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Avaliação Psicológica

Print version ISSN 1677-0471On-line version ISSN 2175-3431

Aval. psicol. vol.22 no.4 Campinas  2023  Epub Dec 02, 2024

https://doi.org/10.15689/ap.2023.2204.25046.01 

Artigo

Avaliação psicológica brasileira: Como os grupos de trabalho da ANPEPP contribuíram com sua evolução

Brazilian psychological assessment: How ANPEPP’s working groups have contributed to its evolution

Evaluación psicológica brasileña: cómo los grupos de trabajo de ANPEPP han contribuido a su evolución

Ana Paula Porto Noronha1  1  , elaboração do manuscrito

é Doutora em Psicologia, Mestre em Psicologia Escolar pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Estágio pós-doutoral na Universidade do Minho, Portugal. Docente do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica – IBAP (2009-2011). Bolsista Produtividade em Pesquisa 1A do CNPq.

Makilim Nunes Baptista2  , elaboração do manuscrito

é Doutor pelo departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Universidade Federal de São Paulo (2001), e pós-doutoramento pela Universidade do Algarve (Portugal, 2022). Docente do Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas); Ex-presidente do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica – IBAP (2019-2021); Bolsista Produtividade em Pesquisa 1B do CNPq.

Solange Muglia Wechsler2  , elaboração do manuscrito

é Ph.D. em Psicologia Educacional pela University of Georgia (USA). Pós-doutorado pelo Torrance Center of Creative Studies. Bolsista produtividade Senior. Membro fundador do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP). Professora da pós-graduação da Pontificia Universidade Católica de Campinas.

Acácia Angeli dos Santos3  , elaboração do manuscrito

é Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo. Membro titular do Comitê de Assessoramento na área de Psicologia do CNPq (2014- 2017). Coordenadora-adjunta da área de Psicologia da CAPES (2018-2022). Vice presidente do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP).

Claudio Simon Hutz4  , elaboração do manuscrito

é Professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul coordenador do Laboratório de Mensuração do PPG Psicologia da UFRGS, foi, ainda, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) e da Associação Brasileira de Psicologia Positiva (ABP+).

1Universidade São Francisco – USF, Campinas-SP, Brasil

2Pontifícia Universidade Católica de Campicas – PUC-Campinas, Campinas-SP, Brasil

3Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica – IBAP

4Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Porto Alegre-RS, Brasil


RESUMO

Este artigo histórico, de natureza teórica, tem como objetivo discorrer sobre as contribuições que a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), a partir de seus Grupos de Pesquisa (GT), ofereceram à área da Avaliação Psicológica (AP). O artigo versa sobre as principais propostas da ANPEPP para a pesquisa brasileira e, mais especificamente para a A P, com destaque para as importantes decorrências do trabalho conjunto, como a criação do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica, o lançamento da Revista de Avaliação Psicológica, o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos, bem como a integração e parcerias entre pesquisadores, laboratórios e universidades em todo o país. São mencionados os desmembramentos dos GT e a ampliação de temas. Como conclusão, destaca-se a relevância das políticas públicas para sedimentar o desenvolvimento da ciência psicológica no Brasil. Os esforços conjuntos têm possibilitado avanços à avaliação psicológica brasileira.

Palavras-chave: Testes psicológicos; formação em psicologia; produção científica; avaliação psicológica

ABSTRACT

This historical article, theoretical in nature, aims to discuss the contributions of the National Association for Research and Graduate Studies in Psychology (ANPEPP) to the field of Psychological Assessment (PA) through its Research Groups (RG). The article examines ANPEPP’s main proposals for Brazilian research, with a specific focus on PA, and highlights the key achievements from their collaborative efforts, such as the creation of the Brazilian Institute of Psychological Assessment, the launch of the Journal of Psychological Assessment, and the development of the Psychological Test Assessment System. The article also addresses the integration and partnerships among researchers, laboratories, and universities across the country, as well as the division of Working Groups (WGs) and the expansion of research topics. In conclusion, it emphasizes the importance of public policies in consolidating the development of psychological science in Brazil, noting that these joint efforts have led to significant advances in Brazilian psychological assessment.

