população; a gente tem que ir até esse trabalhador, foi muito do que fizemos com os catadores, com os trabalhadores em situação de escravidão e agora vamos fazer com os trabalhadores que estão sofrendo com a questão do adoecimento.
A gente tem que chegar até esse trabalhador. Eu não sei onde eles estão. Então vamos ter que divulgar. A gente pode fazer a melhor pesquisa do mundo, como essa dos estudantes... Eu tenho que fazer isso chegar até os alunos; que os alunos saibam, porque eles precisam dizer para os professores quais os limites deles, que não é natural ele receber um aluno, que nem um professor fala: “O que você faz da meia-noite às seis?”, quando você fala que está sobrecarregado. Você fala: “Professor, eu estou sobrecarregado, a gente não está conseguindo fazer o trabalho, é muita coisa, é final de semestre…”. E o professor fala: “O que você faz da meia-noite às seis?”. Você tem que dizer para ele que este sono é reparador! Porque, se você ficar sem esse sono, você vai adoecer e nem vai estar aqui no próximo semestre. Assim como ele; se ele, como professor, ficar “varando noite”, preparando aula e corrigindo prova, corrigindo trabalho, ele também não vai estar aqui semestre que vem. Porque nós temos um corpo que não suporta. E a gente tem que falar sobre essas coisas sem achar que esse professor vai ficar bravo, vai querer te prejudicar em alguma nota.
Por isso que, nesses enfrentamentos, eu sempre sugiro que não sejam individuais. É onde vem a força do coletivo. Nunca esqueçam: solidariedade e cooperação. A gente precisa ter esses dois elementos para que a gente junte esse coletivo. De quem? Trabalhadores invisibilizados, mulheres negras, de estudantes, seja o que for, o coletivo que for precisa se unir para ver: “E aí, o que vamos fazer?” Qual estratégia que a gente vai fazer de luta, de embate, de conversa, de discussão, de documento… Que tipo a gente vai fazer para mudar a situação de sofrimento 15 vivenciada ali? Senão, a gente vai ficar só fazendo relatórios, atas, artigos, etc. de situações degradantes que a gente vive. Gosto muito de usar as redes sociais, como também a página de notícias da Universidade - porque ela tem uma abrangência maior e uma maneira diferente de falar resultados de uma pesquisa do que um artigo científico. Mas que isso chegue até as pessoas que participam dos estudos. Isso é muito importante.
Entrevistadora: Qual foi sua experiência favorita nesses projetos que você falou até aqui? Se você tiver alguma memória que gostaria de compartilhar que foi marcante para ti, para o teu trabalho ou para você pessoalmente.
L.D.G.: Uma foi de um trabalhador que a gente foi entrevistar, nós conseguimos um carro da universidade e viajamos 500km para chegar até a cidadezinha que ele estava morando, esse trabalhador; ele era um trabalhador que já tinha sido resgatado duas vezes de uma fazenda que pegava pessoas na rua e levava para fazenda, e trancava lá e botava para trabalhar. A gente queria saber por que ele tinha voltado; por que um trabalhador entra nesse ciclo vicioso se ele já sabe que aquele trabalho naquelas fazendas é escravo? Por que que ele voltou?
Quando a gente foi entrevistar ele, gente, ele não existia. Ele não existia porque ele não tinha nunca votado, ele não tinha título de eleitor. Ele tinha 40 e poucos, 45 anos, se eu não me engano. Parecia que ele tinha 60 quando a gente olhava para ele, assim. Mas ele tinha 40 e poucos anos, não vou lembrar agora exatamente a idade dele. Ele nunca tinha votado, ele não tinha carteira de identidade! A equipe de psicologia, quando eu falo da psicologia, que ela não é aplicada com isso, de cidade que a gente foi, tinha um CRAS, tinha um Centro de Referência de Assistência Social. Como que esse sujeito nunca foi percebido por essa equipe? Como? Precisou ser resgatado pela polícia, pelo Ministério Público, por uma ONG (Organização Não Governamental), para poder tirar os documentos desse senhor aos 40 e tantos anos. E quando ele contou isso, ele já não tinha mais forças para trabalhar, parecia que ele já tinha muito mais, parecia que ele era um velhinho. E na verdade ele já estava doente; depois dessa entrevista, um ano depois ele faleceu. Ele tinha uma doença e ninguém sabia, era uma doença infecciosa, era tipo uma meningite que ele teve… ela não foi tratada a tempo e ele não resistiu. Ele não conseguiu viver. Ele é um sujeito que não conseguiu viver. E quando a gente falava para ele… porque a gente perguntou, eu e a minha aluna: “Por que o senhor voltou para fazenda?”. Ele falou: “Eu não voltei. Eu estava bêbado na rua”, porque ele não tinha onde morar. Ele estava bêbado na rua, o fazendeiro carregou ele bêbado; quando ele acordou, ele estava lá na fazenda. Ele foi sequestrado, e não tinha como ele voltar.
