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Psicologia em Revista

versão impressa ISSN 1677-1168

Psicol. rev. (Belo Horizonte) vol.27 no.2 Belo Horizonte maio/ago. 2021  Epub 20-Jan-2025

https://doi.org/10.5752/p.1678-9563.2021v27n2p285-303 

Artigo

IDENTIDADES E DISCURSOS: A CONSTRUÇÃO DISCURSIVA DA LESBIANIDADE

IDENTITIES AND SPEECHES: THE DISCURSIVE CONSTRUCTION OF LESBIANΓTΎ

IDENTIDADES Y DISCURSOS: LA CONSTRUCCIÓN DISCURSIVA DE LA LESBIANIDAD

Maria Clara Guimarães Souza* 

Priscilla Melo Ribeiro de Lima** 

*Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) – Faculdade de Educação. E-mail: mariaclarags.psi@gmail.com

**Doutora em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (UnB), docente no Curso de Psicologia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás (UFG) e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Faculdade de Educação da UFG. E-mail: primlima@gmail.com


RESUMO

A lógica binária do discurso hegemônico heteronormativo preconiza uma única forma aceitável de ser mulher, baseada na linearidade entre práticas sexuais, desejo, sexo, gênero e sexualidade. As vivências de mulheres lésbicas mães são vistas como inadequadas, resultando em sofrimento psíquico. Os dados analisados foram gerados a partir de entrevistas narrativas com cinco mulheres lésbicas e mães, entre as quais uma foi analisada. Essa entrevista em profundidade possibilitou o acesso à experiência da maternidade e da sexualidade, e a investigação da construção da identidade dessa mulher em um contexto heteronormativo. Os dados foram analisados conforme os estudos em Psicologia Social e de autores da análise crítica do discurso sobre identidade, metamorfose e discurso. Nossa pesquisa proporcionou um lugar de escuta e diálogo, e possibilitou aprofundar a compreensão de como a participante (re)significou sua história diante do fato de a lesbianidade ocupar um espaço de invisibilidade na sociedade contemporânea.

Palavras-chave Identidade; Lesbianidade; Maternidade; Narrativas

ABSTRACT

The heteronormative hegemonic discourse and its binary logic advocates a single acceptable way of being a woman and is based on the linearity between sexual practices, desire, biological sex, gender and sexuality. The experiences of lesbian women mothers are seen as inadequate, resulting in a conflictive position that generates psychological suffering. The analyzed data were generated from narrative interviews conducted with five lesbian women and mothers, of which only one will be analyzed. This type of in-depth interview enabled access to the experience of motherhood and sexuality and the investigation of the construction of the identity of a lesbian woman and mother in a heteronormative context. The data were analyzed according to studies in Social Psychology and some authors of the critical discourse analysis on identity, metamorphosis and discourse. Our research provided a place for listening and dialogue and made it possible to deepen the understanding of how the participant (re)meant her story in the face of lesbianity still occupying an invisibility space in contemporary society.

Keywords Identity; Lesbianity; Maternity; Narratives

RESUMEN

El discurso hegemónico heteronormativo y su lógica binaria aboga por una única forma aceptable de ser mujer y se basa en la linealidad entre las prácticas sexuales, el deseo, el sexo biológico, el género y la sexualidad. Las experiencias de las madres lesbianas se consideran inadecuadas, lo que resulta en una posición conflictiva que genera sufrimiento psicológico. Los datos analizados se generaron a partir de entrevistas narrativas realizadas con cinco mujeres y madres lesbianas, de las cuales solo se analizará una. Este tipo de entrevista en profundidad permitió el acceso a la experiencia de la maternidad y la sexualidad y la investigación de la construcción de la identidad de una mujer y madre lesbiana en un contexto heteronormativo. Los datos fueron analizados de acuerdo con estudios en Psicología Social y algunos autores del análisis crítico del discurso sobre identidad, metamorfosis y discurso. Nuestra investigación proporcionó un lugar para escuchar y dialogar, y permitió profundizar la comprensión de cómo la participante (re)quiso decir su historia frente a la lesbianidad que todavía ocupa un espacio de invisibilidad en la sociedad contemporánea.

Palabras clave Identidad; Lesbianidad; Maternidad; Narrativas

1. INTRODUÇÃO

Pensando sobre as variadas formas de ser mulher, refletimos acerca dos discursos que atravessam a construção da identidade das mulheres lésbicas mães e suas possibilidades de resistência. A pergunta que nos guiou durante todo o percurso de construção e execução deste estudo foi: o que é ser mulher-lésbica-mãe? Para responder esta questão, além de estudos da Psicologia Social, recorremos a autores da análise crítica do discurso (ACD) compreendendo que os processos identitários ao longo da vida são constituídos pelos discursos sociais (Fairclough, 2001; Lima et al., 2016).

Foi utilizada aqui a perspectiva de identidade de Ciampa (2007a), que apresenta uma concepção não essencialista em que a formação da identidade, da diferença, do indivíduo e do coletivo são atravessados pela linguagem de forma dinâmica. A partir da concepção de que identidade é metamorfose, a metamorfose humana aparece como questão central em pesquisas em Psicologia Social. Assim, o ser mulher lésbica mãe é analisado por meio da rejeição da ideia de que a identidade seja algo dado e fixo, mas sim enquanto uma articulação de igualdades e diferenças.