Keywords: Psychological tests; training in psychology; scientific production; psychological assessment

RESUMEN

Este artículo histórico, de carácter teórico, tiene como objetivo explorar las contribuciones que la Asociación Nacional de Investigación y Posgrado en Psicología (ANPEPP), a través de sus Grupos de Investigación (GT), ha hecho en el campo de la Evaluación Psicológica (AP). El artículo aborda las principales propuestas de la ANPEPP para la investigación brasileña y, más específicamente, para la A P, destacando los importantes resultados de su trabajo conjunto, como la creación del Instituto Brasileño de Evaluación Psicológica, el lanzamiento de la Revista de Evaluación Psicológica, el Sistema de Evaluación de Pruebas Psicológicas, así como la integración y las asociaciones entre investigadores, laboratorios y universidades de todo el país. Se menciona los desmembramientos de los GTs y la ampliación de los temas. En conclusión, se destaca la importancia de las políticas públicas en la consolidación del desarrollo de la ciencia psicológica en Brasil. Los esfuerzos conjuntos han permitido avances en la evaluación psicológica brasileña.

Palabras clave: Pruebas psicológicas; formación en psicología; producción científica; evaluación psicológica

A Avaliação Psicológica (AP) tem uma robusta tradição histórica no Brasil. Foi incorporada à prática profissional antes mesmo da Psicologia ser reconhecida oficialmente como profissão. Portanto, seu aprimoramento acompanhou, e foi impactado pela evolução de práticas profissionais e pela construção de referenciais teóricos. Embora, a regulamentação da profissão tenha se dado em 1962, tendo, portanto, pouco mais de 60 anos, foi a partir da década 1990 que a avaliação psicológica se fortaleceu.

Nesse particular, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), ao promover seus simpósios de pesquisa e intercâmbio científico, possibilitou que a AP ganhasse um corpo de referenciais teóricos, independente do domínio estrangeiro e crítico a ele, um fazer pautado nas necessidades brasileiras, e, em consequência, o reconhecimento social. O presente artigo abordará a história da AP à luz dos grupos de trabalho da ANPEPP. O diferencial deste artigo para outros que também se dedicaram a discutir o histórico da AP brasileira (Nascimento & Vasconcelos, 2016; Noronha et al., 2023) refere-se ao fato de que a história será contada por alguns dos vários protagonistas responsáveis pela construção dos Grupos de Trabalho (GT).

Importância da ANPEPP na consolidação dos grupos de pesquisa

A ANPEPP é uma associação que tem caráter científico e não possui fins lucrativos. Seus associados são os Programas de Pós-graduação (PPG) Stricto Sensu em Psicologia. Sua missão está construída no sentido de discutir, promover e gerar iniciativas na estimulação da formação de profissionais para pesquisa e pós-graduação em Psicologia. Ainda, a proposta da ANPEPP é, por meio da neutralidade política/religiosa/racial/teórica, servir como polo integrador de pesquisadores, formando grupos de referência nas variadas áreas da Psicologia. Nos primórdios, havia poucos grupos de trabalho, e, portanto, poucas áreas da psicologia eram contempladas, o que é condizente com a pequena abrangência da profissão àquela época.

A fundação da ANPEPP se deu em julho de 1983, em Belém (PA). O objetivo da criação de encontros, ou simpósios, era, entre outros, promover a interlocução de pesquisadores, em uma época em que a comunicação não era tão facilitada pelas tecnologias digitais como o é atualmente. As distâncias continentais do território brasileiro impediam que grupos de pesquisa se fortalecessem ao reunir objetivos comuns.

