1. INTRODUÇÃO
Quem se conta? Quem tem história? Quem é mais um número? Quem entra para as estatísticas? Quem entra para estatísticas com história ou como número? São perguntas que podem ser feitas a partir da notícia de que foi criado um projeto chamado Inumeráveis, elaborado por Edson Pavoni e Rogério Oliveira e lançado em 30 de abril de 2020. A partir de informações fornecidas por amigos e familiares dos falecidos, o projeto publica pequenos textos sobre a vida das vítimas da covid-19. Pretende ser, como dizem seus idealizadores, "um memorial dedicado à história de cada uma das vítimas do coronavírus no Brasil".
Este artigo tem por objetivo discutir dimensões da qualificação dos números de mortes por covid-19 contadas pelo Projeto Inumeráveis, observando as narrativas criadas para os momentos de despedida. Por meio da análise de algumas histórias a partir de Maringá e Belo Horizonte buscamos compreender como as perdas são elaboradas por uma sociedade que vive a crise sanitária em um contexto de predomínio da cultura digital e da divulgação de informações em um ritmo muito acelerado em razão da predominância das tecnologias digitais da informação e comunicação no cotidiano das pessoas.
Iniciamos a escrita desse artigo em um momento em que o Brasil se isolava dos demais países, em março de 2021, pouco mais de um ano após o conhecimento da existência do vírus e de convivência com as notícias da pandemia, especialmente com os números diários de mortes e contaminados e, quando boa parte das outras nações, tão afetadas quanto a brasileira, começavam a ter um decréscimo no número de mortos, hospitalizados graves e contaminados. Era um momento em que o Brasil vivia o que se pensava ser o seu pior momento, com cerca de 2 mil mortes diárias, mas em abril de 2021 tivemos dias com mais de 4 mil óbitos. A combinação absurda da gestão da crise feita pelo Executivo, que agiu de forma genocida, a apatia política, a falta de protagonismo dos entes federados (Estados e Municípios) e o imobilismo da sociedade civil foram permissivos com a política da morte que se praticou no Brasil no contexto de gestão da crise sanitária.
Em março de 2021, quando chegamos ao número de quase 2 mil mortes diárias, tornou-se certo de que não foi por incompetência ou falta de ação. Foi pela eficiente política de extermínio praticada em diferentes níveis de gestão que enfraqueceu os serviços de assistência básica de saúde, considerando inclusive a sua privatização; desautorizou as orientações de cientistas nacionais e internacionais no que tange às medidas que podem mitigar o avanço da doença; e sucateou o sistema público de produção de pesquisa e tecnologia. Portanto, ao longo de mais de um ano de observação e pesquisa sobre o tratamento conferido aos dados de óbitos pela covid-19, no Brasil, acompanhamos o momento de alento e esperança quando a vacinação começou a produzir efeito de redução da taxa de letalidade da doença e o desespero com a nova explosão de casos no fim de 2021 e início de 2022, com a chegada de novas variantes do vírus. E assim, todos os dias fomos nos habituando a abrir os jornais ou ouvir os noticiários para acompanhar os números da covid-19. A apresentação diária da quantidade de mortos, infectados e recuperados, recentemente passou a contar com a informação do número de vacinados. Tudo isso por regiões, Estados e Municípios.
Há pouco mais de dois anos, por volta de março de 2020, desde quando passamos a perceber os efeitos da pandemia no mundo e sua chegada no Brasil, as idas e vindas no número de mortos e de infectados colocava o Brasil em situação semelhante à de outros países que fizeram a opção por trabalhar saúde e economia numa perspectiva dicotômica. A falsa ideia que permeou boa parte da política de combate ao vírus indicava que as políticas de isolamento de grupos vulneráveis, restrição de funcionamento de serviços não essenciais e impedimento de aglomerações eram incompatíveis com assegurar a saúde financeira dos Estados. Entre o imperativo da vida e o imperativo da economia, este foi o escolhido no âmbito federal (Birman, 2020).
Assim, esse trabalho é importante para registrar como a gestão da pandemia, que levou à banalização da morte, produziu efeitos complicadores da organização dos rituais de morte e do luto para a sociedade brasileira, com desdobramentos que ainda não conseguimos dimensionar no que tange às atitudes públicas e privadas.
