Introdução
O mercado de trabalho é cada vez mais marcado pela instabilidade e incertezas, acarretando grandes desafios no desenvolvimento da carreira dos jovens durante sua formação superior até sua entrada no campo profissional (Akkermans et al, 2021). Há uma crescente exigência de atitudes e comportamentos proativos por parte dos estudantes do ensino superior para o alcance de resultados positivos na carreira e na vida (Çarkit, 2022; Petruzziello et al., 2022).
Os comportamentos proativos, especificamente, refletem como as pessoas estão ativamente preocupadas com suas carreiras de forma ampla e atuam como multiplicadores de esforços durante os estágios de transição, como é o caso do estudante de ensino superior (Hirschi et al., 2014). Hirschi e Freund (2014) identificaram uma correlação entre o conjunto de comportamentos proativos no âmbito do desenvolvimento de carreira de jovens e propuseram o construto engajamento com a carreira. É um conceito complexo e multifacetado (Kahu, 2013), relacionado a um conjunto de recursos psicossociais (Hirschi et al., 2014) e definido como "o grau em que alguém manifesta comportamentos proativos de carreira, com o objetivo de desenvolvê-la" (Hirschi et al., 2014, p. 577).
Para o engajamento com a carreira, o conjunto de comportamentos proativos é estabelecido no planejamento de carreira, pela exploração do ambiente de carreira, pela criação de redes de contatos, pelo desenvolvimento de capital humano e de habilidades para a gestão da carreira (Hirschi et al., 2014). Esses comportamentos têm sido associados a traços de personalidade como otimismo, esperança e afeto positivo (Hirschi et al., 2014; Hirschi & Freund, 2014), relacionados positivamente ao sucesso na carreira, à satisfação na carreira, à satisfação acadêmica (Çarkit, 2022), aos resultados acadêmicos e ao sucesso na transição para o trabalho (Fior & Mercuri, 2018, Assumpção & Oliveira, 2018, Okumoto et al., 2022).
No Brasil, os estudos sobre o engajamento com a carreira foram impulsionados com o desenvolvimento da Escala de Engajamento com a Carreira (EEC) (Marques et al., 2019). Dentre os estudos com estudantes universitários, a referida escala tem sido usada prioritariamente para a mensuração dos níveis de engajamento e para a análise de correlações entre variáveis (Assumpção & Oliveira, 2018; Okumoto et al, 2022), revelando possibilidades de avanços no estudo do engajamento com a carreira nas discussões nacionais.
As universidades apresentam um contexto pluridisciplinar de formação superior, de pesquisa, de extensão e do cultivo do saber humano que se difere das instituições de educação profissional e tecnológica com diferentes modalidades de ensino e inserção na pesquisa aplicada e na extensão com foco no processo de preparação para o mundo do trabalho (Silva & Ribeiro, 2020). Cabe destacar que não são identificados estudos sobre a temática realizados na educação tecnológica, modalidade educacional que visa à formação integral do aluno, com foco na habilitação profissional (CNE, 2021). Dentre os estudos nacionais que analisam preditores envolvendo o engajamento com a carreira, observa-se que este é identificado como um bom preditor de construtos como sucesso na transição de carreira e desempenho estudantil (Petruzziello et al., 2022; Okumoto et al., 2022), contudo, identifica-se a ausência de estudos que apontem os fatores preditores para o engajamento com a carreira.
Com base nas pesquisas anteriores sobre o engajamento com a carreira, foram construídas sete hipóteses a fim de verificar se há características e contexto diferentes entre os estudantes da educação tecnológica em relação aos estudantes universitários e para levantar possíveis fatores preditores que expliquem o engajamento, conforme segue na próxima seção.
Hipóteses do estudo
H1: Os níveis de engajamento com a carreira não variam conforme o sexo.
Estudos anteriores demonstraram que os níveis de engajamento com a carreira não variam em razão do sexo dos estudantes (Assumpção & Oliveira, 2018, Okumoto et al., 2022, Hirschi et al., 2014, Petruzziello et al., 2022). Contudo, as pesquisas foram realizadas em universidades. Considerando que o contexto acadêmico pode influenciar no comportamento dos estudantes ao longo de sua formação (Akkermans et al., 2021) e que este é o primeiro estudo realizado em uma instituição de educação profissional e tecnológica no Brasil, entendeu-se ser válido verificar se os resultados encontrados nas universidades se repetem em outro tipo institucional.
