O preconceito racial é recorrente no Brasil, expresso desde as formas mais sutis e veladas até as mais explícitas, trazendo prejuízos à saúde física e mental das vítimas (Mouzon & McLean, 2017; Sibrava et al., 2019). Apesar da gravidade e elevada incidência, poucos são os estudos brasileiros avaliando os impactos do racismo nas vítimas (Damasceno & Zanello, 2018). Centrar as análises nas vítimas possibilita conhecer o impacto do racismo em diferentes desfechos, além de verificar fatores de proteção que possam mitigar tais impactos. Nesta direção, faz-se necessário contar com medidas psicometricamente adequadas que quantifiquem a exposição a estressores relacionados à raça, sendo que o presente estudo objetiva fornecer evidências de validade e precisão da Race-Related Events Scale (Waelde et al., 2010) para o Brasil.
Preconceito racial
O preconceito é uma atitude hostil e desfavorável, relacionado a um julgamento errôneo, inalterável e generalizado, direcionado a um grupo ou a um membro deste (Allport, 1954). Com base no conceito de raça, os atributos fenotípicos, como cor da pele e textura do cabelo, são utilizados na tentativa de hierarquizar grupos sociais, diferenciá-los (Costa & Scarcelli, 2016) e estabelecer uma superioridade de uma raça sobre as demais (Damasceno & Zanello, 2018). O racismo se manifesta direta e indiretamente, sendo estrutural e observado nas relações interpessoais e institucionais (Almeida, 2019).
No Brasil, em um período de um ano, cerca de 29 milhões de pessoas de 18 anos ou mais sofreram algum tipo de agressão psicológica, física ou sexual, pretos (20,6%) e pardos (19,3%) sofreram mais com a violência se comparado aos brancos (16,6%) (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2021). Em 2021, a taxa de homicídios de não negros foi de 10,8 a cada 100 mil habitantes, por outro lado, a taxa de homicídios para negros foi de 31 a cada 100 mil habitantes ([IPEA]; Atlas da Violência, 2023). Ademais, diversos casos são reportados quase que diariamente na mídia, em que crimes brutais são praticados contra grupos raciais minorizados. Por exemplo, em matéria do G1 de janeiro de 2023 são descritos diversos casos em que objetos (e.g., furadeira, guarda-chuva, saco de pipocas) portados por negros são “confundidos” com armas e drogas, o que teria levado policiais a matarem tais pessoas. Vale relembrar os recentes casos de João Alberto (homem negro espancado até a morte por seguranças de um supermercado de Porto Alegre) e George Floyd (homem negro morto por policial nos Estados Unidos), que tiveram grande repercussão na mídia e nas redes sociais.
Além dos desfechos extremos reportados anteriormente, percebem-se outras formas de expressão do racismo, mais velado, sutil e, inclusive, naturalizado por muitos, mas que também é extremamente nocivo para quem sofre a agressão. Por exemplo, o racismo desvaloriza características negras (e.g., cabelo crespo, lábios grossos, nariz largo), sendo que mulheres negras desde a infância sofrem preconceito, levando-as a práticas como o alisamento capilar (Amorim et al., 2021), gerando insatisfação com o corpo, com o cabelo e com a cor da pele, impactando em sua saúde mental (Fattore et al., 2020; Santos et al., 2023). O racismo também se manifesta em ações corriqueiras, como buscar um serviço de saúde ou submeter-se a uma vaga de emprego. Por exemplo, dentistas tendem a optar por tratar dentes careados de pacientes brancos, ao passo que extraem os de pacientes negros (Cabral et al., 2005) e médicos investem mais tempo e formulam mais hipóteses diagnósticas ao atenderem pacientes brancos do que pretos e pardos (Silva, 2018). Além de negros terem empregos com menor remuneração e de o racismo ser um fator que contribui para a dificuldade de encontrar trabalho (Doede, 2015; Kosny et al., 2017), promovendo a desigualdade e levando a piores condições de vida. Logo, evidencia-se que pessoas pertencentes a grupos raciais minorizados sofrem cotidianamente com estressores relacionados à raça, sinalizando a necessidade de avaliar esse fator impactante para a saúde mental.