2. RITUAIS DE MORTE E ORGANIZAÇÃO DO LUTO
Georges Duby, historiador e estudioso da Idade Média, em seu livro Guilherme Marechal ou o Melhor Cavaleiro do Mundo, afirma que o ritual de morte nesse período era ostentoso e que todas as mortes eram, primeiramente, belas e, depois, verdadeiras festas (Duby, 1988, p. 9). No momento em que Duby resgata a história do cavaleiro e mais precisamente de sua morte, ele adverte à nossa sociedade, que recebia pela primeira vez essa obra em 1984, que aquele ritual perdido serviria para lembrar aos modernos que a forma simplificada das atuais despedidas poderia indicar que algo não estava muito bem com as nossas sociedades. Em suas palavras:
. . . Pois o homem que se aproxima da morte deve desfazer-se pouco a pouco de tudo, começando por abandonar as honrarias do mundo. Primeiro ato, primeira cerimônia de renúncia. Ostentoso, como serão também os atos seguintes, pois, naquele tempo, todas as belas mortes são verdadeiras festas; elas exibem-se como num teatro, perante grande número de espectadores, de ouvintes atentos a cada atitude, a cada palavra, atentos a que o agonizante manifeste seu valor, a que fale e aja segundo sua posição, a que legue um derradeiro exemplo de virtude aos que lhe vão sobreviver. Cada indivíduo, dessa maneira, ao deixar o mundo tem o dever de contribuir uma última vez para fortalecer a moral que conserva íntegro o corpo social, fazendo sucederem-se as gerações na regularidade que agrada a Deus. E nós, que não sabemos mais o que é a morte suntuosa, que escondemos a morte, que a calamos e expelimos apressados, como algo que incomoda e perturbar, nós, para quem a boa morte deve ser solitária, rápida, discreta: aproveitamos que a grandeza alcançada pelo Marechal o mostre a nossos olhos, brilhando com luz excepcional, e acompanhemos a cada passo, a cada pormenor, o ritual da morte à maneira antiga, que não era uma partida furtiva, esquiva, porém numa chegada lenta, regrada, governada — um prelúdio, passagem solene de uma condição para outra, superior, mudança de estado tão pública quanto as bodas, tão majestosa quanto a entrada dos reis em suas leais cidades. A morte que perdemos, e que talvez nos faça falta (Duby, 1988, p. 9-10).
Certamente que o historiador francês, falecido em 1996, aos 77 anos, não imaginava que chegaríamos ao século XXI em um quadro de crise sanitária como a que vivemos com a pandemia de covid-19, que tornaria proibido a realização dos rituais de morte, mesmo os mais simples e rápidos. Não poderia prever que os enterros se tornariam, sobretudo, solitários.
As sociedades modernas, que valorizam o mundo do trabalho, que tributam aos indivíduos lugares intimamente ligados às funções que executam nesse universo, aprenderam que a boa morte é aquela que se alcança na velhice, constituindo a fase final de uma vida que deixou de ser produtiva. A proximidade da morte vem quando o curso natural da vida é cumprido, vive-se a infância, a juventude, a adultez e chega-se à velhice, esta última fase do ciclo deveria coincidir com o momento de retirada da vida laboral, de reclusão e de descanso. Termos como inativo, aposentado, pensionista indicam que a vida chegou à última fase e que não servimos mais para o mundo da produção, do trabalho. Analistas (Alves & Antunes, 2004) indicam que a sociedade do trabalho marca os indivíduos pelo lugar que ocupam dentro dos espaços laborais, os define por suas profissões e, quando não é mais possível permanecer, ou se escolhe sair do mundo do trabalho, inicia-se um processo de afastamento desta sociedade, forte indício de que a morte está por chegar. Incorporamos, portanto, a ideia de que a morte é inevitável, morrer é o caminho e a boa morte é aquela furtiva e esquiva, como diz Duby (1988). Diante da experiência da sociedade do trabalho podemos completar que a morte repentina, após uma vida de labuta ou mesmo nas fases iniciais do ciclo de vida, é igualmente boa, porque indica que o indivíduo não permaneceu muito tempo em sofrimento físico e, portanto, não onerou os serviços de saúde, tampouco o sistema previdenciário e, também, não aterrorizou os mais jovens com a sua presença moribunda e taciturna.
Esse tratamento dado à morte pelas sociedades modernas, urbanas e capitalistas certamente trouxe muitas questões para lidar com o luto. Um luto quase irrealizável, banalizado e breve, como se tornaram os rituais de morte. A falta da morte suntuosa é, de certa forma, também a perda do valor dado a quem se vai.