São histórias muito complicantes, são histórias muito doloridas. Como tem as histórias dos estudantes. Em 2018, quando eu fui convidada a olhar para essa questão da saúde mental dos estudantes, eu estava estudando trabalho escravo contemporâneo. Recebi esse convite desse grupo da UFT, que era um grupo chamado “Mais Vida”, que estava trabalhando a saúde mental dos estudantes, e tinham feito uma big pesquisa sobre a condição de saúde Mental dos estudantes da UFT. Eu montei uma intervenção com eles. Sempre assim: disciplina, espaços de fala... trazer essas questões para a prática também.
Eles sempre falavam um relato assim… Que a aluna, ela falou, tinha dias que ela não sabia se ela lavava o cabelo dela ou se ela estudava para a prova, porque as duas coisas eram impossíveis. Ela ia perder tempo lavando o cabelo, então ela não fazia isso. Que Universidade é essa em que a gente não tá deixando nossos estudantes nem lavarem o cabelo porque não tem tempo? Estamos falando de higiene, nós não estamos falando de outra coisa. Cadê os preceitos da saúde mental? Não é fazer atividade física? Não é a gente cuidar da saúde? O autocuidado não passa por a gente poder parar, respirar, meditar, perpassar por espaços das artes de cultura… fazer outras coisas do que aquilo que envolve só o nosso trabalho. Isso é saúde. E a aluna vem me dizer que ela não conseguia lavar o cabelo, porque ela não tinha tempo!
É para ver muito isso com os professores. E eu diria para vocês que nessa temática agora que eu tenho me dedicado desde 2018, que é saúde mental dos estudantes, o que tem sido mais difícil é trabalhar com os professores, que os professores entendam o que é ok. O professor também é vulnerável, adoece etc. Mas o aluno também. E ele não pode repassar a carga que ele tem pro aluno, porque o aluno é um jovem, ele está ali em processo de formação. Toda vez que a gente fala com os professores, os professores falam: “Eu tenho que cuidar da saúde!”, “E eu como é que fico?”. É um espaço de difícil diálogo, fazer com que o professor se sensibilize para as questões de saúde mental dos estudantes. Isso é um desafio ainda para mim, a gente não conseguiu fazer ainda na UFT.
Eu já tive uma experiência bem ruim de ir num curso de Engenharia, falar sobre a disciplina que eu me encontrava na época, que era “O prazer e sofrimento na Universidade”, que era uma disciplina prática, ela era uma disciplina optativa, onde os alunos falavam sobre os seus sofrimentos dentro da Universidade e a gente tentava resgatar as fontes de prazer dentro da Universidade. Os professores não queriam validar essa disciplina que o aluno que tinha feito; aí eu fui lá, apresentei resultados, dados, informações. Os professores falaram: “A gente precisa de disciplinas optativas que envolvam a construção de prédio, e não que trabalhem essas questões de saúde mental”. E não aceitaram, não validaram a disciplina, mesmo uma aluna, que estava lá, representante dos alunos, ela fez um relato favorável, claro, à disciplina optativa...
A gente está indo fazer com que a saúde mental chegue nessa população dos professores, por exemplo. Por isso que a gente vê tanto massacre em sala de aula, tantas ameaças, tantas coisas que podiam ser mais flexibilizadas. Eu não estou dizendo de passar a mão na cabeça do aluno ou diminuir conteúdos, não é isso. Mas é de fazer com que a coisa possa ser leve, possa ser saudável, que o aluno compreenda o círculo daquele semestre, como é que ele vai começar e encerrar, sem ser tão pesado.
Entrevistadora: Por quais motivos as jornadas de trabalho são tão desvalorizadas?
L.D.G.: Ah, pois é. As jornadas de trabalho. Eu acho que a gente tem uma reforma trabalhista que foi feita lá em 2017, que ela acaba flexibilizando mais ainda as nossas jornadas. Aquilo que era contra a lei, a partir de 2017, ele passa a ser reconhecido como algo legal. Essa flexibilização que aconteceu na legislação trabalhista de 2017 para cá, como a terceirização. A terceirização, ela se ampliou de 2017 para cá. Antes, ela era só de alguns serviços. Agora, é tudo. Então, qualquer função pode ser terceirizada. Antes, era só de limpeza, segurança. Vocês vão lembrar aí que antes vocês só viam pessoas de uniforme de empresa terceirizada só para limpeza, segurança e recepção. Agora, não. Agora, assistência administrativa, professor, tudo terceirizado.