Como afirmado, são os PPGs os associados da ANPEPP, mas, em alguns eventos por ela produzidos, como é o caso dos Seminários de Pesquisa, os participantes são os pesquisadores (ex. coordenadores, vice coordenadores e/ representantes), não as instituições. Neste particular, a possibilidade de haver uma associação com o intuito de agregar pesquisadores ainda elenca outros objetivos principais, resumidos a seguir. Estes objetivos, de maneira geral, perpassam pelo incentivo da pesquisa em nosso país, tão relevante para o desenvolvimento da ciência psicológica, também promovendo a formação de pesquisadores. Isto posto, outras missões da ANPEPP são: (a) defender, apoiar e incentivar os próprios programas de pós-graduação, a partir de iniciativas de assistência, incentivo e aperfeiçoamento dos mesmos; (b) incentivar o intercâmbio entre pesquisadores e centros de pesquisa e/ou laboratórios de pesquisa; (c) difusão de pesquisas e/ou trabalhos científicos desenvolvidos no Brasil, por intermédios de outros eventos científicos (ex. congressos, seminários); (d) desenvolver e aprofundar a colaboração com outras sociedades científicas, bem como, com outras entidades representativas da Psicologia, no tocante a parcerias profícuas no desenvolvimento da pós-graduação e do fortalecimento da Psicologia, enquanto ciência e profissão (ANPEPP, 2023).

A formação de grupos de pesquisa, como um dos objetivos da ANPEPP permitiu o desenvolvimento de contribuições relevantes entre pesquisadores que podem estar investigando os mesmos fenômenos, mas que por diversos motivos, não tiveram possibilidade de conhecer formalmente os trabalhos de colegas de outros grupos, laboratórios e universidades, ainda mais quando se leva em consideração as dimensões continentais do Brasil e a dificuldade de acesso a determinadas regiões. Parece natural que pesquisas sejam desenvolvidas em grupos, pois as redes têm um efeito positivo na qualidade da pesquisa individual, bem como na formação de pesquisadores, já que o compartilhamento de conhecimento é extremamente recomendável e um dos princípios precípuos da ciência (Vabø et al., 2016). Adicionalmente, Kyvik e Reymert (2017) relatam que as pesquisas em grupos de pesquisa possuem a vantagem de propiciar o aumento do número e da qualidade de publicações.

No tocante à avaliação psicológica, sua diversidade teórica oportuniza naturezas variadas de processos e instrumentos, de modo que a integração de pesquisadores que discutam um mesmo fenômeno sob perspectivas diferentes, tende a enriquecer o fazer pesquisa. Em relação ao último argumento, por exemplo, quando mais pesquisadores estão envolvidos nas preparações de resultados e de discussões de relatórios de pesquisa, há uma tendência de proporcionar publicações mais consistentes, que podem ser disseminadas em revistas de maior impacto. Isto provavelmente ocorre, pois a diversidade de compreensões teóricas, delineamentos metodológicos, habilidades e competências são fundamentais para que o trabalho em grupo seja aprimorado, principalmente se observadas algumas características nos membros do grupo, gerando contribuições mais consistentes para a área de conhecimento (Cheruvelil et al., 2014).

Foi a partir do 19º Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico, ocorrido de forma híbrida, em 2022, que a ANPEPP reuniu 96 grupos de trabalho, quantidade considerável, em termos de expansão e congregação de pesquisadores das cinco regiões do Brasil. No tocante aos grupos de trabalho da área de avaliação psicológica, são encontrados seis deles. A este respeito, é importante notar que outros grupos também podem abordar temáticas de avaliação, ainda que “o objetivo” deles não seja esse especificamente.

Os grupos de trabalho (GT) da ANPEPP têm uma missão extremamente importante no sentido de propiciar aos pesquisadores de distintos pontos do país um espaço para reflexão sobre seus temas de trabalho, dificuldades, avanços e perspectivas. Desta maneira, assim como ocorreu com o GT de Pesquisa em Avaliação Psicológica, outros grupos se desmembraram e formaram uma vasta rede de pesquisadores especializados em áreas e contextos específicos da psicologia. Mais especificamente, o GT voltado para área da avaliação psicológica, foi decisivo no crescimento deste campo em diversos setores, tendo altos impactos em diversos setores como comentaremos a seguir. Apenas para exemplificar, este artigo está sendo escrito por membros de diferentes GT de A P, que realizam pesquisas em conjunto, com o auxílio e facilitação da ANPEPP, por meio de seus encontros periódicos.

