O preconceito, como proposto por Allport (1954), refere-se a uma antipatia ou hostilidade em relação a uma pessoa com base em seu pertencimento grupal. A avaliação dessa antipatia ou hostilidade pode ser feita por meio de estereótipos e atitudes negativas dirigidas a um indivíduo ou ao seu grupo de pertença, que acabam por explicar e moldar as relações entre grupos sociais dominantes e subordinados (Allport, 1954; Barreto & Doyle, 2023).
O sexismo é uma das formas de preconceito e é encontrado em diferentes culturas. Esse tipo de preconceito está relacionado a atitudes negativas em função do gênero e tem sido um campo de estudos que se dedica a investigar as atitudes em relação às mulheres devido às suas experiências de discriminação e à hierarquização dos papéis de gênero (Castro et al. 2009). Remetendo à definição de preconceito de Allport (1954), pode-se inferir que nessa hierarquia os homens constituem um grupo social dominante e as mulheres constituem um grupo social subordinado, em que a relação entre esses dois grupos é perpassada por estereótipos negativos e distanciamento social. Nessa perspectiva, Castro et al. (2009) afirmam que, em função dessa hierarquia, é designado às mulheres status inferior em relação às posições ocupadas pelos homens.
No entanto, Glick e Fiske (1996) argumentaram que a definição de preconceito proposta por Allport não captava totalmente a complexidade das relações entre homens e mulheres, pois embora esses grupos compitam por recursos e status social, sua relação não é de mera competição, mas também desenvolvem entre si relações íntimas de afeto e papéis complementares nas dinâmicas entre os casais. Para esses autores, ao considerar as relações entre homens e mulheres, é preciso reconhecer que esses dois grupos se relacionam intimamente e que as mulheres ao redor do mundo também são caracterizadas a partir de muitos estereótipos positivos. Portanto, esses autores refutam a noção de preconceito baseada apenas em estereótipos negativos e distanciamento social (Glick & Fiske, 1996).
Com base nas limitações de considerar o sexismo ou o preconceito contra a mulher apenas em termos da hostilidade ou da antipatia, Glick e Fiske (1996) desenvolveram a Teoria do Sexismo Ambivalente. Por meio dessa teoria, os autores propuseram que o sexismo é um tipo de preconceito caracterizado pela ambivalência em relação às mulheres. De acordo com Glick e Fiske (1996), o sexismo ambivalente engloba dois conjuntos de atitudes sexistas: o sexismo hostil e o sexismo benevolente.
O sexismo hostil pode ser entendido por meio da definição de preconceito de Allport (1954), que se refere à antipatia ou hostilidade em relação às mulheres. Segundo Glick e Fiske (2001, p. 109), o sexismo hostil representa “[…] uma visão contraditória das relações de gênero nas quais as mulheres são vistas como procurando controlar os homens, seja por meio da sexualidade ou por ideologia feminista”. Apoiando essa noção, Barreto e Doyle (2023) acrescentam que o sexismo hostil possui um tom negativo e que hostiliza as mulheres que desafiam os papéis tradicionais de gênero, propondo uma visão competitiva das relações de gênero.
Por outro lado, o sexismo benevolente tem um tom mais positivo, pois representa uma visão romantizada das relações de gênero. Esse tipo de sexismo pode ser visto pelas mulheres como algo positivo, pois emprega uma abordagem mais gentil para justificar o status inferior das mulheres e a dominação masculina, ao mesmo tempo em que reforça os papéis tradicionais de gênero por meio da complementariedade entre homens e mulheres (Glick & Fiske, 2001). Para Barreto e Doyle (2023), ao contrário do sexismo hostil, que propõe uma visão competitiva das relações de gênero, o sexismo benevolente propõe uma visão cooperativa e complementar. Assim, o sexismo benevolente é responsável por idealizar e elogiar as mulheres que não desafiam os papéis tradicionais de gênero, tratando-as como criaturas puras e moralmente superiores, ao mesmo tempo em que as retrata como fracas e necessitadas de cuidado e proteção.