Isso significa o quê? Uma ampliação da precarização dos contratos de trabalho. Isso faz com que a gente tenha perdido direitos como as férias. As férias parceladas também vieram nessa mudança de 2017. As férias antes eram tiradas em até dois períodos; agora, pode ser três: de dez em dez dias. Férias de dez dias, gente? Quem consegue descansar? Tem vários estudos que você leva sete dias para você se desligar do que você estava fazendo antes, porque você ainda está ligada 18 lá: “Será que eu mandei aquilo lá? Será que eu fiz? Será que eu desliguei? Será que eu mandei aquele projeto? Será que isso? Será que aquilo?”. Você ainda está ligada no que você está fazendo. Você descansa. Aí, uma semana antes de voltar, você já está começando a pensar. Fora que agora, com as novas tecnologias, as pessoas estão de férias olhando o WhatsApp do trabalho todos os dias. Isso não é férias. Você ainda está ligado naquele trabalho. Dez dias não dá tempo para esse descanso do corpo e da mente, de tudo. A gente vai ter cada vez mais trabalhadores cansados e exaustos e adoecidos. Cada vez mais tomando mais remédios e acelerando, tendo que fazer mais coisas e tudo mais. Eu avalio que a gente tem o aval da nossa legislação trabalhista para essas relações de trabalho super frágeis que nós temos hoje no nosso país. E isso é péssimo.
Entrevistadora: O que nós podemos fazer para minimizar a situação dos catadores, dos estudantes e de pessoas em situação de escravidão em termos de danos e também para que haja uma maior valorização em termos de ocupação feminina e estudantil?
L.D.G.: Eu acho que é exatamente isso que vocês estão fazendo; vocês estão no início da faculdade e vocês estão abrindo um leque, assim… vocês estão começando a olhar para coisas diferentes. Vocês estão começando a olhar para essas temáticas, e quando vocês leram as minhas publicações, etc. e tantas outras milhares que existem aí; olhar para esse tipo de público. Aí, onde vocês estão, tem associação de catadores? Tem algum projeto de extensão que a gente possa fazer, que possa ajudá-los? E não estou dizendo que a Psicologia tem que dar conta de tudo, porque as demandas deles são diversas. São de direito, são de contábeis, são de números, são de organizar financeiramente, é de logística… pegar o pessoal da administração.
Os projetos das áreas coletivas é o que vai fortalecer a psicologia; é a gente, da psicologia, estar junto com eles. Só nós também não vamos dar conta da escravidão contemporânea. É a gente, por exemplo, ir lá no Ministério Público do Trabalho ou Polícia Federal, é fazer estágio nesses lugares, é procurar se aí tem uma comissão de erradicação de trabalho escravo, é estar nessa comissão, é estar junto com as outras áreas que estudam mais isso do que nós. E trazer isso à tona. É aliar isso que a Caroline estava falando… das questões raciais com o que você traz, das mulheres. É a gente poder dialogar com as outras áreas sobre isso. E eu vejo cada vez mais que sozinhos... porque às vezes a psicologia tem isso… puxar para gente, porque a gente vai dar conta. Só que nós não vamos dar conta. A gente precisa das outras áreas, sobretudo nesses trabalhos que são interdisciplinares.
Olha que bacana. Ontem a gente estava numa reunião, ontem à tarde, com uma professora. Ela está fazendo Pós-Doc aqui também; ela é especialista em emergências e desastres. Ela está construindo um protocolo para ensinar psicólogos a seguir um protocolo quando esse psicólogo chegar numa situação de emergência e de desastre. Ela já atendeu aquele avião da Chapecoense, as famílias… quando caiu, quando começaram a chegar os corpos das vítimas lá. Ela atendeu, agora, as enchentes no Rio Grande do Sul. Ela atendeu lá em Brumadinho, Mariana… aquelas barragens que se romperam. Ela tem uma vasta experiência. E o que ela percebeu nessa vasta experiência? Que nós, psicólogos, temos a boa vontade, estamos lá para ajudar no desastre, mas não sabemos nem como. Não sabemos nem como. O que a gente vai fazer numa situação dessa de desastre? Então, ela está montando um protocolo para que nós, da psicologia, saibamos um “passo a passo” do que a gente tem que fazer quando chega lá para poder colaborar com aquelas famílias que estão em situação de vulnerabilidade em função de uma tragédia. Outras áreas já têm isso. Nós é que não temos.