Elisabeth Kübler-Ross (1926-2004), psiquiatra suíça, apresentou em seu livro Sobre a Morte e o Morrer (Kübler-Ross, 1985), lançado em 1969, cinco estágios pelos quais uma pessoa passa quando recebe a comunicação da fase terminal em que se encontra em razão de uma doença. Até chegar à última etapa — a aceitação — o caminho, segundo a autora, passa pela negação, raiva, barganha e depressão. Kübler-Ross uniu às próprias vivências o relato das experiências dos pacientes que atendia num hospital de emergências em Nova Iorque. Sua obra, tanto exaltada quanto criticada, trata de um tema que ainda é um tabu no mundo ocidental: a morte. A própria morte e as perdas, inesperadas ou não, de entes queridos (Afonso & Minayo, 2013). Percorrer os estágios para realizar o luto, no entanto, é obra pessoal.
Luto e melancolia, escrito por Freud em 1917, é o texto referência da psicanálise que aborda o luto como um percurso para superar uma perda. Superar não no sentido de remover, mas com a intenção de integrar, a partir de determinadas atividades psíquicas, no interior do Eu aquilo ou aquele que foi perdido. O Eu (ou o Ego, dependendo da tradução) é um conceito complexo descrito por Freud, mas que basicamente pode ser compreendido como a instância psíquica que não nasce no momento em que nasce o sujeito, mas que vai se constituindo a partir de identificações e investimentos, cujo resultado é a representação de si próprio (Freud, 1923-1925/1996).
O trabalho do luto, de acordo com Freud (1914-1916/1996), começa com a realização da perda. É o encontro com o real da perda e com o impacto que esse evento provoca. Até o momento no qual finalmente se permite que o outro parta, o processo de luto envolve um tempo em que o sujeito se sente de alguma forma culpado e envolve também a articulação com outras perdas significativas. Um luto mal elaborado anteriormente, por exemplo, pode gerar um excesso de carga num evento posterior. O trabalho do luto é penoso e quase sempre afasta o sujeito do convívio social, porque lhe falta energia para investir em outros interesses.
Tanto na obra de Kübler-Ross quanto nos escritos de Freud, o esforço é no sentido de que os eventos traumáticos não barrem as próprias trajetórias dos sujeitos e que o equilíbrio depois de uma perda possa ser restabelecido. Porém, isso só é possível quando se consegue realizar o trabalho que o luto impõe. No contexto da pandemia da covid-19, que instaurou uma crise no Brasil e no mundo, a possibilidade do trabalho de luto ficou comprometida.
A particularidade da pandemia da covid-19 é a forma como circula a informação, as notícias são divulgadas com a mesma rapidez que opiniões, experiências e teorias. A comunicação, no atual contexto da sociedade informatizada, torna-se "a dimensão central da pandemia, dada sua capacidade de interferir simbólica e materialmente no curso do evento sanitário . . ." (Lerner et al., 2021, p. 221). Se, por um lado, os discursos compartilhados pela internet geram conflitos, por outro, essas comunicações podem conectar interesses e construir uma rede de solidariedade.
Dessa forma, as redes sociais digitais também acolheram o luto, para os que usam os dispositivos tecnológicos, posts, fotos, mensagens e vídeos são compartilhados em memória de familiares, amigos e conhecidos que morreram. No contexto da pandemia, a contagem diária do número de mortos — e esse dimensionamento é um recurso no tratamento da crise —, e a impossibilidade da realização dos rituais de passagem apagaram a singularidade da morte (Kind & Cordeiro, 2020).
Como colocam Matta et al. (2020), citados por Kind e Cordeiro (2020), a quantificação dos mortos e a previsibilidade de mortes entre as pessoas que pertencem ao grupo de risco, como os idosos, justificam, em nome da ciência, uma "naturalização da morte". Apesar do afastamento e da quietude que o luto solicita, mesmo que vivenciado diferentemente por cada sujeito, é um processo de elaboração também influenciado pela cultura. Na sociedade atual, direcionada pela cultura digital, as redes sociais digitais funcionam como um recurso para partilhar a solidão e o sofrimento.
Nesse sentido, a importância do Projeto Inumeráveis corresponde ao trabalho de luto descrito por Freud (1914-1916/1996), em que o indizível da dor pode de alguma forma ser materializado pela linguagem, possibilitando a realização da perda e a abertura para novas possibilidades de vínculos afetivos.
