Interesses profissionais são descritos como um conjunto de aspectos motivacionais (padrões de gosto, afinidade, aversão ou indiferença) direcionados às atividades profissionais. A depender da percepção de cada indivíduo, tais atividades podem despertar mais ou menos atenção, situações consideradas agradáveis ou não. Consiste em um processo dinâmico, por meio do qual o indivíduo constantemente os reavalia, podendo fazer com que ele considere a mudança ou não de áreas de atuação profissional (Lent et al., 1994; Rounds & Su, 2014).
Embora mutáveis, há certo consenso na literatura de que os interesses profissionais sejam razoavelmente estáveis ao longo da vida das pessoas (Hoff et al., 2018; Schultz et al., 2017). A avaliação desses interesses desempenha um papel fundamental nos processos de orientação profissional e de carreira, uma vez que são considerados, em certa medida, uma manifestação da personalidade e podem servir como orientação na interação entre o indivíduo e o mundo do trabalho (Lamas, 2017).
À medida que as pessoas avançam em suas trajetórias educacionais e profissionais, um novo cenário se desenha. O ingresso no ensino superior, por exemplo, tende a ser visto como um passo em direção a uma determinada área de atuação profissional e proporciona oportunidades para adquirir novas experiências. Essa etapa da jornada pode influenciar na reconfiguração ou reorganização dos interesses profissionais ao longo do tempo. Decidir ingressar ou não em cursos superiores está intrinsecamente ligado à construção do projeto de vida e carreira do estudante/profissional. No entanto, é crucial destacar que o ingresso em uma instituição de ensino superior (IES) acarreta desafios afetivos, cognitivos e sociais, que podem moldar a forma como esses interesses se desenvolvem. A partir dessas experiências, novos estímulos profissionais emergem, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e profissional desses estudantes (Campos & Bardagi, 2020; Veriguine & Krawulski, 2022).
Especificamente no que tange ao curso de Psicologia, os estudantes nessa área possuem uma gama bastante variada de possibilidades de atuação após a formação, o que traz consigo muitas dúvidas ao longo do curso. Alguns estudos sinalizaram que muitos indivíduos optam inicialmente pelo curso de Psicologia por conceber que seria uma profissão cujo objetivo estaria associado a ajudar (atuando em aspectos emocionais) outras pessoas (Daltro & Pondé, 2017; Hernández-Franco et al., 2018).
Em geral, os cursos de Psicologia no Brasil são presenciais, tendo duração de 10 semestres letivos, com estágios básicos a partir do quinto semestre e estágios mais específicos do sétimo semestre em diante (Bedin et al., 2013; Daltro & Paixão, 2015). Para Santos e Nóbrega (2017), são em situações de estágio que os estudantes dos cursos de Psicologia conseguem colocar em prática a integração dos conhecimentos, habilidades e competências adquiridas ao longo da formação.
Em parte considerável de matrizes curriculares de cursos de Psicologia no Brasil, os discentes devem realizar escolhas em relação às ênfases de estágios que irão cursar (Cury & Ferreira Neto, 2014; Silva et al., 2013), porém como afirmam Ambiel e Martins (2019), ainda se conhece pouco sobre o processo de escolhas de estágios/áreas da atuação desta profissão no contexto brasileiro. É bastante comum que os discentes tenham dúvidas em relação às áreas de maior interesse na Psicologia, seja pelo fato de não conseguirem identificar facilmente quais são as que mais despertam interesses, seja também pelo fato de não possuírem conhecimentos teóricos e técnicos em outras, não tendo clareza se há ou não o interesse em atuarem (De Andrade et al., 2016).
Com o intuito de mensurar os interesses por áreas de atuação na Psicologia em discentes do curso, Ambiel e Martins (2019) construíram a Escala de Interesses por Áreas da Psicologia (EIAPsi). Trata-se de um instrumento brasileiro, construído com base nas áreas de especialidades em Psicologia, reconhecidas pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2007, 2019), e consultas a outras fontes (materiais produzidos por instituições de Ensino Superior e institutos de Pós-Graduação). Embora o instrumento tenha se baseado nas especialidades reconhecidas pelo CFP, três especialidades não foram corroboradas empiricamente na estrutura fatorial final da EIAPsi (i.e., psicomotricidade, psicopedagogia e hospitalar). Além disso, visando incluir uma importante área de atuação da Psicologia, os autores acrescentaram itens para avaliar a área da Docência e da Pesquisa.
