A sexualidade humana é objeto de estudo de diferentes áreas como a sociologia, antropologia, medicina, biologia, entre outras. Na psicologia, diversos estudos investigam diferentes aspectos da sexualidade, tais como atração e retenção de parceiros amorosos, qualidade e satisfação nos relacionamentos amorosos, patologias relacionadas à sexualidade etc. No que se refere à personalidade, em um pioneiro estudo, Schmitt e Buss (2000) buscaram identificar os componentes da sexualidade humana, fundamentando-se na perspectiva lexical (John et al., 1988). Schmitt e Buss elaboraram uma lista de adjetivos relacionados à sexualidade (e.g., carinhoso, atraente, fiel) e, por meio de análises fatoriais, descobriram sete dimensões da sexualidade: Atratividade Sexual, Orientação de Gênero, Disposição Erótica, Investimento Emocional, Exclusividade em Relacionamentos, Restrição Sexual e Orientação Sexual, conhecidas como Sexy-Seven (Schmitt & Buss, 2000).
Em um estudo realizado no Brasil, Natividade e Hutz (2016) também mapearam a sexualidade humana e encontraram os mesmos sete fatores de Schmitt e Buss (2000). Tanto Schmitt e Buss (2000), quanto Natividade e Hutz (2016) usaram apenas adjetivos como itens de seus instrumentos de sexualidade. Esses instrumentos com adjetivos (descritores de traços), apesar de comuns e úteis para acessar características de personalidade, apresentam limitações importantes. Por exemplo, um adjetivo isolado e descontextualizado pode gerar dúvidas de interpretação, uma vez que seu significado pode variar de acordo com o contexto ou a compreensão individual. Além disso, instrumentos construídos apenas com itens em formato de adjetivos dificilmente conseguem captar nuances do construto, como facetas subjacentes ou estruturas complexas de segunda ordem. Diante disso, neste estudo, tem-se o objetivo de elaborar um instrumento com itens contextualizados para aferir um dos sete fatores da sexy-seven, nomeadamente, a Exclusividade em Relacionamentos.
Exclusividade em Relacionamentos, Apego e Personalidade
A Exclusividade em Relacionamentos diz respeito a quanto uma pessoa está disposta a engajar-se em um relacionamento amoroso exclusivo, ou seja, a tendência a ser monogâmico e fiel. Altos níveis nesse fator indicam uma preferência por relacionamentos compromissados e monogâmicos e por se manter fiel ao(à) parceiro(a), enquanto baixos níveis indicam uma preferência por múltiplos relacionamentos descompromissados, podendo eles ocorrerem de forma simultânea, e dando pouca importância à fidelidade (Natividade & Hutz, 2016; Schmitt & Buss, 2000).
A predisposição a engajar-se em um relacionamento exclusivo está relacionada à estratégia sexual e reprodutiva (Buss & Schmitt, 1993). Por exemplo, quanto mais fiel e monogâmica uma pessoa for, mais ela vai buscar e manter um único relacionamento compromissado, caracterizando uma estratégia sexual de longo prazo. Por outro lado, aqueles que são menos monogâmicos e menos fiéis irão optar por se relacionar sem compromisso e com vários parceiros, caracterizando uma estratégia sexual de curto prazo (Buss & Schmitt, 1993). Ao longo da história evolutiva humana e diante da incerteza da paternidade e dos custos do investimento parental, para os homens as estratégias de curto-prazo apresentaram mais vantagens adaptativas, já para as mulheres as estratégias de longo-prazo foram mais vantajosas (Fisher, 2016; Schmitt, 2016). Diante disso, poderiam-se esperar também diferenças de gênero nos níveis de exclusividade em relacionamentos.
As variações nas estratégias reprodutivas podem decorrer de diversos fatores. Considerando-se os fatores ambientais, pode-se destacar a proporção homem/mulher; a quantidade de recursos disponíveis e o índice de patógenos (Schmitt, 2016). Entre os fatores individuais, podem-se destacar os traços de personalidade e outras características disposicionais, tais como apego adulto, orientação sociossexual e os cinco grandes fatores de personalidade (Natividade & Hutz, 2016; Natividade & Shiramizu, 2015; Schmitt, 2004; Schmitt & Buss, 2000; Shiramizu et al., 2013).
A evitação relacionada ao apego, por exemplo, está associada a uma maior disposição a engajar-se em relacionamentos não-monogâmicos consensuais (Moors et al., 2015) e a cometer um ato de infidelidade (Beaulieu-Pelletier et al., 2011) e baixa satisfação com o relacionamento amoroso (Londero-Santos et al., 2020). A ansiedade relacionada ao apego, por outro lado, mostrou-se negativamente correlacionada com atitude frente à relacionamentos não-monogâmicos consensuais, porém sem correlação com a disposição a engajar-se nesse tipo de relacionamento (Moors et al., 2015). De maneira geral, pessoas que apresentam o estilo de apego seguro tendem a ter relacionamentos mais duradouros e compromissados (Shiramizu et al., 2013). Consequentemente, poder-se-ia esperar correlação negativa entre exclusividade em relacionamentos e evitação relacionada ao apego.