H2: Os níveis de engajamento com a carreira não variam conforme a área do curso.
Na literatura se observa a relação entre o engajamento com a carreira e a expectativa e satisfação dos estudantes com seus cursos. A satisfação com o curso, sendo positiva, tende a favorecer comportamentos proativos dos estudantes e gerar maior engajamento com a carreira. As pesquisas com estudantes universitários não identificaram diferenças significativas da satisfação em função do curso (Aragão, Alfinito & Luís, 2018, Farias & Almeida, 2020). Os estudos anteriores que avaliaram os níveis de engajamento com a carreira entre estudantes não verificaram a sua relação com o curso. Considerando que não há evidências claras de associação entre a satisfação e o curso ou a área do curso, por conseguinte, com o engajamento; que há influência do contexto acadêmico no comportamento dos estudantes (Akkermans et al., 2021) e que este estudo se difere por ser em uma instituição de educação profissional.
H3: Os níveis de engajamento com a carreira aumentam ao longo do tempo de formação.
A variabilidade do engajamento com a carreira vem sendo discutida em função do tempo de formação dos estudantes, especialmente na transição entre universidade-trabalho. Os últimos anos da graduação são um momento propício para os estudantes dedicarem mais tempo no desenvolvimento de habilidades e em atividades que contribuam para suas carreiras (Okumoto et al., 2022). Espera-se um aumento gradual do engajamento à medida que o estudante avança no curso, mesmo com a conclusão de que o engajamento com a carreira entre os trabalhadores é maior do que o de estudantes (Okumoto et al., 2022, Hirschi & Freund, 2014, Hirschi et al., 2014).
H4: Os níveis de engajamento com a carreira aumentam com o desenvolvimento de atividades extracurriculares.
H5: O envolvimento acadêmico com atividades extracurriculares é um preditor positivo do engajamento com a carreira.
O envolvimento acadêmico é um preditor da aprendizagem, do desenvolvimento e da permanência do estudante no ensino superior e é influenciado por diversas variáveis (Okumoto et al., 2022, Hirschi & Freund, 2014). Sua concepção está centralizada nas experiências dos estudantes nas atividades acadêmicas curriculares e extracurriculares (Fior & Mercuri, 2018). Estudos nacionais e internacionais apontam a importância das atividades extracurriculares para o envolvimento e o engajamento do estudante, pois tendem a estar mais satisfeitos com sua aprendizagem e sentem-se mais participativos (Assumpção & Oliveira, 2018). Pesquisas anteriores mostram que os estudantes que não exercem atividade profissional remunerada tendem a se envolver com mais horas em atividades extracurriculares do que aqueles que trabalham e, em geral, os estudantes concluintes que realizaram mais atividades extracurriculares quando comparados aos do início do curso (Fior & Mercuri, 2018, Carneiro & Pedreira, 2021).
H6: Os níveis de engajamento com a carreira diminuem com indicadores de adoecimento mental.
H7: Indicadores de adoecimento mental são preditores negativos do engajamento com a carreira.
Por fim, para compreender possíveis preditores do engajamento com a carreira, buscaram-se pesquisas sobre o bem-estar e saúde mental no ensino superior. Os estudos revelam que a prevalência de transtornos mentais entre os estudantes é maior do que na população em geral (Penha et al., 2020, Amaral & Frank, 2022). Em uma revisão de literatura nacional foi identificado um quadro de ansiedade, depressão e estresse superior a 50% entre os estudantes universitários (Penha et al., 2020). Os sintomas de adoecimento mental interferem diretamente no desempenho acadêmico, no comprometimento com as atividades acadêmicas, no desenvolvimento intelectual e na construção da carreira profissional (Huo, 2022, Amaral & Frick, 2022).
