O termo “gênero” foi utilizado pela primeira vez em 1950 pelo pesquisador norte americano Robert Stoller, no contexto dos estudos sobre as transexualidades. A proposta de Stoller era utilizar o termo como forma de solucionar dificuldades conceituais no estudo de pacientes que nasciam com o sexo biológico ambíguo, ou quando o sexo do nascimento não coincidia com a identidade sexual desejada (Araújo et al., 2011). Mas o termo só ganha evidência com a publicação do livro Sex and Gender (Stoller, 1968), obra que inaugura o debate em torno do conceito, mais tarde incorporado ao campo dos estudos feministas (Araújo et al., 2011).
No campo feminista, gênero surge como uma crítica ao determinismo biológico implícito nos termos “sexo” e “diferença sexual” para enfatizar o caráter social implicado nessa construção, ou seja, seu uso passa a adquirir um status político, uma forma de implicar o corpo no político (Pinto, 2004). Por ser um princípio organizador das relações sociais pode colocar em evidências os diversos sistemas classificatórios e hierárquicos que circundam a vida das pessoas, no caso não só da diferença entre os sexos, mas também naquilo que se interconecta com a raça, a classe, a etnia, a orientação sexual etc. De forma bem resumida pode-se dizer que o conceito de gênero surge como uma crítica a uma associação linear e unívoca em relação à biologia, ou seja, pessoas com órgãos sexuais femininos ou masculinos não se identificam necessariamente com o universo feminino ou masculino, mostrando assim o caráter socialmente construído do gênero e de suas respectivas identidades. Nessa mesma direção a socialização e as experiências que cada pessoa tem produzirá efeitos sobre a forma como ela se identifica com as diferentes formas de se perceber no universo e nas diferentes formas de se exercer a sexualidade (heterossexual, homossexual, bissexual, transexual, assexual, etc).
O fato de o conceito ser tematizado por diferentes abordagens disciplinares trouxe como consequência diferentes construções conceituais, isto é, diferentes significações que mudam de acordo com o referencial conceitual específico da disciplina em questão. No que se refere à Psicologia, os ecos dos debates feministas chegaram mais tardiamente do que outras ciências sociais como a antropologia, a sociologia, a história, mas tem como porta de entrada o reconhecimento da importância dos pensamentos feministas para os avanços de uma Psicologia mais comprometida com as questões relacionadas às esferas de poder e das assimetrias que permeiam as relações sociais. Apesar do pensamento e prática feminista ser plural e compreender diferentes correntes teóricas e políticas seu impacto sobre as ciências sociais foi significativo no desvelamento das assimetrias existentes em nossa sociedade.
A discussão do conceito de gênero na Psicologia foi sua inserção na área da saúde, sobretudo sua penetração no campo de estudos da Saúde Coletiva (Araújo et al., 2011). Ao escrutinar os usos do conceito de gênero em pesquisas na área da saúde coletiva encontrou-se diferentes usos do conceito: gênero em oposição a sexo, como forma de distinguir o fator cultural do fator biológico. Usam o termo como substituição de sexo, tomando gênero como uma variável empírica, e não como categoria de análise, como propõe a perspectiva feminista. É recorrente, também, o uso de gênero como sinônimo de mulher; ou, ainda, apenas para enfatizar a dimensão relacional de gênero, sem levar em conta as desigualdades de poder, fundamento central do conceito (Scott, 1986). Porém, esses problemas não são necessariamente negativos. Como lembra Butler (2003; 2019), são fundamentais para avançar na reflexão crítica acerca do conceito.
Na pesquisa que se apresenta, o conceito de gênero é visto como uma forma de organização social em torno dos corpos sexuados (Butler, 2019) e as relações entre os modos de se viver esses corpos e os efeitos nos processos de produção saúde-doença. Importante mencionar que esses conceitos têm sido úteis para compreender as relações entre as diferentes formas de se perceber enquanto corpos diferentes de uma norma de gênero (cisgênero). Nesse sentido, foi utilizado o termo pessoas de gênero dissidentes, para identificar aqueles cujas identificações de gênero fogem ao que é tido socialmente como norma - a cisgeneridade (se identifica com o gênero dado ao nascimento, baseado no sexo biológico/genital). Estão incluídas, portanto, pessoas trans, não binárias e gênero fluído.
Vale ressaltar que pessoas com identidades de gênero dissidentes estão dentro de um grupo específico da sigla LGBTQIAPN+ que corresponde a pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não binários e mais. Anteriormente, a sigla assumiu outras configurações como GLS (gays, lésbicas e simpatizantes), LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e travestis e transsexuais e mais recentemente incorporou outros sujeitos da diversidade de gênero, identidades e orientações sexuais. Neste sentido, este estudo utilizou a sigla LGBTQIAPN+ para referir às pesquisas que têm essa população como foco central, garantindo a inclusão das pessoas com identidades de gênero dissidentes.