No que diz respeito à orientação sociossexual (sociossexualidade), uma tendência a desejar, ser favorável e fazer sexo casual, sem a necessidade de relacionamento compromissado (Penke & Asendorpf, 2008), Morrison et al. (2013) verificaram que homens em relacionamentos poliamorosos apresentaram médias significativamente maiores em sociossexualidade (maior irrestrição) do que aqueles em relacionamentos monogâmicos. Indivíduos mais irrestritos sociossexualmente são mais propensos a buscarem relações extra-diádicas (e.g., Barta & Kiene, 2005; Mattingly et al., 2011). Esses resultados conduzem à hipótese de que haverá uma correlção negativa entre exclusividade em relacionamentos e orientação sociossexual.
Além dos estilos de apego e da sociossexualidade, os cinco grandes fatores de personalidade também podem apresentar relações com a exclusividade em relacionamentos. Os fatores Conscienciosidade/Realização (tendência ao autocontrole na realização de tarefas que conduzem a um objetivo, a ser disciplinado e organizado, Natividade & Hutz, 2015) e Agradabilidade/Socialização (tendência a ser empático e altruísta, Natividade & Hutz, 2015), por exemplo, correlacionam-se negativamente com a infidelidade (Schmitt, 2004). Esses mesmos fatores também apresentam associações negativas com a atitude, desejo e disposição a engajar-se em um relacionamento não-monogâmico (Moors et al., 2017; Sizemore & Olmsteade, 2018).
No Brasil, Natividade e Hutz (2016) observaram que quanto maiores os níveis de Exclusividade em Relacionamentos, menores níveis de Neuroticismo (tendência à instabilidade emocional), Extroversão (tendência a ser ativo e comunicativo) e Abertura a novas experiências (tendência a experimentar coisas novas) e maiores níveis de Realização (tendência ao autocontrole, disciplina e organização). Nesse mesmo estudo, foram encontradas correlações entre a Exclusividade em Relacionamentos e outras dimensões da sexualidade (Sexy-Seven). Exclusividade em Relacionamento se correlacionou positivamente com Investimento Emocional (disposição a investir em um relacionamento) e negativamente com Disposição Erótica (o quanto uma pessoa está disposta a ter relações sexuais), por exemplo. Os resultados fortalecem a ideia de que, quanto maior a disposição para engajar-se em um relacionamento exclusivo, maior a disposição a investir – tempo, recursos, dedicação etc. – em um relacionamento e menor a disposição para ter relações sexuais.
Método
Participantes
Participaram 795 brasileiros, sendo 64,7% mulheres e 35,3% homens. A idade variou entre 18 e 69 anos (M=28,2 anos, DP=9,35). A maior parte dos participantes, 58,4%, vivia na região Sul do país; 22,5%, na região Sudeste; 7,7%, na região Nordeste; 5,4%, na região Centro-Oeste; 4,5%, na região Norte; e 1,5% estava morando fora do Brasil. Quanto à escolaridade, 5,8% tinham até o ensino médio completo, 45,4% tinham ensino superior incompleto, e 48,8% tinham o ensino superior completo. Em relação a situação financeira, 3,4% da amostra considerou ter uma situação financeira pior ou muito pior do que a média da população brasileira, 44,5% consideraram ter uma situação financeira similar a média nacional e 51,8% considerou ter uma situação financeira melhor ou muito melhor do que a média nacional.
Quanto ao status do relacionamento amoroso, 69,7% dos participantes declararam estar em um relacionamento amoroso, sendo que 44,9% estavam em um namoro, 24,6% em um casamento, 10% em uma união estável, 5,1% em um noivado e 15,4% estavam em relacionamentos menos compromissados (e.g., ficando, amizade colorida, em um rolo, casos sexuais). Em relação a orientação sexual, 80,1% se consideravam heterossexuais, 7,0% gays/lésbicas, 5,7% bissexuais, e 1,5% não soube ou não quis informar.
Instrumentos
Questionário para especialistas. Um questionário on-line com questões sociodemográficas, a definição operacional do construto Exclusividade em Relacionamentos e o conjunto de 30 itens elaborados para aferi-lo. Os juízes, especialistas no assunto, deveriam avaliar cada item como representativo ou não do constru-to estudado, em uma escala de três pontos. Abaixo dos itens, havia ainda um espaço para os especialistas sugerirem modificações para adequá-lo à definição do constru-to ou escrever novos itens.