O bem-estar e a saúde mental positiva na vida dos estudantes estimulam uma série de habilidades e sentimentos que contribuem para o desempenho acadêmico e engajamento com a carreira, como autoconfiança, autoeficácia e resiliência, fazendo com que seus esforços promovam resultados positivos, cognitivos e emocionais (Huo, 2022). Por outro lado, emoções negativas, como angústia e tristeza, relacionam-se com baixos níveis de autoeficácia e falta de competência emocional para lidar com as demandas e exigências durante a formação superior e desenvolvimento da carreira (Huo, 2022). O estudo de Hirsch e Freund (2014) identificou que o suporte social e as emoções positivas são fatores preditores significativos do engajamento com a carreira em um grupo de estudantes universitários alemães.
Considerando as lacunas e as hipóteses levantadas, este estudo teve como objetivo identificar fatores preditores para o engajamento com a carreira de estudantes de nível superior da educação tecnológica.
Método
Participantes
A amostra foi composta por 598 estudantes de cursos superiores de uma instituição pública com 22 câmpus, no sul do Brasil, considerando uma população total de 11.350 estudantes com um nível de confiança de 95% (p<0,05) e erro amostral máximo de 3,99%. Para o tamanho da amostra, observou-se também a proporção de 15 participantes por item das escalas utilizadas. Os estudantes eram de 28 cursos, desde o 1o semestre até ao 11o semestre, de 18 campus, sendo 52,01% do sexo masculino (N= 311) e 47,99% do sexo feminino (N=287), com idades que variaram de 18 a 58 anos (M= 25,22; DP = 7,00). A maioria dos participantes eram solteiros(as) (N= 448; 74,94%) que moram com os pais (N= 229; 38,29%) ou residiam com outros familiares (N=99; 22,58%).
A maior parte dos participantes eram de cursos na área da Engenharia e Computação (N=373; 62,37%) e Licenciaturas na área de Ciências Matemáticas e Naturais (N=117; 19,57%). As demais áreas do conhecimento somaram 17,89% (N=107). Dentre os estudantes, 63,88% não realizavam atividades extracurriculares (N= 382), como projetos de pesquisa, de extensão, estágios, monitorias e outras e dentre os 48,33% da amostra que tinham um trabalho remunerado (N=289), 51,90% eram na sua área de formação (N=150).
Instrumentos
Este estudo utilizou um instrumento de coleta composto por: questionário sociodemográfico, escala de engajamento com a carreira, subescala de atividades não obrigatórias de envolvimento acadêmico, e escala de depressão, ansiedade e estresse (DASS-21), totalizando 53 questões.
Questionário sociodemográfico: com dados sociodemográficos e acadêmicos dos estudantes.
Escala de Engajamento com a Carreira (Marques et al., 2019). Trata-se de um instrumento com medida unidimensional, composto por 9 itens. A escala de resposta aos itens é do tipo Likert de quatro pontos, variando de 1 (não muito) a 5 (sempre), que objetiva avaliar a manifestação de comportamentos proativos de carreira associados ao planejamento de carreira, conhecimento de si em relação à carreira, conhecimento do ambiente de carreira, rede de contatos, investimento voluntário no capital humano/desenvolvimento de habilidades. A versão brasileira da escala tem boa confiabilidade, com alfa de Cronbach de 0,80.
Subescala Atividades não obrigatórias de Envolvimento Acadêmico (Fior & Silva, 2013), composta por 9 itens. A escala de resposta aos itens é do tipo Likert de quatro pontos, variando de 1 (não muito) a 5 (sempre), que tem o propósito de avaliar o grau de envolvimento dos estudantes em atividades não obrigatórias ao longo de sua formação. A versão brasileira tem boa confiabilidade, com alpha de Cronbach 0,73.
Escala de Depressão, Ansiedade e Estresse (DASS21) - versão traduzida e com evidências de validade para o português do Brasil (Vignola & Tucci, 2014), utilizada para avaliar a vulnerabilidade psicológica com o objetivo de rastrear os sintomas emocionais de Depressão, Ansiedade e Estresse. Constitui-se por 21 itens divididos em três subescalas: Depressão; Ansiedade e Estresse. A escala de resposta aos itens é do tipo Likert de quatro pontos, variando de 0 (não se aplicou de maneira alguma) a 3 (aplicou-se muito ou na maioria do tempo). Apresenta coeficiente alfa de Cronbach 0,94 para subescala de depressão, 0,86 para subescala de ansiedade e 0,90 para subescala de estresse.