Entretanto, a proibição, a interdição dos rituais de morte — uma das marcas mais sofridas, das fases mais duras da pandemia, quando o número de mortes chegou a 2, 3 até 4 mil mortes diárias —, potencializou a rapidez e a discrição desses rituais. Velórios proibidos ou muito curtos, caixões lacrados e números diários de mortes que superam os das tragédias eventuais (quedas de avião, desastres naturais) ou tragédias sociais com as quais desgraçadamente nos habituamos (violência urbana, fome, feminicídio), tornaram as mortes e seus rituais banais.
No início era espantoso que nem aquele mínimo pudesse ser feito e depois pareceu aceitável que se guardassem os corpos em câmaras frias ou caminhões frigoríficos. Também se tornaram ordinárias a organização de filas de caixões em caminhões das Forças Armadas para que os enterros fossem organizados de forma a reduzir riscos, e a abertura de covas em valas comuns em cemitérios de várias cidades para que fosse possível uma espécie de sepultamento em massa.
O fato é que a pandemia promoveu uma banalização ainda maior do ritual da morte. E associada ao quadro das desigualdades sociais, acentuado em países como o Brasil, a morte de alguns tem acontecido de forma tão generalizada que às vezes não é mais percebida. O fato de os idosos, aqueles que têm 60 anos e mais, representarem o maior número de mortos pela covid-19 certamente colabora para a naturalização das notícias das mortes e para a falta de seus rituais. Afinal, criamos uma percepção de que morrer velho é o esperado e quem chegou aos 60, 70, 80, 90 ou mais anos já viveu bastante. Assim, o número absurdo de vidas perdidas é de indivíduos que, por um lado, nada produzem ou produzem pouco e, por outro lado, oneram as sociedades e os Estados com suas aposentadorias, pensões e assistência de saúde de alta complexidade. As notícias de que em alguns países as mortes por covid-19 estão altamente concentradas entre os idosos, que chegam a ser mais de 90% das vítimas, podendo esse fato produzir impactos consideráveis na expectativa de vida, parecem não comover mais ninguém. Contudo, registros de alguns outros grupos são notados e nominados com um pesar profundo. Notícias sobre as mortes de personalidades, jovens sem nenhuma comorbidade e crianças são percebidas com espanto, comoção e servem como alerta de que a covid-19 mata.
São efetivamente inumeráveis as mortes no Brasil e no mundo, mas os que são apenas números, sem história, sem legado são, em sua grande maioria, os mais vulneráveis.
Existe efetivamente uma relação com a precariedade e a desigualdade [ênfase adicionada] significativa nos efeitos do vírus, de acordo com as classes sociais dos cidadãos implicados, em todo o planeta. No Brasil isso é evidenciado de forma caricatural e exagerada . . . (Birman, 2020, p. 98).
Em diferentes lugares a vulnerabilidade é maior para grupos que também sofrem com as desigualdades: pobres, negros, moradores das periferias das grandes cidades, trabalhadores com contratos precários ou que estão no mercado informal e, de forma bem aguda, percebemos que são muito vulneráveis os idosos que tiveram sua saúde debilitada ao longo de uma vida de trabalho, que para alguns começou nos primeiros anos da infância e que não terminou com a chegada na velhice. Eles moram em habitações intergeracionais (com filhos e netos) e são em sua maioria usuários dos serviços públicos de saúde.
O Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, que é público e universal, atende uma parcela muito expressiva da população idosa brasileira: 75% das pessoas com 60 anos e mais no Brasil usam exclusivamente o SUS.
Os vulneráveis engrossam as estatísticas confusas, superficiais e imprecisas das mortes por covid-19. Exatamente por serem mortes de vulneráveis, elas podem ser contadas de forma fria, apenas com números. "Se uma vida pode ser destruída ou desaparecer sem deixar rastro ou consequências aparentes, isso significa que essa vida não foi plenamente concebida como viva e, portanto, não foi plenamente concebida como chorável" (Butler, 2020). O Projeto Inumeráveis, por apresentar o relato de pessoas que perderam seus parentes, amigos ou conhecidos durante a pandemia, ajuda-nos a compreender como os rituais de morte estão sendo tratados e sentidos, assim como possibilitam evidenciar que essas vidas são choráveis. "O Inumeráveis pode ser, além de uma homenagem em forma de narrativa, a chance de exercer o direito de chorar, de chorar publicamente, afinal, como aponta Butler (2020), 'o luto público pode se tornar um ato político'" (Barcelos, 2021, p. 13).