Histórico do GT na área da avaliação psicológica

Com vistas a dar um panorama ao leitor sobre os eventos da ANPEPP, listaremos a seguir os anos de ocorrência dos eventos e as cidades em que ocorreram: Caruaru (1988), Gramado (1989), Águas de São Pedro (1990), Brasília (1992), Caxambu (1994) Teresópolis (1996), Gramado (1998), Serra Negra (2000), Aracruz (2004), Florianópolis (2006), Natal (2008), Fortaleza (2010), Belo Horizonte (2012), Bento Gonçalves (2014), Maceió (2016), Brasília (2018), Gramado (2022). O simpósio Novos Horizontes, em 2020, se deu de maneira online em razão da crise sanitária que acometeu o mundo, em decorrência da COVID-19.

Foi na reunião realizada em Gramado, em 1989, que o primeiro GT com enfoque na avaliação psicológica se encontrou. Seu nome era ‘Perspectivas de Avaliação e Diagnóstico em Psicologia’, e o compunham nove pesquisadores, a saber, Odete Lourenção VanKolck, André Jaquemin, Claudio Simon Hutz, Eda Marconi Custódio, Edwiges Silvares, Nilce Mejias, Latife Yazigi, Regina M. L. L. Carvalho e Antônio Carelli (Noronha et al., 2023). O foco deste grupo foi a discussão de aspectos conceituais e a abrangência da avaliação psicológica, considerando perspectivas teóricas distintas. No seminário de 1990, o GT continuou com o mesmo nome e sua composição sofreu pouca modificação.

Não foram encontrados registros da participação de GT de avaliação psicológica nos seminários da ANPEPP ocorridos em 1992 e 1994. Entretanto, naqueles anos, um fato histórico que marcou o ressurgimento do interesse pela pesquisa em avaliação psicológica foi a fundação do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP), em 1997, durante o encontro da Sociedade Brasileira de Psicologia, em Ribeirão Preto (Pasquali, 2023, Wechsler et al., 2019). Durante este encontro foi discutida a necessidade de ampliação de grupo de pesquisadores para o crescimento da área de avaliação psicológica do ponto de vista científico e profissional, sendo, então, proposta a criação de um GT de Pesquisa em Avaliação Psicológica para o próximo encontro da ANPEPP, no ano seguinte, reforçando uma das missões da ANPEPP, qual seja, unir esforços com outras associações científicas.

Assim, no VII simpósio da ANPEPP de 1998, que ocorreu em Gramado, e no VIII simpósio, que aconteceu em 2000, em Serra Negra, o GT de Pesquisa em Avaliação Psicológica, coordenado por Solange Wechsler, já contava com um considerável número de pesquisadores de diferentes instituições (Wechsler, 1998). Ressalta-se que no ano 2000, com a inserção de alunos de doutorado, foi formada uma rede eletrônica, nomeada de Avalpsi, coordenado por Cristina Pinho. O grupo de e-mail ficou ativo durante vários anos, sendo este o primeiro canal eletrônico voltado para discussão de temas e dúvidas relacionadas com a avaliação psicológica entre os profissionais da área. Foram realizadas discussões sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENADE) e foram formadas parcerias para novas pesquisas, como exemplos, além de várias outras ações.

Nos documentos históricos da ANPEPP, consta que estiveram presentes ao GT realizado no VII Simpósio, pesquisadores que anteriormente foram convidados pelo Conselho Federal de Psicologia a participar da Câmara Interinstitucional de Avaliação Psicológica, criada em 1997. A participação daqueles pesquisadores em dois contextos – GT e Câmara Interinstitucional, fortaleceu tanto as discussões promovidas, quanto os respectivos desdobramentos. A decorrência mais referenciada do encontro de 1998 foi a constituição da Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica, do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi), cuja relevância já foi reiteradamente apresentada (Andrade & Valentini, 2018; Cardoso & Silva-Filho, 2018; Reppold & Noronha, 2018; Zanini et al., 2021).

Também foi organizado, nesta época, o I Congresso Nacional de Avaliação Psicológica em Campinas (2001) e publicado o primeiro livro pelo IBAP, denominado “Temas em Avaliação Psicológica” (Primi, 2002). Tanto o livro, quanto o congresso marcaram um novo tempo para a avaliação psicológica brasileira.