A EIAPsi é composta por 90 itens de autorrelato, respondidos por meio de escala Likert, agrupados em 11 fatores: Social, Clínica, Educacional, Organizacional, Saúde, Jurídica, Docência e Pesquisa, Esporte, Avaliação Psicológica, Neuropsicologia e Trânsito. Sobre os estudos psicométricos, foram conduzidas investigações com relação às evidências de validade, com base no conteúdo (Martins et al., 2014), na relação com outras variáveis (Ambiel & Martins, 2016), estrutura interna (Ambiel & Martins, 2019), bem como confiabilidade por consistência interna e teste e reteste (Ambiel & Martins, 2019). Há também uma versão reduzida da escala com 55 itens, nomeada de EIAPsi-55, que também apresentou evidências de validade e estimativas de precisão favoráveis para avaliar estudantes de Psicologia e psicólogos, no contexto brasileiro e português (Ambiel et al., 2020; Martins et al., 2024).
Além dos estudos psicométricos, os autores do instrumento realizaram pesquisas com base em diferentes variáveis sociodemográficas e em relação às características dos discentes nos cursos de Psicologia investigados. Uma vez que o intuito do presente artigo é a exploração de variáveis sociodemográficas, em relação aos interesses de discentes, por áreas da Psicologia, a seguir serão descritos os principais resultados de estudos já publicados e que se aproximaram de tal propósito, ainda que em nem todos os estudos a EIAPsi tenha sido utilizada. Serão apresentados os achados, caso os estudos contemplem, com base nas áreas de interesse em Psicologia, bem como diferenças com base nas variáveis sexo, idade, período e tipo de IES.
Bueno et al. (2004) identificaram os interesses profissionais em 120 discentes, ingressantes do curso de Psicologia de um IES do estado de São Paulo. Dos participantes, a maior parte era do sexo feminino, com idades entre 17 e 38 anos, sendo que 65,8% estavam matriculados no curso matutino e 34,2% no vespertino. Para a coleta de dados, quanto aos interesses profissionais, os autores utilizaram o instrumento Levantamento de Interesses Profissionais (LIP). Dos principais resultados, os interesses mais frequentes estiveram associados à área de biológicas, podendo ser inseridas nessa categoria a Psicologia comportamental, Neuropsicologia e atividades de pesquisa.
Os interesses profissionais por áreas da Psicologia também foram mensurados em uma amostra de 101 alunos que estavam na metade do curso (3º e 4º anos) de uma IES particular localizada no interior do estado de São Paulo. A idade média foi de 24,7 anos (variando entre 20 e 53 anos), sendo 90% do sexo feminino. As principais áreas de interesse na Psicologia apontadas pelos participantes foram a Clínica e Saúde (Baptista et al, 2004).
Em uma amostra de oito discentes do nono ano de Psicologia, Souza e Souza (2012) investigaram os interesses profissionais. A idade dos participantes variou entre 22 e 37 anos (maioria do sexo feminino e matriculada no curso noturno). Os interesses profissionais foram avaliados por meio de entrevista semiestruturada, sendo a Clínica a de maior interesse, seguida pelas áreas Social e Organizacional.
Rodrigues et al. (2013) analisaram os interesses profissionais por áreas da Psicologia em uma amostra de 573 discentes portugueses de nove diferentes IES, públicas e privadas. Os participantes possuíam idades entre 17 e 57 anos (75,6% do sexo feminino). Os autores construíram um questionário de interesses para a Psicologia, composto por 21 itens e agrupados em três dimensões (Clínica, Organizacional e Educacional). O grupo masculino apresentou maior interesse pela área Organizacional, ao passo que o grupo feminino pela área Clínica. Já em relação ao tipo de IES, o interesse pelas áreas Organizacional e Educacional foi superior em discentes do ensino superior privado.
Em outra investigação, dois grupos (um com discentes do primeiro e outro do quinto do curso) foram avaliados no que tange aos interesses por áreas de atuação. O delineamento do estudo foi quanti-qualitativo e os interesses por áreas da Psicologia foram mensurados por meio de um questionário elaborado pelos autores. Pela análise de conteúdo os autores ressaltaram que tanto os ingressantes quanto os concluintes demonstraram maiores interesses pela área Clínica, seguida pela Organizacional (Vargas & Zampieri, 2014).