Questionário para a população geral. Um questionário on-line disponibilizado na internet contendo questões sociodemográficas, questões-critério, questões-controle, a Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (Ribas et al., 2004), a escala Experiences in Close Relationship Scale – Reduzida (ECR-R-Brasil; Natividade & Shiramizu, 2015), a Bateria Fatorial da Personalidade (Nunes et al., 2010), o Inventário de Orientação Sociossexual Revisado (SOI-R-Brasil, Natividade et al., 2013) e a Escala de Exclusividade em Relacionamentos, desenvolvida neste estudo. A seção de perguntas sociodemográficas continha perguntas sobre o gênero, a idade, a escolaridade, o estado de residência, a orientação sexual, sobre o relacionamento amoroso atual e a situação financeira. As questões-critério eram: 1. Considerando o que você compreende por relacionamento amoroso, até onde você lembra, alguma vez na sua vida você já vivenciou dois, ou mais, relacionamentos amorosos ao mesmo tempo?; 2. Considerando o que você compreende por relacionamento amoroso, até onde você lembra, alguma vez na sua vida você já foi infiel a um parceiro(a) de relacionamento? As questões-controle eram itens alocados aleatoriamente no questionário para verificar se o participante estava respondendo com atenção (e.g., “Essa é uma questão controle, por favor, marque o número dois como resposta”).
A Escala de Desejabilidade Social de Marlowe-Crowne (Crowne & Marlowe, 1960, versão brasileira de Ribas et al., 2004) avalia a tendência de um indivíduo a responder conforme o que se é esperado socialmente. Quanto maiores os escores nessa escala, maior a tendência a se comportar de acordo com o que é socialmente aceito. Ela é formada por 13 afirmativas das quais os participantes respondem o quanto cada uma o descreve verdadeiramente. Quanto maiores os escores, maior desejabilidade social. No estudo de adaptação para o contexto brasileiro, o instrumento apresentou um coeficiente alfa de 0,70.
A Experiences in Close Relationship Scale – Reduzida (ECR-R-Brasil; adaptada por Natividade & Shiramizu, 2015 do original de Wei et al., 2007) mede duas dimensões do apego adulto – ansiedade e evitação relacionada ao apego. Cada dimensão é composta por cinco afirmativas e os participantes respondem em uma escala de sete pontos o quanto concordam com cada item. Quanto maiores os escores nos fatores, maiores os níveis de evitação e ansiedade relacionados ao apego. No estudo de Natividade e Shiramizu (2015), ambos fatores apresentaram coeficiente alfa de 0,73.
O Inventário de Orientação Sociossexual Revisado (SOI-R-Brasil, versão brasileira de Natividade et al., 2013 do original de Penke & Asendorpf, 2008) mede a restrição/irrestrição em relação ao sexo causal, por meio de três fatores: a atitude (o quanto se é favorável ou contra o sexo casual), o desejo (o quanto se quer ter relações sexuais sem estar em um relacionamento compromissado), e o comportamento (o quanto, de fato, se faz sexo sem compromisso). Quanto maiores os escores nos fatores, maior irrestrição sexual. A versão brasileira apresentou coeficientes alfa variando entre 0,85 a 0,89 nos fatores.
A Bateria Fatorial da Personalidade (BFP, Nunes et al., 2010) mede os cinco grandes fatores da personalidade: Extroversão, Socialização, Neuroticismo, Realização e Abertura a experiências. Trata-se de um teste de personalidade construído para a realidade brasileira e composto por 126 itens, nos quais os participantes avaliam o quanto cada um lhes descreve adequadamente, em uma escala de sete pontos. Os coeficientes alfa dos fatores variam de 0,74 a 0,89.
A Escala de Exclusividade em Relacionamentos (ExRel), desenvolvida neste estudo, em sua versão final, conta com 11 itens que medem o quanto o indivíduo está disposto a engajar-se em um relacionamento compromissado e exclusivo. Ela se baseia na dimensão de mesmo nome do instrumento Sexy-7-Brasil (Natividade & Hutz, 2016) e acessa, com itens contextualizados, dois fatores da exclusividade em relacionamentos: a monogamia, que acessa o espectro monogâmico-poligâmico; e a fidelidade, que acessa o espectro fiel-infiel.
