INTRODUÇÃO
Na formação acadêmica, vemos que o maior objetivo do hospital é centralizar os cuidados em situações clínicas mais graves e que demandam maiores estruturas e recursos humanos nos cuidados da saúde (Feurerwerker & Cecílio, 2007).
Semelhante à hospitalização de um adulto, os hospitais infantis lidam com a família do paciente enquanto ele estiver internado, sendo obrigatório o hospital fornecer espaço para esse acompanhante, que é normalmente a mãe, pai e/ou avós (Brasil, 2004).
Mesmo que o hospital apresente toda a sua equipe multiprofissional, a família ainda é a grande mediadora entre a criança e o adolescente com a equipe, colaborando com o tratamento, passando informações cruciais sobre o estado da criança, antes dela ser internada e durante o processo de internação (Gomes & Oliveira, 2011).
Ao mesmo tempo que a família oferece esse suporte para os profissionais da saúde, ela também é o suporte emocional para a criança/adolescente, pois o ambiente hospitalar pode ser considerado uma situação de desordem do costumeiro, levando a criança/adolescente para longe de seus familiares, amigos, casa e escola (Gomes & Oliveira, 2011).
A partir disso, buscamos enfocar neste estudo as situações em que as crianças e os adolescentes hospitalizados são acompanhados pelos avós. Então, por meio de estudo de revisão, visou-se caracterizar o papel dos avós no contexto de saúde de pacientes infantis, em que se perpetua esse fato.
Com o aumento da expectativa de vida e o aumento significativo de atribuições de papéis e funções aos avós no contexto familiar contemporâneo, objetivamos apresentar neste estudo as razões que levam os avós a representar a pessoa de responsabilidade integral ou parcial de netos hospitalizados. Buscamos descrever os motivos pelos quais os avós têm esse papel, identificar a percepção e os sentimentos dos avós em relação ao internamento e à necessidade de saúde e cuidados dos netos, e apurar de que forma ocorre a intervenção dos profissionais de saúde junto aos avós, para o cuidado dos netos no contexto hospitalar.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O papel dos avós na família contemporânea
Os avanços da humanidade trazem benefícios para o aumento da expectativa de vida, proporcionando assim uma nova visão sobre as pessoas idosas. Uma combinação de controle de natalidade e diminuição do número de filhos por família com a longevidade eleva uma parcela da população idosa que ainda é considerada ativa, tanto socialmente como economicamente (Vanzella, Lima Neto & Silva, 2011).
Porém, com a proximidade da idade avançada, espera-se que a família tenha continuidade com a vinda de filhos/netos. Isso pode acarretar diversas situações que levam os avós a participar ativamente da vida dos netos, ressaltando sua relevância para a família e para a comunidade (Dias, Aguiar & Hora, 2009).
A espera da chegada de um bebê na família poderá trazer muitos sentimentos, expectativas e desafios (Piccinini, Gomes, Nardi & Lopes, 2008). A dinâmica familiar tende a se movimentar antes mesmo do bebê nascer, envolvendo tensão nas reformulações de posições e de regras do sistema familiar (Martins et al., 2008).
Kipper e Lopes (2006) trazem a modificação da estrutura psíquica dos novos avós, por precisarem desempenhar novas identidades, o que representa a quarta individuação. Mas o desenvolvimento do papel e da função de ser avô é construído, particularmente, buscando a resposta da pergunta “o que é ser avô?”.
Os papéis familiares se baseiam em funções sociais que demandam uma representação no campo da família nos âmbitos: conjugal, parental, fraternal e filial (Martins et al., 2008). Porém, no contexto da família contemporânea, alguns pais encontram dificuldades nas responsabilidades de cuidados dos filhos (Cardoso & Brito, 2014). Esses pais percebem na sua rede de apoio social um suporte que vem principalmente das avós maternas (Zanatta & Costa, 2017).
As autoras Ribeiro e Zucolotto (2015), em conformidade com Goldfarb e Lopes (2006), utilizam o termo “avosidade” no sentido das funções paternas/maternas interligadas, porém ainda assim exercendo um papel singular, ainda mais essencial para o desenvolvimento psíquico do indivíduo.