Segundo Glick e Fiske (1996), o sexismo ambivalente tem sua origem na convergência entre o patriarcado, a diferenciação dos papéis de gênero e a interdependência entre homens e mulheres. Cada um desses elementos é acompanhado por um conjunto de crenças ambivalentes em relação às mulheres, que servem para justificar a dominação masculina (Glick & Fiske, 1996). Dessa forma, os autores afirmam que o sexismo hostil e o sexismo benevolente compartilham três subcomponentes relacionados ao paternalismo, à diferenciação de gênero e à heterossexualidade, que são explicados a seguir.
O paternalismo está relacionado à superioridade dos homens sobre as mulheres e pode ser expresso por meio do paternalismo dominador, que corresponde ao sexismo hostil, e do paternalismo protetor, que corresponde ao sexismo benevolente (Barreto & Doyle, 2023; Glick & Fiske, 1996). Para Glick e Fiske (1996), esse subcomponente representa bem o sexismo como um preconceito ambivalente ao possuir uma parte dominadora e outra parte de afeição e proteção.
Na diferenciação de gênero, há a diferenciação de gênero competitiva, proveniente do sexismo hostil, e a diferenciação complementar de gênero, proveniente do sexismo benevolente. Por meio da diferenciação de gênero competitiva, as mulheres são vistas como incapazes de ocupar posições de poder e de alto status, já que esses espaços são reservados exclusivamente aos homens, vistos como os únicos detentores dos atributos necessários para tais posições. Por outro lado, a diferenciação complementar de gênero visa sustentar a noção de que, embora as mulheres possam não ter os atributos necessários para posições de poder e de alto status, elas possuem características e atributos positivos que são complementares aos homens (Glick & Fiske, 1996).
Por fim, a heterossexualidade pode ser expressa por meio da hostilidade heterossexual, associada ao sexismo hostil, e por meio da intimidade heterossexual, associada ao sexismo benevolente. A hostilidade heterossexual procura controlar a sexualidade feminina por conceber que as mulheres utilizam o sexo como uma forma de controlar os homens. Já a intimidade heterossexual idealiza os papéis femininos como objetos românticos, retratando os relacionamentos heterossexuais íntimos como fonte da completude e felicidade do homem (Glick & Fiske, 1996).
A mensuração do sexismo
Anterior ao desenvolvimento da Teoria do Sexismo Ambivalente de Glick e Fiske (1996), alguns instrumentos foram desenvolvidos para medir crenças e atitudes sexistas, como a Escala de Sexismo Moderno de Swim et al. (1995) e a Escala de Neo-Sexismo de Tougas et al. (1995). No entanto, essas escalas falharam em diferenciar o sexismo hostil do sexismo benevolente. Reconhecendo a necessidade de instrumentos que pudessem medir esses dois componentes, Glick e Fiske (1996) desenvolveram o Inventário de Sexismo Ambivalente. Em sua versão completa, o inventário é composto por 22 itens, sendo 11 itens referentes ao sexismo hostil e 11 itens referentes ao sexismo benevolente.
Inicialmente, o inventário foi desenvolvido e validado em seis estudos conduzidos nos Estados Unidos por Glick e Fiske (1996). A partir de análises fatoriais confirmatórias, os autores demonstraram que a medida apresenta as duas dimensões, sexismo hostil e benevolente, correlacionadas (correlações entre 0,37 e 0,74) e que o sexismo benevolente pode ser mais bem descrito a partir de três subfatores (paternalismo protetor, diferenciação de gênero complementar e intimidade heterossexual). Os resultados das análises demonstraram que os itens apresentaram cargas fatoriais adequadas nas diferentes amostras, bem como índices de consistência interna satisfatórios (alfas de Cronbach entre 0,80 e 0,92 para o sexismo hostil e alfas entre 0,73 e 0,85 para o sexismo benevolente).