Em revisão de escopo foram identificadas seis escalas para medir a percepção de discriminação racial no contexto brasileiro (Brasil, 2024). Apesar da importante contribuição de tais instrumentos, percebem-se algumas limitações, com medidas que: não focam na discriminação racial (Bastos et al., 2012), são contextualmente específicas (Miranda, 2015; Rosa et al., 2021), se restringem a avaliar a discriminação cotidiana (Abreu et al., 2022) e avaliam aspectos muito amplos, como a reação e a preocupação com o racismo (Fattore et al., 2016). Por fim, Bezerra (2014) adaptou para o Brasil a versão reduzida da Index of Race-Related Stress ([IRRS-B]; Utsey, 1999), medida amplamente utilizada cobrindo três dimensões do racismo (individual, institucional e cultural), contudo, a estrutura encontrada para o Brasil foi distinta (dois fatores). Chapman-Hilliard et al. (2020) testaram diferentes estruturas para IRRS-B não encontrando evidências de validade baseada na estrutura interna (e.g., CFI=0,86; TLI=0,84). Ademais, a IRRS-B foca na exposição de afro-americanos ao racismo, dificultando o seu uso em outros grupos étnico-raciais (Waelde et al., 2010).
Race-Related Events Scale
No contexto brasileiro grupos raciais minorizados são expostos a múltiplos estressores relacionados à raça ao longo da vida, sendo que o acúmulo do sofrimento de preconceito ou discriminação gera efeitos diversos, dificultando a capacidade adaptativa e interferindo no bem-estar (Harrell, 2000; Waelde et al., 2010). Em metanálise que sintetizou os efeitos de 66 estudos, com mais de 18 mil negros, verificou-se que a discriminação racial se relacionou positivamente com mal-estar psicológico (e.g., ansiedade, depressão; Pieterse et al., 2012). Em outra metanálise, contando com estudos oriundos de 333 artigos publicados entre 1983 e 2013, verificou-se que o racismo predisse pobre saúde física e mental (Paradies et al., 2015). Endossando tais evidências consistentes, Wallace et al. (2016) observaram em estudo longitudinal que a exposição à discriminação racial tem um incremento para a baixa saúde mental em longo prazo.
Tendo em vista o efeito de estressores relacionados à raça, Waelde et al. (2010) propuseram a construção da Race-Related Events Scale (RES), uma medida que quantifica a percepção de racismo em diferentes grupos étnico-raciais, contando com itens que cobrem os critérios do DSM-IV-TR para o Transtorno de Estresse PósTraumático (TEPT). Também tiveram em conta a conceitualização dos estressores relacionados à raça proposta por Harrell (2000), no qual estabelece seis tipos: microestressores de racismo diário, experiência vicária de racismo, eventos de vida relacionados ao racismo, estressores contextuais crônicos, experiências coletivas de racismo e transmissão transgeracional do trauma. Os três primeiros são estressores consistentes com os critérios para o risco de TEPT, enquanto os três últimos não, o que foi tido em conta por Waelde et al. (2010) na elaboração dos itens da RES, cobrindo elementos potencializadores de experiências traumáticas.
Na etapa de construção do instrumento, os autores elaboraram uma versão preliminar de 20 itens que foi revisada por um grupo etnicamente diverso de juízes, resultando em uma versão de 22 itens, respondidos em escala dicotômica (sim ou não). A medida apresentou adequado coeficiente alfa (0,86) e estabilidade temporal no intervalo de um mês (r=0,66; p<0,01). Brancos apresentaram o menor valor em comparação aos outros três grupos raciais avaliados (estadunidenses de origem africana, asiática e hispânica), além dos participantes que preencheram os critérios para o TEPT terem relatado mais estressores relacionados à raça, quanto mais frequente a exposição a tais estressores, mais graves são os sintomas de TEPT entre as minorias raciais.
