Frente às teorias sobre o desenvolvimento de carreira, a proposta de Savickas et al. (2009) com o Modelo Life Design (MLD) se destaca para pensar a realidade do século XXI. O modelo propõe quatro conceitos centrais: adaptabilidade, narrabilidade, atividade e intencionalidade, sendo que os dois primeiros têm recebido mais atenção pela comunidade científica. O primeiro, por estar presente em grande parte dos estudos que usam como base este modelo, como visto na revisão de Johnston (2018), e o segundo, por tratar dos aspectos narrativos identitários, que exercem um papel central em várias propostas de intervenção baseadas no MLD (Hartung & Santilli, 2018; Le Grange & Maree, 2022; Maree, 2018, 2019; Pordelan et al., 2021; Savickas, 2015). Apesar da importância da narrabilidade, esse fenômeno possui somente um instrumento disponível no contexto brasileiro, a Escala da Narrabilidade (ENa), sendo o estudo de construção e a validade de conteúdo apresentado em Koltermann e Nunes (2023a). Adicionalmente, considerando as pesquisas feitas no Brasil e em outros países, foram localizadas principalmente pesquisas com delineamentos qualitativos sobre o construto, não sendo localizadas outras ferramentas avaliativas para a mensuração da narrabilidade (Koltermann & Nunes, 2023b). Assim, em continuidade ao estudo de Koltermann e Nunes (2023a), a presente pesquisa buscou evidências de validade da ENa, com base na estrutura interna e na relação com outras variáveis teoricamente relacionadas com o construto.
O MLD trata da orientação profissional e de carreira (OPC) com um olhar sobre o contexto de vida, as escolhas pessoais e as narrativas das experiências vividas, de forma a desenvolver uma percepção de si, do mundo e de um caminho futuro. Neste contexto, narrabilidade pode ser definida como a capacidade de identificar, articular e comunicar os eventos marcantes da carreira ou da história pessoal, de forma a apresentar continuidade e coesão e possibilitar a composição de uma narrativa autobiográfica com sentido para o futuro (Di Fabio et al., 2019; Hartung & Santilli, 2018; Koltermann & Nunes, 2023b; Maree, 2019; Savickas et al., 2009). Também, pode ser descrita como a capacidade de construir continuidade e coerência entre as experiências pessoais e, assim, permitir a formulação de uma identidade subjetiva (Savickas et al., 2009). Apesar de ser um construto importante para o MLD, sua conceituação ainda precisa ser mais detalhada, e, dada a escassez de escalas para avaliar o construto, ainda está sendo investigado se a narrabilidade é um construto uni ou multidimensional (Koltermann & Nunes, 2023b).
Diante da carência de métodos investigativos para abordar o fenômeno da narrabilidade (Koltermann & Nunes, 2023b), alguns autores recorreram a instrumentos oriundos de outras bases teóricas para a realização dos estudos dos processos narrativos do MLD. A título de exemplo, observa-se o uso do Sistema de Codificação dos Momentos Inovadores (Innovative Moments Coding System; Gonçalves, et al., 2009), que foi utilizado por Cardoso et al., (2019) e por da Silva et al. (2020) para avaliar os processos narrativos em intervenções do MLD. O uso deste método é limitado por se tratar de um sistema de codificação complexo, que demanda treinamento especializado para realizar a codificação, além de que ele não foi delineado especificamente para avaliar narrabilidade, mas sim momentos inovadores que ocorrem durante as intervenções de carreira.