3. AS HISTÓRIAS DE MARINGÁ E BELO HORIZONTE: O PAPEL DA ARTE MEMORIALISTA NA CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA SOBRE OS MORTOS E NA RESTITUIÇÃO DE ALGUM VALOR AO RITUAL DE MORTE
De acordo com dados do Ministério da Saúde do Brasil, a covid-19 fez mais de 660 mil vítimas no País desde o ano de 2020. Em dois anos de pandemia, em boletins diários, o consórcio de veículos de imprensa (parceria realizada após a omissão do governo ao publicar os dados da pandemia no Brasil) divulgou as estatísticas da doença com o número de casos, de óbitos e de demais informações sobre o estado da pandemia. Contudo, no que se refere às vítimas fatais da doença, as informações ficam restritas à idade e a condição de saúde. Este cenário se repetiu em diversas regiões do País e com o crescimento exponencial de óbitos, o falecimento de entes queridos, vizinhos, colegas de trabalho e amigos passou a fazer parte da rotina dos brasileiros. Diante dos números divulgados pela mídia, a vida se tornou estatística.
Foi diante deste cenário que o Memorial Inumeráveis foi criado. A fim de dar nome e vida àqueles que foram retratados nas estatísticas por meio de números, o site propõe mostrar a história dos milhares de vítimas da pandemia. A palavra "inumeráveis" tem o sentido de humanizar estatísticas que quantificam os indivíduos ao qualificá-los. O termo humaniza as estatísticas trocando números por histórias com identidades, com nomes. É também uma forma de conforto aos que ficaram e de acolhimento, mesmo à distância, dos entes queridos que sofrem. Ao acessar o Portal somos sensibilizados pelas histórias dos que se foram, somos convocados para o exercício da alteridade (Habermas, 2002 como citado em Nascimento & Pires, 2021). O ambiente virtual do Portal reconstrói lembranças por meio dos testemunhos dos que ficaram, ao tratar dos sonhos, das expectativas, crenças, preferências etc. quebra o anonimato dos números por meio dos breves relatos, que, ainda assim, registram anos de existência (Nascimento & Pires, 2021).
Deleuze e Guattari (1997) citados por Nascimento e Pires (2021) afirmam que as respostas ao sofrimento social se dão justamente numa construção diversa e não numa racionalização exacerbada e omissa. Assim, não seria possível somente "enumerar os pássaros", pois o conceito de ave não pode ser contado, não diz respeito à sua espécie ou gênero, mas à beleza de seu canto e cores, isto é, seu próprio canto e cor é que constroem a totalidade de sua existência, é assim que uma ave se torna única. A comparação feita pelos autores supracitados também vale para pessoas, cada indivíduo é único, tem uma vida, um canto que o diferencia dos demais, não sendo possível contabilizar sua essência por meio de números. Desse modo, divulgar o número de mortos pela pandemia ou a taxa de mortalidade da doença não é suficiente, números sozinhos podem assustar, mas dificilmente despertarão sentimentos.
Para aqueles que perderam entes queridos, o acesso ao portal do Projeto Inumeráveis pode dar a sensação de companhia em meio à dor da perda por meio do compartilhamento de histórias únicas, mas finalizadas pelo mesmo motivo. No memorial, as narrações ressignificam o luto ao dar vida aos números. Um dos criadores do memorial, Rogério Oliveira, em entrevista citada por Nascimento e Pires (2021, p. 20), tratou dos objetivos do espaço virtual de memória:
O projeto serve para mostrar as vidas escondidas pelos números e estatísticas e que hoje temos tecnologia e um sistema distribuído que pode colaborar para termos a ambição de registrar 100% das histórias, de cada pessoa . . . o Memorial Inumeráveis nasce do incômodo em perceber que, nas tragédias humanitárias pela qual a humanidade passa, transformamos as vidas perdidas apenas em números e estatísticas.
Um memorial consegue fazer com que vários laços e emoções se cruzem criando estados de memórias complexos, revivendo acontecimentos singulares que fazem sentido para nós e entre nós, sendo uma criação coletiva (Halbwachs, 2013 como citado em Nascimento & Pires, 2021). A memória coletiva, então, envolve a escuta dos semelhantes, nas palavras de Halbwachs (2013, p. 30): "As lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que tratem de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isso acontece porque jamais estamos sós".