No estudo inicial, Waelde, et al. (2010) não exploraram a estrutura fatorial da RES. Contudo, tais análises foram realizadas por Crusto et al. (2015), que observaram uma estrutura de três fatores identificada como: Discriminação Cotidiana, Eventos Diretos Relacionados à Raça e Eventos Indiretos ou Vicários Relacionados à Raça. Tal estrutura vai na mesma direção dos três tipos de estressores propostos por Harrell (2000) e que representam risco para o TEPT, elementos que orientaram a construção da escala (Waelde et al., 2010).
A RES tem sido utilizada em diversas pesquisas que avaliam o impacto do racismo sofrido em desfechos como a pobre qualidade do sono (McKinnon et al., 2022), a depressão (Bernard et al., 2022) e os problemas relacionados ao álcool (Desalu et al., 2021). Portanto, contar com uma medida adequada para avaliar a percepção de racismo é fundamental, sobretudo em um contexto racista, como o Brasil. Sofrer racismo têm sérias consequências para as vítimas em diversas esferas (Bianchi, et al, 2002; Mouzon & McLean, 2016), além de pertencer a grupos raciais minorizados representar um risco para o sofrimento de violência física (IPEA, 2023; IBGE, 2021), dificultando a busca por emprego e melhores condições salariais (Doede, 2015; Kosny, et al., 2017), restringindo até o acesso e a qualidade de atendimento em serviços diversos, inclusive de saúde (Cabral et al., 2005; Silva, 2018). Quantificar tal experiência é fundamental, possibilitando avaliar os impactos do racismo, bem como testar o papel de fatores de proteção. Portanto, o presente estudo busca aportar com evidências de validade e precisão da Race-Related Events Scale para o Brasil.
Método
Participantes
Participaram deste estudo 727 indivíduos racialmente diversos (38,8% pardos, 33,4% brancos, 24,9% pretos, 1,8% indígenas e 1,1% amarelos), membros da população geral e com idades variando de 18 a 73 anos (M=26,9; DP=9,95). A maioria se autodeclarou do sexo feminino (67%), de classe socioeconômica média baixa (38,9%) e com ensino superior incompleto (49,9%).
Instrumentos
Race-Related Events Scale (Waelde et al., 2010): Composta por 22 itens, originalmente respondida em uma escala dicotômica (Sim ou Não). Os itens versam sobre a exposição a experiências estressantes e potencialmente traumatizantes de estresse relacionado a raça (e.g., Alguém já me bateu ou machucou por causa da minha raça ou etnia; Fui ignorado por causa da minha raça ou etnia).
Em relação ao processo de tradução da RES, esta foi realizada do inglês para o português por dois psicólogos bilíngues, com expertise na área em questão. Um terceiro psicólogo, também bilíngue, retraduziu os itens do português para o inglês, comparando as versões e prezando pelo consenso, formou-se uma única versão. A escala de resposta foi modificada para politômica, cobrindo a frequência de racismo sofrido (1 - Nunca; 5 - Sempre), o que possibilita estimar a repetição e frequência dos atos, captando melhor o acúmulo de sofrimento do racismo do que uma escala dicotômica. A versão preliminar da escala foi aplicada em um grupo de 10 universitários buscando identificar incompreensões nos itens ou escala de resposta, sendo que desta etapa não foi demandada nenhuma alteração no instrumento. Logo, a tradução dos itens garantiu a equivalência semântica e conceitual.
Os participantes responderam, ainda, a um conjunto de perguntas sociodemográficas (e.g., sexo, idade, raça, escolaridade e renda). Além disso, incluímos um item único que questiona a frequência com que o participante percebe que sofre preconceito racial, sendo respondido em escala de cinco pontos (1 - Nunca sofri racismo; 5 - Sofro racismo com frequência) e a Escala de Fitzpatrick (Fitzpatrick, 1988) que avalia a tonalidade da pele em uma escala de seis pontos (quanto mais próximo de um mais clara é a pele e quanto mais próximo de seis mais escura é a pele).