Segundo Pereira, Ramos e Silveira (2016), o conceito de família diz respeito a um grupo de pessoas unidas pela convivência e/ou pelo parentesco, em que existem vários arranjos familiares nucleares, mas também existem os membros da família extensa, como avós e tios.
Portanto, a criança desenvolve-se junto a vários âmbitos pelo meio familiar e pela composição do mesmo. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - Lei nº 8.069, de 13 de 1990, para que uma criança cresça com uma vida digna, é dever e direito da criança e do adolescente:
Art. 4º (...) Com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. (Brasil, 2019, p. 16)
A família, então, é caracterizada como essencial na constituição da formação da criança, na saúde física e mental de seus membros, sempre primando por sua proteção e bem-estar (Pereira et al., 2016).
Ao refletir sobre a evolução da longevidade junto com a história econômica do país, encontramos desafios acerca da desvalorização do dinheiro, um dos grandes motivos que levam os filhos a ficar mais tempo na casa dos pais. Outros motivos são: o divórcio, gravidez indesejada ou na adolescência, e dependência química. Situações que levam à configuração de mais de duas gerações da mesma família numa casa (Falcão & Salomão, 2005; Cardoso & Brito, 2014).
Os papéis dos avós e os papéis parentais acabam ficando confusos em situações que a configuração da família não é bem definida. Conforme o estudo de caso das autoras Scremin e Bottoli (2016):
(...) embora o papel dos avós seja essencial na vida desses netos, pois são eles que cuidam, acompanham as atividades diárias e se responsabilizam-se [sic] pelos mesmos, principalmente nos dois casos onde os pais existem, ainda parece que o fator biológico é o determinante para o significado de ser pai e de ser mãe. Sendo mais fácil nomearem-se como avó e avô, mesmo que haja o desejo de também serem pai e mãe, o que nestas realidades pesquisadas se faz muito presente este significado, do que apenas o fato de estarem sendo avô e avó. (Scremin & Bottoli, 2016, p. 248)
Além disso, o vínculo que se estabelece entre os avós e os netos se diferencia quando são os avós maternos ou os paternos, por questões vinculadas a expectativas e aos papéis sociais normalmente desempenhados por eles. Nesse sentido, corroborando com o resultado da pesquisa de Oliveira, Vianna e Cárdenas (2010), há possibilidade de netos que não são cuidados com frequência pelas avós maternas sentirem diferenças de tratamento em relação aos outros netos que ficam sob a responsabilidade das avós. E, ainda, comparam o tratamento dado por avós maternas e paternas, e observam que, no convívio maior com a avó materna, passa a ser mais demonstrado o afeto delas por estes do que em relação aos outros netos. O mesmo não é contemplado em relação às avós paternas.
Sentimentos de ambivalência dos avós sobre cuidar dos netos, em todos os contextos, são atrelados a vários fatores, como condições socioeconômicas, de saúde, medo da perda de privacidade, idade dos avós, idade dos netos, relacionamento entre filho/filha, genro/nora, cansaço pela demanda de responsabilidades e sobrecarga de afazeres (Amazonas & Braga, 2006; Araújo & Dias, 2010; Coelho & Dias, 2016; Scremin & Bottoli, 2016).
Já na situação em que os netos são cuidados de modo permanente pelos avós, no resultado da pesquisa da mesma autora citada acima, as avós entendem que a responsabilidade materna é passada para elas quando seus filhos não assumem os próprios filhos, por algum motivo, considerando-se as principais substitutas para essa tarefa (Oliveira et al., 2010).
Igualmente nessa última situação, as autoras Cardoso e Costa (2011) ponderam nas suas pesquisas que os avós recorrem, como último recurso, à Justiça, para legalizar a guarda dos netos, devido aos conflitos familiares. Observam que, mesmo se os genitores pudessem exercer esse papel, não o realizavam devidamente. Isso representou para os avós entrevistados o resgate de sua função parental de forma a manter o controle de sua prole. “As expectativas provenientes da obtenção da guarda de netos apontaram para uma mudança de vida ao idoso e para a redefinição de um projeto de vida para a velhice” (Cardoso & Costa, 2011, p. 55).
