O racismo brasileiro é estrutural e mantenedor das desigualdades entre negros e brancos (Carneiro, 2011), sendo exacerbado por fatores socioeconômicos, como escolaridade e renda (Souza, 2009). Apesar de comporem cerca de 56% da população, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], (2022), mostram que 72,90% das pessoas negras vivem abaixo da linha de pobreza, considerando o valor de 5,50 dólares por dia. Além disso, os níveis educacionais entre pretos e pardos continuam significativamente inferiores ao de pessoas Brancas, evidenciando as desvantagens persistentes enfrentadas pela população negra (IBGE, 2022).
Análises direcionadas a compreensão do racismo no Brasil evidenciaram que os locais de ocorrência de racismo mais lembrados por brasileiros foram: escola/ faculdade/universidade (38%), mercado de trabalho (29%), espaços públicos (28%), estabelecimentos comerciais (18%) e ambiente familiar (11%), (Instituto de Referência Negra - Peregum, 2023). Esses dados reforçam a natureza institucional do racismo enfrentado por essa comunidade, manifestando-se em diversos contextos (Almeida, 2019).
São significativos os impactos na vida de pessoas negras, atingindo diferentes âmbitos. Na escolarização, são elevadas as taxas de abandono escolar e baixo rendimento acadêmico (Jesus, 2018; Júnior & Silva, 2023). No âmbito psicológico, as experiências de racismo frequentemente resultam em altos níveis de estresse, ansiedade e depressão (Cénat et al., 2023; Su et al., 2021), assim como em menores níveis de autoeficácia e autoestima (Correia-Zanini et al., 2021). Socialmente, uma série de estereótipos negativos, que associam pessoas negras com criminalidade, e como não representativas de um ideal de beleza, por exemplo, (Lima et al., 2022; Techio et al., 2019). Além disso, tais experiências também se refletem nas dificuldades de inserção e desenvolvimento no mercado de trabalho (Thomas-Hawkins et al., 2022).
Ainda que, nem sempre manifesto de maneira agressiva e direta, as formas e expressões do racismo são cotidianamente atualizadas e ganham diferentes nomenclaturas ao redor do mundo, como racismo cordial (Turra & Venturi, 1995), racismo moderno (McConahay, 1986), racismo simbólico (Sears, 1965), racismo aversivo (Dovidio et al., 2002) e microagressão racial (Pierce, 1970). No fim, todas essas formas, tidas como sutis, visam encobrir esta atitude que atualmente, é socialmente inaceitável (Lima, 2020). O termo microagressões raciais foi cunhado inicialmente pelo psiquiatra Chester Pierce em 1970, e serve para caracterizar declarações e comportamentos sutis direcionados a pessoas negras, visando comunicar mensagens depreciativas a estes indivíduos (Sue et al., 2007).
Objetivando ampliar a compreensão relacionada as microagressões raciais, Sue et al. (2007), elaboraram uma taxonomia de classificação, sistematizada em três tipos: microassalto, microinsulto e microinvalidação. O microassalto se refere a uma diminuição racial explícita, direcionada a um indivíduo, em um ambiente mais particular. Microinsultos são mensagens grosseiras e insensíveis, que atacam a identidade racial da pessoa, envolvendo ações como, destacar que a pessoa até é uma negra inteligente, por exemplo, (Sue et al., 2007). Por sua vez, a microinvalidação, decorre de uma diminuição acerca dos pensamentos, sentimentos e experiências de uma pessoa negra, como, por exemplo, a pessoa diz que sofreu racismo e recebe como retorno, que isso é coisa da sua cabeça ou que está de vitimismo (Sue et al., 2007).
Na literatura brasileira a temática das microagressões raciais ainda é pouco discutida, (Júnior & Silva, 2023; Martins et al., 2020; Silva & Powell, 2016). No entanto, internacionalmente, essas investigações são mais robustas e abrangem uma variedade de contextos, como educação (Solorzano et al., 2000), contextos profissionais e de carreira (Cabell & Kozachuk, 2022; Pitcan et al., 2018; Williams et al., 2023), contextos de saúde (Cénat et al., 2023), assim como, a influência das microagressões no ambiente sistêmico (SkinnerDorkenoo et al., 2021).
