SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.24Checklist da rotina compartilhada e envolvimento entre família-escola: Versões reduzidas e evidências psicométricasAvaliação do comer emocional e autocompaixão em mães de crianças autistas índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Avaliação Psicológica

versão impressa ISSN 1677-0471versão On-line ISSN 2175-3431

Aval. psicol. vol.24  Campinas  2025  Epub 15-Set-2025

https://doi.org/10.15689/ap.2025.24.e24891 

Relato de pesquisa

O uso profissional da Técnica Projetiva do Desenho da Casa-Árvore-Pessoa (HTP): segundo opinião dos psicólogos

The professional use of the Projective Technique of House-Tree-Person Drawing (HTP): according to the opinion of the psychologists

El uso profesional de la Técnica Proyectiva del Dibujo Casa-Árbol-Persona (HTP): según la opinion de los psicólogos

Sheyla Magalhães Morski Resende

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.

1  1  , participaram da elaboração do manuscrito
http://orcid.org/0000-0002-0964-3921

Rosângela Kátia Sanches Mazzorana Ribeiro

Professora associada do Curso de Psicologia e do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.

1  , participaram da elaboração do manuscrito
http://orcid.org/0000-0003-4072-1091

1Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, Cuiabá-MT, Brasil


RESUMO

A Técnica do Desenho da Casa-Arvore-Pessoa é um método projetivo gráfico que avalia aspectos da personalidade e é muito utilizado por psicólogos em sua atuação profissional. A presente pesquisa objetivou investigar como os profissionais utilizam o teste, quanto à aplicação, correção, interpretação, contextos de uso, principal objetivo e público-alvo. Para tanto, foi realizado questionário online com 191 psicólogos das cinco regiões brasileiras, com idade entre 22 e 71 (M=41,16 e DP = 1,92), dos quais 83% eram do sexo feminino. Os resultados indicaram falhas no manejo do teste por alguns profissionais, relacionadas ao contexto de utilização e objetivo; além da aplicação e interpretação sem respaldo do manual e o não uso do inquérito posterior ao desenho. Levando em consideração o fato do teste ser constantemente ensinado na graduação e utilizado na prática profissional, discute-se a necessidade de que seja dada mais atenção à formação do psicólogo em Avaliação Psicológica.

Palavras-chave: Avaliação Psicológica; Técnicas Projetivas; Desenho da Casa-Árvore-Pessoa

ABSTRACT

The House-Tree-Person Drawing Technique is a graphic projective method that evaluates aspects of personality and is widely used by psychologists in their professional performance. This research aimed to investigate how professionals use the test, regarding the application, correction, interpretation, contexts of use, main objective and target audience. To this end, an online questionnaire was conducted with 191 psychologists from the five Brazilian regions, aged between 22 and 71 (M=41.16 and SD = 1.92), ofwhich 83% were female. The results indicated failures in the management of the test by some professionals, related to the context of use and objective; in addition to the application and interpretation without support of the manual and the non-use of the survey after the drawing. Taking into account the fact that the test is constantly taught at the undergraduate level and used in professional practice, the need for more attention to be paid to the training of psychologists in psychological assessment is discussed.

Keywords: Psychological Assessment; Projective Techniques; Drawing of the House-Tree-Person

RESUMEN

La Técnica de Dibujo Casa-Árbol-Persona es un método proyectivo gráfico que evalúa aspectos de la personalidad y es ampliamente utilizado por los psicólogos en su desempeño profesional. Esta investigación tuvo como objetivo investigar cómo los profesionales utilizan la prueba, en relación con la aplicación, corrección, interpretación, contextos de uso, objetivo principal y público objetivo. Para ello, se realizó un cuestionario en línea con 191 psicólogos de las cinco regiones brasileñas, con edades comprendidas entre 22 y 71 años (M=41,16 y DE=1,92), de los cuales 83% eran mujeres. Los resultados indicaron fallas en el manejo de la prueba por parte de algunos profesionales, relacionadas con el contexto de uso y objetivo; además de la aplicación e interpretación sin soporte del manual y la no utilización de la encuesta tras el dibujo. Teniendo en cuenta el hecho de que la prueba se enseña constantemente a nivel de pregrado y se utiliza en la práctica profesional, se discute la necesidad de prestar más atención a la formación de psicólogos en evaluación psicológica.

Palabras clave: Evaluación Psicológica; Técnicas Proyectivas; Dibujo de la casa-árbol-persona

A Resolução nº 31, de 15 de dezembro de 2022, sancionada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), define a avaliação psicológica como sendo um processo estruturado de investigação de fenômenos psicológicos. Os testes psicológicos estão entre as fontes fundamentais de informações desse processo, são de uso privativo dos psicólogos (Conselho Federal de Psicologia [CFP], 2022b), e apresentam diferentes tipos, quanto ao objetivo, constructo avaliado e método. Mais especificamente, os métodos projetivos envolvem a execução de tarefas que apresentam estímulos indefinidos ou imprecisos, na qual o indivíduo submetido à avaliação pode atribuir um sentido particular (Villemor-Amaral & Cardoso, 2019).

A Técnica do Desenho da Casa-Árvore-Pessoa (HTP), versão de Buck (2003), se apresentou como instrumento para avaliação da personalidade para uso profissional dos psicólogos desde sua aprovação no Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI) em 2004, até janeiro de 2024. Esse método projetivo proporciona uma compreensão dinâmica das características e do funcionamento da pessoa avaliada, por meio da projeção de elementos da personalidade e de áreas de conflito na situação terapêutica. (Borsa, 2010; Buck, 2003). O HTP2 se destaca, por sua popularidade, em razão do seu baixo custo e facilidade de aplicação (Lago & Bandeira, 2008). Além de ser um dos testes psicológicos mais ensinados em cursos de graduação em Psicologia (Freitas & Noronha, 2005), é um dos mais utilizados por psicólogos na prática profissional (Dias-Viana & Costa, 2021; Gasparetto & Schmidt, 2013; Reppold et al., 2020).

Cabe salientar que o HTP conta com versão recente do seu manual técnico para uso profissional no Brasil, que foi atualizado com novos estudos que comprovam suas evidências psicométricas (Tardivo et al, 2024), aprovada pelo SATEPSI (CFP, 2022b), em dezembro de 2023. Cabe salientar que a presente pesquisa foi realizada anteriormente à versão atual do manual técnico, o que não interfere no objetivo da presente pesquisa, considerando que a opinião dos psicólogos podem auxiliar no melhor uso do instrumento, independente da versão utilizada.

