1. INTRODUÇÃO
Existem numerosíssimas maneiras de se dividir o ensino psicanalítico de Lacan. Uma delas seria tomá-lo por períodos (Miller, 2020). Parafraseando Miller (2022), denominei o período que antecede os anos 50 de primeiríssimo (toutpremier) ensino de Lacan, que vai de meados de 1930 até inícios dos anos 50, quando ele passa a se apoiar explicitamente no modelo estruturalista; em seguida, o período que é considerado o seu primeiro ensino, que vai desse período até o Seminário 19 (1971-1972); posteriormente, seu último ensino, que vai até o Seminário 23, e, por fim, o que Miller (2020) chama de o ultimíssimo Lacan, constituído pelos Seminários de números 24 e 25.
Nesse primeiríssimo ensino, o que predomina é o imaginário. Lacan aponta essa ideia na lição de 14 de janeiro de 1975, em seu Seminário 22: R, S, I., ao afirmar que, se Freud não tinha ideia do simbólico, do imaginário e do real (tendo, porém, uma certa desconfiança de sua existência), ele, Lacan, pôde extrair esses registros e apresentá-los como uma invenção propriamente sua. Diz, ainda, que começou pelo imaginário:
FREUD não tinha a ideia do Simbólico do Imaginário e do Real, mas, mesmo assim, desconfiava disso. O fato de ter conseguido extrair para vocês, sem dúvida com tempo e paciência, que eu comecei com o Imaginário, e que depois disso devo ter mastigado bastante essa história Simbólica — com toda essa referência, essa referência linguística em que, na verdade, não encontrei tudo o que me convinha bem. E então, esse famoso Real que acabo trazendo para vocês na própria forma do nó (Lacan, 1974-1975/2010, p. 23, grifo e trad. do autor).
Com essa afirmação, podemos considerar a existência de outro modelo de periodização que, emparelhado à divisão acima apontada, considera três momentos similares aos anéis do nó borromeano imaginário, simbólico e real. Aliás, poderíamos até nos questionar se o ultimíssimo ensino não poderia ser pensado apontando para um quarto anel: o tempo, sendo todos eles amarrados pelo sinthoma, mas não há espaço neste artigo para tecer maiores considerações sobre isso. Aqui, a questão a ser trabalhada é se a afirmação de Lacan acima colocada nos autoriza a afirmar que, em seu primeiríssimo ensino, ele teria considerado o inconsciente como imaginário, ou, em outros termos, e partindo da proposição de que o inconsciente segundo a concepção de Freud é da ordem da representação imaginária, teríamos, em termos diacrônicos, um primeiríssimo momento no qual Lacan considerou o inconsciente como imaginário.
2. O INCONSCIENTE COMO REPRESENTAÇÃO IMAGINÁRIA EM FREUD
A concepção de Freud (1896/1950a, p. 186) relativa ao inconsciente, tal como apresentada no Brief 52 — Carta 52, é a de que ele é constituído por traços (Spur), que talvez correspondam a lembranças (recordações) conceituais ( Begriffserinnerungen). Tais lembranças constituem a segunda transcrição. Nessa carta, Freud aponta que, para tornar os traços inconscientes (Ub) (as lembranças conceituais Ics) pré-conscientes, é necessária a tradução da fase anterior para a seguinte. Logo, para que um traço inconsciente se torne pré-consciente, é necessário que ele se vincule à terceira transcrição constituída por representações de palavras (Wortvorstellungen). Um bom exemplo disso pode ser visto no “Entwurf einer Psychologie” (Projeto para uma psicologia). Nesse projeto, Freud (1895/1950b, p. 432) relata o caso de uma paciente de nome Emma, que, ao entrar numa loja aos 12 anos, associa o riso dos vendedores a um acontecimento ocorrido quatro anos antes. A lembrança dessa cena não se tornou pré-consciente, porque a palavra adequada para isso, “sedução”, não pôde ser associada a tal cena, certamente por motivos morais. Como a associação não foi efetuada, o resultado foi a falsa ligação com a palavra “loja”, motivando um incessante processo fóbico. A partir daí, Emma é dominada pela compulsão de não entrar sozinha em lojas.
Se num primeiro momento Freud acreditava na ocorrência real de uma sedução relativa ao sintoma histérico, a partir de certo ponto, ele passa a duvidar dessa hipótese, chegando a negá-la. Isso pode ser visto na Carta 69, quando afirma a seu amigo Fliess que não acredita mais em sua neurótica, isto é, em sua teoria da neurose, leia-se teoria da sedução (Freud, 1897/1950c, p. 229). Assim, o traço da lembrança conceitual não mais estará vinculado a uma lembrança do campo da realidade (leia-se uma sedução real), mas será substituído por uma fantasia de sedução. Enquanto mantiver o esquema da Carta 52, o inconsciente, para Freud, passará a ser constituído por lembranças, agora não mais da ordem da realidade, mas da ordem da fantasia, da representação.