Dentre os instrumentos de avaliação disponíveis para avaliar construtos abordados pelo MLD, destaca-se o Career Adapt-Abilities Scale (CAAS). Esta escala foi desenvolvida e validada em colaboração com pesquisadores de 13 países, e busca acessar os recursos da adaptabilidade (Savickas & Porfeli, 2012; Johnston, 2018). A adaptabilidade pode ser definida como “a prontidão para lidar com as tarefas previsíveis de preparação e participação na função de trabalho e com os ajustes imprevisíveis causados por mudanças no trabalho e nas condições de trabalho” (Tradução dos autores; Savickas, 1997, p. 254), e é dividida em quatro dimensões: (a) Preocupação, a qual envolve a capacidade de planejamento e antecipação de situações; (b) Controle, que aborda a capacidade de agir e ser independente; (c) Curiosidade, que se refere à capacidade de exploração; e (d) Confiança, que abrange a percepção de capacidade para implementação das escolhas de carreira (Savickas, 2005). Ao considerar a conceituação do fenômeno, espera-se uma relação significativa e positiva do mesmo com narrabilidade, uma vez que se pressupõe a complementaridade dos construtos, em que pode haver uma relação entre as competências adaptativas e a capacidade de elaborar e narrar as experiências. Isso é, o primeiro trata dos processos de mudança, enquanto o segundo trata dos processos de continuidade e de identidade. Em ambos os casos, a reflexão sobre a experiência exerce um papel importante, seja na percepção do ambiente a se adaptar (adaptação) ou na percepção de si mesmo, que é um aspecto da narrabilidade (Savickas et al., 2009).
Em acréscimo, é possível esperar uma relação significativa da narrabilidade com os cinco fatores da personalidade (CGF) (Widiger & Costa, 2013). O CGF é atualmente reconhecido um dos principais referenciais dentre os modelos de avaliação da personalidade, e envolve os fatores: Abertura, Conscienciosidade, Extroversão, Socialização (também chamado Amabilidade) e Neuroticismo (Widiger & Costa, 2013). Características disposicionais positivas acessadas pelos CGF (Widiger & Costa, 2013) podem indicar um perfil mais disponível aos processos de reflexão que estão presentes na percepção de si mesmo (narrabilidade) e na preocupação com o próprio contexto (adaptabilidade) (Savickas, 2016). Desse modo, espera-se relações significativas entre os traços de personalidade e a narrabilidade. A relação mais forte esperada (e negativa) é com o fator neuroticismo, uma vez que os vieses cognitivos que ocorrem em pessoas com nível alto nesse traço podem gerar uma dificuldade de percepção da própria identidade e de avaliar os eventos de vida e experiências de uma forma adequada. Mais detalhadamente, escores altos em Neuroticismo podem gerar vieses nos padrões de atenção, interpretação e recordação de informações (Eysenck, 2000; Matthews, 2004; Ormel et al, 2013) o que pode levar a baixos níveis de narrabilidade. Quanto aos demais fatores, espera-se relações significativas e positivas, de baixa magnitude.
O objetivo deste estudo é buscar evidências de validade baseadas na estrutura interna da ENa, avaliar sua precisão, e investigar evidências de validade baseadas nas relações com variáveis externas, a saber, adaptabilidade e traços de personalidade. Espera-se uma relação significativa e positiva entre narrabilidade e Extroversão e Abertura (no primeiro caso, por permitir interações sociais, que estimulam contar sua história e, no segundo caso, em função da flexibilidade necessária para refletir sobre os eventos de vida e carreira), e negativa com Neuroticismo (uma vez que níveis elevados podem trazer interpretações distorcidas das situações vividas, de si mesmo, e dificultar o desenvolvimento da narrabilidade). Também se espera uma relação significativa e positiva entre os fatores de adaptabilidade e a narrabilidade. Por fim, a título exploratório, foi investigada a relação entre narrabilidade e nível educacional e sexo.