Após a validação do instrumento nos Estados Unidos, um estudo realizado por Glick et al. (2000) procurou investigar se o sexismo ambivalente poderia ser encontrado em outras culturas. O Inventário de Sexismo Ambivalente foi adaptado e aplicado em mais de 15.000 entrevistados em 19 países: Austrália, Bélgica, Botswana, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Inglaterra, Alemanha, Itália, Japão, Holanda, Nigéria, Portugal, Espanha, África do Sul, Coreia do Sul, Turquia e Estados Unidos. Por meio de análises fatoriais confirmatórias, os resultados dessa pesquisa mostraram que o sexismo hostil e o sexismo benevolente foram encontrados nas diferentes culturas, além de que os níveis de sexismo hostil e benevolente nos países estudados previram o grau de desigualdade de gênero, o que significa que, à medida que os níveis de sexismo hostil e sexismo benevolente aumentavam, também aumentava a desigualdade de gênero (Glick et al., 2000).
Zawisza et al. (2025) testaram novamente os princípios básicos da teoria do sexismo ambivalente usando uma versão reduzida do instrumento e exploraram novas correlações com resultados de 62 nações. Os resultados replicam os achados de Glick et al. (2000) sugerindo que o sexismo hostil e o benevolente representam ideologias universalmente reconhecíveis, persistentes e complementares, correlacionadas com a desigualdade estrutural de gênero nas nações.
No contexto brasileiro, o Inventário de Sexismo Ambivalente foi adaptado por Formiga et al. (2002) e por Ferreira (2004), e desde então tem sido utilizado em pesquisas relacionadas ao tema no país. Contudo, não existem evidências recentes dos parâmetros psicométricos dessa medida no contexto brasileiro para adultos. Existem evidências recentes apenas para o público-alvo de adolescentes (Santos et al., 2022).
Ademais, diante da necessidade de medidas mais curtas e, ainda assim, válidas e precisas, é preciso considerar o uso de versões reduzidas de instrumentos já existentes. A este respeito, Glick e Whitehead (2010), a partir da análise de dados de amostras de 25 países provenientes das pesquisas de Glick et al. (2000; 2004), propuseram uma versão reduzida do Inventário de Sexismo Ambivalente, composta por 12 itens do instrumento original. Os itens escolhidos foram selecionados por meio dos seguintes critérios: cada subescala deveria ser representada por um número igual de itens, cada item escolhido precisava ter tido uma boa performance psicométrica em pesquisas anteriores (maiores cargas fatoriais) e os itens escolhidos precisavam representar os subcomponentes compartilhados pelo sexismo hostil e pelo sexismo benevolente. Tanto o sexismo hostil (α=0,78), quanto o sexismo benevolente (α=0,77) apresentaram adequados indicadores de consistência interna.
Após o estudo de Glick e Whitehead (2010), Castro et al. (2009) e Rollero et al. (2014) realizaram estudos para comprovar as propriedades psicométricas do inventário de sexismo ambivalente em sua versão reduzida no contexto espanhol e italiano, respectivamente. Os resultados desses estudos apontaram que o inventário em sua versão reduzida apresentava a mesma estrutura fatorial do inventário original com indicadores adequados de confiabilidade (alfas de 0,67 a 0,80 para sexismo benevolente e 0,82 a 0,85 para sexismo hostil), e indicadores de invariância com relação ao gênero e a grupos de idade (18-29 anos; 30-49 anos; e 50-70 anos), podendo ser utilizado em pesquisas posteriores.
Diante do exposto, fica evidente a necessidade de atualização dos parâmetros psicométricos da medida internacionalmente utilizada para mensurar sexismo. Ademais, conforme destacado por Castro et al. (2009), há vantagens no uso de versões reduzidas de escalas e inventários em termos de tempo e de recursos financeiros, desde que os instrumentos mantenham suas propriedades psicométricas. Nesse sentido, o objetivo do presente artigo é adaptar para o contexto brasileiro o Inventário de Sexismo Ambivalente em sua versão reduzida, reunindo evidências de validade baseada na estrutura interna e no processo de resposta, bem como evidências de precisão.
