SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.27 número2PSICOLOGIA E INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO: RELATO DE EXPERIÊNCIAGRUPOS DE PAIS EM INSTITUIÇÕES: CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE LACANIANA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

artigo

Indicadores

Compartilhar


Psicologia em Revista

versão impressa ISSN 1677-1168

Psicol. rev. (Belo Horizonte) vol.27 no.2 Belo Horizonte maio/ago. 2021  Epub 20-Jan-2025

https://doi.org/10.5752/p.1678-9563.2021v27n2p348-367 

Artigo

CORPO-LINGUAGEM: EFEITOS DA ESCUTA NO CASO DE UM MENINO COM ATRESIA ESOFÁGICA1

BODY-LANGUAGE: EFFECTS OF LISTENING IN THE CASE OF A BOY WITH ESOPHAGEAL ATRESIA

CUERPO-LENGUAJE: EFECTOS DE LA ESCUCHA DE UN NIÑO CON ATRESIA ESOFÁGICA

Carina Chimainski* 

Amanda Schreiner Pereira** 

*Pós-graduanda em Clínica Psicanalítica pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), Campus Santa Maria-RS, psicóloga. E-mail: carinakksm@hotmail.com

**Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (Appoa), psicóloga da UFSM, psicanalista. E-mail: psico_amanda@hotmail.com


RESUMO

Este artigo é um relato de experiência sobre a escuta clínica de um menino com atresia esofágica. A análise tem como base de sustentação a teoria psicanalítica. Para isso, foram utilizados recortes clínicos com excertos do caso, enlaçados aos preceitos que sustentaram as intervenções. Este estudo aborda o processo de constituição psíquica concernente à demarcação simbólica do corpo-linguagem e ao desdobramento imaginário do corpo no espelho, além de registros do processo de alienação e separação. As intervenções clínicas produziram efeitos de amarrações simbólico-imaginárias que auxiliaram na inscrição das bordas corporais a partir do discurso do agente do Outro e na autentificação da imagem unificada do corpo. As nomeações de afeto entre corpo e objeto, o enlace pulsional do olhar e da voz, os empréstimos corpóreos e o lugar do intervalo para que o sujeito do inconsciente se manifestasse foram elementos de sustentação do processo de constituição psíquica.

Palavras-chave Atresia esofágica; Psicanálise; Corpo; Linguagem; Constituição psíquica

ABSTRACT

This is an experience report on the clinical listening process concerning a boy with esophageal atresia. The analysis was conducted using psychoanalytic theory and was structured around case excerpts combined with the concepts on which the interventions were based. This study focuses on the aspects of psychic constitution that deal with the symbolic demarcation of the body-language and the imaginary representations of the body in the mirror, in addition to the processes of alienation and separation. The symbolic imaginary constructions produced by the clinical interventions contributed to the inscription of corporal boundaries through the discourse between the agent and the Other, as well as the authentication of a unified body-image. Ultimately, the process of psychic construction was supported by naming the affect between body and object, the pulsional liaison between gaze and voice, corporal exchanges and the presence of intervals where the subject of the subconscious could manifest itself.

Keywords Esophageal atresia; Psychoanalysis; Body; Language; Constitution

RESUMEN

Este artículo es un informe de experiencia sobre la escucha clínica de un niño con atresia esofágica. El análisis se basa en el apoyo de la teoría psicoanalítica. Para ello, se utilizaron recortes clínicos con extractos del caso, que fueron enlazados a los preceptos que han sostenido las intervenciones. Este estudio aborda el proceso de constitución psíquica sobre la demarcación simbólica del cuerpo-lenguaje y el desarrollo imaginario del cuerpo en el espejo, además de los registros del proceso de alienación y separación. Las intervenciones clínicas han producidos efectos de amarres simbólico-imaginarios que ayudaron en la inscripción de los bordes del cuerpo, a partir del discurso del agente del Otro y en la autenticidad de la imagen unificada del cuerpo. Los nombramientos de afecto entre cuerpo y objeto, la vinculación de la mirada y la voz, los préstamos corpóreos y el lugar del intervalo para que el sujeto del inconsciente se manifestara fueron elementos que han sostenido el proceso de constitución psíquica.

Palabras clave Atresia esofágica; Psicoanálisis; Cuerpo; Lenguaje; Constitución

1. INTRODUÇÃO

Este artigo é um relato de experiência sobre o início da escuta clínica de um caso que chamaremos Raul. Trata-se de um menino com atresia esofágica, cujos atendimentos compreendem o período entre um 1 e 9 meses a 2 anos e 3 meses de idade. Os atendimentos ocorreram em consultório particular, sob escuta e supervisão por parte das autoras supracitadas.

A análise do caso tem como base de sustentação a teoria psicanalítica. Para isso, foram utilizados recortes clínicos com excertos do caso, enlaçados aos preceitos que sustentaram as intervenções. As leituras sobre o caso em supervisão e as intervenções da psicóloga1 responsável pelos atendimentos, pela oferta de seu corpo no brincar (empréstimo corpóreo) e de significantes por meio de palavras que pudessem demarcar as bordas do corpo do menino, bem como sentido nas suas trocas ao interagir, demonstram como foi possível um espaço para o comparecimento do sujeito de desejo nesta escuta.

Nesse sentido, o presente estudo aborda o processo de constituição psíquica de Raul, no que concerne à demarcação simbólica do enlace corpo-linguagem e ao desdobramento imaginário do corpo no espelho, registros do processo de alienação ao campo do Outro. Serão, ainda, esboçados elementos acerca do processo de separação e da interdição do gozo do Outro. Sabe-se que a constituição psíquica do sujeito conta com um conjunto de operações e momentos lógicos que fazem referência ao processo de subjetivação e que, no princípio do nascimento de um sujeito, dizem respeito ao enlace corpo-linguagem. Isso ocorre porque a dimensão psíquica conta com um conjunto de elementos que propiciam a amarração entre o real, simbólico e imaginário. Para que o sujeito possa advir, é necessário o encontro de aspectos biológicos/cognitivos com uma estrutura familiar que transmita uma rede simbólica.