Ambiel e Martins (2016) realizaram um estudo com 392 discentes de diversas IES brasileiras (públicas e privadas), localizadas nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Bahia e Minas Gerais. A maior parte dos participantes (77,6%) era do sexo feminino, com idade variando entre 18 e 60 anos, sendo que 3,6% eram do primeiro ano do curso, 32,7% do segundo, 35,2% do terceiro ano, 6,9% do quarto e 16,8% do quinto ano do curso. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a EIAPsi. Em relação às áreas de interesse, Clínica (19,4%) e Organizacional (15,6%) foram as mais frequentes.
Outro estudo conduzido com a EIAPsi analisou os interesses por áreas da Psicologia em um grupo de 980 discentes (maioria de mulheres e matriculados em IES privadas) provenientes de 21 diferentes estados brasileiros. Os discentes indicaram maior interesse pela área Clínica e menor interesse pelas áreas do Trânsito e Esporte. Mulheres demonstraram interesse superior nas áreas de Saúde e Jurídica, ao passo que homens pontuaram de forma superior no fator Docência e Pesquisa. No que tange ao semestre em que os discentes estavam matriculados, àqueles que estavam no início do curso (dois primeiros anos de formação) apresentaram pontuações superiores nas áreas Educacional, Saúde, Jurídica e Neuropsicologia, quando comparados aos estudantes que cursavam os períodos finais do curso (Ambiel & Martins, 2019).
Cabe destacar que a Psicologia vem evoluindo rapidamente enquanto ciência e prática no Brasil e esse fato requer que sejam conduzidos estudos mais atuais para investigar as principais áreas de interesses dos estudantes no cenário nacional atual. Além disso, a partir dos estudos expostos pode-se constatar que as variáveis sexo e período em que os discentes estão do curso foram as mais investigadas, porém pouco se discutiu em relação às variáveis idade do discente e tipo de IES. Vale ressaltar que o estudo do período do curso bem como a idade podem ser relevantes para a compreensão dos interesses, uma vez que se pressupõe que a experiência e a aprendizagem podem refinar os interesses (Lent et al, 1994). Já em relação à natureza jurídica da IES, a falta de dados a respeito desta variável impele a explorar tal possibilidade, de modo a tentar conhecer melhor o fenômeno. Visando avaliar os dados já explorados com certa frequência na literatura e ampliar a discussão na análise de outras variáveis, o objetivo deste estudo foi investigar as áreas de maior e menor interesse, verificar as relações entre as áreas de interesse na Psicologia, além de testar as diferenças nas áreas de atuação em relação ao sexo, idade, período e tipo de IES.
Método
Participantes
Participaram 200 estudantes de Psicologia, com representantes dos cinco anos do curso (1º=21%; 2º=17,5%; 3º=20%; 4º=20%; 5º=21,5%), maioria do sexo feminino (77,5%) e idades variando de 18 a 51 anos (M=22,39; DP=4,67). Metade dos participantes (n =100) eram de uma universidade pública e a outra metade de uma universidade particular, ambas localizadas no interior do estado de São Paulo. A proporção de alunos por período do curso (aproximadamente 20% de estudantes por ano do curso) e a média de idade (Mpública=21,98; DPpública=2,65; Mparticular=22,80; DPparticular=6,03) foram próximas em relação ao tipo de IES dos estudantes. A maior diferença foi em relação ao sexo, sendo a amostra da universidade privada representada por mais estudantes do sexo feminino (85%) em comparação com a universidade pública (70%).
Instrumentos
Questionário sociodemográflco. Foi elaborado especificamente para este estudo e continha perguntas sobre sexo (1=masculino; 2=feminino), idade, período do curso (1 = 1º ano; 2=2º ano; 3=3º ano; 4 = 4º ano; 5=5º ano) e tipo de IES (1=pública; 2=particular).
