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Avaliação Psicológica

versión impresa ISSN 1677-0471versión On-line ISSN 2175-3431

Aval. psicol. vol.22 no.3 Campinas  2023  Epub 09-Dic-2024

https://doi.org/10.15689/ap.2023.2203.ed 

Editorial

Avaliação Psicológica em Segurança Pública: conceitos e aplicações

Márcio Júlio da Silva Mattos1 

Adriana Satico Ferraz2 

1Universidade de Brasília - UnB, Brasília-DF, Brasil

2Centro Universitário de Brasília - CEUB, Brasília-DF, Brasil


A segurança é um tema recorrente na agenda pública. Comumente, os levantamentos sobre a avaliação de governo registram a segurança pública dentre as principais preocupações sociais e, consequentemente, as polícias dentre as instituições com menores índices de confiança. Segundo dados de setembro e dezembro de 2023 (Datafolha, 2013), violência e segurança pública foram indicadas como o segundo maior problema do país. Essa relevância social contrasta com a ainda limitada produção científica nessa área no contexto brasileiro. A análise das políticas públicas de segurança é incipiente, assim como pesquisas que tenham como objeto os profissionais de segurança, as organizações e suas relações.

Ainda que mais frequentes, os estudos sobre incidência criminal e violências também carecem de relação com outras dimensões desses fenômenos sociais. As consequências desse cenário impactam desde a qualidade dos serviços prestados, a saúde mental dos profissionais, até as percepções, atitudes, crenças e comportamentos daqueles que interagem com o sistema de justiça criminal. Outro problema que surge com cada vez mais frequência é a difusão de opiniões enviesadas e desprovidas de embasamento fático sobre os fenômenos de segurança pública. A ausência de evidências na formulação de políticas públicas na área tem implicado em pouca efetividade, retrabalho e distorções em relação às necessidades existentes.

Na Psicologia, as análises relacionadas à segurança pública têm sido mais frequentes, com abordagens metodológicas diversas e sob perspectivas teóricas sofisticadas. Enquanto uma construção histórica e gradual, o conhecimento psicológico foi sendo cada vez mais utilizado na segurança pública. Em 1995, Martin Kurke e Ellen Scrivner editaram o livro Police Psychology Into the 21st Century, que se tornaria uma obra seminal nesse campo de pesquisa. Os autores argumentam que a psicologia policial, apesar de então ser uma área em desenvolvimento, impactava os policiais e seus familiares, a gestão das organizações e as operações policiais, ou seja, o serviço prestado à sociedade.

Em 2008, a American Psychological Association (APA) reconheceu, em sua convenção anual, a psicologia policial como uma especialidade psicológica1 (Kitaeff, 2019). Nesse processo, foram reconhecidas cinquenta e sete competências da nova especialidade, as quais se organizaram em quatro domínios distintos: atividades relacionadas à avaliação, serviços de intervenção, suporte operacional e consulta organizacional/gerencial (Aumiller & Corey, 2007). Por si só, esse fato tem implicações importantes, como a criação de programas de graduação e pós-graduação em psicologia policial, a acreditação pela APA, além da designação e especialização pelo conselho federal de psicologia2 norte-americano. Inclusive, em muitos casos, a dimensão aplicada das análises se associa à produção conjunta entre acadêmicos e os profissionais da área (Nobrega et al., 2018).

A dimensão social da psicologia policial merece ainda mais destaque. As evidências apresentadas a partir dessa perspectiva contribuem com a qualificação de uma profissão extremamente complexa. Segundo Egon Bittner, “o papel da polícia é enfrentar todos os tipos de problemas humanos quando (...) suas soluções tenham a possibilidade de exigir uso da força” (2003, p. 136). Ou seja, o mandato policial é extenso e se destina a interações tão diversas quanto prestar uma simples orientação, realizar uma perícia em local de crime, realizar a segurança pessoal de uma autoridade, mediar um conflito familiar ou mesmo intervir em uma situação com reféns. Em todos esses casos, são exigidas competências distintas e sofisticadas, em processos de tomada de decisão que duram poucos segundos e envolvem a possibilidade de uso da força.