Portanto, as funções parentais se aplicam nos diversos contextos na vida da criança; o cuidador interfere diretamente nas necessidades alimentares, de segurança, afeto, comunicação, e principalmente na área da saúde (Brasil, 2019).
Neste contexto de saúde da criança e do adolescente, o ECA dispõe que:
Art. 7º A criança e o adolescente têm direito à proteção, à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que a Lei nº 8.069, de 13 de 1990 permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência (Brasil, 2019, p. 16-17).
O que vem ao encontro do papel da família no contexto de cuidado, considerando as famílias extensas em que os avós, somam e dividem tarefas nos cuidados dos netos. Principalmente a avó materna, que é de maior influência para o funcionamento da família (Arrais, Brasil, Cárdenas & Lara, 2012).
O cuidado de saúde na família contemporânea
Quanto à responsabilidade pelos cuidados de saúde na família, no contexto do nível alto de complexidade de atenção em saúde, o Art. 3º da Lei 8.242, de 12 de outubro de 1991, aprova o texto original da Sociedade Brasileira de Pediatria, sobre os Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados. E a Resolução 41, de 13 de outubro de 1995, compartilha 20 direitos da criança e do adolescente que são assegurados enquanto estiverem no ambiente hospitalar. Entre esses direitos, destaca-se o direito quanto à permanência dos pais ou responsáveis durante a internação hospitalar.
Na redação dada pela Lei nº 13.257, de 2016, Art. 12° do ECA (Brasil, 2019, p. 20), os estabelecimentos de atendimento à saúde devem “proporcionar condições para a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável, nos casos de internação de criança ou adolescente”. Isso complementa o 4° e o 10° Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados, que trata da presença de um responsável durante toda a internação, e que também o inclui nas orientações sobre o tratamento, prognósticos e procedimentos a que a criança e/ou adolescente será submetido naquele contexto.
A partir disto, em situações que os avós são considerados membros de confiança, os papéis que envolvem os avós no contexto hospitalar são quase invisíveis no olhar da família e dos profissionais da saúde (Dias & Mendes-Castillo, 2021).
Dias e Mendes-Castillo (2021) mostram que, mesmo diante do sofrimento relatado pelos avós, eles buscam atender as necessidades dos filhos e dos netos, nem que isso atrapalhe sua vida pessoal e seus afazeres, deixando de lado o restante da família, pedindo licenças e férias do trabalho, sobrecarregando sua saúde física e sua saúde mental, ficando assim desassistidos por não quererem aparentar estar com a saúde prejudicada.
Em suma, evidencia-se que, após o nascimento do bebê, já existe uma disposição de cuidados de saúde pré-definidos e assegurados por Lei. Assim sendo, quando a criança/adolescente passa por situação de doença, a família também sofre junto, incluindo a família extensa como os avós, que além de pensar no seu neto hospitalizado, refletem sobre a saúde dos seus filhos, sobrepondo as necessidades destes acima das suas.
Necessidades de saúde e cuidado de crianças e adolescentes no contexto hospitalar
Ao nascer, o bebê já passa por uma bateria de exames para a verificação da sua saúde fisiológica. Depois de determinar a identidade da criança, os profissionais de saúde ainda precisam ajudar a promover a saúde do bebê, monitorar o crescimento e o desenvolvimento, amamentação, imunização e cuidar de complicações ou patologias agudas da criança. Além disso, devem determinar se existe a possibilidade de risco ao nascimento (Brasil, 2004).
Em conformidade com a Agenda de Compromissos para a Saúde Integral da Criança e Redução da Mortalidade Infantil publicada pelo Ministério da Saúde (2004), a organização de uma rede abrangente de saúde deve ser baseada nos princípios da Constituição Federal, no ECA e no Sistema Único de Saúde (SUS), como o direito de acesso aos serviços de saúde. Consequentemente, isso permite dar continuidade à assistência na saúde, após identificar as crianças e os adolescentes que são internados por patologias dentro do terceiro setor de saúde, mantendo os cuidados depois da alta hospitalar.