Escala de Interesses por Áreas da Psicologia-55 itens (EIAPsi-55; Martins et al., 2024). A escala avalia os interesses por áreas da Psicologia de estudantes e profissionais da Psicologia. Neste estudo foi utilizada a versão equilibrada da EIAPsi (Ambiel & Martins, 2019) com cinco itens por fator, totalizando 55 itens e por isso nomeada de EIAPsi-55 (Martins et al., 2024). Os fatores/áreas avaliados pela escala são: Social (ex. de item: Atuar na compreensão da construção social da subjetividade dos sujeitos), Clínica (ex. de item: Realizar atendimentos psicoterapêuticos em consultórios ou clínicas particulares), Educacional (ex. de item: Auxiliar nos processos de ensino-aprendizagem), Organizacional (ex. de item: Elaborar e implementar treinamentos de habilidades profissionais), Saúde (ex. de item: Atuar junto a pacientes terminais hospitalizados), Jurídica (ex. de item: Atuar com indivíduos em situação de processos judiciais), Docência e Pesquisa (ex. de item: Escrever relatos e artigos científicos), Esporte (ex. de item: Colaborar para a compreensão e transformação das relações inter e intrapessoais que ocorrem nos ambientes esportivos), Avaliação Psicológica (ex. de item: Conhecer e aplicar diversos testes psicológicos), Neuropsicologia (ex. de item: Compreender as relações do funcionamento cerebral com o comportamento), Trânsito (ex. de item: Participar de equipes multipro-fissionais no planejamento e realização das políticas de segurança para o trânsito). As respostam são dadas em uma escala Likert de cinco pontos “1 – Detesto/detestaria exercer essa atividade” a “5 – Adoro/adoraria exercer essa atividade”. A EIAPsi-55 apresentou bons índices de ajuste para a estrutura fatorial formada por 11 fatores (χ2=7377,369; gl=1375; p<0,001; CFI = 0,92; TLI = 0,91; RMSEA=0,07; SRMR=0,07) com cargas fatoriais dos itens iguais ou superiores a 0,60 nos respectivos fatores. Os ômegas evidenciados pelos autores originais da EIAPsi-55 foram todos satisfatórios, variando de 0,80 (Clínica) a 0,93 (Esporte).
Procedimentos
O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade São Francisco (CAAE: 34976414.4.0000.5514). A participação na pesquisa somente foi permitida mediante a concordância do participante com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A coleta ocorreu no formato lápis e papel, de forma coletiva, em salas de aula de duas universidades, uma pública e outra particular, localizadas no interior do estado de São Paulo.
Análise de dados
Os resultados foram analisados por meio dos softwares estatísticos SPSS 25 e MPlus 7.11. Inicialmente, as médias dos estudantes nas áreas de interesse da Psicologia foram comparadas por meio da Análise de Variância (ANOVA) com medida repetidas, com teste post-hoc de Bonferroni. Em seguida, as áreas medidas pela EIAPsi-55 foram correlacionadas entre si, por meio da correlação de Pearson. Por fim, foi realizado um modelo estrutural de Múltiplos Indicadores e Múltiplas Causas (MIMIC) para comparação das médias latentes das áreas da Psicologia em relação ao sexo, idade, período e tipo de IES. O modelo MIMIC é um método estatístico eficaz para esse objetivo pois compara as médias entre os grupos controlando os efeitos de Funcionamento Diferencial do Item (DIF; Woods, 2009). Portanto, inicialmente foram testados os DIFs de todos os itens nas variáveis independentes analisadas (i.e., sexo, idade, período e IES), sendo este um modelo mais saturado, ou seja, com a maior parte dos itens da EIAPsi-55 sendo controlado o DIF. Em seguida, foram mantidos apenas os itens que de fato apresentaram DIF significativo na variável independente analisada, tornando o modelo mais restrito. As magnitudes das correlações foram interpretadas seguindo as indicações de Cohen (1992), o qual aponta que as correlações entre 0,10 e 0,29 são fracas, entre 0,30 e 0,49 são moderadas e acima de 0,50 são fortes.
Resultados
Inicialmente os interesses dos estudantes de Psicologia pelas áreas da Psicologia foram comparados por meio da ANOVA com medidas repetidas. Por meio desta análise foi possível evidenciar diferenças significativas entre as áreas da Psicologia (F=51,99; p<0,01). Os resultados obtidos no teste post-hoc de Bonferroni serão apresentados, a seguir, na Figura 1.

Nota. As áreas de Psicologia foram agrupadas em subconjuntos de acordo com o nível de significância (p≤0,05) da diferença da média da área em relação às demais.
Figura 1 Comparações das médias de interesses por áreas da Psicologia medidas pela EIAPsi-55
Nota-se na Figura 1 que a área menos pontuada pelos estudantes foi a área do Trânsito e a mais pontuada foi a área Clínica. Ambas as áreas (Trânsito e Clínica) se diferenciaram significativamente das demais áreas. A área do Esporte foi a segunda menos pontuada, não se diferenciando significativamente apenas da área da Docência e Pesquisa, sendo esta última a terceira menos pontuada. Com valores mais intermediários de interesses dos estudantes estão as áreas Organizacional, Jurídica e Avaliação Psicológica. Ocupando níveis de interesses maiores e mais homogêneos entre si apontados pelos estudantes, estão as áreas Neuropsicologia, Educacional, Social e Saúde.