Assim, a excelência profissional é frequentemente associada a qualidades como assertividade, cortesia, firmeza, estabilidade emocional e honestidade. Contudo, a essência de um bom profissional parece residir mais nos resultados de seu trabalho do que em características pessoais isoladas. Esta percepção está diretamente ligada ao desenvolvimento de competências específicas, que são moldadas por processos de seleção cuidadosos, avaliações de personalidade, análises vocacionais, e avaliações do contexto de trabalho e do clima organizacional, entre outras áreas de conhecimento da psicologia dentre outros saberes típicos da ciência psicológica. Em última medida, a psicologia policial não somente aprimora a qualidade do trabalho policial, mas também contribui significativamente para a melhoria das interações sociais dentro do contexto de segurança pública.

Nesse sentido, o Número Especial “Avaliação e medidas no contexto da segurança pública e forças armadas” contribui para o avanço da literatura sobre Avaliação Psicológica na área de Segurança Pública no contexto brasileiro. Com isso, espera-se que diversos processos internos e externos às organizações do sistema de segurança pública sejam melhor informados a partir desta publicação. Como se verá, os artigos possuem como pontos fortes o rigor metodológico, a robustez teórica e uma evidente dimensão aplicada que, em particular, se soma à articulação entre a academia e as instituições da área.

Assim, o primeiro artigo é intitulado Evidências de Validade do PERMA-Profiler-Brasil para Profissionais de Segurança Pública, de Sérgio Eduardo Silva de Oliveira, Jean Carlos Natividade Dionne, Rayssa Cardoso Corrêa e Diego Remor Moreira Francisco. Neste artigo, os autores se dedicam a apresentar uma medida para avaliação do bem-estar em amostra de agentes de segurança pública brasileiros. Por meio de robusta coleta de dados com mais de 11 mil participantes, os autores analisaram as relações entre as dimensões do modelo e dos espectros internalizante e externalizante, além de fatores de qualidade de vida relacionados à saúde.

Em seguida, Thiago Gomes Nascimento, Fagner de Oliveira Dias, Claudio Vaz Torres e Paulo Henrique Ferreira Alves apresentam evidências psicométricas de adequação da Escala Trifatorial de Identidade Social no contexto da segurança pública no Brasil. No artigo Identidade Profissional: Estudos Psicométricos na Segurança Pública, os autores partem da Teoria de Identidade Social para propor uma medida de identidade profissional. Partindo da análise dos resultados de dados de mais de 15 mil participantes, os autores discutem a identificação dos profissionais de segurança pública em termos cognitivos, afetivos e comportamentais, o que contribui para a avaliação das suas identidades e, consequentemente, para a elaboração de políticas públicas na área.

Já o artigo Escala de Percepção de Suporte Social no Trabalho foi escrito por Hugo Ferrari Cardoso, Tatiele Souza de Oliveira, Wenia Alves da Silva e Thiago Machado de Araújo. A análise descreveu uma estrutura de três fatores, quais sejam suporte social informacional, emocional e instrumental ou material, para o contexto da segurança pública. Foram coletados dados de mais de 9500 participantes, contribuindo para a criticidade das análises de estrutura e consistência interna.

O artigo Organizational Mattering Scale com Mulheres Brasileiras da Segurança Pública e Privada de Jeanne dos Santos Oliveira Marques Dantas e José Augusto Evangelho Hernandez apresenta os resultados da investigação das propriedades psicométricas da versão brasileira da Organizational Mattering Scale (OMS). O instrumento avalia a Competência e Reconhecimento de mulheres que atuam no serviço público (forças armadas, polícias, bombeiros e guardas municipal) e privado. Os autores concluem que aquilatar o mattering por meio da OMS somado aos aspectos da ação do indivíduo na e para a organização pode subsidiar líderes para a avaliação da saúde organizacional.

WHOQOL-bref: propriedades psicométricas para o contexto da Segurança Pública brasileira é outro artigo que enfatiza a qualidade psicométrica de instrumentos de medida utilizados no contexto da segurança pública. Nele, os autores Lara Letícia Pinto Barbosa, Francisco Guilherme Lima Macedo, Nelson Gonçalves de Souza, Caio de Melo e Silva, Fausto Neiva Andrade, Maria José Chambel e Cristiane Faiad acessaram uma amostra de 10.914 agentes da segurança pública de diferentes estados brasileiros para a condução do estudo com a WHOQOL-bref e o 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36). A discussão dos achados centralizou-se em apontamentos sobre os desdobramentos das propriedades psicométricas identificadas em ambos os instrumentos.