De fato, a comunicação entre setores da saúde deverá acontecer através dos profissionais, mas também a troca de informações sobre o quadro clínico da criança e do adolescente deve ser apresentada para os pais e responsáveis por ela. Diante disso, Faquinello, Higarashi e Marcon (2007) identificaram nos seus estudos que pais necessitam das informações sobre a condição dos seus filhos, com finalidade de poder lidar de forma equilibrada com a situação que acomete sua criança/adolescente, sempre controlando a sua reação diante do seu filho. “Os pais são geralmente confrontados com um contexto médico/hospitalar/tecnológico e emocional que não lhe é familiar e que raramente, está preparado para considerar suas necessidades” (Faquinello et al., 2007, p. 615).
Silveira, Angelo e Martins (2008) consideraram as habilidades adquiridas pelos familiares quando a criança é hospitalizada, e/ou durante a internação é descoberta uma doença crônica ou que precisa de tratamento/equipamento médico depois do hospital. As habilidades investigadas foram: segurança para cuidar, solidão e isolamento, rituais hospitalares, administrar recursos financeiros, e conformidade.
A primeira é a habilidade de adquirir a segurança para cuidar da criança e/ou adolescente, que ocorre, entre outros aspectos, a partir de conhecimento sobre a doença, desenvolvimento de sensibilidade de manifestações de melhora ou agravo do estado de saúde, aquisição de recursos humanos e de equipamentos (Silveira et al., 2008).
Na experiência do familiar, a solidão e o isolamento fazem parte da hospitalização, ensinando a lidar com o tempo de espera de resultados, exames, cirurgias, procedimentos. Em compensação, acredita-se que investem esforços para acelerar as necessidades da criança, proporcionando a ela bem-estar (Silveira et al., 2008).
Isso vem ao encontro dos rituais hospitalares juntamente com a habilidade dos responsáveis pela criança ou adolescente de administração financeira. A rotina do hospital, pode ser exaustiva e assustadora, ainda é preciso manejar os recursos financeiros dos que estão em casa, somando a parte de equipamentos/tratamento da criança hospitalizada nesta conta. Por fim, a conformidade com a situação é um momento de autorreflexão, aliviando os sentimentos de sofrimento e de culpa, e também se destaca aqui o compartilhamento do sofrimento psíquico, ajudando a flexibilizar o revezamento familiar nos cuidados da criança (Silveira et al., 2008).
Desta maneira, Silveira et al. (2008) observaram que, mesmo com o estresse e demandas familiares, ameaçando o senso de segurança e competência da família nos cuidados das crianças e adolescentes, a compreensão das habilidades aprendidas faz com que ocorra uma certa proximidade da experiência de doença, situação familiar e o processo de cuidar. Em decorrência disto, permite que o enfermeiro tenha a opção de planejamento de intervenções junto às potencialidades da família.
MÉTODO
Este artigo diz respeito a uma revisão crítica da literatura. De acordo com Mancini e Sampaio (2006), a revisão crítica se caracteriza pela síntese dos estudos relevantes referentes a um tema, mas que não seguem necessariamente uma metodologia pré-definida. Tem como base um processo de busca, análise e descrição, e procura uma resposta a uma pergunta específica (UNESP, 2015). Entende-se neste estudo que esta revisão será também caracterizada como narrativa.
A revisão narrativa “não utiliza critérios explícitos e sistemáticos para a busca e análise crítica da literatura. Bem como a busca pelos estudos não precisa esgotar as fontes de informações” (UNESP, 2015, p. 1). Os autores têm a possibilidade de elaborar artigos com interpretações críticas mais amplas (Rother, 2007). Entretanto, admite-se que é importante o esclarecimento quanto aos critérios de busca da literatura para análise crítica.
Os critérios de inclusão nesta revisão literária foram definidos a partir das palavras-chave avós, família, cuidadores, e hospital infantil, que respondessem aos objetivos deste estudo. Para a seleção dos artigos científicos, os artigos foram coletados nas bases online Google Acadêmico, LILACS, PePSIC, SciELO, e literatura citada nos próprios artigos encontrados.
Os critérios de exclusão foram artigos que, apesar de mencionar as palavras-chave selecionadas, não correspondessem aos objetivos da pesquisa ou, mesmo que elas aparecessem no título, ignorassem o foco dos avós na família.