Conforme os significados atribuídos às identidades sexuais e às identidades de gênero, percebemos discursos que legitimam e reproduzem a ideia de uma identidade fixa e unívoca sobre o que as mulheres deveriam ser. Nesse sentido, Rubin (2017, p. 64) afirma que “o sexo sempre é político”, ou seja, o exercício sexual é carregado de uma política interna em que os comportamentos humanos e as formas institucionais determinam a sexualidade em um tempo e lugar, conforme a atividade humana. Gênero e atividade sexual são constituídos por uma sociedade, uma história e uma cultura em que diferentes valores e práticas sexuais são legitimados ou não, conforme redes de poder (Scott, 1989).

Ao desvelar os discursos que significam a categoria mulher, identifica-se que a lesbianidade confronta os modelos hegemônicos sobre o ser mulher, consequentemente, ela foi apagada na literatura, na política, na cultura e na história. A vivência de mulheres lésbicas tornou-se a ruptura de um tabu, bem como a rejeição de um modo compulsório de vida, o que dificulta a construção de um espaço de pertencimento social para essas mulheres. Assim, a lesbianidade permaneceu silenciada e negada como possibilidade de existência (Rich, 2010). Diante dessa realidade, objetivamos investigar a construção da identidade de mulheres lésbicas mães em um contexto heteronormativo, e como essa forma identitária pode se constituir como um discurso de resistência ante a hegemonia da heteronormatividade. Para alcançar esse objetivo, buscamos evidenciar de que forma os discursos heteronormativos e de resistência apareceram no discurso da narradora.

2. O TORNAR-SE LÉSBICA: A UNIDADE NA MULTIPLICIDADE

Conforme os discursos hegemônicos patriarcal e heteronormativo baseados na concepção ideológica de que as identidades são fixas e imutáveis, haveria somente uma forma correta e aceita socialmente de ser mulher. Butler (2016) nos auxilia na compreensão de como os discursos heteronormativos constituem as identidades. A lógica binária heteronormativa prevê uma linearidade entre desejo, atividade sexual, gênero, sexo e práticas sexuais, o que restringe a expressão sexual de homens e mulheres ao modelo heterossexual. Nos afastamos da suposição de que o sexo, o gênero e a sexualidade existem em relação mútua, que se espera, por exemplo, que, ao nascer biologicamente fêmea, as mulheres desenvolvam traços femininos e sejam heterossexuais.

Partimos da ideia de que o exercício sexual e o gênero não são categorias fixas, de caráter inato ou natural: a tomamos como algo que é histórica e culturalmente construído. O gênero pode ser compreendido como uma categoria de análise, socialmente imposta sobre um corpo sexuado constituído por meio da história e da cultura (Scott, 1989). Da mesma maneira, reconhecemos na categoria identidade sua temporalidade e historicidade que lhe confere um movimento de devir e superação, por meio da metamorfose. Essa concepção, abordada por Ciampa (2007a), nos chama a atenção para de que forma a ideia de uma identidade fixa e imutável corrobora com a não transformação da sociedade e dos sistemas de poder.

O sintagma identidade-metamorfose-emancipação, postulado por Ciampa, (2007a), afirma que as identidades, enquanto processos contínuos de metamorfose, devem ser orientadas para a emancipação, por meio da busca de projetos de vida que possibilitem autonomia ante a sociedade. Nesse sentido, tudo o que impede o movimento de transformação desumaniza e resulta na sensação de estar morto-ainda-vivo (Ciampa, 2007a).

No decorrer da vida do sujeito, novas personagens surgem por meio da atividade, do agir e do dizer. O sujeito vai, assim, construindo um conjunto de significações do mundo e do que se é. Ciampa afirma que “uma identidade nos aparece como a articulação de várias personagens, articulação de igualdades e diferenças, constituindo e constituída por uma história pessoal” (2007a, p. 157). Ou seja, a identidade seria constituída a partir da articulação de vários personagens.

Podemos refletir que o ser mulher, o ser lésbica e o ser mãe, podem ser compreendidos como personagens interiorizados de diferentes maneiras, formando um ser total e uno. Dessa forma, o tornar-se mulher, o tornar-se lésbica e o tornar-se mãe representariam o processo de identificação com uma identidade preconizada, o que leva a transformações na consciência e na atividade (Ciampa, 2007c). As personagens se constituem reciprocamente com um universo de significados.

Sempre uma identidade é pressuposta e repetidamente representada, ou seja, reposta, construída e significada em relação com os outros. Nos igualamos e nos diferenciamos por meio do movimento de reconhecimento com determinados grupos sociais, com sua história, tradição, normas e interesses. As crenças, valores, expectativas sociais correspondem ao conteúdo do processo de socialização que forma a identidade por meio de sistemas de ideias e representações (Ciampa, 2007a; 2007b). Ao refletirmos sobre a identidade de mulheres, podemos pensar que, diferentemente do ser mãe, a personagem lésbica não corresponde à representação do que é socialmente esperado do ser mulher. Dessa forma, a lesbianidade é colocada em dúvida e em um lugar social problemático.

A lesbianidade, para algumas mulheres, é vivenciada por meio de uma forte necessidade de reconhecimento social. Pesquisa realizada por Almeida e Heilborn (2008) elucida que as histórias pessoais das lésbicas são marcadas pelo enfrentamento da rejeição familiar, adiamento de projetos de carreira profissional e acadêmica, e luta contínua pela garantia de direitos. O preço da visibilidade confronta as pré-condições de uma identidade transformada em expectativas rígidas e normativas sobre o que, a todo momento, nas relações sociais é afirmado que as mulheres deveriam ser (Goffman, 1988).