Numa perspectiva mais psicométrica, três instrumentos se propõem a mensurar as microagressões raciais. Todos construídos com base na taxonomia de Sue et al. (2007) e com versões originais norte-americanas. A Racial and Ethnic Microaggressions Scale [REMS-45] (Nadal, 2011), desenvolvida com universitários e usuários da internet de origens latina, asiático-americana e multirraciais. É composta por 45 itens distribuídos em seis domínios (Assumptions of Inferiority; Second-Class Citizen and Assumptions of Criminality; Microinvalidations; Exoticization/Assumptions of Similarity; Environmental Microaggressions e Workplace and School Microaggression), apresentando propriedades psicométricas de α=0,76 a α=0,92.
A The Racial Microaggressions Scale [RMAS] (TorresHarding et al., 2012), avaliou microagressões junto a estudantes universitários e pessoas da comunidade que se identificaram como parte de grupos étnicos sub representados. Contém 32 itens distribuídos em seis dimensões (Environmental Invalidations; Foreigner/Not Belonging; Sexualization; Low-Achieving/Undesirable Culture; Criminality e Invisibility), cuja as propriedades psicométricas variaram de α=0,78 a α=0,89.
Por fim, a The Revised 28-Item Racial and Ethnic Microaggressions Scale [R28REMS] (Forrest-Bank et al., 2015), uma versão reduzida da REMS-45, desenvolvida com estudantes universitários negros, latinos/ hispânicos e asiáticos. Formada por 28 itens divididos em cinco fatores (Second-Class Citizen and Assumptions of Criminality; Assumptions of Inferiority; Assumptions of Similarities; Microinvalidations; Media Microaggressions), apresentou propriedades psicométricas que variaram de α=0,87 a α=0,88. Dentre as três escalas, a REMS-45, avaliou diversos contextos por meio de seus seis domínios e demonstrou melhor confiabilidade. Sendo, portanto, a medida escolhida para ser adaptada para o contexto brasileiro.
Psicologia brasileira, fenômenos raciais e medidas
Na psicologia, especificamente na psicologia social brasileira, mas não estritamente ela, têm-se verificado um crescente interesse nas investigações de temas relacionados a população negra, como estereótipos (Jairo & França, 2022; Lima et al., 2022), preconceito e discriminação (Carvalho & Schucman, 2022), atitudes raciais (Sacco et al., 2019), identidade racial (Nunes et al., 2021), por exemplo. No entanto, ainda são incipientes as investigações no Brasil que utilizam escalas e medidas no estudo destes fenômenos.
Algumas escalas e medidas psicométricas destinadas às investigações das manifestações do racismo, criadas ou adaptadas ao contexto brasileiro são: Escala de Racismo Cordial, criada por Turra e Venturi (1995), Escala norte americana de racismo moderno adaptada por Santos et al. (2006), Escala de atitudes étnico-raciais [EAER], construída por Fernandes e Pereira (2019) e a Escala de Racismo Revitimizador [ERR], construída por Lima et al. (2020).
Em relação ao estudo específico das microagressões raciais, a única medida conhecida no Brasil é a Gendered Racial Microaggression Scale [GRMS], que foi adaptada por Martins et al. (2020), tendo como objetivo mensurar as microagressões vivenciada por mulheres negras. A medida é composta por 39 itens (p. ex.: “me objetificou com base em características físicas”), os quais, as participantes reportaram a frequência de ocorrência da microagressão, variando entre Nunca (0) à Uma vez por semana ou mais (5), além disso, foi avaliado o quanto o evento experienciado é considerado estressante. A escala varia entre isso nunca aconteceu comigo (0) à extremamente estressante (5). Os resultados da medida, indicaram uma estrutura unifatorial, com índices de confiabilidade adequados (α=0,97).
Uma limitação dos estudos psicométricos no Brasil (Fernandes & Pereira, 2019; Lima et al., 2020; Martins et al., 2020; Santos et al., 2006; Turra & Venturi, 1995), que investigaram expressões e manifestações do racismo, abordando preconceitos e atitudes, tanto implícitos quanto explícitos, se refere ao público ao qual se direcionam as perguntas, já que a maioria dos instrumentos foi desenvolvida considerando a percepção de pessoas brancas sobre o fenômeno. Além de, mensurarem o racismo de forma mais abrangente, fato que, os tornam menos sensíveis a contextos e problemas específicos enfrentados por esta população. A GRMS (Martins et al., 2020), única medida brasileira conhecida, entretanto, direciona-se apenas a mulheres negras.