Procedimentos e considerações éticas
O projeto que deu origem a este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Catarina (CAAE n° 57723222.5.0000.0121). Todos os cuidados éticos pertinentes à pesquisa com seres humanos foram atendidos. O estudo foi realizado durante o período de maio a agosto de 2022 com estudantes devidamente matriculados na instituição utilizada como universo amostral. Aqueles estudantes que aceitaram participar de forma voluntária responderam ao formulário eletrônico via google forms, o qual continha o instrumento de coleta de dados com o TCLE (Termo de Consentimento Livre e Esclarecido). Os estudantes foram convidados por e-mail individual, com o link para o endereço eletrônico para o seu preenchimento on-line. Foram excluídos da amostra os estudantes que já concluíram o curso e que não preencheram o instrumento completo.
Procedimentos de análise de dados
Para análise de correlação entre as variáveis estudadas, inicialmente elas foram categorizadas em qualitativas ordinais (semestre, saúde mental, engajamento e envolvimento com a carreira) e qualitativas nominais (estado civil, sexo, área do curso, atividade extra e trabalho remunerado). Considerando a inexistência de variáveis quantitativas, descartou-se, por exemplo, análises de correlação de Pearson, recomendado para variáveis quantitativas com distribuição normal, e foi utilizada uma matriz de correlação de Sperman (p<0,05).
As análises de regressão linear múltipla (variáveis qualitativas, quantitativas e dummy) foram realizadas com as variáveis que apresentaram efeitos de correlação estatisticamente significativos (p<0,05). Considerando os pressupostos da análise de regressão linear, como a autocorrelação entre os preditores (p=0,064) com valor de p>0,05, tem-se que os preditores não estão correlacionados entre si e apresentaram uma multicolinearidade dos preditores baixa. Esse fato demonstra que os preditores não estão competindo no mesmo modelo (VIP < 5,0), ou seja, não há preditores distintos avaliando os mesmos fatores.
Os dados coletados foram ordenados e tabulados com a utilização do software Microsoft Excel 365 (versão 16.70 - 23021201), e o software Jamovi® para tratamento, análises de correlações e regressão linear, considerando-se o índice de significância de 95% (p<0,05), conforme orientação de cada um dos parâmetros. Foram feitas análises das variáveis dependentes e independentes de natureza qualitativa, ordinais e nominais, que não apresentaram uma distribuição normal dos dados (Barbetta, 2011)
Resultados
Foram conduzidas estatísticas descritivas preliminares para a caracterização da amostra em relação ao engajamento com a carreira que obteve média geral de 3,65 (DP = 0,932), superior à média da escala que é 3, sendo que a alternativa mais assinalada foi a 4 (muito) Mo = 4 (f = 302), indicando um bom nível de engajamento entre os estudantes que participaram do estudo.
Resultados dos testes correlacionais
Foi observado o índice de correlação entre as variáveis com base na significância (p<0,05), magnitude e direcionalidade. Com os valores correlacionais, identificou-se que o nível de engajamento entre os sexos não tem uma variação significativa estatisticamente (0,068), apesar da diferença pequena dos resultados obtidos entre homens (M=3,59, DP=0,932) e mulheres (M=3,71, DP=0,931), confirmando, portanto, a Hipótese 1 de que o engajamento com a carreira não varia em função do sexo.
Sobre a formação dos estudantes, verificou-se que o engajamento com a carreira não varia conforme a área do curso escolhido pelos estudantes, com coeficiente de correlação linear de -0,035, confirmando a Hipótese 2. Já no engajamento ao longo da formação, identificou-se uma maior frequência entre os 4 e 7 semestres dos cursos e ponderando que os cursos da Instituição têm duração de acordo com a sua modalidade, variando de 6 a 10 semestres, observou-se que a frequência percentual tende a uma queda nos últimos semestres dos cursos. Apesar dos estudantes manterem bons níveis de engajamento de uma forma geral, identificou-se oscilação elevada entre os semestres, não permitindo identificar o aumento gradual ao longo da formação, o que é confirmado estatisticamente com as análises correlacionais com valores de 0,032, não confirmando a Hipótese 3 de que o engajamento com a carreira aumenta com o tempo de formação do estudante.