Método
Participantes
Participaram da pesquisa 359 adultos, dos quais 124 indicaram ser homens, 232 indicaram ser mulheres e três não se identificaram. A idade dos participantes variou entre 18 e 59 anos (M=33,61; DP=0,65), sendo que 50% tinham entre os 18 e 29 anos. Quanto à região, 1,1% eram do Norte, 2,2% eram do Nordeste, 23,8% eram do Centro-oeste, 20,2% eram do Sudeste e 52,6% eram do Sul do Brasil. Como critério de inclusão, o participante tinha que ter entre 18 e 59 anos, pois é nesta idade que está a maior parte do contingente ocupado profissionalmente do país, dado o censo mais recente do IBGE (2017) à época da realização da pesquisa, e é o público-alvo do instrumento. Observou-se um nível educacional elevado, com 1,1% ensino fundamental completo, 36,8% com ensino médio completo, 24,2% ensino superior completo, 20% pós-graduação latu sensu completa, e 17,3% com mestrado ou doutorado completo e 2 participantes não informaram sua escolaridade.
Instrumentos de coleta de dados
Questionário sociodemográfico (QSD): Foi desenvolvido para este estudo para acessar as características da amostra, e incluiu perguntas como: sexo, idade, estado do país em que o participante reside, experiência em psicoterapia, estado civil etc.
Marcadores Reduzidos da Personalidade (MRP): Esse instrumento avalia os traços de personalidade com base no CGF e possui evidências de validade com base na sua estrutura interna (Hauck et al., 2012). É composto por 25 itens, com respostas registradas em uma escala tipo Likert de cinco pontos, indicando a concordância (de 1 a 5, de discordo totalmente a concordo totalmente) quanto a adjetivos que descrevem a personalidade (exemplos: “Amável”, “Deprimida”). Cada dimensão do CGF é mensurada por cinco itens e, na análise fatorial descrita pelos autores, explicam 53,92% da variância total. Os Alfas de Cronbach encontrados são: 0,83 para extroversão; 0,79 para socialização; 0,79 para conscienciosidade; 0,69 para neuroticismo; 0,61 para abertura. Machado et al. (2014) avaliaram o instrumento a partir de métodos analíticos da Teoria de Resposta ao Item, tendo encontrado resultados favoráveis quanto à dimensionalidade e quanto às estimativas de fidedignidade para a dificuldade dos itens e no nível do traço latente das pessoas.
Escala da Narrabilidade (ENa): O instrumento foi desenvolvido por Koltermann e Nunes (2023a). Seus 36 itens foram desenvolvidos com a base teórica do MLD (Savickas et al., 2009), e por meio de entrevistas com profissionais que atuam na área de OPC no Brasil. Após o desenvolvimento, os itens foram avaliados por meio de uma análise semântica, com uma amostra da população alvo, e pela análise de juízes com pesquisadores da área. Este processo gerou evidências iniciais de validade de conteúdo da escala (Koltermann & Nunes, 2023a). O instrumento conta com uma escala tipo Likert de cinco pontos que avalia o quanto a pessoa se identifica com cada afirmação (de 1 a 5, de discordo totalmente a concordo totalmente). A redação dos itens poderá ser consultada na seção de resultados deste artigo. A escala avalia o nível da narrabilidade, isso é, a capacidade da pessoa de retomar memórias significativas, realizar conexões entre experiências pessoais e construir uma narrativa coerente acerca de si mesmo e da própria trajetória de vida e profissional. O presente estudo visa avançar na busca por evidências de validade iniciada no estudo de Koltermann e Nunes (2023a).
