Pornografia e Uso de Preservativo entre Homens que Fazem Sexo com Homens
A pornografia, definida como qualquer material explícito destinado a provocar excitação sexual (Corneau & Meulen, 2014), é uma presença dominante na sociedade contemporânea (Carrano & Castro, 2019). Facilitado pelos avanços tecnológicos e pela popularização da internet, o consumo de conteúdos pornográficos atingiu níveis globais elevados, com milhões de pessoas acessando diariamente (Pornhub, 2019). A pornografia na internet, em particular, refere-se ao uso das redes online para acessar material pornográfico, uma das formas mais prevalentes de consumo devido à sua conveniência e anonimato (Alarcón et al., 2019).
Especificamente, a pornografia gay se refere a qualquer tipo de material com representação explícita de nudez ou atividade sexual entre homens com o objetivo de estimular sexualmente o consumidor (Corneau et al., 2017). Discute-se na literatura científica que a pornografia pode se tornar um educador informal, influenciando as percepções e os comportamentos sexuais de homens gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH), dada a escassa educação sexual que considera essas relações específicas (Kubicek et al., 2010; 2011). Uma revisão sistemática discutiu a "educação pela pornografia" quanto ao aprendizado da mecânica do sexo e da compreensão da sexualidade, destacando sua relevância, sobretudo, para jovens gays (Litsou et al., 2021).
No espectro de modalidades pornográficas, uma das vertentes que merece destaque é a pornografia bareback. Esta categoria é caracterizada por práticas de relações anais sem preservativo e ejaculações dentro ou sobre o ânus e/ou genitália (bareback, seeding, raw e outras categorias; Corneau & Meulen, 2014). A presença do bareback é majoritária na pornografia popular consumida na internet (Wright, 2022) e estudos vêm tentando compreender como a sua normalização (Whitfield et al., 2018) e fetichização (Martins et al., 2021) podem gerar implicações significativas em comportamentos sexuais potencialmente de risco para Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
O comportamento sexual de risco é caracterizado por práticas que aumentam a probabilidade de transmissão de ISTs e outras consequências adversas à saúde sexual (Gomes & Lopes, 2022). Exemplos desses comportamentos incluem sexo sem o uso de preservativos, múltiplos parceiros casuais e a prática sexual sob a influência de substâncias psicoativas (Brasil, 2016). A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 indicou baixo uso de preservativo na população brasileira (Felisbino-Mendes et al., 2021). Dentre os objetivos da agenda de saúde pública e da pesquisa científica, consta o mapeamento de potenciais fatores de risco para comportamentos sexuais, especialmente em um contexto de crescimentos de ISTs na população (Brasil, 2020).
Neste sentido, discute-se que o consumo da pornografia bareback pode ser um fator de risco, haja vista seu potencial de normalizar práticas e predispor os indivíduos a desenvolverem atitudes favoráveis aos seus conteúdos, como demonstrado na metanálise de Tokunaga et al. (2020), envolvendo estudos de 18 países. Sabe-se que atitudes positivas em relação a um objeto levam a comportamentos consonantes (Albarracin & Shavitt, 2018). Sendo assim, um indivíduo que consome pornografia bareback pode desenvolver atitudes positivas em relação a essa prática. Tais posicionamentos favoráveis são, segundo a teoria, preditores de comportamentos (Lima et al., 2023). Isto é, uma atitude positiva fren te a comportamentos como o não uso do preservativo, cultivada pela exposição frequente à pornografia que retrata tais práticas como mais prazerosas, pode levar o indivíduo a adotar escolhas sexuais semelhantes na vida real (Corneau et al., 2017).
Diversos estudos discutem associações e modelos de direcionalidade entre o consumo de pornografia bareback e o comportamento sexual de risco entre homens gays e outros HSH (Jonas et al., 2014; Rahmayani et al., 2021; Rosser et al., 2013; Schrimshaw et al., 2016; Thai & Barlow, 2018). Por exemplo, os resultados de Whitfield et al. (2018) indicaram que o consumo de pornografia não se associou a desfechos de escolhas sexuais inseguras, mas o consumo de pornografia bareback sim. Embora a prática bareback seja também discutida através de uma perspectiva afirmativa (Mowlabocus et al, 2014), a literatura científica vêm indicando suas relações com comportamentos sexuais potencialmente de risco para saúde sexual dos indivíduos.