Se em nossas pesquisas não encontramos maiores referências ao que seriam “lembranças conceituais”, vamos encontrar a palavra “representação” (Wortvorstellung), empregada largamente por ele, seja, conforme aponta Hans (1996, p. 401), no sentido de uma ideia inconsciente, de uma imagem, uma concepção, uma expressão, uma apresentação. É nesse mesmo sentido que Laplanche e Pontalis (1992) também caminham: “A representação seria aquilo que do objeto vem inscrever-se nos ‘sistemas mnésicos’”. No Entwurf (Projeto para uma psicologia científica), Freud diz que, na histeria, os traços mnésicos ( Erinnerungsspuren) recalcados podem ser facilmente encontrados e trazidos à consciência, embora isso possa se constituir como uma surpresa.
Pode-se pensar que a (representação) recalcada (verdrängte orstellung) foi realmente esquecida. Não, um traço de memória (Erinnerungsspur) de B em psy permaneceu. B é um traço de memória como outro, não desapareceu, mas, como geralmente B é um complexo de investimento (Besetzungskomplex), é extremamente difícil (eliminar) a resistência ao se trabalhar com B (Freud, 1895/1950a, p. 430, trad. do autor).
É interessante apontar que a representação, embora muito próxima, não é o complexo dos traços mnésicos; ela o reinveste e reaviva, tendo já sido aproximada muitas vezes, conforme apontam Laplanche e Pontalis (1992, p. 449), da noção linguística de significante. Lacan, por exemplo, no Seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação, brincando (jouant) com etimologias, aponta a organização significante das Vorstellung(en): “- aqui eu desmembro articulando assim - essas Vorstellung(en) têm uma organização significante” (Lacan, 2022/1958, trad. do autor).
Parecendo não muito concordar com esse tipo de compreensão do termo, Laplanche e Pontalis (1992, p. 449) apontam a existência em Freud de dois tipos de representação: a representação de coisa (Sachvorstellung)1 e a representação de palavra (Wortvorstellung). “As representações de coisa, que caracterizam o sistema inconsciente, estão em relação mais imediata com a coisa: na ‘alucinação primitiva’ a representação de coisa seria considerada pela criança como equivalente do objeto percebido, e investido na sua ausência”. Já a representação de palavra, Freud a associa à imagem verbal. Freud, em Das Unbewusst (O inconsciente), aponta a diferença entre as duas expressões, de forma muito semelhante à colocada por ele na Carta 52:
Seremos obrigados a modificar a hipótese, acrescentando que o investimento das representações de objeto é mantido. O que nos permitiu chamar de representação consciente do objeto agora se decompõe para nós na representação de palavras e na representação de coisa, a última consiste no investimento, não na memória factual das imagens, mas nos traços de memória mais distantes, delas derivados. Agora, sabemos a distinção entre uma representação consciente de uma inconsciente. As duas não são, como pensávamos, diferentes escritas do mesmo conteúdo em diferentes lugares psíquicos, nem diferentes estados funcionais de investimento no mesmo lugar, mas a representação consciente compreende a representação das coisas mais a palavra associada à representação de coisa, a inconsciente é a representação apenas de coisa. O sistema Ics contém as ocupações materiais dos objetos, os primeiros e reais investimentos de objetos; o sistema Pcs ocorre quando a representação de uma coisa é super investida pela conexão com a representação de palavras que lhe corresponde. Tal superinvestida, podemos supor, é o que provoca uma organização psíquica superior, possibilitando a substituição do processo primário pelo processo secundário predominante no Pcs (Freud, 1915/1982b, p. 159, trad. do autor)2.
A associação entre uma memória conceitual e uma representação não é feita apenas por Freud, sendo claramente apontada por Breuer. Podemos ver isso na parte III Theoretisches (Considerações teóricas) dos Studien über Hysterie (Estudos sobre a histeria), quando Breuer, ao discutir a alucinação, utiliza a expressão “imagem mnésica” ( Erinnerungsbild), associando-a à representação. Bem no início, ele aponta que utilizará a linguagem da psicologia em detrimento da linguagem médica, pois não falará de “excitação cortical”, mas de “representação”, associando-a à imagem mental:
Pois, enquanto as representações são continuamente objetos de nossa experiência e são bem conhecidas por nós em todas as suas nuances, a “excitação cortical” é para nós mais um postulado, um objeto de cognição futura e esperada (Breuer, 1895/2022, p. 161, trad. do autor).
Um pouco adiante, ele retoma as mesmas considerações, e diz que
a representação, a imagem mnésica pura e simples, sem qualquer excitação do aparelho perceptivo, mesmo no auge de sua vividez e intensidade, jamais consegue atingir o caráter da existência objetiva que constitui a alucinação (Breuer, 1895/2022, p. 164, trad. do autor).