Entre as atividades acadêmicas, a relação entre o envolvimento acadêmico e o engajamento com a carreira mostrou um padrão significativamente elevado, com 0,391 (p<0,001), mesmo padrão para a quantidade de atividades extracurriculares 0,139 (p<0,001). Com os resultados, constata-se que os níveis de engajamento aumentam à medida que os estudantes têm maior envolvimento nas atividades acadêmicas, confirmando a Hipótese 4.
Sobre as atividades profissionais remuneradas exercidas pelos estudantes, identifica-se que há uma forte correlação com a área do curso com 0,144 (p<0,001), revelando que as atividades remuneradas exercidas pelos estudantes (f=289), têm proximidade com a área de formação. Contudo, quando feita análise do trabalho remunerado com o engajamento com a carreira não se observou uma correlação estatisticamente significativa (0,018) entre as variáveis. Este fato indica que à medida que os estudantes exercem atividades remuneradas em sua área de formação tendem a se sentir menos pressionados em se dedicar aos comportamentos proativos para aumentar o nível de engajamento com a carreira, por já estarem inseridos no mercado.
Por fim, os resultados de correlação entre a variável saúde mental com engajamento com a carreira demonstraram um padrão de correlação negativa significativa com parâmetro de -0,103 (p<0,5), revelando que quanto menor os índices de ansiedade, depressão e estresse maior o nível de engajamento, confirmando a Hipótese 6. A Tabela 1 sintetiza os resultados dos testes correlacionais realizados no estudo que apresentaram efeito estatisticamente significativo.
Tabela 1 Coeficientes de correlações entre as variáveis analisadas
| Variável | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Sexo | 1 | |||||||||
| 2- Fase do curso | -0,04 | 1 | ||||||||
| Área do curso | 0,15*** | -0,05 | 1 | |||||||
| 4- Atividade extracurricular | -0,03 | 0,25*** | -0,11*** | 1 | ||||||
| 5- Quantidade de Atividade Extracurricular | -0,05 | 0,25*** | -0,10* | 0,98*** | 1 | |||||
| 6- Trabalho remunerado | 0,00 | 0,06 | 0,14*** | -0,29*** | -0,30*** | 1 | ||||
| 7- Tempo de trabalho remunerado | 0,00 | 0,06 | 0,14*** | -0,29*** | -0,30*** | 1*** | 1 | |||
| 8- Envolvimento Acadêmico | 0,10* | -0,01 | 0,15*** | 0,10* | 0,12*** | -0,04 | -0,04 | 1 | ||
| 9- Saúde Mental | 0,10** | 0,00 | 0,06 | -0,00 | 0,01 | -0,01 | -0,01 | 0,05 | 1 | |
| 10- Engajamento | 0,06 | 0,03 | -0,03 | 0,11** | 0,13*** | 0,01 | 0,01* | 0,39*** | -0,10* | 1 |
Nota. * p<0,5, ** p<0,1, *** p<0,001
Resultados dos testes de regressão linear
Com base nas avaliações de correlação entre as variáveis analisadas, observou-se que estatisticamente nem todas as variáveis apresentaram correlação significativa com índice de confiança maior que 95% (p<0,05), o que impede a análise de regressão linear e a geração de modelo matemático de predição com variáveis preditoras que não apresentaram efeitos significativos (p<0,05).
Com isso, dentre as variáveis avaliadas, selecionaram-se as que apresentaram efeito estatisticamente significativo para participação da regressão linear múltipla, considerando variáveis qualitativas, quantitativas e dummy. Considerando os pressupostos da análise de regressão linear como a autocorrelação entre os preditores (p=0,064), com valor de p>0,05, o que pressupõem que os preditores não estão correlacionados entre si, e com uma multicolinearidade dos preditores baixa, o que permite afirmar que os preditores não estão competindo no mesmo modelo (VIP<5,0), ou seja, não temos preditores distintos avaliando os mesmos fatores, viabilizando a geração do modelo.