No Brasil, a produção sobre este recorte é limitada, especialmente por meio de metodologias quantitativas. Martins et al. (2021) avaliaram a influência do consumo de mídia sexualmente explícita (MSE) de modalidade bareback na prática de sexo anal sem preservativo por HSH. Os resultados indicaram que preferir cenas de bareback e considerar a prática bareback um fetiche aumentaram as chances de envolvimento em sexo anal sem preservativo. Outros estudos nacionais, como Lima e Couto (2022), discutem com metodologias qualitativas sobre o bareback como forma de subversão e resistência. Devido à relevância social deste problema de pesquisa, a parca produção científica no Brasil indica uma lacuna que deve ser preenchida.
O presente estudo investigou se o consumo de pornografia bareback aumenta as chances de envolvimento em relações anais sem preservativo entre homens gays e outros homens que fazem sexo com homens (HSH). Cinco hipóteses de pesquisa foram formuladas: H1: Atitudes favoráveis à pornografia bareback serão preditores de menor frequência de uso de preservativo; H2: Consumo de pornografia bareback será preditor de menor frequência de uso de preservativo; H3: Atitudes favoráveis à pornografia bareback aumentarão as chances de não utilizar preservativo em relações anais casuais; H4: Consumo de pornografia bareback aumentará as chances de não utilizar preservativo em relações anais casuais; e, H5: O impacto de atitudes favoráveis à pornografia bareback no uso de preservativo em relações anais casuais será mediado pela frequência de consumo de pornografia bareback. Para tanto, este estudo se fundamentou no Modelo de Saúde Pública discutido por Bishop (2015), caracterizado por estudos que buscam compreender as relações entre o consumo de pornografia e aspectos epidemiológicos do comportamento sexual.
Esta pesquisa é relevante a nível científico, clínico e epidemiológico por diversas razões. Cientificamente, contribui para a compreensão das influências comportamentais e psicológicas da pornografia na vida dos indivíduos, oferecendo dados empíricos sobre como a exposição a pornografia bareback pode moldar atitudes e práticas sexuais. Clinicamente, os resultados esperados podem auxiliar profissionais de saúde no desenvolvimento de estratégias de educação sexual e intervenções voltadas para a redução de comportamentos sexuais de risco. Epidemiologicamente, pode ajudar a esclarecer as dinâmicas de transmissão de ISTs, ajudando a formular políticas públicas de saúde que visem à prevenção e controle dessas infecções. Ainda, o tema é socialmente relevante, pois aborda um aspecto massificado da cultura contemporânea (Statista, 2023). Sendo assim, espera-se que os resultados possam reverberar socialmente ao promover um diálogo mais informado e consciente sobre o consumo de pornografia.
Método
Participantes
Responderam à pesquisa 1.833 homens, por meio de amostra de conveniência. Os critérios de inclusão foram: ser maior de 18 anos, ser um homem gay ou outro HSH e assistir ou já ter assistido à pornografia gay na internet. Não houve critérios de exclusão. Após checagem dos critérios, a amostra foi reduzida para 1.790 participantes com idade entre 18 e 72 anos (M=28,8 anos; DP=8,46). Os respondentes foram de todos os estados brasileiros, sendo 4,4% residentes na região Norte (n=78), 23,6% na região Nordeste (n=422), 6,7% na região Centro-Oeste (n=120), 52,4% na região Sudeste (n=938), 11,8% na região Sul (n=212) e 1,1% eram brasileiros não residentes no Brasil (n=20).
Quanto à escolaridade, 19,7% possuíam grau de ensino médio ou abaixo (n=352), 25,9%, ensino superior incompleto (n=464), 26,2%, ensino superior completo (n=469) e 28,3%, especialização, mestrado ou doutorado (n=505). Os participantes se declararam 1,1% amarelos (n=19), 56,1% brancos (n=1.005), 0,6% indígenas (n=10), 30,2% pardos (n=540) e 12,1 pretos (n=216). Quanto ao status de relacionamento, 61,3% estavam solteiros (n=1.097), 21,6% em namoro (n=386), 10,8% em casamento ou união estável (n=193) e 6,4% em relacionamento aberto (n=114). A maioria dos participantes (79,7%) se declarou homem gay (n=1.427), mas houve participação de homens bissexuais (n=322, 18%) e outros HSH (n=41, 2,6%). Quanto ao comportamento sexual, 79% se relacionavam sexualmente apenas com homens (n=1.414), 11,1% principalmente com homens (n=199), 3,9% com homens e com mulheres (n=70), 1,4% principalmente com mulheres (n=25) e 4,6% relataram outro tipo ou inatividade sexual (n=82).