Escala de Adaptabilidade de Carreira (EAC): A EAC é a versão adaptada e com evidências de validade para o uso no Brasil do Career Adapt-Abilities Scale - CAAS e avalia os recursos e a prontidão para lidar com sucesso com tarefas de carreira, sendo medida por meio de quatro fatores, quais sejam, Preocupação, Controle, Curiosidade e Confiança, já descritos na introdução do artigo. A medida apresenta evidências de validade no Brasil (Audibert & Teixeira, 2015; Teixeira et al., 2012) e é respondida por meio de em escala Likert de cinco pontos, com respostas variando de 1 “Desenvolvi pouco ou nada” até 5 “Desenvolvi extremamente bem”. Exemplos de item são “Preparar-me para o futuro” e “Aprender novas habilidades”. Na análise dos componentes principais descrita observou-se que os quatro fatores explicaram 67,2% da variância total. No estudo Audibert e Teixeira (2015), os alfas de Cronbach obtidos foram: 0,88 para Preocupação, 0,83 para Controle, 0,88 para Curiosidade, 0,89 para Confiança e 0,94 para a adaptabilidade total. A dimensionalidade foi avaliada por uso da Análise Fatorial Confirmatória, sendo que os resultados deram suporte aceitável ao modelo adotado. Também foi verificada a viabilidade do uso da escala considerando dois formatos: online ou presencial, tendo apresentado indicadores favoráveis de invariância quanto ao formato de aplicação.
Procedimentos de coleta de dados
Os procedimentos adotados foram planejados e realizados de acordo com a Resolução de número 510 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). O projeto foi aprovado pelo comitê de ética de uma universidade. Para participar da pesquisa, os participantes leram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e aceitaram participar da pesquisa.
O estudo foi divulgado por meio da rede de contato do laboratório de pesquisa. Os instrumentos foram acessados via plataforma SurveyMonkey - onde foi feita a apresentação do TCLE e a aplicação dos instrumentos, iniciando pelo QSD, seguido da ENa, do EAC e, por fim, do MRP, levando cerca de 14 minutos para responder a todos os instrumentos.
Procedimentos de análise de dados
Os dados foram analisados no pacote estatístico STATA - versão 14.1 (StataCorp, 2019). Como o projeto envolveu a busca por evidências de validade baseada na estrutura interna de um novo instrumento para avaliar um fenômeno cuja estrutura fatorial tem sido discutida na literatura, optamos pela realização de análises fatoriais exploratórias (AFE) (Brown, 2006; Hair et al., 2009). Inicialmente, foram identificados e resolvidos os outliers multivariados. A viabilidade da realização da análise fatorial foi verificada pelo índice de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO), o qual é considerado “admirável” a partir de um valor de 0,80 e o teste de esfericidade de Bartlet, o que deve ser significativo (Hair et al., 2009). A pesquisa contou com 359 participantes e 36 itens do instrumento criado, sendo a proporção encontrada de cerca de dez participantes por item da ENa. O tamanho da amostra foi considerado adequado, de acordo com as recomendações de Hair et al., (2009) sobre o número de participantes para a realização da análise fatorial.
As AFE foram realizadas a partir da matriz de correlação policórica, mais indicada para o formato de resposta adotado (Holgado-Tello et al., 2010). A decisão sobre os fatores a serem extraídos considerou os seguintes critérios: inspeção do scree plot, a realização de análises paralelas e, por fim, a comparação do conteúdo dos itens agrupados nos fatores encontrados frente à fundamentação teórica. O uso combinado das técnicas foi feito para viabilizar a extração de fatores justificados psicometricamente (priorizando os resultados das análises paralelas), mas também substanciais, justificados teoricamente. As análises foram realizadas utilizando a rotação oblíqua promax. A adoção de uma rotação oblíqua foi feita pois o pressuposto de independência entre os fatores é retirado (Hair et al., 2009), buscando assim fatores possivelmente correlacionados. Na solução final, só foram mantidos os itens com carga fatorial maior que 0,35 em um único fator (Valentini & Laros, 2012). Avaliou-se o Alfa de Cronbach como indicador da consistência interna de cada dimensão da ENa e também dos fatores do MRP e do EAC. Após a análise da estrutura interna, foram realizadas as análises descritivas (média e desvio padrão) dos instrumentos e avaliadas as correlações entre a ENa e o MRP, e entre a ENa e o EAC por meio do coeficiente de correlação de Pearson. Por ser a ENa um novo instrumento para mensuração de narrabilidade, consideramos relevante mapear as relações entre seus resultados e algumas variáveis sociodemográficas. Para tanto, foram realizadas análises inferenciais (teste t de Student e ANOVA) para verificar diferenças de média relacionadas ao sexo e grau de escolaridade.