Questionário para a população geral – segunda aplicação. Um segundo questionário aplicado em alguns participantes da primeira aplicação após um intervalo de 60 dias. Além da Escala de Exclusividade em Relacionamentos, o questionário continha a escala Sexy-7-Brasil (Natividade & Hutz, 2016). A Sexy-7-Brasil é uma escala que acessa os sete fatores da sexualidade humana por meio de itens em formato de adjetivos. O instrumento contém 27 itens que medem: Atratividade Sexual, Orientação de Gênero, Orientação Sexual, Investimento Emocional, Disposição Erótica, Restrição Sexual e Exclusividade em Relacionamentos. Os participantes devem responder em uma escala de sete pontos o quanto consideram que cada adjetivo os descreve adequadamente. Neste estudo utilizou-se apenas os dados do fator Exclusividade em Relacionamento da escala Sexy-7-Brasil, o qual é medido por meio de quatro adjetivos: fiel, infiel, monogâmica(o) e poligâmica(o).
Procedimentos
De elaboração dos itens. Após revisão de literatura (e.g., Natividade & Hutz, 2016; Sizemore & Olmstead, 2018), elaborou-se uma definição do construto Exclusividade em Relacionamentos. A exclusividade em relacionamentos refere-se a quanto uma pessoa é disposta a engajar-se em um relacionamento amoroso exclusivo. Ela diz respeito ao nível de preferência por estabelecer relacionamentos amorosos com apenas uma pessoa. Pessoas altas em exclusividade querem manter seu relacionamento com apenas uma pessoa por vez, são fiéis aos seus parceiros, gostam de ser monogâmicas e ter apenas um parceiro sexual. Pessoas baixas em exclusividade querem ter vários parceiros ao longo da vida, inclusive podem ter vários ao mesmo tempo, não se preocupam com fidelidade em relacionamentos, podem ser infiéis e preferem relacionamentos poligâmicos. Em seguida, formularam-se 30 itens referentes ao construto e encaminhou-se a lista com os itens para cinco juízes especialistas (doutores em psicologia e experientes em elaboração de instrumentos) avaliarem, de forma independente, o quanto cada item representava adequadamente o construto. Os juízes respondiam em uma escala de três pontos o quanto o item era representativo do construto, sendo o 3 = representa bem o construto. Os itens com médias menores que 2,5 de representatividade foram excluídos da versão beta do instrumento. Assim, com as exclusões e incorporação das sugestões dos juízes, obteve-se a versão beta do instrumento com 16 itens. Os itens apresentavam substantivos e adjetivos com a flexão de gênero no masculino e no feminio a fim de evitar possíveis vieses de resposta (ex. Natividade et al., 2012).
Éticos. O presente estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa, submetido à Plataforma Brasil sob número CAAE nº 3.973.853. No início do questionário havia um Registro de Consentimento Livre e Esclarecido (RCLE) que explicava o objetivo da pesquisa e os direitos dos participantes, tais como: a garantia do anonimato, o sigilo das informações fornecidas e a possibilidade de desistência em qualquer parte da pesquisa sem nenhum prejuízo para o indivíduo. Após lido o termo de consentimento livre e esclarecido o participante escolhia continuar ou não com a pesquisa.
De coleta. O recrutamento dos participantes deu-se via internet e também por meio do método de coleta on-line com recrutamento presencial (Wachelke et al., 2014). Convites com o link do questionário foram disponibilizados em redes sociais e enviados para lista de e-mail de colaboradores do Laboratório. No recrutamento presencial, coletaram-se endereços de e-mail ou número de celular de possíveis participantes e, posteriormente, enviou-se um convite com link do questionário.
De análise dos dados. Primeiramente, realizou-se a limpeza do banco de dados, excluindo-se as respostas daqueles que erraram as questões-controle. Em seguida, dividiu-se a amostra aleatoriamente em duas metades. Diante do inetismo da aferição da exclusividade sexual do modelo da sexy-seven por meio de itens contextualizados, optou-se por testar a estrutura da ExRel de maneira exploratória, inicialmente. Para tanto, com a primeira metade da amostra (n=392) realizou-se e uma análise fatorial exploratória robusta a partir da matriz de correlações policórica dos itens, utilizando-se o software Factor, versão 10.10.03 (Ferrando & Lorenzo-Seva, 2017). Utilizou-se, nessa análise, o método de extração Robust Diagonally Weighted Least Squares – RDWLS, a rotação Robust Promin (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2019) e a Optimal Implementation of Parallel Analysis (Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011) com 500 amostras simuladas como critério de retenção de fatores.
Diante do resultado da análise exploratória e a fim de testar outras possibilidades de estrutura para a ExRel, com a segunda metade da amostra (n=403), testou-se a estrutura encontrada na análise exploratória e outros dois modelos hipotéticos por meio de análises fatoriais confirmatórias. Testaram-se o modelo de um único fator e o modelo de dois fatores após a retirada de alguns itens, de acordo com os índices de modificação. Nessas análises empregou-se o estimador Maximum Likelyhood Robust, utilizou-se o software R (R Core Team, 2019) e pacote lavaan (Rosseel, 2018).