Instrumentos
Questionário Sociodemográfico. Questionário criado ad hoc com itens de caracterização sociodemográfica da amostra, incluindo idade, escolaridade, cor, estado de residência, status de relacionamento, orientação sexual e comportamento sexual.
Questionário de Consumo de Pornografia.
Questionário criado ad hoc com itens incluindo frequência de consumo (variando de menos de 1 vez ao mês até 2 ou mais vezes ao dia), frequência de consumo de conteúdo bareback (nunca, raramente, às vezes, frequentemente ou sempre) e autopercepção de vício (com escala tipo Likert de cinco pontos variando de discordo a concordo).
Questionário de Comportamento Sexual.
Dentre os muitos comportamentos sexuais classificados como potencialmente de risco (Gomes & Lopes, 2022), neste estudo o termo foi instrumentalizado através da avaliação do uso de preservativo em relações sexuais casuais, além do diagnóstico pregresso de IST contraída através de relação sexual sem preservativo. Para tanto, foram utilizados três itens elaborados com base na “Pesquisa de Comportamentos, Atitudes e Práticas da População Brasileira” (Brasil, 2016) e em estudos semelhantes, como Corneau et al. (2017) e Downing et al. (2017). Os itens mapeiam o uso de preservativo em relações sexuais nos últimos 12 meses e o diagnóstico pregresso de ISTs através de um padrão de resposta binário (sim ou não), e a frequência do uso de preservativo em relações sexuais casuais através de um padrão de resposta ordinal de cinco pontos (nunca, raramente, às vezes, frequentemente ou sempre).
Attitude Towards Gay Male Pornography- Revised (ATGPS-R). A ATGPS-R é um instrumento que mensura atitudes em relação à pornografia gay (Corneau et al., 2017; Caruzo & Hernandez, 2024). A ATGPS-R, composta por 18 itens divididos em cinco fatores, foi adaptada para o Brasil pelos pesquisadores deste artigo, apresentando ótimos índices de validade baseada na estrutura interna e consistência interna, com Alfa de Cronbach variando de 0,75 a 0,81. Foram utilizados quatro dos cinco fatores da escala, sendo eles: Pressão para se Adaptar, avaliando o quanto a pornografia gay pode criar modelos e estereótipos de corpo e performance sexual (“Eu gostaria de parecer fisicamente com um ator pornô gay”); Preferência por Bareback, medindo o posicionamento frente à ideia que pornografia gay sem preservativo é mais excitante (“A presença de camisinha na pornografia gay diminui a minha excitação sexual”); Aquisição de Conhecimento Sexual, avaliando as atitudes quanto à pornografia ser um educador de práticas sexuais (“A pornografia gay me ajuda a aprender o que podemos fazer nas relações sexuais entre homens”); e, Uso Problemático, envolvendo a autopercepção de uso excessivo e prejudicial de pornografia gay (“Eu considero que meu consumo de pornografia gay é prejudicial para mim”), totalizando 15 itens. Os itens foram respondidos a partir de uma escala tipo Likert de cinco pontos, variando entre (1) “Concordo totalmente” e (5) “Discordo totalmente”. Na atual pesquisa, o fator Pressão para se Adaptar apresentou Alfa de Cronbach de 0,80, Preferência por Bareback, 0,76, Aquisição de Conhecimento Sexual, 0,81 e Uso Problemático, 0,82.
Procedimentos
A coleta de dados foi online por meio de um formulário no Google Forms, com tempo aproximado de 20 minutos. A divulgação da pesquisa ocorreu em mídias digitais e redes sociais (Instagram, Facebook e WhatsApp) com foco na população investigada, além de contato com grupos de pesquisa de universidades públicas e privadas do Brasil. A coleta ocorreu durante o mês de abril e primeira semana de maio de 2024.
