O segundo número de 2023 da Revista Brasileira de Orientação Profissional (RBOP) dá continuidade às celebrações dos 30 anos de criação da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC) e agrega mais um motivo para comemorar: os 21 anos de circulação da RBOP. Neste período, a RBOP registrou as transformações da sociedade brasileira, as inúmeras alterações do mundo do trabalho e as mudanças no processo de desenvolvimento de carreira de indivíduos e coletivos. Em 21 anos, a RBOP sempre esteve na vanguarda, publicando instrumentos, técnicas, intervenções e demandas contemporâneas. Celebrar a criação, manutenção e difusão deste importante periódico científico brasileiro é uma oportunidade de olhar em perspectiva para a própria história da Orientação Profissional e de Carreira (OPC) no Brasil e reconhecer que a construção de uma trajetória de sucesso só foi possível pelas inúmeras e generosas contribuições dos(as) autores(as), revisores(as), equipe de apoio editorial e das editoras e editores que se dedicaram intensamente ao longo desses 21 anos.
Enquanto profissionais da OPC estamos sempre interessados em ouvir as narrativas que compõem histórias amplas e complexas sobre como as pessoas constroem suas próprias carreiras. É possível afirmar que narrativas são elementos históricos da humanidade, possibilitando o encontro do passado com o presente, o registro e transmissão de conhecimento, o desenvolvimento do autoconhecimento e o estabelecimento de projetos para um futuro. Narrar uma história é necessariamente evocar lembranças, é revisitar o passado para celebrar experiências, e, ao mesmo tempo, deixar o caminho aberto para a construção de novas vivências. A RBOP é esse canal de registro histórico da produção científica especializada em OPC e que, especialmente nesta edição, pretende registrar e narrar à comunidade a sua própria história.
Abrindo este fascículo, há três artigos da seção especial escritos no intuito de celebrar o passado, o presente e o futuro da OPC no Brasil, da ABRAOPC e da RBOP. O primeiro artigo desta seção é de autoria de Marcelo Afonso Ribeiro (USP), registrando a Conferência nacional proferida na abertura do XVI Congresso Brasileiro da ABRAOPC realizado de 31 de agosto de 2023 a 02 de setembro de 2023 em Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Revisitando os 115 anos do campo da OPC, o autor analisa “de onde viemos”, demarcando o conhecimento tradicional da área e reflete para “para onde vamos” projetando um futuro da OPC pautado na diversidade, no respeito à tradição, mas buscando a inovação. Neste sentido, o futuro da OPC deve estar aliado ao compromisso de contextualização e ampliação do alcance para estar a serviço de todos(as).
Em sequência, no intuito de registrar os 30 anos de história da ABRAOPC, Lucy Leal Melo-Silva (USP) (primeira editora-chefe da RBOP), Maria Célia Pacheco Lassance (UFRGS) (membro fundadora da ABRAOPC) e Daniela Boucinha (PUCRS) (atual presidente da ABRAOPC), narram o processo de desenvolvimento da Associação a partir de três grandes momentos: origem e passos iniciais (período de 1993 a 2002); crescimento e ampliação do alcance (período de 2002 a 2012); e consolidação (período de 2013 a 2023). As autoras apresentam o trabalho feito pelas 14 diretorias que, ao longo dos 30 anos, conduziram a Associação, resgatam os temas escolhidos ao longo dos 16 Congressos Brasileiros da ABRAOPC que são registros dos temas e pautas essenciais para a área nesse período. O artigo finaliza com a afrmação de que a ABRAOPC está pronta para lidar com os desafios do mundo do trabalho no século XXI e conectada com as demandas da sociedade brasileira.
O último artigo desta seção tem por objetivo registrar e celebrar a história da RBOP. Os autores Lucy Leal-Melo Silva (USP) (primeira editora-chefe da RBOP), Maria Célia Pacheco Lassance (UFRGS) (membro fundadora da ABRAOPC) e Leonardo de Oliveira Barros (UFBA) (atual editor-chefe da RBOP) narram o desenvolvimento da Revista a partir de dois períodos: 2003-2013 (publicação de 21 fascículos no período de dez anos e meio, com publicação impressa e online) e 2013-2023 (publicação de 21 fascículos no período de dez anos e meio com publicação exclusivamente online). A partir da análise dos editoriais, os autores apresentam os principais assuntos pautados pela RBOP e os avanços e desafios para qualificação do periódico ao longo das gestões de Lucy Leal-Melo Silva (2003-2013), Marco Antônio Pereira Teixeira (2013-2013), Marúcia Patta Bardagi (2016-2017), Manoela Ziebel de Oliveira (2018-2019), Rodolfo Augusto Matteo Ambiel (2020-2022) e Leonardo de Oliveira Barros (2022 até o momento).