Vislumbrando o exposto, é preciso situar que a origem da criança precede o nascimento, uma vez que o lugar do bebê está antecipado no fantasma materno que lhe ordena simbolicamente. Concebe-se que, no momento do nascimento, há um desamparo originário em que é necessário o comparecimento do agente do Outro, lugar primordial de oferta de significantes que delineiem as bordas corpóreas, a partir da suposição de um sujeito de desejo (Lacan, 1964/1998b). Desse modo, o agente do Outro endereça cuidados capazes de antecipar a subjetivação do bebê, ao passo que ele fica referenciado e identificado simbolicamente ao discurso do Outro pela representação ofertada nos modos de interpretação, satisfação e interdição (Jerusalinsky, 2014).

Dessa forma, a linguagem configura-se como um elemento primordial fornecido ao bebê por intermédio do Outro. Ela inscreve um sujeito e também autentifica a identificação imaginário no espelho. Nesse contexto, a experiência do estádio do espelho, descrita por Lacan (1949/1998a), permite a formação do Eu e o reconhecimento da imagem da criança através de seu reflexo autentificado. Já o estabelecimento do significante “Nome do pai” funda a função do pai, responsável por instituir a lei. A forma de inscrição do significante “Nome do pai” vai determinar a estruturação psíquica (Lacan, 1956-1957/1995; 1957-1958/1999).

Uma das formas de representar o enlace do corpo-linguagem do sujeito é apresentado em articulação com o nó borromeano, proposto por Lacan (1974-1975/1975), cuja característica é a ligação de três elos, representantes dos registros psíquicos: real, simbólico e imaginário (RSI). Com os registros RSI, Lacan denota a estruturação psíquica, onde cada dimensão é efeito da dupla ligação que a constrange a outras duas.

Durante a constituição psíquica, o real será articulado a um desejo inconsciente irrealizável. Pelo imaginário, o corpo transcende a referência de corpo como orgânico, é um registro formado a partir do olhar do Outro. Já o simbólico será formado a partir da incorporação de significantes construídos por um emaranhado de palavras que vão tecendo uma rede de conexões ao sujeito (Lacan, 1964/1998b).

O enlace corpo-linguagem se sustenta a partir da teoria pulsional freudiana. Para Freud (1905/2016b), o conceito de pulsão é fronteiriço entre anímico e somático. Relida por Lacan, a pulsão permite o enlace ao desejo do Outro por meio do estabelecimento de um circuito de três tempos: o primeiro (ativo), o bebê vai na direção de um objeto externo (o seio) a fim de satisfazer a sua necessidade vital; o segundo (chamado reflexivo), o bebê toma como objeto uma parte do seu próprio corpo (autoerotismo); e o terceiro tempo da pulsão é quando o bebê se faz objeto de um outro, em que há o aparecimento de um novo sujeito (Lacan, 1964/1998b; Laznik, 2013b; 2013a).

A circularidade pulsional é remetida às razões gramaticais de inversão do sujeito e do objeto, já presentes no texto de Freud (1905/2016b). Lacan (1964/1998b) soma aos polos ver/ser visto freudianos o tempo reflexivo, argumentando que Freud falou de um terceiro tempo, o tempo de um novo sujeito, tempo de fechamento de um curso circular.

A fim de evocar a circularidade pulsional no caso Raul, esse escrito é composto por fragmentos clínicos, intervenções e suplementos teóricos que serviram de suporte para o enlace corpo-linguagem no caso atendido. A costura do texto passou pelos efeitos do traumático, da repetição à amarração simbólico-imaginária do real do corpo, ou seja, ao enlace dos registros psíquicos RSI (real, simbólico, imaginário). A escuta clínica de Raul partiu da queixa e da demanda parental e seu desdobramento nas intervenções que serão expostas.

2. O CASO RAUL: CORPO-LINGUAGEM, COMO LINGUAGEM

Raul é trazido pelo pai para sua primeira sessão psicológica. Ao ver a psicoterapeuta, logo começa a chorar e se agarra no pai que relata a origem do incômodo do filho, ele acha que estão em um consultório médico e que irão examiná-lo. Mesmo diante das propostas para brincar e na oferta para explorar as caixas com brinquedos, Raul continua no colo do pai repetindo por várias vezes: “não, titia”. É dessa forma que ocorre o primeiro contato com o menino.

Os pais procuraram atendimento psicoterápico quando Raul tinha 1 ano e 09 meses, com a queixa de que aceitava restritivamente alimentos e o leite materno, implicando baixo peso. Raul nasceu com atresia esofágica (formação incompleta do esôfago), uma anomalia congênita resultante de má formação embrionária, na qual ocorre um estreitamento e/ou obstrução do canal que conduz o alimento até o estômago.

Como consequência, segundo os pais, quando completou um mês de vida, Raul passou por uma cirurgia no esôfago. Após, ficou dois meses sendo aspirado a cada meia hora pelos pais para evitar o afogamento com a saliva. Foi necessário reconstruir seu esôfago, sendo realizada nova cirurgia quando ele tinha três meses e meio de idade, para colocação da sonda gástrica. Quando chegou para atendimento, Raul já se alimentava pela via oral.

No primeiro contato com a história de Raul e sua posição reativa ante a tentativa de interação, já é possível evidenciar os efeitos do traumático no menino. Em “Além do princípio do prazer”, Freud (1917-1920/2010, p. 23) questiona o porquê da ocorrência psíquica das repetições das experiências traumáticas dolorosas. Como exemplo, refere os sonhos dos soldados do pósguerra, que “possuem a característica de repetidamente trazer o paciente de volta à situação de seu acidente”.

Freud (1917-1920/2010) também explora as repetições do traumático nas brincadeiras das crianças, pois evidenciara o “fort-da”, duas vocalizações produzidas pelo seu neto ao brincar de fazer ir e vir um carretel, que associa ao movimento de presença e ausência maternas. Fort significa “foi embora” na interpretação de Freud (1917-1920/2010, p. 172) e da, “está aqui”. Nesse sentido, Freud questiona o porquê de a repetição dolorosa do desaparecimento da mãe ser encenada como brincadeira no fort, uma vez que tal fato não harmonizava com o princípio do prazer (primeira ênfase da abordagem freudiana sobre o funcionamento econômico do psiquismo).