Método
Participantes
Participaram do estudo um total de 773 pessoas da população geral, provenientes de diferentes regiões do país, com uma proporção maior de participantes do Nordeste (62,1%), seguido de Sudeste (24,5%), Sul (10,2%), Norte (2,0%) e Centro-oeste (1,2%). A faixa etária dos participantes situou-se entre 18 e 71 anos (M=30,41; DP=9,27), sendo a maioria do gênero feminino (54,3%), heterossexual (80,5%), branca (47,6%), católica (43,1%), e solteira (56,3%) na época da pesquisa.
A maioria da amostra tinha ensino superior completo (56,7%) ou incompleto (32,9%), e um menor grupo possuía ensino médio completo (9,7%) ou ensino fundamental completo (0,8%). Em relação à percepção da classe social, em uma escala de 1 a 7, em que 1 representava "baixa" e 7 "alta", a maioria reconheceu-se como pertencente à classe média (44,2%). Quanto à orientação política, foi perguntado qual era o posicionamento político dos participantes, sendo respondido em uma escala de sete pontos, variando de 1 ‘‘extrema esquerda’’ a 7 ‘‘extrema direita’’, a maioria identificou-se como de extrema direita (22,8%) e de extrema esquerda (21,1%).
Instrumentos
Foi utilizado o Inventário de Sexismo Ambivalente - versão reduzida, proposto por Glick e Whitehead (2010). Esse instrumento consiste em 12 itens que avaliam as atitudes sexistas em relação às mulheres em duas dimensões: sexismo hostil com 6 itens (por exemplo: ‘‘Feministas fazem demandas irracionais aos homens”) e sexismo benevolente com 6 itens (por exemplo: ‘‘As mulheres devem ser queridas e protegidas pelo homem’’). Os participantes expressaram seu grau de concordância ou discordância em relação a cada item por meio de uma escala do tipo Likert, que varia de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente).
Além disso, para conhecer as características da amostra, foi utilizado um questionário sociodemográfico, com questões sobre idade, gênero, orientação sexual, escolaridade, região do país, filiação política e religiosa.
Procedimentos
A coleta de dados foi realizada de forma on-line, por meio do programa Google Forms. O link com o questionário foi divulgado nas redes sociais Instagram, Facebook e Twitter. Para alcançar maior representatividade e diversidade na composição da amostra, foram utilizadas estratégias de compartilhamento que buscaram alcançar perfis e comunidades com usuários que apresentavam diferentes características. Ao concluir as respostas, o participante recebia uma mensagem incentivando-o a compartilhar o link da pesquisa para que mais indivíduos pudessem ter acesso ao questionário. O questionário ficou disponível para resposta no segundo semestre de 2020, período marcado mundialmente pela pandemia do novo coronavírus (SARS-CoV-2). O estudo seguiu os princípios que orientam a pesquisa com seres humanos (Resoluções do CNS 466/12 e 510/16) e foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (parecer nº 3.422.285).
Análise de dados
Foram implementados um conjunto de análises: Inicialmente, análise fatorial confirmatória (AFC) e AFC multigrupo (AFCMG) com o objetivo de investigar o ajuste do modelo fatorial e a invariância da escala de Sexismo Ambivalente para homens e mulheres. A análise foi implementada utilizando o método de estimação Robust Diagonally Weighted Least Squares (RDWLS), apropriado para dados ordinais (DiStefano & Morgan, 2014; Li, 2016). A AFCMG avaliou a invariância da medida em quatro modelos, a saber: configural, métrico e escalar e residual.
Os índices de ajuste utilizados foram: Comparative Fit Index (CFI) e Tucker-Lewis Index (TLI), Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA), Standardized Root Mean Square Residual (SRMR). Valores de CFI e TLI devem ser maiores que 0,90 e, preferencialmente acima de 0,95; valores de RMSEA devem ser menores que 0,08 ou, preferencialmente menores que 0,06, com intervalo de confiança (limite superior) inferior a 0,10 (Brown, 2015). A invariância da medida foi testada utilizando o teste de diferença do CFI (∆CFI <0,01), cuja orientação consiste em encontrar redução nos índices de CFI ao fixar um parâmetro para que a invariância da medida seja evidenciada (Cheung & Rensvold, 2002).