Já Freud, nessa mesma obra, ao construir o caso da Fraülein Elisabeth von R., também utiliza o termo representação para apontar o mecanismo dos fenômenos histéricos. Para ele, Elisabeth teve um conflito entre uma representação erótica relacionada a um jovem com o qual saíra, e um afeto de culpa por ter saído com ele justamente quando do agravamento do estado de saúde de seu pai. Para Freud, esse conflito provocou uma situação de incompatibilidade: a representação erótica foi recalcada para longe da associação (com a palavra adequada), e o afeto ligado a essa representação foi convertido em dor física, fazendo-a “intensificar ou reviver uma dor física que estivera presente simultaneamente ou pouco antes”.
A palavra “representação” também pode ser encontrada em um dos primeiros escritos psicológicos de Freud, a sua monografia sobre as afasias. Ali, ele afirma que a palavra é uma representação complexa que corresponde a um processo associativo no qual concorrem elementos de origem visual, acústica e cinestésica (Freud, 1891/2013, p. 102). Uma palavra, como substantivo, entretanto, somente conquista seu significado por meio da conexão com a representação de objeto (Objektvorstellung). Freud diz ainda que a representação de palavra está ligada, por suas imagens sonoras, à representação de objeto e que, na afasia de segunda ordem, a “afasia simbólica”, o que é perturbada é a associação entre a representação de palavra e a representação do objeto. Mais tarde, quando o texto O inconsciente foi publicado, vimos que Freud (1915/1982b, p. 159) mantém a expressão “representação de palavra”, passa a usar “representação de coisa”, e não de objeto.
A questão que permanece é: qual seria o estatuto dessa representação de objeto? Teria tal representação uma dimensão imaginária? Lacan (1964/1979, p. 29), em seu Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, faz uma referência a essa concepção de Freud e afirma que o inconsciente não pode ser da ordem da criação imaginante (leia-se “imagens”, “imaginário”). Ele não é o lugar das “divindades da noite” (divinités de la nuit), diz Lacan, embora reconheça que “isso não deixa totalmente de ter relação com o lugar para onde se volta o olhar de Freud”. Com isso, Lacan está apontando que uma das concepções de Freud relativa ao inconsciente é a de que ele não pode ser considerado como da ordem da criação imaginante. Ou, em termos lacanianos, da ordem do Imaginário, embora seja para ali que “se volta o olhar de Freud”. Freud chega, inclusive, a citar, não exatamente as “divindades da noite”, como aponta Lacan, mas, em seu texto Bemerkungen über die Übertragungsliebe: Weitere Ratschläge zur Technik der Psychoanalyse III (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise: observações sobre o amor transferencial III), utiliza uma expressão similar que também parece ter uma conotação imaginária: einen Geist aus der Unterwelt (um espírito do inferno) (Freud, 1982a, p. 4). A ideia de Freud é a de que não se deve forçar o paciente a suprimir, renunciar ou sublimar as suas pulsões quando da transferência erótica. Fazer isso equivale a evocar o espírito dos infernos e mandá-lo de volta sem lhe ter feito nem ao menos uma pergunta. Teríamos, com isso, apenas trazido o recalcado (Verdrängt) à consciência para recalcá-lo mais uma vez.
Além do Seminário, livro 11, em Propos sur l’hysterie (Palavras sobre a histeria),Lacan (1977/2019b) se coloca contra essa concepção de um inconsciente representação, dizendo:
Esse inconsciente, sobre o qual Freud não entendeu absolutamente nada, são representações inconscientes. O que pode ser isso, representações inconscientes? Há aqui uma contradição em termos: unbewusste Vorstellungen. Tentei explicar isso, fomentá-lo para instituí-lo no nível do simbólico. Não tem nada a ver com representações, com esse simbolismo, são palavras e, no limite, podemos conceber que as palavras são inconscientes. Dizemos apenas isso: em geral, eles falam sem saber absolutamente o que estão dizendo. É por isso que o inconsciente não tem corpo, mas palavras (Lacan, 1977/2019 b).
Um pouco depois, nesse mesmo texto, Lacan afirma que: “A ideia de representação inconsciente é uma loucura; agora, é assim que Freud o aborda (o inconsciente). Há vestígios disso muito tarde em seus escritos” (Lacan, 1977/2019b).
Esse tema foi retomado posteriormente por Freud no texto Der witz und seine Beziehung zum Unbewussten (Os chistes e suas relações com o inconsciente), quando ele analisa os jogos de palavras. No grupo dos chistes inocentes, Freud (1982c, p. 141) aponta a importância do som da palavra em detrimento do seu sentido. Som como representação acústica da palavra (akustische Wortvorstellung), como que tomando o lugar da sua significação “por meio da relação com as representações das coisas” (Freud, 1905/1982c, p. 113, trad. do autor). Se lermos as passagens acima à luz da Carta 52, podemos afirmar que o conteúdo do inconsciente em diversos momentos da obra de Freud é de caráter imaginário. Lembre-se que, já aqui, Freud utiliza não mais a expressão “representação de objeto”, mas “representação de coisa” ou das coisas.