Também há que se atentar que uma escrita memorialística tem função catártica para quem a consome. Os textos produzidos em contextos como o Portal Inumeráveis devem considerar os sujeitos que os receberão (Barcelos, 2021), especificamente aqui são sujeitos vivendo uma pandemia, que significa uma experiência simultaneamente sanitária, social, econômica, ecológica, política e cultural, além de psíquica, vivida por sujeitos psíquicos com suas singularidades (Birman, 2020). Freud, em O mal-estar na civilização (1930/2011), fala do desamparo originário do sujeito, que é reativado quando ele "se encontra numa condição difícil e marcada psiquicamente pela dor e pelo sofrimento" (Birman, 2020, p. 136). A pandemia de covid-19 é uma dessas situações em que o desamparo originário é reativado. Se o sujeito conta com instâncias de proteção confiáveis, ele se sente mais alentado; caso contrário, se sente entregue ao acaso e ao indeterminado. Por um lado, podemos dizer que o desalento marcou a população brasileira, já que as instâncias de proteção pública não se fizeram confiáveis, com as duplas mensagens transmitidas no decorrer da pandemia. Por outro, algumas saídas foram encontradas, como o Memorial Inumeráveis, transmitindo um conforto para os envolvidos.
Dentre os 662 mil brasileiros que perderam suas vidas para a doença estão os mais de 1700 maringaenses mortos pela covid-19 desde 2020, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Município. Em dois anos de pandemia, em boletins diários, a prefeitura divulgou as estatísticas da doença com o número de casos, de óbitos, de recuperados, de leitos de UTI e demais informações sobre o estado da pandemia na cidade. Contudo, no que se refere às vítimas fatais da doença, as informações ficam restritas à idade e a condição de saúde. Diante desse cenário, o número "1700" parece vazio, parece não condizer com o tamanho das perdas. Afinal, o que representa o número 1700?
O Memorial Inumeráveis, assim, foi uma forma encontrada para contar a história de oito moradores da cidade. Os fatos que não couberam nos boletins diários divulgados pela Prefeitura estão expostos em forma de texto para todo o País por meio do site. Com idades entre 32 e 63 anos, as vítimas fatais da doença homenageadas por conhecidos e familiares nos relatos mostram que as perdas são significativas independentemente da idade dos finados. As histórias indicam a interrupção de sonhos de pessoas ativas e que contribuíam para a sociedade para além da idade. Há relatos de idosos apaixonados pela vida e ativos, indo contra a ideia de que os mais velhos padecentes da covid-19 seriam perdas menores para a comunidade.
Um dos relatos traz a história de um senhor de 63 anos que, já na terceira idade, tinha o sonho de aprender a pilotar aeronaves, mas quando finalmente conseguiu ter sua própria máquina de voar, foi interrompido. Além dele, uma senhora de 61 anos, também vítima fatal da doença, é homenageada pela filha por meio do memorial on-line. No relato sobre a senhora há a descrição de sua vontade de viver, como exposto no excerto a seguir: "Iracema amava a vida. Dizia que queria viver por muitos anos para ver os netos casarem e para que eles a levassem para passear de carro. Sonhava em conhecer os bisnetos." Souza (2021).
O amor pela vida é uma constante dos relatos feitos no memorial, do mesmo modo se faz presente o cuidado. Em muitas narrativas há um tom de gratidão àqueles que se foram, como exposto na homenagem feita a Maria Aparecida da Silva, que faleceu aos 62 anos.
Em casa, era a nossa fortaleza, nosso alicerce, nossa base, nossa paz. Sempre pensava e cuidava de tudo e de todos. Durante a pandemia, por ser costureira, a dona Cida fez máscaras para a família inteira, visando o cuidado de todos. Ela sempre se cuidou muito; porém, mesmo assim, infelizmente o vírus chegou até ela (F. Silva, 2021).
O testemunho dado pela filha vai de encontro ao pressuposto de que as vítimas da pandemia não se cuidavam ou de que já tinham pouca vivacidade. Dona Cida, tal qual outros milhares de brasileiros, queria viver e se preocupava com a família. Ademais, apesar de inicialmente ser veiculado na mídia que a covid-19 seria uma doença perigosa somente para os mais idosos, os mais jovens também foram impactados pela enfermidade. O neurocirurgião maringaense, vítima do novo coronavírus aos 32 anos, é retratado pela irmã como muito comprometido com o trabalho e com a arte. Em seu último post no Facebook, o jovem deixou claro seu amor e dedicação pela profissão.