Considerando que o racismo no Brasil é um problema social complexo, estrutural, e que se manifesta em diferentes contextos (Almeida, 2019), identificar como as microagressões raciais ocorrem, permite que ações de intervenção e combate mais direcionados possam ser realizadas (Freires et al., 2022). Deste modo, a Racial and Ethnic Microaggressions Scale, (Nadal, 2011), se apresenta como instrumento potencialmente relevante e alvo do presente estudo. A REMS-45 pode ser aplicada em pessoas negras de distintos gêneros, e, pelo fato de ser constituída por seis subescalas, possui um caráter dinâmico que a torna passível de ser utilizada em variados contextos, como por exemplo, saúde, educação, trabalho e comunidade.
Racial and Ethnic Microaggressions Scale
A Racial and Ethnic Microaggressions Scale [REMS - 45] (Nadal, 2011), tem como objetivo avaliar os tipos de microagressões raciais que os indivíduos vivenciam cotidianamente. O instrumento abarca uma ampla gama de tipos de microagressões raciais, até então verificadas na sociedade. Para responder o instrumento os respondentes indicam a frequência de ocorrência de uma microagressão nos últimos seis meses. Os marcadores adverbiais variam de 0 = não experimentei este evento nos últimos seis meses à 5 = experimentei este evento cinco ou mais vezes nos últimos seis meses.
A Tabela 1 apresenta as definições, exemplos dos itens de cada dimensão e indicadores de confiabilidade.
Tabela 1 Definição de dimensões, itens e confiabilidade da Racial and Ethnic Microaggressions Scale
| Dimensões | Definição e exemplo de Item | α |
|---|---|---|
| Suposições de inferioridade | Suposição de que indivíduos negros são intelectualmente inferiores aos indivíduos brancos. (Item 17.: “Alguém ficou surpreso com meu sucesso escolar ou profissional por causa da minha raça/cor”). | 0,86 |
| Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade | Refere-se a suposição de que pessoas negras não devem receber o mesmo tratamento que pessoas brancas e também, de que negros são criminosos. (Item 31.: “Alguém protegeu sua bolsa ou carteira ao me ver por causa da minha raça/cor”) | 0,82 |
| Microinvalidações | Alegações que buscam negar a existência do Racismo e de diferenças entre indivíduos negros e brancos. (Item 33: “Alguém de cor diferente da minha afirmou que não há diferença entre nós dois”). | 0,79 |
| Exotização/ Suposições de Similaridade |
Caracteriza pessoas negras por particularidades físicas e busca associar que todas as pessoas negras são semelhantes. (Item 43: “Alguém objetificou uma das minhas características físicas por causa da minha raça/cor”). | 0,71 |
| Microagressões Ambientais | Destaca as pessoas negras, por serem exceção em espaços de poder e prestígio social. (Item 18: “Observei que pessoas da minha raça/cor possuem cargos de direção em grandes corporações”). | 0,76 |
| Microagressões no Local de Trabalho e na Escola | Ideias, pensamentos e ações de pessoas negras são desconsiderados nos ambientes de trabalho e escola. (Item 15.: “Minha opinião foi negligenciada em uma discussão em grupo por causa da minha raça/cor”). | 0,74 |
Tendo em vista que o fenômeno investigado é complexo e multifacetado, e vem demonstrando relações com fatores estruturais (renda, escolaridade), adicionalmente no presente estudo, serão verificadas as associações entre as microagressões raciais e os fatores socioeconômicos. Espera-se com isso, ampliar a rede nomológica e de discussões acerca dos fatores que podem influenciar a vivência das microagressões raciais, bem como favorecer evidências diversas de adaptação da medida para o contexto brasileiro.
Hipóteses do Estudo
Dentre as hipóteses, tem-se que: A REMS-45 adaptada será um instrumento aplicável ao contexto brasileiro, posto que, as manifestações ‘sutis’ de racismo também estão presentes neste contexto (Martins et al., 2020). Assim, espera-se que sejam encontradas evidências psicométricas de ajuste de modelo de estrutura interna similar ao da REMS-45 (H1), além de indicadores de confiabilidade adequados no que concerne à consistência interna da escala (H2).
Como evidência externa, espera-se encontrar associações negativas entre a REMS-45 com os dados sociodemográficos, de renda e escolaridade. Considerando, os dados socioeconômicos do Brasil, que evidenciam haver relação entre aspectos raciais, renda e escolaridade (IBGE, 2022), destacando a forte indicação de que pessoas negras enfrentam maior vulnerabilidade social quando comparadas às pessoas brancas. Espera-se na hipótese 3 e 4 que a REMS-45 apresenta correlação negativa com renda (H3), bem como com escolaridade (H4).