Esse caráter imaginário do inconsciente em Freud também pode ser visto em diversos outros momentos de sua obra. Podemos apontar, no texto Das Unbewusst (O inconsciente), uma passagem na qual ele compara o conteúdo do inconsciente a uma população aborígine (Urbenbevölkerung) (Freud, 1915/1982b, p. 154), concepção nitidamente imaginária. Apenas para dar mais um exemplo, em Die Verdrängung (O Recalque), o autor diz que o representante recalcado (Verdrängt) da pulsão deve ser entendido como uma representação ou um grupo de representações das pulsões (Freud, 1915/1982d, p. 109).
É interessante notar o uso que Freud nessa época faz das ligações entre a “representação de palavra” e a “representação de coisa”. Embora não seja o objetivo deste texto, paralelos importantes podem ser estabelecidos entre essas proposições de Freud e as afirmações de Saussure, em seu Curso de linguística geral (Saussure, 1916/2006, p. 80), quando ele opõe o conceito (significado) à sua imagem acústica (Significante). Também cabe apontar que, mais ou menos à época dos cursos de Saussure, Freud, em seus textos metapsicológicos, já havia substituído o termo “conceito” por “representação”.
Acompanhando Laplanche e Pontalis (1992, p. 450), consideramos que a representação de coisa é de caráter essencialmente visual, enquanto a representação que deriva da palavra é essencialmente acústica. Aliás, Freud afirma, em consonância com o que tinha apontado na Carta 52, que o que ele denomina “representação consciente do objeto” pode ser dividido em “representação de palavra” e na “representação de coisa”. E acrescenta: “a ‘representação de coisa’ consiste no investimento (Besetzung), se não das imagens diretas da memória da coisa (Sacherinnerungsbilder), pelo menos de traços de memória (Erinnerungspuren) mais remotos derivados delas” (Freud, 1915/1982b, p. 159). A palavra usada pelo autor aqui é “imagem” (Bild), o que dá a essas representações o seu inequívoco caráter imaginário. Freud vai além. Afirma que “a apresentação consciente abrange a apresentação da coisa mais a apresentação da palavra que pertence a ela, ao passo que a apresentação inconsciente é a apresentação da coisa apenas” (Freud, 1915/1982b, p. 160). Afirma ainda que o sistema inconsciente contém os investimentos das primeiras representações dos objetos e que o sistema pré-consciente consiste na ligação entre essas representações de coisa e as representações de palavras que lhe correspondem. Já o recalque é considerado por ele como a impossibilidade de colocar em palavras a representação da coisa inconsciente. Quando isso acontece, essa representação permanecerá (ou se tornará) inconsciente. Nesses textos, os conteúdos do inconsciente têm um inequívoco caráter imaginário.
3. UM INCONSCIENTE IMAGINÁRIO EM LACAN?
Em seu primeiríssimo ensino, teria Jacques Lacan considerado o inconsciente como imaginário? Isto é, nos primórdios de seu contato com a psicanálise, teria considerado a hipótese de um inconsciente pertinente ao campo imaginário?
Para responder a essa questão, trabalharemos alguns dos textos iniciais da sua vasta obra.
Na sua tese de doutorado, Lacan (1932/1976) define o desejo como um certo ciclo de “comportamento” caracterizado por certas oscilações orgânicas gerais, por uma agitação motriz e por fantasias cuja intencionalidade objetiva seria mais ou menos adequada. Nesse momento, ele afirma que a satisfação do desejo se dá quando uma experiência vital, seja ela ativa ou sofrida, determina o equilíbrio afetivo, o descanso motor, e a dissipação das fantasias representativas. O que nos interessa vem logo a seguir: “Pouco importa que as fantasias se tenham tornado conformes ou não à imagem desse objeto, ou, dito de outro modo, que o desejo tenha sido inconsciente ou não” (Lacan, 1932/1976, p. 282). Foi essa, continua, a chave compreensiva que ele aplicou no caso Aimée.
Para ele, não importava se a fantasia estava em conformidade ou não com a imagem, ou se era inconsciente ou não. O que nos interessa apontar é uma possível relação da fantasia representativa inconsciente (ou não) com uma imagem. Lacan, porém, parece não explorar muito tais comparações, dirigindo a sua atenção para os termos “imago” e “complexo”.
O conceito de imago pode ser encontrado no Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1992). Ali, imago é definida como um “Protótipo inconsciente de personagens que orienta seletivamente a forma como o sujeito apreende o outro; é elaborado a partir das primeiras relações intersubjetivas reais e fantasísticas com o meio familiar” (Laplanche e Pontalis, 1992, p. 234). Os autores afirmam que o conceito foi introduzido por Jung, que descreve diversos tipos de imago: a imago materna, paterna e fraterna. Em seu texto Para além do Princípio de realidade,Lacan (1936/1998h, p. 93) aponta a existência de outras imagos nas quais se podem reconhecer personagens encontrados tanto no folclore quanto nos contos infantis e no teatro para adultos ou crianças, entre os quais “a ogra, o bicho-papão, o avarento, o pai nobre, e mesmo a figura do Arlequim”. A esses Jacques-Alain Miller (1987, p. 63) acrescenta o Pantaleão, o Polichinelo e a Colombina. Para Freud, diz Miller, o inconsciente aparece como um repertório dessa Commedia dell’arte, em que podem ser reproduzidas todas as situações da existência. Nesse sentido, a transferência seria uma ilusão imaginária.