Ainda, foram investigadas as consistências internas dos fatores da escala por meio dos coeficientes alfa de Cronbach, ômega de McDonald e confiabilidade composta, sendo considerados satisfatórios índices acima de 0,60 (Raykov, 2007). Os dados foram analisados nos softwares RStudio e JASP. A Teoria de resposta ao item (TRI) foi usada para análise dos parâmetros a (discriminação) e b (dificuldade). Considerou-se como referência de adequação ao parâmetro a valores acima de 0,6. Para o parâmetro b, os valores de referência deveriam variar entre -3 e +3, e quanto mais positivo, maior a dificuldade em concordar com os itens da escala (Primi, 2004). Por fim, foram descritos os níveis de sexismo da amostra por gênero, por meio de estatísticas descritivas e teste t para amostras independentes, com tamanho de efeito d de Cohen.
Resultados
Análise Fatorial Confirmatória
Inicialmente, os resultados da AFC indicaram que o modelo apresentou os seguintes índices de ajuste: χ2(53)=350,82; p<0,001; CFI=0,99, TLI=0,99; RMSEA=0,085 [IC 90%=0,077; 0,094]; SRMR=0,067. As cargas fatoriais do Sexismo benevolente variaram entre 0,12 (item 10) e 0,91 (item 4), enquanto as cargas fatoriais de Sexismo hostil variaram entre 0,83 (item 3) e 0,92 (item 12). Os itens 1 (Mulheres têm pureza que poucos homens possuem) e 10 (As mulheres, comparadas aos homens, tendem a ter uma sensibilidade moral superior) de sexismo benevolente apresentaram cargas abaixo do recomendado (>0,30). A análise de modificação de índices identificou que estes itens possuíam forte correlação residual (Mod. Ind. = 135,03; EPC = 0,387). Análise complementar sem esses itens não melhoraram consideravelmente os índices de ajuste: χ2(52)=215,61; p<0,001; CFI=0,997, TLI=0,995; RMSEA=0,069 [IC 90%=0,058; 0,080]; SRMR=0,043. Portanto, foi considerado um modelo re-especificado a partir da correlação dos erros dos itens 1 e 10.
O modelo final com os 12 itens apresentou os seguintes índices de ajuste: Inicialmente χ2(52)=215,61; p<0,001; CFI=0,995, TLI=0,994; RMSEA=0,064 [IC 90%=0,055; 0,073]; SRMR=0,051. Os fatores do sexismo ambivalente se correlacionaram positivamente e fortemente (r=0,80; p<0,001). A Figura 1 apresenta as cargas fatoriais dos itens nos fatores sexismo benevolente e hostil.
Invariância do Modelo
A análise fatorial confirmatória multigrupo (AFCMG) conduzida testou se havia invariância (configural, métrica, escalar e residual) por gênero dos participantes. Ou seja, verificar se a estrutura fatorial, as cargas fatoriais e os interceptos não diferem entre os grupos, permitindo a comparação entre homens e mulheres quanto aos níveis de sexismo ambivalente. Esses resultados são apresentados na Tabela 1.
Tabela 1 Invariância do Modelo Fatorial
| CFI | RMSEA (IC 90%) | ∆CFI | |
|---|---|---|---|
| Configural | 0,994 | 0,059 (0,050 - 0,069) | |
| Métrica | 0,993 | 0,064 (0,055 - 0,073) | 0,001 |
| Escalar | 0,993 | 0,055 (0,047 - 0,064) | 0,000 |
| Residual | 0,993 | 0,055 (0,047 - 0,063) | 0,000 |
A partir do critério ∆CFI>0,01, como se observa na Tabela 1, evidencia-se que o modelo possui invariância por gênero em todos os níveis (configural, métrica, escalar e residual), sendo possível a comparação dos escores desses grupos.
Consistência Interna
A análise da consistência interna dos fatores avaliada por três coeficientes diferentes é apresentada na Tabela 2. Todos os métodos indicaram que os fatores apresentam boa consistência interna. A consistência interna total da escala também foi satisfatória (α=0,88; ω=0,89).