Assim, realizou-se a análise de regressão linear com o objetivo de identificar os fatores que explicam o engajamento com a carreira dos estudantes. As variáveis utilizadas foram as que obtiveram correlações significativas com engajamento com a carreira, a saber: envolvimento acadêmico, quantidade de atividades extracurriculares e saúde mental. Os resultados podem ser vistos na Tabela 2.
Tabela 2 Regressão linear múltipla
| Teste Modelo Geral | |||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Modelo 1 | R 0,447 | R2 0,200 | R2 Ajustado 0,188 | F 16,3 | df1 9 | df2 588 | P <0,001 |
| Coeficientes Engajamento | |||||||
| Preditor | Estimado | SE | t | p |
|---|---|---|---|---|
| Intercepta | 2.964 | 0.1067 | 27.785 | <.001 |
| Atividade extracurricular | ||||
| 1 - 0 | -0.122 | 0.1566 | -0.779 | 0.436 |
| Quantidade atividade extracurricular | 0.250 | 0.1125 | 2.223 | 0.027 |
| Saúde Mental | ||||
| 1 - 0 | -0.107 | 0.0832 | -1.290 | 0.198 |
| 2 - 0 | -0.248 | 0.0968 | -2.561 | 0.011 |
| 3 - 0 | -0.825 | 0.3743 | -2.205 | 0.028 |
| Envolvimento Acadêmico | ||||
| 2 - 1 | 0.601 | 0.1091 | 5.506 | <.001 |
| 3 - 1 | 0.978 | 0.1145 | 8.544 | <.001 |
| 4 - 1 | 1.200 | 0.1364 | 8.802 | <.001 |
| 5 - 1 | 1.745 | 0.2896 | 6.026 | <.001 |
aRepresents reference level
Os parâmetros apresentaram um R² de 0,20 e um R² ajustado (predição do modelo) de 0,188, considerando o modelo ajustado, o modelo é capaz de predição comportamental com variáveis subjetivas de 18,8% dos dados, contribuindo com o estudo preditor na área do engajamento. Considerando os parâmetros de regressão aceitos, identifica-se que o envolvimento acadêmico das atividades extracurriculares são preditores positivos do engajamento enquanto os indicadores de adoecimento mental são preditores negativos, confirmando as Hipóteses 5 e 7.
Discussão
Os trabalhos sobre níveis de engajamento com a carreira em estudantes universitários são recentes no Brasil, aparecendo na literatura a partir da validação da Escala de Engajamento com a Carreira (EEC) (Marques et al., 2019). Tais estudos estão centrados na mensuração dos níveis de engajamento com a carreira e não há investigações entre os estudantes da educação tecnológica. Frente ao exposto, este estudo buscou identificar fatores preditores para o engajamento com a carreira entre os estudantes da educação tecnológica que tem um contexto institucional diferente das universidades.
Iniciamos a discussão sobre o engajamento com a carreira buscando compreender se há diferenças significativas entre contexto da educação tecnológica e a universidade, analisando algumas categorias já pesquisadas na literatura. De uma forma geral, a mensuração dos níveis de engajamento dos estudantes da educação tecnológica revelou valores acima da média da escala de 1 a 5 (Hirschi et al., 2014), muito próximos aos que foram encontrados nos trabalhos com estudantes universitários, com médias de 3,72 e 3,82 respectivamente (Assumpção 6 Oliveira, 2018; Okumoto et al., 2022). Esses resultados sugerem que estudantes da educação tecnológica, assim como universitários, refletem e se preocupam com aspectos relacionados com a carreira, como ressalta Assumpção e Oliveira (2018).
A proximidade entre os resultados dos estudantes da educação tecnológica e dos universitários também foi identificada na análise do engajamento com o sexo, em que não houve variação como os achados dos estudos de Assumpção e Oliveira (2018) e Hirschi e Freund (2014). A investigação entre os sexos se deu pelo reflexo das diferenças históricas na construção de carreiras entre homens e mulheres (Hirata, 2007). Ao refletir sobre as lutas pela redução de desigualdades promovidas a partir da década de 70 e a repercussão dessas discussões no ambiente acadêmico, na educação profissional e universitária, possivelmente levam ao envolvimento semelhante entre os jovens e as jovens com suas carreiras.