A lesbianidade aparece no discurso como uma identidade sexual rejeitada, localizada entre a tensão de uma identidade virtual (aquilo que a sociedade espera que seja) e uma identidade social real (aquilo que se é). O ser lésbica-mãe é atravessado por uma expectativa social de que aquelas pessoas que se encontram na categoria “mulher” deveriam corresponder e apoiar uma norma. Ao frustrar essas expectativas sociais, a lésbica é considerada, no imaginário social, com um defeito, fraqueza, doença (Ciampa, 2007a). Dessa forma, ela ocupa um lugar de desvantagem e depreciativo na relação entre atributos e estereótipos, conforme os atributos que a sociedade leva ao descrédito (Goffman, 1988).

A mesmice corresponde à aparência de uma estabilidade identitária. Os personagens, interiorizados ao longo da vida, ganham um caráter de permanência e repetição. Há um caráter positivo (mesmidade) que é o tornar-se outro, e um caráter negativo (mesmice) que caracteriza a permanência de personagens. O problema, segundo Ciampa (2007b), é quando essa aparência de mesmice impede a metamorfose. Nesse processo, interiorizamos o que os outros nos atribuem até se tornar algo nosso, a atividade coisifica-se, enrijece-se, na forma de uma personagem, independentemente da atividade que a engendrou. O caráter temporal da identidade se restringe a um momento originário, como se revelasse algo já preexistente e permanente, quando, de fato, nos tornamos nossas predicações e nos identificamos com elas (Ciampa, 2007a; 2007b; Lima, 2012).

O conceito de identidade carrega a ideia de que os processos identitários internalizados ao longo da vida estão permeados por discursos sociais. O discurso do patriarcado e da heteronormatividade, por exemplo, se configuram como modelos hegemônicos que oferecem uma suposta coerência às práticas sociais que determinam um padrão de ser mulher aceitável socialmente. No decorrer das mudanças culturais e históricas, esse discurso se readapta e ocupa-se das novas formas de organização social, ideologias e modos de produção, para permanecer no domínio discursivo (Saffioti, 2015). Nesse sentido, podemos refletir, conforme a análise do discurso crítica, que os discursos constroem as relações sociais de poder, sistemas de conhecimento, crenças e identidades, e são construídos por esses elementos (Lima et al., 2016). Isso implica uma relação dialética entre discursos e estrutura social, seja ela política, ideológica, cultural ou econômica (Fairclough, 2001; Lima et al., 2016).

3. IDENTIDADE, DISCURSO E HEGEMONIA

A hegemonia utiliza-se da ideologia dominante como forma de poder, de liderança e de dominação dos contextos econômicos, políticos, culturais e ideológicos de uma sociedade. Por meio da construção de alianças para manter a estabilidade entre as elites simbólicas, a hegemonia mantém relações de dominação e subordinação. O discurso, enquanto reprodutor do poder social, é explicitado por Dijk (2008) como o controle de um grupo sobre outros grupos.

Neste estudo trataremos a lesbianidade como uma expressão identitária de resistência, que se estabelece como uma forma contra hegemônica de representação do mundo e das identidades (Lima et al., 2016; Rubin, 2017). Uma identidade de resistência é criada por atores que se encontram em posições desvalorizadas e estigmatizadas (Almeida & Heilborn, 2008). As identidades sexuais e de gênero desejam, de forma inevitável, exceder os termos pelos quais elas estão socialmente constituídas (Butler, 2016). A resistência, mais do que um meio de abalar o poder, de acordo com Butler (2016), poderia ser um efeito do poder, uma produção discursiva, pois a resistência ocorre no interior das relações de poder ante as normalizações e normatizações (Salih, 2018). A construção da resistência pode ocorrer por meio do processo de tomada de consciência sobre a reprodução ideológica dos papéis socialmente definidos ao ser mulher-lésbica-mãe (Lane, 1989). Nesse sentido, as pesquisas nas universidades também podem se configurar como um espaço de resistência para as mulheres quando, por meio do convite à produção de novos sentidos, suas histórias são escutadas e, na dialética da entrevista, abre-se a possibilidade de que elas voltem a atenção para suas próprias histórias e construam novos sentidos.

O discurso sobre a sexualidade também é carregado de uma política interna em que os comportamentos humanos e as formas institucionais do exercício sexual são determinados em um tempo e lugar, conforme a atividade humana. Dessa forma, “o sexo sempre é político”, afirma Rubin (2017, p. 64), e está permeado por conflitos de interesse, que significam, criminalizam e patologizam certas identidades sexuais.

As estruturas discursivas polarizadas desempenham um papel crucial na reprodução da desigualdade social, que reforça a marginalização e a dominação de determinados grupos sociais. O padrão hegemônico nas sociedades ocidentais é caracterizado pelo homem, branco, heterossexual, com boa condição socioeconômica e os grupos dominados são as identidades associadas a representações inferiores, que não se adéquam ao modelo hegemônico (Fairclough, 2001; Lima et al., 2016; Dijk, 2008).