Parâmetros da Teoria de Resposta ao Item
Foi realizada uma análise item a item. Para isso, os itens da escala de sexismo ambivalente foram avaliados em relação aos parâmetros "a" (discriminação) e "b" (dificuldade), bem como o nível de informação (precisão). Tais parâmetros se referem, respectivamensexismo necessário (theta) para endossar as opções da te, a capacidade do item para discriminar adequadamenescala Likert de resposta para cada item. Os resultados te pessoas com nível de sexismo distintos e o nível de são sumarizados na Tabela 3.
Tabela 3 Parâmetros a e b e informação dos itens
| Sexismo Benevolente | a | b1 | b2 | b3 | b4 | I (-3;+3) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 0,48 | -0,13 | 0,78 | 3,59 | 4,93 | 0,38 |
| 2 | 2,12 | -1,27 | -0,92 | -0,20 | 0,16 | 4,13 |
| 4 | 3,88 | -0,26 | -0,02 | 0,52 | 0,71 | 8,44 |
| 5 | 3,48 | 0,006 | 0,20 | 0,67 | 0,95 | 7,11 |
| 10 | 0,26 | -2,86 | -0,78 | 3,93 | 8,59 | 0,12 |
| 11 | 1,91 | -0,16 | 0,12 | 0,75 | 1,23 | 3,50 |
| Sexismo Hostil | a | b1 | b2 | b3 | b4 | I (-3;+3) |
| 3 | 2,66 | 0,003 | 0,33 | 1,20 | 1,52 | 5,86 |
| 6 | 3,09 | 0,15 | 0,49 | 1,16 | 1,58 | 7,26 |
| 7 | 3,17 | -0,05 | 0,38 | 1,14 | 1,68 | 8,29 |
| 8 | 3,19 | -0,18 | 0,16 | 0,83 | 1,25 | 7,62 |
| 9 | 2,95 | -0,11 | 0,26 | 0,93 | 1,40 | 7,01 |
| 12 | 2,72 | -0,19 | 0,03 | 0,31 | 0,52 | 4,48 |
Nota. a=discriminação; b1 - b4=Thresholds/dificuldades; I (-3;-3)=quantidade de informação do item
Em relação ao fator sexismo benevolente, dois itens se destacaram por apresentarem baixas discriminações: itens 1 (Mulheres têm pureza que poucos homens possuem) e 10 (As mulheres, comparadas aos homens, tendem a ter uma sensibilidade moral superior) e baixa informação para avaliação do construto. Ou seja, não medem precisamente o traço latente pretendido. De acordo com a interpretação dos Thresholds (b1 ao b4) e das curvas características dos itens concentradas é possível identificar maior probabilidade de endosso a discordância desses itens, independentemente do nível de traço latente de quem os responde. Com isso, esses dois itens (1 e 10) se mostraram com maior dificuldade de concordância (b3 e b4). Os demais itens do fator apresentaram adequadas discriminações e amplitude de dificuldade. O item 2 (As mulheres devem ser queridas e protegidas pelo homem) é o de mais fácil concordância pelos respondentes.
O fator sexismo hostil apresentou alta capacidade de discriminação, amplitude de dificuldade e informação (precisão) para todos os itens. O item de mais fácil concordância é o 12 (Feministas fazem demandas irracionais aos homens) e o de mais difícil concordância é o 7 (Uma vez que uma mulher consegue que um homem se comprometa a ela, ela geralmente tenta controlá-lo).
Para os itens de ambos os fatores foi realizada uma inspeção das curvas de informação, as quais indicaram que os itens têm maior precisão na estimação dos thetas em pessoas com níveis moderados de sexismo ambivalente (Figura 2).
Comparações por Gênero
Os escores médios de sexismo benevolente e hostil foram comparados entre homens e mulheres. Os homens (M=3,18; DP=3,40) tiveram maiores níveis de sexismo benevolente do que as mulheres (M=2,25; DP=2,00), t(771)=12,5; p<0,001; d=0,90. Da mesma forma, homens (M=2,81; DP=3,00) apresentaram maiores níveis de sexismo hostil do que as mulheres (M=1,88; DP=1,50), t(771)=11,7; p<0,001; d=0,84). Ambas as comparações mostraram um tamanho de efeito forte.