Essas percepções fizeram Freud avançar, junto a outros fenômenos, para além do princípio do prazer, criando um dos quatro conceitos fundamentais da Psicanálise: a repetição. Raul está em outro cenário, mas ainda se encontra com os efeitos angustiantes do encontro do traumático, com o real do corpo. Lacan revisita o trauma freudiano e cita o Real como o registro da ordem de um impossível, inacessível ao sujeito, que escapa à materialização e à simbolização (Lacan, 1964/1998b).

Contudo, é sobre o inacessível, aquele que escapa, que se produzem as tentativas de amarração simbólico-imaginárias, enlaçando os registros psíquicos. O Real está presente desde o princípio e é aquilo sobre o qual se ofertam os significantes do campo do Outro. Lacan (1962-1963/2005, p. 139) refere que na precipitação do sujeito psíquico pelo ingresso no mundo significante, queda o objeto a (libra de carne). Na história de Raul, as intervenções sobre o corpo biológico não deixam espaço para a queda da libra de carne, frequentemente é apenas do corpo biológico que se trata no discurso da mãe.

Ela relata a dificuldade em alimentar Raul desde o princípio, passando pelo cuidado de não deslocar a sonda de lugar. Como exposto, a principal queixa parental ao trazerem Raul para atendimento psicoterápico era a restrição alimentar, ele recusava muitos alimentos. Diante disto, a mãe buscava oferecer, a todo momento, os poucos alimentos que ele aceitava e que poderiam saciá-lo, incluindo, principalmente, o mamar no seio.

Raul vem para os atendimentos após sair da escolinha, a mãe refere que ele sai com fome e, ao chegar no consultório, oferta o seio materno. Nos atos de oferta, ela supunha que Raul demandava alimento, o que lhe ofertava sem lhe endereçar olhar ou sua voz, objetos relativos ao desejo do/ao Outro: a voz e o olhar, como exposto por Lacan (1964/1998b), não se faziam presentes. Em um destes momentos em que a mãe ofertava o seio, entoei a prosódia específica do “manhês”2 e ofertei a Raul: “Humm, tá gostoso esse mamá!”. Ele olhou.

Na sequência dessa cena, como tentativa de fazê-lo se interessar por outros objetos, comecei a rabiscar no quadro, convocando-o a se aproximar. Deu certo, desenhamos, logo se interessou por lápis de cor e canetinhas, fazendo alguns rabiscos com as diferentes cores. Sem considerar o interesse de Raul, a mãe retomou a narrativa de alimentá-lo, perguntando se ele queria Danoninho, ele aceitou. A mãe ofereceu mais um Danoninho. Raul então alterna uma colherada de Danoninho para mim, uma para a mãe e uma para ele. Eu digo: “Que gostoso!”, numa entonação que permite erotização do ato de amamentar e uma aposta na passagem do afeto à representação, por ofertar sentido no ato satisfatório.

Posteriormente, em outra sessão, a mãe chega com ele e logo oferece o Danoninho. Pergunto se ele está com fome. A mãe responde que sim porque não havia comido na escolinha. Ele comeu dois Danoninhos e a mãe ofereceu bolo. Novamente, pergunto à mãe se ele já não está saciado. Olho para o Raul e pergunto: “Raul, você está satisfeito?”. Nesse princípio dos atendimentos, nota-se que a mãe responde por Raul, não deixa o intervalo necessário para que ele, como sujeito, se posicione. Para Pereira et al. (2018) é fundamental que a alternância ritmada de presença e ausência se instaure como intervalo, que a mãe sustente a suposição de um desejo no filho.

Dando continuidade às cenas dessa sessão, enquanto ele comia o Danoninho decidiu trocar a colher por uma canetinha, a psicóloga e a mãe disseram para ele não fazer isso. Logo, começou a chorar, encheu a colher de Danoninho e atirou na mãe e na psicóloga, que elevou a intensidade da voz dizendo: “Não é pra fazer assim!”. Diante da braveza, a mãe ficou muito assustada. Já Raul a olhou seriamente, por um tempo, depois começou a chorar novamente pedindo o seio. Foi a primeira vez que a mãe perguntou: “Eu dou?”, ao que recebeu a negativa: “não”. Com a pergunta, percebe-se o lugar de saber que a psicóloga passa a ocupar para a mãe. Com a resposta, evocaremos os interditos necessários ao caso.

Já havíamos observado, a partir da primeira sessão com o pai, a dificuldade de sustentação do “não do pai”.3 Trata-se da introdução da função do pai por meio da interdição da mãe. A função paterna é responsável por instaurar a lei e barrar a relação de gozo entre mãe e filho. Sua introdução no psiquismo diz respeito aos tempos edípicos postulados por Freud, que terão como consequência o Supereu como herdeiro do complexo de Édipo. Lacan (1957-1958/1999, p. 186) situou que o pai entra na relação entre mãe e filho como mediador simbólico, “uma simbolização primordial entre a criança e a mãe, a colocação substitutiva do pai como símbolo, ou significante, no lugar da mãe”.

O pai tenta impor limites ao filho, no primeiro encontro, por exemplo, quando Raul pegou alguns brinquedos e arremessou por todos os lados, o pai disse “não faz assim”, mas ele continuou. Diante da ação do menino, a psicóloga perguntou: “Você está bravo?”, ele a olha, olha para o objeto e a olha novamente. Por diversas vezes, com Raul, a interdição se fez necessária. Por exemplo, em uma sessão na qual o menino tentou acertar o rosto da mãe com um pincel. Nessa ocasião, houve nova intervenção com repreensão em elevação da voz e expressão de braveza, o que nos lembrou intervenção semelhante à relatada por Alfredo Jerusalinsky (2004, p. 54) em seu terceiro seminário.

O caso clínico era de um menino, que ele também nomeara Raul, e que na época em que iniciou o tratamento tinha aproximadamente 3 anos de idade. Numa sessão, quando Raul desce a escada, ele tenta abrir a porta para sair e não consegue por ser pesada, a mãe abre e ele começa a se debater. O psicanalista diz: “Raul, eu estou te olhando!”. Raul para, atravessa a porta. Quando Alfredo já não consegue enxergá-lo, escuta que Raul começa de novo, então vai até a sacada e diz: “Raul, estou te olhando!” e Raul para. A mãe pergunta: “O que é que o senhor fez?”. Ele responde: “Eu o olhei!”. A mãe diz: “Também, o olhar do senhor!”.