Resultados
As verificações iniciais para a realização das Análises Fatoriais Exploratórias resultaram em um índice Kaiser-Meyer-Olkin de 0,91 e o teste de esfericidade de Bartlett apresentou p<0,001, sendo considerados adequados para a realização da AFE (Hair et al., 2009). Inicialmente, foi encontrada a possibilidade de extração de até quatro fatores com eigenvalues maiores que um, o que foi corroborado com as análises paralelas (utilizando 1000 amostras simuladas). Foram comparadas as estruturas de um a quatro fatores. Por meio da análise teórico-semântica dos itens nos fatores extraídos, verificou-se uma baixa compreensividade nas soluções de dois, três e quatro fatores, considerando o referencial teórico adotado. Apesar de as análises paralelas sugerirem a possibilidade de estruturas com até quatro fatores, verificou-se que o primeiro fator explicou grande parte da variância, seguida de fatores muito específicos, compostos por pequenos agrupamentos de itens. Considerando-se ainda que não há um referencial teórico consistente para fundamentar mais de uma dimensão no construto, optou-se por uma solução unifatorial, a qual apresentou eigenvalue de 10,04. Observa-se na Tabela 1 os itens e suas cargas fatoriais na solução fatorial selecionada (com um único fator).
Tabela 1 Cargas Fatoriais e Comunalidades dos Itens da Escala de Narrabilidade
| Itens | Carga Fatorial | Uniqueness (H2) |
|---|---|---|
| Percebo o que faz sentido para mim profissionalmente. | 0,77 | 0,41 |
| Eu tenho confiança nas minhas escolhas profissionais. | 0,72 | 0,48 |
| Eu sei o que é prioridade na minha carreira. | 0,68 | 0,53 |
| Consigo ver as minhas opções de trabalho atuais. | 0,68 | 0,54 |
| Os meus planos atuais fazem sentido pra mim. | 0,65 | 0,57 |
| Eu percebo as possibilidades da minha realidade profissional atual. | 0,63 | 0,60 |
| Vejo conexões entre as minhas experiências profissionais. | 0,63 | 0,60 |
| Eu sei quais são as principais mudanças que eu passei na minha vida. | 0,59 | 0,65 |
| Eu sei falar dos meus pontos fortes e fracos. | 0,59 | 0,65 |
| Eu sei citar algumas experiências que me fizeram mudar. | 0,57 | 0,67 |
| Percebo os resultados das minhas decisões. | 0,55 | 0,69 |
| Identifico o que eu gosto e o que eu não gosto de fazer. | 0,55 | 0,70 |
| Consigo identificar quais são as principais dificuldades que eu enfrento hoje | 0,51 | 0,73 |
| Eu sei citar algumas experiências que foram importantes para mim. | 0,49 | 0,76 |
| Costumo conversar com outra pessoa sobre as minhas experiências no trabalho. | 0,48 | 0,77 |
| Conto sobre as minhas experiências marcantes para outra pessoa. | 0,48 | 0,77 |
| Invisto em me conhecer melhor. | 0,47 | 0,78 |
| Eu penso na minha história quando eu tomo decisões profissionais. | 0,39 | 0,84 |
| Eu costumo pensar sobre como eu mudei com o tempo. | 0,39 | 0,85 |
| Dificilmente eu falo com alguém sobre a minha vida. | -0,39 | 0,85 |
| Reflito pouco sobre as minhas experiências de trabalho. | -0,41 | 0,83 |
| Eu acho difícil entender a minha história. | -0,42 | 0,82 |
| Raramente eu paro para pensar em mim. | -0,42 | 0,82 |
| Falo pouco sobre as minhas experiências de trabalho. | -0,44 | 0,81 |
| Mudo muitas vezes de objetivo. | -0,46 | 0,79 |
| Acho difícil conectar o meu passado com a minha realidade profissional atual. | -0,47 | 0,78 |