Apesar de o HTP ser amplamente utilizado, a versão de Buck (2003) ao longo dos anos recebeu questionamentos, tanto a respeito de seus parâmetros psicométricos, quanto em relação à falta de evidências de validade e fidedignidade (Borsa, 2010). Em revisão de literatura, com o foco em suas qualidades psicométricas, foram identificados 14 artigos científicos, publicados entre os anos de 1999 e 2018 (Dias-Viana, 2020). Desses, 12 artigos apresentavam objetivos de avaliar os aspectos emocionais de populações clínicas, por meio do uso do HTP, tendo sido encontrados dois artigos sobre estudos de validade que envolviam o uso dessa técnica (Farah et al., 2014; Silva & Villemor-Amaral, 2006). Esses resultados demonstraram o pequeno avanço no campo científico do teste nos últimos anos, principalmente no que tange ao caráter psicométrico (Dias-Viana, 2020).

Outro aspecto relevante do HTP diz respeito à correção, pautada na interpretação e análise do avaliador, pois existe a pressuposição de ser interpretado de modo subjetivo (Borsa, 2010). O HTP foi desenvolvido por John N. Buck, em 1948, mas recebeu influência de teorias psicodinâmicas propostas por diferentes autores (Anzieu, 1981; Grassano & Dantas, 2012; Hammer, 1981; Van Kolck, 1984) que, ao longo dos anos, trouxeram contribuições diversas para os critérios interpretativos. Além disso, o manual técnico (Buck, 2003) apresentava evidências de pouca objetividade e faltavam informações sobre os critérios interpretativos, o que poderia levar os profissionais sem experiência a apresentarem dificuldades no estabelecimento desses critérios ou a fazerem uso dele de maneira equivocada (Borsa et al., 2018; Borsa, 2010; Peres et al., 2007).

No âmbito nacional, os testes psicológicos devem apresentar características técnicas necessárias que atestem seu caráter científico, que inclui evidências de validade, fidedignidade, padronização e estudos normativos (CFP, 2022b). No entanto, constantes pesquisas sobre as qualidades psicométricas do instrumento são importantes, a fim de se aprimorar o método, atualizá-lo quanto às pertinências social e cultural e também proporcionar confiança aos profissionais que o utilizem (Cardoso & Villemor-Amaral, 2017).

A aplicação, correção e interpretação dos testes psicológicos devem seguir rigorosamente as orientações, padronização e normatização contidas no manual técnico aprovado pelo SATEPSI (CFP, 2022b). O uso inadequado do teste constitui falta ética, conforme estabelecido no Código de Ética Profissional – CEPP (CFP, 2005), o que pode acarretar uma compreensão inadequada da pessoa que está sendo avaliada, uma vez que qualquer modificação nas etapas do teste pode alterar o seu resultado. Portanto, é preocupante que muitos psicólogos atuem nessa área sem terem formações técnica e teórica necessárias (Borsa, 2016). Ademais, o uso inadequado dos testes psicológicos no Brasil está entre os principais problemas relacionados à avaliação psicológica (Zaia et al., 2018). Nesse sentido, a formação profissional deve preparar os profissionais com as competências básicas necessárias, tanto para realizar o processo de avaliação psicológica, quanto para o uso adequado dos instrumentos (Primi, 2018).

No Brasil, o psicólogo formado no curso de graduação está autorizado pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) a conduzir um processo de avaliação psicológica e a utilizar testes psicológicos, independentemente das disciplinas que cursou (Bandeira, 2018). Isso porque as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Psicologia estabelecem objetivos, habilidades e competências a serem desenvolvidas na formação do psicólogo, a fim de que ele possa fazer avaliação psicológica (CNE, 2019). Ainda assim, os cursos têm flexibilidade nos seus conteúdos programáticos, para elencar quais competências e habilidades vão oferecer, ou não, aos discentes, de acordo com o interesse da instituição (Bandeira et al., 2021). Ou seja, apesar da importância e da exclusividade da prática para os psicólogos, a oferta de disciplinas de avaliação psicológica, no Brasil, em muitos cursos, ainda se apresenta limitada (Bandeira et al., 2021).

As publicações a respeito das limitações quanto ao ensino de disciplinas de avaliação psicológica, nos cursos de graduação em Psicologia no Brasil pontuam sobre carga horária reduzida, falta de professores qualificados, visão limitada e preconceituosa em relação à avaliação psicológica e ausência de estágios supervisionados (Ambiel et al., 2019; Bandeira et al., 2021; Bardagi et al., 2015; Borsa, 2016; Cardoso & Gomes, 2019; Mendes et al., 2013; Noronha et al., 2013; Padilha et al., 2007). Apontam, ainda, para a necessidade do domínio de diferentes arcabouço teórico (Borsa, 2021) que levem em consideração os diversos tipos de instrumentos utilizados no processo de avaliação psicológica, como, por exemplo, os testes psicométricos e os métodos projetivos e expressivos (Primi, 2010).

Sendo assim, a fim de subsidiar a compreensão acerca do uso desse instrumento para os profissionais que o utilizam, a presente pesquisa objetivou investigar como os profissionais da Psicologia utilizam o teste quanto à aplicação, correção e interpretação do instrumento, além de identificar os modos de uso do teste, para qual objetivo e o público-alvo de aplicação. Para tanto, as seguintes hipóteses foram levantadas sobre a atuação profissional dos psicólogos: 1. utilizam o teste em outros contextos, além do contexto clínico; 2. fazem a aplicação do teste conforme as instruções do manual técnico; 3. interpretam o teste de acordo com as orientações do manual técnico; 4. aprenderam o HTP na graduação. Essas hipóteses foram pensadas a partir da suposição de que há uma má utilização do instrumento, na prática profissional, o que pode estar desqualificando a técnica e gerando pouco interesse dos pesquisadores, quanto a qualidade psicométrica do mesmo. Portanto, a má utilização deve estar relacionada ao despreparo do profissional e aos problemas na formação?

Embora outros estudos já tenham sido realizados com objetivo de conhecer sobre o uso dos testes na prática profissional, a necessidade de desenvolver estudos atuais relacionando o uso de instrumentos de avaliação psicológica com a prática profissional torna-se relevante. Assim, salutar considerar que pesquisas dessa natureza se justificam, pois constroem conhecimento acerca de um instrumento muito usado pelos profissionais, como é o caso do HTP, que é o método projetivo mais utilizado pelos psicólogos.