Vários estudos apontam que a população LGBTQIAPN+ apresenta sofrimento psíquico decorrente dos efeitos do estigma social, como a exclusão e a marginalização, o que acaba demandando um atendimento psicológico e políticas públicas específicas e qualificadas (e.g., Damaceno Netto & Rasera, 2024; Dohrenwend, 2000). No contexto brasileiro essa situação apresenta o agravante de ser um país que tem como marca altos índices de violência e mortes contra a população LGBTQIAPN+. Segundo o Observatório de Mortes e Violências contra LGBTIAPN+ (2023), no Brasil, no ano de 2022, foram identificadas 273 mortes desse grupo de forma violenta no país. Desse total, 228 foram assassinatos, correspondendo a 83,52% dos casos; 30 suicídios (10,99%) e 15 mortes por outras causas (5,49%). Tais dados fazem com que o Brasil permaneça, há mais de 14 anos, em primeiro lugar no ranking mundial de tais crimes, o que demonstra ser um contexto nada favorável à saúde mental das pessoas LGBTQIAPN+ e as tornam vulneráveis, assim como outros grupos minorizados, contribuindo para grande sofrimento psíquico e desenvolvimento de transtornos afetivos, de ansiedade, por uso de substâncias, dentre outros (Netto, 2023).
Puckett et al. (2019), realizaram um estudo com 95 pessoas LGBTQIAPN+ com idades entre 16 e 73 anos. O estudo investigou as relações entre a discriminação experienciada no último ano, estratégias de enfrentamento e sofrimento psicológico (ansiedade e depressão). Dos participantes, 76,1% relataram ter sofrido alguma forma de discriminação no último ano. Níveis mais altos de discriminação foram positivamente correlacionados com sintomas de ansiedade e depressão, assim como com estratégias de enfrentamento relacionadas à fuga e esquiva do problema. Ademais, os autores enfatizam as implicações clínicas dos achados. Eles apontam para que a crença de pessoas LGBTQIAPN+ de que podem sofrer discriminação e a ansiedade, preocupação e medo associados podem ser, na verdade, uma percepção precisa do seu ambiente social e não uma interpretação incorreta ou um processo de pensamento catastrófico. De tal modo que é de extrema importância compreender tais relações e treinar formas de enfrentamento mais assertivas para os cenários vivenciados (Puckett et al., 2019).
Resultados similares foram encontrados em diversos estudos que apontam para a experiencia de altos níveis de sofrimento psicológico, abuso de substâncias, distúrbios alimentares, redução da qualidade dos relacionamentos, níveis mais baixos de autoestima, risco aumentado de tentativa de suicídio, evitação dos cuidados de saúde e piores resultados na saúde física (Coelho et al., 2019; Fontanari et al., 2019; Garthe et al., 2021; Kingsbury et al., 2022).
Em contraponto, poucos estudos são encontrados a respeito dos recursos positivos e fatores de proteção na população LGBTQIAPN+ (Garcia et al., 2020). Algumas evidências iniciais apontam para o fator protetivo dos relacionamentos interpessoais positivos e das conexões sociais com pares. O estudo de Fish et al. (2020) aponta para a importância dos relacionamentos interpessoais com pares, uma vez que na maior parcela da população LGBTQIAPN+ as relações familiares estão fragilizadas e não oferecem o suporte necessário para o enfrentamento das adversidades. Nesta mesma linha, são encontradas evidências que as atividades sociais para pessoas LGBTQIAPN+ podem desempenhar um papel na conexão social e na saúde, enquanto a frequência elevada a serviços religiosos pode apoiar a saúde e a felicidade (Heath & Keene, 2023). Ademais, as mídias sociais podem apoiar a saúde mental e o bem-estar dos jovens por meio da conexão entre pares, gestão de identidade e apoio social (Berger et al., 2022). No entanto, são necessários mais estudos para identificar quais seriam os fatores de proteção e de risco para saúde mental desta população, e especialmente em faixas etárias pouco estudadas como a adolescência.
Esse aspecto se torna ainda mais relevante quando avaliamos o impacto de se identificar como população LGBTQIAPN+ em períodos precoces da vida, como por exemplo, na adolescência. A adolescência, vista como uma fase do desenvolvimento humano marcada pela importância da socialização e desenvolvimento de uma identidade de grupo (OPAS, 2023), pode trazer ainda mais desafios quando o adolescente se reconhece como alguém LGBTQIAPN+ (Giardin et al., 2021). Neste sentido, aspectos relativos a questões sociais (tais como preconceito, discriminação e hostilização) se somam aos aspectos pessoais (como o próprio desvendar das sexualidades) tornando-se uma barreira ainda mais difícil para esses adolescentes. Desta forma, reconhecer-se como LGBTQIAPN+ nesta etapa da vida pode demandar esforços significativos e impactar sobremaneira na saúde e bem-estar deste adolescente.