Método
Procedimentos de adaptação do instrumento
Para a adaptação e levantamento de evidências de validade da Racial and Ethinic Microaggressions Scale (Nadal, 2011) para o contexto brasileiro, foram seguidas as diretrizes da International Test Commission [ITC], (2017). Solicitou-se previamente ao autor da versão original autorização para adaptação e uso do instrumento. Posteriormente, duas pessoas bilíngues (inglês e português do Brasil), traduziram independentemente a REMS-45. Um terceiro juiz, com experiência em adaptação de instrumentos, comparou as versões traduzidas com o original em inglês, verificou os aspectos teóricos e semânticos do material e compilou as traduções, em uma versão preliminar - português do instrumento.
A partir da síntese das versões, realizou-se um estudo-piloto com dez participantes que possuíam características da população-alvo, em uma amostra não probabilística. Os participantes indicaram ajustes para melhoria da compreensão, como a adição de palavras em alguns itens (p. ex.: Item 33 “Alguém de cor diferente afirmou que não há diferença entre nós dois” para “Alguém de cor diferente da minha afirmou que não há diferença entre nós dois”), e sinalizaram que compreenderam que o instrumento pretendia avaliar sobre (discriminação racial/racismo ou algo semelhante), após está etapa elaborou-se a versão da escala, para aplicação no contexto brasileiro e posteriores procedimentos psicométricos de adaptação do instrumento.
Participantes
Participaram 482 pessoas brasileiras, autoidentificadas como negras (pretas e pardas), segundo critérios do IBGE. A maior parte da amostra foi do gênero feminino 62,65% (N=302), com idades variando entre 18 e 66 anos (M=30,30; DP=11,63). Houve participação de pessoas de todas as cinco regiões do País, entretanto, a maioria 93,35% (N=450), residiam na região sudeste
Declararam-se pretos 57,68% (N=278) e pardos 42,32% (N=204) das pessoas. Acerca do nível de escolaridade 69,49% (N=335) da amostra tinha ensino superior e pós-graduação; 27,57% (N=133) ensino médio e técnico; 2,89% (N=14) ensino fundamental ou não responderam à pergunta. Em relação à renda familiar 23,23% (N=112) das pessoas, tinham renda variando entre R$ 1.965,88 e R$ 3.276,76; 22,20% (N=107) entre R$ 3.276,76 e R$ 5.755,23; 19,50% (N=94) entre R$ 900,61 e R$ 1.965,87; 18,25% (N=88) entre R$ 5.755,24 e R$ 10.361; 47,67% (N=37) inferior a R$ 900,60; 6,63% (N=32) entre R$ 10.361,49 e R$ 21.826,74; 1,87% (N=9) superior a R$ 21.826,74 e 0,62% (N=3) não responderam à questão.
Instrumentos
Além da Racial and Ethnic Microaggressions Scale - (Nadal, 2011), instrumento adaptado neste estudo, e já descrito, os participantes da pesquisa responderam ao Questionário sociodemográfico: contendo perguntas para caracterização da amostra (p.ex.: idade, gênero, raça/cor, renda e escolaridade). O instrumento foi elaborado em duas versões, uma no tradicional formato lápis/papel e outra em formulário eletrônico.
Aspectos éticos
O presente estudo faz parte de um projeto integrado avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob número 67523322.5.0000.5059. Todos os participantes manifestaram concordância em participar assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Coleta dos dados
A coleta de dados ocorreu de duas formas: lápis-papel (N=211) e online (N=271), por meio da plataforma Limesurvey, no período de abril a junho de 2023. O convite para contribuir com o estudo foi realizado pessoalmente, por e-mail e também através da divulgação via redes sociais, considerando os critérios de inclusão pré-determinados. Tendo em vista as desigualdades sociais no Brasil, e, que há uma tendência dos grupos os quais são geralmente abordados nas pesquisas, adotou-se a estratégia de coleta presencial em lápis-papel, em espaços públicos (pontos de ônibus, dentro do transporte coletivo, comércios de rua), buscando assim, atingir uma maior diversidade de público.