Método

Participantes

Participaram da pesquisa 191 psicólogos, entre 22 e 71 (M=41,16 e DP=1,92) anos, sendo 82,72% (n=158) do sexo feminino. Nessa amostra, a região Nordeste teve 57,07% dos respondentes (n = 109), seguida pelas Centro-Oeste e Sudeste, ambas com 16,23% (n=31) cada. A região Sul contribuiu com 7,33% (n=14), e a Norte, com 3,14% (n = 6). Os participantes estavam formados, em média, há 12,45 anos (DP=4,08); trabalhavam com o HTP, em média, há 7,53 anos (DP=6,49); e 93,72% n=79) tinham pós-graduação concluída, ou em andamento, no momento da coleta de dados.

Instrumento

Utilizou-se um questionário on-line da plataforma Google Formulários, elaborado pela primeira autora, com questões sobre dados sociodemográficos e informações referentes ao teste, sobre público-alvo de aplicação, objetivos da aplicação, utilização de materiais, uso do inquérito posterior ao desenho como etapa da aplicação do teste e uso do manual técnico para correção e interpretação dos desenhos. O questionário on-line contou com 16 perguntas objetivas das quais, em 10, para selecionar apenas uma alternativa, e, em seis, de múltipla escolha.

Análise de Dados

Os dados foram analisados utilizando análises descritivas (análise de frequência/percentual, média e desvio-padrão), por meio de cálculos realizados no programa Microsoft Excel 2019.

Procedimentos éticos e de coletas de dados

Os dados foram coletados no primeiro semestre de 2022. Para a coleta, realizou-se convite aos 24 Conselhos Regionais de Psicologia, à Associação Brasileira de Avaliação Psicológica (IBAP) e à Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo), para que apoiassem a divulgação dessa pesquisa, nas mídias sociais e via mala-direta aos psicólogos associados. Do total de instituições contatadas (26), 16 Conselhos Regionais recusaram e/ou não responderam. Os oito Conselhos Regionais de Psicologia, o IBAP e a ASBRo divulgaram a pesquisa por meio de um link enviado por e-mail em seus canais de comunicação, mediante o Termo de Anuência Institucional. A pesquisa recebeu 269 respostas ao questionário on-line e, dessas, 78 (28,99%) participantes responderam que não fazem uso do HTP em sua prática profissional, que totalizou em 191 (71,00%) psicólogos que compõem a amostra. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, sob o parecer nº 53322121.3.0000.5690.

Resultados

Quanto à área de atuação, os respondentes poderiam responder de forma múltipla, dentre as alternativas apresentadas no questionário. Do total, 89,01% (n=170) responderam atuar em apenas uma área, e 10,99% (n=8) que atuam em 2 a 4 áreas. A área clínica obteve 50,00% (n = 113) das respostas, seguida da área acadêmica, com 9,73% (n = 22), e da saúde e jurídica, com 7,52% (n = 17).

As áreas organizacional e do trabalho, e trânsito apresentaram 5,31% (n=12) dos respondentes, enquanto as social e escolar/educacional receberam 3,98% (n=9). A área hospitalar recebeu 1,77% (n=4) das respostas, testagem psicológica e área Prisional receberam 1,33% (n=3) cada. Outros (2,21%, n=5) compreendem outras áreas de atuação e locais citados apenas uma vez. Na Figura 1 foram elencadas as frequências de resposta por área.

Figura 1 Áreas de atuação dos psicólogos 

A respeito do local onde os psicólogos informaram ter aprendido o HTP, foram elencadas 12 respostas diferentes, das quais 3 contemplaram duas respostas, contabilizando ao todo 194 respostas. Dessas, 61,90% (n = 120) disseram ter aprendido o HTP na graduação, seguido de cursos específicos do HTP, com 17,50% (n=24); de cursos de pós-graduação lato sensu, com 7,20% (n=14); e de cursos de curta duração sobre Avaliação Psicológica, com 6,70% (n=13). Houve também indicação de quem aprendeu com a prática profissional, 2,10% (n=4); com o manual técnico do instrumento, 1,50% (n=13); e nas pós-graduações stricto sensu 1,00% (n=2). Outras opções elencadas em menor número foram: programas de aprimoramento profissional (n = 1), monitoria de TEP I e II (n = 1), estágio em Avaliação Psicológica (n = 1) e ser autodidata (n = 1). Os resultados são apresentados na Figura 2.

Figura 2 Onde os psicólogos aprenderam o HTP 

No que tange à frequência de uso, os participantes da pesquisa, em sua maioria, (54,45%) afirmaram utilizar o HTP ocasionalmente em suas Avaliações Psicológicas, enquanto 36,65% disseram utilizá-lo frequentemente e 8,9% alegaram usar raramente.

Em relação ao público atendido foram apresentadas as alternativas: crianças, adolescentes, adultos e idosos. Os participantes poderiam, então, assinalar as alternativas que se aplicassem ao seu caso. Do total, 20,42% (n=39) responderam que atendem respectivamente crianças, adolescentes e adultos; outros 19,37% (n=37) atendem apenas adultos; 17,28% (n=33) atendem crianças e adolescentes; 11,52% (n=22), adolescentes e adultos; 10,99% (n = 21), somente crianças; 6,81% (n=13) assinalaram atender todas as populações elencadas (crianças, adolescentes, adultos, idosos); 5,76% (n=11), somente adolescentes; 3,66% (n = 7) atendem crianças e adultos; 2,09% (n=4) atendem o público de adolescentes, adultos e idosos; 1,57% (n=3) atendem apenas adultos e idosos; e 0,52% (n=1) alegaram atender crianças, adultos e idosos.

Sobre os objetivos almejados na aplicação do teste, dentre os itens elencados, a maioria (92,70%) disse utilizar o teste para avaliar aspectos da personalidade; 43,50% alegaram o objetivo de conhecer aspectos psicopatológicos; e 26,20%, para conhecer aspectos do desenvolvimento cognitivo, conforme mostra a Figura 3.

Figura 3 Objetiuos para a utilização/aplicação do HTP 

Para a aplicação do HTP, 99,50% responderam utilizar folha de papel A4; 99,00% utilizam lápis; 73,80% utilizam borracha; e 19,40% alegaram usar giz de cera. Na Figura 4, estão distribuídas as categorias de materiais utilizados na aplicação do HTP, segundo a frequência e o percentual de citação de cada item elencado e incluído pelos 191 participantes da pesquisa.