Há variadas formas discursivas usadas para descrever, nomear e atribuir significação identitária a grupos sobre os quais as denominadas “elites simbólicas” visam manter o controle (Lima et al., 2016; Dijk, 2008). Em nosso estudo, podemos dividir três grupos: a mulher, a mulher-mãe e a mulher-lésbica. A identificação social hegemônica sobre a mulher é atribuída àquelas que nascem fêmeas e assim deveriam desenvolver aspectos femininos. O ser feminino é caracterizado por nascer com uma vagina; logo, espera-se que seja heterossexual e direcionar seu desejo e as práticas sexuais para homens. A elas são designadas uma forma de vestir, ser e comportar, identificadas pelos traços de delicadeza, afeto, recato, fraqueza, beleza, passividade e submissão. Os papéis sociais destinados ao feminino são de cuidadora, mãe e responsável pelas atividades domésticas. As mulheres-mães socialmente idealizadas precisam corresponder ao modelo hegemônico de mulheres brancas, jovens adultas, heterossexuais, assexuadas, possuir parceiro sexual masculino fixo e com boa condição socioeconómica. O amor para com seus filhos seria um elemento natural a elas, bem como uma vida de sacrifícios. Em relação às mulheres-lésbicas espera-se que sejam masculinizadas, ou seja, fortes, agressivas, ativas sexualmente, libertinas. As lésbicas são aproximadas dos símbolos masculinos, sejam eles os comportamentos, o corte de cabelo e as vestimentas. Observamos que as mulheres lésbicas transgrediram todas as formas tradicionais de feminilidade ao apresentarem, muitas vezes, traços considerados masculinos e, principalmente, por sentirem desejo afetivo sexual por outras mulheres.

Os discursos, entretanto, podem ser um meio de abuso do poder pelos grupos dominantes, ou criar formas de resistência à hegemonia. Lima et al. (2016) ressaltam que as normas, valores, conhecimentos que constroem um padrão hegemônico são relativos e mudam conforme a história e a cultura. Ainda assim, percebemos haver um padrão único de ser mulher que deve ser seguido, o que abre possibilidades para a construção de discursos de resistência a essa identidade imposta. No movimento dialético entre a estrutura social e as identidades, a resistência constrói-se como prática discursiva, em oposição às influências das estruturas de dominação (Lima et al., 2016; Dijk, 2008). A lesbianidade possui, portanto, um potencial subversivo, maior ou menor, ao romper com a inteligibilidade do gênero, quando o desejo, o exercício sexual e as práticas sociais caminham em sentido oposto ao que foi determinado ao feminino.

4. METODOLOGIA

Os dados que apresentamos e analisamos referem-se a uma fração dos dados gerados a partir da pesquisa de campo, realizada em um programa de pós-graduação em Psicologia, e integra a dissertação de Mestrado de Souza (2020). A pesquisa realizada foi de cunho qualitativo e teve como foco a exploração e a compreensão dos significados, individuais e coletivos, acerca da vida cotidiana dos sujeitos conforme o problema social investigado (Creswell, 2010; Gerhardt & Silveira, 2009). Para tanto, utilizamos como recurso as entrevistas narrativas, que são entrevistas em profundidade, de modo a viabilizar o acesso à experiência de ser mulher lésbica mãe. A entrevista narrativa é uma entrevista aberta, ou seja, não existe um roteiro prévio de perguntas. Inicialmente, a pesquisadora prepara as participantes para o momento da entrevista, estabelecendo um rapport e propõe a seguinte questão gerativa da narrativa: “por favor, me conte sobre a sua história de vida” (Flick, 2004; Jovchelovitch & Bauer, 2002).

Participaram da geração dos dados cinco mulheres lésbicas e mães, dentre as quais escolhemos a narrativa de Maria para apresentarmos e analisarmos no presente artigo. Tivemos como critérios de inclusão e exclusão: ser maior de 18 anos, e ter tido filhos e filhas biológicos em relacionamentos heterossexuais e, posteriormente, ter se declarado lésbica51. Todas as informações obtidas são de caráter sigiloso, e a identidade da participante foi mantida em sigilo. Para assegurar a não identificação e os direitos da participante, usamos pseudônimos e aplicamos o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). A qualquer momento, durante a execução da pesquisa, a participante poderia desistir da participação sem qualquer tipo de prejuízo.

A forma de análise utilizada foi a análise compreensiva, conforme a proposta de Jovchelovitch e Bauer (2002), a partir da qual elaboramos recursos interpretativos à luz dos recortes teóricos que embasaram nossa pesquisa para analisar os dados. Os dados foram ordenados para reconstruir os acontecimentos que constituíram a trajetória pessoal da participante (Bertaux, 2010; Jovchelovitch & Bauer, 2002). Dentre os diversos temas que apareceram na narrativa de Maria, destacamos os seguintes: a infância, a adolescência, a relação familiar, as relações escolares, o casamento, o divórcio, o nascimento dos filhos e das filhas, as relações heterossexuais e homoafetivas. A partir dessas temáticas construímos três categorias de análise, sendo elas: o tornar-se mãe, o tornar-se lésbica, e hoje, como eu me vejo. A primeira categoria abarcou os sentidos e vivências relacionados com a experiência da maternidade da entrevistada. A segunda categoria abordou o processo de reconhecimento e construção da sexualidade. A última categoria tratou sobre como a participante percebeu e experienciou a sua identidade sexual atualmente.

5. HISTÓRIA DE MARIA2

Maria é uma mulher de 31 anos, branca e de classe média. Na época da entrevista estava solteira, estudava para concurso e trabalhava de forma autônoma como produtora cultural. Viveu a infância, e parte da adolescência no interior do estado. Aos 15 anos sua família se mudou para a capital. Ela é mãe de três filhos biológicos, Carolina de 10 anos, Júlia de 9 anos, e Gustavo de 7 anos, e uma enteada que Maria considera como filha, Roberta, de 12 anos. Todos os seus filhos e filhas são fruto do período em que esteve casada com João, durante 11 anos. Após o divórcio, Maria foi morar na casa dos seus pais com os filhos e filhas biológicos. Na narrativa de Maria, o casamento e o divórcio separam o período em que Maria não se reconhecia como lésbica até o momento em que se reconheceu e passou a se nomear lésbica a partir das primeiras relações sexuais e afetivas com mulheres.