Para buscar evidências de validade baseada nas relações com outras variáveis foram calculados coeficientes de correlações de Pearson entre a exclusividade em relacionamentos, sociossexualidade, apego adulto, os cinco grandes fatores de personalidade e a exclusividade em relacionamentos medida pela Sexy-7-Brasil (instrumento com itens em formato de adjetivos). Além dessas, testou-se a correlação com a desejabilidade social a fim avaliar a relação das respostas com o que é desejável socialmente. Também se testaram diferenças de médias em exclusividade em relacionamentos entre as pessoas que responderam sim e não às questões-critério.
Por fim, para verificar índices de fidedignidade da escala de exclusividade em relacionamentos foram calculados coeficientes de correlação de Pearson entre as respostas de alguns participantes na primeira e na segunda aplicação do instrumento (teste-reteste feito com 60 dias de intervalo). Ainda, foram calculados os coeficientes alfa e ômega total para os fatores da escala.
Resultados
A fim de conhecer a estrutura do construto, realizou-se uma análise fatorial exploratória com a primeira metade da amostra, n = 392. Inicialmente, verificou-se a adequação dos dados à análise fatorial, teste de esfericidade de Bartlett, χ2(120, N=392) = 4188,80; p<0,001, e KMO=0,93. A análise paralela sugeriu a extração de dois fatores que explicaram 68,5% da variância total dos dados. As cargas fatoriais e demais resultados podem ser vistos na Tabela 1.
Tabela 1 Cargas Fatoriais dos Itens da Escala de Exclusividade em Relacionamentos para as Análises Fatoriais Exploratória e Confirmatória
| Análise Exploratória, n=392 | Análise Confirmatória, n=403 | ||||
|---|---|---|---|---|---|
| Monogamia | Fidelidade | h 2 | Monogamia | Fidelidade | |
| Item 1 | 0,81 | 0,04 | 0,61 | 0,72 | |
| Item 2* | 0,88 | 0,16 | 0,60 | - | - |
| Item 3 | −0,14 | 0,80 | 0,81 | 0,70 | |
| Item 4* | −0,82 | −0,04 | 0,63 | - | - |
| Item 5 | −0,84 | −0,10 | 0,59 | −0,70 | |
| Item 6 | −0,07 | −0,83 | 0,61 | −0,63 | |
| Item 7* | −0,68 | 0,03 | 0,50 | - | - |
| Item 8 | −0,70 | 0,11 | 0,62 | −0,60 | |
| Item 9 | 0,77 | −0,03 | 0,64 | 0,71 | |
| Item 10* | 0,08 | −0,84 | 0,81 | - | - |
| Item 11* | 0,77 | −0,19 | 0,84 | - | - |
| Item 12 | 0,76 | 0,03 | 0,56 | 0,70 | |
| Item 13 | −0,03 | 0,90 | 0,86 | 0,76 | |
| Item 14 | −0,09 | 0,78 | 0,72 | 0,75 | |
| Item 15 | 0,16 | 0,89 | 0,62 | 0,64 | |
| Item 16 | −0,04 | 0,76 | 0,62 | 0,69 | |
| Número de itens | 9 | 7 | 5 | 6 | |
| Eigenvalues | 9,01 | 1,87 | - | - | |
| % Variância Explicada | 68,5% | - | |||
| Correlação entre fatores | −0,71 | −0,64 | |||
Nota. *Itens retirados da versão final do instrumento. Cargas maiores que 0,30 estão em negrito
Observando-se o conteúdo dos itens, constatou-se que o primeiro fator agrupou itens referentes a monogamia, tais como “prefiro um relacionamento amoroso sério com uma pessoa só, a ficar com várias(os) sem compromisso”; “em termos de relacionamentos amorosos, prefiro ficar com várias pessoas sem me prender a ninguém”. O segundo fator agrupou itens referentes à fidelidade, tais como “eu prefiro terminar um relacionamento amoroso a ser infiel”; “sou do tipo que quando estou em um relacionamento amoroso compromissado, às vezes dou umas escapadas e fico com outra(s) pessoa(s)”.
Em seguida, com a segunda metade da amostra, n=403, realizou-se uma análise fatorial confirmatória, a fim de testar a estrutura de dois fatores encontrada. Foram testados três modelos: Fator único beta - configurado com todos os 16 itens sendo explicados por um único fator; Dois fatores beta – configurado com dois fatores correlacionados explicando seus respectivos itens, de acordo com o resultado da análise fatorial exploratória; Dois fatores final – idêntico ao modelo Dois fatores beta, exceto pela exclusão de cinco itens devido aos seus respectivos índices de modificação. Os índices de ajuste dos dados aos modelos podem ser vistos na Tabela 2. As cargas fatoriais dos itens para o modelo Dois fatores final podem ser vistas na Tabela 1. Assumiu-se essa versão (Dois fatores final – com 11 itens) como a versão final para o instrumento e utilizou-se ela nas demais análises do estudo.