A própria psicologia, ela avança, mas ela tem que também reconhecer que nós precisamos de outras áreas para esse diálogo. Nós não estamos sozinhos e nem podemos nos fechar; senão, acabou. Eu diria, sim, que seria muito importante para os estudantes, as empresas júniors ou as ligas acadêmicas. Aqui anda uma moda de liga académica; não sei se aí tem isso, das ligas. Os estudantes se reúnem em determinada temática para fazerem as ações. Tem muito cara de extensão, as ligas. Só que aí eu também vejo as ligas muito entre si, é cada curso com a sua. Então, talvez terem alguns projetos que caibam as várias ligas, assim, para ver como chegar até essas populações vulneráveis e menos favorecidas, que é onde a gente tem que chegar. Ainda mais que a gente tá partindo de uma Universidade pública e que a gente está… Quem vai olhar para essa população se não formos nós? É o que eu sempre digo pros meus alunos: “Se a gente não olhar para essa população, quem vai olhar?”. Ninguém mais?
Entrevistadora: O que tu darias de conselho para uma pessoa que está no processo, que está nessa trajetória de psicólogo?
L.D.G: Ah, dar conselho é tão bom! Eu adoro dar conselho!
Eu diria para vocês assim: se tem um conselho para dar para vocês a partir desses 30 anos de carreira como psicóloga, é que parece que é uma carreira muito difícil da gente começar… você conseguir um trabalho, você conseguir viver da sua renda, que é o que todo mundo quer; a gente quer viver da nossa renda. É difícil. Não vai ser no primeiro ano que vocês vão conseguir isso. Eu consegui viver da minha renda 5 anos depois que eu estava formada. Observem que eu já falei várias coisas na minha trajetória que falam assim: “Poxa, eu vou desistir. Está muito difícil agora. Não é para ser assim”. Mas… o desistir é começar outra coisa. Se eu desistir, vou ter que começar outra coisa. Que outra coisa que eu vou começar? Eu não tinha vontade de fazer outra coisa. Vamos voltar para cá e fazer isso do jeito que tem que ser. É você ter essa clareza de onde você quer chegar com a Psicologia. Não precisam decidir a área que querem trabalhar agora: “Quero ser da clínica, quero ser do trabalho, quero ser escolar, quero ser isso…”. Se empenhem durante o curso em 5 anos em experienciar. Vocês precisam experienciar as áreas. “Ah, tem estágio não se da onde”, “Vou fazer!”, “Gostei da professora tal, vou fazer”. Afinidade com os professores também conta muito, fazer os estágios com os 22 professores que vocês têm afinidade. E vocês experienciarem o máximo possível: Pesquisa, Extensão e Ensino; fazer as três coisas o máximo que vocês puderem. Dialogar com estudantes de outras universidades, que é o que se faz nesses congressos… Isso é muito importante para “abrir o leque”, para você pensar a possibilidade de atuação diferente do que muitas vezes se escuta na Universidade que você está. Então… isso é fundamental para a carreira. E é experienciar, vivenciar…
Se vocês me perguntassem, como vocês, assim, no início da faculdade, no primeiro da faculdade… me perguntassem: “No que você vai trabalhar, Liliam?”. Eu diria: “Qualquer coisa, menos ser professora”. É isso que eu iria dizer, porque eu não queria ser professora; tinha acabado de ter a experiência no ensino médio de que eu não queria ser professora; e acabei me tornando professora e amo ser professora! Se tem uma coisa que eu gosto… eu gosto de dar aula, eu gosto de estar na frente do público dando aula… eu gosto desse lugar. Por isso que eu digo: não fechem as portas. Experimente! É na faculdade que você vai experimentar. Não tem como você saber se isso é bom ou ruim se você não experimentar. Tem que ir. E vocês vão encontrar o caminho de vocês; os estágios vão abrindo portas, vocês vão experienciando, vão vendo onde vão aprofundar os estudos… tem muita formação em diferentes áreas para fazer. Então, ir fazendo as coisas com calma, com clareza, e ir sentindo como é que vocês estão em cada experiência dessa.
Fazer terapia é muito importante; ter o acompanhamento do psicólogo para saber como vocês vão amadurecendo nesse processo… E se tem uma área que tem mil áreas, é nossa, é a Psicologia. Acalmem os corações, porque vocês têm muito para experienciar, escolher e dar entrevistas depois!