A partir das categorias elencadas anteriormente, analisaremos os temas que surgiram em sua narrativa juntamente a alguns trechos de sua fala. Nosso objetivo é, a partir do que foi narrado por Maria, compreendermos os processos intercambiantes que permeiam as metamorfoses identitárias a partir do nosso referencial teórico.

6. IDENTIDADES INTERCAMBIANTES: TORNAR-SE MÃE, TORNAR-SE LÉSBICA

O nascimento de cada filha e filho de Maria representou um momento e um significado ante as experiências que estava vivendo enquanto cumpria o que era socialmente esperado dela enquanto mulher. O casamento com João apareceu no seu discurso como uma obrigação social esperada por ser mulher e mãe:

Aquele relacionamento que para mim era só uma experiência. Ah deixa acontecer, para ver o que que vai ser, se tornou agora uma obrigação. Porque eu já tinha olhado para a Roberta como parte da minha família. A mãe dela saiu, ela ficou. Eu engravidei (Maria).

Ao iniciar a sua vida sexual com um homem, Maria engravidou da sua primeira filha, aos 19 anos. A vivência da sexualidade coincidente com a primeira gravidez, o que parece ter impossibilitado que ela explorasse as possibilidades de conhecer e vivenciar a sua sexualidade. Até então, Maria não havia tido a oportunidade de experienciar e conhecer seus desejos afetivos e sexuais. Ela relatou:

Então, assim, eu perdi a virgindade aos 19 anos, dois meses depois eu estava grávida. Então, para mim, foi um baque muito grande. E eu preciso achar alguém com quem eu tenha espaço para vivenciar isso, de forma que não seja muito agressiva emocionalmente, psicologicamente, fisicamente. E que me permita viver essa experiência de sexo. Só que aí dois meses depois eu estava grávida. Falei, agora lascou (Maria).

Ser virgem aos 19 anos foi descrito por Maria como um peso social: “Falei, calma gente, eu estou dando um passinho aqui, fazendo uma experiência, tentando me livrar dessa virgindade que já vem como um peso há muitos anos nas costas”. Maria considerava o relacionamento com seu ex-marido como uma experiência que oportunizaria a perda da virgindade e, consequentemente, aceitação social. Assim, percebe-se a existência de uma pressão social de que na idade reprodutiva as mulheres devem ter uma relação afetivo-sexual com um homem.

A participante caracterizou a sua família nuclear nos modelos de uma família patriarcal, com a figura do pai-patriarca, da mulher-esposa e cuidadora, e dos filhos e filhas, de modo a exemplificar que havia um modelo de referência a ser seguido. Para corresponder a essa imagem de família, a gravidez acabou por desencadear a obrigação social de ter que se casar com o genitor da sua filha. Maria afirmou: “Aí veio a Carolina [nome fictício], aí a gente decidiu se casar. Não, agora nós temos que nos casar, estabelecer, organizar essa família, ter uma estrutura familiar, porque nós já temos duas menininhas aí, duas princesinhas para a gente cuidar”.

Foi possível notar também que o exercício materno é definido pela participante como uma vida de sacrifícios em favor dos filhos e filhas, em que o amor e o cuidado são vistos como inerentes às mulheres. Tais representações sociais formadas por obrigações morais sobre a maternidade caracterizaram, durante muito tempo, um discurso de culpabilização e discriminação sobre as mulheresmães que não correspondem a esses valores (Patias & Buaes, 2012; Priori, 2013). Os cuidados com os filhos e filhas são destinados às mulheres, de modo que Maria assumiu a posição de principal cuidadora das crianças quando seu marido deixou de exercer a função paterna com o término do casamento.

O processo de divórcio caracterizou o rompimento com a personagem esposa, o que acarretou uma situação de maior vulnerabilidade social em que Maria se tornou a principal mantenedora e cuidadora das filhas, e do filho, biológicos. Ao mesmo tempo em que a participante reproduziu, na sua narrativa, o discurso hegemônico do que é ser mãe, ela o questionou quando João deixou de exercer a função paterna: “e nessa brincadeira eu virei mãe e pai de três crianças sozinhas. Ele não paga pensão, ele vê os filhos quando quer”. A responsabilidade paterna de João foi rompida por ele quando não mais se percebe casado com a mãe de seus filhos e filhas. Observamos, na história de Maria, a realidade de muitas mulheres que ocupam a condição de principais mantenedoras da família em que o cuidado dos filhos e filhas é primordialmente exercido por elas após o término do relacionamento com o companheiro (Mattar & Diniz, 2012).

7. O TORNAR-SE LÉSBICA

Maria recorreu à infância para tratar sobre a construção da sua sexualidade. Nesse período, ela vivenciou situações de exclusão e discriminação em decorrência dos seus comportamentos não serem considerados adequados ao seu gênero:

E na escola existe uma agressão social, que é aquela agressão do tipo, menino lá, macho e fêmea. Aí acabava que a gente, no meu caso, eu não conseguia me inserir nem no grupo dos meninos, porque era menina, nem no grupo das meninas, porque parecia menino, no jeito de ser.