Tabela 2 Índices de Ajuste dos Modelos Testados
| Fator único beta | Dois fatores beta | Dois fatores final | |
|---|---|---|---|
| χ2 | 455,7 | 263,9 | 95,3 |
| gl | 104 | 103 | 43 |
| p | <0,001 | <0,001 | <0,001 |
| χ2/gl | 4,38 | 2,56 | 2,23 |
| TLI | 0,77 | 0,90 | 0,94 |
| CFI | 0,80 | 0,91 | 0,95 |
| RMSEA | 0,12 | 0,079 | 0,069 |
| IC 90% RMSEA | 0,11-0,13 | 0,067-0,091 | 0,050-0,087 |
Nota. Fator único beta=modelo especificado com os 16 itens da versão beta sendo explicados por um único fator. Dois fatores beta=modelo especificado com dois fatores explicando os itens da versão beta, de acordo com os resultados da análise fatorial exploratória. Dois fatores final=modelo especificado com dois fatores explicando os 11 itens de acordo com os resultados da análise fatorial exploratória, após a exclusão de cinco itens da versão beta. χ2=qui-quadrado; gl=graus de liberdade; χ2/gl=razão qui-quadrado por graus de liberdade; TLI=Tucker-Lewis Index; CFI=Comparative Fit Index; RMSEA=Root Mean Square Error of Aproximation; IC 90% RMSEA=Intervalo de confiança de 90%; n=403
Diante dos resultados sobre a estrutura do instrumento, voltou-se à busca por indicadores de fidedignidade utilizando-se a versão de dois fatores final (com 11 itens). Para verificar a consistência temporal da escala, foram calculados coeficientes de correlação entre as respostas dos participantes em duas aplicações da escala, com 60 dias de intervalo (n=109). Para o fator Monogamia verificou-se r=0,84; p<0,01; para o fator Fidelidade, r=0,80; p<0,01. No que diz respeito à consistência interna, o fator Monogamia apresentou coeficiente alfa e ômega iguais a 0,80; enquanto o fator Fidelidade apresentou alfa e ômega iguais a 0,84.
Em busca de evidências de validade baseadas nas relações com outras variáveis, calcularam-se os coeficientes de correlação entre os fatores da exclusividade em relacionamentos e demais variáveis do estudo. Os resultados podem ser vistos na Tabela 3. Destacam-se as correlações negativas entre os fatores da exclusividade em relacionamentos e os fatores da sociossexualidade.
Tabela 3 Correlações entre os Fatores da Escala de Exclusividade em Relacionamentos e Outras Variáveis
| 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 | 12 | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1. Monogamia, N=795 | 1 | |||||||||||
| 2. Fidelidade, N=795 | 0,52** | 1 | ||||||||||
| 3. Desej. Social, N=720 | 0,11** | 0,10** | 1 | |||||||||
| 4. Ap. Evitação, N=752 | -0,39** | -0,18** | -0,07 | 1 | ||||||||
| 5. Ap. Ansiedade, N=752 | 0,06 | 0,02 | -0,25** | 0,20** | 1 | |||||||
| 6. SOI – Atitude, N=752 | -0,44** | -0,39** | -0,21** | 0,19** | 0,03 | 1 | ||||||
| 7. SOI – Desejo, N=752 | -0,43** | -0,38** | -0,20** | 0,33** | 0,14** | 0,54** | 1 | |||||
| 8. SOI – Comp., N=752 | -0,32** | -0,40** | -0,05 | 0,19** | 0,07* | 0,55** | 0,45** | 1 | ||||
| 9. Extroversão, N=700 | -0,08* | -0,11** | 0,06 | -0,17** | -0,06 | 0,13** | 0,02 | 0,23** | 1 | |||
| 10. Socialização, N=700 | 0,27** | 0,19** | 0,36** | -0,26** | -0,16** | -0,24** | -0,29** | -0,15** | 0,06 | 1 | ||
| 11. Realização, N=700 | 0,15** | 0,10** | 0,25** | -0,12** | -0,09* | -0,11** | -0,10** | -0,07 | 0,24** | 0,20** | 1 | |
| 12. Abertura, N=700 | -0,06 | -0,03 | -0,48** | 0,14** | 0,46** | 0,06 | 0,15** | -0,02 | -0,22** | -0,36** | -0,26** | 1 |
| 13. Neuroticismo, N=700 | -0,17** | -0,15** | -0,07 | 0,04 | 0,03 | 0,22** | 0,17** | 0,18** | 0,32** | -0,17** | 0,07 | 0,04 |
| 14. Ex.Rel. Sexy7, N=108 | 0,75** | 0,86** | - | - | - | - | - | - | - | - | - | - |
Nota. Desej. Social=desejabilidade social. Ap. Evitação=Evitação relacionada ao apego. Ap. Ansiedade=Ansiedade relacionada ao apego. SOI - Atitude=fator atitude, da sociossexualidade. SOI – Desejo=Fator desejo, da sociossexualidade. SOI – Comp.=fator comportamento, da sociossexualidade. Ex.Rel. Sexy7=Fator exclusividade em relacionamentos da Sexy7-Brasil (Natividade & Hutz, 2016), usada apenas na segunda aplicação do questionário; *p<0,05; **p<0,01
Por fim, testaram-se diferenças em exclusividade em relacionamentos entre as pessoas que responderam sim e não para as perguntas-critério e entre homens e mulheres. Foram observadas diferenças significativas entre os grupos para os dois fatores da exclusividade em relacionamentos. Os resultados podem ser vistos na Tabela 4.