Costa (2019, p. 88) nos diz que “A voz, assim como o olhar, é veículo de relações. Foi primeiro pela voz do Outro (encarnado nas relações primárias) que a linguagem atingiu o corpo, furou suas bordas e introduziu seu canto”. Olhar e voz são os mesmos objetos pelos quais se possibilita a aposta no enlace pulsional de Raul, para além da referência ao Supereu e à castração simbólica materna.

Quanto à ligação corpo-linguagem, apostou-se na reconstituição da história de Raul. Vislumbrando a necessidade de oferta de significantes por parte da mãe, convoca-se à restituição da história. Quando a mãe conta acerca do processo de alimentar o filho, faz uma analogia à alimentação por sonda de Raul à “alimentação de patos”: refere que os antigos diziam que enterravam os patos, deixando-os somente com a cabeça de fora para alimentá-los até engordarem, depois nos matavam.

A metáfora do pato, descrição do princípio da relação materna, não deixou de constranger àquela que a escuta a apostar no recurso de linguagem, a buscar desdobramentos significantes destes primeiros cuidados endereçados ao filho. Somado a isso, foi solicitado à mãe que trouxesse o álbum de fotos de Raul, por ela referenciado, para que pudessem olhar juntas.

A mãe traz o álbum, mas acentua um espaço em branco (espaço reservado no álbum onde indicava “Minha história”) e pede que a Psicóloga a ajude a escrever a história do Raul ali. Foi um pedido não respondido em sua literalidade, mas cujas intervenções clínicas permitiram que se esboçasse uma resposta. Observamos que os pais de Raul, agentes do Outro, têm dificuldades de inscrever seu corpo a partir de uma série significante constituinte, por isso mantêm os espaços em branco. No entanto, no álbum encontramos fotos desde que ele nasceu, as quais Raul é chamado para olhar. É preciso que ele se reconheça, antes que se represente sendo olhado.

Como intervenção clínica, a psicóloga acentua as partes de seu corpo: “Olha o pezinho do Raul; olha a mãozinha na boca; aqui você está sorrindo!”. Inicialmente, Raul acompanha atento, mas logo se dispersa. Raul ainda não pode ser olhado pelo outro, é preciso que reconheça esse corpo. Bergès e Balbo (2001, p. 9) situa que “o corpo pulsional da criança é um ‘monumento de desconhecimento’ com o qual a mãe deve aprender a ‘des-conhecer’, ou seja, supor-lhe um saber”. Há dificuldade do saber materno no caso Raul. Ao ir embora, a mãe deixa o álbum de fotos, referindo considerar muito pesado de carregar.

É possível constituir um saber sobre o corpo do filho? O que é que está difícil para esta mãe carregar? Que o peso de libra se torne metáfora... que a hipótese de sujeito faça corpo. Nesse sentido, chama a atenção o fato de a mãe supor que o filho achava que a sonda era extensão de seu corpo. Como esse furo no corpo do filho e a sonda que o alimentava sustentavam, na suposição materna, os contornos simbólicos para o recém-nascido? A mãe de Raul tinha uma referência: era um “dodói”. Era assim que podia traduzir o corpo para o filho.

Considera-se a importância do fato de que o agente do Outro interprete e signifique os movimentos do bebê, fronteira entre o corpo e a linguagem chamado pulsão. Costa (2004, p. 166) infere que a “pulsão nada mais é do que fazer bordas no corpo, fazer orifícios, na medida em que é pelos orifícios que constituímos nossa erótica ... É pelos orifícios que nós somos suportados corporalmente”.

Freud (1905/2016b), em seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, refere-se à pulsão como o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação. Diferentemente disso, o estímulo é produzido por excitações isoladas decorrentes do externo. A pulsão mantém uma relação entre o somático e o psíquico. Como exemplo desse processo, está o aleitamento materno, em que o leite é o objeto da necessidade e o que satisfaz a fome é a ingestão do leite. Simultaneamente, existe um estímulo experimentado pela boca, a qual está vinculada ao seio materno, sendo este o objeto da pulsão sexual.

A pulsão tem quatro elementos: pressão (ou impulso), alvo, objeto e fonte. O impulso é uma excitação proveniente dos estímulos internos. É uma potente energia ativa que flui constantemente, movimentando o aparelho psíquico e está no nível da necessidade (sede, fome). O alvo é o direcionamento da pulsão e exige uma satisfação sempre parcial, uma vez que completa nunca será possível.

A fonte corresponde a um processo somático, aos orifícios do corpo, não como uma totalidade organizada, mas parcializada. A fonte tem um contorno de borda assim como a boca, zona erógena, que se liga ao seio. Ela se alterna nos diferentes orifícios pulsionais do corpo. Por fim, o objeto pulsional é o meio para atingir o alvo e é construído a partir de representações.

Desse modo, é pelos orifícios que se estabelece a comunicação entre mundo interior e exterior, e se possibilita o contato com o outro por meio da troca objetal. Remetemo-nos à borda do orifício pulsional, a fonte com contorno de borda que tem aumento ou diminuição conforme estimulação (Freud, 1915/2016a). É por essas bordas que circulam os objetos de troca com o outro, objetos a que têm como base os orifícios do corpo (Lacan, 1964/1998b).

Interessante perceber que, após a retirada da sonda de Raul, não houve cicatrização natural do furo aberto em seu corpo. Durante o processo, na tentativa de cicatrização, os pais faziam curativos diários e nesses momentos Raul colocava o dedo no buraco e “ficava brincando”, conforme explicitam os pais. Além de manipular o buraco deixado pela retirada da sonda, Raul também colocava o dedo no ânus quando os pais faziam a troca da fralda, fatos incompreensíveis para os pais.