Peguei essa doença fazendo o que eu amo, cuidando dos meus pacientes com amor e dedicação. Faria tudo outra vez . . . e no fim, todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo seu propósito. Amém (Pinto, 2021).
Infelizmente, o médico não foi o único maringaense profissional atuante na área da saúde que se infectou no ambiente de trabalho, outra história compartilhada por meio do site traz uma realidade semelhante. O técnico de enfermagem Luiz Azevedo, findo aos 47 anos, também se infectou no trabalho; o profissional atuava na linha de frente do combate à covid-19 quando foi contaminado. No caso de Luiz Azevedo as homenagens não ficaram restritas ao Memorial Inumeráveis, sua morte abalou toda a cidade gerando muita comoção.
Já em Belo Horizonte, foram mais de 7747 mortos pela covid-19 desde 2020, conforme o boletim epidemiológico disponibilizado pela Prefeitura. Dentre estes, estão cerca de 90 relatos no Memorial Inumeráveis. Com idades entre 25 e 92 anos, as vítimas são sempre retratadas com muito carinho. Os textos dedicados aos nonagenários e aos mais novos não diferem tanto no que se refere à saudade dos entes queridos. Todas as vidas eram igualmente importantes para aqueles que perderam familiares e amigos. Como exposto no testemunho cedido pela neta de Geralda Bruno da Silva, que faleceu em 2020 aos 92 anos. A partir do texto dedicado à nonagenária mineira, é possível inferir seu vigor. Na página dedicada a ela está registrada sua trajetória de vida como parteira, agricultora, costureira e até mesmo tocadora de gaita, revelando toda sua força. Dona Geralda era muito ativa e valorizava a experiência trazida com a terceira idade.
Era carinhosa, porém de temperamento forte, não gostava de ser contrariada. Para ela, a experiência conquistada durante a longevidade tinha valor, prezava ser ouvida. Dava bons conselhos. Apoiava os sonhos e as conquistas dos que estavam ao redor (A. Silva, 2021).
As histórias dos mais velhos vítimas da pandemia estão muito presentes nos relatos do site e por vezes, mesclam-se aos eventos históricos do País. A construção de Brasília e a ditadura militar, por exemplo, são histórias presentes nas narrativas apresentadas no memorial on-line, evidenciando um fato que pode passar despercebido diante da falta de sensibilidade: a história é feita de gente, gente que vive, que cria, que envelhece.
A homenagem ao senhor José Amorim, vítima da pandemia em 2020, aos 91 anos, por exemplo, traz consigo parte da história do País, ao retratar a construção de Brasília e até mesmo um encontro com o então presidente Juscelino Kubitschek.
Como ele mesmo sempre contava, "foi da Paraíba até Brasília de pau de arara, viajou por treze dias para chegar lá no dia 7 de setembro de 1953". Tudo isso para ajudar na construção de Brasília. Ele contava muitas histórias, da catedral, de tudo lá, até do presidente Juscelino Kubitschek que ele chegou a ver pessoalmente (Oliveira, 2021).
Já a página dedicada a Geraldo de Assis de Souza, que faleceu aos 84 anos, também devido à doença, relata as mazelas do período da ditadura militar no Brasil. Geraldo foi caminhoneiro e motorista durante muitos anos de sua vida e no período militar utilizava seu próprio caminhão para levar a família de seu amigo preso ao DOPS de Belo Horizonte para as visitas de domingo. De 5 de abril até 20 de dezembro de 1964 o senhor levou, em seu caminhão, familiares e amigos de presos políticos de Belo Horizonte para Ribeirão das Neves para as visitas, mostrando sua coragem e solidariedade, como conta o amigo que enviou seu testemunho ao Memorial Inumeráveis.
A admiração, carinho e amizade de seus filhos permaneceram nos corações, nas lembranças e na gratidão por um homem que não se amedrontou com os criminosos da Ditadura de 1964, mas sucumbiu no dia 17 de setembro de 2020 por conta de um vírus mortal apelidado de Covid-19 (Araujo, 2021).
Cidades não seriam construídas e a resistência ao autoritarismo não seria possível sem a dedicação de milhares de pessoas que, infelizmente, foram atingidos de forma fatal pela pandemia.