A fim de averiguar um possível viés de amostra, as médias obtidas neste estudo foram comparadas com a amostra de Martins et al. (2024) que contou com 1433 estudantes de Psicologia. Foram obtidas diferenças estatisticamente significativas apenas nas áreas Avaliação Psicológica e Trânsito, com tamanhos de efeito considerados pequenos (d=0,37 e d=0,28, respectivamente). As médias obtidas no estudo de Martins et al. (2024) foram 3,62 (DP=0,82; Avaliação Psicológica) e 2,62 (DP = 1,04; Trânsito) contra 3,31 (DP = 0,82) e 2,34 (DP=0,86) neste estudo, portanto, sendo as médias menores no presente estudo. Em seguida, as áreas da Psicologia foram correlacionadas entre si e serão apresentadas na Tabela 1, a seguir.
Tabela 1 Correlações entre os fatores da EIAPsi-55
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Trânsito | 0,86 | |||||||||
| 2. Esporte | 0,47** | 0,93 | ||||||||
| 3. Docência | 0,05 | 0,01 | 0,87 | |||||||
| 4. Organizacional | 0,50** | 0,39** | −0,06 | 0,90 | ||||||
| 5. Jurídica | 0,31** | 0,13 | −0,11 | 0,21** | 0,83 | |||||
| 6. Avaliação | 0,29** | 0,11 | 0,16* | 0,27** | 0,07 | 0,84 | ||||
| 7. Neuropsicológico | 0,30** | 0,20** | 0,07 | 0,23** | 0,02 | 0,56** | 0,86 | |||
| 8. Educacional | 0,19** | 0,20** | 0,03 | 0,08 | 0,01 | 0,04 | 0,08 | 0,87 | ||
| 9. Social | 0,17* | 0,15* | 0,15* | 0,02 | 0,24** | −0,07 | 0,00 | 0,52** | 0,83 | |
| 10. Saúde | 0,16* | 0,03 | −0,10 | 0,10 | 0,17* | 0,19** | 0,40** | 0,12 | 0,16* | 0,84 |
| 11. Clínica | 0,13 | 0,07 | 0,14* | 0,21** | −0,02 | 0,45** | 0,38** | −0,01 | −0,07 | 0,22** |
Nota. *p≤0,05; **p≤0,01. Nas diagonais estão os alfas. O alfa do fator Clínica foi de 0,82. Em negrito estão as correlações com magnitudes moderadas ou fortes.
De forma geral é possível notar na Tabela 1 que diversas áreas da Psicologia se correlacionaram de forma significativa, sendo as correlações positivas, em todos estes casos. Foram observadas 10 correlações com magnitudes moderadas e fortes. Tais correlações foram constatadas entre a área do Trânsito e as áreas de Esporte, Organizacional, Jurídica e Neuropsicologia. A área Clínica também apresentou correlações positivas e com magnitudes moderadas com as áreas Avaliação Psicológica e Neuropsicologia. Além destas, foram evidenciadas correlações moderadas entre Esporte e Clínica e Saúde e Neuropsicologia, e correlações fortes entre Avaliação Psicológica e Neuropsicologia e Social e Educacional. As últimas análises realizadas dizem respeito aos modelos MIMIC testados para comparar as diferenças dos interesses pelas áreas da Psicologia em relação ao sexo, idade, período e tipo de IES. Os resultados com os itens que apresentaram DIF e as diferenças de médias serão apresentados na Tabela 2.