A fim de avaliar esse aspecto, o presente artigo pretende verificar o impacto das relações de gênero sobre o sofrimento psicológico e os construtos positivos em adolescentes. Por meio desta pesquisa pretende-se dar visibilidade aos dados dessa população, frequentemente invisibilizada social e academicamente, sobretudo nesta etapa da vida (adolescência).
Essa discussão é de especial importância ao se pensar na possibilidade de desenvolvimento de uma Psicologia e, sobretudo, no desenvolvimento e aplicação de uma Avaliação Psicológica mais justa, ética e comprometida com a diversidade social. Uma avaliação psicológica que reconheça as diferenças e os contextos que as originam e auxilie na construção do respeito à diversidade por meio do reconhecimento de que agir similarmente com pessoas em conjunturas diferentes nem sempre é o mais justo e pode reproduzir desequilíbrios e injustiças sociais. Espera-se com isso auxiliar na construção de dados que possam corroborar com o desenvolvimento de intervenções psicológicas, políticas públicas e inclusão social e escolar dessas pessoas.
Método
Participantes
Participaram deste estudo 1187 adolescentes com idades entre 11 e 19 anos (M=15,3 DP=1,65), que se identificaram como meninas cisgênero (N=623; 52,5%), meninos cisgênero (N=505; 42,5%), não-binário, transgênero e gênero fluido (N=42; 3,5%) e que preferiram não se identificar (N=17; 1,4%), das regiões Centrooeste (N=458; 38,6%), Sudeste (N=672; 56,6%), Sul (N=33; 2,8%), Nordeste (N=11; 0,9%) e Norte (N=5; 0,4%) do país. Em relação a amostra de pessoas não-binárias, transgênero e gênero fluido, vale ressaltar que residem nas regiões centro-oeste (N=12; 29,3%) e sudeste (N=29; 70,7%).
Instrumentos
Para esta pesquisa foi avaliado o bem-estar no modelo PERMA (Seligman, 2011), satisfação com a vida, distresse psicológico e variáveis relacionadas a saúde física, como o sono e atividade física, bem como as características sociodemográficas. Para avaliação do sono e da atividade física, foram utilizadas duas perguntas retiradas do questionário Global School-Based Student Health Survey (GSHS), proposto pela Organização Mundial de Saúde (WHO, 2008).
PERMA-Profiler para adolescentes. A escala original (Butler & Kern, 2016) e adaptada para adolescentes brasileiros por Fernandes et al. (2024) é composta por 23 itens de autorrelato pontuados de 0 a 10. A medida é composta por 15 itens centrais que avaliam os componentes PERMA e oito itens adicionais que avaliam emoções positivas, solidão, felicidade e percepção de saúde. A estrutura fatorial de cinco fatores correlacionados apresentou bons indicadores (χ2(80)=10.61; CFI=0,97; TLI = 0,96 RMSEA = 0,06; SRMR = 0,03), bem como consistência interna satisfatória (Emoções positivas α=0,88; Engajamento α=0,72; Relacionamentos α=0,82; Sentido e propósito α=0,90; Realizações α=0,79).
Kessler K-10. Para avaliar o distresse psicológico, foi utilizada a Escala de Sofrimento Psicológico de Kessler (K-10) adaptada para português pelos autores Peixoto et al. (2021), para indivíduos com idades a partir de 14 anos. O instrumento é composto por 10 itens de autorrelato que avaliam o estresse emocional nos últimos 30 dias, pontuados em uma escala Likert de 5 pontos, sendo que 1 = nunca e 5 = o tempo todo. Para interpretar a escala deve-se somar todos os itens, e os escores mais altos significam níveis mais altos de angústia ou sofrimento psíquico. Devido à estrutura fatorial do instrumento, também pode-se conhecer os níveis de ansiedade e depressão separadamente.
Satisfação com a vida. A Escala Global de Satisfação com a Vida para Adolescentes (EGSV-A) foi desenvolvida por Giacomoni et al. (2012) e se trata de uma escala tipo Likert composta por 10 afirmações que são pontuadas de 1 (nem um pouco) a 5 (muitíssimo). Quanto à consistência interna, a escala apresentou bons índices de confiabilidade (α=0,90).
Destaca-se que os instrumentos K10 e EGSV-A, em seus estudos de validade utilizaram apenas amostras cisgênero. O instrumento PERMA-Profiler utiliza uma amostra que engloba a diversidade de gênero (Para saber mais ver estudos de validade Fernandes et al., 2024; Giacomoni et al., 2012; Peixoto et al., 2021).