Nos primeiríssimos textos de Lacan, o termo imago vai aparecer com muita frequência, principalmente vinculado, não exatamente ao inconsciente, mas à constituição do eu (moi) e ao complexo, isto é, às relações da criança com o seu meio familiar. Para Laplanche e Pontalis (1992), a imago muitas vezes é definida como “representação inconsciente”, mas não deve ser entendida como uma imagem que seria o reflexo do real, mas mais um clichê, um estereótipo. “A imago de um pai terrível pode muito bem corresponder a um pai real apagado” (Laplanche e Pontalis, 1992, p. 235).
Já em Os complexos familiares,Lacan (1938/1985, p. 19) aponta que “complexo”, na condição de fator concreto da psicologia familiar, pode ser compreendido não como instinto, mas como aquilo que “liga sob uma forma fixada um conjunto de reações que pode interessar a todas as funções orgânicas desde a emoção até a conduta adaptada ao objeto”. Ele próprio reconhece, entretanto, que essa definição atinge um sentido muito amplo, mas que, em relação ao sentido que Freud lhe deu, o complexo pode ser considerado essencialmente como inconsciente e como causa de efeitos psíquicos não dirigidos pela consciência, tais como os atos falhos, os sonhos e os sintomas. Lacan aponta ainda que esses efeitos são tão contingentes e diferenciados entre si que o força a admitir a existência de um elemento que os fundamenta, a imago, que, na condição de “entidade paradoxal”, pode ser tida como uma representação inconsciente. Em relação à imago, Lacan aponta o seu caráter de representação, mas não esclarece o que vem a ser representação. A unidade do complexo não deixa de ter efeitos e “Esses efeitos têm caracteres tão distintos e contingentes que forçam a se admitir como elemento fundamental do complexo esta entidade paradoxal: uma representação inconsciente designada pelo nome de imago” (Lacan 1938/1985, p. 21).
Tanto o complexo quanto a imago são apontados por Lacan como elementos revolucionários na psicologia, sendo a família o lugar no qual eles se apresentam como mais estáveis e mais típicos, desempenhando ali o papel de organizadores. Porém, não se trata aqui de trabalhar os complexos mais importantes, o complexo do desmame, o complexo de intrusão e o complexo de Édipo, mas de verificar se o inconsciente tem, nessa época e para ele, um caráter imaginário. Ainda em seu texto sobre os complexos familiares, temos a afirmação de que há uma representação inconsciente e que essa representação é designada pelo nome imago. Assim, podemos concluir que, pelo menos no que se refere ao inconsciente, nele podemos encontrar, de alguma maneira, representações denominadas imagos. Seriam essas representações (imagos) da ordem das imagens, imaginárias?
Em relação ao complexo do desmame, Lacan considera que, neste estádio, a imago do seio materno proveniente da relação da nutriente com o infans é constituída pelas sensações próprias aos primeiros meses de vida, ocorrendo antes mesmo do advento da forma do objeto. Isso o leva a propor que esses conteúdos não podem ser representados na consciência. Se cotejarmos essa passagem com a Carta 52 de Freud, podemos ver algumas considerações semelhantes. Para Freud, o primeiro registro do aparelho psíquico é constituído por sinais, signos de percepção (Wahrnehmungzeichen) associados por simultaneidade, praticamente incapazes de se tornarem conscientes. Mas, seriam eles imaginários? Lacan diz que, muito cedo, certas sensações exteroceptivas se isolam, de tempos em tempos, em unidades de percepção relativas ao rosto humano, à máscara humana, à presença da mãe como função materna. Nesse momento, Lacan parece apontar a presença de imagens nas sensações exteroceptivas.
Ainda não há a imagem do eu, mas sensações interoceptivas produtoras de mal-estares primordiais relativos à perda das condições de equilíbrio da vida intrauterina. É esse, a experiência psicanalítica o confirma, o fundamento último da imago do seio materno presente nas fantasias do sonho ou nas obsessões da vigília, sob a forma de imagens do habitat intrauterino, “que domina toda a vida do homem” (Lacan, 1938/1985, p. 26).
O segundo complexo apontado por Lacan é o de intrusão. Em português, “intrusão” significa o ato de forçar a entrada em algum lugar sem ser convidado, ou sem ter o direito a isso. É o que uma criança sente quando do nascimento de um irmão, considerado um intruso na relação entre ela e a mãe. É na vigência desse complexo que Lacan vai situar a identificação especular, de valor inteiramente imaginário. Na idade adulta, a imago do irmão, como objeto eletivo das exigências da libido, pode ser reconhecida nos interesses pela imagem do rival, seja nos afetos de ódio ou nos interesses da paixão.