Procedimento
O presente estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal da Paraíba. Após a emissão do parecer favorável (CAAE: 26916719.0.0000.5176), prosseguiu-se com a construção do questionário no Google Formulários e sua subsequente divulgação nas redes sociais. Utilizou-se o procedimento bola de neve - uma técnica de amostragem não probabilística - em que o link da pesquisa é compartilhado solicitando que as pessoas participem e compartilhem o link entre os seus contatos. Antes de preencherem o questionário, os participantes foram informados sobre o objetivo, a natureza da pesquisa e o caráter voluntário da participação, confirmada através do aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foram seguidas as recomendações da Resolução 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
Análise de Dados
Os dados foram analisados por meio dos softwares JASP (JASP Team, 2024) e FACTOR (Lorenzo-Seva & Ferrando, 2006). Com o primeiro foram calculadas estatísticas descritivas, foi checada a normalidade multivariada por meio do teste de Mardia, além de terem sido calculadas análise de correlação de Spearman e Análise Univariada de Variância (ANOVA) utilizando bootstrap com 1.000 reamostragens. Utilizou-se, ainda, o JASP (2024) para o cálculo da consistência interna por meio do ômega de McDonald. Por sua vez, o FACTOR foi utilizado para determinar a dimensionalidade da RES.
Realizou-se, com uma matriz de correlações policóricas, uma Análise dos Componentes Principais, dado a natureza do construto formativo, de modo que o racismo sofrido é formado pelas experiências discriminatórias vivenciadas (itens da escala), não sendo um traço latente que explique a resposta aos itens. Para determinar a dimensionalidade, teve-se em conta a Análise Paralela (Timmerman & Lorenzo-Seva, 2011) e a proporção cumulativa da variância explicada, retendo componentes que expliquem pelo menos 80% da variância total dos dados. Ademais, adotou-se a rotação normalized varimax.
Resultados
Inicialmente, são apresentadas as médias, desvios-padrão, assimetria e curtose dos 22 itens da medida (Tabela 1), além dos valores da normalidade multivariada de Mardia (1970). Percebe-se que as médias são baixas e que há violações (Kline, 2011) nos valores da assimetria (>3) e curtose (>10), sendo que estas duas apresentaram valores não normais (assimetria multivariada=338,06, p<0,001 e curtose multivariada=1402,83, p<0,001).
Tabela 1 Estatísticas Descritivas dos Itens da RES
| Item | Média (DP) | IC 95% | Assimetria | Curtose |
|---|---|---|---|---|
| 1 | 1,81 (1,03) | 1,71 - 1,91 | 1,01 | 0,01 |
| 2 | 1,79 (1,10) | 1,69 - 1,90 | 1,17 | 0,22 |
| 3 | 1,49 (0,90) | 1,40 - 1,57 | 1,89 | 2,83 |
| 4 | 1,62 (0,95) | 1,53 - 1,71 | 1,47 | 1,36 |
| 5 | 1,20 (0,59) | 1,15 - 1,26 | 3,37 | 12,06 |
| 6 | 1,58 (1,09) | 1,48 - 1,68 | 1,80 | 2,06 |
| 7 | 1,37 (0,86) | 1,29 - 1,46 | 2,44 | 5,33 |
| 8 | 1,82 (1,22) | 1,71 - 1,94 | 1,29 | 0,43 |
| 9 | 1,12 (0,47) | 1,08 - 1,17 | 4,67 | 24,41 |
| 10 | 1,75 (1,13) | 1,64 - 1,86 | 1,29 | 0,51 |
| 11 | 1,14 (0,50) | 1,10 - 1,19 | 4,08 | 18,58 |
| 12 | 1,17 (0,50) | 1,12 - 1,22 | 3,29 | 11,35 |
| 13 | 1,16 (0,55) | 1,11 - 1,22 | 3,72 | 14,16 |
| 14 | 1,39 (0,89) | 1,30 - 1,47 | 2,43 | 5,16 |
| 15 | 1,18 (0,57) | 1,12 - 1,23 | 3,74 | 15,18 |
| 16 | 1,07 (0,38) | 1,04 - 1,11 | 5,82 | 37,43 |
| 17 | 1,10 (0,48) | 1,06 - 1,15 | 5,50 | 32,64 |
| 18 | 2,39 (1,60) | 2,24 - 2,54 | 0,60 | -1,28 |
| 19 | 2,44 (1,53) | 2,30 - 2,59 | 0,49 | -1,31 |
| 20 | 1,85 (1,36) | 1,72 - 1,98 | 1,35 | 0,34 |
| 21 | 1,82 (1,36) | 1,69 - 1,95 | 1,42 | 0,52 |
| 22 | 1,77 (1,38) | 1,64 - 1,91 | 1,52 | 0,72 |
Validade baseada na estrutura interna e consistência interna
Observou-se que a Análise Paralela indicou a extração de dois componentes, os dois primeiros autovalores reais (14,67 e 1,90) foram maiores que os simulados (1,32 e 1,26), o contrário acontece após o terceiro autovalor (1,06 < 1,23). Contudo, utilizando o critério da variância explicada - além da base teórica que sustenta a construção da escala - verificou-se que são necessários pelo menos três componentes para explicar 80% da variância total (Tabela 2).