A pesquisa revelou similaridade entre o engajamento dos estudantes da educação tecnológica e universitária em relação aos seus cursos, em que não variou conforme os cursos como encontrado nos trabalhos de Assumpção e Oliveira (2018) e Okumoto et al. (2022). Os autores Hirschi et al., (2014) e Oliveira (2024) apontam que a construção da carreira na atualidade tende a ser realizada com base no significado e na satisfação para o sujeito. Assim, pode-se dizer que os jovens se mantêm engajados nos cursos pelo sentido que fazem para si, independente do contexto educacional.
Contudo, na análise do engajamento ao longo do tempo de formação, observou-se que os estudantes da educação tecnológica não demonstraram maior engajamento à medida que avançam na sua formação; não houve um crescimento linear, visto que os maiores índices de engajamento foram no meio do curso. Os achados se diferenciam das pesquisas anteriores com estudantes universitários que apontam a tendência de que os jovens no final do curso tendem a ser mais engajados com a carreira do que aqueles no início do curso (Okumoto et al., 2022, Hirschi & Freund, 2014, Hirschi et al., 2014). A satisfação com a experiência acadêmica tem proximidade com o engajamento com a carreira e os estudos apontam que ela não é linear ao longo do curso, visto que há diversos fatores que contribuem para a percepção dos estudantes: o currículo, o corpo docente e o suporte institucional (Aragão et al., 2018). Observando que a satisfação acadêmica apresenta elementos que abordam questões institucionais, pode ser considerada na análise da diferença encontrada entre os estudantes da educação tecnológica e universitários, o que não limita a outros elementos que esclareçam a diferença.
A relação do engajamento com a carreira com o desenvolvimento de atividades acadêmicas extracurriculares foi positiva, corroborando com estudos anteriores que relatam que as atividades extracurriculares fortalecem comportamentos proativos (Assumpção & Oliveira, 2018). Observou-se que a atividade acadêmica extracurricular desenvolvida pelos estudantes, como projetos de pesquisa, extensão, estágios, monitoria, empresas juniores, de caráter não-obrigatório, mostraram-se preditores significativos do engajamento com a carreira. É palpável pela natureza não obrigatória dessas atividades que requer uma ação complementar por parte do estudante, demonstrando comportamentos de exploração e planejamento da carreira (Assumpção & Oliveira, 2018). Contudo, é necessário também a oportunização dessas atividades aos estudantes por parte da instituição de ensino, visto que há uma extensa lista que pode ser oferecida durante a formação, as quais podem contribuir para o envolvimento acadêmico (Silva & Ribeiro, 2020). Além disso, é importante um contexto que viabilize o envolvimento com estratégias na adaptação e na inserção dos estudantes nas atividades, considerando suas particularidades e seu processo formativo e a integração social e acadêmica (Abun et al., 2018). Reforça-se a atenção necessária para: a) o planejamento das experiências disponibilizadas pela instituição; b) a adoção de práticas educacionais distintas e compatíveis com o período de formação dos estudantes, com suas características e com o curso; e c) o suporte institucional para o envolvimento acadêmico de distintos grupos (Fior & Mercuri, 2018; Fior, 2021).
Avançando nas discussões, identificou-se que os níveis de engajamento apresentam relação com os indicadores de adoecimento mental em uma correlação significativa e negativa, ou seja, quanto maiores os indicadores de depressão, ansiedade e estresse, menores são os níveis de engajamento, corroborando com estudos que relacionam o desempenho escolar e a saúde mental (Huo, 2022, Amaral & Frick, 2022) e mostraram-se preditores significativos do engajamento com a carreira. Os resultados sugerem que estudantes que experimentam emoções mais positivas tendem a desenvolver comportamentos mais proativos de carreira, como networking, planejamento, exploração ou desenvolvimento de habilidades (Hirschi et al., 2014).