Para a coleta dos dados, foram consideradas possíveis dificuldades de leitura e de acessibilidade, assim, realizou-se a adaptação de uma escala do tipo Likert norteada por número e cores (escala gradual, na qual a discordância foi equivalente a uma maior proximidade com a cor vermelha; a concordância foi equivalente a uma maior proximidade com a cor verde). Na coleta presencial foi realizada a leitura dos itens a todas as pessoas que manifestaram interesse em participar da pesquisa, mas, que possuíam algum tipo de limitação. O consentimento foi formalizado por meio de assinatura do termo e para a versão online foi disponibilizado para download o Registro de Consentimento Livre e Esclarecido, cuja assinatura foi associada a concordância, com a afirmativa “Declaro que fui informado e esclarecido sobre o presente documento, entendendo todos os termos expostos. Assim, eu: “aceito; não aceito”. O tempo médio de resposta foi de 20 minutos.
Análise dos Dados
Para operacionalização das análises estatísticas procedeu-se com a Análise Fatorial Confirmatória [AFC] utilizando o software Jasp 0.17.3 (JASP Team, 2023). Utilizou-se o método de estimativa Robust Diagonally Weighted Least Squares [RDWLS], para buscar evidências de validade da estrutura interna do instrumento. A adequação do modelo foi avaliada pela razão entre o qui-quadrado (χ2) e os graus de liberdade (gl), cujos valores não devem ser significativos e a razão gl deve ser (≥5) (Brown, 2015), assim como índices de Root Mean Square Error of Aproximation [RMSEA] - (valor esperado: 0,08 com intervalo de confiança de 90%); Comparative Fit Index [CFI] e Tucker-Lewis [TLI] - (valor esperado: ≥90-95) e standardized root mean square residual [SRMR], índices abaixo de 0,10 são indicativos de bom ajuste (Brown, 2015).
Posteriormente, foi realizada uma Análise Fatorial Confirmatória Multigrupo [AFCMG], pelo tipo de coleta das informações. Foram observados os critérios de invariância configural, métrica, escalar e strict, cujo diferença deve ser de até 0,01 no CFI e SRMR (Putnick & Bornstein, 2016). Por fim, realizou-se análise de correlação tipo r de Pearson para verificar a validade externa do instrumento (Brown, 2015). A consistência interna foi verificada por meio do alfa de Cronbach (α) e do coeficiente Ômega de McDonald (ω).
Resultados
Evidências de Estrutura Interna Confiabilidade
Inicialmente foi testado o modelo original de estrutura interna da REMS-45 (Nadal, 2011). O resultado de Qui-quadrado foi significativo (p<0,001) e os demais indicadores demonstraram um excelente ajuste da estrutura [(χ2(gl)=1082,239 (930); χ2/gl=1,16; CFI=0,99; TLI=0,99; SRMR=0,06; RMSEA (90% IC)=0,018 (0,013 - 0,023)], confirmando boa adequação do modelo conforme o original formado por seis dimensões, e corroborando assim com a hipótese 1 do estudo. Avaliou-se também a precisão da escala adaptada ao contexto brasileiro. A Tabela 2 apresenta os índices de cada item, dimensão e lambdas.
Tabela 2 Estimativas dos itens por fatores e índices de precisão
| Dimensão | Item | Estimativa (lâmbdas) | ω | α | M | DP |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Suposições de Inferioridade | 5 9 17 21 |
0,67 0,77 0,64 0,78 |
0,90 | 0,90 | 1,88 | 1,18 |
| 22 | 0,72 | |||||
| 32 | 0,81 | |||||
| 36 | 0,72 |
A escala geral da REMS-45, apresentou índices considerados excelentes para propriedade da precisão (ω=0,95; α=0,95; M=2,11; DP=0,89). Todos os índices utilizados demonstraram confiabilidade adequada nas seis dimensões da medida adaptada, este resultado confirma a hipótese 2, delineada no estudo. Em quatro domínios: Suposições de inferioridade (p.ex.: Alguém inferiu que eu não seria inteligente por causa da minha raça/cor), cidadão de segunda classe e suposições de criminalidade (p.ex.: ‘Alguém protegeu sua bolsa ou carteira ao me ver por causa da minha raça/cor’), microinvalidações (p.ex.: ‘Alguém me disse que não vê raça’) e microagressões no local de Trabalho e na Escola (p.ex.: ‘Minha opinião foi negligenciada em uma discussão em grupo por causa da minha raça/cor’), os lambdas foram próximos ou acima de 0,70, conforme apresentado na Tabela 2.