A identificação com o irmão ou com a imagem especular, tal como Lacan havia apresentado em 1936 no XIV Congresso Internacional de Psicanálise de Marienbad, permitiu-lhe apontar tanto a constituição do eu (moi, Ich) como a circunscrição no campo do isso (Es) de uma unidade imaginária proveniente do outro. Ele vai considerar esse momento como um estádio ou fase que corresponde, na criança, ao declínio do desmame e que é caracterizado pelo reconhecimento pelo sujeito de sua imagem no espelho. Essa imagem especular permite a percepção da forma do semelhante como unidade mental constitutiva da imago do duplo. Estrutura arcaica, desvelada na análise do inconsciente, diz Lacan (1938/1985, p. 37), e que aponta a existência de fantasias de desmembramento, entre as quais, as fantasias de castração, que ali ganham um valor proeminente. Seria essa imago do duplo inconsciente?
No terceiro complexo, denominado de “Édipo”, a questão da repressão é apontada por Lacan na relação do pai com o filho. Essa repressão se apresenta por meio de um movimento duplo: agressividade contra o pai rival que se opõe aos desejos sexuais da criança e um temor secundário apoiado sobre receios de retaliação. O que sustenta esses dois movimentos é uma fantasia ( fantasme) de castração: a mutilação do membro viril. Essa fantasia encontra-se precedida de toda uma série de “fantasias de despedaçamento do corpo que vão, regressivamente, da deslocação e do desmembramento, passam pela eviração (perda da masculinidade, castração), pela evisceração, e chegam à devoração e ao sepultamento” (Lacan, 1938/1985, p. 50). Lacan aponta que as fantasias encontradas nos sonhos permitem reconhecer o objeto narcísico precedido por formas imaginárias vinculadas à constituição do corpo próprio.
Ora, vemos aqui Lacan direcionando o imaginário para a constituição de um eu narcísico ultrapassado pelo complexo de Édipo. Seria inconsciente essa constituição imaginária do eu? Lacan não vai por esse caminho, preferindo optar pelo trabalho com o conceito de imago: na sublimação da realidade, temos, como fatores determinantes, o complexo de Édipo e a identificação do sujeito com a imago do progenitor do mesmo sexo. Essa identificação com a imago do progenitor do mesmo sexo não se distingue da identificação narcísica. A imago do progenitor, mesmo que não coincidindo exatamente com a narcísica especular, para se impor ao sujeito, “se justapõe apenas ao eu (moi) nas duas exclusões do inconsciente e do ideal” (Lacan, 1938/1985, p. 52).
O que é inconsciente é a inibição que a função parental exerce sobre a função sexual do sujeito. Pelas determinações sociais da família patriarcal, a imago do pai termina concentrando em si tanto a função de repressão como a de sublimação. São essas as forças mais decisivas em seus efeitos no psiquismo da criança.
Uma década depois do texto Os complexos familiares,Lacan (1949/1998e) retoma o tema do espelho que tentara apresentar em Marienbad, porém na sua nova formulação, que leva o título de O estádio do espelho como formador da função do eu (Je), tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. Nesse texto, a palavra “inconsciente” não se encontra presente; por outro lado, Lacan aponta que o eu (moi) é o resultado de uma transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem, nomeando tal imagem pelo antigo termo imago (1949/1998e, p. 97). Para as imagos, continua Lacan, a imagem especular parece ser o limiar do mundo visível (Lacan, 1949/1998e, p. 97).
Segundo textos posteriores de Lacan, há uma subjetividade inconsciente que faz falar. Há um (Eu) como sujeito da enunciação, mas que não é o eu (moi) da imago especular. No texto do estádio do espelho, Lacan está mais interessado em apontar a constituição do eu do que em discutir uma possível natureza do conteúdo inconsciente. Menciona uma experiência do infans, entre os seis e os dezoito meses, na qual ele reconhece a sua imagem no espelho. Esse reconhecimento deve ser compreendido como uma identificação com a imago do semelhante, isto é, como uma “transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem - cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago” (1949/1998e, p. 97). É interessante notar também que Lacan ainda não propôs o seu “esquema ótico” para a compreensão da constituição do sujeito, tal como o fará em 1961 com a “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache” (Lacan, 1961/1998d, p. 680).
Lacan (1949/1998e) prossegue dizendo que, na impotência motora na qual se encontra, é com júbilo que o infans assume a sua imagem. Tal júbilo manifesta a matriz simbólica onde “o (Eu) se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito” (Lacan, 1949/1998e, p. 97). Já podemos inferir aqui o que posteriormente será dominante: a influência do estruturalismo.