Procedimento
Essa pesquisa foi aprovada pelo comitê de ética em pesquisa sob o número CAAE 53061221.9.0000.0037. A coleta de dados ocorreu de forma online durante o ano de 2023. Os participantes foram contatados de duas formas. A primeira através de uma divulgação orgânica pelas mídias sociais dos pesquisadores envolvidos, visando alcançar adolescentes em diversos ambientes. No segundo formato, os adolescentes foram contatados por meio de escolas parceiras de diferentes regiões do país, e após o consentimento dos responsáveis os questionários eram aplicados na própria instituição de ensino via computador ou celular. Todos os participantes e seus responsáveis assinaram respectivamente o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Somente após a concordância em participar da pesquisa era-lhes apresentado o questionário contendo os instrumentos descritos no tópico anterior. As respostas eram individuais e foi-lhes assegurado o anonimato dos dados e informações.
Análise de dados
Para investigar as possíveis diferenças em relação aos recursos positivos, sofrimento psicológico e saúde física em relação ao gênero foi realizada uma análise de variância de uma via (ANOVA-One Way). O pressuposto de homogeneidade de variância foi avaliado por meio do teste de Levene. Foram realizados procedimentos de bootstrapping (1000 reamostragens; 95% IC BCa) para se obter uma maior confiabilidade dos resultados, para corrigir desvios de normalidade da distribuição da amostra e diferenças entre os tamanhos dos grupos (Haukoos & Lewis, 2005). Considerando a heterogeneidade de variância, foi solicitada a correção de Welch e avaliação de post-hoc por meio da técnica de GamesHowell (Field, 2018).
Para avaliar as relações entre as variáveis foram realizadas análises de correlação de Pearson. Para interpretação dos resultados as correlações com r entre -0,09 e 0,09 são interpretadas como nulas, r entre 0,10 e 0,29 pequenas, r entre 0,30 e 0,49 médias ou moderadas e r 0,50 e 1,0 fortes (Cohen, 1988). Para avaliar em que medida os recursos positivos impactam no sofrimento psicológico, foi realizada uma análise de regressão linear múltipla (método enter). Destaca-se aqui que vários modelos foram testados, mas devido ao tamanho do artigo, foram relatados apenas os modelos que explicam e impactam de forma significativa o sofrimento psicológico em adolescentes com diversas identidades de gênero.
Resultados
A seguir, são apresentadas as análises que correspondem a comparação entre grupos com diferentes identidades de gênero. A Tabela 1 apresenta a comparação entre diferentes identidades de gênero e os diferentes desfechos em saúde. Foram encontradas diferenças entre os grupos em todas as variáveis estudadas. Os testes post-hoc indicam em que todos os desfechos avaliados existem diferenças entre meninas, meninos e identidade de gênero dissidente, exceto para engajamento em que são encontradas diferenças entre meninos e meninas, e sono em que são encontradas diferenças apenas entre meninos e identidade de gênero dissidente. Observa-se ainda que em relação às variáveis PERMA, satisfação com a vida, saúde física e atividade física, as identidades de gênero dissidentes apresentam escores significativamente menores do que meninas, e que meninas apresentam escores significativamente menores do que os meninos.
Tabela 1 Comparação entre grupos por meio da Anova para desfechos positivos e negativos em saúde mental
| Variável | Gênero | Média | DP* | Z | P | Post-hoc | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| a. Meninas | 6,06 | 2,08 | a X b | 0,000 | |||
| Emoçoes positivas | b. Meninos | 7,25 | 2,08 | 56,283 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 4,25 | 2,45 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 6,78 | 1,67 | a X b | 0,000 | |||
| Engajamento | b. Meninos | 7,26 | 1,65 | 10,624 | 0,000 | b X c | 0,161 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 6,64 | 1,89 | a X c | 0,902 | |||
| a. Meninas | 6,31 | 2,43 | a X b | 0,001 | |||
| Relacionamentos | b. Meninos | 6,86 | 2,19 | 15,948 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 4,92 | 2,20 | a X c | 0,003 | |||
| a. Meninas | 6,28 | 2,56 | a X b | 0,000 | |||
| Propósito | b. Meninos | 7,27 | 2,30 | 40,858 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 3,68 | 2,74 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 6,13 | 1,91 | a X b | 0,003 | |||
| Realização | b. Meninos | 6,52 | 1,90 | 17,193 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 4,94 | 1,67 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 33.68 | 9.42 | a X b | 0.000 | |||
| Satisfação | b. Meninos | 38,80 | 8,66 | 70,611 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 24,19 | 1,45 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 6,00 | 2,35 | a X b | 0,000 | |||
| Saúde | b. Meninos | 7,14 | 2,17 | 52,187 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 3,95 | 2,23 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 6,70 | 1,54 | a X b | 0,066 | |||
| Sono | b. Meninos | 6,92 | 1,50 | 5,874 | 0,004 | b X c | 0,015 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 6,00 | 1,85 | a X c | 0,073 | |||
| a. Meninas | 2,17 | 2,25 | a X b | 0,001 | |||
| Atividade | b. Meninos | b X c | |||||
| física | 3,40 | 2,25 | 5,874 | 0,004 | 0,000 | ||
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 2,16 | 2,30 | a X c | 0,003 | |||
Nota.