A admiração por aqueles que padeceram também é evidente nas narrativas sobre as vítimas com menos idade. Mariane Costa faleceu aos 25 anos devido ao novo coronavírus e foi retratada pela amiga como alegre e sorridente, do mesmo modo, outra vítima do vírus que faleceu aos 32 anos é lembrada como uma mãe amorosa e cheia de vida, sua falta é imensurável, ou melhor, inumerável, para os entes queridos.
Os projetos de comprar a casa própria, de dar uma vida confortável à sua mãe e o de desfrutar a própria velhice ficaram por fazer. Sua falta é sentida por todos, conforme declara a irmã ao dizer que "não somente as filhas de Priscilla Cristina ficaram órfãs, nós e os amigos que a conheciam ficamos também (Nunes, 2020).
Os exemplos dos munícipes de Maringá e Belo Horizonte homenageados por meio do memorial on-line deixam evidente a riqueza de detalhes dos relatos e a importância de cada vida perdida durante a pandemia. A plataforma, que conta com milhares de relatos dados de forma espontânea, salienta a necessidade de vivenciar um luto coletivo diante das adversidades da pandemia.
Os brasileiros que cederam parte de suas vidas por meio dos textos sobre seus entes queridos, mostram que fazer um memorial on-line pode ser, por vezes, a única forma de socialização, de cooperação e de troca de afetos durante o isolamento social. Assim, é possível refletir sobre em que medida tomar o espaço das redes sociais e de sites da internet para tornar públicas as histórias dos mortos pela pandemia pode ser uma forma coletiva de "luto e resistência" (Seligmann-Silva, 2016 como citado em Bezerra & Oliveira, 2021, p. 95).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ainda há muito o que compreender e discutir sobre a experiência da pandemia da covid-19, não temos a dimensão dos efeitos que vamos colher em diversos campos de nossas vidas. Sabemos que ainda vamos chorar muito pelos milhares de mortos, que devemos elaborar os lutos e dar voz àqueles que perderam sua vida para o coronavírus para que eles não sejam esquecidos.
Bem como os memoriais físicos, os memoriais do ciberespaço, mesmo que espontâneos, não são despretensiosos ou menos importantes. Tais memoriais podem ser uma forma de resposta a um evento traumático, uma forma de luto público e ritualizado, uma forma de reconhecer a perda individual e coletivamente a fim de superar o trauma (Bezerra & Oliveira, 2021). O fenômeno memorialístico on-line evidencia a "vontade de memória" (Nora, 1993 como citado em Bezerra & Oliveira, 2021, p. 108) de construir, preservar, reunir e propor diálogos. Com a impossibilidade de realização dos rituais cotidianos que requerem presença, os memoriais on-line cumprem uma importante função de ritualização e memorialização da morte (Jones & Gibson, 2012 como citado em Bezerra & Oliveira, 2021). O memorial do Projeto Inumeráveis cumpre bem, de forma alentadora, essas tarefas, dando-nos suporte e lembrando-nos de que toda a vida vale e deve ser recordada.
Ainda que nos tenhamos habituado, como relata um dos mentores do Projeto Inumeráveis, com o "estranho ritual do número do dia" e muitas pessoas efetivamente tenham criado a rotina de procurar a informação sobre o número diário de mortes, a percepção de que os números não são neutros e, por si só, não falam, como muitas vezes se diz, parece ter sido ideia assimilada pela população. O controle do número de vítimas da covid-19 tem sido objeto de disputa no mundo. No Brasil, o Executivo federal fez um esforço para não efetuar a divulgação diária dos números. Pôs fim às coletivas de imprensa fornecidas diariamente pelas autoridades de saúde e frequentemente reportava instabilidade em seu sistema de registro, atrasando a divulgação das informações. Tal fato não impediu a vivência da tragédia e a busca por tratar a dor que ela causou em diferentes cidades e regiões. Os exemplos aqui abordados de Maringá e Belo Horizonte, cidades escolhidas não de forma aleatória, mas a partir do pertencimento e da relação afetiva que as autoras com elas mantêm, indicam que o sentimento de perda e luto é coletivamente vivido, ainda que guarde uma dimensão de tratamento que é do indivíduo, e precisa ser comunitariamente elaborado para que as mortes evitáveis não se repitam. Isso porque há fortes indícios de que se a gestão da crise sanitária tivesse recebido mais atenção e controle do poder público em seus diferentes níveis de gestão (federal, estadual e municipal), o desfecho poderia ter sido bem menos traumático.













