Ao longo dos anos tem crescido o interesse no estudo do sentimento de vergonha, com destaque para a sua importância conceitual e clinica (Peters & Geiger, 2016; Ross et al., 2019; Saraiya & Lopez-Castro, 2016; Szentágotai-Tätar et al., 2020). Isso concerne tanto a etiologia e sintomatologia de grupos específicos de transtornos (p.ex., de humor, de personalidade, relacionados a trauma), quanto a fenômenos abrangentes, como os estigmas ligados à doença mental e seu tratamento. A investigação da vergonha pode, assim, contribuir para compreensão dos fatores que desencadeiam e mantêm sintomas psicopatológicos, bem como para o aprimoramento das estratégias terapêuticas.
O Modelo Evolutivo Biopsicossocial de saúde mental destaca a vergonha como dimensão relevante nos processos psicopatológicos e fundamenta-se no entendimento de que a sobrevivência e a reprodução dos seres humanos são diretamente dependentes de como os indivíduos se relacionam entre si (Gilbert, 2002). Nesse sentido, a formação e a manutenção de relações interpessoais estáveis são fundamentais para que os indivíduos tenham acesso aos recursos de que necessitam para o seu desenvolvimento (acesso a abrigo, alimento e parceiro sexual) e, assim, para a realização dos objetivos evolutivos da espécie.
Além da função de fornecer proteção e alimentação, a relação dos cuidadores com a prole é fundamental para a organização da sua vida emocional, para a formação dos padrões de apego, que servirão de base estrutural para como o próprio indivíduo se relacionará consigo mesmo e como irá se desenvolver as suas relações sociais (Bowlby, 1969). De fato, os seres humanos têm a necessidade de pertencimento a um grupo, o que tem fortes efeitos emocionais e cognitivos nos indivíduos, impactando também a sua saúde, o seu ajustamento e o seu bem-estar (Baumeister & Leary, 1995).
Ainda, o desenvolvimento de habilidades cognitivas possibilitou complexificar o entendimento do mundo social – por exemplo, com o advento da teoria da mente (Byrne, 1995) e com o desenvolvimento da autoconsciência (Lewis, 2003; Tracy & Robins, 2004). Ambos contribuíram para que os membros da espécie se tornassem bastante focados e sensíveis ao que os demais pensam a seu respeito e inclinados à necessidade de criar uma imagem positiva de si na mente dos outros (Leary & Kowalski, 1990). Pode se dizer, portanto, que os indivíduos da espécie humana são dotados de um sistema de automonitoramento e comparação social, que regula o seu comportamento (Leary, 1995).
A Vergonha
No contexto do Modelo Evolutivo Biopsicossocial, a vergonha pode ser definida de modo simplificado como a experiência de sentir-se falho e indesejável socialmente (Gilbert, 1998, 2003). Ainda, dentro dessa abordagem, o sentimento de vergonha inclui três aspectos (Gilbert, 2002): (a) cognitivo (vergonha externa e vergonha interna); (b) emocional; e (c) comportamental.
A vergonha externa (VE) baseia-se na percepção do indivíduo de que os outros pensam de forma depreciativa a seu respeito (Gilbert, 1998). Geralmente, é eliciada em contextos sociais e associada a pensamentos automáticos de que os outros veem o self como inferior, mau, inadequado ou falho; ou seja, os outros olham o self de cima para baixo, com um olhar condenatório ou desprezível.
A vergonha interna (VI) fundamenta-se em uma autoavaliação negativa (desvalorativa), que envolve considerar-se pessoalmente como mau, inadequado, fraco ou repugnante (Gilbert, 1998). Está associada a pensamentos negativos automáticos sobre si mesmo (self). De fato, muitos pensamentos que caracterizam o autocriticismo e o autoataque, (e.g. eu sou inútil, eu não tenho valor, eu sou feio, eu não sou bom ou eu sou falho), em sua essência, são pensamentos de autodesvalorização característicos da experiência de vergonha interna.