Tabela 2 Estrutura Fatorial da RES
| Itens | Cargas Fatoriais | ||
|---|---|---|---|
| Racismo Cotidiano | Racismo Vicário | Racismo Direto | |
| Item 1 | 0,80 | 0,41 | 0,28 |
| Item 2 | 0,78 | 0,42 | 0,28 |
| Item 3 | 0,76 | 0,33 | 0,30 |
| Item 4 | 0,71 | 0,31 | 0,38 |
| Item 5 | 0,63 | 0,29 | 0,53 |
| Item 6 | 0,73 | 0,35 | 0,31 |
| Item 7 | 0,68 | 0,31 | 0,33 |
| Item 8 | 0,66 | 0,45 | 0,37 |
| Item 9 | 0,63 | 0,13 | 0,54 |
| Item 10 | 0,02 | 0,44 | 0,61 |
| Item 11 | 0,53 | 0,22 | 0,66 |
| Item 12 | 0,55 | 0,32 | 0,63 |
| Item 13 | 0,34 | 0,20 | 0,77 |
| Item 14 | 0,63 | 0,36 | 0,53 |
| Item 15 | 0,56 | 0,24 | 0,62 |
| Item 16 | 0,29 | 0,18 | 0,83 |
| Item 17 | 0,37 | 0,16 | 0,81 |
| Item 18 | 0,47 | 0,77 | 0,14 |
| Item 19 | 0,55 | 0,77 | 0,15 |
| Item 20 | 0,31 | 0,87 | 0,29 |
| Item 21 | 0,31 | 0,88 | 0,27 |
| Item 22 | 0,29 | 0,87 | 0,28 |
| Omega de McDonald | 0,93 | 0,94 | 0,78 |
| Variância explicada baseada nos autovalores | |||
| Autovalor | 14,67 | 1,05 | 1,90 |
| Proporção de variância | 66,7% | 4,80% | 8,66% |
| Variância explicada dos componentes rotacionados | |||
| Variância | 7,00 | 5,22 | 5,42 |
| Proporção de variância explicada 31,8% | 23,7% | 24,6% | |
Observa-se na Tabela 2 a estrutura de três componentes. O primeiro, identificado como racismo cotidiano, é formado por 10 itens, com cargas fatoriais entre 0,63 (Item 14. Alguém já me perseguiu por causa da minha raça ou etnia e Item 9. Me envolvi em uma briga física com alguém por causa da minha raça ou etnia) a 0,80 (Item 1. Fui tratado com grosseria ou frieza por causa da minha cor ou etnia), sendo que tal componente apresentou índice de consistência interna adequada (ω=0,93). O segundo componente, racismo vicário, é formado por cinco itens, com saturações entre 0,77 (Item 18. Ouvi falar de alguém, que é da mesma raça ou etnia que eu, que foi ferido ou morto por causa da sua raça ou etnia e Item 19. Vi alguém, que é da mesma raça ou etnia que eu, ser tratado de forma racista ou preconceituosa) a 0,88 (Item 21. Vi alguém, que é da mesma raça ou etnia que eu, gravemente ferido por causa de sua raça ou etnia), tal componente apresentou adequada consistência interna (ω=0,94). O terceiro componente, nomeado como racismo direto, englobou sete itens, com cargas fatoriais entre 0,61 (Item 10. Alguém já machucou um familiar meu por causa de sua raça ou etnia) a 0,83 (Item 16. Fui ameaçado com uma faca, revolver ou outra arma ou por causa da minha raça ou etnia), tendo adequada precisão (ω=0,78).