Figura 4 Materiais usados na aplicação do HTP 

Quanto à possibilidade de aplicação do HTP em duas fases, acromática e cromática, e sobre a frequência de aplicação de cada uma ou de ambas, 49,20% aplicam em ambas fases, seguidos de 42,90% que usam somente a fase acromática e de 12,60% fazem a aplicação somente da fase cromática.

A respeito da utilização do inquérito posterior ao desenho, também previsto no manual do HTP (Buck, 2003), metade dos respondentes informaram utilizar parcialmente o inquérito em sua prática profissional; outros 46,60% utilizam o inquérito, realizando todas as perguntas, ou seja, integralmente; e 2,6% não usam essa parte do instrumento.

Em relação ao manejo do HTP, quanto à frequência de consulta ao manual técnico do teste, 59,20% sempre recorrem ao manual; 31,90% recorrem quase sempre; 8,40% raramente; e 0,50% nunca consulta o manual. Na tabela 1, é possível verificar o percentual e a frequência dada a cada variável.

Tabela 1 Frequência de respostas sobre as fases de aplicação, inquérito posterior ao desenho e consulta ao manual físico 

Variáveis n %
Fases de aplicação Ambas 94 49,20%
Apenas acromática 82 42,90%
Apenas cromática 24 12,60%
Inquérito posterior ao desenho Utilizo realizando todas as perguntas 97 50,80%
Utilizo parcialmente 89 46,60%
Não utilizo 5 2,60%
Frequência de consulta ao manual físico do HTP Sempre 113 59,20%
Quase sempre 61 31,90%
Raramente 16 8,40%
Nunca 1 0,50%

Para realizar a interpretação dos desenhos do teste, 96,86% utilizam como fonte principal o manual técnico, seguido dos que utilizam livros sobre interpretação de desenhos, com 35,10%. Artigos científicos foram citados por 28,80%; supervisão, por 27,20%; 4,70% fazem busca na internet; e 5,80% utilizam outras fontes.

Discussão

O objetivo do presente estudo foi investigar o modo como os psicólogos fazem o uso do HTP na prática profissional. Uma das hipóteses iniciais de que o psicólogo, em sua prática, usa o HTP em outros contextos, além do clínico. Levando em conta, no que se refere à aplicação do teste, foi confirmada a recomendação de uso prevista no manual (Buck, 2003), sabe-se que é para o contexto clínico, já que é nessa condição que se encontra a possibilidade de se apreenderem as particularidades da pessoa durante a aplicação. O manual de Buck (2003), portanto, não deixa clara a restrição da utilização do teste em outros contextos, mas pontua o seu caráter idiossincrático, que se faz necessário para análise mais pormenorizada de quem está sendo avaliado, associada a outras informações que, normalmente, só são possíveis de serem acessadas no contexto clínico.

Nesse sentido, de acordo com os resultados, essa hipótese foi parcialmente corroborada, uma vez que 50,00% dos participantes disseram atuar em outras áreas que não na clínica. Tal fato decorre de possíveis vieses de entendimento a respeito da pergunta. Como exemplo, tem-se o uso do teste no contexto acadêmico (9,73%), quando se podem utilizar instrumentos psicológicos fora de seu contexto de recomendação, com o objetivo formativo (CFP, 2022); ou no contexto de avaliação psicológica (1,33%), justificado por abarcar uma área de atuação que pode estar incluída em qualquer ambiente da prática profissional, já que tem como foco o processo de investigação.

No contexto hospitalar, o HTP é amplamente utilizado, conforme mencionado por Peres et al., (2007) e é um âmbito de atuação em que o teste é muito conveniente. Tal afirmação é reforçada por pesquisas que investigaram seu uso em crianças, adolescentes e adultos nesse ambiente (Bonassi & Navarro, 2018; Diniz et al., 2006; Munhoz & Ortiz, 2006; Neto et al., 2020; Xavier et al., 2015). Além disso, no ambiente hospitalar a tarefa proposta no HTP tende a ser bem aceita, pois envolve situações que o indivíduo pode apresentar dificuldades de expressão verbal, visto que os o teste emprega a comunicação gráfica, que é menos suscetível aos mecanismos de defesa do que a linguagem verbal (Buck, 2003; Peres et al., 2007).

Deve-se destacar que existem condições de inviabilidade, tanto no contexto hospitalar, como em outros contextos, que se referem a limitações físicas e à falta de condição ambiental para aplicação dos testes. No caso de outros contextos, como o jurídico, o organizacional, o do trânsito e o prisional, quem está sendo avaliado pode estar sujeito ao campo da desejabilidade social, o que pode influenciar as respostas, resultando num não comprometimento adequado ao processo de avaliação (Borsa, 2010).

Além desses, nos contextos de saúde, social, escolar e outros, o tempo disponível para o processo avaliativo normalmente é limitado, ocasionando a perda de informações verbais, não verbais e gestuais importantes para a compreensão do conteúdo da resposta (Borsa et al., 2018; Borsa, 2010). Portanto, independentemente do contexto de inserção do psicólogo, a utilização do instrumento deve ter um caráter clínico, pois, somente por meio dessa condição, é possível não só a apreensão das particularidades do avaliando, como também a utilização de outros instrumentos em conjunto (Borsa, 2010). De qualquer modo, destaca-se a necessidade de comprovações científicas que justifiquem a utilização do HTP, já que não foram encontrados estudos brasileiros de validade e nor-matização que garantissem os resultados a respeito do uso do HTP em outro contexto que não o clínico (Borsa et al., 2018; Dias-Viana, 2020).

A segunda hipótese referente aos psicólogos não estarem fazendo a aplicação do teste conforme as instruções do manual técnico, foram realizadas perguntas referentes ao material que utilizam na aplicação do teste, quais fases de aplicação (acromática e cromática) utiliza e o público-alvo da avaliação. Em relação à primeira questão, ou seja, ao material utilizado na aplicação do teste, constatou-se o uso adequado dos itens que são mencionados no manual, como folha de papel A4, lápis de escrever e borracha. Sobre o público-alvo de maior aplicação do HTP, os profissionais disseram estar utilizando o teste de acordo com a indicação do manual, tendo obtido maior destaque a aplicação para crianças, adolescentes e adultos.