A dimensão emocional ancora-se no entendimento de que os sentimentos baseados na autoconsciência, como a vergonha, interagem com as emoções básicas (Gilbert, 2003). Por isso, uma autoavaliação negativa na perspectiva de primeira ou terceira pessoa pode estar associada a diferentes texturas emocionais. São diversas as emoções e sentimentos envolvidos na experiência de vergonha, como ansiedade, raiva, nojo e desprezo (Gilbert, 2002, 2003).
A dimensão comportamental baseia-se no entendimento de que, por ser vivenciada como uma ameaça para o self, a vergonha é comumente associada a comportamentos submissos, como desvio no olhar e inibição do comportamento, (Gilbert & McGuire, 1998; Keltner and Harker, 1998) e a um forte desejo de não ser visto, evitar exposição, esconder-se ou fugir (Tangney & Dearing, 2002).
O Modelo Evolutivo Biopsicossocial
O Modelo Evolutivo Biopsicossocial fundamenta a Terapia Focada na Compaixão (Gilbert, 2010),uma abordagem terapêutica voltada a pacientes que possuem níveis acentuados de vergonha e autocriticismo. Trata-se de um modelo evolucionista e integrativo para abordar a saúde mental (Gilbert, 2005), contemplando um corpo amplo de achados científicos (Byrne, 1995; Cozolino, 2010; Depue & Morrone-Strupinsky, 2005; Hofmann et al., 2011; Ramnerö & Törneke, 2008; Schore, 1999; Siegel, 2012).
O modelo postula que a experiência de ter sido avaliado negativamente de forma recorrente na infância por pessoas significativas, por meio de criticismo, abuso ou negligência, contribui para uma maior inclinação à vergonha, tendência a sentir-se indesejável socialmente, na idade adulta (Cunha et al., 2012; Matos & Pinto-Gouveia, 2009). A vergonha funciona como um sistema de alarme que alerta para ameaça de exclusão social, possibilitando mecanismos para limitar o dano social por meio de conciliação ou retirada (Gilbert, 2007).
Evidências corroboram a existência de uma correlação positiva entre a percepção do self de como é avaliado pelos outros e a sua própria autoavaliação, não podendo ser facilmente separadas (Leary et al., 1995; Santor & Walker, 1999). Não se trata de estratégias escolhidas conscientemente para lidar com a experiência de vergonha, mas de variações fenotípicas que podem depender do contexto e características individuais (Gilbert, 2010). Há, portanto, a necessidade de aprofundar a investigação de como as diferentes dimensões da vergonha impactam nas diferentes condições de saúde mental.
Principais instrumentos existentes de avaliação da vergonha
A experiência de sentir vergonha é parte integral da vida humana, a ponto de ser considerada adaptativa para a realização dos objetivos evolutivos da espécie a nível coletivo. No entanto, a nível individual, quando se apresenta como um padrão rígido de reação a eventos diversos (internos ou externos), ela pode tornar-se disfuncional (Oatley, 1992). Alguns instrumentos avaliam a vergonha enquanto um traço ou disposição, ou seja, têm o objetivo de mensurar em que medida os indivíduos estão inclinados a sentir vergonha (Bernice, 1998).
A vergonha enquanto traço ou disposição tem sido medida por meio de instrumentos de autorrelato, principalmente pelos seguintes (Lear et al., 2022): Test of Self-Conscious Affect (Tangney et al., 2000), Personal Feelings Questionnaire-2 (Harder & Zalma, 1990), The Internalized Shame Scale (Cook, 1988) e Other as a Shamer Scale (Goss et al., 1994). O principal objetivo do uso dessas medidas tem sido investigar a relação entre vergonha e sintomas psicopatológicos. No entanto, cada um desses inventários apresenta determinadas limitações. Dentre elas, destaca-se como uma limitação comum, a ausência de estudos publicados reportando o processo de desenvolvimento dos instrumentos e de avaliação da sua validade de conteúdo (Lear et al., 2022).