Segundo os critérios da Ética na Pesquisa com Seres Humanos, esta pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética da instituição em que se encontra vinculada sob o número de protocolo 5.759.049. O participante leu e concordou com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participar da pesquisa.
Análise de Dados
A análise de dados foi realizada através do software IBM SPSS Versão 27 (IBM Corp, 2020). Inicialmente, foram realizadas análises descritivas dos dados sociodemográficos, de consumo de pornografia e de comportamento sexual dos participantes. Em seguida, foi realizada uma análise de regressão linear múltipla (método enter) com o objetivo de investigar em que medida a frequência de consumo de pornografia, frequência de consumo de pornografia bareback, Pressão para se Adaptar, Preferência por Bareback, Aquisição de Conhecimento Sexual, Uso Problemático e vício em pornografia autopercebido impactavam na frequência do uso de preservativo em encontros sexuais casuais.
Na sequência, foram realizadas regressões logísticas binárias (método enter) com o objetivo de investigar em que medida o sexo anal desprotegido nos últimos 12 meses e o diagnóstico pregresso de IST’s devido a relações sexuais sem preservativo poderiam ser adequadamente previstos pela frequência de consumo de pornografia, frequência de consumo de pornografia bareback, Pressão para se Adaptar, Preferência por Bareback, Aquisição de Conhecimento Sexual, Uso Problemático e vício em pornografia autopercebido. Para a variável dependente sexo anal desprotegido nos últimos 12 meses, foram excluídos da análise os participantes que estavam em um relacionamento estável monogâmico (n=690). Diagnósticos de colinearidade foram realizados através do VIF, sendo valores de VIF maiores do que 10 indicativos de colinearidade. Técnicas de bootstrapping foram empregadas com o intuito de corrigir a distribuição dos resíduos.
Por fim, buscou-se investigar em que medida a frequência de consumo de pornografia bareback mediava a relação entre Preferência por Bareback e uso de preserva tivo. Para tanto, foi realizada análise de mediação através do macro PROCESS 4.3.2, com intervalo de confiança Bias-Corrected and Acecelerated (BCa) estimado pela técnica de Bootstrapping (5.000 re-amostragens). Todas as análises e pontos de corte foram baseadas em Myers e Myers (1990).
Resultados
Grande parte da amostra relatou assistir à pornografia entre uma e cinco vezes na semana (n=765, 42,7%), seguidos daqueles que assistiam seis ou sete vezes na semana (n=408, 22,8%), duas ou mais vezes por dia (n=310, 17,3%), entre uma e três vezes no mês (n=222, 12,4%) e menos de uma vez no mês (n=85, 4,7%). Quanto à frequência de consumo de pornografia bareback, 1.222 (68,2%) participantes relataram assistir sempre ou quase sempre, enquanto 458 (25,6%) assistiam às vezes e 110 (6,1%) nunca ou quase nunca. Enfim, 534 (29,8%) participantes concordaram parcialmente que estavam viciados em pornografia, enquanto 438 (24,5%) concordaram totalmente, 375 (20,9%) não concordaram ou discordaram, 203 (11,3%) discordaram parcialmente e 240 (13,4%) discordaram totalmente.
Aproximadamente 67% dos participantes relataram ter se envolvido em sexo anal sem preservativo nos últimos 12 meses (n=1.197) e aproximadamente 33% relataram não ter se envolvido (n=593). Quanto ao diagnóstico pregresso de ISTs devido a relações sexuais sem preservativo, 35,5% relataram possuir (n=635) e 64,5% relataram não possuir (n=1.155). Por fim, 1.043 (58,3%) participantes relataram sempre ou quase sempre usar preservativo em relações sexuais casuais, 288 (16,1%) relataram utilizar às vezes, 313 (17,5%) relataram nunca ou quase nunca usar e 146 (8,2%) preferiram não responder.
Testes de Kolmogorov-Smirnov e Shapiro Wilk indicaram que não havia distribuição normal dos resíduos (p<0,001). Índices VIF não ultrapassaram 2,195, demonstrando que não havia multicolinearidade entre as variáveis analisadas. Nenhum caso apresentou Distância de Cook >1,0, indicando que não havia outliers que impactariam o modelo. Os resultados da regressão linear múltipla demonstraram haver uma influência significativa (F(7, 1642)=34,355, p<0,001; R2ajustado=0,124), mas apenas as variáveis preditoras frequência de consumo de pornografia bareback (b=-0,148, t=-5,276, p<0,001) e Preferência por Bareback (b=-0,234, t=-8,369, p<0,001) foram estatisticamente significativas.