RES e variáveis sociodemográficas
Realizou-se uma ANOVA com bootstrap para comparar as médias na pontuação total da RES entre os cinco grupos étnico-raciais: amarelos (N=8; M=26,8; DP=6,24), brancos (N=243; M=24,3; DP=5,77), in dígenas (N=13; M=39,1; DP=16,04), pardos (N=282; M=33,1; DP=11,81) e pretos (N=181; M=48,5; DP=15,35). Observou-se que há diferenças entre os grupos (F=120.494, p<0,001, η2=0,40). Os participantes pretos apresentaram pontuações significativamente mais altas do que todos os outros grupos, indicando maior exposição a estressores relacionados à raça, enquanto os brancos apresentaram as menores pontuações, diferindo significativamente dos grupos pardos, pretos e indígenas (Tabela 3).
Tabela 3 Comparações Múltiplas Entre as Raças e a Média do Escore Total da RES
| IC 95% (bias corrected accelerated) | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Diferença de média | Limite inferior | Limite superior | t | p Tukey | ||
| Amarela | Branca Indígena Parda Preta |
2,32 -12,40 -6,58 -21,79 |
-1,00 -22,86 -10,02 -25,98 |
8,93 -2,47 0,07 -15,87 |
0,63 -2,40 -1,54 -5,28 |
0,97 0,11 0,53 0,001 |
| Branca | Indígena Parda Preta |
-14,77 -8,90 -24,28 |
-25,23 -10,45 -26,55 |
-6,16 -7,23 -21,58 |
4,59 -8,92 -21,75 |
0,001 0,001 0,001 |
| Indígena | Parda Preta | 5,87 -9,39 |
-2,89 -18,44 |
17,05 0,94 | 1,85 -2,88 |
0,34 0,03 |
| Parda | Preta | -15,35 | -18,05 | -12,60 | -14,22 | 0,001 |
Na Tabela 4 observou-se que a pontuação total da RES e seus fatores específicos se correlacionam com a frequência com que o participante se considera vítima de racismo, sendo observado que quanto mais escura a pele, maior a pontuação na RES e em seus diferentes componentes. A pontuação total da RES se correlacionou positivamente com a escolaridade e com o sexo (1 - feminino e 2 - masculino) e negativamente com a renda do participante. O racismo cotidiano se correlacionou positivamente com o sexo e escolaridade e negativamente com a renda, sendo que o racismo vicário se correlacionou na mesma direção com estes dois últimos. Por fim, o racismo direto se correlacionou negativamente com a renda.
Tabela 4 Relações Entre a RES e Variáveis Sociodemográficas
| Pontuação total da RES | Racismo Cotidiano | Racismo Vicário | Racismo Direto | |||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Escala de Fitzpatrick 0,66** | 0,65** | 0,65** | 0,27** | |||
| Item único de avaliação de racismo 0,77** | 0,83** | 0,69** | 0,40** | |||
| Escolaridade 0,09* | 0,09* | 0,09* | 0,02 | |||
| Sexo 0,07* | 0,13** | 0,05 | -0,03 | |||
| Renda -0,13** | -0,11** | -0,11** | -0,11** | |||
Nota.
**p<0,01;
*p<0,05
Discussão
O Brasil apresenta elevada incidência de preconceito racial, com episódios recorrentes de violência contra negros, além de agressões veladas e exposição a notícias quase diárias de desfechos extremos de racismo (e.g., assassinatos, espancamentos). Consequentemente, tais grupos apresentam maiores sintomas de ansiedade, estresse e depressão (Mouzon & McLean, 2016; Sibrava et al., 2019). Apesar da incidência do racismo no país, e seus efeitos potencialmente catastróficos na vida das vítimas, não há instrumentos psicometricamente adequados para quantificar a exposição a estressores relacionados à raça, o que possibilitaria uma estimação mais precisa das consequências psicológicas do racismo sofrido (Crusto et al., 2015), bem como conhecer mecanismos que possam mitigar tais efeitos. Nesta direção, o presente estudo aportou reunindo evidências psicométricas da Race-Related Events Scale (Waelde et al., 2010) no contexto brasileiro.