Tabela 2 Estimativas dos itens por fatores e índices de precisão
| Dimensão | Item | Estimativa (lâmbdas) | ω | α | M | DP |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade | 2 6 8 11 |
0,67 0,71 0,80 0,85 |
0,89 | 0,91 | 1,95 | 1,26 |
| 31 | 0,78 | |||||
| 34 | 0,73 | |||||
| 40 | 0,79 | |||||
| Exotização/ Suposições de Similaridade | 3 13 20 23 29 |
0,17 0,42 0,17 0,80 0,39 |
0,78 | 0,79 | 1,51 | 0,67 |
| 35 | 0,53 | |||||
| 42 | 0,72 | |||||
| 43 | 0,79 | |||||
| 45 | 0,46 | |||||
| Microinvalidações | 4 7 10 14 26 |
0,78 0,.71 0,82 0,75 0,76 |
0,93 | 0,93 | 2,85 | 1,48 |
| 27 | 0,80 | |||||
| 30 | 0,83 | |||||
| 33 | 0,65 | |||||
| 39 | 0,81 | |||||
| Microagressões Ambientais | 12 18 19 24 |
0,68 0,41 0,37 0,61 |
0,74 | 0,79 | 2,40 | 1,06 |
| 28 | 0,66 | |||||
| 37 | 0,69 | |||||
| 41 | 0,54 | |||||
| Microagressões no local de Trabalho e na Escola | 1 15 16 |
0,70 0,71 0,69 |
0,84 | 0,84 | 1,72 | 1,07 |
| 25 | 0,71 | |||||
| 44 | 0,79 |
Nota. ω=Ômega de McDonald; α=alpha de Cronbach; M=média; DP=Desvio Padrão
Análise de invariância
Adicionalmente, foram realizadas análises em busca de evidências de invariância dos dados para o tipo de coleta (online versus offline), a Tabela 3 apresenta os resultados da AFCMG.
Tabela 3 Invariância dos dados pelo tipo de coleta (online versus offline)
| Índice de Ajuste | ||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| RMSEA | SRMR | TLI | CFI | ∆CFI | ||||||||
| Configural Métrica Escalar Strict |
0,000 (0,000 - 0,000) 0,024 (0,018 - 0,029) 0,024 (0,019 - 0,029) 0,027 (0,022 - 0,031) |
0,07 0,08 0,08 0,09 |
1,010 0,99 0,99 0,99 |
1 0,99 0,99 0,99 |
0,000 0,000 0,000 |
|||||||
Nota. Fonte: dados da pesquisa (2024)
Os indicadores ∆CFI≥0.01 (Putnick & Bornstein, 2016), nos critérios configural, métrica, escalar e strict foram alcançados para o tipo de coleta, demonstrando a invariância do instrumento nesses parâmetros entre procedimentos de coleta presencial e offline.
Evidências de Validade Externa
Por fim, verificou-se a convergência das subescalas que compõem a REMS - 45 com indicadores sociodemográficos de renda e escolaridade. Foram testadas as correlações do tipo r de Pearson. As informações na Tabela 4 apresentam as correlações entre as medidas.
Tabela 4 Correlações com medidas externas
| Fatores | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | ||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1.Inf | _ | |||||||||||
| 2.Cri | 0,76*** | _ | ||||||||||
| 3.Mi | 0,64*** | 0,57*** | _ | |||||||||
| 4.Ex | 0,71*** | 0,61*** | 0,63*** | _ | ||||||||
| 5Am | 0,17*** | 0,16*** | 0,26*** | 0,20*** | _ | |||||||
| 6.Tr | 0,75*** | 0,67*** | 0,56*** | 0,59*** | 0,11* | _ | ||||||
| 7.Es | 0,03 | - 0,11* | -0,01 | -0,10* | -0,06 | 0,04 | _ | |||||
| 8.Re | -0,15*** | -0,21*** | -0,19*** | -0,21*** | -0,01 | -0,01*** | 0,45*** | |||||
| M | 1,88 | 1,95 | 2,85 | 1,51 | 2,40 | 1,72 | 8,13 | 2,35 | ||||
| DP | 1,18 | 1,26 | 1,48 | 0,67 | 1,06 | 1,07 | 3,51 | 1,45 | ||||
Nota. Abreviações: 1. Inf=Suposições de inferioridade; 2. Cri=Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade; 3. Mi=Microinvalidações; 4. Ex=Exotização/ Suposições de Similaridade; 5. Am=Microagressões Ambientais e 6. Tr=Microagressões no
Local de Trabalho e na Escola. Medidas socioeconômicas (7 e 8) - 7. Es=Escolaridade e 8. Re=Renda. Significância Estatística:
**p<0,01
Observaram-se correlações convergentes com significância de p<0,001. Todos os seis fatores da REMS-45 se correlacionaram positivamente entre eles. Nas correlações entre os fatores da escala de microagressões raciais com as medidas sociodemográficas externas, encontrou-se que, escolaridade se correlacionou de maneira negativa e fraca com os fatores Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade (r=-0,11; p=0,01) e Exotização/ Suposições de Similaridade (r=- 0,10; p=0,01). Foram encontradas também evidências de associação significativa e negativa entre microagressões raciais e renda, nos domínios: Suposições de inferioridade (r=- 0,15; p<0,001); Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade (r=0,21; p<0,001); Microinvalidações (r=-0,19; p<0,001); Exotização/Suposições de Similaridade (r=- 0,21; p<0,001) e Microagressões no Local de Trabalho e na Escola (r=- 0,16; p<0,001), exceto com microagressões ambientais.