Já, referente ao uso das fases de aplicação do teste (acromática e cromática), mesmo o resultado tendo demonstrado que 49,20% dos profissionais utilizam ambas fases, o fato de 12,60% dos participantes alegarem usar somente a fase cromática, ou seja, somente a fase de desenhos coloridos indicou o uso incorreto do teste. O modo de aplicação exclusivamente com desenhos coloridos não está fundamentado nas instruções de uso do teste, que orienta a aplicação da fase cromática como opcional, com vistas a investigar a personalidade em um nível mais profundo que o desenho acromático (Buck, 2003; Hammer, 1981).

Quanto à utilização do inquérito posterior ao desenho, 50,80% dos participantes executam todas as perguntas que constam do protocolo de interpretação; outros 46,60% utilizam o inquérito, realizando as perguntas de forma parcial; e 2,60% não utilizam o inquérito na aplicação. O fato de alguns profissionais alegarem não utilizar o inquérito em sua aplicação corrobora a hipótese de não utilização do teste tal como preconizado no manual. Uma pontuação importante no manual (Buck, 2003), acerca do inquérito posterior ao desenho, esclarece sobre a pessoa, após desenhar, têm a oportunidade de expressar pensamentos e associações, sendo o Protocolo de Interpretação uma “sugestão” de perguntas a serem realizadas, a fim de se obterem informações a respeito do conteúdo de cada desenho.

Para interpretação do teste, quanto à hipótese de uso sem evidências científicas, os resultados apontaram o uso correto, com 96,90% dos respondentes elencando o manual do teste como sendo a principal ferramenta para amparar a interpretação dos desenhos. Ademais, devido à possibilidade de respostas múltiplas, alguns citaram utilizar a busca na internet (4,70%) ou em outras fontes (5,80%), o que pode ser considerado uma interpretação baseada no senso comum, desconsiderando a cientificidade da técnica.

O autor (Buck, 2003), no manual, evidencia que os desenhos obtidos no teste não devem ser avaliados pelo senso comum. Há orientação para que se siga o material de exemplo, a fim de orientar o desenvolvimento de hipóteses interpretativas, que não devem ser usadas isoladamente no diagnóstico de psicopatologias. As conclusões diagnósticas devem ser orientadas pelo protocolo de interpretação, juntamente com a história clínica completa e com outros instrumentos padronizados de avaliação, para aprofundar a compreensão clínica da pessoa (Borsa et al., 2018; Buck, 2003).

Nesse sentido, torna-se preocupante a resposta de alguns participantes, quanto à frequência de consulta ao manual físico do teste, em que 8,40% alegaram fazê-lo raramente, enquanto 0,50% alegou nunca realizar a consulta. Logo, ao fazer uso do teste, deve-se fazer uso do manual que, como já exposto, é fonte de interpretação daquele, sendo imprescindível a sua consulta sempre que aplicar o instrumento. Assim, ainda que esse resultado seja pouco expressivo, faz-se necessário pontuá-lo, porque ainda ocorre na prática profissional, reforçando as suposições de má utilização do teste (Borsa, 2010).

Quanto a hipótese referente ao modo de aplicação do teste, conforme as instruções do manual técnico (Buck, 2003), os psicólogos, na sua maioria usam o material adequado na aplicação do teste e alguns que usam itens não mencionados no manual técnico. Sobre o público-alvo em que o método é mais aplicado, os profissionais, em sua maioria fazem uso de acordo com a sua idade (crianças, adolescentes, adultos e idosos) prevista no manual. Apesar de fazerem uso de acordo com o manual, não foi possível determinar se o uso abrange a idade mínima esperada, para a partir de 7 anos de idade, ou se é utilizado com menores dessa idade. A versão do HTP (Tardivo et al, 2024) prevê o uso do método para a faixa etária de 6 anos a 90 anos de idade.

Ainda sobre a aplicação do teste (fases acromática e cromática), tanto os 47,00% dos profissionais utilizam ambas fases, quanto os 41,00% que responderam usar somente a fase acromática, implicam no uso correto (Buck, 2003). Mas, 12,00% usam somente a fase cromática, que indica uso incorreto do teste. O modo de aplicação exclusivamente com desenhos coloridos não está fundamentado no modo de aplicação do teste, que orienta a aplicação da fase cromática como opcional, para investigar a personalidade em um nível mais profundo que o desenho acromático (Buck, 2003; Hammer, 1981). O uso do HTP em duas fases, cromática e acromática, não é mais prevista na versão atual do HTP (Tardivo et al, 2024), sendo apenas a forma acromática validada.

Quanto à utilização do inquérito posterior ao desenho, 50,80% fazem todas as perguntas que constam do protocolo de interpretação; outros 46,60% utilizam o inquérito, de forma parcial; e 2,60% não utilizam o inquérito na aplicação. A informação de alguns profissionais não utilizarem o inquérito na aplicação, corrobora a hipótese de não utilização do teste tal como sugerido no manual técnico. Segundo Buck (2003), o manual técnico, sobre o uso do inquérito posterior ao desenho, esclarece que a pessoa, após desenhar, possui a oportunidade de expressar pensamentos e associações, em relação a sua produção gráfica. O Protocolo de Interpretação apresenta uma “sugestão” de perguntas a serem realizadas, a respeito do conteúdo de cada desenho. A versão atual do HTP (Tardivo et al., 2024), não apresenta protocolo de inquérito, sendo da escolha do profissional fazer perguntas que possam esclarecer sobre os desenhos realizados.

Quanto à hipótese dos profissionais fazerem uso do manual para interpretação do teste, 96,90% fazem uso como principal ferramenta para subsidiar a interpretação dos desenhos. Ademais, devido à possibilidade de respostas múltiplas, alguns utilizam a busca na internet (4,70%) ou em outras fontes (5,80%). Como essas fontes não foram informadas, pode haver interpretação baseada no senso comum. No manual técnico, Buck (2003) evidencia que os desenhos não devem ser avaliados pelo senso comum. Há orientação para que se sigam o exemplo sugerido, a fim de orientar o desenvolvimento de hipóteses interpretativas, que não devem ser usadas isoladamente no diagnóstico de psicopatologias. As conclusões diagnósticas devem ser orientadas pelo protocolo de interpretação, juntamente com a história clínica completa e com outros instrumentos padronizados de avaliação, para aprofundar a compreensão clínica, de modo idiográfico (Borsa et al., 2018; Buck, 2003).