*DP=Desvio Padrão
A Tabela 2 apresenta a comparação entre os grupos em relação aos desfechos negativos em saúde mental. Observa-se que para depressão e distresse, existem diferenças significativas entre os três grupos avaliados, e as identidades de gênero dissidentes apresentam significativamente mais depressão e distresse do que meninas, que apresentam mais depressão e distresse do que meninos.
Tabela 2 Anova para variáveis relacionadas a desfechos negativos em saúde mental
| Variável | Gênero | Média | DP | Z | p | Post-hoc | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| a. Meninas | 5,20 | 2,83 | a X b | 0,000 | |||
| Solidão | b. Meninos | 4,24 | 3,14 | 17,000 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 6,39 | 3,13 | a X c | 0,070 | |||
| a. Meninas | 11,93 | 3,55 | a X b | 0,000 | |||
| Ansiedade | b. Meninos | 9,52 | 3,26 | 68,115 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 13,51 | 3,95 | a X c | 0,066 | |||
| a. Meninas | 17,00 | 5,19 | a X b | 0,000 | |||
| Depressão | b. Meninos | 13,52 | 4,99 | 81,763 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 21,82 | 4,77 | a X c | 0,000 | |||
| a. Meninas | 28,89 | 7,93 | a X b | 0,000 | |||
| Distresse | b. Meninos | 23,03 | 7,40 | 88,053 | 0,000 | b X c | 0,000 |
| c. Transgênero/Não-Binário/Gênero fluido | 35,27 | 7,92 | a X c | 0,000 | |||
Em relação às emoções negativas, o grupo gênero dissidente apresenta indicadores semelhantes aos das meninas, no entanto estes dois grupos apresentam significativamente mais emoções negativas do que os meninos. No que diz respeito à solidão e a ansiedade, a comparação entre meninas e identidades de gênero dissidentes foi marginalmente significativa.
Em relação às análises de correlação entre os constructos positivos, saúde física e sofrimento psicológico, os resultados apontam níveis de relações diferentes entre as identidades de gênero (Tabela 3). Enquanto para as identidades cisgênero os construtos positivos estão negativamente associados com o sofrimento psicológico (ansiedade, depressão e distresse; p<0,05) e positivamente com os desfechos positivos em saúde (saúde, sono, atividade física; p<0,05), na população com identidades de gênero dissidentes, não se encontram tais associações significativas. Para este grupo amostral, a saúde física se relaciona com magnitude moderada com as variáveis satisfação com a vida e PERMA, exceto por realização. Satisfação com a vida, propósito de vida, emoções positivas e relacionamentos tendem a se relacionar inversamente e com magnitudes moderadas a fortes com os desfechos negativos.
Tabela 3 Correlações entre desfechos negativos, construtos positivos e saúde física em relação às identidades de gênero
| Meninas | Meninos | Transgénero, género fluido e não-binário | ||||||||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| P | E | R | M | A | SV | P | E | R | M | A | SV | P | E | R | M | A | SV | |
| Sol | -.21* | -.02 | -.20* | -.10 | .00 | .26 | -.29* | .00 | -.24* | -.14* | -.03 | .00 | -.48* | -.10 | -.45* | -48* | -.00 | -.63* |
| An | -.32* | -.09* | -.28* | -.32* | -.15* | -.35* | -.33* | -.07 | -.28* | -.27* | -.14* | -.34* | -.16 | .18 | .00 | -.15 | .09 | -.15 |
| Dep | -.59* | -.26* | -.48* | -.51* | -.27* | -.61* | -.51* | -.10* | -.37* | -.38* | -.16* | -.49* | -.53* | -.20 | -.30 | -.56* | -.03 | -.57* |
| Dis | -.53* | -.21* | -.44* | -.48* | -.24* | -.56* | -.49* | -.10* | -.37* | -.38* | -.17* | -.48* | -.45* | -.08 | -.22 | -.46* | .02 | -.46* |
| SF | .68* | .50* | .57* | .63* | .52* | .58* | .60* | .38* | .48* | .55* | .46* | .56* | .56* | .48* | .45* | .59* | .27 | .41* |
| SN | .23* | .19* | .21* | .20* | .13* | .28* | .18* | .08 | .15* | .12* | .05 | .27* | .24 | .21 | .41* | .35* | .40* | .11 |
| AF | .17* | .17* | .12* | .17* | .26* | .15* | .18* | .16* | .13* | .16* | .23* | .18* | .29 | .32 | .22 | .43* | .17 | .23 |
Nota.
Sol=Solidão; An=Ansiedade; Dep=Depressão; Dis=Distresse; SF=Saúde física; SN=Sono; AF=Atividade física
*p<0,05; P=Emoções positivas; E=Engajamento; R=Relacionamentos; M=Propósito; A=Realização; SV=Satisfação com a vida;
Por outro lado, cabe destacar que no grupo cisgênero a ansiedade está inversamente correlacionada em níveis moderados com todos os fatores positivos e a saúde positivamente correlacionada em níveis moderados com todos os fatores positivos. Essas associações não são encontradas no grupo com identidades de gênero dissidentes.