Discussão
O presente estudo teve como objetivo adaptar, apresentar as propriedades psicométricas e invariância da Racial and Ethnic Microaggressions Scale (REMS-45) para a população negra brasileira. Os resultados demonstraram que o instrumento possui propriedades psicométricas adequadas para avaliar diferentes tipos de microagressões raciais no Brasil. Por meio da AFC, foi possível a reprodução do modelo original, composto por seis dimensões (Nadal, 2011), além disso, foram encontrados índices de ajuste superiores ao da REMS-45 inicial, corroborando a hipótese 1.
Os índices de confiabilidade do instrumento, revelaram adequada consistência interna em todas as subdimensões. Também foram encontradas correlações positivas entre os domínios da REMS-45, consolidando a evidência interna de que o instrumento está mensurando de maneira confiável o construto microagressão racial. Em quatro domínios (Suposições de Inferioridade, Cidadão de Segunda Classe e Suposições de Criminalidade, Microinvalidações e Microagressões no local de Trabalho e na Escola), os lâmbdas foram próximos ou superiores a 0,70, indicando que houve uma boa distinção dos itens, pelos respondentes. Achados semelhantes foram encontrados em outros contextos (Forrest-Bank et al., 2015; Nadal, 2011), corroborando assim, a qualidade psicométrica da versão adaptada do instrumento para o contexto brasileiro, e, estando, portanto, alinhavada a hipótese 2, a qual previa que os ajustes de consistência interna seriam adequados no presente estudo.
Como procedimento adicional, não realizado no estudo de Nadal (2011), encontrou-se que o instrumento é estável, independentemente da forma de coleta (offline ou online), assim, há o fortalecimento de que não há vieses de resposta, confirmando a robustez da escala. Este procedimento, expande a possibilidade de diversificação na coleta das informações e uso do instrumento para pesquisadores e interessados na avaliação destes tipos de agressões na população negra em geral.
Ampliando a compreensão da REMS-45 no contexto brasileiro, foram identificadas correlações negativas entre seus domínios e os dados socioeconômicos, corroborando as hipóteses 3 e 4. No cotidiano, pessoas negras enfrentam agressões raciais, tanto em interações interpessoais, como questionamentos sobre sua capacidade intelectual ou estética, quanto em contextos institucionais, como escolas ou locais de trabalho (Almeida, 2019). Associado a isso, pesquisas sociodemográficas de larga escala evidenciam a existência de disparidades entre pessoas negras e brancas no Brasil (IBGE, 2022). Desta forma, os achados encontrados no presente estudo, se somam as indicações da literatura que indicam que pessoas negras possuem menores rendimentos e níveis de escolaridade.
De modo mais específico, renda se associou negativamente com cinco das seis dimensões de microagressões, exceto, com microagressões ambientais. Estudos mais direcionados à compreensão dos impactos das microagressões raciais no mercado de trabalho, apresentaram alguns sentimentos relatados como: inferioridade e sentimentos de não pertencimento ao mesmo mundo, maior pressão em relação aos pares, medo de se arriscarem em suas atividades, bem como, baixa disposição para se envolverem em atividades de liderança (Cabell & Kozachuk, 2022; Pitcan et al., 2018). No meio acadêmico, universitários negros manifestaram terem suas ideias ignoradas por colegas em sala de aula (Silva & Powell, 2016; Solorzano et al., 2000). Além disso, o espaço escolar também foi indicado como local, onde as pessoas sinalizaram terem sofrido racismo (Instituto de Referência Negra - Peregum, 2023).