O Test of Sef-Conscious Affect – TOSCA-3 (Tangney et al., 2000) coloca o indivíduo diante de situações hipotéticas que poderiam ocorrer no seu dia a dia e de possíveis respostas a elas. As opções de reação às situações apresentadas, respondidas por meio de escala Likert de 5 pontos, representam cognições, afetos ou comportamentos associados ao sentimento de vergonha ou de culpa. Existe, no entanto, uma fragilidade quanto a qualidade das evidências referentes a estrutura fatorial do instrumento (Lear et al., 2022). Uma outra limitação dos instrumentos baseados em cenários, como o TOSCA-3, é o fato das situações apresentadas serem muito específicas e, possivelmente, distanciarem-se da realidade dos indivíduos investigados, tendo pouca validade ecológica (Brewer, 2000).
O Personal Feelings Questionnaire-2 – PFQ-2 (Harder & Zalma, 1990) também contém itens que representam o construto culpa e itens que representam o construto vergonha. No enunciado do instrumento, solicita-se que o respondente indique com que intensidade ele experiencia os sentimentos listados utilizando uma escala Likert de 5 pontos, variando de 0 (eu não experiencio o sentimento) à 4 (eu experiencio o sentimento muito fortemente). Em alguns itens, há um advérbio de intensidade acompanhando o sentimento listado (e.g. culpa intensa), o que gera uma sobreposição do que está escrito nos itens com os descritores de intensidade presentes na escala Likert, podendo confundir o respondente. Além disso, as subescalas do instrumento, que mensuram culpa e vergonha, apresentaram uma alta correlação, indicando uma baixa validade discriminante (Averill et al., 2002).
A Internalized Shame Scale – ISS (Cook, 1988) tem sido bastante utilizada para mensurar o construto vergonha (Hughes et al., 2020; Shehzad et al., 2020). Segundo Del Rosario & White (2006), as versões iniciais da ISS foram desenvolvidas sem basear-se em uma teoria ou definição do construto vergonha, tendo como fundamento o relato de pacientes dependentes de álcool para a elaboração dos itens. Posteriormente, Cook (1994) sugeriu a utilização da definição de vergonha internalizada como um profundo e permanente senso de inferioridade, inadequação ou deficiência, que se torna parte da identidade do indivíduo (traço).
A ISS contempla itens que envolvem vergonha internalizada e autoestima. Contudo, tem sido criticada por não apresentar uma distinção clara entre os dois construtos (Tangney & Dearing, 2002). Essa imprecisão conceitual reflete-se na elaboração de itens da ISS, uma vez que a maioria dos itens, que supostamente contemplariam o construto vergonha, de fato, caracterizam o construto baixa autoestima. Como ambos os construtos, vergonha e autoestima, envolvem o processo cognitivo de autoavaliação do self (Lewis, 1971; Rosenberg, 1989), tendem a estar associados de forma significativa. No entanto, o componente cognitivo de autoavaliação não é suficiente para caracterizar a vergonha dentro do Modelo Evolutivo Biopsicossocial, que também abrange a avaliação feita por terceiros, aspectos emocionais e comportamentais da vergonha (Gilbert, 2002). Além disso, a estrutura interna da ISS permanece indefinida com base nos dados da literatura (Del Rosario & White, 2006; Matos et al., 2012; Vikan et al., 2010)
A Other as a Shamer Scale – OAS-2 é uma medida que contém itens que se referem à vergonha externa, derivada da avaliação por parte do indivíduo de como o self é visto pelos outros (Gilbert, 1998), tendo sido desenvolvido a partir da adequação para a terceira pessoa de itens da ISS (Goss et al., 1994). Por ter sido desenvolvida a partir dos itens da ISS, a escala carrega consigo a mesma limitação conceitual presente naquele instrumento. Ambas foram construídas de modo ateórico, apresentando baixa validade de conteúdo (Lear et al., 2022).
Recentemente, Ferreira e colaboradores (Ferreira et al., 2020) desenvolveram a External and Internal Shame Scale, fundamentada no Modelo Evolutivo Biopsicossocial. Esse instrumento apresentou um avanço importante na área por englobar em um único instrumento as dimensões vergonha interna e vergonha externa, componentes cognitivos do construto. No entanto, observa-se que os aspectos afetivos e comportamentais da vergonha não foram considerados no desenvolvimento do instrumento.