Em relação à estrutura da escala, chegou-se a um modelo de três componentes, tendo boa precisão (ω>0,70; McNeish, 2018). Estrutura semelhante também foi encontrada por Crusto et al. (2015), em contexto estadunidense. Contudo, tal estudo contou com amostra pequena (N=201) sub representando importantes grupos étnico-raciais, de modo que tais autores apontaram a necessidade de novos estudos para avaliar a estrutura da medida. Nesta direção, o presente artigo, com uma grande amostra racialmente diversa, verificou que a estrutura tridimensional é estável.
A estrutura encontrada recebe suporte teórico, de modo que as dimensões que surgiram refletem os três tipos de estressores relacionados à raça propiciadores do TEPT (Harrell, 2000; Waelde et al., 2010). Concretamente, a medida cobre três formas na qual o racismo pode ser experienciado: microagressões de racismo diário (ou racismo cotidiano), eventos de vida relacionados ao racismo (ou racismo direto) e o racismo vicário. O racismo cotidiano envolve microestressores diários, são mais comuns e frequentes, envolvendo humilhações, desprezos e exclusões sutis, a exemplo de ser tratado rudemente, ser ignorado ou ser observado por alguém por conta da raça (Harrell, 2000). Por outro lado, Harrell aponta que o racismo direto envolve ações menos frequentes, limitadas no tempo, mas com efeitos duradouros, a exemplo de ações extremas, como ser ameaçado de morte por conta da raça ou sofrer uma violência física. São agressões mais explícitas e, por conta disso, ocorrem de forma menos frequente que o racismo cotidiano. Por fim, o racismo vicário configura-se em observar, testemunhar ou ouvir falar de pessoas da mesma raça sofrerem racismo (Harrell, 2000; Waelde et al., 2010) e isso é muito frequente no Brasil, vide as inúmeras reportagens veiculadas na TV ou na internet sobre casos de violência extrema contra grupos raciais minorizados. Tais experiências podem trazer ansiedade, medo exacerbado, além de raiva e tristeza em quem observa tais eventos (Harrell, 2000). Por exemplo, o racismo vicário predisse problemas de sono entre estadunidenses de origem asiática (Yip et al., 2024) e aumento em ansiedade em uma amostra etnicamente diversa (Hennein et al., 2023).
Em relação às diferenças entre os grupos, observou-se que brancos e amarelos apresentaram as menores médias na RES, e isso vai na mesma direção de estudos prévios que utilizaram esta medida (Crusto et al., 2015; Waelde et al., 2010). Por outro lado, pardos, indígenas e pretos apresentaram as maiores médias, sendo que pretos tiveram diferenças estatisticamente significativas para todos os grupos. Estudos indicam que pretos tendem a sofrer mais preconceito racial e ataques abertos e flagrantes motivados pela raça, se comparado aos demais grupos raciais (IPEA, 2023). No estudo de Waelde et al. (2010) os pretos tiveram números maiores de estressores relacionados à raça. Logo, observa-se que o grupo de pretos é o mais vulnerável para sofrer com eventos estressores relacionados à raça. Tais dados são reflexos de um país em que pretos e pardos sofrem mais violência psicológica, física e sexual se comparado aos brancos (IBGE, 2021), sendo que a população negra representa quase 80% das vítimas de homicídio (IPEA, 2023).
Os indígenas reportaram a segunda maior média de estressores relacionados à raça. De fato, desde a invasão do Brasil pelos portugueses os indígenas sofrem diversos tipos de violência, sendo percebidos como indolentes e preguiçosos, sendo taxados como uma barreira para o progresso do país (Lamas et al., 2016). Tais autores ainda indicam que esses estereótipos são mantidos e espalhados pelos meios de comunicação e, inclusive, pelas escolas, pois muitas obras adotadas reforçam visões deturpadas dos indígenas, perpetuando o preconceito contra este grupo. Consequentemente, as pessoas percebem os indígenas como selvagens, preguiçosos, aproveitadores, inferiores e violentos (Lima et al., 2016).