Tabela 4 Médias, Desvios-Padrões e Diferenças entre Grupos de acordo com as Questões Critério
| N | Monogamia | Teste estatístico | Fidelidade | Teste estatístico | |||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| M | DP | M | DP | ||||
| Questão critério 1 | t(756)=−6,70; p<0,01; d=0,58 | t(756)=−9,34; p<0,01; d=0,84 | |||||
| Sim | 245 | 5,54 | 1,42 | 5,45 | 1,47 | ||
| Não | 511 | 6,22 | 1,01 | 6,41 | 0,95 | ||
| Questão critério 2 | t(758)=−5,97; p<0,01; d=0,43 | t(758)=−6,97; p<0,01; d=0,44 | |||||
| Sim | 367 | 5,74 | 1,31 | 5,57 | 1,31 | ||
| Não | 391 | 6,25 | 1,05 | 6,25 | 1,04 | ||
| Gênero | t(795)=−5,27; p<0,01; d=0,40 | t(795)=−5,03; p<0,01; d=0,40 | |||||
| Mulher | 514 | 6,17 | 1,15 | 6,28 | 1,08 | ||
| Homem | 281 | 5,70 | 1,23 | 5,80 | 1,38 | ||
Nota. Questão critério 1=Considerando o que você compreende por relacionamento amoroso, até onde você lembra, alguma vez na sua vida você já vivenciou dois, ou mais, relacionamentos amorosos ao mesmo tempo? Questão critério 2=Considerando o que você compreende por relacionamento amoroso, até onde você lembra, alguma vez na sua vida você já foi infiel a um parceiro(a) de relacionamento?
Discussão
O objetivo deste estudo foi construir uma escala para mensurar a Exclusividade em Relacionamentos, bem como, buscar suas evidências de validade e fidedignidade. Após procedimentos de construção, seleção e buscas por evidências de validade baseadas no conteúdo, obteve-se uma versão da escala com 16 itens. Essa versão foi posta à prova empírica e reduzida para uma versão final com 11 itens. Verificou-se uma estrutura de dois fatores para o construto: Monogamia, que se referem a quanto um indivíduo prefere estar em um relacionamento amoroso compromissado com uma única pessoa em um acordo de exclusividade mútuo; e Fidelidade que diz respeito a quão disposto um indivíduo está a ser fiel em um relacionamento amoroso. Essa estrutura e os fatores encontrados estão de acordo com as suposições teóricas sobre o construto (e.g., Natividade & Hutz, 2016; Schmitt & Buss, 2000) e apresentaram índices satisfatórios de ajuste (Gana & Broc, 2019). Ainda, os indicadores de fidedignidade demostraram-se adequados para os dois fatores, todos superiores a 0,80 (DeVellis, 2016).
Em busca de evidências de validade baseadas nas relações com outras variáveis, verificou-se que os fatores Monogamia e Fidelidade correlacionaram-se fracamente com a desejabilidade social, indicando que a escala é pouco suscetível às pressões sociais por respostas desejáveis. Em relação aos estilos de apego, verificaram-se correlações negativas entre evitação relacionada ao apego e os fatores Monogamia e Fidelidade, o que demonstra que quanto maior o desconforto com a intimidade em relacionamentos, menor a tendência a ser monogâmico e fiel. Esse resultado era esperado, uma vez que estudos anteriores encontraram associações entre apego evitativo e: uma maior disposição a infidelidade (Beaulieu-Pelletier et al., 2011); a manter mais de um relacionamento ao mesmo tempo (Moors et al., 2015); e a ter mais relacionamentos de curto-prazo (Natividade & Shiramizu, 2015; Schmitt, 2005).