O Presente Estudo
Diante do apresentado, percebe-se a relevância de se estudar o construto vergonha. Porém, fica evidente que os instrumentos existentes não contemplam plenamente os componentes da vergonha explicitados no
Modelo Evolutivo Biopsicossocial (Gilbert, 2002). Com o objetivo de apresentar uma solução para esse problema, o presente trabalho buscou: 1. criar e desenvolver um instrumento para mensurar a inclinação à vergonha contemplando seus aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais; e 2. investigar evidências de validade interna e externa do instrumento.
Método
Processo de Construção do Instrumento
O processo de construção do QIV seguiu procedimentos teóricos e empíricos (Damásio & Borsa, 2017). Os procedimentos teóricos deram-se em três etapas: 1. conceitualização do construto; 2. elaboração dos itens; e 3. análise dos itens (Pasquali, 2010).
De acordo com o Modelo Evolutivo Biopsicossocial, a vergonha envolve aspectos cognitivos (VE e VI), comportamentais (CS) e emocionais. Uma vez que as cognições e emoções tendem a manifestar-se de forma imbricada (Frijda, 1993), optou-se por contemplar os aspectos emocionais da vergonha integrando-os aos itens relacionados aos aspectos cognitivos (VE e VI).
A partir da definição conceitual de vergonha (Gilbert, 2002) e da observação de outros instrumentos com uma proximidade teórica (Alan & Gilbert, 1997; Cook, 1988; Matos et al., 2015; Osmo, 2017; Rosenberg, 1989; Young, 2003), foram elaborados 20 itens para a versão preliminar do QIV sendo 6 itens representando a dimensão VE, 8 itens representando a dimensão Comportamentos de Submissão (CS) e 6 itens representando a dimensão VI.
Posteriormente, três especialistas foram convidados a analisar os itens do instrumento a partir dos seguintes critérios objetivos: 1. relevância (quanto ao pertencimento à dimensão teórica prevista) e 2. adequação (quanto a clareza dos itens) (Pasquali, 2010). Cada especialista recebeu um material para o preenchimento da sua apreciação dos itens. Os itens nos quais foram obtidos níveis satisfatórios de concordância entre os pesquisadores foram mantidos. Nos casos em que isso não ocorreu, os itens foram modificados a partir das considerações apresentadas.
Em seguida, para avaliar a compreensão da versão preliminar do instrumento, ele foi apresentado a nove pessoas provenientes da população-alvo, que avaliaram a sua inteligibilidade (Pasquali, 2010). Essa etapa levou a revisão adicional de alguns itens do instrumento. Após a realização das etapas que compuseram os procedimentos teóricos, foram realizados os procedimentos empíricos por meio dos quais se investigou as evidências de validade do instrumento.
Participantes
Participaram do presente estudo uma amostra de 916 pessoas, com idades variando de 18 a 73 anos e média de 26,67 (DP=9,36) anos. A maioria relatou ser do sexo feminino (66,48%), possuir ensino superior incompleto (65,93%) e não trabalhar (59,00%). Ainda, 65,50% afirmaram morar na Região Sul do Brasil e 25,76% na Região Nordeste.
Instrumentos
Primeiramente, os participantes responderam a uma ficha de dados sociodemográficos que teve a finalidade de caracterizar a amostra. Em seguida, aos seguintes instrumentos:
Questionário de Inclinação à Vergonha – QIV. O instrumento foi elaborado com o objetivo de mensurar o construto vergonha com base no Modelo Evolutivo Biopsicossocial. Nesse modelo, a vergonha é composta por aspectos cognitivos (VE e VI), comportamentais e emocionais. Os aspectos emocionais da vergonha foram contemplados incorporando-os aos itens referentes aos aspectos cognitivos da vergonha. A versão preliminar do instrumento, aqui empregada, totaliza 20 itens de autorrelato, respondidos por meio de uma escala Likert de cinco pontos (0 - 4), indicando com que frequência o indivíduo experienciou o fenômeno descrito. Seis itens representam o construto VE (itens 1, 2, 3, 4, 5 e 6); outros seis abrangem o construto VI (itens 15, 16, 17, 18, 19 e 20); e oito itens referem-se a CS (itens 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13 e 14).