No artigo Trabalho Emocional de Policiais Militares: Caracterizando as demandas emocionais, os autores Hannah Dantas Guedes, Sônia Maria Guedes Gondim e Yuri Sá Oliveira Sousa realizaram uma análise qualitativa a partir de uma entrevista realizada com três policiais militares em vias de caracterizar as demandas emocionais da ocupação ou da corporação considerando o ciclo de trabalho emocional. Os resultados do estudo indicaram que os policiais atendem a inúmeras demandas emocionais desafiadoras, se fazendo necessária a implantação de políticas institucionais para capacitá-los no manejo dos estados afetivos.

Por sua vez, Raphaela Campos de Sousa e Sabrina Martins Barroso, no artigo Fatores associados ao adoecimento emocional de policiais militares, avaliaram a prevalência de adoecimento emocional de 128 policiais militares de uma cidade de Minas Gerais. Dentre os policiais que apresentaram um quadro de adoecimento emocional foi identificada a incidência de estresse, insatisfação com o trabalho, pior percepção sobre a saúde mental e pior nível de resiliência. Os autores destacam a importância de intervenções mais efetivas frente à saúde emocional dos policiais e a sua percepção sobre o trabalho.

O estudo longitudinal em Bem-Estar Subjetivo e Psicológico de Profissionais de Segurança Pública, Jucimara Zacarias Martins, Ana Paula Porto Noronha, João Lucas Dias-Viana e Leila Maria Ferreira Couto, avaliaram os efeitos de um programa de intervenção em Psicoterapia Positiva para promoção do bem-estar subjetivo e psicológico de 16 profissionais da segurança pública com sintomatologia depressiva. A intervenção realizada com os oito profissionais de segurança pública (grupo experimental) repercutiu em uma maior satisfação com a vida e realização, além de menores afetos negativos, receber suporte social emocional e sintomas depressivos.

Por fim, enfatiza-se a importância e a necessidade imediata de pesquisas voltadas à Avaliação Psicológica no contexto da segurança pública e das forças armadas. A Revista Avaliação Psicológica apoia iniciativas que se alinhem a este objetivo, dando ênfase ao uso ético, responsável e comprometido das ciências da medida em Psicologia. Este enfoque visa não apenas avançar no conhecimento científico da Psicologia, mas também garantir a integridade e o bem-estar das pessoas envolvidas. Prioriza-se, portanto, promover de maneira consciente a disseminação dos achados obtidos nesses estudos tanto para a comunidade acadêmica como para a sociedade em geral. Faz-se, ainda, um agradecimento especial à estimada professora e pesquisadora Cristiane Faiad que, a partir da sua reconhecida expertise e representatividade na intersecção entre os campos da Avaliação Psicológica e de Segurança Pública, foi essencial na mobilização que viabilizou a tramitação deste número.

1 A Seção “Police and Public Safety” está incluída na 18ª Divisão da APA, “Psychologists in Public Service”.

2American Board of Professional Psychology.

Referências

Aumiller, G. S., & Corey, D. (2007). Defining the field of police psychology: Core domains & proficiencies. Journal of Police and Criminal Psychology, 22(2), 65-76. https://doi.org/10.1007/s11896-007-9013-4Links ]

Bittner, E. (2003). Aspectos do Trabalho Policial. Edusp. [ Links ]

Datafolha (2023). Datafolha: saúde é principal problema do país; Lula derrapa em segurança e corrupção.https://www1.folha.uol.com.br/poder/2023/12/datafolha-saude-e-principal-problema-do-pais-lula-derrapa-em-seguranca-e-corrupcao.shtmlLinks ]

Kitaeff, J. (2019). Introduction and history of police psychology. In J. Kitaeff (Ed.), Handbook of police psychology (pp. 1-63). Routledge, Taylor and Francis Group. [ Links ]

Nobrega, L. M. de A., Siqueira, A. C., Turra, E. T., Beiras, A., & Gomes, M. M. (2018). Caracterizando a psicologia policial enquanto uma psicologia social jurídica. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 70(3), 148-165. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672018000300011&lng=pt&tlng=pt . [ Links ]

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