Diante do furo aberto pela sonda, do “dodói” em Raul, os pais costumavam repreender sua manipulação, temendo que Raul se machucasse. O interessante é que o furo de Raul não se fechava como deveria acontecer naturalmente, ao mesmo tempo em que Raul insistia em sua borda, em movimentos autoeróticos de manipulação de seu furo. Para Freud (1905/2016b), o extrato sexual mais primitivo da sexualidade infantil é o autoerotismo. Anterior ao narcisismo, o autoerotismo exige somente sensações locais de satisfação. Relativo à pulsão, trata-se de um estado no qual a pulsão sexual não precisa recorrer a um objeto externo, pois encontra satisfação ligada a um órgão ou à excitação de uma zona erógena no próprio corpo.

Mais adiante, Freud (1914/2014) trata o autoerotismo como um estado prematuro da libido sobre o qual uma ação psíquica nova deve ser acrescentada para configurar o narcisismo. Essa ação psíquica nova pode ser compreendida como a representação que permitirá o reencontro faltoso com o objeto. Assim, há uma transição do investimento libidinal do autoerotismo ao investimento objetal e é esta a aposta no caso de Raul.

No entanto, em razão de intervenção médica, aos dois anos, logo no início do tratamento psicoterápico, Raul realizou nova cirurgia para que fechasse o buraco. Quais as implicações psíquicas do fechamento do órgão ante a abertura e a erogeneidade da borda pulsional? Era preciso investir no discurso parental para a delimitação das bordas do corpo em Raul. Além do princípio do prazer, também era preciso a permissão para novos desdobramentos do furo gástrico então configurado como borda pulsional. Na narrativa do pai, encontramos os recursos de historicização possíveis.

3. AS INSCRIÇÕES SOBRE OS EFEITOS TRAUMÁTICOS

Foram retomadas as fotos do álbum em uma sessão na qual Raul vem acompanhado pelo pai. Enquanto Raul desenhava, fomos olhando as fotos. O pai começa a contar sobre o hospital, ao que é convocado a contar a história para Raul, ele aceita. Durante a história, o pai foi situando no corpo de Raul a cirurgia, o buraquinho, a boca por onde agora ele deveria comer. Diante da acentuação paterna às aberturas do corpo de Raul, o menino vai em busca de tesouras dispostas na sala de atendimento. Ele alcança uma para a psicóloga e, logo, outra; endereçamento que remete ao significante corte.

Posteriormente, em outra sessão com o pai, Raul repete a cena de endereçamento das tesouras, era hora de retomar o que havia sido incitado por ele. Foi exposto ao pai que ele já havia em outro momento ofertado as tesouras e que talvez ele quisesse dizer algo com isso. O pai relata que ele estava acostumado a ver tesouras todos os dias desde que nasceu. Eles faziam curativos e ele brincava com a tesoura.

Foi solicitado ao pai que contasse sobre os curativos, o hospital, os procedimentos. Junto ao filho, em sessão, o pai fala da sonda, da aspiração, de como fazia os curativos, ao que é demandado ir bordeando o corpo de Raul. Nisso, Raul senta entre as pernas do pai, enquanto o pai situa no corpo dele como eram os procedimentos. Além disso, foi representado com o pincel e a bola como eram a sonda e a aspiração. Raul, muito atento a todos os movimentos e à história que se contava, suspirou: “O Raul parece estar sentindo sono, relaxando, ao ouvir a história dele”, disse a psicóloga. Diante das palavras, dormiu no colo do pai.

Lembramos da história/estória contada por Escobar (2016), em seu livro Canções de ninar de Auschwitz, de uma família que viveu os horrores da guerra nos campos de concentração. A polícia nazista, ao capturar a família dentro da sua própria casa, informa que eles terão que fazer uma longa viagem. Os cinco filhos, assustados com a situação, sem saber para onde iriam, auxiliam a mãe a arrumar as malas. Aquele foi o último dia em que eles tiveram uma casa e que puderam chamar de lar. Ao fechar a porta e descerem as escadas rumo ao holocausto que as esperavam, a mãe Frau Hannemann, na tentativa de acalmar os filhos, inicia uma cantiga infantil que eles sempre pediam para ela cantar quando estavam nervosos ou não conseguiam dormir.

Há uma aproximação muito peculiar entre as canções de ninar e a primeira fala com a qual se encontra o bebê diante de seus cuidadores: conhecida como “manhês”. A entonação prosódica presente em ambos é um empuxo de linguagem ao Raul. Laznik (2013b; 2013a) fala do “poder encantador da voz” situando a voz como o ato inaugural que precede o olhar. Nesse sentido, sustenta-se que a relação do bebê com os sons já está presente antes mesmo do nascimento, sendo que o bebê é afetado pela experiência auditiva a partir do terceiro trimestre gestacional.

Para Werner (2007), ainda que a exposição completa dos sons se dê somente no pós-natal, a sensibilidade sonora das experiências na vida intrauterina contribui para o reconhecimento do bebê dos sons ao nascer. Na especificidade do “manhês”, o bebê é fisgado pelo gozo materno: “A mãe fala com ele e por ele. O bebê chama, é chamado e se faz chamar respondendo à invocação e demonstrando, deste modo, sua implicação no gozo do Outro” (Catão; 2015, p. 23).

No caso de Raul, percebe-se a voz apaziguadora, capaz de levar a passagem ao sono. Para Ganhito (2002, p. 70), o ato de adormecer não representa somente uma sequência fisiológica, mas um corte, uma descontinuidade da atividade pulsional rítmica da relação mãe-bebê: “É preciso que o bebê seja olhado amorosamente para poder fechar os olhos e dormir em segurança”. Nesse sentido, dormir significa um retorno ao narcisismo primário remetendo à relação do bebê com o agente da função materna.

Dentre as queixas que trouxeram Raul para acompanhamento psicológico, destacam-se situações em que, justamente, os pais não conseguem conter o corpo do filho por meio das palavras. Ao contrário do que se produz na escola que Raul frequenta desde 1 ano e 4 meses, onde brinca, participa das atividades propostas, come mais alimentos e dorme na hora do sono; em casa Raul faz birras, se joga no chão, bate a cabeça, atira objetos no chão, não come, se cola no seio da mãe, e não dorme. Costa (2019, p. 28) lembra que “os espaços pelos quais nos deslocamos somente se constituem como um lugar na medida em que são recortados pela casa que nos abriga”. Nessa perspectiva, dia e noite só se diferenciam por termos um lugar, um lar onde abrigar nossos sonhos. Raul encontra abrigos nas palavras endereçadas do pai.