Other as a Shamer Scale 2 – OAS-2 (Matos et al., 2015). Trata-se da versão reduzida do instrumento OAS (Goss et al., 1994). O instrumento é composto por 8 itens que se propõem a avaliar vergonha externa. Por meio de uma escala Likert de 5 pontos (0 - 4), o indivíduo avalia com que frequência tem pensamentos de que os outros o avaliam negativamente de forma global. No estudo original de validação do instrumento, a OAS-2 apresentou estrutura fatorial unidimensional e consistência interna adequada (α=.82). No presente estudo, o instrumento manteve a sua estrutura unifatorial e uma consistência interna adequada (α =.91).
Depression, Anxiety and Stress Scales – DASS-21 (Lovibond & Lovibond, 1995; Patias et al., 2016). O instrumento organiza-se em três subescalas: depressão, ansiedade e estresse. Cada uma delas é constituída por 7 itens, totalizando 21 itens. Os sujeitos avaliam o quanto experimentaram cada sintoma durante as duas últimas semanas através de uma escala tipo Likert de 4 pontos (0 - 3). A escala foi adaptada para uso no Brasil, mantendo a estrutura original de três fatores e coeficientes alfa adequados para as respectivas subescalas (0,86 para estresse; 0,83 para ansiedade e 0,90 para depressão) (Patias et al., 2016).
Escala de Auto-Estima de Rosenberg (Rosenberg, 1989). Trata-se de um instrumento unidimensional, composto por 10 itens que se propõem a mensurar autoestima. O construto refere-se a um aspecto avaliativo de si mesmo, podendo apresentar orientação positiva ou negativa e uma certa estabilidade (Hutz & Zanon, 2011; Kernis, 2005). O instrumento foi adaptado para uso no Brasil, tendo a sua estrutura interna unifatorial replicada e apresentando coeficiente alfa com valor de 0,90 (Hutz & Zanon, 2011).
Procedimentos
Após ter sido submetido ao devido Comitê de Ética e Pesquisa, o presente estudo foi devidamente aprovado. Por tanto, assegura-se que cumpriu os requisitos estabelecidos na Resoluções do Conselho Nacional de Saúde nº 510 de 07 de abril de 2016, assim como na Declaração de Helsínquia da Associação Médica Mundial (2013).
Tratou-se de uma pesquisa com um delineamento transversal, cujas coletas foram realizadas online. O tempo médio de aplicação foi de 30 minutos. O link para a pesquisa foi divulgado por e-mail (via coordenação de cursos da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e pelas redes sociais. As pessoas que concordaram com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido deram continuidade à sua participação.
Análise de Dados
Por meio do procedimento de análise fatorial confirmatória (AFC), verificou-se a adequação da estrutura de três fatores prevista na elaboração do instrumento (vergonha externa, vergonha interna e comportamentos de submissão) aos dados. Utilizou-se o método de estimação Robust Diagonal Weighted Least Squares (RDWLSA), também denominado de Weighted Least Squares Mean-and-variance-ajusted (WLSMV) (Muthén & Muthén, 2012). Em seguida, com o objetivo de tornar a escala mais parcimoniosa e melhorar os índices de ajuste do modelo, optou-se, com base nos Índices de Modificação (IM), por eliminar os itens que apresentaram acentuada redundância no seu conteúdo.
Os índices de ajuste utilizados foram Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA), Comparative Fit Index (CFI), Tucker-Lewis Index (TLI) e razão Qui-Quadrado (χ2/gl). Níveis considerados satisfatórios de ajuste, requerem valores de CFI e do TLI acima de 0,90 e preferencialmente acima de 0,95 (Brown, 2015; Hoyle, 1995). Valores no índice RMSEA abaixo de 0,05 indicam ajuste excelente e abaixo de 0,08, ajuste adequado (Browne & Cudeck, 1993). A razão Qui-Quadrado (χ2/gl) deve ser, preferencialmente, menor que 3 (Brown, 2015). Por fim, com a amostra geral, obteve-se os coeficientes de fidedignidade (Alfa de Cronbach) do QIV e evidências de validade externa por meio da investigação da associação entre as suas dimensões e outras variáveis relevantes.