| Evito refletir sobre as experiências anteriores de trabalho. | -0,50 | 0,75 |
| Acho difícil pensar em mim. | -0,53 | 0,72 |
| Eu tenho dificuldade de tomar decisões profissionais. | -0,55 | 0,69 |
| Eu me entendo pouco. | -0,60 | 0,63 |
| Acho difícil perceber o que eu gosto de fazer. | -0,70 | 0,51 |
| Tenho dificuldades para refletir sobre a minha vida profissional. | -0,71 | 0,49 |
Foram mantidos 32 itens dos 36 originais. A escala apresentou Alpha de Cronbach de 0,93, que é uma consistência interna considerada adequada (Hair et al., 2009; Reppold et al., 2014). Os itens da escala tratam do quanto a pessoa percebe, vê, compreende, cita, identifica, sabe, reflete e conecta diferentes conhecimentos sobre si mesmo com certa organização. Estes aspectos tratam da capacidade da pessoa de acumular e articular informações acerca de si mesma no contexto de carreira. Na Tabela 1, os itens com carga fatorial negativa são aqueles que devem ter a pontuação invertida na escala, para cálculo do escore dos participantes, uma vez que um maior endosso neles indica baixa narrabilidade.
Por meio das análises de correlação, foram encontrados resultados estatisticamente significativos (p<0,001) entre a narrabilidade (ENa) e o os fatores da personalidade (MRP), assim como com os componentes da adaptabilidade (EAC). A única dimensão que apresentou correlação negativa foi Neuroticismo (MRP). Tais resultados podem ser verificados na Tabela 2.
Tabela 2 Estatística Descritiva e Correlações entre Narrabilidade, Personalidade e Adaptabilidade
| Variáveis | ENa - narrabilidade | M | DP |
|---|---|---|---|
| (1) ENa - narrabilidade | 1,00 | 3,90 | 0,63 |
| (2) EAC - preocupação | 0,62 | 3,79 | 0,83 |
| (3) EAC - controle | 0,66 | 3,92 | 0,79 |
| (4) EAC - curiosidade | 0,56 | 3,71 | 0,85 |
| (5) EAC - confiança | 0,42 | 4,04 | 0,74 |
| (6) MRP - neuroticismo | -0,53 | 2,77 | 0,93 |
| (7) MRP - socialização | 0,38 | 4,01 | 0,73 |
| (8) MRP - abertura | 0,29 | 3,22 | 0,84 |
| (9) MRP - extroversão | 0,37 | 3,29 | 1,01 |
| (10)MRP - conscienciosidade | 0,35 | 4,02 | 0,73 |
Observou-se correlações entre 0,42 e 0,66 entre narrabilidade e adaptabilidade, sugerindo a aproximação entre os fenômenos, e entre -0,53 e 0,38 considerando narrabilidade e fatores de personalidade. Verificou-se uma média elevada no escore de narrabilidade e de adaptabilidade (próximos ao ponto máximo da escala), sugerindo uma percepção favorável quanto a esses aspectos de carreira.
Na verificação das relações entre o escore da ENa e os grupos sociodemográficos (sexo e escolaridade) observou-se pequeno tamanho de efeito. Não houve diferença significativa nos escores da ENa na comparação dos escores de homens e mulheres. Observaram-se diferenças significativas [F(3, 349)=9,29 p<0,0001], com pequeno tamanho de efeito (d=0,12) entre os resultados da ENa de diferentes níveis de escolaridade. Foram realizados testes post hoc com correção Bonferroni para verificar quais grupos apresentavam diferenças estatisticamente significativas entre si, o que indicou que os grupos de participantes que relataram escolaridade até ensino superior apresentavam diferenças significativas ao serem comparados com os grupos com escolaridade a partir de pós-graduação (latto sensu, mestrado ou doutorado completos), em que os últimos apresentaram médias mais elevadas que os participantes com escolaridade até ensino superior.