Em suma, os artigos da seção especial cumprem a missão de respeito e preservação da história da OPC no Brasil e evidenciam a importância do trabalho coletivo ao longo das décadas. Foram as construções de redes entre pesquisadores, profissionais e estudantes que possibilitaram a disseminação do campo no contexto brasileiro e a qualificação dos profissionais da área. Foi de maneira coletiva que a ABRAOPC se tornou referência e ponto de encontro entre todos e todas que atuam com OPC. Foi pelo trabalho incansável de inúmeras mãos que a RBOP solidificou-se como um dos principais veículos científicos da Psicologia e o principal da área de OPC no Brasil. Certamente o futuro da área, da Associação e da Revista será também construído de maneira cooperativa e com o compromisso de tornar as práticas e produções cada vez mais democráticas e acessíveis.
Dando sequência ao fascículo, a seção de artigos traz dez publicações que versam sobre temáticas diversas da OPC. O primeiro artigo desta seção é intitulado “Tomada de Decisão Profissional: contribuições da Psicologia Econômica”. Trata-se de um artigo teórico de autoria de Patrícia Böck Bandeira e Ângela Beatriz Busato Scheffer, vinculadas à UFRGS. As autoras refletem o processo de tomada de decisão profissional a partir da Psicologia Econômica. Neste sentido, defende-se que apesar da associação com a análise de comportamentos financeiros, essa corrente de pensamento também permite compreender as decisões profissionais, uma vez que tem como intuito analisar a tomada de decisão sobre a alocação de quaisquer recursos finitos, tais como tempo, renda, saúde, entre outros. As autoras apresentam possíveis aplicações e criam uma agenda de pesquisa para avanços dessa perspectiva teórica no campo da carreira.
O construto “projeto de vida” (PVs) foi foco de dois artigos deste número. O trabalho “Projetos de vida e medidas socioeducativas: Uma revisão de escopo” realizado por Vinicius Coscioni (Universidade de Coimbra), Edinete Maria Rosa (UFES), Sílvia Helena Koller (FURG) e Débora Dalbosco Dell’Aglio (Universidade Lasalle) identificou e sintetizou as características metodológicas e os principais resultados de pesquisas que caracterizaram os PVs de adolescentes em medida socioeducativa. Os autores concluem que os PVs dos adolescentes infratores envolvem educação, trabalho e família, mas tendem a ser desacompanhados de um plano específico de ação. Por sua vez, Iara Cristina de Carvalho Hayashi, Marcela Hipólito de Souza e Ana Paula Porto Noronha, pesquisadoras da Universidade São Francisco, analisaram as implicações de construtos psicológicos positivos (Projeto de Vida, Forças de Caráter e Autoeficácia para Escolha Profissional) para o desenvolvimento de carreira de jovens de 18 a 20 anos no artigo “Relação entre Projeto de Vida, Forças de Caráter, Autoeficácia para Escolha Profissional”. As autoras ressaltam que autoaprimoramento pode simultaneamente contribuir para si próprio, para a sociedade e para o mundo por meio de escolhas laborais com maior propósito.
Pesquisas com estudantes foram realizadas em três artigos deste fascículo. O manuscrito “Ansiedade no ambiente acadêmico: Concepções de estudantes universitários” teve o intuito de analisar as concepções de estudantes universitários sobre situações acadêmicas ansiogênicas e as estratégias de enfrentamento utilizadas. Os autores Adriana Benevides Soares (UERJ), Rejane Ribeiro (UERJ), Paulo Roberto Soares da Silva Alves (UERJ), Maria Eduarda de Melo Jardim (UERJ), Cesar Augusto Cobellas de Medeiros (UERJ) e Almir Diego Brito (Universidade Salgado de Oliveira) analisam qualitativamente dados de 17 participantes de uma oficina sobre como lidar com ansiedade. A pesquisa conclui que as avaliações curriculares e as relações interpessoais são os principais fatores ansiogênicos, mas que essa última também constitui-se como uma importante estratégia de enfrentamento. Ainda analisando a experiência de estudantes do ensino superior, mas a partir de pressuposto da Psicologia Positiva, Alexsandro Luiz De Andrade (UFES), Júlia Mulinari Peixoto (UFES), Mariana Ramos de Melo (UFES) e Pamela Fardin Pedruzzi (UFES) concluíram que o capital psicológico favorece o desenvolvimento da adaptabilidade de carreira e simultaneamente esses dois construtos contribuem para a formação de recursos de carreira. Essas reflexões são encontradas no artigo “Prediction of Psychological Capital in university students: Career Resources, Employability, and Adaptability”.
O último artigo com população de estudantes é de autoria de Fabiana Besen Santos (IFSC), Andrea Valéria Steil (UFSC) e Marucia Patta Bardagi (Forward College, Lisboa-Portugal) e intitulado “Preditores do Engajamento com a Carreira entre Estudantes da Educação Tecnológica”. Com o objetivo de identificar fatores preditores do engajamento com a carreira, esta pesquisa foi realizada com estudantes da educação superior tecnológica . As autoras indicam que a saúde mental (analisada a partir de indicadores de depressão, ansiedade e estresse), o envolvimento acadêmico e as atividades extracurriculares são preditores do engajamento com a carreira. Os resultados demonstram as semelhanças e diferenças entre o engajamento de estudantes universitários de outras modalidades e os da educação tecnológica.