A família e a escola são instituições que apareceram na narrativa de Maria como mecanismos reguladores baseados em discursos heteronormativos e patriarcais. Quando a participante não se adequou aos discursos hegemônicos que preveem uma correlação entre sexo biológico (pênis/vagina) e o gênero feminino/mulher e masculino/homem, ela se tornou vulnerável a situações de opressão, exclusão e discriminação por não se adequar a essa norma. Enquanto portadora de uma identidade sexual marginalizada, percebemos, na narrativa de Maria, que o ser lésbica foi oprimido e discriminado pelos modelos hegemônicos, reproduzidos nas práticas e relações sociais por não se enquadrar na lógica binária heteronormativa (Butler, 2016; Saffioti, 2015). Verificamos que os estereótipos dirigidos à lesbianidade, citados por Maria, “menino lá, macho e fêmea”, são utilizados como metáfora e representação de significados inferiores associados à sua identidade sexual, conforme destacado por Goffman (1988). O assumir-se lésbica para a família, conforme a narrativa de Maria e a análise de Piason e Strey (2012), é algo importante para as mulheres lésbicas, além de ser algo difícil e complicado. Maria relatou:

E eu criei coragem, cheguei em casa e falei para a minha mãe. Eu tô namorando. E ela ah quem é? Ana Flávia, é uma mulher. Falei é. Aí foi quando a minha mãe começou a chorar. E eu fiquei muito magoada com isso. ... Eu falei, eu abri mão da minha felicidade pela sua. Eu abri mão para não te envergonhar. Para não envergonhar meu pai. Para não envergonhar minha irmã na escola. ... Você sabe como era difícil para mim ter relações sexuais com o meu ex-marido?! Manter um casamento por tanto tempo. Pela obrigação de ser mãe. De ser a filha perfeita, a mulher perfeita, a esposa perfeita, a mãe perfeita (Maria).

Observamos na narração de Maria o receio de envergonhar sua família ao tornar público a sua identidade sexual. Apesar do sofrimento decorrente da permanência no modelo de mulher-mãe-heterossexual, ilustrado nas dificuldades que Maria tinha de se relacionar sexualmente com o ex-companheiro, ela permanece e reproduz essa personagem até o momento do divórcio. Isso pode estar relacionado com a expectativa de Maria em corresponder ao ideal hegemônico de mulher que lhe foi imposto desde a infância.

Consoante Piason e Strey (2012) e observado na narrativa da participante, o primeiro impacto do revelar-se lésbica à família foi a revolta, a surpresa e a decepção. Identificamos que a família é um marcador importante na vida das mulheres lésbicas. Os significados atribuídos ao feminino nas relações familiares foram reafirmados e internalizados durante toda a trajetória de vida de Maria. No decorrer da sua história, notamos a reposição dessa personagem mulher-mãe-esposa-heterossexual como um aspecto da mesmice que impediu, durante bastante tempo, o processo de metamorfose de Maria (Ciampa, 2007a).

As diferenças entre gêneros instituídas socialmente apareceram no discurso da participante como determinantes na forma de vivenciar a sexualidade:

Então assim, eu não tinha hábito de masturbação, não conhecia meu corpo, não sabia como funcionavam as coisas. E qualquer coisa emocional afetava diretamente a vida sexual. E com homem não, se ele está com raiva, ele come assim mesmo (Maria).

Maria relatou que, no período da adolescência, não sentia interesse sexual e afetivo por homens ou mulheres. Considerava ter um “bloqueio”. A repressão sexual e o controle dos impulsos sexuais das mulheres parecem ter impedido Maria de conhecer e sentir o seu corpo e seus desejos. Nesse sentido, Maria narrou: “E não adianta cara, ser lésbica é extremamente complicado. Você não tem o direito nem de se descobrir lésbica. Você não tem esse direito. Você não tem o direito de sentir. Porque é anormal, as pessoas não respeitam”.

Na rede de estimulações sobre o corpo e intensificação de prazeres, os discursos sobre a atividade sexual formam significados e são construídos social e culturalmente (Rubin, 2017). O discurso do essencialismo sexual se fundamentou na concepção de que o gênero e o exercício sexual são naturais e inerentes às pessoas, como uma propriedade de ordem fisiológica ou psicológica. Dessa forma, o gênero e a atividade sexual não teriam determinantes históricos, culturais e sociais significativos. Tais perspectivas legitimaram discursos de que a lesbianidade seja algo patológico, criminoso, pecador ou imoral, bem como Maria narrou “porque é anormal, as pessoas não respeitam”, e observado por Rubin (2017).

Dentre os discursos sobre o exercício sexual, verificamos na narrativa da participante que o identificar-se como mulher casada deveria estar relacionado com ter uma vida sexual ativa e prazerosa com um homem: “Eu me senti na obrigação de ser mulher de alguém. Eu me senti na obrigação de ter prazer com um homem. Especialmente, porque era casada, ou porque estava ali. E nunca aconteceu”. No entanto, ao não encontrar o desejo e a satisfação sexual em relacionamentos heterossexuais, Maria começou a explorar outras dimensões da sua sexualidade, de modo a conhecer melhor seu corpo, seus desejos, suas fontes de prazer e sua afetividade.

Os mecanismos de disciplinamento dos corpos das mulheres retratados pela participante por meio do tabu da virgindade e da proibição da masturbação impediram um domínio autônomo sobre o seu corpo e a livre expressão sexual, como ressalta Soares (2010). O conhecimento sobre o seu corpo, desejos e formas de vivenciar o prazer sexual e afetivo, apareceram na narrativa de Maria como uma ferramenta que a levou a tornar-se outra e viver no nível da consciência e da atividade uma nova identidade sexual, o ser lésbica.