Portanto, foram encontrados na base Scielo 13 artigos com alguma palavra-chave no título ou no resumo, sendo que oito não foram utilizados, por apenas mencionarem no texto as palavras-chave, mas sem atingirem nenhuma resposta para os objetivos do estudo.
O Google Acadêmico foi a segunda base de dados com mais artigos com palavras-chave no título, sendo 4 escolhidos para o estudo, e 1 descartado. A terceira bibliografia com mais títulos contendo as palavras-chave foi a própria literatura citada nos artigos já encontrados, com 4 artigos competindo ao tema de estudo.
No LILACS, foram encontrados 2 artigos científicos, sendo descartado 1 por não responder ao objetivo do estudo. Na base de dados PePSIC, foram selecionados 2 artigos que contribuíram com o objetivo da pesquisa.
Ao finalizar a etapa da coleta de artigos científicos, 15 artigos foram identificados como relevantes para este estudo. As Tabelas 1, 2, 3, 4, 5 apresentam os artigos selecionados de acordo com os critérios estabelecidos e as bases de dados pesquisadas.
Tabela 1 Artigos da Base de Dados Google Acadêmico.
| Ano de Publicação | Título do Artigo | Autores | Tipo de Estudos | Objetivo do Artigo |
|---|---|---|---|---|
| 2010 | Avós Guardiões de Baixa Renda | Araújo & Dias | Pesquisa de campo | Investigar as vivências e percepções de avós que criam os netos |
| 2011 | A Presença das Avós no Cotidiano das Famílias de Recém-nascidos de Risco | Marques, Barreto, Teston & Marcon | Pesquisa de campo | Identificar o papel das avós no processo de cuidado aos recém-nascidos de risco no primeiro ano de vida |
| 2018 | Reflexões acerca dos Vínculos de Cuidado entre Avós e Netos na Atualidade | Ribeiro & Bittencourt | Pesquisa de campo | Analisar os vínculos de cuidado entre avós e netos, na atualidade |
Tabela 2 Artigos da Base de Dados LILACS
| Ano de Publicação | Título do Artigo | Autores | Tipo de Estudos | Objetivo do Artigo |
|---|---|---|---|---|
| 2012 | O Lugar dos Avós na Configuração Familiar com Netos Adolescentes | Arrais; Brasil; Cárdenas & Lara | Pesquisa de campo | Identificar e compreender o lugar dos avós na configuração familiar de netos adolescente |
Tabela 3 Artigos da Base de Dados PEPSIC.
| Ano de Publicação | Título do Artigo | Autores | Tipo de Estudos | Objetivo do Artigo |
|---|---|---|---|---|
| 2010 | Jovens Criados por Avós e por um ou ambos os pais | Dias; Hora & Aguiar | Pesquisa de campo | Investigar como os jovens criados por avós e pais percebem e vivenciam tal situação, bem como o relacionamento estabelecido entre eles |
| 2013 | Avós que Assumem a Criação de Netos | Mainetti & Wanderbroocke | Pesquisa de campo | Investigar as implicações da criação de netos pelas avós |
Tabela 4 Artigos da Base de Dados SCIELO.
| Ano de Publicação | Título do Artigo | Autores | Tipo de Estudos | Objetivo do Artigo |
|---|---|---|---|---|
| 2003 | Maternagem Ampliada | Braga & Morsch | Relato de Experiência | Questões sempre presentes no cotidiano de qualquer UTI Neonatal |
| 2005 | O Papel dos Avós na Maternidade Adolescente | Falcão & Salomão | Revisão de literatura | Acerca do papel dessas figuras na família e, especificamente, na maternidade adolescente |
| 2016 | Avós Guardiões: Uma Revisão Sistemática de Literatura do Período de 2004 a 2014 | Coelho & Dias | Revisão Sistemática da Literatura. | Analisar artigos científicos sobre os avós guardiões publicados no período dos últimos dez anos |
| 2016 | Configurações Familiares e Implicações para o Trabalho em Saúde da Criança em Nível Hospitalar | Pereira; Ramos & Silveira | Pesquisa de Campo | Investigar se os profissionais de saúde identificam implicações das diferentes configurações familiares em seu trabalho |
| 2021 | O Papel dos Avós de Crianças com Câncer Hospitalizados | Dias & Mendes-Castillo | Pesquisa em campo | Compreender o papel dos avós de crianças com câncer hospitalizadas |
Tabela 5 Artigos da Base de Dados Literatura Citada.