Concernente a pontuação de pardos, observa-se que o grupo obteve a terceira maior média de pontuação na RES. Este grupo surge em razão da miscigenação brasileira. Gomes (2019, p. 72) indica que o pardo é “negro demais para ser branco, e branco demais para ser negro”. Este autor descreve que os pardos se encontram em um limbo racial-identitário, resultando em baixa consciência racial, porém também sofrem processos de exclusão. Logo, a falta de consciência racial pode impactar na percepção do racismo sofrido, interferir na autoavaliação de pertencimento racial, e levar indivíduos de pele não retinta a terem percepções distorcidas de eventos racistas, indicando assim menor magnitude de estresse relacionado a raça (Almeida, 2019; Waelde et al., 2010; Worrell et al., 2019). Verificou-se que quanto mais escura a pele, maior a incidência de estressores relacionados à raça e por pardos terem a pele mais clara em comparação aos pretos, sofrem preconceito, mas em uma quantidade menor. Apesar de reportarem níveis menores do que os pretos e indígenas, houve diferenças significativas para os brancos, sendo que tais agressões sofridas também geram um impacto para as vítimas.
No que tange as correlações com variáveis sociodemográficas, percebe-se que as pessoas que reportaram maiores escores na RES são do sexo masculino, tem maior escolaridade, porém menor renda. Smith et al. (2020) indicam que homens negros sofrem mais preconceito do que mulheres negras, indicando que é forte no imaginário das pessoas a figura do homem negro criminoso e violento. Ressalta-se que as correlações foram de baixa magnitude e que para algumas dimensões não foi significativo, indicando que mulheres também sofrem com o racismo e suas consequências para a saúde mental (Mekawi et al., 2021). Em relação à escolaridade, parte considerável da amostra possui ensino superior completo e incompleto, contudo, o aumento da escolaridade está relacionado ao aumento de estressores relacionados à raça, o que indica que pessoas com maior escolaridade podem possuir maior consciência racial, tornando-os mais sensíveis a detecção de racismo. Em contraponto, pessoas de renda mais baixa sofrem mais com os estressores relacionados à raça, refletindo o racismo estrutural, colocando negros em condição socioeconômica mais baixa do que brancos (Camelo et al., 2022).
Avaliar a quantidade de microagressões diárias, a exposição indireta ao racismo e eventos mais extremos é fundamental para conhecer como o racismo impacta as vítimas e como elas podem lidar com tais estressores. Sofrer racismo leva a desfechos negativos (e.g., TEPT, depressão, ansiedade). Rastrear os estressores relacionados a raça pode auxiliar na identificação das causas de tais problemas psicológicos, guiando intervenções para a promoção de fatores protetivos (e.g., identidade étnico-racial, ativismo, enfrentamento ativo; Mekawi et al., 2022; Watson-Singleton et al., 2021). Instrumentos como a RES, fundamentam uma atuação baseada em evidências, apontando os efeitos do racismo para a saúde mental.
Neste sentido, o presente estudo contribui fornecendo um instrumento psicometricamente adequado para o Brasil, além de ser conduzido com uma grande amostra racialmente diversa, incluindo grupos sub representados em estudos prévios (Crusto et al., 2015; Waelde et al., 2010). Apesar da relevante contribuição da presente pesquisa, cabe ressaltar que ela apresenta limitações, como a amostra não probabilística, além da amostra pequena para alguns grupos étnico-raciais. Em possibilidades futuras é importante testar outros parâmetros da RES, como a sua estabilidade temporal ou a sua capacidade para predizer critérios externos, como o nível de autoestima ou satisfação com a vida das pessoas. Ademais, é igualmente importante conhecer o efeito moderador de diferentes variáveis na relação entre a RES e desfechos associados à saúde mental. Logo, a RES pode ter um papel fundamental em pesquisas que quantifiquem o racismo sofrido, estimando em que medida ele afeta diferentes dimensões na vida das vítimas, além de viabilizar o estudo para a identificação de fatores de proteção para reduzir os impactos do racismo.