Discussão
Essa pesquisa teve como objetivo investigar evidências de validade da ENa por meio da análise da sua estrutura interna e da relação com variáveis externas (Reppold et al., 2014), sendo os resultados favoráveis para esses dois propósitos. Com a análise fatorial, a solução unifatorial foi considerada adequada e apresentou um Alpha de Cronbach de 0,93, o que evidencia uma boa confiabilidade para o instrumento (Hair et al., 2009). Indica-se ainda que a elevada carga fatorial de grande parte dos itens e a elevada consistência interna verificada são elementos que dão suporte à viabilidade da manutenção da solução unifatorial.
A ENa pode ser compreendida como uma medida para avaliar a narrabilidade, composta por 32 itens. Os itens tratam de como a pessoa consegue se perceber, conectar eventos de vida e de carreira com coerência e coesão, de forma a conseguir assumir uma narrativa de si e dialogar com outras pessoas sobre estas experiências (Savickas, 2016; Savickas et al., 2009). Assim, evidencia-se o olhar sobre a história pessoal e de carreira, a reflexão e a agência pessoal, em que a pessoa precisa engajar estas percepções em um processo dialógico para a construção narrativa (Savickas, 2015, 2016; Savickas et al., 2009). Apesar da solução unifatorial ter sido escolhida, as análises indicaram a viabilidade estatística de até quatro dimensões, porém elas não foram adotadas por não apresentarem sentido teórico consistente com a conceituação de narrabilidade (Di Fabio et al., 2019; Hartung & Santilli, 2018; Koltermann & Nunes, 2023b; Maree, 2019; Savickas et al., 2009), de forma a dificultar a descrição e conceituação de facetas. Sobretudo, os resultados evidenciam a complexidade do fenômeno narrativo, com itens com conteúdo variado sendo adequadamente incorporados em um único fator.
Foram avaliadas as relações entre a narrabilidade, a adaptabilidade e os fatores da personalidade. Foi hipotetizada uma relação significativa e positiva entre a adaptabilidade e a narrabilidade por conta de sua complementaridade indicada na teoria (Savickas et al., 2009) e na prática da área (Koltermann & Nunes, 2023b). Esperava-se uma relação significativa e positiva da narrabilidade com os fatores da personalidade, menos com neuroticismo (com o qual esperou-se uma relação negativa). Os resultados corroboraram com as hipóteses, uma vez que houve relações significativas entre todas as dimensões dos três construtos, o que indica evidências iniciais de validade da ENa por meio da relação com outras variáveis relacionadas (Reppold et al., 2014). Escores mais elevados em adaptabilidade (com um olhar mais atento sobre o próprio contexto/ambiente) e personalidade (com características disposicionais mais positivas) estiveram relacionados com uma maior capacidade de atenção e reflexão sobre si mesmo (narrabilidade). A maior correlação da ENa com fatores de adaptabilidade ocorreu com o fator controle (r=0,66), sugerindo que pessoas que se sentem responsáveis por construir a própria carreira, e possuem uma postura ativa nas escolhas profissionais apresentam maior capacidade de avaliar suas experiências de vida e de carreira, conectá-las e dar sentido às mesmas. Por sua vez, a alta correlação com neuroticismo (r=-0,53) sugere que pessoas com alto neuroticismo, que tendem a apresentar mais vieses cognitivos e alta reatividade emocional aos eventos de vida têm mais dificuldade de narrar sua trajetória de carreira e incorporar as experiências em sua identidade de carreira. Assim, o instrumento apresentou evidências favoráveis de validade por meio da relação com variáveis externas teoricamente relacionadas (Hair et al., 2009; Reppold et al., 2014).