Para esse grupo amostral a ansiedade não é impactada pelos construtos positivos e o fator realização não se mostrou associado com os construtos positivos. A análise das variáveis positivas e sua influência nos níveis de sofrimento psicológico revelou resultados significativos. Para a depressão, as variáveis emoções positivas, relacionamentos e satisfação com a vida explicam 42,5% da variância nas meninas (F(3,448)=110,541, p<0,000; R2ajustado=0,425), 31,1% da variância nos meninos (F(3,343)=51,682, p<0,000; R2ajustado=0,311) e 52,8% da variância nas identidades de gênero dissidentes (F(3,24)=8,953, p<0,000; R2ajustado=0,528).
No que diz respeito ao distresse, as mesmas variáveis explicam 35,2% da variância nas meninas (F(3,447)=80,897, p<0,000; R2ajustado=0,352), 29,2% nos meninos (F(3,343)=47,236, p<0,000; R2ajustado=0,292) e 36% nas identidades de gênero dissidentes (F(3,24)=4,493, p<0,000; R2ajustado=0,360). Quanto à saúde, os preditores explicam 49% da variância nas meninas (F(3,482)=154,558, p<0,000; R2ajustado=0,490), 38,9% nos meninos (F(3,371)=80,490, p<0,000; R2ajustado=0,389) e 22,5% nas identidades de gênero dissidentes (F(3,28)=3,996, p<0,017; R2ajustado=0,225).
Em relação aos preditores de depressão, a satisfação com a vida tem o maior impacto para meninas e identidades de gênero dissidentes, enquanto para meninos, são as emoções positivas que apresentam maior influência. Os relacionamentos não impactam os níveis de depressão em nenhum dos grupos. Para o distresse, a satisfação com a vida é a variável que mais impacta tanto meninas quanto meninos. Nas identidades de gênero dissidentes, apenas a satisfação com a vida tem influência. Novamente, os relacionamentos não impactam os níveis de distresse em nenhum dos grupos.
Por fim, no que tange à saúde, todas as variáveis impactam os níveis de saúde nas meninas, com maior influência das emoções positivas. Para os meninos, as emoções positivas e a satisfação com a vida têm impacto, sendo as emoções positivas a variável mais significativa. Nas identidades de gênero dissidentes, apenas as emoções positivas influenciam a percepção dos níveis de saúde. Ressalta-se ainda que outras variáveis foram testadas empiricamente, no entanto, por questões de parcimônia foram apresentados aqui apenas as variáveis que explicaram de forma significativa os desfechos estudados. A Tabela 4 apresenta os resultados detalhados da regressão.
Tabela 4 Coeficientes da regressão para todas as variáveis a partir do gênero
| Preditores | Meninas | Meninos | Transgénero, gênero fluido e não binário | ||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Beta* | t | P | Beta* | t | P | Beta* | t | P | |
| Depressão | |||||||||
| Emoções positivas | -0,293 | -4,861 | 0,000 | -0,323 | -4,465 | 0,000 | -0,458 | -2,717 | 0,012 |
| Relacionamentos | -0,064 | -1,241 | 0,215 | 0,048 | 0,746 | 0,456 | 0,473 | 2,205 | 0,037 |
| Satisfação com a vida | -0,359 | -6,878 | 0,000 | -0,315 | -4,772 | 0,000 | -0,686 | -3,187 | 0,004 |
| Distresse | |||||||||
| Emoções positivas | -0,264 | -4,091 | 0,000 | -0,284 | -3,862 | 0,000 | -0,362 | -1,845 | 0,077 |
| Relacionamentos | -0,077 | -1,390 | 0,165 | 0,029 | 0,448 | 0,655 | 0,464 | 1,857 | 0,076 |
| Satisfação com a vida | -0,315 | -5,679 | 0,000 | -0,322 | -4,812 | 0,000 | -0,614 | -2,446 | 0,022 |
| Saúde | |||||||||
| Emoções positivas | 0,445 | 8,212 | 0,000 | 0,387 | 5,978 | 0,000 | 0,437 | 2,057 | 0,049 |
| Relacionamentos | 0,153 | 3,212 | 0,001 | 0,027 | 0,459 | 0,646 | 0,037 | 0,139 | 0,891 |
| Satisfação com a vida | 0,173 | 3,698 | 0,000 | 0,269 | 4,559 | 0,000 | 0,123 | 0,486 | 0,631 |
Discussão
Este artigo teve como objetivo avaliar o impacto das relações de gênero no sofrimento psicológico e recursos positivos de adolescentes brasileiros. De forma geral, os dados corroboram o que a literatura em psicologia social e gênero fartamente apontam, a saber, os altos níveis de sofrimento de pessoas com identidades de gênero dissidente quando comparados com população cisgênero (van Hooijdonk et al., 2023).