Maria avaliou que o assumir-se e revelar-se lésbica foi uma problemática para ela. Consoante Almeida e Heilborn (2008), a história de Maria ilustrou a necessidade de reconhecimento social das mulheres lésbicas. No confronto entre as pré-condições de uma identidade transformada em expectativas rígidas e normativas do que as mulheres deveriam ser, a lesbianidade se desenvolve em condições adversas e significativas. Nos relacionamentos com homens, a participante descreveu a sensação de “sufocamento”. A imposição de uma forma de ser mulher e exercer a sexualidade impossibilitaram, durante muito tempo, o processo de metamorfose, tornar-se outra. Aquilo que impede a transformação humana nos desumaniza, o que ilustra a sensação de “sufoco” vivenciada por Maria, ou, como nomeia Ciampa (2007a), caracterizaria o estar “morta ainda viva”.

Consequentemente, a narradora construiu possibilidades de enfrentamento e resistência ao não corresponder ao modelo de ser mulher preconizado pelos discursos hegemônicos. O futebol e a música apareceram na narrativa de Maria como uma expressão identitária de resistência:

A única coisa que eu não abri mão foi do futebol. Porque era uma paixão que eu tinha, e eu acabei seguindo carreira profissional até os 18, 19 anos quando eu me mudei e larguei para lá. Mas eu atingi aquele sonho de menina, eu consegui, e tinha o apoio deles.

[Narrando sobre a experiência com a música] E essa vivência, essa experiência ela mudou muito a minha concepção de mundo, então acelerou meu processo de amadurecimento deforma muito rápida e eu me permiti viver a vida de outra forma. E eu comecei a ter sede de vida. E aquilo que eu vivia já era insuficiente, mas era insuficiente não pelo dinheiro, era insuficiente socialmente falando (Maria).

Maria construiu um espaço de pertencimento e reconhecimento social ao formar um significado e um valor relacionado com a personagem jogadora. O processo da formação da banda com o seu ex-companheiro oportunizou que Maria conhecesse um universo de possibilidades de existência. Assim sendo, as condições objetivas construídas por meio da música parecem ter possibilitado que Maria explorasse, no nível da consciência, seus próprios desejos de vida e conhecesse alguns dos reguladores sociais que a impossibilitavam de alcançálos. O sintagma identidade-metamorfose-emancipação não se concretizou, na vida da narradora, enquanto ela não rompeu com a mesmice, caracterizada pela repetição e reprodução da personagem mulher-heterossexual-esposa-mãe. A partir do momento em que Maria se conscientizou que, na busca por se adequar a uma norma social por meio das relações com homens, não estava vivendo uma “vida para si”, construiu uma nova personagem mulher-lésbica-mãe. A narradora tornou-se outra (Ciampa, 2007a).

8. HOJE, COMO EU ME VEJO

A experiência de conhecer seus desejos e experienciar uma vivência de satisfação afetiva e sexual na relação com uma mulher marcou, para Maria, um processo de reconhecimento da sua identidade sexual. Ao deixar de exercer o papel de esposa de um homem, percebemos que Maria confrontou e rompeu com os discursos patriarcais que concedem ao homem o direito sobre o corpo e a vida sexual das mulheres. No exercício de uma vivência sexual mais livre, Maria se relacionou com homens e mulheres após o divórcio. Logo, percebeu que as relações com homens eram “muito ruins, muito frustrante, a relação sexual era muito frustrante”, até a sua primeira experiência sexual com uma mulher que lhe proporcionou maior satisfação sexual e afetiva. Após essa primeira experiência, Maria se sentiu “desesperada”, “perdida”, pois o assumir-se lésbica publicamente acarretaria várias consequências sociais que colocaria Maria, novamente, em uma situação de vulnerabilidade:

Eu estava completamente desesperada. Medo da rejeição, o que que os meus filhos vão pensar, o que que meus pais vão pensar, como que a sociedade vai olhar para mim, com que cara que eu chego no trabalho. Os meus amigos, a minha vida. A minha estrutura inteira. Uma vida, eu já tenho quase 30. Como que, chega nessa idade, nesse ponto, com três filhos, quatro filhos. E de repente “ah, gente, sou gay”. Sabe, para mim é um choque muito grande (Maria).

Para ela, ter uma relação sexual com uma mulher passava a defini-la como lésbica. O vir a ser lésbica ilustra o movimento de metamorfose de Maria, ao construir outra forma de ser mulher em confronto com os discursos hegemônicos dominantes. Assumir-se e reconhecer-se como lésbica, lhe demandaria assumir um lugar de resistência e enfrentamento por identificar-se com uma identidade sexual marginalizada.

E a dificuldade que eu enfrento todos os dias para olhar no espelho e ser quem eu sou, ninguém sente comigo. Então, porque que eu tenho que me abster de algo que está me fazendo bem, para ser alguém que eu não sou, para agradar pessoas que não sabem, e não partilham de quem eu sou (Maria).

As situações de exclusão e discriminação, bem como a sensação de inadequação por não corresponder aos papéis sociais determinados ao seu gênero, resultaram em sofrimento psíquico e restringiram suas possibilidades de emancipação. Tal sofrimento se estendeu pela adolescência e vida adulta, caracterizados por Maria como fases de “depressão”, solidão, rejeição, “síndrome do pânico”, “brigas internas”. Assumir-se lésbica significava estar exposta, novamente, aos julgamentos sociais desfavoráveis, à rejeição social e a situações de violência, conforme analisado por Piason e Strey (2012).