O grupo de trabalhadores também foi foco de pesquisas publicadas neste número da RBOP. A revisão sistemática de literatura “Expectativas de resultados de empreendedores e trabalhadores autônomos em transição de carreira” de autoria de Marina Pereira de Souza Bello (PUCRS), Jéssica Santos Machado (PUCRS) e Manoela Ziebell de Oliveira (PUCRS) teve como foco investigar as expectativas de resultados extrínsecos e intrínsecos de profissionais que realizam a transição de carreira corporativa para tornarem-se empreendedores ou autônomos. Os resultados indicaram que a busca pelo equilíbrio entre a vida pessoal e profissional foi a principal expectativa de resultado extrínseco enquanto a busca por autonomia e a satisfação foi a maior expectativa de resultado intrínseco na amostra. Por sua vez, a pesquisa “Engajamento no Trabalho no Ensino Superior Privado: Um Estudo de Caso” conduzida por pesquisadores da Atitus Educação, Júlia Testa Andric, Victória Bocchi Mezzomo, Daniela Boucinha e Júlia Gonçalves analisou os níveis de Engajamento no Trabalho de colaboradores de uma instituição de ensino superior privado. Os autores indicam que há uma relação entre fase de desenvolvimento profissional e os níveis de engajamento, de modo que trabalhadores com idades entre 29 e 39 anos apresentaram maiores níveis de engajamento do que aqueles mais jovens ou mais velhos.
O último trabalho que analisa a experiência de trabalhadores teve por objetivo avaliar o papel mediador dos afetos nas relações entre paixão pelo trabalho e burnout em duas amostras (trabalhadores gerais e treinadores esportivos). No artigo “Papel mediador dos afetos nas relações entre paixão pelo trabalho e burnout”, os autores Evandro Moraes Peixoto (USF), Amanda Rizzieri Romano (USF), Maynara Priscila Pereira da Silva (USF) e Tatiana de Cássia Nakano (PUCCAMP), concluem que para as duas amostras analisadas os afetos foram mediadores das relações, sugerindo que a paixão harmoniosa facilita sentimentos positivos, enquanto a paixão obsessiva tende a promover sentimentos negativos no ambiente laboral, facilitando a experiência de burnout. Assim, o estabelecimento de relações harmoniosas com o trabalho tende a ser um fator protetivo para o adoecimento laboral.
Fechando este fascículo, o artigo “Competências para orientação profissional e de carreira no Brasil: autoavaliação e relevância” teve por objetivo identificar como profissionais brasileiros da área da carreira autoavaliam seu desempenho em relação a um conjunto de competências e qual grau de relevância atribuem às competências em suas práticas. Os autores, Lucy Leal Melo-Silva (USP), Maria Celia Pacheco Lassance (UFRGS), Marina Cardoso de Oliveira (UFMG) e Leonardo de Oliveira Barros (UFBA) destacam a importância da formação continuada e da educação permanente dos profissionais da carreira brasileiros para o desenvolvimento de competência teóricas e práticas adequadas. Além disso, ressaltam a necessidade de aprimoramento dos profissionais para lidar com questões interseccionais nos serviços de carreira e da importância de criação de políticas públicas de OPC com foco em trabalho, emprego e renda, juventude e qualificação profissional.
Os artigos deste número refletem a história e a atualização e diversidade de temáticas, públicos e teorias nas pesquisas realizadas na área. Além disso, evidenciam as inúmeras possibilidades de pesquisa e intervenção já que a carreira é um fenômeno que atravessa indivíduos e coletivos ao longo de todo o ciclo vital e nos mais diversos contextos. Ainda em tempo, aproveito este editorial para registrar o encerramento da gestão da diretoria da ABRAOPC (biênio 2022/2023) composta por Daniela Boucinha (presidente), Manoela Ziebell de Oliveira (vice-presidente), Leonardo de Oliveira Barros (1º secretário), Fabíola Rodrigues Matos (2ª secretária), Lucilene Tofoli (1ª tesoureira) e Gustavo Henrique Martins (2º tesoureiro) e dar as boas-vindas à diretoria do biênio 2024/2025 que que será formada por Daniela Boucinha (presidente), Thaline da Cunha Moreira (vice-presidente), Daisielly Pereira Lima Gonçalves (1ª secretária), Larissa Farina (2ª secretária), Ana Paula Salvador (1ª tesoureira) e Maria Theotonio (1ª tesoureira). Que continuem o trabalho e o legado da ABRAOPC!
Desejo a todos e todas uma ótima leitura!