Deve ser ressaltado que os encontros deste GT, neste período, foram extremamente frutíferos, pois não foram discutidas apenas publicações conjuntas, mas também, houve a organização de atividades e de eventos que poderiam fortalecer a área. Destaca-se, como exemplo, o lançamento da Revista Avaliação Psicológica, durante o I Congresso Brasileiro de Psicologia, Ciência e Profissão, ocorrido na cidade de São Paulo em 2002. A revista foi uma força motriz no incentivo à publicação de pesquisas de A P, pois, embora fosse permitido publicar em outros periódicos, ter um específico da área, reuniu mais investigações temáticas.

Nos vários encontros da ANPEPP o IBAP se fortaleceu como entidade científica. Exemplo disso se deu quando a presidência do instituto foi assumida por aqueles que tinham vivenciado a coordenação do GT. Após o IX Simpósio, em Águas de Lindoia, em 2002, quando a liderança do grupo de Pesquisa em Avaliação Psicológica era de Claudio Hutz, nos eventos seguintes, respectivamente no X Simpósio em 2004 (Aracruz/ES) e no XI Simpósio em 2006 (Florianópolis/SC), as coordenações foram de Ricardo Primi e Ana Paula Noronha, que posteriormente, assumiram a presidência do IBAP nos dois biênios seguintes (ANPEPP, 2023). Este fenômeno ocorreu outras vezes, mesmo que não tenha sido na sequência imediata, com outros coordenadores de GTs da ANPEPP e, consequentemente, ex-presidentes do IBAP.

O GT Pesquisa em Avaliação Psicológica continuou se reunindo durante os seminários da ANPEPP até que em 2008 já havia muitos pesquisadores, com várias linhas de pesquisa, em outras regiões brasileiras, ampliando o eixo sul-sudeste. Para melhor produtividade, concluiu-se que a divisão dos grupos se tornou imprescindível. Pesquisa em Avaliação Psicológica e, Avaliação Cognitiva e Neuropsicológica foram os novos grupos compostos. A produção conjunta do GT manteve-se, de modo que foram produzidos dois novos livros “Avanços em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica de crianças e adolescentes, volumes I e II (Hutz, 2010, 2012).

Ao lado disso, observou-se a ampliação de pesquisadores interessados em avaliação psicológica vinculados a diferentes instituições universitárias. Convém destacar que as temáticas de pesquisa eram variadas, como a avaliação da inteligência, técnica de Zulliger, avaliação de programas, avaliação de processos terapêuticos, Teste de Apercepção Temática, avaliação da criatividade, avaliação da personalidade e validade de testes. Os principais objetivos do GT versavam sobre a aproximação de pesquisadores, com vistas ao desenvolvimento de pesquisas conjuntas; assim como identificar as carências e produzir instrumentos. Para a área, de modo geral, tal ampliação temática permitia que novos conceitos, instrumentos, faixas de desenvolvimento e contextos de atuação promovessem processos avaliativos mais qualificados.

Em 2014 notou-se a necessidade de outra subdivisão dos grupos, por ocasião do XV Seminário da ANPEPP em Bento Gonçalves. Foram organizados cinco GT de AP: Pesquisa em Avaliação Psicológica, Métodos Projetivos nos Contextos da Avaliação Psicológica, Avaliação Cognitiva e Neuropsicológica, Avaliação em Psicologia Positiva e Criatividade e Avaliação Psicológica: Personalidade e Psicopatologia (ANPEPP, 2014). Duas observações devem ser feitas neste momento. Embora não tenha sido mencionada, a Associação Brasileira de Rorschach e outros métodos (ASBRo) já existia e teve forte protagonismo, assim como o IBAP, ao longo de todo este processo. Além dela, a fundação da Associação de Psicologia Positiva, em 2013, fortaleceu a reunião de pesquisadores, que inicialmente contava com os pesquisadores que trabalhavam com a criatividade no foco da psicologia positiva (ABP+ Associação de Psicologia Positiva, 2023). Reconhece-se a contribuição de diferentes e crescentes laboratórios de pesquisa em avaliação psicológica pelo país. Em 2008, existiam mais de 30 grupos, o que é muito superior aos três ou quatro inseridos na primeira composição do GT. Atualmente, no último levantamento dos laboratórios de pesquisa brasileiros foram encontrados mais de 80, distribuídos de norte a sul, fato que influenciou no número de pesquisadores interessados em participar dos GT em avaliação psicológica da ANPEPP (Silva Filho et al., 2023).