Foram investigadas, a título exploratório, a relação entre escolaridade e sexo com narrabilidade. Observaram-se diferenças significativas entre a narrabilidade e o nível educacional, e esses resultados podem ser interpretados no sentido que o acúmulo de experiências educacionais e profissionais colaboram com a capacidade de construção de narrativas coesas e coerentes (Savickas et al. 2009; Savickas 2015; Savickas, 2016). Contudo, as diferenças entre grupos tiveram um tamanho de efeito pequeno (Bakker et al., 2019) e deverão ser melhor investigadas em outros estudos. Não houve diferença significativa de média quanto ao sexo, de modo semelhante ao que ocorreu em estudo que investigou diferenças de adaptabilidade entre homens e mulheres (Zacher, 2014). A ausência de diferenças significativas entre homens e mulheres em narrabilidade sugere que ambos apresentaram uma capacidade semelhante de narrar suas experiências de carreira e de vida. Pode-se gerar como hipótese que o desenvolvimento de habilidades através da educação, além da ampliação da discussão sobre a flexibilidade de gênero possa colaborar com a existência de um nível semelhante de narrabilidade de carreira em homens e mulheres. Essa hipótese poderá ser abordada em estudos futuros.
Considerações finais
Este estudo apresentou evidências iniciais de validade para a ENa. Além disso, explorou a relação entre a narrabilidade, adaptabilidade, fatores de personalidade e variáveis sociodemográficas. Diante do objetivo de buscar evidenciais iniciais de validade para a ENa, foi hipotetizada a existência de uma estrutura interna adequada e relações significativas e positivas entre a Narrabilidade (ENa), os fatores da Adaptabilidade (EAC) e e os cinco grandes fatores da personalidade (MRP), com exceção do neuroticismo, com o qual esperou-se uma relação significativa e negativa.
Os resultados apresentados corresponderam com as hipóteses levantadas. Foi possível avaliar uma solução uinifatorial com uma consistência interna adequada, assim como correlações estatisticamente significativas e positivas entre ENa, MRP e o EAC, com correlações negativas presentes somente com Neuroticismo (MRP). As evidências iniciais de validade e precisão da ENa são indicativos favoráveis para a utilização da escala em pesquisas. Também, os resultados reiteram a correlação entre os processos adaptativos, narrativos e identitários na construção da trajetória profissional. Sobretudo, a ENa se destaca como um dos poucos instrumentos disponíveis para avaliar as intervenções de carreira com base narrativa. O instrumento apresentado por Koltermann e Nunes (2023a) está de acordo com o MLD e com a compreensão da literatura sobre o construto da Narrabilidade (Koltermann & Nunes, 2023b) e esse estudo avançou na compreensão sobre o fenômeno.
O estudo possui um caráter exploratório, ao investigar a narrabilidade por meio da ENa, visto que o construto ainda é pouco desenvolvido na área. Neste sentido, esse estudo avança no conhecimento sobre fenômenos avaliados no MLD e para pensar os processos narrativos na OPC. Sobretudo, por demonstrar a possibilidade de disponibilizar uma escala, como a ENa, para acessar o fenômeno narrativo, estimulando assim a realização de pesquisas que busquem incluir os aspectos narrativos.
Para estudos futuros, sugere-se ampliar a investigação das propriedades psicométricas do instrumento, assim como testá-lo com pessoas com outras características sociodemográficas (incluindo mais pessoas de outras regiões do país, por exemplo). Estudos futuros poderão investigar os fenômenos abordados nesta pesquisa por meio de outras estratégias metodológicas, como por via de observação direta durante uma intervenção de carreira, de modo a esmiuçar a diferenciação e a complementaridade entre adaptabilidade, narrabilidade e personalidade. Por fim, ainda que a solução unifatorial tenha se mostrado psicometricamente adequada, é esperado um maior aprofundamento teórico no modelo para avançar na confirmação da estrutura unifatorial.