O modelo de regressão logística binária foi estatisticamente significativo para a variável dependente sexo anal desprotegido nos últimos 12 meses [c2(7)=101,715, p<0,001; Nagelkerke R2=0,109]. O modelo também foi significativo para a variável dependente diagnóstico pregresso de IST’s [c2(7)=95,885, p<0,001; Nagelkerke R2=0,072]. A Tabela 1 apresenta a porcentagem de casos corretos total e por categoria.
Tabela 1 Classificações Previstas pelo Modelo de Regressão Logística
| Valores Observados | Valores Preditos | |||
|---|---|---|---|---|
| Não | Sim | Classificações corretas (%) | ||
| Sexo Anal Desprotegido | Não | 177 | 311 | 36,3 |
| Sim | 129 | 594 | 82,2 | |
| Classificação correta | 63,7 | |||
| Diagnóstico pregresso de IST | Não | 1063 | 92 | 92 |
| Sim | 514 | 121 | 19,1 | |
| Classificação correta | 66,1 | |||
Para a variável dependente sexo anal desprotegido nos últimos 12 meses, frequência de consumo de pornografia bareback, Pressão para se Adaptar e Preferência por Bareback tiveram impacto estatisticamente significativo. Cada ponto no escore de frequência de consumo de pornografia bareback aumentou 1,48 vezes as chances de o indivíduo praticar sexo anal desprotegido. Cada ponto em Preferência por Bareback aumentou 1,10 vezes as chances de o indivíduo praticar sexo anal desprotegido. Cada ponto em Pressão para se Adaptar aumentou 0,93 vezes as chances de o indivíduo praticar sexo anal desprotegido (Tabela 2).
Tabela 2 Variáveis Preditoras de Sexo Anal Desprotegido nos Últimos 12 Meses e Diagnóstico Pregresso de Infecções Sexualmente
| Wald | df | p | Exp(B) | 95% I.C. para EXP(B) | ||
|---|---|---|---|---|---|---|
| Limite Inferior | Limite Superior | |||||
| Sexo anal desprotegido nos últimos 12 meses (n=1.211) | ||||||
| FPorn | 0,572 | 1 | 0,449 | 1,051 | 0,924 | 1,195 |
| FBareback* | 23,982 | 1 | 0,000 | 1,482 | 1,266 | 1,735 |
| PA* | 13,420 | 1 | 0,000 | 0,939 | 0,907 | 0,971 |
| PB* | 16,240 | 1 | 0,000 | 1,101 | 1,051 | 1,153 |
| ACS | 3,157 | 1 | 0,076 | 0,967 | 0,932 | 1,003 |
| UP | 0,403 | 1 | 0,526 | 0,987 | 0,947 | 1,028 |
| Vício | 0,352 | 1 | 0,553 | 0,960 | 0,838 | 1,099 |
| Constant | 2,278 | 1 | 0,131 | 0,575 | - | - |
| Diagnóstico pregresso de 1ST (n=1.790) | ||||||
| FPorn | 0,732 | 1 | 0,392 | 1,048 | 0,941 | 1,167 |
| FBareback** | 8,450 | 1 | 0,004 | 1,222 | 1,068 | 1,400 |
| PA* | 12,169 | 1 | 0,000 | 0,952 | 0,925 | 0,978 |
| PB* | 28,548 | 1 | 0,000 | 1,110 | 1,069 | 1,154 |
| ACS*** | 4,061 | 1 | 0,044 | 0,970 | 0,941 | 0,999 |
| UP | 1,722 | 1 | 0,189 | 0,978 | 0,945 | 1,011 |
| Vício | 0,379 | 1 | 0,538 | 0,966 | 0,865 | 1,079 |
| Constant | 11,543 | 1 | 0,001 | 0,355 | - | - |
Nota. FPorn=frequência de consumo de pornografia; FBareback=frequência de consumo de pornografia bareback; PA=Pressão Percebida para se Adaptar; PB=Preferência por Bareback; ACS=Aquisição de Conhecimento Sexual; UP=Uso Problemático; Vício=autopercepção de vício em pornografia;
*=significativo a nível p<0,001;
**=significativo a nível p<0,01;
***=significativo a nível p<0,05
Para a variável dependente diagnóstico pregresso de IST’s, foram significativas a frequência de consumo de pornografia bareback, Pressão para se Adaptar, Preferência por Bareback e Aquisição de Conhecimento (Tabela 2). Cada ponto no escore de frequência de consumo de pornografia bareback aumentou 1,22 vezes as chances de o indivíduo possuir diagnóstico de IST. Cada ponto em Preferência por Bareback aumentou 1,11 vezes as chances de o indivíduo possuir diagnóstico de IST. Cada ponto em Aquisição de Conhecimento aumentou 0,97 vezes as chances de o indivíduo possuir diagnóstico de IST. Enfim, cada ponto em Pressão para se Adaptar aumentou 0,95 vezes as chances de o indivíduo possuir diagnóstico de IST.