Romper com a mesmice, caracterizada pela repetição da personagem mulher-heterossexual-mãe-esposa, tornou-se um conflito, como podemos notar na história de Maria e teorizado por Ciampa (2007a). Consoante a análise de Piason e Strey (2012), Maria também identificou que os medos de se revelar lésbica dificultaram o processo de (auto)aceitação da sua identidade sexual e estavam relacionados com os discursos presentes nas instituições família e escola. O processo de (auto)aceitação enquanto lésbica repercutiu em assumir para si mesma seus desejos sexuais, o que acabou sendo um lugar de lutas e renegociações de pressões externas e resistências internas.

Ainda sobre o prazer sexual quase inexistente na relação heterossexual, e no prazer experimentado na relação homossexual, Maria afirma:

E eu já tinha os quatro filhos quando fui descobrir o que era um orgasmo. E com mulher não existe isso, com mulher é tipo 12 orgasmos em uma noite, e é normal, é natural e está tudo bem. Com mulher você tem orgasmos múltiplos. Com mulher você sente seu corpo virando de cabeça para baixo (Maria).

Ao avaliar os benefícios e as desvantagens das relações heterossexuais ou homossexuais, a participante identificou que “não existe nenhum motivo para me relacionar com um homem e não com uma mulher, senão motivos sociais, socioculturais e questões de aparência mesmo né”. Ou seja, as relações com homens estavam relacionadas com a busca de aceitação social e adequação aos discursos heteronormativos.

Reconhecemos que o gênero, o exercício sexual e a formação da identidade estão implicados em relações de poder que interferirão na construção de espaços de fala e de existência. Isso pode ser observado na seguinte fala de Maria que retratou a dificuldade de encontrar um lugar na sociedade:

Mas assim, o resumo de toda essa história complicada é: eu sou lésbica, reconheço que sou, sofri muito tempo por questões sociais, e pela necessidade de ser a pessoa ideal, a mãe ideal, a filha ideal, a esposa ideal. De, procurando um lugar para me alocar na sociedade eu ter que abrir mão da minha sexualidade, porque não era normal, não era bonito (Maria).

Ao finalizar a narração da sua história de vida, Maria se reconheceu como lésbica enquanto uma forma identitária que confronta todos os ideais de mulher os quais buscou ser, sejam eles como mãe-esposa-filha. Portanto, afirmar-se lésbica parece ter representado possibilidades de subversão dos padrões considerados normais, corretos ou bonitos de se viver a sexualidade. No entanto, notamos que a narração de Maria mantém, em diversas construções, os discursos heteronormativos e patriarcais o que parece nos indicar ainda a presença de um sentimento de culpa por não corresponder aos ideais preconizados ao ser mulher e uma dificuldade ou impossibilidade de romper totalmente com esses padrões.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da concepção de que os discursos constroem as identidades em um movimento dialético com as estruturas sociais, evidenciamos as redes de poder que perpassam a construção das identidades de gênero e sexuais. Na narrativa de Maria, a família e o casamento apareceram como reprodutoras dos discursos patriarcais e heteronormativos. Desde a infância, a narradora foi atravessada por discursos que designavam uma única maneira correta de ser mulher: ser heterossexual e caracterizada por comportamentos e vestimentas femininas. A lesbianidade não é colocada como possibilidade, já o casamento e a maternidade estavam previstos como destino social à nossa narradora. Na busca de corresponder aos ideais designados ao ser mulher, a participante permaneceu casada, apesar de não sentir desejo sexual afetivo por seu companheiro. Romper com o casamento oportunizou a vivência de outras alternativas de satisfação sexual e assim a construção de novas possibilidades identitárias, dentre elas o ser lésbica. O tornar-se mulher, lésbica e mãe evidenciam a articulação de várias personagens incorporados pela narradora ao longo de sua história de vida em um constante processo de metamorfose.

Construir uma nova identidade sexual tornou-se uma problemática que levou à construção de espaços de resistência. Resistir é um processo complexo que permeia as estruturas de poder. Identificamos que nossa participante reproduziu as normativas impostas aos gêneros e ao exercício sexual, no entanto, também questionou o lugar marginalizado e suscetível a situações de discriminação ao se assumir lésbica. As formas de resistência citadas por ela são a música e as práticas esportivas. Podemos acrescentar outro espaço de resistência que seria nossa proposta metodológica e teórica enquanto lugar de escuta que levou à ressignificação e à reflexão da história de vida da narradora.

Nosso estudo, por meio de um lugar de compartilhamento de experiências dos modos de ser mulher, possibilitou a compreensão de como é possível a reformulação dos significados do cotidiano feminino, a fim de fomentar transformações sociais e fortalecer discursos de resistência. É fundamental que o desenvolvimento de pesquisas sobre a vivência de grupos marginalizados no campo da Psicologia seja realizado, de modo a promover espaços de discussão sobre as redes de poder que atravessam as relações de gêneros e o exercício sexual.

Este artigo é parte da pesquisa realizada no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Goiás (PPGP-UFG) e contou com financiamento em formato de bolsa de pesquisa fomentado pela FAPEG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás).

1A entrevista ocorreu presencialmente, nas salas do Centro de Psicologia da Universidade Federal de Goiás. Foi registrada por meio de audiogravação autorizada pela participante e, em seguida, transcrita na íntegra. O projeto de pesquisa foi submetido à avaliação e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFG, via Plataforma Brasil.

2Todos os nomes apresentados são fictícios.

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Recebido: 05 de Março de 2020; Aceito: 17 de Agosto de 2020

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