| Ano de Publicação | Título do Artigo | Autores | Tipo de Estudos | Objetivo do Artigo |
|---|---|---|---|---|
| 2011 | A Disputa de Guarda de Netos por Avós: Dilemas, Motivações e Implicações | Cardoso & Costa | Pesquisa de Campo | Analisar quais são as implicações geradas pela guarda judicial nos relacionamentos intrafamiliares |
| 2014 | Avosidade: a Relação entre Avós e Netos | Souza | Revisão bibliográfica Monografia | Analisar a influência da avosidade para a vida das avós, na concepção das avós que cuidam de seus netos, com a finalidade de avaliar o convívio intergeracional no que compreende uma relação conflituosa e/ou harmoniosa |
| 2015 | Avós Cuidadoras e Seus Netos: Uma Reflexão Sobre as Configurações Familiares | Ribeiro & Zucolotto | Pesquisa de Campo. | Investigar o papel que essas avós cuidadoras desempenham na vida de seus netos a partir de suas perspectivas, além de verificar o impacto de terem se tornado cuidadoras integrais de seus netos, bem como verificar questões a respeito do bem-estar e da satisfação com relação às funções que desempenham |
| 2019 | Revisão de Literatura sobre Papel dos Avós como Produtores de Cuidado em Saúde | Peixoto & Gutierrez | Revisão da literatura | O objetivo do trabalho é revisar as produções científicas sobre a participação dos avós na promoção/produção de saúde dentro da dinâmica familiar |
No total, foram selecionados 10 artigos relativos à pesquisa de campo, 4 de revisão de literatura, e 1 de relato de experiência. Importante frisar que nem todos os artigos respondiam a todos os objetivos de pesquisa, mas cada um atendeu a pelo menos 1 objetivo do presente estudo.
Observa-se que os artigos discutem mais sobre família no geral, de fato, nem sempre quem acompanha o paciente são os avós, mas esse acompanhante vem aumentando a frequência de ser o cuidador primário de crianças e adolescentes, desta forma os avós são uma figura constante nos corredores hospitalares.
Com a compilação destes artigos, criou-se três categorias a partir dos objetivos deste estudo: Fatores que levam aos avós ao papel de cuidador; Percepções dos avós acerca do hospital infantil e a saúde dos netos; e Orientações dos profissionais para com os avós. Essas categorias são descritas e discutidas a seguir.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Fatores que levam os avós ao papel de cuidador
Os artigos selecionados se complementam e se encontram nos motivos pelos quais os avós se tornam os responsáveis pelo cuidado integral ou parcial dos netos.
Os fatores que prevalecem na literatura variam de avós que vieram para substituir pais despreparados, por serem adolescentes e/ou achar que não são capazes de lidar com a maternidade/paternidade, além de quando ambos ou só um dos pais é falecido, ou os pais são usuários químicos, ou quando os pais são separados (Falcão & Salomão, 2005; Araújo & Dias, 2010; Cardoso & Costa, 2011; Marques, Barreto, Teston & Marcon, 2011; Mainetti & Wanderbroocke, 2013; Souza, 2014; Ribeiro & Zucolloto, 2015; Coelho & Dias, 2016).
Outros motivos a serem considerados dentro da literatura são o agravamento da dificuldade econômica, auxílio de renda dos pais e dos avós, desemprego, disponibilidade dos avós para cuidar enquanto os pais ou um dos pais saem de casa para trabalhar (Falcão & Salomão, 2005; Araújo & Dias, 2010; Dias et al., 2010; Marques et al., 2011; Arrais et al., 2012; Mainetti & Wanderbroocke, 2013; Souza, 2014; Coelho & Dias, 2016).
Esses fatores transformam a relação familiar: além dos novos avós exercerem dentro da família uma nova identidade, o papel maternal/parental também passa por eles, ressaltando o termo novamente de avosidade (Kipper & Lopes, 2006; Ribeiro & Zucolotto, 2015).