Discussão
Essa pesquisa teve como objetivo adaptar para o contexto brasileiro o Inventário de Sexismo Ambivalente (ISA) em sua versão reduzida (Glick & Whitehead, 2010), reunindo evidências de validade e precisão. A teoria que alicerça esse instrumento é transculturalmente validada e reconhecida há quase 30 anos (Glick & Fiske, 1996). Não obstante, ainda não há evidências de uma medida curta e precisa para ser utilizada nas pesquisas sobre essa temática no cenário nacional. É neste contexto que se insere a contribuição da presente pesquisa, cujos principais resultados são discutidos a seguir.
Em síntese, nosso conjunto de resultados apoia a hipótese principal da teoria de que o sexismo ambivalente se apresenta por meio de duas dimensões fortemente correlacionadas, o sexismo hostil e o sexismo benevolente (Glick & Fiske, 1996). A versão reduzida da escala de sexismo ambivalente apresenta fortes evidências de seus parâmetros psicométricos, com bons indicadores de ajuste na análise fatorial confirmatória e com ambas as dimensões apresentando diferentes indicadores de consistência interna adequados e com valores próximos aos encontrados em pesquisas anteriores (Castro et al., 2009; Glick & Whitehead, 2010; Rollero et al., 2014).
De modo mais específico, quando se comparam os valores de alfa de Cronbach encontrados na presente pesquisa, mesmo tratando-se de uma versão reduzida do instrumento, com os resultados das versões brasileiras completas, com 22 itens, de Formiga et al. (2002) e Ferreira (2004), o valor de alfa para a dimensão de sexismo benevolente é igual ao encontrado por Ferreira (2004; α=0,75) e o alfa da dimensão de sexismo hostil da presente versão é maior (α=0,90) do que o encontrado pelas pesquisas anteriores realizadas no Brasil já mencionadas.
Cabe salientar que dois itens da dimensão de sexismo benevolente (itens 1 e 10) apresentaram cargas fatoriais baixas, bem como baixas discriminações e baixa informação para avaliação do construto segundo as análises de Teoria de Resposta ao Item, o que pode suscitar a atenção dos pesquisadores que venham a trabalhar com essa escala no futuro. Esses itens também apresentaram cargas baixas na pesquisa realizada por Castro et al. (2009) no contexto espanhol, mas em outras pesquisas foram adequados, como nos contextos dos EUA (Glick & Whitehead, 2010; Colombia (Martínez-Baquero & Vallejo-Medina, 2024), México (Juarros-Basterretxea et al., 2023) e Itália (Rollero et al., 2014). Neste sentido, diante das diferentes evidências de validade e precisão da medida mesmo com esses dois itens, decidimos por mantê-los na versão adaptada para fins de comparação direta com as versões do instrumento adaptadas para outras culturas. Entretanto, para uso em contexto prático e em tomadas de decisão, há possibilidade de aplicar sem esses dois itens de menor precisão de medida do construto. O baixo desempenho dos itens 1 e 10 pode ter impactado negativamente os índices de ajuste global e a consistência interna do fator sexismo benevolente. Embora mantidos por sua relevância teórica na cobertura da avaliação do paternalismo mortal, reconhecemos que a baixa discriminação e informação desses itens podem impactar na precisão da medida. Por isso, recomendamos cautela na interpretação dessa dimensão e sugerimos futuras pesquisas que testem esses itens em amostras mais diversas ou considerem sua reformulação.
Outros estudos adaptaram versões ainda mais curtas do ISA, como o de Bendixen e Kennair (2017) que utilizaram apenas 8 itens no contexto norueguês. Entretanto, encontraram cargas fatoriais mais baixas e menores índices de consistência interna, quando comparados à medida aqui apresentada.