Destaca-se o papel importante das instituições nas estratégias para uma saúde mental positiva e o engajamento dos estudantes (Silva & Ribeiro, 2020, Abacar et al., 2021, Assunção et al., 2020). Neste sentido, uma questão fundamental é o não negligenciamento da importância da saúde mental pelas instituições, ou se omitir no seu papel de incentivar o estudante no reconhecimento de seu processo de aprendizagem e no seu desenvolvimento pessoal e profissional (Amaral & Frick, 2022). Outro ponto se relaciona com a necessidade de políticas e programas de prevenção, suporte e intervenção psicossocial, tendo em vista que o suporte social é um mecanismo relevante no enfrentamento do estresse (Abun et al., 2019, Abacar et al., 2021). É fato, observando o discutido até aqui, que os resultados indicam a atenção cuidadosa a ser dada na prevenção e redução dos quadros de ansiedade, depressão e estresse dos estudantes da educação tecnológica para melhores níveis de engajamento com a carreira, com comportamentos proativos para o seu desenvolvimento profissional.
Considerações Finais
Por meio deste estudo pôde-se identificar fatores preditores a partir de um modelo capaz de predizer 18,8% o engajamento com a carreira entre estudantes da educação tecnológica. Além disso, foi possível verificar como os indicadores do engajamento variam em relação ao sexo, área de formação, tempo de formação, envolvimento com atividades extracurriculares e saúde mental. De um modo geral, os estudantes da educação tecnológica se mantêm engajados em suas carreiras, sem variações quando comparado o sexo e as áreas de formação. A variação do engajamento foi observada ao longo da formação, sendo os maiores índices entre os semestres 4 e 7, na correlação positiva com o envolvimento nas atividades extracurriculares e na correlação negativa com a saúde mental.
Em uma direção prospectiva, os resultados deste estudo apresentam contribuições teóricas, práticas e sugestões de futuras pesquisas. Teoricamente, o trabalho amplia o entendimento sobre o engajamento com a carreira ao trazer uma nova perspectiva para sua análise, indo de um fator preditor de outros construtos para a compreensão dos fatores que o explicam, e aqui as atividades extracurriculares e a saúde mental se mostraram bons preditores. Em suma, para explicar as variações dos níveis de engajamento dos estudantes da educação tecnológica, os indicadores de depressão, ansiedade e estresse precisam ser monitorados e as atividades extracurriculares necessitam estar presentes na formação dos jovens.
Identificaram-se implicações práticas, apesar de não ser o foco do estudo. Enfatiza-se o papel relevante das instituições de ensino em oportunizar experiências acadêmicas para o desenvolvimento e a aproximação do estudante com a carreira, atentos para a devida adequação ao tipo do curso, o tempo de formação e às especificidades dos estudantes. Outrossim, a criação de políticas e programas de prevenção, suporte e intervenção de assistência psicossocial como estratégias de ação a fim de prevenir ou minimizar os quadros de adoecimento mental entre os estudantes.
Contudo, é importante ressaltar o estágio embrionário desta pesquisa na análise de fatores preditores do engajamento e a necessidade de novos estudos a fim de aumentar a capacidade explicativa do modelo proposto. Neste sentido, sugere-se a inclusão de outras variáveis dependentes quantitativas, no âmbito educacional, como satisfação acadêmica, desempenho acadêmico e de aspectos pessoais, como bem-estar, autoeficácia e otimismo para testes futuros. Outro aspecto importante é a especificidade do modelo para a educação tecnológica, por isso, considera-se oportuno o desenvolvimento do modelo de regressão para os estudantes universitários com amostras ampliadas e diversificadas das áreas do conhecimento para estudos comparativos.
Apesar das contribuições e da agenda de estudos futuros, a pesquisa tem suas limitações. Primeiro, a própria natureza dos instrumentos que são questões predeterminadas e fechadas, limitando os participantes, desconsiderando a possibilidade de respostas mais completa e condizente com a realidade do sujeito (Turato, 2003). Segundo, em relação à amostra da pesquisa que foi realizada em 22 câmpus de uma instituição de educação profissional do sul do país, com diversas áreas de cursos superiores, porém predominaram estudantes dos cursos de Engenharia. Por fim, espera-se que o estudo contribua com a literatura sobre o engajamento da carreira com estudantes da educação tecnológica para subsidiar novas pesquisas e intervenções em outros contextos e atendam as especificidades dos diferentes grupos de estudantes em suas formações e no desenvolvimento de suas carreiras.