Na obra freudiana, o adormecer é um movimento de desinvestimento da libido do mundo externo. O sono passa a ser um resguardo dos estímulos e conflitos provenientes da vida exterior. Pelo sono, tem-se acesso aos restos da vida diurna, conteúdos inconscientes, que se manifestam pelo sonho. No dormir há a passagem da suspensão dos ritmos diurnos para o conforto da vida dentro do útero. Acontece uma alternância entre dormir e acordar que, por ora, é se refugiar no sossego intrauterino e, por outra, despertar a luz do dia como se tivesse acabado de nascer (Freud, 1915-1916/1996).

4. A PORTA SANFONADA: O CORTE COMO INTERVALO

Jerusalinsky (2014) situa que a entoação da voz promove o enlaçamento do bebê a um ritmo de funcionamento de alternância, mediante a relação com o Outro mediante a qual se dá a inscrição de um traço que permite ir compondo uma série simbólica singular. O traço pode ser pensado como uma marca deixada por um objeto assim que esse se ausenta e depende do vínculo com o agente da função materna.

Para inscrição do traço, necessitamos da matriz simbólica: traço de ausência, traço de presença. A alternância da matriz simbólica permitirá que o sujeito possa traduzir seu anseio. Para Pereira et al. (2018, p. 443): o bebê toma-se pela voz, com “empréstimos de recursos da língua, para engajar-se no funcionamento da linguagem, na medida em que o sujeito vai em busca da possibilidade de tradução de seu anseio”. Desse modo, Pereira e Vorcaro (2018) sustentam que os intervalos acentuam o andamento singular na troca entre o agente materno e a criança, movimentos imprescindíveis até que a criança, na posição de falo materno, possa apresentar a si mesma como objeto, ou seja, fazer-se objeto de um outro.

Temos evidências desse processo em Raul. Em uma sessão, Raul descobre a porta sanfonada da sala infantil e começa a brincar de abrir e fechar. Quando ele abre a porta, a surpresa: “achou!”, Raul sorri diante do encontro com a psicóloga. Solicita-se à mãe que brinque com ele e ela brinca. Raul já pode ser buscado, se esconde para poder ser buscado pelo Outro.

Em outra sessão, Raul pega o celular do pai que diz à psicóloga “ele quer ver vídeos dele”. A psicóloga pede que os mostre, ele se acalma, o pai diz que ele lhe pede, o dia todo, que coloque os vídeos para ver. São vídeos nos quais os pais o filmam brincando e em festas de aniversários com outras crianças.

Em referência ao estádio do espelho, momento da formação identificatória imaginária do Eu, evocamos a instância imaginária em Raul. Lacan (1953-54/1996), para sustentar suas formulações de 1949, acerca da teoria do estádio do espelho, utilizou-se do esquema óptico do físico Henri Bouasse como modelo. O esquema trata da ilusão óptica produzida por um espelho côncavo em que é possível observar um buquê de flores de cabeça para baixo, dentro de uma caixa, e, sobre ela, é colocado um vaso vazio.

A partir desse esquema e seus desdobramentos, Lacan (1953-54/1996, 1960/1998c) comparou metaforicamente a imagem do espelho à criança para explicar que ela não se funda em si mesma. Há um Outro que intermedeia essa criança a encontrar sua imagem, este Outro é uma função simbólica que nomeia a imagem refletida no espelho. É por intermédio deste Outro que a criança é capaz de reconhecer a imagem do espelho como sua imagem.

É um dos poucos momentos em que Lacan situa cronologicamente a constituição psíquica. Refere que essa identificação se dá no bebê a partir dos 6 meses até os 18 meses de idade. Assim, nessa experiência jubilatória, o bebê é acompanhado pela validação da sua imagem, concebendo a unificação imaginária do seu corpo, o que permite que ele se reconheça e assuma a imagem como sua (Lacan, 1949/1998a).

Assim como Raul assume sua imagem autentificada ao celular pela psicóloga, usufrui da alienação, como objeto do desejo do Outro, na porta sanfonada. A cena da porta sanfonada com Raul lembra o jogo do fort-da freudiano, no qual a criança inserida no campo simbólico suporta o movimento presença-ausência. Para Jerusalinsky (1999), esse movimento representa um importante elemento constituinte do sujeito, no qual a criança é fisgada na descontinuidade do significante à imagem de si, o que implica colocar em uma série simbólica (a presença e a ausência).

Vorcaro (2017) designa, no fort-da, a aparição da linguagem pelo significante, em que duas modalidades vocais, dois fonemas, expressam oposição. Como exposto anteriormente, o fort-da refere-se a duas vocalizações produzidas pelo neto de Freud diante da ausência de sua mãe. Fort foi interpretado “foi embora” para a vocalização de um forte e prolongado “o-o-o-o”, ao fazer desaparecer um carretel, que lançava para dentro do berço. Já o alegre ‘é-é-é”, que Freud interpreta como “da, está aqui”, ele produziu ao aproximar/puxar de volta o carretel para fora do berço.

Diante da cena do carretel, Freud (1917-1920/2010) elucida o que refere ser o primeiro jogo de invenção de um menino de 18 meses de idade para expor como trabalha o aparelho psíquico nas brincadeiras de criança. Com a cena do fort-daFreud (1917-1920/2010) trabalha o porquê de a repetição dolorosa do desaparecimento ser encenada como brincadeira, uma vez que tal fato não harmoniza com o princípio do prazer. Parece-nos interessante recordar que Freud questiona por que o menino repetia o desprazer na brincadeira em si mesmo, visto que repetia frequentemente o primeiro ato, o fort, quando desaparecia diante do espelho. Veras (2000) cita que isso ocorre porque a criança se conta no desaparecimento; entre as duas emissões diante do espelho, ela se faz falta ao Outro, onde reaparece. Assim, os dois fonemas encarnam os mecanismos de alienação, que se exprimem no nível do fort, porque não há fort sem da, como refere Lacan (1964/1998b), do mesmo modo como a criança passa a alienar-se a sua imagem no espelho, como o carretel que aparece e desaparece.