Seis anos mais tarde, Lacan (1955/1998f, p. 58) apresenta o seu famoso “esquema L”, que pode auxiliar a compreender a passagem acima citada. No eixo a’ ----- a, que é o eixo imaginário, temos a constituição do eu por identificação com a imagem especular a (outro). No eixo A ---- S, temos a matriz simbólica na qual Lacan escreve o inconsciente. Há, portanto, dois eixos: o imaginário, no qual toda a problemática da imago está envolvida, e o eixo simbólico, no qual o inconsciente se encontra. Portanto, nesse texto de 1949, retomado em 1955, o inconsciente não é da ordem imaginária, mas situa-se no campo da linguagem. É a linguagem que vai restituir ao infans a sua função de sujeito, de (Eu). São, pois, duas ordens distintas, a imaginária e a simbólica: o eu no terreno das identificações imaginárias na condição de forma total do corpo (eixo imaginário do campo das imagos, no qual a imagem especular parece ser o limiar do mundo visível) e o inconsciente como pertinente ao eixo simbólico. No eixo imaginário, a forma (Gestalt) do outro é capaz de efeitos formadores sobre o eu, sendo, por isso, um caso particular da função da imago; no eixo simbólico, a presença da palavra (A) é o que fornece a possibilidade da constituição de uma estrutura inconsciente. Parece claro, no texto sobre o estádio do espelho e no esquema L, que neles o inconsciente não pode ser tomado sob a ordem imaginária. Essas considerações, no entanto, datam de 1955, quando o psicanalista retomava alguns pontos de seu texto de 1949.
Em um texto contemporâneo à apresentação em Marienbad, o já citado Para além do Princípio de realidade,Lacan (1936/1998h) se propõe a fazer um estudo detalhado dos problemas que envolvem o conceito de “imagem”. Para ele, como “função de informação”, a imagem pode ser tomada como uma acepção que visa, seja vulgar ou arcaica, à marca de uma impressão ou à organização de uma ideia. No associacionismo, criticado por Lacan, ela é considerada uma sensação “enfraquecida”, um eco e uma sombra da sensação, sendo, pois, identificada com o seu traço, o que nos remete aos sinais de percepção da Carta 52 de Freud.
Irônico, Lacan (1936/1998h, p. 82) compara tal concepção do espírito (1° registro da percepção para Freud) a uma espécie de colônia de pólipos, um “polipeiro de imagens”. “Absurdo essencial”, diz, que empobrece, em termos intelectuais, o que seria a imagem. Anos mais tarde, em vez de uma colônia de pólipos de caráter imaginário, ele utilizará uma metáfora envolvendo abelhas para falar desses traços, “um enxame que zumbe”, um essain de significantes S1: “Há Um? Um-entre-outros” (Lacan, 1972-73/1982, p. 196), campo propriamente simbólico. Ainda em Para além do princípio de realidade,Lacan (1936/1998h, p. 87) toma “imagem” mais no sentido de imago, sendo ela dirigida primeiro ao analista, ouvinte realmente presente; depois, a algum outro imaginário, “ao fantasma da lembrança, à testemunha da solidão, à estátua do dever, ao mensageiro do destino”. Imagens essas que povoam o eu do sujeito. Lacan dá aqui preferência ao eu e não ao sujeito, ao eu dos complexos familiares, ao imaginário, e não ao inconsciente, eixo simbólico. Retomando a imago freudiana, Lacan aponta que esse é o campo das identificações, sejam elas especulares ou parentais.
Já no relatório de abertura das jornadas psiquiátricas de Bonneval, publicado com o título “Formulações sobre a causalidade psíquica” Lacan (1946/1998b), após uma longa exposição sobre a psicogênese das psicoses, retoma o tema da imago a propósito dos efeitos psíquicos do modo imaginário. Nesse texto, Lacan aponta a importância da função das identificações ideais da imago na história do sujeito que se desenvolve por meio dessas identificações. Não se trata aqui de uma formulação sobre o inconsciente, mas de como o eixo imaginário vai retomar as imagos dos complexos, centrando-se a argumentação principalmente no complexo de intrusão, embora o psicanalista não o cite nominalmente no texto, preferindo trabalhar o estádio do espelho e o complexo de Édipo.
Preocupado com a constituição do sujeito, Lacan (1946/1998b, p. 181) aponta a importância do “eu Ideal” freudiano (Ideal ich) como forma ideal que não se separa do eu tomado como um sistema central da estrutura imaginária do sujeito. O eu, portanto, não vai ser considerado por ele uma “síntese das funções do organismo”, como propõe Henri Ey (Lacan, 1946/1998b, p. 179) (ilusão organicista de uma metapsicologia realista), mas constituído pela relação especular da fase do espelho. Essa fase primordial é considerada por Lacan como a “verdadeira captação da imagem do outro” (Lacan, 1946/1998b, p. 182). Esse tema foi retomado em 1949, no texto sobre o estádio do espelho.
Ainda em “Formulações sobre a causalidade psíquica”, Lacan marca o “ponto essencial”. Afirma que “o primeiro efeito que aparece da imago no ser humano é um efeito de alienação do sujeito” (Lacan, 1946/1998b, p. 182). Evocando as especulações de Hegel sobre a dialética do reconhecimento da Fenomenologia do espírito, notadamente a relação senhorio- escravidão, esclarece que é no outro que o sujeito se identifica, apontando ali o desejo de reconhecimento, no qual se constitui sob o signo da mediação: “ele é desejo de fazer o seu próprio desejo reconhecido” (Lacan, 1946/1998b, p. 183).