O efeito da mediação (efeito indireto) foi signifi cativo, com mediação parcial (b=-0,03, 95%IC [-0,04 -0,02]). Como demonstra a Figura 1, a frequência de consumo de pornografia bareback mediou aproximadamente 29% da relação entre Preferência por Bareback e uso de preservativo [1 - (efeito direto/efeito total)].
Discussão
O objetivo deste estudo foi investigar se o consumo de pornografia bareback pode aumentar as chances de envolvimento em relações sexuais casuais sem preservativo entre homens gays e outros HSH. As análises mostraram que tanto a frequência de consumo de pornografia bareback quanto as atitudes favoráveis a ela influenciaram significativamente a frequência de uso de preservativos e o diagnóstico pregresso de ISTs devido a relação sexual sem preservativo. As hipóteses H1 e H2, que propuseram que as atitudes favoráveis à pornografia bareback e a frequência de consumo deste tipo de pornografia seriam preditores de menor frequência de uso de preservativos em relações sexuais casuais, foram confirmadas. A análise de regressão linear múltipla demonstrou que a Preferência por bareback (que reflete atitudes favoráveis) e a frequência de consumo de pornografia bareback tiveram impacto significativo na redução da frequência de uso de preservativos. Já os resultados da regressão logística acataram às hipóteses H3 e H4, que previam que atitudes favoráveis à pornografia bareback e a frequência de consumo deste tipo de pornografia aumentariam as chances do não uso de preservativo em relações sexuais anais nos últimos 12 meses e de possuir diagnóstico pregresso de ISTs devido à relação sexual sem preservativo.
Embora os efeitos observados sejam relativamente fracos, eles não são inexistentes. Torna-se plausível discutir que atitudes favoráveis ao bareback estão associadas a desfechos de saúde como o sexo anal desprotegido e ISTs, assim como discutidos em outros achados nacionais (Martins et al., 2021) e internacionais (Jonas et al., 2014; Rahmayani et al., 2021; Schrimshaw et al., 2016; Thai & Barlow, 2018). A Teoria da Atitude oferece um arcabouço teórico relevante para compreender esses achados, postulando que atitudes positivas em relação a um comportamento aumentam a probabilidade de sua realização (Lima et al., 2023). No presente estudo, atitudes favoráveis à pornografia bareback foram preditores significativos de comportamentos sexuais semelhantes, corroborando a teoria.
É importante destacar, contudo, que os dados analisados sugerem que a frequência de consumo de pornografia, por si só, não se associou aos desfechos relacionados a potenciais comportamentos de risco. Por outro lado, a preferência e o consumo de pornografia bareback, sim. Whitfield et al. (2018) discutem este tópico, destacando que o problema não reside na pornografia em geral, mas na normalização de certas práticas na maioria dos conteúdos pornográficos. Ainda, Uso Problemático e vício autopercebido em pornografia não foram preditores do uso de preservativo, possibilitando a discussão sobre as relações entre a pornografia bareback e o uso de preservativo não serem dependentes de um comportamento compulsivo ou problemático em relação ao consumo de materiais pornográficos.