Tabela 2 MIMIC da EIAPsi-55 por sexo, idade, período e IES
| Item (área) | Sexo | Idade | Período | IES |
|---|---|---|---|---|
| 52. Desenvolver... capacidades... atletas... (Esporte) | 0,09* | |||
| 29. Ministrar aulas sobre conteúdos específicos (Docência) | −0,18** | |||
| 15. Responsabilizar-se... as condições... (Organizacional) | −0,19** | |||
| 37. Trabalhar com as relações... no... trabalho (Organizacional) | −0,10* | |||
| 28. Fazer a avaliação de detentos em liberdade... (Jurídica) | −0,17** | |||
| 39. Promover atividades... estabelecimentos penais (Jurídica) | −0,19** | |||
| 20. Realizar avaliações... psicodiagnóstico (Avaliação) | −0,12* | |||
| 31. Redigir documentos... procedimentos... (Avaliação ) | −0,11* | 0,14* | ||
| 42. Saber selecionar... instrumentos... (Avaliação ) | 0,12* | |||
| 3. Auxiliar nos processos de ensino-aprendizagem (Educacional) | −0,11* | |||
| 25. Trabalhar com crianças... desenvolvimento... (Educacional) | 0,14* | |||
| 47. Atuar preventivamente nas... escolas... (Educacional) | 0,14** | |||
| 12. Realizar pesquisas no âmbito social e comunitário (Social) | −0,13* | |||
| 23. Atuar na atenção a grupos... centros comunitários (Social) | 0,21** | −0,10* | 0,14** | |
| 34. Planejar, avaliar... programas comunitários (Social) | −0,21** | |||
| 45. Mediar as intervenções... contextos comunitários (Social) | 0,19** | |||
| 21. Desenvolver jogos... neuropsicológica (Neuropsicologia) | −0,21** | |||
| 32. Elaborar um plano... neuropsicológica... (Neuropsicologia) | −0,12** | −0,13* | ||
| Área | Sexo | Idade | Período | IES |
| Trânsito | −0,01 | 0,05 | 0,04 | 0,17* |
| Esporte | −0,04 | −0,09 | −0,07 | 0,06 |
| Docência e Pesquisa | −0,20* | 0,10 | −0,04 | −0,04 |
| Organizacional | 0,06 | 0,01 | 0,11 | 0,12 |
| Jurídica | 0,12 | −0,17* | −0,05 | 0,05 |
| Avaliação Psicológica | 0,11 | 0,18* | −0,14 | 0,40** |
| Neuropsicologia | −0,03 | 0,13 | −0,16* | 0,37** |
| Educacional | 0,01 | 0,01 | 0,01 | −0,06 |
| Social | −0,04 | 0,08 | −0,04 | −0,05 |
| Saúde | 0,16* | 0,01 | −0,05 | 0,16* |
| Clínica | −0,06 | 0,14 | −0,05 | 0,21** |
Nota. Sexo (1=masculino; 2=feminino); Período (1=1º ano; 2=2º ano; 3=3º ano; 4=4º ano; 5=5º ano); IES (1=pública; 2=particular). *p≤0,05; **p≤0,01. Os itens da EIAPsi na íntegra estão disponíveis no artigo de Ambiel e Martins (2019).
Nota-se na Tabela 2 que dos 55 itens presentes na EIAPsi-55, 18 apresentaram DIF significativo em pelo menos uma das variáveis independentes testadas. Destacam-se os itens 31, 23 e 32 que apresentaram DIF em mais de uma variável independente. Em relação ao sexo, os homens foram favorecidos com DIF em relação as mulheres nos itens 29, 20, 31 e 3, e por sua vez, as mulheres foram favorecidas nos itens 25, 47 e 23. A respeito das diferenças de interesses pelas áreas da Psicologia, foram obtidas diferenças significativas nas áreas Docência e Pesquisa e Saúde, com os homens se interessando mais pela primeira e as mulheres mais pela segunda.
Com relação à idade, foram observados DIFs nos itens 28, 39, 12, 23 e 34 favorecendo os estudantes mais jovens e o item 31 favorecendo os estudantes mais velhos. Nas áreas, os estudantes mais jovens demonstraram um interesse significativamente maior pela área Jurídica e os estudantes mais velhos demonstraram um interesse maior pela área Avaliação Psicológica. Com a variável período do curso, foram evidenciados DIFs em quatro itens, sendo três (42, 23, e 45) em favor dos estudantes matriculados nos períodos finais do curso e um (32) em favor dos estudantes de períodos mais iniciais do curso. Apenas a área Neuropsicologia apresentou diferenças significativas de interesse dos estudantes, com os estudantes dos anos iniciais pontuando mais nesta área.
Por fim, sobre o tipo de IES, foram evidenciados cinco itens com DIF, sendo os itens 15, 37, 21 e 32 favorecendo os estudantes de universidade pública e o item 52 favorecendo os estudantes de universidade particular. Das 11 áreas da EIAPsi-55, cinco apresentaram diferenças significativas (Trânsito, Avaliação Psicológica, Neuropsicologia, Saúde e Clínica), com os estudantes de universidade particular demonstrando mais interesse que os estudantes de universidade pública nestas cinco áreas.