Resultados
Análise Fatorial Confirmatória (AFC)
Com base nos resultados apresentados na Tabela 1, observou-se que a razão Qui-Quadrado (χ2/gl) referente a versão do QIV com 20 itens foi de 3,26 (ligeiramente acima do recomendado). No entanto, os índices CFI, TLI e RMSEA suportaram o modelo. Com o objetivo de melhor inspecionar os resultados, foram avaliados os Índices de Modificação. Particularmente, identificou-se acentuada covariância residual entre os itens 9 e 12 (IM=104,25) e entre os itens 8 e 14 (IM=22,86).
Tabela 1 Índices de Ajuste QIV
| Versão | Estrutura | χ2 | gl | RMSEA | CFI | TLI |
|---|---|---|---|---|---|---|
| QIV-20 | 3 Fatores | 543,872 | 167 | 0,05 (0,04 - 0,05) | 0,98 | 0,98 |
| QIV-18 | 3 Fatores | 346,190 | 132 | 0,04 (0,04 - 0,05) | 0,99 | 0,99 |
Nota. χ2=qui-quadrado; gl=graus de liberdade; RMSEA=raiz de erro quadrático médio de aproximação; CFI=índice de ajuste comparativo; TLI=índice de ajuste de Tucker-Lewis
Com o objetivo de eliminar a redundância entre os itens, optou-se por descartar do instrumento o iten 8, mantendo 14, e eliminar o item 9, mantendo o item 12. Os itens eliminados (8 e 9) apresentaram carga fatorial menor do que a dos mantidos (12 e 14), conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2 Cargas Fatoriais Padronizadas do QIV
| Fator | Itens QIV | CFs Padronizadas | |
|---|---|---|---|
| QIV-20 | QIV-18 | ||
| VE | 1. Eu me sinto triste, pois as pessoas não se interessam por mim. | 0,73 | 0,73 |
| 2. Fico incomodado(a), pois sinto que os outros estão prestando atenção em meus defeitos. | 0,84 | 0,84 | |
| 3. Eu me sinto vazio(a), pois as pessoas do meu convívio me desvalorizam. | 0,73 | 0,73 | |
| 4. Eu me sinto triste, pois as pessoas me veem como um(a) fracassado(a). | 0,70 | 0,71 | |
| 5. Fico ansioso(a) perto das pessoas, pois sinto que elas me consideram alguém inferior. | 0,97 | 0,96 | |
| 6. Eu me sinto desprezado(a), pois os outros costumam me olhar como se houvesse algo errado comigo. | 0,88 | 0,88 | |
| CS | 7. Quando eu cometo um erro, tenho vontade de desaparecer. | 0,94 | 0,96 |
| 8. Invento desculpas para recusar convites a situações sociais. | 0,65 | - | |
| 9. Quando estou falando, evito olhar nos olhos das pessoas que estão me ouvindo. | 0,72 | - | |
| 10. Tenho dificuldade em manter minhas opiniões quando alguém discorda delas. | 0,51 | 0,50 | |
| 11. Tenho vontade de me esconder quando sou criticado(a). | 0,89 | 0,90 | |
| 12. Desvio o olhar quando alguém olha diretamente para mim. | 0,77 | 0,72 | |
| 13. Eu aceito passivamente que me critiquem e me coloquem para baixo. | 0,63 | 0,65 | |
| 14. Eu evito interagir com as pessoas no dia-a-dia. | 0,69 | 0,66 | |
| VI | 15. Fico ansioso(a) diante dos desafios, pois sinto que sou incapaz de enfrentá-los. | 0,88 | 0,87 |
| 16. Fico triste, pois me considero um(a) fracassado(a) de maneira geral. | 1,06 | 1,06 | |
| 17. Sinto nojo de mim mesmo(a), pois acho que sou uma pessoa ruim. | 0,74 | 0,74 | |
| 18. Eu me sinto triste com a minha aparência, pois não sou fisicamente atraente. | 0,85 | 0,85 | |
| 19. Fico com raiva de mim mesmo(a), pois considero que o meu jeito de ser é errado. | 0,85 | 0,86 | |
| 20. Sinto desprezo por mim mesmo(a), pois penso que não tenho valor como pessoa. | 0,85 | 0,85 | |
Nota. VE=vergonha externa; CS=comportamentos de submissão; VI=vergonha interna; CF=Carga Fatorial
Após a retirada dos itens do modelo, houve uma melhoria em todos os índices de ajuste (Tabela 1), incluindo a razão Qui-Quadrado (χ2/gl) que passou ao valor de 2,63. Logo, a versão final do instrumento (QIV-18), mostrou-se mais parcimoniosa e foi representada na Figura 1.