Os diferentes grupos agregam pesquisadores com abordagens distintas, como por exemplo, o GT de Avaliação e Intervenção no Desenvolvimento Infantil e Adolescente é o GT de número 7, tinha como nomenclatura antiga ‘Perspectivas de Avaliação e Diagnóstico em Psicologia’, e aborda o processo de AP nestas importantes faixas do ciclo vital. O ‘GT Métodos Projetivos nos Contextos da Avaliação Psicológica’ (GT-29) tem como princípio investigar qualidades psicométricas, fundamentos clínicos e teóricos dos métodos projetivos em diversos contextos profissionais, tendo sido criado no ano de 2008. O GT-82, intitulado ‘Avaliação Psicológica e Psicopatologia’, visa a construção e adaptação de modelos de mensuração de quadros psicopatológicos e, como outros GT, é fruto de desdobramentos de grupos antigos. Por último, o mais novo grupo diretamente associado à AP é o de Psicometria (GT-93), fundado em 2020, no qual se discutem questões metodológicas básicas da psicometria nos métodos quantitativos, bem como modelos e ferramentas de análise de dados.

Considerações finais

A contribuição dos diferentes GT em avaliação psicológica tem sido decisiva para a formação científica e de profissionais na área da avaliação psicológica, contribuindo com inúmeros artigos e livros sobre diferentes temas, além de parcerias profícuas (exemplos, Amaral & Werlang, 2008; Argimon et al., 2023; Baptista et al., 2019; Boruchovitch, et al., 2012; Campos & Nakano, 2019; Hutz, 2016; Mansur-Alves et al., 2021; Noronha et al., 2006; Oliveira et al., 2020; Nakano, 2018; Santos-Vitti et al., 2023; Vazquez & Hutz, 2018). Em acréscimo, os grupos têm se reunido para debater e consolidar posições políticas em prol da área de avaliação, emitindo documentos para fortalecer a atuação do profissional e a qualidade da avaliação psicológica no país.

Resgatar a história dos GT da ANPEPP permite compreender que a avaliação psicológica é uma área que se fortaleceu, porque se reuniu. Quem imaginaria que o encontro daqueles nove pesquisadores, nomeados nas páginas iniciais deste artigo, presentes à reunião de 1989, comporia a história que aqui se traçou? Ta l fenômeno se deu, porque aqueles primeiros conseguiram agregar outros, que trouxeram mais alguns, que, em conjunto, foram cocriadores de uma área potente como é a avaliação psicológica. Nela, há espaço para todos que queiram trazer seus saberes e que tenham o propósito de construir juntos.

É evidente que, como qualquer outra área de conhecimento, a AP precisa avançar. Te r instrumentos e processos mais inclusivos é urgente. Permitir que pessoas com características distintas respondam aos testes em concursos públicos, em processos seletivos, nos contextos educacionais e de trabalho é priorizar a justiça e a igualdade de direitos. Aprimorar as práticas profissionais em todos os lugares nos quais a psicologia se fizer presente promoverá o reconhecimento profissional, e com ele, a inserção social do psicólogo. Te r acesso aos mais vulneráveis, àqueles que moram em regiões distantes de grandes centros é também um enfrentamento necessário aos pesquisadores, docentes e profissionais da A P. É com este intuito que finalizamos este artigo, com o convite aos novos profissionais para que se insiram em campos ainda inócuos e que o façam da mesma maneira gentil, consistente, e com liderança que aqueles primeiros.

Disponibilidade de dados e materiais

Não há.

FinanciamentoA presente pesquisa não recebeu nenhuma fonte de financiamento sendo custeada com recursos dos próprios autores.

Agradecimentos

Não há menções.

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Recebido: 01 de Outubro de 2023; Aceito: 01 de Setembro de 2024

1Endereço para correspondência: Rua Waldemar César da Silveira, 105, Jardim Cura D’ars, 13045-510, Campinas, S P. E-mail:ana.noronha8@gmail.com

Confitos de interesses

Os autores declaram que não há conflitos de interesses.

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