Discussão
Embora com tendência de estabilidade ao longo da vida, os interesses podem passar por reorganizações e especificações à medida que a pessoa constrói trajetórias de carreira nas quais há aprendizagem contínua, tal como é o caso do ensino superior (Resende, 2019). No caso da Psicologia, a gama de possibilidades de atividades é diversificada, o que faz com que os interesses de psicólogas e psicólogos possam variar grandemente e isso começa a ser percebido ainda na Graduação. Dessa forma, os objetivos deste estudo foram cumpridos, uma vez que foi possível testar as relações entre as áreas de interesse na Psicologia e testar eventuais diferenças nos interesses em função de variáveis tais como sexo, idade, período e tipo de IES. A seguir, os resultados serão discutidos.
Um primeiro dado que chama a atenção é o fato de que, nesta amostra, a área do Trânsito foi a menos preferida e a Clínica, a mais preferida. Tais resultados corroboram evidências anteriormente relatadas na literatura, sobretudo em relação à área Clínica como a preferida dos estudantes (Vargas & Zampieri, 2014; Souza & Souza, 2012; Baptista et al., 2004), mas também quando se considera o Trânsito como a área menos preferida (Ambiel & Martins, 2016, 2019). Sobre a preferência pela Clínica, não é difícil constatar que se trata de uma área que marca a visão que a sociedade tem sobre a Psicologia, sendo facilmente identificada como retratando a atuação profissional e obtendo grande ênfase nas matrizes curriculares dos cursos de Psicologia. Por outro lado, ainda que a atitude de candidatos seja positiva frente à avaliação psicológica pericial para CNH (Ambiel et al., 2015), esta é uma área tradicionalmente ignorada quando do oferecimento tanto de disciplinas quanto, sobretudo, de estágios na Graduação em Psicologia no Brasil (Cury & Ferreira Neto, 2014; Silva et al., 2013).
O segundo resultado desta pesquisa diz respeito à correlação entre os interesses pelas diferentes áreas. Nota-se que, em geral, as correlações entre os interesses mostraram-se coerentes do ponto de vista da semelhança das atividades ou contextos em que são realizadas. Por exemplo, as áreas Clínica, Avaliação Psicológica e Neuropsicologia se correlacionaram de forma moderada e forte, sendo possível identificar que o manuseio de instrumentos e a aplicação de certo tipo de raciocínio de modo a levantar e testar hipóteses a partir dos sintomas ou relatos de clientes e pacientes são atividades que unem tais áreas. Além disso, tal como observado por Baptista et al. (2004), essas áreas também podem ser relacionadas de modo geral à área da Saúde, sendo que os interesses por Clínica, Saúde e Neuropsicologia também se correlacionaram.
Por outro lado, chamam a atenção as correlações verificadas com os interesses pela área do Trânsito, marcadamente com as áreas do Esporte, Organizacional, Jurídica e Neuropsicologia, todas positivas e variando entre moderadas e fortes. Ora, pela natureza das atividades próprias de cada área, nota-se uma certa dispersão ou até mesmo uma aleatoriedade nas correlações. Por exemplo, a atuação em Psicologia do Trânsito se dá, sobretudo, em termos da avaliação psicológica pericial. Nesta amostra, nota-se que, embora tenha sido significativa, a correlação entre tais áreas ficou abaixo de 0,30, indicando apenas 9% da variância compartilhada entre elas. Tal fato denota, provavelmente, desconhecimento sobre a área, o que está relacionado, por sua vez, à falta de conteúdos teóricos e práticos sobre Psicologia do Trânsito nas Graduações em Psicologia. Tal como notado por Lent et al. (1994), a formação dos interesses se dá a partir de recursos e informações disponíveis no contexto e, portanto, a ausência de conteúdos intencionais sobre determinado assunto pode prejudicar o desenvolvimento dos interesses por tal assunto.