Consistência Interna
Observou-se coeficientes alfa com valor adequado tanto para as dimensões VE (0,87), VI (0,88) e CS (0,79).
Com base na correlação de magnitude alta entre as dimensões do QIV-18 (VE, VI e CS), investigou-se o coeficiente de fidedignidade para uma dimensão de Vergonha Geral (VG), obtendo-se um valor adequado (0,93), que indicou a plausibilidade da sua existência.
Variáveis Sociodemográficas e Vergonha Geral
Quanto à associação entre idade e VG, obteve-se uma correlação negativa entre ambas (r=−0,27, p<0,01). Quanto à relação vergonha e gênero, observou-se uma diferença estatisticamente significativa nos níveis de VG entre homens (MH=1,32; DP=0,79) e mulheres (MM=1,55; DP=0,76), t(914)=4,21, p<0,01). No tocante a exercer ou não uma atividade laboral, observou-se uma diferença estatisticamente significativa nos níveis de VG entre quem trabalha (MT=1,23; DP=0,73) e quem não trabalha (MNT=1,53; DP=0,78), t(914) = 5,82, p<0,01.
Relação entre QIV e outras variáveis psicológicas
As correlações entre vergonha mensurada pelas dimensões do QIV-18 e demais variáveis foram apresentadas na Tabela 3. As dimensões do QIV-18 correlacionaram-se positivamente com sintomas de ansiedade e de depressão. Além disso, obteve-se correlações positivas entre as dimensões do QIV-18 e vergonha externa, mensurada pela OAS-2. Ainda, encontrou-se correlações negativas entre as dimensões do QIV-18 e autoestima.
Tabela 3 Correlações entre o QIV-18 e Variáveis Psicológicas
| Variáveis Psicológicas | QIV-18 | |||
|---|---|---|---|---|
| VE | VI | CS | VG | |
| Ansiedade | 0,48* | 0,44* | 0,38* | 0,49* |
| Depressão | 0,54* | 0,64* | 0,51* | 0,64* |
| VE (OAS-2) | 0,80* | 0,66* | 0,60* | 0,78* |
| Autoestima | −0,67* | −0,80* | −0,59* | −0,78* |
Nota. QIV-18=Questionário de Inclinação à Vergonha; VE=vergonha externa; VI=vergonha interna; CS=comportamento de submissão; VG=vergonha geral; OAS-2=Other as a Shamer Scale 2. *p<0,01
Discussão
A literatura acadêmica tem evidenciado a relevância da inclinação à vergonha enquanto um importante fator transdiagnóstico associado à saúde mental (Peters & Geiger, 2016; Ross et al., 2019; Saraiya & Lopez-Castro, 2016; Szentágotai-Tätar et al., 2020). Apesar dos avanços na área, ressalta-se a necessidade do desenvolvimento de instrumentos psicométricos consistentes para mensurar o construto (Lear et al., 2022).
Nesse contexto, o presente trabalho buscou desenvolver um instrumento inédito para mensurar a vergonha e investigar evidências de sua validade, adotando cuidadosamente procedimentos teóricos e empíricos (Damásio & Borsa, 2017). Optou-se por abordar o construto dentro do Modelo Evolutivo Biopsicossocial (Gilbert, 2002, 2010), que tem se destacado por integrar de forma consistente diferentes aspectos da experiência de vergonha.
Na etapa empírica do processo de desenvolvimento do QIV, procedeu-se análises fatoriais confirmatórias. Obteve-se que a estrutura de três fatores (VE, VI e CS), prevista teoricamente, ajustou-se de forma adequada aos dados. Após o descarte de itens redundantes, a versão final do instrumento ficou composta por 18 itens (QIV-18). Os resultados indicaram também a possibilidade de se trabalhar com uma dimensão geral de vergonha.