Nesse sentido, considerando a competência teórica e técnica dos psicólogos, a baixa frequência (8,40%) de consulta ao manual físico é preocupante. Logo, ao fazer uso do teste, deve-se fazer uso do manual técnico, da versão aprovada no SATEPSI, que é fonte mais adequada para aplicação e interpretação. Assim, ainda que essa porcentagem seja pouco expressiva, corrobora com a possibilidade de má utilização do teste na prática profissional (Borsa, 2010).

Quanto à última hipótese de que os profissionais aprenderam o HTP na graduação, esta foi confirmada, para 60% da amostra, corroborando as afirmações de Reppold et al. (2020), que destacaram a tendência conservadora dos psicólogos ao escolher os instrumentos que utilizam no processo de avaliação psicológica, tanto no Brasil, como em outros países. Nessa perspectiva, tais dados demonstram que o uso e a consequente popularização do HTP podem estar relacionados a experiências advindas do contexto da graduação (Freitas & Noronha, 2005), que podem ter sido geradoras de uma confiança no instrumento, devido seu amplo ensino na graduação (Gomes, 2015), aliado ao seu baixo custo do material para aplicação, facilidade da aplicação (Lago & Bandeira, 2008) e possível preferência pessoal do psicólogo.

A respeito das demandas para uso teste em sua prática profissional, como um dos instrumentos, no processo de avaliação psicológica, o HTP é utilizado com o objetivo principal de avaliar aspectos da personalidade (92,70%), para a maioria dos psicólogos e para conhecer aspectos psicopatológicos (43,50%), assim como o previsto no manual (Buck, 2003). Outro dado relevante, e que possivelmente apresenta um viés (da compreensão da pergunta), é que 26,20% dos profissionais utilizam o HTP para avaliação do desenvolvimento cognitivo, que não é um objetivo proposto para o teste, mas que pode ter sido mal interpretada a pergunta, considerando que o desenho da figura humana faz tal interpretação. Durante o desenvolvimento do HTP, na fase de construção, foi utilizado como medida de funcionamento de aspectos intelectuais e como medida qualitativa de personalidade, estando os dois processos interligados na produção do desenhar (Buck, 2003; Silva, 2008). Contudo, o autor reiterou que as pesquisas relacionadas à avaliação da inteligência, por meio do HTP se mostraram inconclusivas ao longo dos anos, tendo sido, assim, abandonadas (Buck, 2003, p.145). Pondera-se se a escolha pela utilização do HTP pelos psicólogos, na prática de avaliação psicológica estaria baseada nas evidências de validade, ou se na confiança do profissional de que o HTP possa servir para investigar os aspectos da personalidade, independentemente do contexto de atuação do psicólogo, estimulada pela facilidade e acesso ao teste. Por conseguinte, esse questionamento pode indicar como a seleção de instrumentos pode ser tendenciosa e servir a outras questões e motivações do próprio profissional, e não ao principal foco da avaliação psicológica: no caso, a pessoa a ser avaliada e sua demanda (Gomes, 2015).

Portanto, evidencia-se aspectos de falha na formação profissional, como falta de conhecimentos teórico e/ou prático do processo de aplicação e interpretação do teste. Tais evidências se mostram salutares, para se pensar estratégias de mudança na grade disciplinar dos cursos, de modo, a superar o ensino tecnicista e pouco reflexivo (Ambiel et al., 2019). Assim, o desenvolvimento de competências e habilidades referentes ao conhecimento sobre as propriedades psicométricas de testes psicológicos, a fim de proporcionar uma compreensão mais aprofundada desses instrumentos, e consequente uso consciente (Ambiel et al., 2019; Nunes et al., 2012), seriam salutares. Nesse sentido, conferindo o exposto por Borsa (2021), quando afirma que “o desenvolvimento das competências necessárias para o exercício da avaliação psicológica envolve o aprendizado de diferentes teorias, fundamentos e instrumentais” (p. 79), corrobora-se que tanto o conhecimento a respeito dos diferentes instrumentos psicológicos, quanto o aprofundamento das teorias que embasam esses testes são necessários.

Cumpre destacar que a maioria dos respondentes (n=179) possuem pós-graduação concluída ou em curso, com prevalência em nível de especialização. Entende-se, assim, que recorrer à pós-graduação tornou-se uma solução necessária para manusear os instrumentos psicológicos de qualquer natureza, em especial os métodos projetivos gráficos, como o HTP. Reconhece-se que a pós-graduação possa ser um alicerce para adquirir os conhecimentos teórico e prático, necessários para uma atuação adequada na área de avaliação psicológica, para além da graduação (Borsa, 2016). Por outro lado, o alto índice de profissionais que cursam especializações ou pós-graduações (93,72%) também podem estar relacionados ao fortalecimento da área de avaliação psicológica nas últimas duas décadas, e pela possibilidade de especialidade nessa área, pelo CFP (CFP, 2022a; Wechsler et al., 2019).

A coleta de dados on-line apresentou vantagens, por ser uma ferramenta acessível, conveniente e que viabilizou a participação de psicólogos das cinco regiões brasileiras. Por outro lado, a amostra reduzida foi um fator limitador para conhecer a realidade do uso do HTP, por psicólogos de todos os estados brasileiros. Como considerações finais, os psicólogos, ao utilizarem o HTP, o fazem possivelmente de acordo com o que aprenderam na graduação, sem se aprofundarem em conhecimento específico na área da avaliação psicológica e sem o devido cuidado com o embasamento científico.

Constata-se também a falta de conhecimento de alguns profissionais em relação ao modo de aplicação do testes, objetivos e rigor no uso do manual técnico. Essas falhas, mais especificamente no manejo do teste, apesar de não retratarem a maioria dos participantes, reforçam as hipóteses iniciais de má utilização, relacionadas ao despreparo profissional, possivelmente em razão de conteúdos insuficientes no ensino da Avaliação Psicológica, assim como no engajamento do discente em se aprofundar nessa área do conhecimento. Nos cursos de graduação observa-se a necessidade de foco no desenvolvimento de competências e habilidades para a formação crítica do psicólogo, e a formação continuada dos professores e dos profissionais (Ambiel et al., 2019; Borsa, 2016), também necessária.