Por fim, o último conjunto de resultados deste artigo buscou avaliar os efeitos de variáveis independentes sobre os itens e as dimensões do instrumento. A análise utilizada, MIMIC, permite observar se certos conteúdos dos itens ou das dimensões aumentam a probabilidade de uma maior aderência por parte de algum dos grupos. Ou seja, não se trata apenas de uma diferença de efeito nas médias, mas de identificar que pertencer a um outro grupo causa a maior ou menor aderência a um dado conteúdo. A primeira variável considerada foi o sexo, sendo quatro itens mostraram-se mais favoráveis aos homens e três, às mulheres. Dentre os itens tipicamente masculinos, dois eram pertencentes à Avaliação Psicológica, um à Docência e Pesquisa e, o último, à Educacional. Já entre os itens tipicamente femininos, dois eram da área Educacional e o outro, de Social. Ao se considerar as dimensões de forma geral, os homens aderiram mais à Docência e Pesquisa e as mulheres, à Saúde.
Embora os resultados relacionados a esses fatores encontrem respaldo na pesquisa de Ambiel e Martins (2019), que acharam resultados semelhantes, ainda que usando outro método de análise, quando se olha para o conteúdo dos itens de fato não há nada de específico que possa caracterizar as maiores preferências por uns ou outros. Além disso, qualquer exploração neste sentido corre o risco de ser sexista, sobretudo por ser este um artigo escrito por três pesquisadores homens inseridos em uma profissão tipicamente feminina, haja vista a porcentagem superior a 70% de amostra feminina nos estudos citados. Desta forma, sugere-se que tais achados sejam mais explorados em outras pesquisas, com amostras mais representativas e com pesquisadoras compondo a equipe de autoria.
Em relação à idade e ao período cursado, notaram-se coeficientes significativos, mas muito fracos, em geral abaixo de 0,20. Única exceção foi o item “Planejar, avaliar e executar políticas públicas e programas comunitários”, com coeficiente de -0,21 em relação à idade, mostrando que quanto mais jovens os participantes, maior a concordância com esse item. O mesmo se observou em relação à natureza jurídica das instituições de ensino superior em relação a um item que versava sobre desenvolvimento de jogos para intervenção neuropsicológica, que foi privilegiado na amostra de estudantes de universidades públicas. Novamente, embora haja a evidência de diferença, no conteúdo dos itens não há nada que permita relacionar diretamente a um grupo ou outro em qualquer das variáveis. Dessa forma, pode-se hipotetizar que tais diferenças (pequenas) são mais vieses da amostra em questão do que algo a ser considerado como viés do instrumento.
Considerações Finais
Este artigo, tal como previsto nos objetivos, permitiu avaliar as relações entre interesses por áreas da Psicologia, bem como verificar as diferenças em relação a diversos grupos. Isso é importante tanto para pesquisadores quanto para práticos sobre o tema, uma vez que ajuda a refinar a interpretabilidade do instrumento em diferentes situações. Uma contribuição importante deste artigo foram as comparações entre instituições diferentes e estudantes cursando vários semestres ao longo do curso. Em ambos os casos, com amostras bem distribuídas, ainda que reduzidas após a estratificação, os resultados tenderam a mostrar que, ainda que haja diferenças, elas são pequenas e o conteúdo dos itens não permitem aproximações conceituais com a natureza das variáveis testadas. De qualquer modo, esse tipo de comparação permite conhecer melhor o desempenho do instrumento, sobretudo quanto aos períodos do curso, uma vez que a aprendizagem acumulada ao longo da formação implica em conhecer novas áreas e, provavelmente, no desenvolvimento de novos interesses.
Contudo, o fato deste estudo ter sido desenhado de forma transversal impede que se faça maiores afirmações nesse sentido. Outra limitação que pode ter enviesado os resultados é que apenas uma instituição de cada tipo foi avaliada. Dessa forma, as diferenças notadas podem ter se dado por características próprias da amostra em questão, por exemplo, relacionadas ao currículo, política pedagógica ou influência de um conjunto de professores em relação a certos conteúdos e não necessariamente serem um viés do instrumento de avaliação. Portanto, em estudos futuros, pesquisas longitudinais e com amostras diversas e representativas devem ser conduzidas a fim de que se possa conhecer melhor os impactos da aprendizagem nos interesses por áreas da Psicologia.
Do ponto de vista prático, a EIAPsi, em suas diferentes versões, acumula uma quantidade razoável de evidências favoráveis ao seu funcionamento e interpretabilidade. Dessa forma, pode ser um instrumento útil para serviços de carreira, aplicado pelos professores ou mesmo pelos próprios estudantes de cursos de Psicologia quando houver dúvidas sobre a escolha por áreas de estágio ou mesmo para exploração da área com estudantes ingressantes.