O instrumento contempla os aspectos específicos da vergonha: cognitivo (VE e VI), emocional e comportamental (CS). Uma vez que as cognições e emoções tendem a manifestar-se de forma imbricada (Frijda, 1993), os aspectos emocionais da vergonha foram integrandos aos itens relacionados aos aspectos cognitivos (VE e VI). As dimensões do QIV-18 apresentaram correlações positivas de magnitude moderada com ansiedade e de magnitude alta com depressão, corroborando o que tem sido encontrados em outros estudos presentes na literatura (Cândea & Szentagotai-Tätar, 2018).
Na condição de ansiedade generalizada, as preocupações excessivas características do transtorno podem ser entendidas como uma estratégia compensatória que tem a função de evitar o contato com sentimentos dolorosos, como a vergonha, presentes na experiência do indivíduo, sendo essa uma das possíveis explicações para a correlação positiva entre ansiedade e vergonha (Schoenleber et al., 2014). Quanto à relação entre depressão e vergonha, um estudo de metanálise apontou que os esquemas cognitivos desadaptativos de defectividade e isolamento, característicos da experiência de vergonha, são os principais esquemas associados à depressão, observando-se uma forte correlação de cada um com sintomas depressivos (Bishop et al., 2022).
O instrumento apresentou correlações altas com um questionário amplamente utilizado para mensurar vergonha externa (OAS-2), com um destaque para a associação com VE mensurada pelo QIV-18 (r=0,8), o que corrobora o esperado, pois trata-se de uma mesma dimensão da inclinação à vergonha (Matos et al., 2015). Ainda, as dimensões do QIV-18 apresentaram correlações negativas de magnitude variando de moderada a alta com autoestima, em conformidade com o que tem sido encontrado na literatura (Budiarto & Helmi, 2021). Experiências frequentes de vergonha estão associadas a uma instabilidade na avaliação de si mesmo, caracterizando uma baixa autoestima (Elison et al., 2014). No presente estudo, observou-se uma forte correlação entre autoestima e vergonha interna (r = 0,80), o que faz sentido do ponto de vista teórico, uma vez que ambos os construtos envolvem uma dimensão autoavaliativa enunciada em primeira pessoa.
Quando a relação entre os escores do QIV-18 e as variáveis sociodemográficas, em conformidade com o que tem sido encontrado na literatura (Else-Quest et al., 2012), obteve-se uma diferença estatisticamente significativa entre homens e mulheres nos níveis de vergonha. Uma das possíveis explicações considera que, ao longo do seu desenvolvimento, as mulheres são mais encorajadas a expressar plenamente as suas emoções em comparação com os homens (Brody, 1997). Ainda, a correlação negativa obtida no presente estudo entre vergonha e idade corrobora o que foi encontrado em um estudo feito por Orth e colaboradores (2010), cujos resultados indicaram haver um decréscimo nos níveis de vergonha da adolescência para meia idade adulta (por volta de 50 anos). Uma possível explicação seria o princípio da maturidade, que afirma que as emoções adaptativas têm um aumento na frequência ao longo do desenvolvimento do indivíduo, enquanto as emoções desadaptativas têm um declínio (Roberts & Wood, 2006). Quanto a relação entre trabalhar ou não trabalhar e níveis de vergonha, entende-se que é uma expressão da associação entre desemprego e sofrimento mental (Picakciefe et al., 2016).
Destaca-se que o desenvolvimento do QIV-18 seguiu procedimentos teóricos e empíricos rigorosos. A consistência teórica na construção dos seus itens, associada às evidencias de validade obtidas, atestam para o seu potencial em contribuir de forma significativa para o avanço dos estudos na área de saúde mental, com enfoque na vergonha, sobretudo no Brasil. Como limitação do presente estudo, considera-se o fato de ter utilizado amostra geral. Trabalhos futuros poderão investigar evidências de validade do instrumento em amostras clínicas e ampliar as evidências a respeito das suas propriedades psicométricas.











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