Ademais, dada a importância da dimensão do gênero para essa medida, realizamos análises fatoriais multigrupo e constatamos que a medida apresenta invariância por gênero em todos os níveis, o que comprova sua capacidade de comparação dos escores entre homens e mulheres. A este respeito, conforme postulado pela teoria, os resultados da presente pesquisa mostram que os homens possuem níveis de sexismo hostil e benevolente significativamente maior do que as mulheres. Esses resultados corroboram os resultados de pesquisas anteriores (Glick & Fiske, 1996; Formiga et al., 2002; Glick & Whitehead, 2010; Martínez-Baquero & Vallejo-Medina, 2024), embora algumas pesquisas não tenham detectado diferenças significativas na dimensão do sexismo benevolente (Juarros-Basterretxea et al., 2023; Ferreira, 2004; Rollero et al., 2014). Tais resultados contribuem para as evidências de validade externa da escala, uma vez que confirmam padrões teóricos esperados de diferenciação entre grupos.
Confia-se que a pesquisa realizada buscou suprir limitações de pesquisas anteriores, uma vez que utilizamos análises robustas para reunir evidências de validade e precisão da medida e por utilizarmos uma amostra da população geral diversa em termos de gênero, raças, classes sociais e orientações políticas, o que contribui para a sua validade. Não obstante, ainda consideramos uma limitação da presente pesquisa não termos uma amostra de fato representativa da população brasileira. Futuras pesquisas podem reunir evidências de validade dessa medida buscando testar invariância da medida para além do gênero, incluindo recortes como raça, classe social, escolaridade e orientação política, de modo a aprofundar a compreensão sobre o funcionamento da escala em diferentes segmentos da população.
Adicionalmente, os resultados da TRI indicaram que a escala apresenta menor precisão para indivíduos com níveis muito baixos ou muito altos de sexismo, o que limita a avaliação do sexismo benevolente em contextos extremos. Essa limitação deve ser considerada na interpretação dos escores em populações específicas, como ativistas e conservadores. Recomenda-se, portanto, que pesquisas futuras investiguem a possibilidade de mensurar uma maior amplitude do traço latente, a fim de aprimorar a aplicabilidade da medida nesses contextos.
Destarte, pesquisadores brasileiros que tenham interesse em avaliar atitudes sexistas, mas que precisam considerar o uso de medidas curtas, mas ainda assim válidas e precisas, poderão utilizar a versão reduzida da escala de sexismo ambivalente proposta por Glick e Whitehead (2010) e adaptada para o contexto brasileiro pela presente pesquisa. De fato, pretendemos trazer para a comunidade científica brasileira que se preocupa com as questões que envolvem a desigualdade de gênero uma importante contribuição.
Além disso, ressalta-se a importância de avaliar o sexismo em um contexto em que a violência contra a mulher é um problema grave e persistente (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2022). De fato, a literatura internacional tem demonstrado que o sexismo hostil está consistentemente associado à perpetração da violência contra a mulher, estando associado tanto a formas psicológicas quanto físicas de violência, pois fomenta atitudes que justificam ou minimizam a gravidade dessa violência (Herrero et al., 2017; Juarros-Basterretxea et al., 2019; Madrona-Bonastre et al, 2022). Enquanto o sexismo benevolente pode, por vezes, ter um efeito protetor contra a violência masculina contra suas parceiras, também contribui para a justificação da violência, reforçando papéis e estereótipos tradicionais de gênero (Allen et al., 2009; Juarros-Basterretxea et al., 2019).
Assim, dispor de um instrumento para avaliar o sexismo no contexto brasileiro contribui para analisar as atitudes que perpetuam esse grave problema social. No caso das intervenções no campo da violência contra mulher, dispor de uma medida de sexismo pode contribuir para gerar informações, baseadas em evidências, que servirão para embasar políticas públicas efetivas no combate a essa forma de violência. Essa medida pode auxiliar, por exemplo, na identificação de áreas prioritárias de intervenção e no monitoramento dessas ações, favorecendo o avanço na redução da violência e na promoção da igualdade de gênero.
