Neste artigo verificou-se níveis significativamente maiores para os adolescentes gênero dissidentes em solidão, depressão e distresse quando comparados com o grupo cisgênero. Em relação à ansiedade, pessoas com identidades de gênero dissidentes apresentam pontuações ligeiramente maiores (porém não significativas) que as meninas, mas significativamente maiores que os meninos. Estes dados corroboram os estudos que apontam para grande sofrimento psíquico (Netto, 2023) e a necessidade de construção de atendimento psicológico e políticas públicas específicas e qualificadas para a população LGBTQIAPN+ (ex. Damaceno Netto & Rasera, 2024; Dohrenwend, 2000). Entretanto, evidencia o aspecto social que segue privilegiando o homem/ masculino em detrimento das outras identidades de gênero. De fato, ao analisarmos os dados obtidos neste estudo o gênero masculino é aquele que apresenta menor nível de sofrimento psicológico.
Este aspecto fica ainda mais evidenciado e significativo quando avaliamos os recursos psicológicos disponíveis. Neste estudo observou-se pontuações significativamente mais baixas para a população gênero dissidente em emoções positivas, engajamento, relacionamentos positivos, propósito, realização e satisfação com a vida. Em linhas gerais pode-se dizer que, pessoas com identidades de gênero dissidentes apresentam níveis de sofrimento psicológico significativamente maior a população cisgênero e ainda apresenta significativamente menos recursos psicológicos e forças pessoais, avaliados por meio dos construtos positivos, para fazer frente e/ou superar as adversidades de suas vivências ou mitigar o efeito destas nos desfechos negativos em saúde. Resultados similares são encontrados em diversos estudos (Berger et al., 2022; Heath & Keene, 2023; van Hooijdonk et al., 2023).
Este dado é corroborado pelo estudo correlacional que aponta associações diferentes entre as variáveis de sofrimento psicológico e os construtos positivos a depender do gênero em questão. Para a população com identidade de gênero dissidente o impacto dos construtos positivos nos desfechos em saúde é menor (se observam menos relações significativas). De fato, os construtos positivos não apresentaram nenhum efeito na ansiedade, por exemplo, enquanto nos grupos cisgênero apresentaram relações significativas. Do ponto de vista clínico este aspecto pode ser de suma relevância pois aponta para a necessidade de modelos de intervenções diferentes que atendam demandas específicas dessa população. Além disso, evidencia a necessidade de novos estudos que aprofundem essa discussão a fim de avaliar possíveis fatores de proteção ou recursos psicológicos que poderiam ser usados para mitigar o efeito do sofrimento psicológico desta população e o desenvolvimento de patologias como, por exemplo, a ansiedade.
Outro aspecto que merece atenção são os diferentes níveis de correlações encontradas para as variáveis de saúde, sono e atividade física. Embora ambos os aspectos sejam fartamente descritos nos estudos como relacionados a melhores níveis de saúde em populações cisgênero, neste estudo, o grupo com identidades de gênero dissidentes, apresentaram menor relação com construtos positivos que nos grupos cisgênero. Em relação a atividade física, em específico, Müller e Böhlke (2021) a realizaram uma revisão sistemática sobre artigos que envolviam atividades física e a perspectiva de estudantes LGBTQIAPN+ e descreveram como o contexto escolar é altamente homofóbico e transfóbico com índices superiores a outros contextos sociais. Dentro do contexto escolar as aulas que envolvem atividades físicas são aquelas em que mais se reproduzem e reforçam práticas segregadoras, dificuldade de aceitação do próprio corpo e identidade de gênero e problemas de relacionamento entre os alunos LGBTQIAPN+ e os demais colegas (Giardin, et al., 2021).
Este estudo mostra ainda como o sofrimento e os recursos psicológicos assim como marcadores de saúde como a avaliação da saúde física, sono e atividade física são impactados diferentemente segundo as relações de gênero corroborando para as discussões que apontam para a necessidade de compreensão e reconhecimento dessas diferenças e a construção de intervenções e políticas públicas adequadas e inclusivas para a população LGBTQIAPN+.
Os resultados deste estudo fornecem insights significativos sobre a influência de variáveis positivas, como emoções positivas, relacionamentos e satisfação com a vida, nos níveis de sofrimento psicológico entre diferentes grupos de gênero. A análise revelou que essas variáveis explicam uma proporção substancial da variância em depressão, distresse e saúde em meninas, meninos e identidades de gênero dissidentes. Tais achados estão em consonância com estudos anteriores que investigaram fatores de proteção em diferentes identidades de gênero (ex. Aparicio-García et al., 2018; van Hooijdonk et al., 2023).