Lacan (1964/1998b) discorreu sobre os processos de alienação e separação, ou seja, o sujeito depende dos significantes que estão no campo do Outro e, ao mesmo tempo, necessita da condição de separação que só é possível mediante a falta, no desejo do Outro, para que o aparecimento de um sujeito do desejo seja possível. Para que o processo de separação se sustente, é necessário que o agente do Outro, na relação com o filho, sofra a interdição da Lei, interdição necessária à mãe de Raul, como exposto no início deste artigo. Referimo-nos à possibilidade de instauração da falta como castração simbólica.

Em seu quarto seminário, Lacan (1956-57/1995) nomeia três registros diferentes de falta do objeto: a privação, a frustração e a castração. São formas que se articulam na relação entre a mãe e a criança. Lacan (1956-57/1995, p. 36) diz que “a privação, em sua natureza de falta, é essencialmente uma falta real. É um furo”. O bebê chora pela necessidade de fome e a mãe sente-se convocada a satisfazê-lo, ofertando-lhe o objeto de satisfação. A mãe se apresenta, nesse contexto, como matriz simbólica, alternando-se entre presença e ausência. A privação é o pai imaginário, ou seja, qualquer movimento que possa romper com essa relação dual (Fragelli & Petri, 2004).

Já a frustração situa-se no plano imaginário, conforme explicita Lacan (1956-57/1995, p. 36): “A frustração é por si mesma o domínio das exigências desenfreadas e sem lei”. É da ordem do que é desejado, mas não obtido. Por fim, a castração, já introduzida por Freud como intermédio entre mãe, bebê e falo, libertando o bebê do desejo insaciável da mãe. Nesse terceiro registro, a falta é ligada à ordem simbólica que permite a operação da lei (Lacan, 1956-57/1995).

Retomaremos uma cena em que a falta se impõe a Raul. Ele chega à sessão com a mãe que comenta algo que envolvia o seio, ao ouvir, Raul quer mamar. A psicóloga diz que não, que agora não é hora de mamar e sim de brincar. Ele pede várias vezes para a mãe, ela não se posiciona, mas olha para a terapeuta a fim de que intervenha, ao que esta responde: “Não, a teta é da mamãe e não mais do Raul”. Ele chora muito, não consegue brincar, a psicóloga encerra a sessão. A mãe o amamenta ao sair, na sala de espera.

Após essa sessão, a mãe retornou contando os efeitos do corte. Diz que passou a ser mais firme com ele, limitar as mamadas. Acreditava que seria traumático para ele, uma vez que pensava que, por não o ter amamentado desde que ele nasceu, deveria estender por mais tempo para compensá-lo ou recompensá-lo. Com o limite imposto, ela conta que ele diz e repete várias vezes: “Apapou a teta mamãe” (acabou a teta mamãe). Nas sessões seguintes a mãe comentou que ele não pediu mais o seio.

Concomitantemente, no tratamento, Raul passou a pegar a mamadeira de brinquedo e dar para a boneca. Junto à psicóloga, prepara a mamadeira, toma, oferece, tomam, dão para a boneca. “Ao brincar . . ., uma criança coloca em cena o seu desejo de vir a ser – põe em cena as próprias representações, as próprias metáforas constituídas a partir das marcas que recebeu do Outro” (Jerusalinsky, 2002, pp. 190-191). Nesse sentido, a constituição das marcas de Raul ao longo desse início do tratamento permitiu a produção de representações passíveis agora de serem trabalhadas nas brincadeiras que ele propõe.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A implicação do trabalho no fazer psicanalítico a partir das intervenções clínicas, nesse caso, produziu efeitos e amarrações simbólico-imaginárias no real do corpo, de modo que foi possível a inscrição das bordas corporais de Raul a partir do discurso do agente do Outro e na autentificação da imagem unificada do corpo. As nomeações de afeto entre corpo e objeto, o enlace pulsional do olhar e da voz, os empréstimos corpóreos e o lugar do intervalo para que o sujeito do inconsciente se manifestasse foram elementos simbólicos na sustentação do processo de constituição psíquica.

Tais elementos, ao longo do processo de início do tratamento, foram expressos por meio da construção do brincar nas sessões com Raul. A experiência traumática vivida pelo menino e seu retorno em sessão possibilitou o fantasiar, da série “fantasiar, repetir e elaborar”. A alteração da série freudiana, “recordar, repetir, elaborar” (Freud, 1914/2017) evoca que a fantasia é um processo psíquico inconsciente que tem relação com o esquecer e o lembrar. O lembrar configura-se por transportar-se para uma experiência passada e o esquecimento das cenas e vivências opera como um bloqueio na tentativa de recobrir essas lembranças.

Retomando a proposta freudiana, Lacan (1964/1998b, p. 52) infere que rememorar seria repetir algo que não cessa de não se inscrever, ou seja, do registro do real; e o ato de invocar uma lembrança deixaria furos no registro simbólico do sujeito. A partir desses excertos, relembra-se do furo aberto no corpo de Raul que demandava novos contornos simbólicos para que fosse constituída a cicatrização.

Além disso, o novo sujeito que Raul descobre a partir do exercício de desaparecimento e reaparecimento através da porta sanfonada, como na experiência do fort-da, anima a experiência jubilatória de encontro com a própria imagem, relativa ao estádio do espelho, pois, como propõe Costa (2019, pp. 48-49): “inscreve um antes e um depois”, que produz efeitos na posição subjetiva. O olhar aqui é borda pulsional que “sustenta e aprisiona” o corpo nos movimentos constituintes de alienação nos quais Raul se faz objeto do desejo do Outro.

O olhar/ser olhado, que sustenta a experiência do estádio do espelho, compõe um movimento de borda do corpo: “esse gozo do/no Outro, plasmado nesta imagem que ao mesmo tempo junta e separa ... Ela faz parte do vislumbre de um enquadre, um recorte, uma janela para o mundo que depois constituirá o fantasma” (Costa, 2019, pp. 48-49).