No que concerne à sociossexualidade, ambos os fatores da Escala de Exclusividade em Relacionamentos, Monogamia e Fidelidade, correlacionaram-se negativamente com os três fatores da sociossexualidade (atitude, desejo, comportamento). Esses resultados reforçam a ideia de que quanto mais irrestrito é o indivíduo, menos monogâmico e fiel ele tende a ser. Isso já era esperado, pois vai ao encontro de estudos anteriores que relacionaram a sociossexualidade com propensões a relações de curto-prazo (e.g., Natividade & Shiramizu, 2015; Schmitt, 2005), a relações poliamorosas (Morrison et al., 2013), e a infidelidade (Barta & Kiene, 2005; Mattingly et al., 2011).
Os fatores da exclusividade em relacionamentos também apresentaram correlações com os cinco grandes fatores da personalidade. Monogamia e Fidelidade correlacionaram-se negativamente com Extroversão e Abertura a experiências, indicando que quanto mais exclusivo uma pessoa se considera, menos extrovertida e aberta a novas experiencias ela é. Além disso, os dois fatores da exclusividade em relacionamentos se correlacionaram positivamente com os fatores Socialização e Realização da personalidade, indicando que quanto mais exclusivos, maior a tendência dos indivíduos a serem empáticos, altruístas, autocontrolados e disciplinados. Esse resultado foi semelhante ao encontrado por Natividade e Hutz (2016). Por fim, as correlações entre os fatores da exclusividade em relacionamentos e o fator o Exclusividade em Relacionamentos da Sexy-7-Brasil (Natividade & Hutz, 2016) destacam-se como uma importante evidência de validade convergente.
No que diz respeito à capacidade discriminativa do instrumento, foram utilizadas duas perguntas critérios para dividir as pessoas conforme as respostas. A escala de Exclusividade em Relacionamentos, em seus dois fatores, foi capaz de diferenciar os escores daqueles que já estiveram em mais de um relacionamento amoroso ao mesmo tempo daqueles que não tiveram nessa configuração de relacionamento. As pessoas que já tiveram mais de um relacionamento ao mesmo tempo apresentaram menores níveis de fidelidade e monogamia, conforme esperado teoricamente. Além disso, o instrumento foi capaz de diferenciar os escores dos participantes que declararam terem sido infiéis em um relacionamento amoroso daqueles que não foram, sendo que os infiéis apresentaram menores escores nos dois fatores da exclusividade, conforme esperado teoricamente.
O instrumento ainda foi capaz de diferenciar homens e mulheres de acordo com esperado teoricamente (e.g., Buss & Schmitt, 1993; Natividade et al., 2013; Schmitt, 2005). Em média, os homens tendem a apresentar mais estratégias de curto-prazo (mais parceiras e menos compromisso) do que as mulheres. Isso foi encontrado também para a exclusividade em relacionamentos, uma vez que os homens apresentaram menores níveis de monogamia e fidelidade comparados às mulheres.
Contudo, uma limitação importante do estudo deve ser levada em conta na interpretação dos resultados e em novas aplicações do instrumento: a amostra foi composta majoritariamente por indivíduos jovens, com alta escolaridade e condições financeiras mais favoráveis, o que não representa a totalidade da população brasileira. Portanto, generalizações que possam ser feitas devem levar em conta essas características dos participantes. Estudos futuros podem buscar amostras mais diversificadas e representativas da população brasileira. Sugere-se a busca por evidências de validade do instrumento também em amostras de contextos e culturas específicas e diferentes das representadas neste estudo.
Pode-se concluir que a Escala de Exclusividade em Relacionamentos apresentou satisfatórias evidências de validade baseadas no conteúdo, estrutura interna e relações com outras variáveis; além de adequados índices de fidedignidade. A escala apresenta-se como um instrumento útil para aferir a tendência à exclusividade em relacionamentos por meio de itens contextualizados. O estudo ainda permitiu uma ampliação na compreensão do construto, uma vez que identificou dois fatores que o explicam. Esta pesquisa ampliou o conhecimento sobre o construto e forneceu um instrumento inédito que pode ser usado tanto em novas pesquisas, quanto na prática clínica. Em estudos futuros, o instrumento pode ser usado para investigar os preditores da exclusividade, os impactos dessa característica individual na satisfação com os relacionamentos amorosos ou suas possíveis associações com variáveis como bem-estar subjetivo e outros desfechos de saúde mental. Além disso, na prática clínica, a escala pode ser usada em avaliações e acompanhamento de intervenções voltadas para casais, auxiliando no entendimento de dinâmicas conjugais e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais direcionadas.