Portanto, conforme já experienciado e estudado, os avós que fazem o papel de cuidador primário da criança e/ou adolescente no hospital infantil já têm uma responsabilidade externa de disciplinar o neto, tornando um cuidado mais cotidiano do que eventual dos avós com os netos.
Além disso, conforme Amazonas e Braga (2006), a sobrecarga de afazeres dos avós cuidadores torna-se prioridade com as necessidades do neto, gerando sentimento de ambivalência ao aceitar ou buscar fazer o papel de cuidador primário.
Percepções dos avós acerca do hospital infantil e a saúde dos netos
Os avós que assumem parcialmente o cuidado dos netos veem a necessidade de serem o apoio emocional dos seus filhos e ao mesmo tempo dos netos hospitalizados, ainda que assumam responsabilidades de cuidar da casa e dos outros netos saudáveis dos seus filhos. De acordo com Dias e Mendes-Castillo (2021), quando os pais estão presentes, os avós, buscando não interferir na internação dos netos, percebem que precisam ser o alicerce da família sem tomar o protagonismo, dando apoio, sustentação, transmitindo amor e esperança para os seus filhos e netos.
Dessa maneira, a literatura traz que os avós passam bastante tempo no hospital em consideração a suas famílias, mesmo que alguns setores do ambiente hospitalar, como a Unidade de Terapia Intensiva, não aceitem visitas de acompanhantes. Ainda assim, os avós comparecem na sala de espera ou se disponibilizam a substituir a mãe por vários motivos (Marques et al., 2011; Dias & Mendes-Castillo, 2021).
Embora a maioria dos artigos estudados não abordem exclusivamente avós como cuidadores primários de saúde, os estudos apresentam os avós cuidadores como detentores de conhecimento em relação à saúde, visto que é proporcionado para os netos todos os tipos de cuidados, e os avós produzem os conhecimentos empíricos de saúde passados de geração para geração, como por exemplo, nos casos de maternidade adolescente (Braga & Morsch, 2003; Falcão & Salomão, 2005). Especificamente as avós do gênero feminino têm esse papel mais solicitado do que os avôs, existindo uma carência de estudos sobre o papel masculino como produtor de saúde (Ribeiro & Bittencourt, 2018; Peixoto & Gutierrez, 2019), ou, até então, o homem não assume esse papel com frequência.
Segundo Falcão e Salomão (2005), os avós que são apenas o suporte de apoio em alguns casos na maternidade adolescente ficam felizes em ter esse papel de avós do neto, repreendendo menos os netos, deixando essa função de educar para os pais.
Sendo assim, quando os avós substituem os pais em algumas situações para que os pais consigam realizar as tarefas cotidianas, que exigem responsabilidades mesmo que o filho esteja internado, os avós acabam exercendo a função relativa aos cuidados do neto de modo secundário ao papel dos pais junto ao filho.
Orientações dos profissionais para com os avós
Segundo Pereira et al. (2016), no contexto hospitalar os profissionais da saúde observam variações de família no hospital infantil, e o trabalho deles com os pacientes infantis soma com a família daquele paciente, necessitando entender a dinâmica familiar para identificar se o profissional pode ou não contar com essa rede de apoio. Um dos profissionais entrevistados no estudo diz que “O principal é esse olhar, é essa referência, seja ela pai, mãe, tia, avó, mas qual é efetivamente o papel dela de atender as necessidades do desenvolvimento, para o cuidado dessa criança” (Pereira et al., 2016, p. 974).
Porém, cabe salientar algumas percepções dos avós sobre a equipe multiprofissional de saúde: quando existe uma linguagem mais técnica, divergências e falta de informações entre os profissionais, além de notícias ruins sendo anunciadas de forma fria e natural, cria-se uma barreira dificultando para os avós a compreensão do que está acontecendo com o seu neto, inclusive os deixando angustiados e aumentando o sofrimento. Em contrapartida, as orientações dos profissionais, que não os menosprezam por serem avós, criam uma amizade para além da internação (Dias & Mendes-Castillo, 2021).
Por isso, entendemos a importância de um atendimento humanizado, como a literatura traz, esse “processo de humanização nas instituições hospitalares pressupõe a compreensão do significado da vida dos seres humanos, o que envolve, além de princípios éticos, aspectos culturais, econômicos, sociais e educacionais” (Gomes & Erdmann, 2005, p. 23). Posto isso, a humanização no hospital infantil deverá considerar o paciente e o acompanhante como um cliente só, um dos aspectos positivos descritos pela família dos pacientes infantis internados (Faquinello et al., 2007).