Embora o aprimoramento teórico e prático seja uma responsabilidade do psicólogo, é necessário que seja continuamente fomentado durante a formação acadêmica (graduação) e nos cursos de avaliação psicológica, pois existem problemas advindos do próprio ensino da disciplina, desde a graduação. Há necessidade de incentivo a discussão sobre os aspectos da formação e da educação continuada, importantes para os profissionais que atuam com testes psicológicos, no contexto da avaliação psicológica. O presente estudo mostra que a versão atual do HTP (Tardivo et al., 2024), sanou parte dos problemas que foram evidenciados na presente pesquisa, em relação ao manual técnico de Buck (2003), o que denota a necessidade de manutenção de estudos que possam contribuir com os parâmetros psicométricos e de formação dos psicólogos, para o oferecimento de prestação de serviços com mais cuidados técnicos e éticos para a sociedade.

Agradecimentos

Não há menções.

2Considerou-se pertinente manter ao longo do texto a sigla relacionada ao nome original do instrumento, levando-se em conta que no Brasil a nomenclatura em inglês é mais usualmente utilizada do que sua tradução para o português (Casa-Árvore-Pessoa).

FinanciamentoA presente pesquisa não recebeu nenhuma fonte de financiamento sendo custeada com recursos dos próprios autores.

Disponibilidade de dados e materiais

Todos os dados e sintaxes gerados e analisados durante esta pesquisa serão tratados com total sigilo devido às exigências do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos. Porém, o conjunto de dados e sintaxes que apoiam as conclusões deste artigo estão disponíveis mediante razoável solicitação ao autor principal do estudo

Referências

Anzieu, D. (1981). Os métodosprojetivos (3ª Ed.). Campus. [ Links ]

Ambiel, R. A. M., Zuanazzi, A. C., Sette, C. P, Costa, A. R. L., & Cunha, F. A. (2019). Análise de Ementas de Disciplinas de Avaliação Psicológica: Novos Tempos, Velhas Questões. Revista Avaliação Psicológica, 18(1), 21-30. https://doi.org/10.15689/ap.2019.1801.15229.03Links ]

Bandeira, D. R. (2018). A Controvérsia do Uso dos Testes Psicológicos por Psicólogos e Não Psicólogos. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(spe), 159-166. https://doi.org/10.1590/1982-3703000208860Links ]

Bandeira, D. R., Andrade, J. M. de, & Peixoto, E. M. (2021). O Uso de Testes Psicológicos: Formação, Avaliação e Critérios de Restrição. Psicologia: Ciência e Profissão, 41, 1-12. https://doi.org/10.1590/1982-3703003252970Links ]

Bardagi, M. P, Teixeira, M. A. P, Segabinazi, J. D., Schelini, P W., & Nascimento, E. do. (2015). Ensino da avaliação psicológica no Brasil: Levantamento com docentes de diferentes regiões. Avaliação Psicológica, 14(2), 253-260. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712015000200011&lng=pt&tlng=pt. [ Links ]

Bonassi, S., & Navarro, RS (2018). Doença renal crônica: fronteiras e desafios familiares. Revista do NESME.15(1). http://pepsic.bvsalud.org/pdf/vinculo/v15n1/v15n1a06.pdf.Brasil. [ Links ]

Borsa, J. C. (2016). Considerações sobre a formação e a prática em avaliação psicológica no Brasil. Temas em Psicologia, 24(1), 131-143. https://doi.org/10.9788/TP2016.1-09Links ]

Borsa, J. C., Lins, M. R. C., & Cardoso, L. M. (2018). Teste da casa-árvore-pessoa (HTP) na avaliação da personalidade. Em Avaliação Psicológica da inteligência e da personalidade (p. 571-591). Artmed. [ Links ]

Borsa, J. C. (2010). Considerações sobre o uso do Teste da Casa-Arvore-Pessoa — HTP Avaliação Psicológica, 9(1), 151-154. https://pepsic.bvsalud.org/pdf/avp/v9n1/v9n1a17.pdfLinks ]

Borsa, J. C. (2021). Formação profissional em avaliação psicológica: Integração entre ensino, pesquisa e extensão universitária. Revista Brasileira de Orientação Profissional, 22(1), 73-83. https://doi.org/10.26707/1984-7270/2021v22n107Links ]

Buck, J. (2003). Técnica Projetiva de desenho da casa-árvore-pessoa — H-T-P (1 edição). Vetor. [ Links ]

Cardoso, L. M., & Gomes, G. V A. (2019). O ensino de avaliação psicológica nas instituições de ensino superior do Ceará. Psicologia da Educação, (48), 55-66. https://doi.org/10.5935/2175-3520.20190007Links ]

Cardoso, L. M., & Villemor-Amaral, A. E. de. (2017). Critérios de cientificidade dos métodos projetivos. Em Avaliação Psicológica: Aspectos teóricos e práticos (p. 159-172). Vozes. [ Links ]

Conselho Federal de Psicologia — CFP (2005). Resolução CFP Nº 010/2005. Aprova o Código de Ética Profissional do Psicólogo. [ Links ]

Conselho Federal de Psicologia — CFP (2022). Resolução CFP No 31/2022. Estabelece diretrizes para a realização de Avaliação Psicológica no exercício profissional da psicóloga e do psicólogo, regulamenta o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos - SATEPSI e revoga a Resolução CFP nº 09/2018. [ Links ]

Dias-Viana, J., & Costa, T. (2021). Formação, contexto, instrumentos e prática profissional de psicólogos em avaliação psicológica. Psicologia Argumento, 39, 408-429. https://doi.org/10.7213/psicolargum39.105.AO03Links ]

Dias-Viana, J. L. (2020). Propriedades psicométricas do Teste House-Tree-Person (HTP): Análise da produção científica brasileira. Psicologia para América Latina, (34), 159-170. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1870-350XX2020000200007&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Diniz, A. M., Almeida, L. S., & Pais, L. G. (2007). Contextos profissionais e práticas da avaliação psicológica: Inquérito aos psicólogos portugueses. Psico-USF, 12, 01-12. https://doi.org/10.1590/S1413-82712007000100002Links ]

Farah, F. H. Z., Cardoso, L. M., & Villemor-Amaral, A. E. de. (2014). Precisão e validade do Pfister para avaliação de crianças. Avaliação Psicológica, 13(2), 187-194. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1677-04712014000200006&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Freitas, F. A. de, & Noronha, A. P P (2005). Clínica-escola: Levantamento de instrumento utilizados no processo psicodiagnóstico. Psicologia Escolar e Educacional, 9, 87-93. https://doi.org/10.1590/S1413-85572005000100008Links ]