Dado que o trabalho é uma das principais fontes de renda para a maioria da população, e que o domínio microagressão no local de trabalho e escola foi um fator relevante nos resultados, há indícios de que ocorrem manifestações desses comportamentos nestes ambientes, o que pode estar interferindo negativamente no desenvolvimento profissional e carreira das pessoas negras, trazendo como consequência acesso a menor renda. Essas vivências, contribuem para a manutenção do racismo sistêmico e retroalimentam as desigualdades vividas por pretos e pardos.
Outro resultado a ser destacado foi a correlação negativa entre as dimensões Cidadão de segunda classe e associação com a criminalidade e exotização/suposição de similaridade, com renda e escolaridade. Entre as formas de exotização, observa-se a estereotipização das pessoas com base em características corporais, de beleza, culturais e associadas à identidade étnicorracial. No contexto brasileiro, é comum o uso de adjetivos direcionados a pessoas negras, geralmente carregados de preconceitos e conotações negativas. Pesquisas comparativas examinaram estereótipos associados a pessoas negras e brancas. Aspectos como: riqueza, beleza e inteligência foram mais comumente atribuídas a pessoas brancas, enquanto às pessoas negras foram associadas características relacionadas à pobreza, trabalho físico e criminalidade (Lima et al., 2022; Techio et al., 2019). Um estudo envolvendo crianças negras revelou que a maioria delas se autoidentifica como negra (92,3%), porém, ao avaliarem a situação de beleza, uma proporção significativa expressou preferência por características brancas (56,6%), assim como o desejo de se parecer com pessoas brancas (56,6%) (Nunes et al., 2021).
Essas pesquisas destacam a exotização por meio de atribuição de estereótipos negativos destinados às pessoas negras, os quais, no geral tiveram como objetivo inferiorizar e desumanizar os indivíduos, pelo simples fato de serem diferentes daquilo que foi convencionado como norma (Lima et al., 2022; Nunes et al., 2021; Techio et al., 2019). O racismo, conforme documentado na literatura, acarreta prejuízos em diversas áreas da vida, incluindo saúde psicológica (Cénat et al., 2023; Correia-Zanini et al., 2021), na educação (Jesus, 2018; Júnior & Silva, 2023), desenvolvimento de identidade racial (Nunes et al., 2021), assim como de oportunidades profissionais e de carreira (Pitcan et al., 2018; Williams et al., 2023), resultando em efeitos cumulativos devastadores.
Sobre o fator microagressões ambientais não ter se correlacionado com as variáveis sociodemográficas, uma das suposições é a de que pode estar ocorrendo uma mudança de paradigma social. Até recentemente era pouco usual, pessoas negras ocupando posições de destaque, tanto na mídia, quanto na sociedade como um todo. Entretanto, com as políticas de ações afirmativas e os debates levantados sobre justiça social, tem se tornado crescente o número de pessoas negras ocupando esses lugares, o que pode estar gerando a percepção de que Pretos e Pardos já não são mais exceção em espaços de poder e prestígio social. Diante da divergência com a literatura (Forrest-Bank et al., 2015; Nadal, 2011), investigações mais direcionadas a este domínio são necessárias.
Em conclusão, este estudo pioneiro buscou avaliar as microagressões raciais na população negra brasileira, com um enfoque psicométrico. Conforme evidenciado, a adaptação da escala foi bem-sucedida, sendo respaldada por evidências de confiabilidade e validade convergente. O instrumento revelou um caráter dinâmico, fornecendo uma base sólida para investigações futuras, abrangendo diferentes contextos, como saúde, em pesquisas sobre saúde mental, em estudos interseccionais que considerem a influência do gênero nas experiências de violência, assim como, no âmbito educacional e de carreira, destacando-se como possibilidade a avaliação dos impactos das microagressões raciais na aprendizagem, assim como, fornecendo evidências sobre as influências em aspectos individuais e no desenvolvimento e desempenho em ambientes laborais.
No entanto, é essencial considerar as limitações desta pesquisa. Apesar dos esforços para obter uma amostra heterogênea, a pesquisa teve maior concentração de respondentes na região Sudeste e amostras com maiores níveis de escolaridade, o que impede a afirmação de representatividade em termos de diversidade socioeconômica no país. Diante disso, recomenda-se a realização de investigações mais abrangentes, envolvendo pessoas de diferentes regiões, gêneros e classes sociais, possibilitando uma generalização mais robusta dos resultados. Espera-se assim, que este seja o início do fomento de pesquisas e ações que possam contribuir para a promoção de ambientes mais inclusivos.