Por outro lado, não só os funcionários do hospital são os responsáveis pela humanização desse ambiente, de acordo com Braz, Silva, Almeida, Gonzaga e Pacher (2020):
As ações de humanização só são possíveis quando o quadro de funcionários está completo, relatam também que a falta de “tempo” também interfere na realização dessas ações. O bem-estar do profissional e o bom relacionamento com a equipe interferem de forma positiva na prestação do cuidado, proporcionando assim um ambiente favorável às ações de humanização como respeito ao paciente e seu acompanhante e escuta por parte da equipe. (Braz et al., 2020, p. 449)
Dessa forma, para que o profissional de saúde compreenda e realize o atendimento de forma humanizada, o hospital deverá estruturar nos âmbitos físicos, tecnológicos, de recursos humanos, assim como proporcionar um bem-estar profissional dentro do serviço, afetando diretamente de forma positiva as famílias, os acompanhantes e os pacientes.
A equipe de saúde, principalmente os profissionais de enfermagem, presenciam os impactos emocionais causados pela rotina hospitalar na família do paciente. Como a classe da enfermagem é responsável pelas informações referentes a internação e procedimentos, muitos não têm na experiência acadêmica recursos para lidar com as emoções do acompanhante, sentindo receio de falar com eles. Por isso necessita-se uma abordagem da Psicologia, tanto para o acompanhante do paciente, como para esse profissional que geralmente dá as orientações de cuidado (Durães et al., 2021).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização desta revisão permitiu verificar que existe uma concordância na maioria dos estudos a respeito dos fatores que influenciam os avós a tomarem os papéis de cuidadores do neto. Além de serem produtores de saúde na família, durante a hospitalização dos netos tomam a frente de cuidar da casa dos filhos, ou dos irmãos não internados, não só sendo o suporte de responsabilidades fora do hospital, mas também sendo apoio emocional dos filhos quando presentes, e dos netos internados. Identificou-se um recorte de gênero nos artigos estudados, citando mais o papel feminino nessa situação de doença.
Junto a isso, toda a literatura traz a constante mudança de significado de ser avô. Isso ocorre por influência de diversos fatores externos, além do tempo de convívio familiar, abrangendo mais situações em que ocorrem a coabitação de mais de duas gerações. Desta maneira seu significado dentro da composição familiar sofre mudanças, bem como a forma que são vistos e citados dentro da família.
Ao considerar a presença de avós nos ambientes hospitalares, identifica-se a necessidade de uma intervenção multiprofissional com a psicologia, não só com o acompanhante, ao noticiar sobre a rotina hospitalar e cuidados. Então, o psicólogo torna-se um mediador para humanizar as orientações dos outros profissionais, realizando um suporte emocional também para os funcionários sobre os casos. Logo, o psicólogo deverá participar efetivamente de grupos de discussões de casos. Enfatiza-se igualmente a inclusão da família extensa também no papel de cuidadora primária, ou cuidadora somente no hospital, mas que irá retornar à casa e repassar as explicações e instruções aos demais familiares e para os responsáveis pela criança/adolescente, podendo influenciar o pós-alta do paciente infantil.
Ao analisar os limites desse estudo, a literatura é escassa sobre as percepções de saúde pela visão dos avós, avós no contexto hospitalar, e orientações dos profissionais com os avós. Nota-se uma falta de estudos acerca do tema, inclusive quanto à participação do profissional de saúde nos campos da avosidade, revelando que ainda há um desinteresse acadêmico por essa realidade cada vez mais presente e constante.
Espera-se que, com esse estudo, os próximos artigos possam desbravar mais sobre o assunto da avosidade no contexto hospitalar, os impactos psicológicos que atingem a população idosa de cuidadores integrais de netos no hospital, qual o papel do gênero masculino nos cuidados de saúde do neto, e quais as ferramentas ou estratégias utilizadas pelo s profissionais nas orientações aos avós.