Gasparetto, G. G., & Schmidt, E. B. (2013). Instrumentos utilizados no processo psicodiagnóstico em uma clínica escola. Perspectiva, 37(140), 39-48. https://www.uricer.edu.br/site/pdfs/perspectiva/140_371.pdfLinks ]

Gomes, L. P (2015). Testes Gráficos: Formação, Pesquisa e Práticas em Avaliação Psicológica (Dissertação). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. [ Links ]

Grassano, E., & Dantas, R. (2012). Indicadores Psicopatológicos Em Técnicas Projetiva. WMF Martins Fontes. [ Links ]

Hammer, E. F. (1981). Aplicações clínicas dos desenhosprojetivos. São Paulo: Casa do Psicólogo. [ Links ]

Lago, V. de M., & Bandeira, D. R. (2008). As práticas em avaliação psicológica envolvendo disputa de guarda no Brasil. Aval. psicol, 223-234. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_artte:xt&pid=S1677-04712008000200013&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Mendes, L. S., Nakano, T. de C., Silva, I. B., & Sampaio, M. H. de L. (2013). Conceitos de avaliação psicológica: Conhecimento de estudantes e profissionais. Psicologia: Ciência e Profissão, 33, 428-445. https://doi.org/10.1590/S1414-98932013000200013Links ]

Miguel, F. K., & Cardoso, L. M. (2021). Estratégias e metodologias para o ensino de testes psicológicos projetivos. Em Formação e estratégias de ensino em Avaliação Psicológica (p. 270-283). Vozes. [ Links ]

Munhóz, M. A., & Ortiz, L. C. M. (2006). Um estudo da aprendizagem e desenvolvimento de crianças em situação de internação hospitalar. Educação, n. 1 (58)(ano XXXIX), 65-83. http://cerelepe.faced.ufba.br/arquivos/fotos/128/munhozeortiz.pdf. [ Links ]

Neto, A. J. de M., Granado, L. C., & Salles, R. J. (2020). A compreensão das atitudes diante do diagnóstico de câncer de próstata no processo psicodiagnóstico interventivo. Revista da SBPH, 23(1), 66-80. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1516-08582020000100007&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Noronha, A. P. P., Castro, N. R. de, Ottati, F., Barros, M. V de C., & Santana, P. R. (2013). Conteúdos e Metodologias de Ensino de Avaliação Psicológica: Um Estudo com Professores. Paidéia (Ribeirão Preto), 23, 129-139. https://doi.org/10.1590/1982-43272354201315Links ]

Nunes, M. F. O., Muniz, M., Reppold, C. T., Faiad, C., Bueno, J. M. H., & Noronha, A. P. P. (2012). Diretrizes para o ensino de avaliação psicológica. Avaliação Psicológica, 11(2), 309-316. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1677-04712012000200016&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Padilha, S., Noronha, A. P. P., & Fagan, C. Z. (2007). Instrumentos de avaliação psicológica: Uso e parecer de psicólogos. Avaliação Psicológica, 6(1), 69-76. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1677-04712007000100009&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Peres, R. S., Santos, M. A. D., Rodrigues, A. M., & Okino, É. T. K. (2007). Técnicas projetivas no contexto hospitalar: Relato de uma experiência com o House-Tree-Person (HTP). RIDEP, 1(23), 41-62. https://www.redalyc.org/pdf/4596/459645446004.pdfLinks ]

Primi, R. (2010). Avaliação psicológica no Brasil: Fundamentos, situação atual e direções para o futuro. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 26, 25-35. https://doi.org/10.1590/S0102-37722010000500003Links ]

Primi, R. (2018). Avaliação Psicológica no Século XXXI: De Onde Viemos e para Onde Vamos. Psicologia: Ciência e Profissão, 38, 87-97. https://doi.org/10.1590/1982-3703000209814Links ]

Reppold, C. T., Wechsler, S. M., Almeida, L. da S., Elosua, P., & Hutz, C. S. (2020). Perfil dos Psicólogos Brasileiros que Utilizam Testes Psicológicos: Áreas e Instrumentos Utilizados. Psicologia: Ciência e Profissão, 40.https://doi.org/10.1590/1982-3703003201348Links ]

Silva, M. de F. X. da, & Villemor-Amaral, A. E. (2006). A auto-estima no CAT-A e HTP: Estudo de evidência de validade. Avaliação Psicológica, 5(2), 205-215. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1677-04712006000200010&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Van Kolck, O. L. (1984). Testes projetivos gráficos no diagnóstico psicológico (Vol. 5). EPU Pedagógica e Universitária. [ Links ]

Villemor-Amaral, A. E., & Cardoso, L. M. (2019). Avaliação da personalidade no Brasil utilizando métodos projetivos. Em Compêndio de Avaliação Psicológica (p. 475-482). Vozes. [ Links ]

Wechsler, S. M., Hutz, C. S., & Primi, R. (2019). O desenvolvimento da avaliação psicológica no Brasil: Avanços históricos e desafios. Avaliação Psicológica, 18(2), 121-128. https://doi.org/10.15689/ap.2019.1802.15466.02Links ]

Zaia, P., Oliveira, K. da S., & Nakano, T. de C. (2018). Análise dos Processos Éticos Publicados no Jornal do Conselho Federal de Psicologia. Psicologia: Ciência e Profissão, 38(1), 8-21. https://doi.org/10.1590/1982-3703003532016Links ]

Xavier, M. de F., Pereira, P A., Pupo, A. C. da S., & Silva, M. C. R. da. (2015). Particularidades do enfrentamento psicológico a partir do diagnóstico de recidiva do câncer. Boletim — Academia Paulista de Psicologia, 35(89), 409-423. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1415-711X2015000200010&lng=pt&nrm=iso&tlng=ptLinks ]

Recebido: 01 de Junho de 2023; Aceito: 01 de Fevereiro de 2025

1 Endereço para correspondência: Universidade Federal de Mato Grosso. Instituto de Educação – Departamento de Psicologia. Av. Fernando Corrêa da Costa, 2367, Boa Esperança, 78060-900, Cuiabá, MT. E-maíl:sheylammorski@gmail.com

Conflito de interesses

Os autores declaram que não há conflitos de interesse.

Artigo derivado da Dissertação de mestrado ou Tese de doutorado de Sheyla Magalhães Morski Resende com orientação de Rosangela Katia Sanches Mazzorana Ribeiro, defendida em 2023 no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT.

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution NonCommercial, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que sem fins comerciais e que o trabalho original seja corretamente citado.