Quanto às relações da imago com o inconsciente, Lacan (1946/1998b, p. 183) se pergunta: qual a função da imago? Terá ela por função instaurar no ser humano uma relação fundamental de sua realidade com o seu organismo? Responde apontando a psicanálise como a experiência que mais contribuiu para apontar tal relação. A repetição será colocada como efeito do complexo por meio da noção “inerte e impensável” de inconsciente. Não é feita, portanto, uma relação direta do inconsciente com a imago, mas com o complexo constitutivo da subjetividade, embora haja, sim, uma relação direta do complexo com a imago, como já visto.
A seguir, Lacan (1946/1998b, p. 183) aponta que os “fenômenos elementares” da psicose paranoica o levaram a completar o catálogo das estruturas, explicitadas por Freud como formuladas de modo imaginário, passando a incluir, entre outras, o simbolismo e a condensação. Ele não chega a afirmar, mas parece indicar outra concepção do aparelho psíquico, não mais baseada nas tópicas de Freud, mas naquilo a que se dedicará a partir de 1953, tal como detalhado em “O simbólico, o imaginário e o real” (Lacan, 1953/2019a). A gênese psicológica do homem poderá, a partir de então, ter como constructo teórico explicativo o simbólico, o imaginário e o real, instâncias que serão plenamente desenvolvidas em seu último ensino. Neste texto que estamos trabalhando, “Formulações”, porém, o imaginário terá como elemento central o estádio do espelho (Lacan (1946/1998b, p. 187). Já o uso simbólico e o uso instrumental no homem aparecem desde as primeiras fases do desenvolvimento da criança, na fase do espelho, como que estabelecendo as relações imaginárias fundamentais. E aqui não cabe uma concepção de um inconsciente imaginário, mas da constituição de um eu imaginário: i(a) --- m, tal como será mais tarde apresentado no grafo do desejo (Lacan 1960/1998g, p. 831). A assunção triunfante da criança frente ao espelho, com a mímica jubilatória que a acompanha, pode ser considerada um momento fundamental da constituição da imago da identificação imaginária narcísica constitutiva do eu.
Como uma espécie de revisão de todo o período anterior ao Relatório do Congresso em Roma de 1953 (Lacan, 1956/1998c), considerado neste texto como da ordem de seu primeiríssimo ensino, Lacan (1966/1998a) escreve De nossos antecedentes. Ali, ele parece reconhecer que tomar o inconsciente como ordem simbólica é mérito seu. Diz que alguns textos “terão antecipado nossa inserção do inconsciente na linguagem” (Lacan, 1966/1998a, p. 75), o inconsciente (simbólico) servindo de suporte às imagos imaginárias. Em seu texto “Psicoterapia e psicanálise”, Miller (1997, p. 14) retoma essa ideia e afirma que “a relação imaginária só opera enquadrada por uma articulação simbólica”. Enquadradas, portanto, no inconsciente estruturado como uma linguagem, temos as imagos inconscientes imaginárias.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na lição de 14 de janeiro de 1975, Lacan (1975/2010) afirma que começou o seu ensino pelo imaginário. Aqui, apontamos a importância entre muitas idas e vindas, das imagos no que ele considerava seu ensino: “A bem da verdade, nenhum ensino, afora o apressado de rotina, veio à luz antes que, em 1951, inaugurássemos o nosso a título privado” (Lacan, 1966/1998a, p. 76). Essas imagos imaginárias, narcísica e parental, constituintes do eu do sujeito, que não são da ordem das lembranças conceituais ou representações ao estilo de Freud, serão suportadas posteriormente pelo inconsciente simbólico estruturado como uma linguagem de seu período estruturalista.
Em 1966, quando da publicação de seus Escritos, Lacan chega mesmo a se questionar se poderia ser recriminado por não ter publicado numa coletânea os textos que compõem o que chamei de seu primeiríssimo ensino. Isso porque tais textos como que anteciparam a proposição do “inconsciente estruturado como linguagem”, e por eles terem se dispersado e sido pouco aproveitados durante muito tempo (Lacan, 1998a, p. 75). Porém, como que se justificando, afirma que, nessa época, não pôde fazer mais do que preparar a sua plateia, prepará-la para o retorno a Freud.
Nos anos que antecederam a proposição formal do inconsciente simbólico, tal concepção já se encontrava presente, e não havia, propriamente falando, a ideia de um inconsciente imaginário, mas a teorização da existência de imagos imaginárias que seriam suportadas pelo inconsciente simbólico.
É possível, pois, afirmar que, se, em Freud, sua concepção de inconsciente gira em torno do conceito de representação, portanto, de um inconsciente mais da ordem imaginária, no primeiríssimo Lacan o que ele propõe são imagos na constituição do sujeito e na ainda não muito clara concepção de um inconsciente estruturado como linguagem. Quanto à proposição de um primeiríssimo ensino anterior à leitura da psicanálise sob a influência do estruturalismo, ela parece bastante razoável.