Lacan define como fenômeno de borda, enquadramento, a janela que se abre e que marca o limite no mundo da fantasia. A referência à janela revela a experiência de encontro da angústia manifestada no Real, “onde a constituição da imagem especular mostra seu limite” (Lacan, 1962-63/2005, p. 121). Da porta sanfonada à “janela para o mundo”. É com a extensão da expressão que podemos concluir que este artigo é como a escrita num espaço em branco no registro de Raul, onde a porta e a janela são bordeadas por significantes restituidores de sua história.

1As narrativas em primeira pessoa do singular, nos excertos clínicos, dizem respeito às intervenções da psicóloga.

2É um conjunto de modificações no modo de falar produzindo uma prosódia particular de comunicação de um adulto que se dirige a um bebê (Laznik, 2013b).

3Refere-se à homofonia lacaniana ao lançar o “Nome do pai”, no francês “nom-du-père”, no qual “nom” refere-se tanto ao nome quanto ao não.

REFERÊNCIAS

Bergès, J., & Balbo, G. (2001). A atualidade das teorias sexuais infantis. CMC. [ Links ]

Catão, I. (2015) O corpo como resposta à invocação da mãe. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde. 4(1), 21-26. [ Links ]

Costa, A. (2004). A transicionalidade na adolescência. In A. Costa et al. (Orgs.). Adolescência e experiências de borda. (pp. 165-193). UFRGS. [ Links ]

Costa, A. A. (2019). Luz e tempo. Ato e repetição. Escuta. [ Links ]

Escobar. M. (2016). Canções de ninar de Auschwitz. Harper Collins Brasil. [ Links ]

Fragelli, I. K. Z, & Petri, R. (2004). A transmissão da falta, a partir da leitura do seminário IV de Lacan. Estilos da Clínica, 9(17), 118-127. http://pepsic.bvsalud.org/pdf/estic/v9n17/v9n17a09.pdfLinks ]

Freud, S. (1996). Sonhos In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 15). Imago. (Trabalho original publicado em 1915-1916). [ Links ]

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. In História de uma neurose infantil: (“O homem dos lobos”), além do princípio do prazer e outros textos [1917-1920] (P. C. Souza, Trad., Vol. 14, pp. 161-239). Companhia das Letras. [ Links ]

Freud, S. (2014). Introdução ao Narcisismo (1914). Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 1(47), 172-193. (L. F. L. Oliveira, M. A. Götze, & S. Schneider, Trads.) [ Links ]

Freud, S. (2016a). As pulsões e seus destinos. In Obras inacabadas de Sigmund Freud (P. H. Tavares, Trad., pp. 13-69). Autêntica. (Trabalho original publicado em 1915). [ Links ]

Freud, S. (2016b). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In Sigmund Freud: obras completas (P. C. Souza Trad., Vol. 6, pp. 13-172). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1905). [ Links ]

Freud, S. (2017). Recordar, repetir e elaborar. In Sigmund Freud: obras completas (P. C. Souza, Trad., Vol. 10, pp. 193-209). Companhia das Letras. (Trabalho original publicado em 1914). [ Links ]

Ganhito, N. C. P. (2002). Dormir nos braços da mãe: a primeira guardiã do sono. Psychê Revista de Psicanálise, 6(10), 65-84. [ Links ]

Jerusalinsky, A. (1999). A educação é terapêutica? In Psicanálise e desenvolvimento infantil. (pp. 161-168). Artes e Ofícios. [ Links ]

Jerusalinsky, J. (2002). Enquanto o futuro não vem: a psicanálise na clínica interdisciplinar com bebês. Ágalma. [ Links ]

Jerusalinsky, A. (2004). Estrutura de um sintoma obsessivo a partir de uma psicose não decidida num menino, dos 3 aos 9 anos. In Seminários III. Pré-Escola Terapêutica Lugar de Vida. [ Links ]

Jerusalinsky, J. (2014). A criação da criança: brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê. Ágalma. [ Links ]

Lacan, J. (1960). Escritos. Zahar. [ Links ]

Lacan, J. (1975). O seminário: livro 22: R. S. I. (Trabalho original publicado em 1974-1975). [ Links ]

Lacan, J. (1995). O seminário, livro 4: a relação de objeto. Zahar. (Trabalho original publicado em 1956-1957). [ Links ]

Lacan, J. (1996). O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Zahar. (Trabalho original publicado em 1953-1954). [ Links ]

Lacan, J. (1998a). O estádio do espelho como formador da função do Eu. In Escritos. Zahar. (Trabalho original publicado em 1949). [ Links ]

Lacan, J. (1998b). O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (2a ed., M. D. Magno, Trad.). Zahar. (Trabalho original publicado em 1964). [ Links ]

Lacan, J. (1998c). Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: “Psicanálise e estrutura de personalidade”. In Escritos. Zahar. [ Links ]

Lacan, J. (1999). O seminário: livro 5: as formações do inconsciente. Zahar. (Trabalho original publicado em 1957-1958). [ Links ]

Lacan, J. (2005). O seminário: livro 10: a Angústia. (V. Ribeiro Trad.). Zahar. (Trabalho original publicado em 1962-1963). [ Links ]

Laznik, M. C. (2013a). A hora e a vez do bebê. Instituto Langage. [ Links ]

Laznik, M. C. (2013b). A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Ágalma. [ Links ]

Pereira, A. S., & Vorcaro, A. M. R. (2018). A constituição do infantil durante a infância do tempo perdido. In A. H. Diehl, & L. H. R. Pereira. Infância e sociedade (pp. 19-42). Perse. [ Links ]

Pereira, A. S., Vorcaro, A. M. R., & Keske-Soares, M. (2018). Do discurso do agente do Outro à voz-apelo do sujeito. Linguagem em (dis)curso, 18(2), 431-447. [ Links ]

Veras, V. A. (2000). Inter-dicção do singular. Caderno de Estudos Linguísticos, 38, 121-129. https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cel/article/view/8636965Links ]

Vorcaro, A. (2017). Um refrão surdo ressoa no corpo. In C. G. Burgareli, & M. Nova. (Org.). Padecer do significante: a questão do sujeito. (pp. 115-147). Editora UFG. [ Links ]

Werner, L. A. (2007). Issues in human auditory development. Journal of Communication Disorder 4(40), 275-283. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1975821/Links ]

Recebido: 20 de Novembro de 2019; Aceito: 03 de Agosto de 2020

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.