Os resultados sugerem que diferentes abordagens podem ser necessárias para abordar a saúde mental e o bem-estar em meninos, meninas e identidades de gênero dissidentes. Programas e intervenções que visam aumentar as emoções positivas e a satisfação com a vida podem ser adaptados para atender às necessidades específicas de cada grupo. Por exemplo, em ambientes escolares, a implementação de programas de desenvolvimento emocional que enfatizem a construção de satisfação com a vida pode ser particularmente benéfica para meninas e indivíduos de gênero dissidente. Para meninos, atividades que promovam emoções positivas podem ser mais eficazes.
Do ponto de vista teórico metodológico alguns aspectos devem ser destacados. Primeiro, os dados neste estudo apontam para necessidade de construção de modelos teóricos e instrumentos psicológicos que sejam sensíveis às especificidades das diferentes populações, reconhecendo suas diferenças e promovendo a justiça na avaliação e intervenção psicológica. Destaca-se que dentre os instrumentos utilizados para este estudo, apenas um, em seus estudos de validade contemplava uma amostra com participantes LGBTQIAPN+. De forma geral, são escassos os instrumentos psicológicos que apresentam normas para adolescentes (Reppold et al., 2017) e mais escassos ainda aqueles que apresentam normas para a população LGBTQIAPN+ (Fernandes et al., 2024). Compreende-se que o uso de teorias e medidas não validadas para essa população pode gerar consequências devastadoras, promover injustiças, induzir a discriminação e invisibilizar os processos de sofrimento psicológico de grupos minorizados.
Em contraponto, ainda é necessário destacar, a dificuldade de acesso da população LGBTQIAPN+ sobretudo na adolescência. Neste estudo foi possível acessar 1187 adolescentes em diversas regiões do Brasil, no entanto, apenas 3,5% da amostra contemplava identidades de gênero dissidentes. Essa baixa representatividade pode estar associada a diversas questões metodológicas e sociais. As metodologias utilizadas em pesquisas frequentemente privilegiam amostras WEIRD (Western, Educated, Industrialized, Rich, and Democratic) (Henrich et al., 2010), que tendem a excluir ou sub-representar populações minorizadas. Além disso, a linguagem e o formato das pesquisas podem não ser adequados ou acolhedores, dificultando a identificação e a comunicação de uma identidade de gênero que diverge da norma.
O contexto social e educacional também desempenha um papel crucial na dificuldade de acesso, uma vez que a escola é um importante local de coleta de dados para os pesquisadores. Adolescentes LGBTQIAPN+ muitas vezes enfrentam um ambiente hostil e preconceituoso, o que pode levar ao isolamento e à evasão escolar, reduzindo as oportunidades de serem incluídos em amostras de pesquisa (Salvador et al., 2021). Ademais, o medo de exposição, estigmatização e discriminação, tanto em suas comunidades quanto em ambientes escolares, podem aumentar a resistência na participação em pesquisas.
O baixo número amostral obtido nesse estudo também expressa a dificuldade do reconhecimento e comunicação de uma identidade de gênero que diverge da cisgeneridade e em um período do desenvolvimento precoce como a adolescência. A essa dificuldade acrescenta-se a pressão social e a busca de identidade tão característica dessa fase. Esses aspectos em conjunto podem auxiliar que, ainda que o número de indivíduos que se identificam como LGBTQIAPN+ sejam maiores, o acesso seja dificultado ou invisibilizado por sua não identificação publicamente.
Em suma, este estudo contribuiu para a compreensão das identidades de gênero e seu impacto no sofrimento psicológico e nos recursos positivos de adolescentes brasileiros. Os resultados sublinham a importância de construir intervenções psicológicas e políticas públicas que sejam inclusivas e adequadas às necessidades específicas da população LGBTQIAPN+. Do ponto de vista metodológico, é crucial que futuras pesquisas adotem abordagens mais inclusivas e sensíveis para captar a diversidade e complexidade das experiências vividas por esses adolescentes.
Apesar disso, este estudo não pode avaliar diferencialmente as especificidades dos diferentes grupos contidos na sigla LGBTQIAPN+, assim como questões referentes às sexualidades. Sabemos que essa população não é uniforme possuindo suas especificidades que marcam o estigma, preconceito e discriminação que cada uma vivenciará. Contudo, neste estudo optou-se por juntá-las em uma categoria única entendendo-a, como apontado por Butler (2019), uma categoria de identidades de gêneros dissidentes. Este recurso, embora não seja o ideal teoricamente, possibilitou a realização de análises estatísticas que evidenciam as especificidades de um grupo específico desta população. Destaca-se ainda a necessidade de refinamento das técnicas estatísticas para que seja possível avaliar amostras que são pequenas em relação aos números. Por fim, sugerem-se novos estudos que busquem mitigar essas questões a fim de que possamos produzir dados que reconheçam a diversidade populacional com a qual a Psicologia ciência deve prestar seus serviços.