Finalmente, a hipótese H5, que sugeriu que o impacto de atitudes favoráveis à pornografia bareback no uso de preservativo em relações sexuais casuais seria mediado pela frequência de consumo de pornografia bareback, foi corroborada pela análise de mediação. Este resultado indicou que a frequência de consumo de pornografia bareback não apenas tem relação direta com o uso de preservativo, mas também amplifica o impacto das atitudes favoráveis frente a esse tipo de pornografia. Sendo assim, é possível discutir que a preferência por não ver preservativos em vídeos pornográficos por si só pode não necessariamente se traduzir em um comportamento semelhante sem a influência do consumo frequente desse tipo de conteúdo.
Entretanto, embora o consumo habitual possa reforçar atitudes favoráveis a práticas sexuais potencialmente de risco e aumentar a probabilidade de tais comportamentos, a preferência por pornografia bareback pode não estar necessariamente relacionada a um comportamento semelhante, sendo possivelmente compreendida como uma fantasia causada por preocupações reais com os quais os homens gays e outros HSH lidam diariamente (Mowlabocus et al., 2014), ou uma espécie de fetiche causado pelo tabu em relação ao tema (Corneau & Meulen, 2014). Além disso, é importante destacar que a preferência por conteúdos bareback não foi o único fator que impactou o comportamento sexual de risco nos resultados deste estudo. A pressão para se Adaptar e a Aquisição de Conhecimento Sexual também desempenharam um papel significativo. Pode-se discutir que outros aspectos da pornografia, para além do uso de preservativos, podem também aumentar as chances de um indivíduo se envolver em relações sexuais sem uso de preservativo. Isso inclui a tentativa de se enquadrar em padrões estéticos e de performance presentes na pornografia, bem como seu uso para aprender sobre práticas sexuais entre homens (Corneau et al., 2017).
Deve-se destacar que o problema não reside apenas no uso do preservativo, mas em todo o contexto envolvido na produção de tais vídeos pornográficos, frequentemente consensuais (Cornneau & Meulen, 2014), mas frequentemente envolvendo cenários e estéticas de casualidade, encontros entre desconhecidos, múltiplos parceiros/sexo grupal, e, muitas vezes, associando essas interações à violência, como indicado nas categorias de pornografia mais consumidas anualmente, disponíveis em revisões anuais de plataformas como a Pornhub (2022). Ainda assim, discute-se como estas práticas na pornografia são experenciadas como formas de subversão e resistência (Lima & Couto, 2022). Portanto, é importante não associar o risco somente à ausência de preservativo, assim como não estigmatizar práticas sexuais específicas, mas criticar o contexto e as variáveis associadas a como elas são retratadas na pornografia, além de seu potencial de influenciar negativamente as percepções e atitudes dos espectadores em relação ao sexo casual seguro e consensual.
Esses achados têm implicações importantes para a epidemiologia e a saúde pública, especialmente no contexto brasileiro, que enfrenta desafios consideráveis na prevenção de ISTs e na promoção de práticas sexuais seguras (Brasil, 2020; Felisbino-Mendes et al., 2021). Por tal motivo, políticas públicas devem incentivar pesquisas contínuas sobre o impacto da pornografia nos comportamentos sexuais, visando a desenvolver abordagens mais eficazes de promoção da saúde sexual (Downing et al., 2018). A discussão sobre o impacto da pornografia deve considerar não apenas a frequência de consumo, mas também a natureza dos conteúdos consumidos. Programas de educação sexual e campanhas de saúde pública precisam abordar os riscos associados à normalização de práticas específicas performadas na pornografia, promovendo uma maior conscientização sobre o tema.
Este estudo contribui com dados empíricos para a compreensão do impacto do consumo de pornografia no comportamento sexual de homens gays e outros HSH. Ao demonstrar que tanto a frequência de consumo quanto as atitudes favoráveis à pornografia bareback estão associadas a uma menor frequência de uso de preservativos e a um maior risco de diagnóstico de ISTs, este trabalho evidencia a necessidade de intervenções direcionadas a essas questões específicas. Ainda assim, limitações como a amostra por conveniência e a coleta de dados online devem ser destacadas. Futuros pesquisadores poderão explorar outras variáveis envolvidas nas relações destacadas neste estudo, como possíveis diferenças sociodemográficas no comportamento sexual de risco. Abordagens que simplesmente condenem o consumo de pornografia podem ser menos eficazes do que aquelas que educam sobre a variedade de conteúdos e seus potenciais impactos nas atitudes e comportamentos dos indivíduos.















